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abr 11, 2005

DESVELANDO A GUERRA ABERTA – “O Imaginário dos Militares na Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, cap. 3)

A forma extrema de poder é Todos contra Um;

a forma extrema da violência é Um contra Todos

Hannah Arendt

3.1 – Um Imaginário Plural

 

Costuma-se distinguir os militares e dirigentes do regime estabelecido em 1964 entre “moderados” e “linha dura”. Na verdade, a divisão no governo e dentro das Forças Armadas era bem mais complexa, revelando a existência de um imaginário plural entre os militares. O primeiro presidente do regime militar, o general Humberto de Alencar Castelo Branco, como demonstra a rica historiografia desse período, era um político moderado e teria projetos de redemocratização do País. Vinha, naturalmente, de uma longa tradição positivista do Exército Brasileiro, forjado no pensamento de Augusto Comte e acreditando, acima de tudo, “na ordem como condição básica para o desenvolvimento da proposta civilizadora e modernizadora do país”[1].

A ascensão da “linha dura”, igualmente positivista, mas também forjada no novo imaginário anticomunista, se deu quando o grupo do então ministro da Guerra, o general Arthur da Costa e Silva, se impôs a Castelo como seu sucessor. Já no poder, Costa e Silva trouxe de volta ao Brasil seu amigo gaúcho, Emílio Garrastazu Médici, então adido militar em Washington, para ocupar o cargo de ministro-chefe do Serviço Nacional de Informações, o SNI[2]. Continue reading »

abr 11, 2005

O Imaginário dos Militares na Guerrilha do Araguaia – CONCLUSÃO E BIBLIOGRAFIA (Dissertação de Mestrado)

CONCLUSÃO

No presente trabalho, busquei pesquisar e analisar o imaginário dos militares sobre a participação das Forças Armadas Brasileiras na Guerrilha do Araguaia, um dos episódios mais obscuros da nossa história recente, ocorrido naquela “era dos extremos”, como definiu Hobsbaum, naqueles “anos terríveis”, como adjetivou Berlin, quando o mundo atravessava a chamada “Guerra Fria” e o país estava sob a égide do regime militar autocrático instaurado em 1964.

Os depoimentos dos militares revelaram, até mesmo por documento inédito, que eles cometeram atos de exceção no combate aos guerrilheiros – torturaram, atiraram em guerrilheiros feridos no chão, executaram prisioneiros, violando Direitos Humanos, relegando as Leis da Guerra e seus próprios valores. A pesquisa demonstrou que as exceções foram parte de uma política deliberada do Estado autocrático. Antes do Araguaia, atos de exceção eram práticas usuais do Estado no combate à guerrilha urbana; por conseguinte, foram também levadas ao combate à luta armada rural. Contudo, o fratricídio e os atos de exceção durante a Guerrilha do Araguaia não foram cometidos pela Forças Armadas em seu conjunto. Nem se violou direitos o tempo inteiro.

O imaginário fraticidante dos militares certamente se fundava na herança positivista de Augusto Comte, Continue reading »

set 1, 2002

A Morte e a morte da subcomandante Dina

A história de uma guerrilheira como representação do imaginário coletivo radical compartilhado por revolucionários e militares na Guerrilha do Araguaia (Monografia para a disciplina “Identidades e Representações”, do Mestrado em História, Universidade de Brasilia).

 

 

A mentalidade de um indivíduo, mesmo que se trate de um grande homem, é justamente o que ele tem de comum com outros homens de seu tempo” – J. Le Goff

“O homem cria o sublime, mas, também, pode criar o monstruoso”. Hanna Arendt

 

Dinalva Conceição Oliveira Teixeira deixou algumas lendas heróicas em sua passagem de quatro anos pela região do Rio Araguaia. Conta-se que de certa feita, quando em combate, mesmo com uma bala alojada no pescoço, teria virado borboleta antes de desaparecer na mata diante dos olhos em estupor dos inimigos[1]. Por conta da sua determinação, os guerrilheiros a obedeciam. Pela violência de seus atos, os camponeses a respeitavam. Pela coragem testada nas armas, os soldados a temiam. Dina –foi este o codinome que ela escolheu ao deixar para trás, em São Paulo, a identidade original a fim de aderir a um grupo de 69 militantes do Partido Comunista do Brasil, o PC do B, que pretendia implementar uma guerra popular revolucionária na região do Bico do Papagaio, entroncamento de Goiás, Pará e Mato Grosso, que ficou conhecida como Guerrilha do Araguaia. A subcomandante Dina, símbolo maior da guerrilheira radical. Matou quem achou que merecia e morreu da forma que bem pediu.

Uma única vez o guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza, codinome Mundico, esteve diante da determinação da subcomandante. Era um caso banal de adultério, triângulo entre Rosalindo e o casal de guerrilheiros Arlindo Valadão e Áurea Elisa Pereira. Levado às barras do Tribunal Revolucionário, Rosalindo foi acusado de alta traição. Quatro companheiros participaram de seu julgamento, entre eles Dina. Sentenciado ao “justiçamento”[2], teve execução sumária. Foi amarrado numa árvore pelo companheiros, com os olhos vendados. Dina levantou-se e foi direto ao companheiro, sem vacilos. Estourou-lhe a cabeça com um tiro de pistola. Foi enterrado ali mesmo. Seu corpo jamais foi encontrado. Esses fatos ocorreram a 16 de agosto de 1973[3].

A subcomandante Dina foi presa pelas forças do Exército cinco meses depois, em janeiro de 1974, de acordo com os arquivos militares a que este pesquisador teve acesso. Segundo os mesmos arquivos, ela morreu em julho daquele ano. Ainda é uma incógnita o que aconteceu nos seis meses em que esteve nas mãos do Estado. Seu corpo jamais foi encontrado. Relato de um militar a este pesquisador[4] dá conta de que ela foi levada de helicóptero, a partir da cidade de Xambioá (GO) para algum ponto da mata espessa. Chefiava o pelotão um militar do Exército, codinome Ivan. “Vocês vão me matar?”, indagou Dinalva assim que pisou em solo. “Não, só quero que você reconheça um ponto ali adiante”, respondeu o militar. Ela caminhou por cerca de 15 minutos mata adentro, com as mãos amarradas nas costas. Mantiveram uma conversa relativamente cordial, testemunhada por cinco militares. A guerrilheira queixou-se de que estaria se sentindo traída pela cúpula do PC do B. Ela queria combater, partir para o confronto armado com os militares, mas os chefes do partido deram ordem de fuga. O grupo parou em uma clareira. “Vou morrer agora?”, perguntou a guerrilheira. “Vai”, respondeu o militar. “Então eu quero morrer de frente”, pediu. “Então vira pra cá”. O militar se aproximou e lhe estourou a cabeça com um tiro de pistola. Foi enterrada ali mesmo. Seu corpo jamais foi encontrado. Dina encontra-se na relação dos desaparecidos políticos do Ministério da Justiça.

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