Browsing articles tagged with " militares"
abr 11, 2005

“O IMAGINÁRIO DOS MILITARES NA GUERRILHA DO ARAGUAIA”

Dissertação de Mestrado em História, defendida em 11 de abril de 2005, dentro do Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília, e na linha de pesquisa Discurso, Imaginário e Cotidiano, tendo como orientadora a professora Cléria Botelho da Costa, e como membros da banca examinadora as professoras Diva Couto Muniz e Márcia Martins Kuyumjian, do Departamento de História da UnB, e o professor José Geraldo de Sousa Júnior, do Departamento de Direito da UnB. Posteriormente, a dissertação foi revista e ampliada para publicação em livro, com o título de “A Lei da Selva” (Geração Editorial, 2006), tendo sido agraciado no Prêmio Herzog de Direitos Humanos e como finalista do Prêmio Jabuti.

Introdução

 

Este trabalho examina fatos históricos ocultados pelas pretensas razões de Estado, por meio de mentiras deliberadas, de violações de normas jurídicas, morais e políticas. Foi nos tempos do Estado autocrático implantado no Brasil a partir de 1964, que ocorreu uma insurreição armada no coração das selvas amazônicas, episódio da nossa história que ficou conhecido como a Guerrilha do Araguaia. Especificamente, tem o propósito de trazer à luz elementos que possam vislumbrar o imaginário dos militares na Guerrilha do Araguaia. A preocupação é analisar o significado dos conflitos do Araguaia sob a ótica dos militares brasileiros, assim como interpretar seus sistemas de representações à luz de um quadro teórico e dos valores da época. Trata-se de algo em si difícil, visto que a maior parte dos episódios do conflito, notadamente aqueles protagonizados pelas Forças Armadas, permanece sob o império do mistério.

Mas, afinal, o que foi a tão decantada Guerrilha do Araguaia? A Guerrilha do Araguaia foi, em suma, um levante armado de inspiração marxista que pretendia desencadear uma guerra popular revolucionária no Brasil, partindo do campo para a conquista das cidades. O movimento foi promovido pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B) na região do rio Araguaia, na confluência entre quatro Estados – sul do Pará, sul do Maranhão, nordeste do Mato Grosso e norte de Goiás (hoje Tocantins) -, ao longo do rio Araguaia, região conhecida pelo nome de Bico do Papagaio. Os conflitos ocorreram em um polígono de aproximadamente 6.500 quilômetros quadrados entre o Pará e o Tocantins, área um pouco maior do que o Distrito Federal, onde habitavam cerca de 20 mil pessoas.

Continue reading »

abr 11, 2005

INVENTARIANDO O CORPUS E A PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA – “O Imaginário dos Militares sobre a Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, Cap. 1)

 

“A história das coisas feitas

 só sobrevive se for narrada,

se o que é dito, for bem ”

Hannah Arendt

1.1 – O Despertar Pessoal

 

Ao versar sobre o conceito de História, Benjamin explicou ser impossível conhecer todo o passado, em sua plenitude, da maneira exata que os fatos se deram em seu tempo. Para o pensador, articular o passado historicamente não significa conhecê-lo como ele de fato foi, mas “significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo”[1].

Há muito que os fatos que ocorreram na Guerrilha do Araguaia me despertam inquietações. Há 13 anos que acalento o projeto de conhecer esse pedaço da nossa história em sua plenitude, embora agora eu tenha consciência de que não conhecerei a maneira exata como aqueles fatos se deram. Reconheço essa impossibilidade, exposta com extrema clareza por Benjamin, mas ousarei reconstruir lembranças de outrora ainda próximas do presente. Benjamin também alerta que essas lembranças podem ser rememoradas tanto sob a ótica dos vencidos quanto dos vencedores – e o perigo se impõe ao reconstruí-las somente sob a visão da historia oficial. Nesse sentido, esta pesquisa tenta ir além dos parcos documentos oficiais públicos. Ela escava fatos ainda não conhecidos publicamente. Continue reading »

abr 11, 2005

IDENTIFICANDO O IMAGINÁRIO DOS ATORES DO ARAGUAIA – “O Imaginário dos Militares na Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, Cap. 2)

 

 

“Se as coisas são inatingíveis… ora!

Não é motivo para não querê-las…

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!”

(Mário Quintana)

2.1 – A borboleta e a Pistola

 

A guerrilheira Dinalva Conceição Oliveira Teixeira deixou lendas heróicas em sua passagem de quatro anos pela região do rio Araguaia. Corre na tradição oral da região que, de certa feita, quando em combate, mesmo com uma bala alojada no pescoço, teria virado borboleta antes de desaparecer na mata diante dos olhos em estupor dos inimigos[1]. Por conta da sua determinação, os guerrilheiros a obedeciam. Pela coragem testada nas armas, os soldados a temiam. Para os militares que entraram na mata, rondava sempre o temor da sua aparição. Nada pior, acreditavam, do que encará-la de frente. Corriam boatos de que ela seria implacável, invencível. Dina: foi este o codinome que ela escolheu ao deixar para trás,em São Paulo, a identidade original de geóloga, a fim de aderir à Guerrilha do Araguaia. A subcomandante Dina, como gostava ser tratada a partir do momento em que foi promovida a vice-líder do Destacamento C, se tornou um dos ícones maiores da guerrilheira extremista. Protagonista da ação, povoou o imaginário da reação militar.

Certa vez, o guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza, um advogado baiano que usava o codinome de Mundico, esteve diante da determinação implacável da subcomandante. Bastou uma única vez. Era um caso banal de adultério, triângulo entre Rosalindo e o casal de guerrilheiros Arlindo Valadão, o Ari, e Áurea Elisa Pereira Valadão, a Áurea. Levado às barras do Tribunal Revolucionário das Forças Guerrilheiras do Araguaia – era este o nome oficial da instituição – Rosalindo foi acusado de trair a revolução[2]. Cinco companheiros participaram de seu julgamento, entre eles Dina[3]. Sete camponeses testemunharam o episódio[4]. Amarrado numa árvore, com as mãos nas costas, Rosalindo, escutou a acusação. Foi sentenciado ao justiçamento por unanimidade dos votos. Quem executaria a sentença? Dina levantou-se em silêncio e caminhou em direção ao companheiro. Parou a dois metros de distância e apontou seu revólver Taurus calibre 38 para o coração de Rosalindo. Ele nada falou, não chorou, não pediu clemência. Apenas encarou Dina nos olhos na hora em que ela apertou o gatilho. Rosalindo foi enterrado ali mesmo, num banco de areia a 250 metros da casa sede do sítio, enrolado numa rede. Seu corpo jamais foi encontrado. Ele figura na lista dos desaparecidos políticos do Ministério da Justiça. Esses fatos ocorreram a 26 de agosto de 1973[5]. Continue reading »

abr 11, 2005

DESVELANDO A GUERRA ABERTA – “O Imaginário dos Militares na Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, cap. 3)

A forma extrema de poder é Todos contra Um;

a forma extrema da violência é Um contra Todos

Hannah Arendt

3.1 – Um Imaginário Plural

 

Costuma-se distinguir os militares e dirigentes do regime estabelecido em 1964 entre “moderados” e “linha dura”. Na verdade, a divisão no governo e dentro das Forças Armadas era bem mais complexa, revelando a existência de um imaginário plural entre os militares. O primeiro presidente do regime militar, o general Humberto de Alencar Castelo Branco, como demonstra a rica historiografia desse período, era um político moderado e teria projetos de redemocratização do País. Vinha, naturalmente, de uma longa tradição positivista do Exército Brasileiro, forjado no pensamento de Augusto Comte e acreditando, acima de tudo, “na ordem como condição básica para o desenvolvimento da proposta civilizadora e modernizadora do país”[1].

A ascensão da “linha dura”, igualmente positivista, mas também forjada no novo imaginário anticomunista, se deu quando o grupo do então ministro da Guerra, o general Arthur da Costa e Silva, se impôs a Castelo como seu sucessor. Já no poder, Costa e Silva trouxe de volta ao Brasil seu amigo gaúcho, Emílio Garrastazu Médici, então adido militar em Washington, para ocupar o cargo de ministro-chefe do Serviço Nacional de Informações, o SNI[2]. Continue reading »

abr 11, 2005

A GUERRA INVISÍVEL — “Imaginário dos Guerrilheiros na Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, cap. 4)

Capítulo 4

A Guerra “Invisível”

  

“Os mais afoitos e desesperados
em vez de regressarem como eu
sobre os covardes passos,
e em vez de abrirem suas tendas para a fome dos
desertos,
seguiram no horizonte uma miragem
e logo da luta
passaram ao luto”

(Affonso Romano de Sant’Anna, Que país é este?)

 

 

4.1 –Os Estabelecidos e os Outsiders

 

Ao estudar os sistemas de normas de dominação e as relações de poder entre grupos sociais endógenos e exógenos de uma determinada comunidade do interior, Norbert Elias[1] apresentou a idéia de que só se constrói o “nós” quando se tem o “outro” como referência. Para o autor, um grupo precisa ter o outro como contraposição para que seja possível a coesão interna, assim como para a localização cultural e da identidade do sujeito coletivo, aquilo que ele define por “imagens de nós”. Em outras palavras – e transportando o conceito para o objeto desta pesquisa – significa que o imaginário dos militares no Araguaia estava intrinsecamente ligado ao imaginário dos guerrilheiros, como irmãos siameses, como a contra-revolução precisa da revolução para existir.

 

Elias denomina os endógenos de “estabelecidos” e os exógenos de “outsiders”. Seu trabalho ajuda a analisar como um grupo de guerrilheiros, a maior parte jovens universitários, embevecidos pelas “fantasias coletivas”, ainda segundo os termos de Elias, emprenhados da sagrada chama da convicção de que conseguiriam desencadear uma guerra popular revolucionária que mudaria a história do Brasil, chegaram à região do Araguaia e passaram a se relacionar com uma população estabelecida, 20 mil camponeses, posseiros e aventureiros solitários, isolados do establishment pelas privações da selva e pela amnésia do tempo. Foi um choque cultural, econômico e, principalmente, de valores. Portadores de um imaginário de luta contagiante – tão forte que a maior parte deles, mesmo quando ficou patente que a guerra estava perdida, preferiu morrer lutando a se entregar aos inimigos – os guerrilheiros eram chamados pelos estabelecidos de “paulistas”, numa referência que indica a condição de outsiders para os moradores da região.

Continue reading »

abr 11, 2005

O Imaginário dos Militares na Guerrilha do Araguaia – CONCLUSÃO E BIBLIOGRAFIA (Dissertação de Mestrado)

CONCLUSÃO

No presente trabalho, busquei pesquisar e analisar o imaginário dos militares sobre a participação das Forças Armadas Brasileiras na Guerrilha do Araguaia, um dos episódios mais obscuros da nossa história recente, ocorrido naquela “era dos extremos”, como definiu Hobsbaum, naqueles “anos terríveis”, como adjetivou Berlin, quando o mundo atravessava a chamada “Guerra Fria” e o país estava sob a égide do regime militar autocrático instaurado em 1964.

Os depoimentos dos militares revelaram, até mesmo por documento inédito, que eles cometeram atos de exceção no combate aos guerrilheiros – torturaram, atiraram em guerrilheiros feridos no chão, executaram prisioneiros, violando Direitos Humanos, relegando as Leis da Guerra e seus próprios valores. A pesquisa demonstrou que as exceções foram parte de uma política deliberada do Estado autocrático. Antes do Araguaia, atos de exceção eram práticas usuais do Estado no combate à guerrilha urbana; por conseguinte, foram também levadas ao combate à luta armada rural. Contudo, o fratricídio e os atos de exceção durante a Guerrilha do Araguaia não foram cometidos pela Forças Armadas em seu conjunto. Nem se violou direitos o tempo inteiro.

O imaginário fraticidante dos militares certamente se fundava na herança positivista de Augusto Comte, Continue reading »

mai 26, 2002

A nossa revolução cordial

Leituras sobre o conceito do “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda, em diálogo com o diário amoroso que o capitão Carlos Lamarca escreveu para Iara Iavelberg (Monografia para disciplina História e Historiografia, do Mestrado em História da Universidade de Brasilia, Profºs Drs. Diva do Couto Muniz & Marcos Magalhães Aguiar)

Lamarca, em 1965, ainda no Exército: exemplo acabado do “homem cordial” do mestre Sérgio

 

Iara Iavelberg: despertando a cordialidade do capitão, mas dentro do conceito opoosto ao do mestre Sérgio

1 – Introdução 

Iara tinha o rosto lindo, a cabeça brilhante e o coração revolucionário. Já era a musa da esquerda latino-americana quando um capitão do Exército brasileiro, Carlos Lamarca, desertou de armas em punho para se tornar comandante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR)[1]. Logo tombaria de encantos por Iara. A paixão do capitão pela guerrilheira virou lenda entre a intelectualidade pátria, nossa melhor versão de Tristão & Isolda, Lancelot & Guinevere, Garibaldi & Anita, a velha história do bravo guerreiro lutando contra ogros e dragões para provar seu amor pela musa.

Em 2002 faz 30 anos que ambos tombaram, Lamarca & Iara, nas mãos dos militares. Morreram na Bahia, em locais e datas distintas[2]. Exatamente por essa razão, três décadas redondas de distância, optamos por transformar a história desses dois personagens em objeto central de um ensaio a respeito do imaginário dos militares e dos revolucionários brasileiros. O ponto de partida é o diário que Carlos Lamarca escreveu em seu exílio na caatinga baiana entre 8 de julho e 16 de agosto de 1971[3].

Trata-se de um documento pouco conhecido pelos historiadores, apesar de sua riqueza e singularidade dentre aqueles já produzidos durante os anos de chumbo da ditadura militar no Brasil –de 1964 e 1979. Esse diário, na verdade, se parece muito mais com uma longuíssima lírica romântica do que com registros racionais de um bom revolucionário. Há trechos marxistas-leninistas, sim, mas o ponto forte desse documento, em nossa visão, são as declarações de amor que revelam o imaginário do nosso mais conhecido aventureiro:

“Neguinha, a fôrça da coletivização é espantosa, fico a imaginar uma fazenda coletiva – e me babo só de pensar! Você está presente nêsse particularmente você é para mim, antes de tudo uma necessidade: revolucionária, educadora, existencial, total”[4]. Continue reading »

Fotos

  • Martin Luther King Martin Luther King
  • Mandela Mandela
  • Paulo de Tarso Paulo de Tarso
  • Kenobi Kenobi
  • Proudhon Proudhon
  • Tereza Tereza
  • Yoda Yoda

Canais

Amigos do Blog no Face

Conteúdos mais lidos

Arquivo

julho 2016
D S T Q Q S S
« dez    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

Tags

Area Administrativa

Escolha o Indioma

'