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jul 28, 2012

A morte em preto e branco

 Ensaio: uma discussão sobre tortura, os desaparecidos políticos da ditadura militar e o imaginário nos tempos em que as coisas eram diabolicamente negras ou celestialmente brancas (Originalmente escrito para a revista Plenarium, da Câmara dos Deputados)

Maria Lúcia Petit, morta na Guerrilha do Araguaia

Por Hugo Studart

             Quando a Lei de Anistia foi aprovada pelo Congresso Nacional, em agosto de 1979, ocorreram reações contra a abertura política, como atentados à bomba de grupos militares extremistas. Entretanto, a partir daquele momento, instaurou-se no país um processo histórico tão inédito quanto irreversível de conquista das liberdades civis e de amadurecimento e lapidação da nossa democracia – processo que perdura até hoje, e parece não ter mais fim. Primeiro libertou-se os presos políticos e nossos irmãos exilados retornaram ao país. Foi uma festa, belíssima. Os partidos políticos puderam se reorganizar. Aboliu-se a censura prévia à imprensa e, diante de uma liberdade de expressão raras vezes usufruída em nossa história, iniciou-se um processo de revisão do passado recente, de crítica aos militares e a seus colaboradores – como também autocrítica ao pensamento dogmático e às práticas fundamentalistas das facções da esquerda.

            Uma imagem marcante, a povoar até hoje o imaginário pátrio, foi a fotografia do ex-guerrilheiro Fernando Gabeira desfilando de tanga na praia de Ipanema – era o início do fim do stalinismo e a ortodoxia gauche. No capítulo das críticas, muito mais longo e profundo, a imprensa começou a publicar denúncias sobre fatos ainda obscuros, como a morte sob tortura do jornalista Wladimir Herzog, em 1975, e do operário Manoel Fiel Filho, em 1976, dois episódios-ícones que marcaram o enfraquecimento definitivo do regime autocrático e precipitaram a abertura. A tortura era um cancro a ser encarado – como de fato o foi, na Constituinte dos anos subsequentes. Os mortos da luta armada urbana também foram contados. Mas havia também a questão muito mais dolorosa, até hoje não resolvida. Onde estariam, afinal, uma legião de desaparecidos políticos? Este é um tema que tortura até hoje os familiares, notadamente aqueles que tiveram seus entes queridos envolvidos na luta armada rural, conhecida como a Guerrilha do Araguaia. Continue reading »

mai 14, 2009

O diário romântico do capitão Lamarca, em diálogo com a História Cultural

“O CRONISTA É O NARRADOR DA HISTÓRIA”

(Walter Benjamin)

Há um fragmento de história esquecido no limbo. É um diário. Ou melhor, é um conjunto de cartas de amor organizadas na forma de um diário. Cometido pela pena do capitão Carlos Lamarca, um dos ícones da revolução brasileira, e endereçado à sua amada Iava Iavelberg, também guerrilheira, acabou relegado aos escaninhos dos arquivos secretos militares. Lamarca amava Iara, que também o amava, e acabaram separados pelas vicissitudes daqueles tempos. Ele, exilado no sertão baiano. Ela, escondida em Salvador. A paixão do capitão pela guerrilheira virou lenda entre a intelectualidade pátria, nossa melhor versão de Tristão & Isolda, Lancelot & Guinevere, Garibaldi & Anita; a velha história do valente guerreiro lutando contra ogros e dragões para provar seu amor pela musa inspiradora. Certo dia, quente e seco, chegou ao capitão a notícia de que sua musa estava morando com outro companheiro de armas. Rua reação foi escrever. Foram 41 dias naquele deserto desnudando sua alma. Tal qual Horácio no exílio, de dia expunha seus ideais políticos, idéias pessoais, sonhos, temores e amores – suas paixões. De noite era só pesadelo: torturava-se de ciúmes. Registrava tudo. O diário jamais chegou à destinatária. Ela morreu antes. Ele, dias depois, tal qual Romeu, assim que soube que perdera de vez a amada. Esses fatos ocorreram em 1971.

Certa feita, em 1974, os militares chegaram a divulgar discretamente o teor daquele diário. Queriam usá-lo como peça de propaganda política, tentavam expor a fragilidade emocional desse capitão-guerrilheiro, que desertou de armas em punho para combater a ditadura – mas acabou perdendo-se numa paixão. Ora, ninguém prestou muita atenção na peça ouem seu conteúdo. Nemmilitantes da revolução, nem jornalistas. Muito menos historiadores, naquele tempo, hegemonicamente marxistas e estruturalistas. Quase quatro décadas depois de escrito, o diário ainda se encontra no limbo da História. Curiosamente, é uma das peças mais ricas para analisar e compreender aquela época que Isaiah Berlin definiu como a “mais terrível da história”. Continue reading »

mai 26, 2002

A nossa revolução cordial

Leituras sobre o conceito do “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda, em diálogo com o diário amoroso que o capitão Carlos Lamarca escreveu para Iara Iavelberg (Monografia para disciplina História e Historiografia, do Mestrado em História da Universidade de Brasilia, Profºs Drs. Diva do Couto Muniz & Marcos Magalhães Aguiar)

Lamarca, em 1965, ainda no Exército: exemplo acabado do “homem cordial” do mestre Sérgio

 

Iara Iavelberg: despertando a cordialidade do capitão, mas dentro do conceito opoosto ao do mestre Sérgio

1 – Introdução 

Iara tinha o rosto lindo, a cabeça brilhante e o coração revolucionário. Já era a musa da esquerda latino-americana quando um capitão do Exército brasileiro, Carlos Lamarca, desertou de armas em punho para se tornar comandante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR)[1]. Logo tombaria de encantos por Iara. A paixão do capitão pela guerrilheira virou lenda entre a intelectualidade pátria, nossa melhor versão de Tristão & Isolda, Lancelot & Guinevere, Garibaldi & Anita, a velha história do bravo guerreiro lutando contra ogros e dragões para provar seu amor pela musa.

Em 2002 faz 30 anos que ambos tombaram, Lamarca & Iara, nas mãos dos militares. Morreram na Bahia, em locais e datas distintas[2]. Exatamente por essa razão, três décadas redondas de distância, optamos por transformar a história desses dois personagens em objeto central de um ensaio a respeito do imaginário dos militares e dos revolucionários brasileiros. O ponto de partida é o diário que Carlos Lamarca escreveu em seu exílio na caatinga baiana entre 8 de julho e 16 de agosto de 1971[3].

Trata-se de um documento pouco conhecido pelos historiadores, apesar de sua riqueza e singularidade dentre aqueles já produzidos durante os anos de chumbo da ditadura militar no Brasil –de 1964 e 1979. Esse diário, na verdade, se parece muito mais com uma longuíssima lírica romântica do que com registros racionais de um bom revolucionário. Há trechos marxistas-leninistas, sim, mas o ponto forte desse documento, em nossa visão, são as declarações de amor que revelam o imaginário do nosso mais conhecido aventureiro:

“Neguinha, a fôrça da coletivização é espantosa, fico a imaginar uma fazenda coletiva – e me babo só de pensar! Você está presente nêsse particularmente você é para mim, antes de tudo uma necessidade: revolucionária, educadora, existencial, total”[4]. Continue reading »

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