Browsing articles tagged with " terrorismo"
ago 20, 2014

Sérgio Vieira de Mello, a metáfora da água e o desespero da ONU

A ONU lança selo em parceria com os Correios para homenagear Sérgio Vieira de Mello, morto há exatos 10 anos em atentado terrorista no Iraque. Ele tombou aos 55 anos. A ONU, então com a mesma idade, saiu gravemente ferida. Pode-se dizer, até, que a trajetória profissional do brasileiro, no limite entre a guerra e a paz, acompanhou os problemas recentes da entidade (Artigo publicado originalmente pela revista IstoÉ-DINHEIRO, em Ago 2004)

sergio

por Hugo Studart

Nos últimos 30 anos, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello esteve nos lugares mais desolados do mundo levando socorro a civis flagelados pelas guerras. Começou a vida cuidando de hordas de famintos e campos de trucidados em terras esquecidas como Bangladesh, Sudão, Moçambique e Camboja. No Líbano, escapou de tiros cruzados na pior de suas muitas batalhas. Idealista, era o brasileiro que construiu a biografia mais próxima à de Giuseppe Garibaldi. “Não esperem que eu fique tratando de direitos humanos apenas em gabinetes confortáveis”, disse recentemente. “Gosto de sujar as botas de lama”. Doutor em Filosofia pela Sorbonne, era um intelectual refinado que galgou os principais postos das Nações Unidas. Chefiou a missão da ONU na Bósnia, presidiu o Timor Leste e acabou eleito Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Na tarde de terça-feira, 19 de agosto, era Sérgio Vieira de Mello quem estava sedento. Representante da ONU no Iraque, ele viu um caminhão bomba explodir na frente de seu gabinete em Bagdá. Despencou dois andares. Uma viga de ferro prendeu suas pernas. Por duas horas, conseguiu falar ao telefone celular enquanto aguardava que lhe resgatassem dos escombros. “Água, água, água”, suplicou. Era o sinal clínico de hemorragia interna terminal. Logo depois o telefone emudeceu. Quando finalmente se chegou a Sérgio, só havia um corpo esmagado pelo terrorismo que tomou conta do Iraque desde que os Estados Unidos anunciaram, a 1º de maio último, que haviam vencido a guerra contra o regime de Saddam Hussein. Morreram na explosão 24 pessoas.

O ato chocou o mundo –uma comoção que não se via desde os atentados de 11 de setembro. “Não posso pensar em ninguém que fosse mais indispensável ao sistema das Nações Unidas que Sérgio”, lamentou Kofi Annan, secretário-geral da ONU. “Vieira de Mello empenhou sua vida para fazer avançar a causa dos direitos humanos”, disse o presidente dos Estados Unidos George W. Bush. Coube a Jacques Chirac, o presidente da França, resumir o sentimento internacional: “Estou consternado e irado”. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decretou luto oficial de três dias.

Vieira de Mello morreu aos 55 anos. A ONU, com a mesma idade, saiu gravemente ferida. Pode-se dizer, até, que a trajetória profissional do brasileiro como funcionário da organização, afeito a missões complicadas, no limite entre a guerra e a paz, acompanhou os problemas recentes da entidade. Chamada meses atrás de “irrelevante” pelo próprio presidente Bush, a ONU apela por reconhecimento e por novas atribuições no cenário internacional. Nesse sentido, o apelo desesperado do brasileiro por água, instantes antes de morrer, pode servir de metáfora à atual situação das Nações Unidas.

O atentado em Bagdá matou Vieira de Mello mas atingiu também uma idéia – a do multilateralismo das relações internacionais, em oposição ao vôo solo e arrogante dos Estados Unidos contra o Iraque. No pós-guerra, a ONU assumiu o papel secundário de assistência humanitária. Vieira de Mello tinha poderes vagos. Coordenava a distribuição de remédios e alimentos, mas só opinava (sem decidir) sobre assuntos menores. Quem manda de fato no Iraque é o governador Paul Bremer, instalado no cargo pelos EUA. Continue reading »

jul 28, 2012

A morte em preto e branco

 Ensaio: uma discussão sobre tortura, os desaparecidos políticos da ditadura militar e o imaginário nos tempos em que as coisas eram diabolicamente negras ou celestialmente brancas (Originalmente escrito para a revista Plenarium, da Câmara dos Deputados)

Maria Lúcia Petit, morta na Guerrilha do Araguaia

Por Hugo Studart

             Quando a Lei de Anistia foi aprovada pelo Congresso Nacional, em agosto de 1979, ocorreram reações contra a abertura política, como atentados à bomba de grupos militares extremistas. Entretanto, a partir daquele momento, instaurou-se no país um processo histórico tão inédito quanto irreversível de conquista das liberdades civis e de amadurecimento e lapidação da nossa democracia – processo que perdura até hoje, e parece não ter mais fim. Primeiro libertou-se os presos políticos e nossos irmãos exilados retornaram ao país. Foi uma festa, belíssima. Os partidos políticos puderam se reorganizar. Aboliu-se a censura prévia à imprensa e, diante de uma liberdade de expressão raras vezes usufruída em nossa história, iniciou-se um processo de revisão do passado recente, de crítica aos militares e a seus colaboradores – como também autocrítica ao pensamento dogmático e às práticas fundamentalistas das facções da esquerda.

            Uma imagem marcante, a povoar até hoje o imaginário pátrio, foi a fotografia do ex-guerrilheiro Fernando Gabeira desfilando de tanga na praia de Ipanema – era o início do fim do stalinismo e a ortodoxia gauche. No capítulo das críticas, muito mais longo e profundo, a imprensa começou a publicar denúncias sobre fatos ainda obscuros, como a morte sob tortura do jornalista Wladimir Herzog, em 1975, e do operário Manoel Fiel Filho, em 1976, dois episódios-ícones que marcaram o enfraquecimento definitivo do regime autocrático e precipitaram a abertura. A tortura era um cancro a ser encarado – como de fato o foi, na Constituinte dos anos subsequentes. Os mortos da luta armada urbana também foram contados. Mas havia também a questão muito mais dolorosa, até hoje não resolvida. Onde estariam, afinal, uma legião de desaparecidos políticos? Este é um tema que tortura até hoje os familiares, notadamente aqueles que tiveram seus entes queridos envolvidos na luta armada rural, conhecida como a Guerrilha do Araguaia. Continue reading »

Fotos

  • Martin Luther King Martin Luther King
  • Mandela Mandela
  • Paulo de Tarso Paulo de Tarso
  • Kenobi Kenobi
  • Proudhon Proudhon
  • Tereza Tereza
  • Yoda Yoda

Canais

Amigos do Blog no Face

Conteúdos mais lidos

Arquivo

julho 2016
D S T Q Q S S
« dez    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Tags

Area Administrativa

Escolha o Indioma

'