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jan 27, 2013

Como fundamentar uma tese sobre a memória dos guerrilheiros do Araguaia

Por Hugo Studart

 Nas escolas de Jornalismo, minha primeira carreira, ensinam com fervor quase religioso que o certo é cultuar a neutralidade e a só usar verbos na terceira pessoa, do singular ou plural. Já me ensinaram muito pastiche fundamentado no pretenso racionalismo aristotélico, que encara o mundo tão-somente dentro dos sentidos materiais. Quando entrei para o mestrado em História, minha orientadora[1] instigava-me a redigir na primeira pessoa do singular. Achei estranho.

“E a neutralidade científica?” –questionei.

Walter Benjamin

Foi a deixa para que me apresentasse aos autores da Nova História. Segundo Walter Benjamin, por exemplo, não existe a tal “neutralidade científica”. Todo conhecimento, explica, é um embate de interesses. Aos poucos, fui me acostumando a escrever sobre as ideias ou experiências pessoais e a acreditar ser impossível dissociar um conteúdo de seu autor.

Arthur Schopenhauer, o filósofo das angústias, dizia que o homem parte de seus próprios horizontes, dos limites do seu campo de visão, como os limites do mundo. Assim, nossas versões sobre o mundo são limitadas tantos pelas observações limitadas que posso fazer do Universo, quanto pelas experiências pessoais inseridas em uma vasta “vontade” universal, da qual nossas ações são apenas uma mera parte. Por isso todos nós costumamos tomar nossos respectivos horizontes pessoais como o sendo limites universais.

“Nós próprios somos as entidades a ser analisadas”, ensina Martin Heidegger.

Em sua obra mais reconhecida, Ser e Tempo[2], Heidegger parte da velha máxima socrática de buscar compreender o homem como ser, exposta na frase “conhece-te a ti mesmo”, Continue reading »

dez 19, 2012

O encontro de Lúcifer com o Anjo da História de Benjamin

Eis o Anjo do Progresso, de Klee

Por Hugo Studart

Em um de seus memoráveis ensaios, “Sobre o conceito de História”, o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) toma como referência metafórica uma aquarela de Paul Klee que ele comprou em 1921, batizada de Angelus Novus. Por se ter transformado em emblemática na obra de Benjamin, aquela imagem acabou tomando dimensão bem maior do que sua silhueta, citada em boa parte dos trabalhos dos historiadores da pós-modernidade. Com a palavra, Benjamin:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O Anjo da História deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do Paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.

O Angelus Novus, em outras palavras, ilustra o caminho teórico e metodológico de todos aqueles que têm a Esperança de controlar o próprio Destino, ou influir nos acontecimentos do mundo –ou seja, aqueles que vêm construindo a História, a Civilização e a Humanidade. Benjamin, em perigosa ousadia para teu tempo, propôs uma narrativa entrelaçando passado, presente e futuro. Afinal, como ele próprio escreveu, a estrada que nos leva ao futuro é a mesma que nos trouxe do passado.

Nesse ensaio, Walter Benjamin só omitiu um detalhe, sobre o qual, como o judeu e místico que era, ele tinha plena e total consciência. A interpretação sobre o Angelus Novus pintado por Klee foi inspirada na representação de um mito muito conhecido por nós. Benjamin desdobrou-se em metáforas e eufemismos para se referir ao Anjo Caído dos judeus, aquele ser metafísico que roubou o fogo-sagrado da consciência divina e o entregou para os homens.

O Anjo da História é outro nome de Lúcifer! Continue reading »

set 26, 2012

O Aniversário da Sra. Cohen

Como um fato tão banal quanto o aviso de aniversário pelo Facebook de uma senhora de meia-idade nos remete a um tal de Walter Benjamin, um judeu fumador de haxixe que  nos ensinou a usar as reminiscências da memória para fazer do presente um maravilhoso ponto de encontro da recordação com a esperança

Benjamin nos ensina a usar uma simples imagem, extraída de um album de família, como relevante fonte para a construção da História. À esq. estou eu, abraçado por Dayse Cohen

Por Hugo Studart

Dayse Cohen completa anos hoje, me avisa o Facebook. Nada mais banal do que uma senhora com aparência de meia-idade, mãe de família e trabalhadora completar aniversário. Só dentre minhas relações das redes sociais, todos os dias três ou quatro festejam suas datas. Um fato extraordinário, contudo, emerge desse evento banal em sua aparência. Dayse desperta-me reminiscências, relampejos de um tempo que se foi e não volta mais, memórias que, se trabalhadas e resiginificados da forma adequada, podem lançar luzes rumo à construção do futuro. Para mim –ou para os senhores, prezados leitores. Como assim?

Dayse, dit Corrêa de Mattos, é minha prima de primeiro grau. Grande amiga e confidente naqueles tempos de inseguranças e dúvidas das nossas adolescências no Rio de Janeiro. Éramos três de idades parecidas, Dayse, eu e nossa prima Márcia Corrêa Rodrigues. Dayse é filha da tia Haydée Alves Corrêa, irmã mais velha de meu pai Jonas, e de Moacir de Mattos. Adotou o sobrenome Cohen por casamento. Adotou também, por livre arbítrio, boa parte dos sistema de representações e de valores do marido, a ponto de submeter o bilau de seus filhos amados à faca amolada de um rabino inclemente. Pobrezinhos –ficamos todos nós, os familiares, muito condoídos.

O relevante nessa história é que o aniversário de Dayse pode nos remeter a um tal de Walter Benjamin, esse aí morto desde 1940, mas cujo pensamento pode nos ajudar a fazer bom uso das nossas memórias do passado. Quero versar um pouco sobre o pensamento de Benjamin para, ao fim e ao cabo, retornar à Sra. Cohen.

Benjamin era filósofo, sociólogo, romanista, grafólogo, teórico da história, das artes e da tradução. Alemão e judeu, era um marxista que se recusava a se organizar em partidos. Ao materialismo histórico, preferia a espiritualidade mística. Era também usuário de haxixe. Por conta dessa heterodoxia, até hoje a maior parte das academias européias de Filosofia não considera sua obra digna de estar entre os cânones do pensamento moderno. Continue reading »

ago 5, 2012

A memória como metáfora

A partir dos pensamentos de Walter Benjamin e de Paul Ricoeur, compreendemos que mimesis é, em síntese, a reconstrução de experiências do passado no tempo presente –um exercício de re-memorar os acontecimentos e subtraí-los às contingências do tempo em uma metáfora. Exatamente como fez Proust quando em busca do tempo perdido…

por Hugo Studart

Walter Benjamin era filósofo, sociólogo, romanista, grafólogo, teórico da história, das artes e da tradução. Alemão e judeu, era um marxista que se recusava a se organizar em partidos. Era também usuário de haxixe. Por conta dessa heterodoxia, até hoje a maior parte das academias européias de Filosofia não considera sua obra digna de estar entre os cânones do pensamento moderno. Na América Latina, contudo, Benjamin tem sido considerado cada vez mais o “Filósofo das Vanguardas” por conta de sua tendência à ruptura e ao novo, sua rejeição ao dogmatismo e ao cientificismo das academias de seu tempo, por sua ousadia de “tentar inventar novas imagens para pensarmos nossos limites e fronteiras”[1], como também pelo seu método transdisiciplinar de pensar as Ciência Humanas, tendência da pós-modernidade, mas que Benjamin já a pregava e praticava nos anos 1930.

Sua Teoria da História e, sobretudo, sua visão teórica original sobre a memória, ou a mimesis, são pontos nevrálgicos da obra de Walter Benjamin. Ele foi crítico ácido e bem fundamentado do historicismo positivista do século XIX, o modelo modelo de escrita da História que privilegiava os documentos criados pelo aparato do Estado – e portanto, conservador também sob o ponto-de-vista político. Essencialmente, ele negou a possibilidade de uma História “tal como de fato aconteceu”, segundo o credo positivista, e propôs resgatar a memória como meio de nos relacionarmos com o passado. Para Benjamin, não existe a tal neutralidade científica; e todo conhecimento é um embate de interesses. O registro da memória, segundo o pensador, é mais aberto, aceita os testemunhos e as imagens (e não só a escrita burocrática), aceita inclusive a visão dos vencidos, nem se apega ao dogma científico das supostas neutralidades. Continue reading »

jun 21, 2012

O contubérnio entre Lula e Maluf

É público que há muito o ex-presidente malufou. O que está chocando senhoras pudicas, como Erundina, é que misturas de mau gosto, como feijão com marracão ou Lula com Maluf, deveriam se manter confinadas à serventia da casa

Contubérnio: o mesmo que relação ilícita

Por Hugo Studart

Contubérnio é um termo clássico, originário da menor unidade dos exércitos romanos, o contubernium, grupamento de oito homens que dividiam a mesma tenda, comiam juntos e lutavam idem. Era um substantivo positivo, de camaradagem. O cristianismo adotou o termo para se referir à convivência de pessoas que mantém relações sexuais sem estar casadas. Geram filhos bastardos. Na política, passou a ser usada como aliança secreta, ilícita, reprovável. Alianças espúrias, enfim.

Isto posto, reproduzo um diálogo entre o Sr. Paulo Salim Maluf e dois jornalistas:

– Mas o que está que está acontecendo? Por que Maluf lulou?

– Não, eu não lulei, o Lula é que malufou. Ele é quem está aderindo às minhas ideias.

– Como assim?

– O Lula já disse tempos atrás que quem na juventude é certo ser socialista, mas quem depois dos 60 anos continua com as mesmas ideias, tem que procurar um psiquiatra. Ele caiu na real e hoje defende as ideias do Paulo Maluf quando foi candidato à Presidência há 20 anos atrás. E defende as ideias liberais com mais ardor do que eu. Ele até “delfinhou”, escuta mais o Delfim Netto do que o PT. Enfim, tudo aquilo que eu pregava, o Lula engatou a quarta, botou 8 mil rotações e está andando a 300 quilômetros por hora. Hoje ele está à minha direita, o Lula é mais malufista que eu. Continue reading »

set 1, 2011

Ah, se eu pudesse escrever novamente…

Análise autocrítica sobre o livro “A Lei da Selva”, de minha autoria, sob a luz de novas teorias e autores da História Cultural (Monografia para a disciplina Teoria e Metodologia, do Doutorado em História Cultural da UnB; ministrado pela profª Cléria Botêlho da Costa)

Eu com a profª Cléria Botêlho da Costa, no lançamento do livro

APRESENTAÇÃO

O livro escolhido para análise é A Lei da Selva – Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares sobre a Guerrilha do Araguaia[1], de minha própria autoria. Razão para a escolha é fazer uma autocrítica da pesquisa, a partir dos novos autores e novas leituras assimiladas nesta disciplina. Esclareço ainda que o objeto escolhido para a pesquisa de doutorado é similar ao da obra — produto de dissertação de mestrado — a Guerrilha do Araguaia. Pertinente, portanto, fazer uma revisão acadêmica da pesquisa anterior, que servirá de ponto de partida da atual pesquisa, em andamento.

Acredito que na obra em questão eu tenha delineado claramente o objeto de pesquisa e análise, ao esclarecer, já na Introdução:

“A presente pesquisa tem o propósito de trazer à luz elementos com os quais se possa vislumbrar o imaginário dos militares sobre a participação de nossas Forças Armadas no combate à insurreição do Araguaia. Fique claro, portanto, que o objetivo não é analisar o episódio sob o ponto de vista dos guerrilheiros, tampouco dos moradores da região. Muito menos ainda existe a pretensão de reconstruir a “história definitiva” da guerrilha. Trata-se, aqui, de relatar o significado do conflito sob a óptica de um dos lados envolvidos, os militares brasileiros que participaram da luta. A finalidade é somente e tão-somente pesquisar e analisar o significado do conflito para os militares, assim como interpretar seus sistemas de representações à luz de um quadro teórico e dos valores da época.”[2] Continue reading »

mai 14, 2009

O diário romântico do capitão Lamarca, em diálogo com a História Cultural

“O CRONISTA É O NARRADOR DA HISTÓRIA”

(Walter Benjamin)

Há um fragmento de história esquecido no limbo. É um diário. Ou melhor, é um conjunto de cartas de amor organizadas na forma de um diário. Cometido pela pena do capitão Carlos Lamarca, um dos ícones da revolução brasileira, e endereçado à sua amada Iava Iavelberg, também guerrilheira, acabou relegado aos escaninhos dos arquivos secretos militares. Lamarca amava Iara, que também o amava, e acabaram separados pelas vicissitudes daqueles tempos. Ele, exilado no sertão baiano. Ela, escondida em Salvador. A paixão do capitão pela guerrilheira virou lenda entre a intelectualidade pátria, nossa melhor versão de Tristão & Isolda, Lancelot & Guinevere, Garibaldi & Anita; a velha história do valente guerreiro lutando contra ogros e dragões para provar seu amor pela musa inspiradora. Certo dia, quente e seco, chegou ao capitão a notícia de que sua musa estava morando com outro companheiro de armas. Rua reação foi escrever. Foram 41 dias naquele deserto desnudando sua alma. Tal qual Horácio no exílio, de dia expunha seus ideais políticos, idéias pessoais, sonhos, temores e amores – suas paixões. De noite era só pesadelo: torturava-se de ciúmes. Registrava tudo. O diário jamais chegou à destinatária. Ela morreu antes. Ele, dias depois, tal qual Romeu, assim que soube que perdera de vez a amada. Esses fatos ocorreram em 1971.

Certa feita, em 1974, os militares chegaram a divulgar discretamente o teor daquele diário. Queriam usá-lo como peça de propaganda política, tentavam expor a fragilidade emocional desse capitão-guerrilheiro, que desertou de armas em punho para combater a ditadura – mas acabou perdendo-se numa paixão. Ora, ninguém prestou muita atenção na peça ouem seu conteúdo. Nemmilitantes da revolução, nem jornalistas. Muito menos historiadores, naquele tempo, hegemonicamente marxistas e estruturalistas. Quase quatro décadas depois de escrito, o diário ainda se encontra no limbo da História. Curiosamente, é uma das peças mais ricas para analisar e compreender aquela época que Isaiah Berlin definiu como a “mais terrível da história”. Continue reading »

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