Zé Rodrix me deu um livro e depois morreu

Esclareça-se de antemão que o personagem não morreu porque me deu um livro. Há um intervalo de um ano entre o acontecimento extraordinário (o envio do livro) e o fato lamentável (a morte do autor). Escrevo essas singelas linhas, sem reboliços ou rebuscados, só para registrar que a vida, grata e generosa, sempre nos apresenta oportunidades de crescimento. E que por razões diversas, ou sabe-se lá por quais vacilos, deixamos a chance passar. Rodrix foi uma dessas oportunidades perdidas.

Rodrix, em sua fase de iniciado nos mistérios da Maçonaria

Ele deu vários indícios carinhosos de que gostaria de se aproximar de mim. Agora não dá mais, azar o meu. Puxou assunto em cinco ou seis encontros que mantivemos. Convidou-me para almoçar com nossas mulheres e alguns amigos. Insistiu para que eu fosse no lançamento do seu livro, em 2008. Foi em São Paulo; eu estava em Brasilia, não pude ir. Ou não cavei uma maneira de ir. Tempo, diz o velho ditado, é questão de prioridade.Ato contínuo, Rodrix me enviou o livro pelo Correio. Em verdade três livros, batizados de “Trilogia do Tempo” (Record), e assinados no estilo dos mestres clássicos das artes da cabala e das bruxarias — *Z. Rodrix*, dessa forma aí, ladeado de asteriscos, com o nome José escrito no duplo diminutivo, e o sobrenome Rodrigues no diminutivo simples.

O primeiro volume chama-se “Johaben: Diário de um Construtor do Templo”. Tem 446 páginas. O segundo ele batizou de “Zorobabel: Reconstruindo o Templo”. Tem 640 páginas, é ainda maior. O terceiro volume da trilogia chama-se “Esquin de Floyrac – O Fim do Templo”. Mais 655 páginas. Total: 1.740 páginas – um susto! Guardei na estante, num lugar de honra e destaque, é verdade, mas sem abri-lo sequer.

Em cada detalhe, a trilogia exala esoterismo e dá indícios de que o autor pertenceria a alguma escola iniciática. Vi na televisão que seu corpo foi velado na Grande Loja Maçônica de São Paulo. E que quanto mais velho ficava, quanto mais o tempo passava, mais entusiasmado estava com os mistérios da maçonaria.

Nos últimos tempos, como um mago

Conheci Zé Rodrix em meados de 2006. Foi o historiadorLuis Mir,um grande e leal amigo, que nos apresentou. “Vou te levar numa confraria só de intelectuais e escritores”, propôs Mir.Todas as manhãs de sábado, faça chuva ou faça sol, uma pequena fraternidade se encontra na pérgula da Livraria da Vila, no bairro de Vila Madalena, São Paulo. Não são muitos, um pouco mais de dez, por vezes um pouco menos. Daquela primeira vez que já estava lá o jornalista e poeta José Neumanne Pinto, velho amigo. Foi ele quem me apresentou aos escritores presentes, entre eles um senhor de cabeça completamente branca. “Este aqui é o Zé Rodrix”.

Quem? Aquele doidão que embalou as festinhas da minha adolescência com as performances do Joelho de Porco? Ainda antes, nas primeiras festinhas, eu adorava dançar sob o ritmo de “Soy latinoamericano, e nunca me engano, e nunca me engano”. Sim, em segundos pude constatar que não se tratava de um homônimo, mas do próprio, daquele que, mais tarde, ajudou a embalar parte de meus sonhos idílicos juvenis na universidade.

“Eu quero uma casinha no campo/ onde eu possa compor muitos rocks rurais/ e tenha somente a certeza/ dos amigos do peito e nada mais”. Nossa, eu ainda sabia cantar a balada clássica “Casa no Campo”. E fui recordando da letra, cantarolando em silêncio uma estrofe da qual gosto muito, Eu quero a esperança de óculos/ E um filho de cuca legal/ Eu quero plantar e colher com a mão/ A pimenta e o sal”Sentei-me em cadeira transversal à de Zé Rodrix. Neumanne era a grande estrela da mesa. Contava histórias, bastidores da política, causos sobre intelectuais pátrios, ocupava por completo o ambiente. Até Luis Mir, dono de um pensamento ácido e de uma personalidade igualmente dominante, ficou em semi-silêncio. Calouro, procurei me manter discreto, observando cada um dos presentes.Em especial Zé Rodrix.

Confesso que esperava encontrar um vovô doidivanas e performático, tipo Zé Celso Martinez Corrêa, Cacá Diegues ou Paulo César Pereio. A qualquer momento, imaginei, aquele guru dos delírios lisérgicos poderia sacar um baseado social, subir na mesa e declamar algum manifesto pela revolução cultural.

Mas Zé Rodrix permanecia discretíssimo. Comedido na cerveja, guardava o silêncio das línguas cansadas. Vez por outra fazia alguma intervenção. Aparentava ser um homem sábio e sereno. Buscava alinhar o raciocínio no esquadro e no compasso, como convém aos iniciados da sua ordem. A seu lado, uma mulher muito bonita, exótica e inteligente. Estavam juntos, descobri mais tarde, há mais de duas décadas, tipo casal estável com filhos e netos.

Ao longo quase dois anos, retornei algumas vezes à Confraria da Vila. Quase por vezes com o Mir; outras vezes sozinho. Fui sempre muito bem recebido. A conversa, paradoxalmente simples e inteligente, um blend singular de erudição com trivialidades, sem qualquer resquício de pedantismo uspiano. Certa vez chega esbaforido e amassado o poeta Mário Chenin, recentemente falecido.

“Estou ubinubilado”, declara aos presentes. Mas o que seria ubinubilado?, perguntei. “Ora”, explicou o mestre-poeta, “enevoado, com os pensamentos turvos”. Ele acabada de bater o caro e estava, como Aristófanes definiu o filósofo Sócrates, nas nuvens – só que em nuvens negras, ubinubilado.

De outra feita alguém questiona como é que os cabelos de Neumanne, outrora 100% grisalhos, de repente começaram a ficar negros. “O Silvio Santos mandou o Jaça cuidar da minha imagem”, explica. “Ele decidiu que eu precisava fazer luzes ao contrário”. Paraibano de Uiraúna, vivenciando sua primeira experiência metrossexual, virou-se para as mulheres a fim de perguntar: “Como se chama essa técnica de colocar aquela touca ridícula na cabeça e tingir alguns fios brancos?”

“Trevas”, respondeu de pronto Zé Rodrix. E nada mais falou.

Já na segunda incursão tive a sorte louca de me sentar ao lado de Rodrix. Foi ele quem ensaiou uma conversa paralela comigo. Educado, demonstrava interesse por meu livro. E por mim. Perguntava mais do que respondia. Em outra ocasião, conversamos sobre os templários medievais. Demonstrava profundo conhecimento; engatilhou a franco-maçonaria na sequência. Acho que queria recrutar-me para a ordem.

Rebati com os rituais e mistérios da Grécia clássica, uma paixão pessoal. Falamos de “Juliano”, romance histórico de Gore Vidal, de Sêneca e dos rituais romanos da morte, até voltamos para os templários. E mais uma vez Rodrix quis falar da maçonaria, tema deveras estranho àquele ex-doidão. Deu seu cartão pessoal. “Me liga quando vier a São Paulo”, propôs. Não liguei –mais por timidez do que por falta de tempo.

Em nosso último encontro, fevereiro de 2008, Rodrix tomou a iniciativa de convidar os poucos confrades presentes a esticar para o almoço. Eu estava com minha mulher, Adriana. Ele com Júlia, aquela senhora esguia, inteligente e excêntrica. Ele indicou um restaurante japonês nas Perdizes. Sentamo-nos perto um do outro. Adriana e Júlia também. Mesa grande, farta, conversa inteligente, ao mesmo tempo erudita e trivial. Mais uma vez entabulou conversa sobre os mistérios dos templários e da maçonaria.

Rodrix não aparentava guardar qualquer resquício daquele homem que o tornou famoso, um dos gurus pátrios da contra-cultura, aquele que propôs primeiro o Som Imaginário, depois  trocar a sociedade capitalista de consumo por uma casinha no campo, do tamanho ideal, de pau a pique e sapê, onde pudesse plantar seus amigos, seus discos e livros e nada mais. Morava no coração de Sampa, deslocava-se num carro novo e bonito e aparentava, pelas roupas e hábitos, usufruir de grande conforto financeiro. Trabalhava há 20 anos com publicidade, fazia jingles. Lia, lia muito sobre templários, maçonaria e outras ordens iniciáticas. Tinha 60 anos.

Foi naquele restaurante que Rodrix convidou-me para o lançamento da “Trilogia doTemplo”. Poderia ter ido. Poderia ter aceitado o convite para visitá-lo quando em São Paulo. Poderia ter usufruido da amizade desse homem interessante. Poderia ter feito tantas coisas que não fiz… Como não fiz, Zé Rodrix me enviou um livro e depois morreu. Leio na internet que neste exato instante, enquanto termino de escrever estas linhas, Rodrix está sendo cremado.

Numa de suas mais conhecidas poesias, Jorge Luis Borges lamenta-se:

“Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido. 
 

Se eu pudesse novamente viver minha vida, teria cometido menos erros. Me resta agora ler a “Trilogia do Tempo”.

 

No anos 70, quando queria uma casinha no campo…

Casa no Campo

Zé Rodrix

Composição: Zé Rodrix / Tavito

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar do tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

Eu quero carneiros e cabras pastando
Solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas

Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão,
A pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau a pique e sapê
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais

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