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abr 20, 2014

A lista dos camponeses que foram mortos na Guerrilha do Araguaia

O jornalista e historiador Hugo Studart revela que mais camponeses participaram da guerrilha, nos Estados do Pará e de Goiás (Tocantins), do que registram PC do B e pesquisadores. A batalha talvez tenha de ser (re)vista como um movimento com maior envolvimento de populares (Publicado pelo semanário A Opção, de Goiânia, em 20 Abril 2014)

Hugo Studart: a Guerrilha do Araguaia não foi um movimento armado com participação apenas de comunistas; camponeses tiveram forte envolvimento

Por Euler França Belém

 

A tese de doutorado “Em Algum Lugar das Selvas Amazônicas: As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia (1966-1974)”, do jornalista e historiador Hugo Studart, apresenta o levantamento mais completo sobre os camponeses que participaram da Guerrilha do Araguaia, direta ou indiretamente. Lista-se também os que morreram, estão desaparecidos e os que sobreviveram. O documento “Dossiê Araguaia: Ultrapassando a Guerrilha”, elaborado por militares entre 1998 e 2001, “apresenta uma relação de exatos 29 camponeses que teriam entrado para a guerrilha. Até então, para o Partido Comunista do Brasil, a guerrilha teria tido a adesão de 18 camponeses”. O documento revela que nove camponeses foram mortos, três foram presos, um teria desertado e não se sabe do paradeiro de 17. A guerrilha, portanto, não foi apenas dos militantes do PC do B. A participação popular foi maior do que tradicionalmente informam o partido e pesquisadores. A tese de Studart pode ensejar uma reformulação da maneira como a Guerrilha do Araguaia tem sido interpretada.

 Outro documento, aparentemente confeccionado pelo Centro de Informações do Exército (CIE), divulga “a relação de 178 camponeses que teriam prestado apoio aos guerrilheiros”. O documento informa que 36 camponeses deram “apoio forte” aos integrantes do PC do B. Studart anota que a relevância do documento tem a ver com o “detalhamento até então desconhecido sobre a participação de cada um dos camponeses na guerrilha” e arrola os nomes de 10 camponeses mortos. O documento relaciona também “142 moradores da região que teriam sido ‘apoios fracos’ da guerrilha. No total, 178 camponeses, de acordo com a avaliação dos militares, teriam de alguma forma participado da guerrilha”.
O Relatório Especial de In­formações nº 6, do SNI, apresenta dados parecidos: “161 ‘apoios’ haviam sido presos até 15 de novembro de 1973 e (…) outros 42 estavam sendo procurados, totalizando 203 camponeses”.
A partir do cruzamento dos dados apresentados pelos documentos, Studart conclui que morreram “27 camponeses durante a repressão à Guerrilha do Araguaia”. As informações são “preliminares”, adverte o pesquisador. É possível que os mortos sejam 31 (ou 33), ou até mais, mas o pesquisador prefere ter cautela, ancorado em dados (sempre comparados e confrontados), sem forçá-los (ao menos não de maneira desmedida) por meio da teoria. As pesquisas, inclusive as suas, estão em andamento. A Guerrilha do Araguaia, embora cada vez mais conhecida, permanece como uma “obra aberta” — à espera de pesquisas tão rigorosas quanto a de Studart.
Mortos durante a guerrilha (casos consolidados)
Baseado nas informações de moradores da região, de militantes dos Direitos Humanos e em documentos militares, Studart lista os “mortos durante a guerrilha” — são os casos que chama de “consolidados”. Os textos a seguir são uma síntese pálida, com fartas transcrições, de um material apurado com rara excelência pelo doutor em História.
1 — Antônio Alfredo Lima — Entrou para o Destacamento A. Encontra-se na listagem dos desaparecidos do compêndio Retrato da Repressão Política no Campo. Foi morto pelas Forças Armadas, em 13 de outubro de 1973, junto com André Grabois e mais dois guerrilheiros, em combate com o grupo militar comandando pelo major Lício Augusto Maciel.
2 — Clóvis Ribeiro dos Santos — Foi preso e torturado em fevereiro de 1974. Desaparecido em 1974, no Araguaia.
3 — Jair Maciel, Zequinho — Morto em janeiro de 74.
4 — Joaquim de Souza — Desaparecido em junho de 1973, possivelmente morto pelo Exército. Seu nome constava no cartaz das vítimas da guerrilha.
5 — João Pereira da Silva — Seu pai, José Pereira da Silva, apoiou o Destacamento C da guerrilha. Pressionado pelos militares, mandou o filho, Joãozinho, levá-los aos integrantes do PC do B. O garoto de 17 anos foi morto pelos guerrilheiros (Rosalindo Cruz, Mundico, e Jaime Petit) com um tiro no peito. Continue reading »
abr 12, 2014

Número de camponeses mortos no Araguaia pode chegar a 31

Pesquisador aponta que 76 pegaram em armas ou apoiaram guerrilheiros (Reportagem publicada por “O Globo”, edição de domingo, 12 Abril 2014, pág 11)

por Cleide Carvalho

SÃO PAULO — O número de camponeses que tiveram participação ativa e morreram durante a Guerrilha do Araguaia, entre 1967 e 1974, pode ser maior do que consta em registros históricos. A tese de doutorado apresentada à Universidade de Brasília (UnB) em fevereiro pelo jornalista e historiador Hugo Studart reúne 31 nomes de camponeses mortos e de dois desaparecidos na guerrilha. Apenas as 12 mortes apresentadas como casos consolidados — com histórias conhecidas por militantes de direitos humanos e moradores da região — representam o dobro do número de camponeses do Araguaia listados pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, da Secretaria de Direitos Humanos. Segundo o coordenador da Comissão, Gilles Gomes, dos 148 desaparecidos políticos brasileiros, 70 participaram da guerrilha, dos quais 64 eram militantes políticos e seis eram camponeses.

Segundo Studart, os nomes que emergem da pesquisa mostram que 76 camponeses pegaram em armas ou serviram de “apoio forte” aos guerrilheiros — ou seja, ajudaram as forças guerrilheiras conscientes do que estavam fazendo, arriscando suas vidas. É quase o mesmo número de militantes comunistas, que somavam 79 quando os conflitos começaram, em 1971.

— Meu objetivo foi montar o quebra-cabeças de informações e dar voz aos anônimos e esquecidos. Os camponeses foram relegados a mera estatística pelos grupos de direitos humanos, que se preocuparam apenas com os guerrilheiros, a maioria estudantes de classe média e profissionais liberais — diz Studart.

Criméia Alice Schmidt Almeida, ex-guerrilheira e militante do PCdoB, explica que apenas seis nomes de camponeses foram incluídos no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos por falta de informações. Segundo ela, havia certeza do engajamento de apenas dois camponeses — Luis Vieira de Almeida e Antônio Alfredo Lima, ambos mortos em 1973 e considerados desaparecidos.

Como observador da Universidade de Brasília (UnB) no Grupo de Trabalho do Araguaia (GTA) desde 2009, Studart afirma ter reunido cerca de 15 mil documentos sobre a guerrilha — alguns oficiais e outros sem timbre ou carimbo dos respectivos órgãos. Segundo ele, um relatório da agência do SNI em Marabá informa que até 15 de novembro de 1973 haviam sido presos 161 camponeses considerados “apoio” dos guerrilheiros e outros 42 estavam sendo procurados. Ou seja, o SNI havia identificado 203 camponeses ligados à guerrilha.

 

Exército: 36 nomes de ‘apoios fortes’ à guerrilha

Durante sua tese, o jornalista e historiador Hugo Studart usa ainda como fonte de comparação de dados a reprodução de um documento atribuído ao Centro de Informações do Exército. Nele, militares identificam 36 nomes de “apoios fortes” à guerrilha, em maioria coincidentes com os do SNI. Além de apresentar novos nomes, o documento relaciona 10 camponeses mortos. Outros 142 camponeses são apresentados como “apoios fracos” aos guerrilheiros, sem participação política direta.

— O PCdoB só conhecia o nome de três mortos e contabilizava 18 moradores da região que aderiram à guerrilha — diz Studart, lembrando que a lista de mortos pode ser dez vezes maior do que a elaborada pelo partido.

Segundo Studart, é certo que a adesão dos camponeses à guerrilha foi maior do que a descrita. Ele cita Adalgisa Lopes, dona de casa. Moradora de São Domingos do Araguaia, Adalgisa teria participado da logística de assalto a um posto da polícia na Transamazônica. O marido, Frederico Lopes, também aderiu.

Para o Exército, os camponeses eram caboclos que só conheciam a “lei do mais forte” e precisavam ser tratados com “rigor”. Já Maurício Grabois, comandante da guerrilha, registrou em seu diário: “Sobre a atitude da massa, podemos afirmar que é de profunda simpatia em relação à nossa luta e de condenação às forças da repressão”.

Maria Rita Kehl, da Comissão da Verdade, entrevistou 14 camponeses no Araguaia, a maioria sobrevivente da guerrilha. Ela ressalta que, dos mortos listados por Studart, sete foram assassinados ao lado de guerrilheiros.

Rita lembra ainda a tortura sofrida pela família de José Ribeiro Dourado. A mulher dele, Madalena, contou que ele foi morto por dar comida ao guerrilheiro Osvaldão. Disse ainda que seu filho mais velho, Deusdete, foi preso. Libertado, entrou em depressão, ficou alcoólatra e enlouqueceu. A mãe só soube depois o que houve: o rapaz fora obrigado pelos militares a cortar a cabeça do pai morto. Antes de morrer, ele teria mostrado o local onde cabeças foram enterradas na base militar de Xambioá.

 

Leia mais sobre esse assunto em

http://oglobo.globo.com/pais/numero-de-camponeses-mortos-no-araguaia-pode-chegar-31-12181391

jan 18, 2014

Como foi a decapitação do guerrilheiro Arildo Valadão, um dos desaparecidos do Araguaia

(Trecho de abertura do Capítulo 2 da minha Tese de Doutorado, “Em algum lugar das selvas amazônicas: As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia”)

O guerrilheiro Ari ainda estava vivo quando o facão (cego) serrou o seu pescoço

A BARBÁRIE COMO ESCOLHA

No momento em que teço estas linhas, em novembro de 2013, completam-se exatos 40 anos que seis jovens de origens distintas, cada qual acalentando suas próprias esperanças, encontraram-se em uma encruzilhada remota de algum lugar das selvas amazônicas. Na trama grega, as tragédias costumam ter início em uma encruzilhada. Como aquele entroncamento de três estradas no qual Édipo, por obra do Acaso, se encontra com o rei Laio e o mata depois de uma discussão banal, sem saber que era seu próprio pai[1]. No caso em questão, objeto desta pesquisa, a encruzilhada fica na Grota do Cristal, uma pequena fonte de água onde três trilhas na floresta se encontram, localizada a 200 metros do rio Sororozinho, bem no epicentro da região onde as Forças Guerrilheiras do Araguaia e o Exército brasileiro se enfrentaram por três anos consecutivos.

Foi nessa tríplice encruzilhada que o Acaso[2] colocou três guerrilheiros e três camponeses frente a frente, em fatídico encontro que definiria o desfecho daquela luta. O sol a pino indicava que era meio-dia de 26 de novembro de 1973 quando o primeiro grupo chegou à grota. O líder (dos camponeses) chamava-se Sinésio Bringel, um pequeno posseiro, tropeiro e dono de bodega, casado, três filhos, tinha 38 anos na ocasião[3]. A seu lado, Iomar Galego, 33 anos, casado, cinco filhos, caçador e posseiro de uma roça de subsistência[4]. Por fim, Raimundinho Cacaúba, também casado, três filhos, 35 anos, posseiro e caçador[5].

* * *

Os britânicos criaram dois termos semelhantes, story e history, para distinguir ficção e realidade. Um seria uma estória que se conta. Outro, uma história que se constrói. Para Paul Ricœur, entretanto, mais do que um preciosismo linguístico, tal distinção seria um erro epistemológico. Afinal, os britânicos ousaram esquecer aquilo que os antigos sempre souberam: que História e ficção emergem da mesma matriz, a memória – embora guardem distinções quanto ao método e, principalmente, quanto ao objetivo[6]. Ricœur também lembra que os historiadores, tais quais os narradores orais medievais, tecem uma trama de acordo com a sua visão pessoal do que venha a ser a realidade e os fatos[7]. Ao fazer a defesa da narrativa para a tecitura da história, Ricœur aconselha que o historiador busque rebaixar a pretensão explicativa e eleve a capacidade narrativa[8].

Assim, esclareço preliminarmente que a trama sobre os fatos ocorridos naquela encruzilhada da floresta foi construída de acordo com as visões pessoais dos três camponeses sobreviventes – Sinésio, Iomar e Raimundo – sobre o que teria sido a “realidade” por eles vivenciada e exposta em narrativas orais a esta pesquisa. Entre 2009 e 2012, realizei quatro entrevistas orais com Sinésio Bringel, quatro com Iomar Galego e uma com Raimundo Cacaúba. Cheguei a viajar com os três, separadamente, na busca da reconstituição de episódios da guerrilha, dentre eles, este que aqui narro[9].

Eles estão aqui tratados como protagonistas, de acordo com as interpretações de Benjamin e dos Annales sobre a necessidade de valorizar os anônimos, os pequenos, os perdedores e até mesmo os anti-heróis. Até aquele momento, aqueles três eram apenas isso: pequenos posseiros, tropeiros, caçadores, pais de família, que viviam em uma região com total ausência dos serviços do Estado. Enfim, esquecidos.

* * *

Quatro dias antes de chegarem à encruzilhada na Grota do Cristal, estavam todos presos numa base do Exército, eles e suas famílias. O Exército havia retornado ao Araguaia pela terceira vez, mas até então os resultados eram pífios. Haviam matado uma guerrilheira 40 dias antes[10]. Desde então, o único embate em toda a região fora uma emboscada dos guerrilheiros, na qual um soldado saíra ferido. Por essa razão, os militares decidiram fazer uma experiência. A nova tática: recrutar camponeses para a luta armada.

Sinésio, que estava preso, foi o primeiro a receber a proposta. Seria solto se ajudasse o Exército a caçar os “terroristas”. E, se bem sucedido, ainda ganharia um prêmio em dinheiro. Sinésio aceitou. Raimundo Cacaúba prontificou-se a ir junto. Foram então buscar Iomar Galego, considerado um dos três melhores rastreadores de toda a região, capaz de perceber os indícios de caça (ou de humano) com até seis dias na estação das chuvas e de três dias em tempos de seca.

Os três foram levados diante de um militar, alguém importante, um chefe – recordam-se eles – pois tinha cerca de 40 anos, mandava nos demais soldados e era chamado de “doutor”. Naquele momento da luta, os militares só andavam com roupas civis, ou seja, “descaracterizados”, e portavam identidades falsas, “codinomes”. Os oficiais usavam o qualificativo de “doutor” para demarcar a hierarquia. Sargentos, cabos e soldados usavam codinomes simples. O oficial que os convocou para dar as instruções era chamado de “Doutor César”[11].

“Me tragam um bico de papagaio”, determinou o oficial, enquanto afiava a mão direita aberta no próprio pescoço, de orelha a orelha.

Com aquele sinal, os três camponeses compreenderam que o “doutor” exigia cabeças. Receberam ração para missão de oito dias. No segundo dia, encontraram rastros humanos. No quarto, chegaram à Grota do Cristal. Cogitaram tomar banho na bacia de água que formava a fonte. Desistiram, muito perigoso. Foi então que escutaram um som, leve e sutil.

“Até pensei que fosse o barulho de um beija-flor” – relata Iomar.

Na dúvida, armaram tocaia, cada um deles atrás de uma árvore. Naquele tempo havia milhões de árvores majestosas, salpicadas na mata espessa que se espraiava pelas duas margens do rio Araguaia em direção ao infinito – hoje é uma devastação só em forma de pastos. Em poucos minutos, três guerrilheiros começaram a adentrar na Grota do Cristal por uma das três trilhas que desaguam naquela encruzilhada.

O guerrilheiro Ari (foto) vinha na vanguarda, abrindo caminho. Sua identidade, antes de chegar ao Araguaia, era Arildo Airton Valadão, um capixaba de Cachoeiro do Itapemirim. Era estudante de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro e líder estudantil. No Araguaia, passou a ser vice-comandante do Destacamento C das Forças Guerrilheiras. Tinha então 25 anos.

No meio, vinha Jonas, codinome adotado pelo camponês Josias Gonçalves quando, 11 meses antes, aos 17 anos, encantara-se com as pregações revolucionárias e aderira à guerrilha[12].

Fechando a retaguarda, Raul (foto), membro do Grupamento de Saúde do Destacamento B da guerrilha. Nascido Antônio Theodoro de Castro, cearense de Itapipoca, era estudante de Bioquímica e de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro até chegar ao Araguaia. Em novembro de 1973, tinha 28 anos[13].

Caminhavam pelas matas para uma grande reunião das Forças Guerrilheiras do Araguaia. Seria a primeira desde que o Exército retornara pela terceira vez à região dois meses antes, nos primeiros dias de outubro de 1973. O objetivo era discutir a estratégia de combate. Ou decidir pela fuga enquanto ainda era possível. Um grupo de guerrilheiros já se encontrava acampado ali perto, a cerca de 150 metros da grota, quando o Acaso colocou os três guerrilheiros frente-a-frente com os três camponeses.

O vice-comandante Ari notou a tocaia. Parou e apontou sua arma para Sinésio. Não deu tempo de atirar. Iomar acertou-lhe um tiro no peito com sua espingarda de caça. Rápido, Jonas caiu na mata, encontrou uma moita, e por lá se manteve escondido, a tudo assistindo. Raul correu morro acima em direção ao ponto marcado para a reunião dos companheiros. Sinésio atirou em Raul. A bala acertou o prato de metal escondido no bornal que carregava às costas. Escapou. Escutou-se então o som do grupo de mais de 30 guerrilheiros correndo na direção oposta aos tiros.

Ari estava estirado no chão quando os três camponeses se aproximaram. Foi Sinésio quem mandou que cortassem sua cabeça. Raimundinho não teve coragem. Iomar prontificou-se ao serviço.

Ari ainda estava vivo quando o facão (cego) serrou o seu pescoço. As pernas estrebucharam[14].

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jan 18, 2014

É sempre bom lembrar que somos feitos da mesma matéria dos sonhos

Foi Próspero, protagonista de “A Tempestade”, obra de Shakespeare, que disse isso. Contudo, por pertinência ao tema, tomei a frase emprestada para a abertura da Tese de Doutorado que acabo de entregar à banca. Chama-se: “EM ALGUM LUGAR DAS SELVAS AMAZÔNICAS: As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia (1966-1974)”. Foram cinco anos de pesquisa, leituras e escrita. Uffa. Compartilho com os amigos o texto de Apresentação da Tese, no qual trato muito de esperança e de sonhos. Afinal, como bem o disse Próspero, “somos feitos da mesma matéria dos sonhos”.

Foram cinco anos pesquisando e escrevendo; estudando e escrevendo; escrevendo e reescrevendo

E o homem é feito de carne, que vive, morre e volta a ser pó. Mas carrega ao mesmo tempo uma essência que muitos acreditam ser infinita e imortal. Platão chamou essa essência de anima, alma. Seria ela a responsável por nos fazer recordar o passado e imaginar o futuro. O homem é, definitivamente, o maior paradoxo da Criação, um ser que existe simultaneamente em anima e em carne, que constrói e destrói, que vive ao mesmo tempo no passado, no presente e no futuro.

Sonhadores, idealistas e aventureiros. Conquistadores, missionários e voluntários. Ativistas e revolucionários. Existem seres que atravessam a existência tomados de sonhos, de esperança no futuro. Pois desde que os primeiros deles saíram às portas das cavernas e começaram a olhar em direção ao horizonte, imaginando o que poderia haver do outro lado da montanha, esse punhado de homens só desejava uma coisa – construir um mundo melhor. E são eles que, de alguma forma, com idas e vindas, luzes e trevas, vêm construindo dois projetos tão belos quanto catastróficos. O primeiro é um projeto chamado Humanidade. O outro é a Civilização.

Sonhador ou idealista, missionário ou revolucionário, pouco importa. O relevante é ressaltar que aqueles que porventura vieram ao mundo tomados de alguma dessas características, qualquer delas, faz parte de um grupo de pessoas movidas pelos sonhos do passado e pela esperança no futuro. O acreditar no próximo, no homem, na vida. Um desejo inexplicável de ajudar a construir um mundo melhor.

Sou um deles. Sonhador na infância, imaginava-me entre os personagens da Liga da Justiça. Queria ter sido um dos 300 espartanos de Leônidas. Na juventude, transformei-me em idealista. Passei a ler sobre as revoluções. A francesa, a soviética, as grandes guerras do Século XX. Depois, sobre nossa própria revolução, em suas dimensões distintas – o regime militar, a luta armada urbana e a guerrilha rural. O tempo passa… e eis que que me encontro na maturidade, sob o diapasão da racionalidade, buscando compreender o fenômeno revolucionário. Em outras palavras, pesquisando sobre o que leva alguns homens a sacrificar a própria vida por um ideal político.

“Com o que devemos sonhar?” – certa feita indagou-se Lenin. “Escrevo estas palavras e de repente fico assustado”[1]. Materialista até a essência, estava assustado com o aparente desacordo entre sonho e realidade. Lenin então buscou respostas nas palavras de um líder político russo, Dimitri Pissarev, contemporâneo de Marx. Pissarev era, paradoxalmente, revolucionário e niilista. Lenin gostou desse desacordo aparente:

“Se o ser humano fosse completamente desprovido da faculdade de sonhar, se não pudesse de vez em quando adiantar o presente e contemplar em imaginação o quadro lógico e inteiramente acabado da obra que apenas se esboça em suas mãos, eu decididamente não poderia compreender o que leva o ser humano a empreender e a realizar vastos e fatigantes trabalhos na arte, na ciência e na vida prática (…) O desacordo entre o sonho e a realidade nada tem de nocivo se, cada vez que sonha, o ser humano acredita seriamente em seu sonho, se observa atentamente a vida, compara suas observações com seus castelos no ar e, de uma forma geral, trabalha conscientemente para a realização de seu sonho. Quando existe contato entre o sonho e a vida, então tudo vai bem!”[2]

Representação do personagem Próspero, de “A Tempestade”: alegoria do homem dividido entre o Mundo das Ideias e a Realidade do Mundo

Na obra Espírito da Utopia, Ernest Bloch nos lembra que é penetrando no fenômeno da esperança do futuro que o mundo, no focus imaginarius, na parte mais escondida e inteligível de nossa subjetividade, faz sua aparição[3]. Assim, é o apelo à vontade do homem pela esperança, explica ele, que possibilita o surgimento das mais diferentes manifestações idealistas, incluindo os movimentos revolucionários. Walter Benjamin, por sua vez – colega de escola e leitor de Bloch – preferiu versar sobre sonhos, notadamente os sonhos coletivos. Benjamin propõe desconstruir a dialética hegeliana racionalista por uma dialética que olha para a História em movimento, que leve em conta a dimensão simbólica, as imagens dos sonhos, em um tempo descontínuo e saturado de agoras, com épocas que se distinguem e se entrelaçam na incalculável vontade do homem de fazer História[4].

* * *

Nesta pesquisa, apresento a reconstrução das memórias de um grupo formado por um punhado de homens e de mulheres que, essencialmente movidos pela esperança, por um sonho coletivo, acreditavam poder influir na construção de um país justo e igualitário. Eram estudantes universitários ou jovens profissionais liberais, em sua esmagadora maioria, que nas décadas de 1960-70 instalaram-se no coração das selvas amazônicas, em um ponto remoto ao sul do Estado do Pará, às margens do rio Araguaia, sem armas ou provisões, a fim de deflagrar uma insurreição armada que tinha por objetivo final promover uma revolução socialista no Brasil. Este episódio, ocorrido durante os anos mais repressivos do regime militar brasileiro, entrou para a nossa História sob o nome de Guerrilha do Araguaia.

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jul 28, 2012

A morte em preto e branco

 Ensaio: uma discussão sobre tortura, os desaparecidos políticos da ditadura militar e o imaginário nos tempos em que as coisas eram diabolicamente negras ou celestialmente brancas (Originalmente escrito para a revista Plenarium, da Câmara dos Deputados)

Maria Lúcia Petit, morta na Guerrilha do Araguaia

Por Hugo Studart

             Quando a Lei de Anistia foi aprovada pelo Congresso Nacional, em agosto de 1979, ocorreram reações contra a abertura política, como atentados à bomba de grupos militares extremistas. Entretanto, a partir daquele momento, instaurou-se no país um processo histórico tão inédito quanto irreversível de conquista das liberdades civis e de amadurecimento e lapidação da nossa democracia – processo que perdura até hoje, e parece não ter mais fim. Primeiro libertou-se os presos políticos e nossos irmãos exilados retornaram ao país. Foi uma festa, belíssima. Os partidos políticos puderam se reorganizar. Aboliu-se a censura prévia à imprensa e, diante de uma liberdade de expressão raras vezes usufruída em nossa história, iniciou-se um processo de revisão do passado recente, de crítica aos militares e a seus colaboradores – como também autocrítica ao pensamento dogmático e às práticas fundamentalistas das facções da esquerda.

            Uma imagem marcante, a povoar até hoje o imaginário pátrio, foi a fotografia do ex-guerrilheiro Fernando Gabeira desfilando de tanga na praia de Ipanema – era o início do fim do stalinismo e a ortodoxia gauche. No capítulo das críticas, muito mais longo e profundo, a imprensa começou a publicar denúncias sobre fatos ainda obscuros, como a morte sob tortura do jornalista Wladimir Herzog, em 1975, e do operário Manoel Fiel Filho, em 1976, dois episódios-ícones que marcaram o enfraquecimento definitivo do regime autocrático e precipitaram a abertura. A tortura era um cancro a ser encarado – como de fato o foi, na Constituinte dos anos subsequentes. Os mortos da luta armada urbana também foram contados. Mas havia também a questão muito mais dolorosa, até hoje não resolvida. Onde estariam, afinal, uma legião de desaparecidos políticos? Este é um tema que tortura até hoje os familiares, notadamente aqueles que tiveram seus entes queridos envolvidos na luta armada rural, conhecida como a Guerrilha do Araguaia. Continue reading »

dez 23, 2011

Sonata para Carmen

Por Hugo Studart

Carmen Navarro tem passado seus dias a espera de uma canção. Qual? Ora, qual ela não canta, é um segredo, um dos mais fechados dentre os arquivos secretos da ditadura militar brasileira. Mas a espera é torturante. Aos 83 anos, lúcida, culta e bem informada, Carmen aguarda a chegada da música que seu filho Hélio Luiz Navarro Magalhães compôs antes de partir. A última vez que se viram foi em 1970. Hélio tocou-lhe a canção e partiu. Foi se juntar a um punhado de estudantes que montavam uma guerrilha na região do Araguaia. Era um compositor, pianista, estudante de Química. Adotou o codinome de Edinho. Hoje figura na lista dos 133 desaparecidos da ditadura.

O coração de mãe, as informações que apura, tudo dá conta que Hélio Luiz pode estar vivo, resguardado sob a identidade que lhe arrumaram os militares. Por muitos anos Carmen alimentou a esperança de abraçar o filho ao menos uma vez. Hoje conforma-se em receber um singelo sinal de vida – a música que lhe compôs antes de se transformar num “desaparecido”. Somente os dois conhecem os acordes. Podem chegar por e-mail anônimo, ou via CD postado no Correio. Ela só espera esse acalento.

A história por trás desse drama é delicada, é pura nitroglicerina política – e provoca tantas fúrias quanto são as lágrimas derramadas por Carmen. Continue reading »

fev 28, 2011

O segredo dos índios mercenários

Por Lucas Figueiredo
(Publicado originalmente na GQ)

Sob um céu grande angular de nuvens pesadas, o território brasileiro dá um nó – o Norte se encontra com o Nordeste; a Amazônia lambe o Cerrado e três Estados dividem fronteiras (Pará, Maranhão e Tocantins). Talvez nenhum outro lugar do país seja tão indicado para guardar um segredo, sobretudo segredo grave como este. Naquele rincão perdido, quatro décadas atrás, teve lugar um dos episódios mais obscuros da história do Brasil: a transformação de índios em mercenários de guerra do Exército.

Agora, o segredo acabou.

Suruís: guias dos militares durante a Guerrilha do Araguaia

Em quatro meses de investigação, GQ reuniu provas que mostram que, no início dos anos 1970, no governo do general-ditador Emílio Garrastazu Médici, a Força Terrestre fez de pacíficos índios Aikewara – da aldeia Suruí Sororó, no Pará – máquinas de caçar e matar homens. Na aldeia, a reportagem localizou e entrevistou índios que confirmaram terem sido cooptados pelo Exército, por meio de tortura,alegam eles, para dar apoio às campanhas contra a Guerrilha do Araguaia. GQ também obteve cópia de um relato pessoal de um militar da reserva que participou das operações em que ele afirma que, na caçada humana, os índios mercenários não se limitaram a matar. Cortavam cabeças. Era a prova que o Exército exigia do dever cumprido. Exigia dos índios e dos camponeses que também se engajaram nesse serviço.A história já começa acelerada. Desde tempos imemoriais, a vida dos Aikewara é um constante fugir. Primeiro, fugiam da perseguição de índios inimigos. Depois, fugiam de massacres praticados pelos brancos e do risco de extinção. Agora, tentam fugir do passado.Foi correndo de seus primeiros algozes, os Kayapó Xicrin, no início do século XX, que algumas centenas de Aikewara chegaram ao sudoeste do Pará, a cerca de 100 quilômetros de Marabá. Era uma área de mata tropical fechada, com poucos rios, mas caça abundante. Por ali ficaram. Com a palha das palmeiras, construíram ocas redondas, e com o arco e flecha caçaram macacos, veados, caititus (animal parecido com o javali), tatus e cotias. A ração diária era complementada com o que conseguiam coletar (jabutis, peixes, castanha) e plantar (mandioca, batata doce, milho e banana). Quando não estavam cuidando do sustento, costumavam de ficar, todos juntos, numa tenda armada no centro da aldeia, a taquapucu, onde passavam horas pintando o corpo com tintas obtida do jenipapo e do urucum. Entre agosto e setembro, dançavam o Saporahái, evocando seu herói mítico, Mahyra, pai do sol e da lua. Não existia disputa de poder na aldeia, já que os caciques se sucediam em linha hereditária. Nas relações afetivas, viam com simpatia o casamento entre primos e de tios com sobrinhos, e não era condenável um homem se servir de mais de uma mulher e vice-versa. Não contavam a idade, porque isso não era importante.

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jul 1, 2009

A guerra acabou

A abertura dos arquivos secretos da ditadura sobre a Guerrilha do Araguaia será doloroso para os dois lados –militares e PCdoB. Mas pode também ser um alívio. Será como a dor de um parto, no caso, o parto da reconciliação com a história (Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S.Paulo, pág. 2, Opinião)

 

Por Hugo Studart

Que fique bem claro que ainda há batalhas pela frente, algumas delas bem difíceis. Contudo, caso haja alguma sensatez na cabeça das autoridades brasileiras, as civis e as militares, existe possibilidades de, ainda neste de 2009, a frase supracitada, expressão máxima de júbilo dos povos, também possa ser enunciada no Brasil: “A guerra acabou!”. Refiro-me, prezados leitores, àquela guerra ideológica fratricida ocorrida nos anos 70 da região do Araguaia – naqueles tempos em que o filósofo Isaiah Berlin chamou de “os mais terríveis da história” – quando exatos 69 jovens voluntaristas, sem armas, provisões ou apoio popular, tentaram implantar uma tirania comunista no Brasil — mas foram fulminados por um Estado autocrático, que cometeu violações aos Direitos Humanos. A aventura deixou um saldo de pelo menos 95 vítimas. Desses, 17 já descansam em sepulturas, sendo 10 militares, seis camponeses e uma guerrilheira. Ainda haveria 78 desaparecidos – 57 guerrilheiros, 20 camponeses e um soldado.

A sociedade brasileira jamais quis a guerrilha. Contudo, quase quatro décadas depois, a guerra não acabou. Poderia ter findado em 1979, com a Anistia recíproca. E se não terminou, a culpa maior é das Forças Armadas, que se recusam a entregar os corpos dos desaparecidos às suas famílias. Elas têm o direito sagrado de enterrá-los em sepulturas dignas. A novidade é que essa guerra pode estar chegando a seus estertores, graças à série de reportagens que o Estado de S. Paulo publicou dias atrás com os arquivos secretos do tenente-coronel Sebastião “Curió” de Moura. O que o militar revelou, em suma, é que o Exército teria executado 41 prisioneiros no Araguaia. E o mais importante, indicou os locais usados para a ocultação dos cadáveres. Os fantasmas se materializaram. Os mortos se levantaram e estão pedindo sepultura.

Antes de Curió cantar, já se sabia que o Exército executara prisioneiros. Em minhas pesquisas junto a militares, cheguei a identificar e a confirmar 16 execuções. Também registrei mais 28 possíveis execuções, no total de 44. Mas a lista tinha lacunas. A listagem de Curió é mais precisa; ainda assim contém imprecisões. Inclui como executados, por exemplo, três guerrilheiros que se entregaram, foram poupados e receberam novas identidades: Hélio Navarro de Magalhães, Antonio de Pádua Costa e Luiz Rene Silva. Pelo menos Navarro está vivo; até tempos atrás trabalhava numa multinacional francesa, em São Paulo. O fato de terem sido 41, 38 ou 16 execuções, é tema irrelevante para a História. Mas saber o destino de cada um, individualmente, é essencial para o acalento e a pacificação das famílias.

Nos últimos cinco anos, alguns oficiais superiores que combateram no Araguaia vêm abrindo seus próprios arquivos. Mas abriram de forma seletiva, ocultando fatos que detratam o Exército. A relevância do ato de Curió, tomado à revelia dos comandantes, é que provoca um desfecho histórico possível à guerra. Se os comandantes aproveitarem a oportunidade, seguirão atrás de Curió pelo rumo certo da História.

É ingenuidade imaginar que os papéis que restaram nos quartéis contenham revelações bombásticas. Militares podem ter agido como hunos, mas não eram imbecis. Não registraram os atos de exceção em documentos oficiais. Ademais, as pistas relevantes foram cremadas em 1975, por ordem do presidente Ernesto Geisel. Portanto, esqueçam história positivista. Só é possível reconstruir os fatos com metodologias pós-modernas, através de narrativas orais dos remanescentes. São estes os arquivos que os militares precisam abrir: os fragmentos de suas memórias.

Quando isso ocorrer, se ocorrer, restará comprovado que os militares cometeram de atos de exceção no combate aos guerrilheiros. Prenderam moradores da região de forma arbitrária, executaram prisioneiros, profanaram corpos, relegaram seus próprios valores e instauraram a Lei da Selva. Também ficará constatado que o presidente Emilio Médici deu a ordem expressa de executar prisioneiros – ordem ratificada pelo sucessor Geisel. A esta altura, que grande novidade há em confessar esses erros?

Por outro lado, restará igualmente comprovado que os atos de exceção não foram cometidos pela Forças Armadas em seu conjunto, mas tão-somente por uma pequena facção, a Comunidade de Informações, cerca de 40 homens no Araguaia. Nem se violou direitos o tempo inteiro. Nas duas primeiras campanhas, as Forças combateram segundo as Leis da Guerra. Quem morreu, tombou em combate; quem foi preso, está vivo. As violações ocorreram apenas nos derradeiros combates da Terceira Campanha, quando as tropas desceram na selva com a ordem de não fazer prisioneiros. Desapareceram com 47 guerrilheiros e cerca de 20 camponeses.

Se os militares abrirem seus arquivos, igualmente se descobrirá que os atos de barbárie foram recíprocos, e que os guerrilheiros chegaram a esquartejar vivo um garoto de 17 anos, João Pereira – primeiro cortaram-lhe as orelhas, as mãos, os pés, os braços – na frente da família, como punição exemplar pelo fato dele ter levado militares a um acampamento guerrilheiro, quando prenderam José Genoíno. A abertura dos arquivos será doloroso para os dois lados. Mas pode também ser um alívio. Será como a dor de um parto, no caso, o parto da reconciliação com a história

O Exército organiza uma expedição ao Araguaia para procurar corpos.  Curió indicou quatro locais de desova. Um deles, vale lembrar, é a cabeceira sul da pista de pouso de Bacaba. Deve haver ali três corpos. Já os restos de Rosalindo Cruz Souza, justiçado pelos companheiros por conta de um caso banal de adultério, ainda devem estar em frente à casa do sítio de um conhecido camponês, João do Buraco. Podem ir lá pegá-lo; está sem a cabeça. A torcida agora é que o comandante Enzo Peri esteja de fato fazendo a opção histórica que leve as famílias a gritar: “A guerra acabou”.

set 20, 2008

Devolvam os corpos dos desaparecidos

Corpo de Maria Lúcia Petit

Estamos diante de um paradoxo histórico e político. Há brasileiros deixados para trás e só os militares sabem onde estão. Mas resgatá-los é algo complexo. Exige o engajamento dos comandantes das Forças Armadas, para convencerem suas tropas a revelar onde deixaram os corpos. Ocorre que essa operação exige como contrapartida que os grupos de Direitos Humanos também “embainhem” suas “armas”, desmobilizem a campanha em curso de julgar militares por crimes de tortura (Artigo originalmente publicado pelo Jornal O Estado de S.Paulo, pág. 2, Opinião) 

 Por Hugo Studart

Já lá se vão quase 30 anos que familiares dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia entraram com um processo na Justiça exigindo que o Estado informe o destino dos guerrilheiros. O caso deve ser decidido em novembro pelo Superior Tribunal de Justiça. Querem, essencialmente, que as Forças Armadas abram os arquivos secretos da ditadura para que se descubra onde estão os corpos. São  78 desaparecidos conhecidos – 57 guerrilheiros, 20 camponeses e um soldado. Onde estão os cadáveres? As famílias têm direito aos restos mortais. Querem enterrá-los com dignidade, de acordo com seus credos, ritos fúnebres, ajoelhar em contrição, acalentar suas memórias, desejam enfim prestar honras a seus guerreiros

Ora, o direito ao sepultamento digno dos mortos está impregnado no imaginário ocidental, herança de nossa raiz cultural helênica. A mitologia está pontilhada de passagens em que se condena a profanação dos corpos. Historicamente, em pleno século de ouro da Grécia, o general Alcibíades, homem forjado em rígidos valores morais pelo próprio Sócrates, foi julgado e condenado à morte por ter abandonado insepultos os corpos de um punhado de soldados na Sicília. Para eles era uma profanação ultrajante que exigia o castigo máximo.

Há brasileiros deixados para trás e só os militares sabem onde estão. Mas resgatá-los é algo complexo. Exige o engajamento dos comandantes das Forças Armadas, para convencerem suas tropas a revelar onde deixaram os corpos. Ocorre que essa operação exige como contrapartida que os grupos de Direitos Humanos também “embainhem” suas “armas”, desmobilizem a campanha em curso de julgar militares por crimes de tortura. Estamos diante de um paradoxo. Se algum militar que combateu no Araguaia apontar onde enterrou um guerrilheiro, estará automaticamente confessando um ato criminoso. Imprescritível, inafiançável, passível de julgamento pela Corte Internacional de Haia, como quer o atual ministro da Justiça Tarso Genro.

Dias atrás apareceu uma seqüência de fotografias do corpo de dois guerrilheiros. As fotos foram sacadas em setembro de 1972. Um ex-combatente, o sargento Ciro Oliveira, hoje reformado, guardou-as na gaveta por 38 anos. Revelou-as só agora. Um dos guerrilheiros guardava um diário. Foi identificado na hora como sendo o médico e guerrilheiro João Carlos Haas Sobrinho. Do outro, o sargento jamais soube o nome. Numa das imagens, um helicóptero militar leva os dois corpos. O que essas fotos têm de relevantes? Ora, são mais uma prova cabal de que militares, a serviço do Estado, desapareceram com brasileiros. Na Grécia Antiga, o general Alcibíades foi condenado à morte por muito menos.

Até hoje nenhuma autoridade dos governos democráticos pós-1985 quis saber a opinião das famílias dos desaparecidos do Araguaia — sendo 57 guerrilheiros, cerca de 20 camponeses e um soldado, registre-se mais uma vez. Elas querem julgar militares por crimes contra a Humanidade? Ou preferem enterrar seus mortos? Os militares, por sua vez, preferem o fim da guerra e entregar os despojos dos guerreiros inimigos ou permanecer na penumbra da lei da selva?

Os militares cometeram, sim, atos de exceção. Submeteram camponeses a tratos violentos, torturaram guerrilheiros, executaram prisioneiros, vilipendiaram cadáveres, deixaram corpos insepultos, como o de Lúcia Maria de Souza. Cerca de 30 guerrilheiros morreram em combate, como guerreiros. Contudo, outros 25, aproximadamente, foram presos e depois executados. Entre cinco e sete deles foram decapitados, como Jaime Petit e Arildo Valadão. As violações de direitos foram recíprocas.

O primeiro cadáver deixado insepulto foi o de um soldado, o cabo Odilo Rosa. O comandante guerrilheiro Osvaldo Orlando Costa queria expô-lo insepulto como troféu da revolução. O primeiro civil executado pelos guerrilheiros foi um camponês, o adolescente João Pereira, 17 anos. Seu pai foi visitado por uma equipe de agrônomos do INCRA perguntando pelos “paulistas”, como eram chamados os guerrilheiros. O garoto recebeu ordens do pai para servir de guia. O chefe dos “agrônomos” era o major Lício Maciel, cuja equipe prendeu José Genoíno e matou outros 12. Deflagrada a guerrilha, o garoto João Pereira foi julgado como “traidor do povo” pelo Tribunal Revolucionário e mutilado, na frente da família, a golpes de facão – primeiro cortaram-lhe as orelhas, depois as mãos, os pés, as pernas… Outros quatro também foram executados pelo Tribunal Revolucionário, sendo três camponeses e um guerrilheiro, acusados de colaboração e traição.

No início, em 1972, os militares combateram segundo as leis da guerra. Quem morreu tombou lutando, quem foi preso está vivo. As fotografias de Haas Sobrinho são dessa fase. Mas quando entraram na selva para a Terceira Campanha, em fins de 1973, com ordens do presidente Emílio Médici de não fazer prisioneiros, a barbárie se generalizou. Nenhum prisioneiro retornou. Nem como cadáver.  As Forças Armadas deixaram o Araguaia em fins de 1974.

É possível resgatar muitos corpos. Há uma década venho pesquisando a guerrilha junto aos próprios militares. Eles me informaram que cerca de 25 estão enterrados nos cemitérios de Xambioá e Marabá. Os demais foram deixados na mata. Mas o local dessas sepulturas jamais foi registrado nos arquivos. Será preciso recorrer àqueles que participaram das missões. Em 1975 o Exército voltou ao Araguaia para a chamada “Operação Limpeza”. Entre 12 e 15 corpos foram exumados e cremados, entre eles o de Osvaldão.

Ainda haveria uma dúzia de corpos nos cemitérios da região, na ala dos indigentes. O corpo do guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza estaria num barranco de rio no sítio de João do Buraco, camponês conhecido na região. Sem cabeça. Há um corpo na cabeceira da pista de pouso de Marabá. E três corpos numa área de treinamento militarem Brasília. Hátrês desaparecidos que mudaram de lado e estão vivos, sob nova identidade.

É muito difícil que algum militar se ofereça à imolação pública promovida pelas entidades de Direitos Humanos revelando o que sabe sobre os corpos. Cabe ao governo perguntar seriamente às famílias dos guerrilheiros mortos o que preferem: julgar os militares pelos crimes bárbaros que cometeram? Ou patrocinar uma conciliação histórica que comece revelando os erros dos dois bandos naquela guerra suja. Uma anistia recíproca que começaria com a indenização das famílias do cabo Rosa e de cinco outros soldados abatidos em combate; do garoto João Pereira e dos demais camponeses esquecidos; e que termine na localização e devolução de todos os cadáveres.

A professora Sônia Haas, irmã de João Carlos, se confessa num “dilema complexo”. Seu coração prefere encerrar a história do irmão “com a dignidade que ele merece”. E para ela e sua família, forjada no catolicismo, digno é dar a João Carlos um ritual de despedida e uma sepultura. “Mas a razão pede mais, exige que os culpados sejam julgados”, acrescenta Sônia. “Meu dilema é bastante complexo, pois quero alcançar as duas coisas”. Eis uma encruzilhada da História.

Defendo o direito sagrado e inalienável das famílias de se ajoelhar diante do túmulo de seus guerreiros. Não há mortos de esquerda ou de direita para as famílias dos guerrilheiros e dos militares mortos em combate. Há mortos, há cadáveres, tem que haver paz. A sociedade brasileira não pode ficar refém ad eternum de uma guerra que ela não quis, não quer e não vai querer que continue manchando a história nacional.

abr 11, 2005

“O IMAGINÁRIO DOS MILITARES NA GUERRILHA DO ARAGUAIA”

Dissertação de Mestrado em História, defendida em 11 de abril de 2005, dentro do Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília, e na linha de pesquisa Discurso, Imaginário e Cotidiano, tendo como orientadora a professora Cléria Botelho da Costa, e como membros da banca examinadora as professoras Diva Couto Muniz e Márcia Martins Kuyumjian, do Departamento de História da UnB, e o professor José Geraldo de Sousa Júnior, do Departamento de Direito da UnB. Posteriormente, a dissertação foi revista e ampliada para publicação em livro, com o título de “A Lei da Selva” (Geração Editorial, 2006), tendo sido agraciado no Prêmio Herzog de Direitos Humanos e como finalista do Prêmio Jabuti.

Introdução

 

Este trabalho examina fatos históricos ocultados pelas pretensas razões de Estado, por meio de mentiras deliberadas, de violações de normas jurídicas, morais e políticas. Foi nos tempos do Estado autocrático implantado no Brasil a partir de 1964, que ocorreu uma insurreição armada no coração das selvas amazônicas, episódio da nossa história que ficou conhecido como a Guerrilha do Araguaia. Especificamente, tem o propósito de trazer à luz elementos que possam vislumbrar o imaginário dos militares na Guerrilha do Araguaia. A preocupação é analisar o significado dos conflitos do Araguaia sob a ótica dos militares brasileiros, assim como interpretar seus sistemas de representações à luz de um quadro teórico e dos valores da época. Trata-se de algo em si difícil, visto que a maior parte dos episódios do conflito, notadamente aqueles protagonizados pelas Forças Armadas, permanece sob o império do mistério.

Mas, afinal, o que foi a tão decantada Guerrilha do Araguaia? A Guerrilha do Araguaia foi, em suma, um levante armado de inspiração marxista que pretendia desencadear uma guerra popular revolucionária no Brasil, partindo do campo para a conquista das cidades. O movimento foi promovido pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B) na região do rio Araguaia, na confluência entre quatro Estados – sul do Pará, sul do Maranhão, nordeste do Mato Grosso e norte de Goiás (hoje Tocantins) -, ao longo do rio Araguaia, região conhecida pelo nome de Bico do Papagaio. Os conflitos ocorreram em um polígono de aproximadamente 6.500 quilômetros quadrados entre o Pará e o Tocantins, área um pouco maior do que o Distrito Federal, onde habitavam cerca de 20 mil pessoas.

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abr 11, 2005

IDENTIFICANDO O IMAGINÁRIO DOS ATORES DO ARAGUAIA – “O Imaginário dos Militares na Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, Cap. 2)

 

 

“Se as coisas são inatingíveis… ora!

Não é motivo para não querê-las…

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!”

(Mário Quintana)

2.1 – A borboleta e a Pistola

 

A guerrilheira Dinalva Conceição Oliveira Teixeira deixou lendas heróicas em sua passagem de quatro anos pela região do rio Araguaia. Corre na tradição oral da região que, de certa feita, quando em combate, mesmo com uma bala alojada no pescoço, teria virado borboleta antes de desaparecer na mata diante dos olhos em estupor dos inimigos[1]. Por conta da sua determinação, os guerrilheiros a obedeciam. Pela coragem testada nas armas, os soldados a temiam. Para os militares que entraram na mata, rondava sempre o temor da sua aparição. Nada pior, acreditavam, do que encará-la de frente. Corriam boatos de que ela seria implacável, invencível. Dina: foi este o codinome que ela escolheu ao deixar para trás,em São Paulo, a identidade original de geóloga, a fim de aderir à Guerrilha do Araguaia. A subcomandante Dina, como gostava ser tratada a partir do momento em que foi promovida a vice-líder do Destacamento C, se tornou um dos ícones maiores da guerrilheira extremista. Protagonista da ação, povoou o imaginário da reação militar.

Certa vez, o guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza, um advogado baiano que usava o codinome de Mundico, esteve diante da determinação implacável da subcomandante. Bastou uma única vez. Era um caso banal de adultério, triângulo entre Rosalindo e o casal de guerrilheiros Arlindo Valadão, o Ari, e Áurea Elisa Pereira Valadão, a Áurea. Levado às barras do Tribunal Revolucionário das Forças Guerrilheiras do Araguaia – era este o nome oficial da instituição – Rosalindo foi acusado de trair a revolução[2]. Cinco companheiros participaram de seu julgamento, entre eles Dina[3]. Sete camponeses testemunharam o episódio[4]. Amarrado numa árvore, com as mãos nas costas, Rosalindo, escutou a acusação. Foi sentenciado ao justiçamento por unanimidade dos votos. Quem executaria a sentença? Dina levantou-se em silêncio e caminhou em direção ao companheiro. Parou a dois metros de distância e apontou seu revólver Taurus calibre 38 para o coração de Rosalindo. Ele nada falou, não chorou, não pediu clemência. Apenas encarou Dina nos olhos na hora em que ela apertou o gatilho. Rosalindo foi enterrado ali mesmo, num banco de areia a 250 metros da casa sede do sítio, enrolado numa rede. Seu corpo jamais foi encontrado. Ele figura na lista dos desaparecidos políticos do Ministério da Justiça. Esses fatos ocorreram a 26 de agosto de 1973[5]. Continue reading »

abr 11, 2005

DESVELANDO A GUERRA ABERTA – “O Imaginário dos Militares na Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, cap. 3)

A forma extrema de poder é Todos contra Um;

a forma extrema da violência é Um contra Todos

Hannah Arendt

3.1 – Um Imaginário Plural

 

Costuma-se distinguir os militares e dirigentes do regime estabelecido em 1964 entre “moderados” e “linha dura”. Na verdade, a divisão no governo e dentro das Forças Armadas era bem mais complexa, revelando a existência de um imaginário plural entre os militares. O primeiro presidente do regime militar, o general Humberto de Alencar Castelo Branco, como demonstra a rica historiografia desse período, era um político moderado e teria projetos de redemocratização do País. Vinha, naturalmente, de uma longa tradição positivista do Exército Brasileiro, forjado no pensamento de Augusto Comte e acreditando, acima de tudo, “na ordem como condição básica para o desenvolvimento da proposta civilizadora e modernizadora do país”[1].

A ascensão da “linha dura”, igualmente positivista, mas também forjada no novo imaginário anticomunista, se deu quando o grupo do então ministro da Guerra, o general Arthur da Costa e Silva, se impôs a Castelo como seu sucessor. Já no poder, Costa e Silva trouxe de volta ao Brasil seu amigo gaúcho, Emílio Garrastazu Médici, então adido militar em Washington, para ocupar o cargo de ministro-chefe do Serviço Nacional de Informações, o SNI[2]. Continue reading »

abr 11, 2005

DESVELANDO A GUERRA ABERTA – “O Imaginário dos militares na Guerrilha do Araguaia”, cap. 3

A forma extrema de poder é Todos contra Um;

a forma extrema da violência é Um contra Todos

Hannah Arendt

3.1 – Um Imaginário Plural

 

Costuma-se distinguir os militares e dirigentes do regime estabelecido em 1964 entre “moderados” e “linha dura”. Na verdade, a divisão no governo e dentro das Forças Armadas era bem mais complexa, revelando a existência de um imaginário plural entre os militares. O primeiro presidente do regime militar, o general Humberto de Alencar Castelo Branco, como demonstra a rica historiografia desse período, era um político moderado e teria projetos de redemocratização do País. Vinha, naturalmente, de uma longa tradição positivista do Exército Brasileiro, forjado no pensamento de Augusto Comte e acreditando, acima de tudo, “na ordem como condição básica para o desenvolvimento da proposta civilizadora e modernizadora do país”[1].

 

A ascensão da “linha dura”, igualmente positivista, mas também forjada no novo imaginário anticomunista, se deu quando o grupo do então ministro da Guerra, o general Arthur da Costa e Silva, se impôs a Castelo como seu sucessor. Já no poder, Costa e Silva trouxe de volta ao Brasil seu amigo gaúcho, Emílio Garrastazu Médici, então adido militar em Washington, para ocupar o cargo de ministro-chefe do Serviço Nacional de Informações, o SNI[2].

 

O grupo de militares que atuou na Guerrilha do Araguaia, por sua vez, dispunha de um imaginário social. Todos eram militares, funcionários públicos a serviço do regime político estabelecido em 1964. Contudo, mas não era um imaginário monolítico – e era um imaginário muito mais complexo do que a divisão binária entre “moderados” e “linha dura”. Tratava-se de um imaginário plural. Uns usavam fardas verde-oliva, cabelos curtos e saíam em patrulhas ostensivas para prender os “terroristas”. Faziam questão de seguir as mais rígidas regras do Regulamento Disciplinar do Exército (RDE) e dos manuais de treinamento militar. Eram as tropas regulares – como eram chamadas – das Forças Armadas Brasileiras em campanha no Araguaia, cerca de 3.200 soldados mobilizados ao longo de todo o período, pouco mais de dois anos.

 

De acordo com os relatos orais de militares, o segundo grupo, muito menor – uma centena de homens – atuava em trajes civis, usava cabelos longos, como os hippies, e barba contestadora, tal qual Che Guevara. Um, com seus cabelos louros cortados abaixo dos ombros, aparentava ser um surfista carioca; o outro gostava de se parecer com Jesus Cristo; um terceiro se esforçava para ser confundido com o cantor Sidney Magal. Certa vez, parte dessa turma se identificou como militares ao guerrilheiro Lúcio Petit da Silva, o Beto[3]. Virando-se para um oficial, o guerrilheiro ironizou: “Não acredito que vocês pretendem combater a guerrilha com essa tropicália!”[4]. Mas esse grupo fazia parte das Forças Armadas. Eram as chamadas “tropas não-regulares” – ou “descaracterizadas” -, agentes da Comunidade de Informações[5], como se autodenominavam os membros dos serviços de inteligência e de segurança militar das três Forças – o Centro de Informações do Exército (CIE), o Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (CISA) e o Centro de Informações da Marinha (CENIMAR).

 

Ainda de acordo com os relatos orais de militares, nas operações de combate à guerrilha urbana os membros da Comunidade de Informações mantinham-se ao largo dos quartéis e da cadeia usual de comando, visto que longe dos comandantes do Rio de Janeiro e Brasília, essa turma adquiriu enorme independência de ação. Como quase todas as operações de repressão política eram secretas, eles sequer precisavam se reportar aos coronéis que estavam na região. As equipes “não-regulares” geralmente eram comandadas por um capitão, muitas vezes um sargento. Por vezes, as decisões na mata eram tomadas até por um simples cabo, cuja missão era a de caçar os inimigos da forma mais pragmática que poderiam conceber, disfarçados, dissimulados. E não importava por quais meios, o único objetivo essencial era apanhá-los, vivos ou mortos – inicialmente davam preferência a apanhá-los vivos, para que informações sobre a localização dos companheiros pudessem ser extraídas nos interrogatórios. Foram mobilizados cerca de 60 desses agentes ao longo de toda a guerrilha, com o objetivo de aniquilar os inimigos. Mas ressalte-se que independência operacional não pode ser confundida com autonomia. Tudo era feito dentro da hierarquia de comando, autorizado, consentido. Não há nada que tenha sido feito sem formulação, determinação, conhecimento, aprovação, dos chefes militares. Todos. A começar pelo general que estava no exercício da Presidência República.

 

Na época dos conflitos os próprios militares faziam – e ainda fazem – a diferenciação entre tropas regulares e não-regulares. Portanto, essa distinção interna fazia faz parte do imaginário que presidiu as ações dos militares na Guerrilha do Araguaia. No teatro de operações, atuavam juntos, combatiam ombro a ombro. Ademais, os dois grupos aceitavam o objetivo geral das Forças Armadas e os valores do Exército Brasileiro. Igualmente, estavam centrados no objetivo comum de reprimir aos movimentos de esquerda e extirpar o foco guerrilheiro da região do Araguaia, apreendidos por eles como terroristas.

 

As diferenças eram basicamente manifestadas pelas táticas de combate distintas – se deveriam combater os guerrilheiros usando táticas de guerra regular ou táticas de partisans – como também na busca de métodos diferenciados para legitimar as Forças Armadas junto à comunidade. Os membros da Comunidade de Informações eram mais duros politicamente e buscavam a legitimação nas próprias Forças Armadas. As tropas regulares, por sua vez, agregavam ao fator político práticas sociais assistencialistas de legitimação. Ademais, essas diferenciações em torno de táticas de combate e de legitimação, representavam muito mais uma disputa de poderes de diferentes grupos no seio das Forças Armadas.

 

O Dossiê Araguaia é bastante rico em detalhar essa disputa – ainda que em certos momentos seus autores manifestem a tendência a criar uma dicotomia entre os dois grupos, até algum maniqueísmo. Seus autores chegaram a criar um capítulo só para tratar do assunto, batizado por eles de “Conflitos de Comando”. O Dossiê começa lembrando que em todos os países, qualquer que seja o seu regime político, os militares são treinados basicamente para a Guerra Regular, “forma de guerra que segue uma série de princípios éticos, conhecidos como as Leis da Guerra”[6].  Mas, a partir de 1965, prossegue o Dossiê, com a explosão de uma série de guerras revolucionárias na América Latina, as Forças Armadas brasileiras começaram a especializar uma parte de seus efetivos para esse tipo de conflito. “Foi então criada uma doutrina no sentido de combatê-la, uma doutrina contra-revolucionária”[7], relatam os autores do Dossiê, eles mesmos membros dessa Comunidade de Informações. Detalha o Dossiê:

 

“Enquanto em uma Guerra Regularexistem posturas rígidas de combate, tais como uso de fardamento, linhas de frente, linhas de defesa, zonas de combate, zonas do interior e territórios a defender, na Guerra Revolucionária o inimigo mescla-se à população, buscando tornar-se um peixe dentro d’água, e esta – a população- e não os territórios, é o objetivo principal”[8]

 

“A guerrilha urbana exigiu que uma parte diminuta das Forças Armadas adquirisse, em um reduzido espaço de tempo, fundamentalmente com a prática do dia a dia, os conhecimentos que não estavam nos parâmetros regulares e não constavam nos manuais da instrução regularmente ministrada. Logo aprendemos que ‘ponto’ representava, no linguajar da guerrilha, algo mais que um simples sinal gráfico, e que ‘massa” não era uma tentação para os que estão em dieta, mas a denominação dada ao povo a caminho de encontrar seu destino revolucionário”[9].

 

Cabe atentar para a importância das comunidades de informações no contexto da Guerra Fria, visto que

 

“Jamais existiu um governo baseado exclusivamente nos meios da violência. Mesmo o mandante totalitário, cujo maior instrumento de domínio é a tortura, precisa de uma base de poder – a polícia secreta e sua base de informantes”[10]

 

No Araguaia, do início ao fim dos conflitos, esses dois grupos – as tropas regulares e a Comunidade de Informações – disputaram a hegemonia na região. Divergiam em suas visões de como deveria ser a repressão aos adversários do regime, ainda que os objetivos que norteavam as ações de cada um dos grupos fossem os mesmos: caça e eliminação dos focos dos guerrilheiros. Os comandantes fardados defendiam os combates abertos contra os guerrilheiros e a tentativa de conquistar as populações locais com ações assistencialistas do Estado, as chamadas ACISOS – Ação Cívico Social -, espécie de blitz da cidadania, que oficializava casamentos, registrava nascimentos, enviava juízes, médicos, dentistas, equipes de caça ao mosquito da malária e toda sorte de serviços públicos que pudessem melhorar as condições sociais daquela população, há décadas abandonada pelos governos[11]. Mas as ACISO não pretendiam tocar na estrutura econômica e social estabelecida, tão-somente confortar a comunidade com medidas assistencialistas e paliativas.

 

A Comunidade de Informações preferia ações cirúrgicas de eliminação física do inimigo, combinada com o uso de técnicas de intimidação das populações locais para provar que os militares eram mais fortes que os guerrilheiros. Os dois grupos também brigaram pelo comando das operações. Na disputa pela hegemonia, entraram em conflito já nos primeiros dias, antes mesmo de iniciarem os combates. Para os autores do Dossiê, no combate contra as guerrilhas, os métodos utilizados pelas tropas regulares não conseguiriam atingir os objetivos propostos, haja vista que,

 

“As ações repressivas postas em prática usualmente na Guerra Irregular, fogem àqueles conceitos éticos tradicionais definidos para a Guerra Regular. A guerrilha, rural ou urbana, é uma guerra suja, e nela não são válidas as conhecidas Leis da Guerra e nem os pactos instituídos pela Convenção de Genebra. Quem insistir em utilizá-los, será derrotado”

 

“A então chamada repressão, que envolvia a ativa participação dos Centros de Inteligência militares, fechados em uma estreita colaboração mútua, dotados de um espírito de equipe a toda prova, não deixou de ser encarada com reservas por um grande número de militares, imbuídos dos princípios éticos da Guerra Regular, que lhes haviam sido incutidos nos bancos escolares das Academias Militares. Não se mostraram capazes de entender e assimilar aquela forma de luta não encontrada em nenhum manual de instrução. Isso provocou um certo grau de antagonismo e atritos entre os designados para reprimir a Guerra Revolucionária e o restante da Força”

 

“É verdade que a repressão não poderia estar e nem sempre esteve absolutamente correta no combate à guerra suja. Não foram poucas as vezes que, em certas regiões, em obediência ao princípio da oportunidade e considerando a premência do tempo –ambos fundamentais no combate a uma guerrilha, seja ela urbana ou rural – os comandos, responsáveis pela segurança das áreas físicas em que está dividido o território nacional,  fossem atropelados e, algumas vezes mesmo, ignorados, criando conflitos que tinham que ser solucionados em escalões superiores” [12]

 

Os autores do Dossiê Araguaia, todos membros ativos da Comunidade de Informações, se esforçam em defender a necessidade de utilização de tropas de não-regulares e de técnicas militares não previstas na Convenção de Genebra, como a única maneira eficaz de combater na chamadas “guerras irregulares insurrecionais” – a denominação militar adequada para o conflito ocorrido no Araguaia. Chegaram a elaborar um Manual Anti-Guerrilha, inspirado nas técnicas empregadas pelos comandos alemães de caça aos partisans soviéticos durante a Segunda Guerra, os Jagdkommandos, e mais tarde aperfeiçoadas por Mao Tse-Tung para a tomada do poder na China e pelo Exército francês durante das guerras da Indochina e da Argélia.

 

No Araguaia, relata o Dossiê, ocorreu um conflito permanente entre os comandantes militares, que divergiam sobre o emprego de tropas regulares ou das não-regulares nos combates. Os dois grupos não se entendiam, em especial nos primeiros meses de combate. Os membros da Comunidade de Informações queixavam-se muito aos superiores da inexperiência das Tropas Regulares, principalmente na Primeira Campanha, quando eras formadas basicamente por recrutas semi-imberbes. Diziam que faltava aos jovens soldados fardados “mentalidade de informações”, expressão muito utilizada na época. Segundo o Dossiê, as tropas regulares e seus métodos tradicionais foram responsáveis pelo fracasso da Primeira Campanha, como revelam os trechos a seguir:

 

“Não poucas vezes essa falta de entendimento resultou no insucesso de missões de Inteligência. Quando a missão objetivava apenas o levantamento de informes -Missão de Informações – tais problemas não existiam, pois o comando ficava nas mãos de um profissional de Inteligência”

 

“A ausência de mentalidade de informações entre as Tropas Regulares permitiu que os guerrilheiros do Araguaia, graças à presença de militares uniformizados, tomassem conhecimento daquilo que se pretendia sigiloso, abandonassem suas bases e se retirassem para a selva” [13]

 

Na Primeira Campanha, houve uma clara hegemonia das Tropas Regulares. Aos poucos, elas foram afastadas da área pela Comunidade de Informações. Na Segunda Campanha, ainda se viu pelo Araguaia tropas especiais uniformizadas, em operação conjunta com os agentes da inteligência militar. A partir daí, contudo, a concepção de combate, o comando das tropas, e principalmente, as operações de extermínio aos guerrilheiros, passaram a uma clara e total hegemonia da Comunidade. Assim o Dossiê aborda o assunto:

 

“O conhecimento do trabalho de campo do PC do B na região do Araguaia e o início imediato dos levantamentos a respeito pelos Centros de Inteligência militares, que, obedecendo ao princípio da oportunidade, se anteciparam a qualquer decisão partida da tradicional cadeia de comando, ocasionou um primeiro conflito: entre o comando da área[14] e esses Centros de Inteligência, na época diretamente subordinados aos ministros das respectivas Forças”

 

“Nesse sentido, enquanto os especialistas dos Centros de Inteligência militares, conhecedores do quadro nacional da subversão e com experiência de outras operações de combate à guerrilha urbana, optaram por operações de Inteligência, com equipes de agentes descaracterizadas, realizando um paciente trabalho de busca de informes e, até, caso necessário, possíveis ações repressivas, alguns comandantes optaram pela utilização da tropa uniformizada, composta por conscritos, equipada e armada para ações de Guerra Regular” [15]

 

Mas, embora se observe a disputa pelo poder entre as tropas regulares e as não-regulares no que tange à hegemonia da ação na Guerrilha do Araguaia, insisto em lembrar que ambas faziam parte de uma mesma instituição – as Forças Armadas brasileira. Portanto, foram forjadas por valores, princípios e regras comuns, enfim, por um imaginário que abrigava todas as distinções dos grupos, subgrupos e divisões acima apontadas.         

 

 

         3.2 – O Brasil Pré Araguaia
Uma das obras mais conhecidas desse novo regime seria a criação de um sistema de informações e de segurança para o estado, complexo, gigantesco, original, poderoso, invisível, um sistema que tinha por função primordial vigiar com seus olhos, como os mil olhos de Argos, as entranhas do tecido social para ajudar os militares a governar com mãos de ferro – onividentes, mas invisíveis. Em seus estudos sobre o fenômeno da vigilância como instrumento de poder, Michel Foucault explica que

 “seu funcionamento é de uma rede de relações de alto a baixo, mas também de um certo modo de baixo para cima e lateralmente; essa rede ‘sustenta’ o conjunto, e o perpassa de efeitos de poder que se apóiam uns sobre os outros; fiscais perpetuamente fiscalizados. O poder na vigilância hierarquizada das disciplinas não se detém como uma coisa, não se transfere como uma propriedade; funciona como uma máquina” [16]

 

Carlos Fico apresenta uma análise original sobre como funcionava essa “máquina” de vigiar – e talvez de punir. Os militares criaram, em verdade, duas diferentes máquinas de vigilância e de controle social. Uma foi chamada de Comunidade de Informações; essa só vigiava. A outra era a Comunidade de Segurança; essa vigiava e punia. As duas juntas formavam o Sistema de Informações e de Segurança do regime militar. Fico lembra que o imaginário brasileiro acabou consolidando uma impressão distorcida do verdadeiro papel e dos integrantes dessa comunidade, misturando as atividades de inteligência com as de repressão política, espionagem, tortura e execuções, sob a égide dos folclóricos “arapongas”[17] do SNI, segundo o imaginário social.

Fico faz, dessa forma, uma distinção entre os dois organismos originais do regime militar. A Comunidade de Informações estava sob a égide do SNI, um órgão que significativamente foi criado por lei do Executivo aprovada pelo Congresso Nacional, a 13 de junho de 1964. Inicialmente, foi imaginado para subsidiar a Presidência da República com dados relevantes para a tomada de decisões, mas, paulatinamente, foi sendo ocupado pela “linha dura” e incorporou outros poderes e funções. “Criei um monstro”, diria mais tarde o general Golbery do Couto e Silva, o criador e primeiro chefe do SNI[18]. Para Fico, Golbery

“não integrava a linha dura, sendo conhecido por sua prosápia com fumos de intelectual, perfil que o identificava ao grupo da Escola Superior de Guerra, diferentemente dos militares exaltados, mais ligados às tropas e aos arroubos dos que preferiam decidir os problemas pela força. Sua preocupação com a necessidade de um órgão de informações eficaz existia havia muito tempo, remontando aos anos 1950. Para a constituição do SNI lançou mão de experiências pré-existentes, como o antigo Serviço Federal de Informações e Contra-Informações (SFICI). Pôde contar com a assessoria norte-americana e aproveitou material que vinha acumulando no Ipes. Portanto, o SNI foi criado às claras. (…) Ao destacar a origem legal do SNI e a sua antecedência com relação ao AI-5, não quero, em absoluto, sugerir que o órgão tivesse uma origem e atuação democráticas. (…) Porém, é preciso afastar as imprecisões que foram criando em torno do SNI”[19]

A partir de 1968, já sob a direção de Médici, o SNI passaria a dirigir as antigas Seções de Segurança Nacional, existentes desde 1946, agora transformadas nas Divisões de Segurança e Informações – as DSI -, implantadas nos ministérios civis. A nova estrutura criada formou a Comunidade Nacional de Informações. A DSI do Ministério da Agricultura, por exemplo, acompanhava a produção agrícola do país, detectavam os problemas climáticos e os pontos de gargalo para o escoamento da safra. Mas também investigava casos de irregularidades e de corrupção dentro da estrutura do ministério. Tudo isso era passado para o SNI. A análise política – nacional e estadual – era tarefa exclusiva do SNI. Esse sistema, uma abrangente rede de informações para auxiliar o governo a tomar decisões, seria o monstro ao qual Golbery mais tarde se referiu. Mas esse monstro não fazia operações de repressão política. A observação é de Carlos Fico:

“Ora, Médici era muito diferente de Golbery e, na verdade, passaria à história como o homem sob cuja presidência o Brasil assistiria o auge da repressão desencadeada pela ditadura militar. Certamente, sob seu mando, o SNI mudaria. Mais do que um órgão de assessoria e de caráter informativo, o SNI transformou-se em instância consultiva, capaz de vetar nomes cogitados para cargos públicos. Em julho de 1968, logo após a famosa Passeata dos Cem Mil, e diante da preocupação de Costa e Silva com a ordem pública, Médici sugeriu um instrumento assemelhado ao AI-5, que somente viria ao final do ano, sugestão recusada, na ocasião, por Costa e Silva: o SNI havia endurecido”[20]

E, mesmo sob a direção de Médici, ou ainda depois, sob a direção do general Carlos Alberto Fontoura, outro gaúcho que dirigiu o órgão do início ao fim do governo de seu amigo Médici, de1969 a1974, o SNI não participava diretamente de ações de repressão política. Fico afirma que a Comunidade de Informações

“não prendia ou torturava, sendo as Divisões de Segurança e Informações (dos ministérios) repartições públicas que se distinguiam das demais pela presença de militares, pelo seu ethos próprio (ânsia persecutória de base anti-comunista) e pelo cuidado com as normas de sigilo. (… ) Criavam problemas para os ministros, já que obedeciam, antes de tudo, ao SNI. Mas não executavam, tarefa que cabia à polícia política, isto é, ao sistema Codi-DOI, principalmente”[21]

Quando teve início a guerrilha urbana no Brasil, a partir de fins de 1968, o regime criou a Comunidade de Segurança, segundo a nomenclatura de Fico, com a estruturação dos Codi-DOI (Centro de Operações de Defesa Interna – Destacamento de Operações de Informações)[22] que, por sua vez, estavam integrados aos três centros de inteligência militares, o Centro de Informações do Exército (CIE), o Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (CISA) e o Centro de Informações da Marinha (CENIMAR).

Fico ressalta, ainda, que os militares só teriam estruturado e institucionalizado a Comunidade de Segurança quando foram surpreendidos pelo início da luta armada nas cidades. Ou seja, “a efetivação de antiga aspiração da esquerda pelo confronto direto com o governo tendo em vista a tomada do poder pela força”[23]. A função essencial desse segundo sistema era o de operar como polícia política do regime militar. Foi esse segundo sistema, formado pelos Codi-DOI e pelos três centros de inteligência militar, que prendia “subversivos”, os torturava e, muitas vezes, tomava as providências necessárias para que “desaparecessem”.

De qualquer forma, a partir de 1968 estava criado todo um grande sistema de segurança e informações, com duas comunidades com funções claramente distintas, a de Informações e a de Segurança. Seus integrantes eram sempre militares com cursos de aperfeiçoamento na área de Inteligência. A maioria foi treinada no Centro de Estudos de Pessoal do Exército, no Forte do Leme, Rio de Janeiro. Um grupo significativo também recebeu treinamento na Escola das Américas, localizada no Panamá, dentro do território sob controle militar dos Estados Unidos.

Quase todos se conheciam e se revezavam nos diferentes cargos e funções. Ora serviam no CIE, ora eram transferidos para o SNI, por vezes estavam na Polícia Federal, e muitas vezes, quando iam para a reserva, conseguia um novo empregoem alguma DSIde ministério civil. Por essa razão, no imaginário deles próprios, eram todos membros daquilo que começaram a chamar de Comunidade de Informações, “homens de Informações”, “especialistas em Informações”, sempre grafado com letras maiúsculas, da mesma forma que os militares grafam com maiúsculas as armas de Infantaria ou Cavalaria, por exemplo. E mais do que afinidades pessoais, eles tinham uma ideologia comum – o anticomunismo empedernido – ou mesmo uma causa oficial – o combate aos subversivos -, os membros dessas duas comunidades, de Informações e de Segurança, que para eles próprios eram uma só, a nova arma de Informações, trabalhavam em sinergia e tinham uma função comum na estruturação da ditadura militar.

 

É necessário esclarecer que o trabalho prioritário dos órgãos de segurança militares era combater os chamados “movimentos subversivos”, que ameaçavam o regime com a luta armada. A repressão política continuou sendo feita pela Polícia Federal, que tinha (e continua tendo) um órgão especializado, o velho DOPS – Divisão de Ordem Política e Social – do Estado Novo. De qualquer forma, todos eles, as comunidades de Informações, de Segurança e polícia política compartilhavam da mesma ideologia baseada na idéia da Segurança Nacional, onde às Forças Armadas foram atribuídos poderes de vida e de morte sobre aqueles que constituíam ameaça à ordem estabelecida.

Se o regime militar era incensado pelas Forças Armadas como um todo, se a repressão aos “terroristas” e aos “subversivos” era igualmente aplaudida nos quartéis, há de se ressalvar que os excessos cometidos pela Comunidade de Informações (ou apenas pela de Segurança, para usar a terminologia de Fico) – notadamente a tortura e as execuções sumárias – sofriam uma forte mas silenciosa reprovação por parte das tropas regulares. Novamente Fico explica:

“Diferentemente de outros pilares básicos da repressão, como a espionagem ou a censura, a tortura envergonhava, comprometia a honra de todos os militares, até mesmo porque era a primeira vez que a corporação se envolvia, diretamente, com a violência policial”[24]

Tal ressalva é essencial para melhor compreensão dos conflitos internos entre as tropas regulares e a Comunidade de Informações que ocorreram durante os combates no Araguaia.

 

 

3.3 – E os Militares Descobriram…

 

É de Foucault a idéia de que a verdade não existe fora do poder ou sem poder. A “verdade” é deste mundo, argumenta o filósofo, e ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados pelo poder:

 

“Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política geral’ de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro”[25]

 

O episódio que resultou na descoberta da guerrilha pelos militares abriga muitas verdades. Para os militares, “a verdade” é que a descoberta foi resultado de um trabalho longo e metódico do sistema integrado de Informações e Segurança, essa invenção do regime militar, criado justamente para descobrir e combater focos de luta armada no País. Portanto, não foi por mero acidente do acaso, por um lance do destino, que o governo descobriu a existência de um grupo preparando uma revolução armada na região do rio Araguaia. Certo dia, em fins de março de1972, amalha fina criada pela repressão captou uma informação que despertou a curiosidade dos militares. A malha estabelecida era eficiente, organizada, conforme constataremos adiante. A malha captou que, de acordo com o depoimento de um conhecido “subversivo” – era esse o termo que os militares utilizavam para se referir a toda sorte de adversários do regime – o Partido Comunista do Brasil, PC do B, estaria preparando um foco de guerrilha rural em algum ponto da imensa selva Amazônica.

 

Os militares correram imediatamente atrás da informação. Era a prática da Comunidade de Segurança – doravante chamada de Comunidade de Informações, posto que é desta forma que seus membros se identificavam. A informação era verdadeira e o que ficou registrado pela historiografia, a partir de então, é que em meados de março de 1972, os militares desembarcaram no Araguaia para tentar desmantelar a revolução armada que o imaginário marxista de então tentava instaurar na Amazônia. Mas como eles descobriram, exatamente de que forma o aparato de segurança do regime militar chegou ao Araguaia, é uma questão que até hoje provoca polêmicas.

 

É polêmica porque implica em saber o nome de qual, dentre os militantes do PC do B, teria entregue a exata localização da guerrilha aos militares. Para os guerrilheiros do Araguaia, para os atuais militantes do PC do B, a “verdade” é que teria havido um traidor. Discutir esse assunto implica no risco de algum dos antigos guerrilheiros entrar de forma execrável na História, como Judas no Evangelho. Faço novamente uso de Foucault para conceituar a questão:

 

“Verdade é o conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro, efeitos específicos de poder; entendendo-se também que não se trata de um combate ‘em favor’ da verdade, mas em torno do estatuto da verdade e do papel econômico político que ela desempenha”[26]

 

 “Por ‘verdade’, entender um conjunto de procedimentos regulados para a produção, a lei, a repartição, a circulação e o funcionamento dos enunciados. A ‘verdade’ está circularmente ligada a sistemas de poder que ela induz e que a reproduzem”[27]

 

Nessas mais de três décadas, as suspeitas vêm recaindo principalmente sobre dois antigos guerrilheiros, Pedro Albuquerque Neto e Lúcia Regina de Souza Martins. Em seu relatório, o comandante Ângelo Arroyo aponta sua “verdade” para Pedro:

 

“O Exército soube da nossa posição através de denúncia do traidor Pedro Albuquerque que, meses atrás, havia fugido, com sua mulher, do Destacamento C. O casal tinha concordado plenamente com as tarefas que iam realizar e com as condições difíceis que iam enfrentar. No entanto, logo depois de sua chegada ao Destacamento C, a mulher de Pedro Albuquerque começou a dizer que não tinha condições para permanecer na tarefa e acabou convencendo o marido a fugir. (…) Em março de 72, sabe-se que Pedro Albuquerque havia sido preso no Ceará e, em seguida, começou a pesquisa policial na zona”[28]

 

De início, o PC do B condenou Pedro como traidor[29]. A partir do início dos anos 1980, o partido mudaria de posição, inocentando Pedro e passando a apontar Lúcia Regina como a “verdadeira” traidora. A principal suspeita que recaía sobre Lúcia Regina era o fato de ter desertado da guerrilha em dezembro de 1971, um pouco antes da chegada dos militares à região, a fim de retornar para a casa dos paisem São Paulo. As suspeitas foram acentuadas pelo fato do pai de Lúcia ser um oficial aposentado do Exército. Sua principal acusadora era a dirigente Elza Monerat.

 

Em 2002, depois de 30 anos de silêncio, Lúcia concedeu uma entrevista a quatro estudantes de Jornalismo, dizendo que sua verdade era outra, negando que tenha entregado a guerrilha aos militares na época de sua deserção[30]. Na “verdade”, conta Lúcia, seu interrogatório só teria acontecido em 1975, depois que a guerrilha já havia sido exterminada quando, aí sim, contou o que sabia. E por que Lúcia desertou? Segundo ela mesma explicou aos estudantes, porque foi obrigada pelos comandantes a fazer um aborto[31], já que as regras da guerrilha não permitiam gravidez naquela situação. Ela então pegou uma forte infecção. Corria perigo de vida e foi levada pela dirigente do partido, Elza Monerat, até um hospital em Anápolis (GO). Assim que Elza se retirou, Lúcia fugiu para a casa dos pais em São Paulo. Recusou-se a voltar para a guerrilha e nunca mais falou com qualquer membro da direção do PC do B.

 

Mas afinal, no imaginário dos militares, quem teria sido o responsável pela chegada das Forças Armadas ao local onde resistiam os guerrilheiros? Pedro Albuquerque ou Lúcia Regina? Ambos, segundo descobri nas pesquisas. Os militares primeiro souberam da guerrilha através de Lúcia Regina. Ao voltar para São Paulo, emocionalmente fragilizada, sentindo-se culpada pelo aborto, revoltada, conforme revelou depois, ela acabou desabafando com os pais. Falou tudo o que sabia da guerrilha. Foi seu pai quem procurou os colegas militares para relatar o que Lúcia lhe contara, de acordo com a narrativa de um militar que na época serviu no Centro de Informações do Exército, o CIE[32]. O informe foi repassado da agência do CIEem São Paulo para a sede do CIE, no Rio de Janeiro, onde o assunto teria sido colocado na gaveta.

 

Um episódio prosaico contribuiu para que os militares, num primeiro momento, não levassem em conta as revelações de Lúcia Regina. O chefe do CIE na ocasião, general Milton Tavares de Souza, fizera naquela época uma operação de ponte de safena. Não poderia, portanto sair de perto de seu cardiologista, Euryclides Zerbini. Por conta disso, seus subordinados também aproveitavam todas as oportunidades para evitar viagens para longe da Zona Sul do Rio, informa um oficial que à época servia no CIE. Ademais, as informações chegaram às vésperas dos festejos de Natal e Ano Novo. Seria problemático organizar missões de reconhecimento nas selvas Amazônicas. Na seqüência, viria o período de férias. Enfim, os membros do CIE no Rio teriam dado um jeito de resguardar provisoriamente na gaveta as informações de que o PC do B preparava uma guerrilha na região do Araguaia. O assunto só ganhou dimensão em fins de março, quando chegou à agência do CIE em Brasília o depoimento de Pedro Albuquerque à Polícia Federal em Fortaleza. Enfim, para os militares, prevaleceu a idéia generalizada de que Pedro teria revelado a existência da guerrilha. Eis o que eles registram no Dossiê Araguaia:

 

“Pedro Albuquerque Neto, com suas declarações, após ter sido detido em Fortaleza, Ceará, em março de 1972, fez com que o PC do B alterasse o seu planejamento em longo prazo, substituindo-o por uma postura de ação concreta. Caso nada tivesse sido dito, a respeito do trabalho de campo, por Pedro Albuquerque, o cronograma teria prosseguido e – enlouquecendo as idéias – talvez, com o decorrer do tempo a Comissão Militar tivesse conseguido estruturar o tal Exército Popular de Libertação, o que, certamente, viria a acarretar uma maior perda de vidas de ambos os lados”[33]

 

Um documento do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica, CISA, classificado de “Secreto”, confirma que foi Pedro Albuquerque quem permaneceu no imaginário dos militares:

 

“Em março de 1972, em Fortaleza, um estudante procurando o Serviço de Identificação para tirar a Carteira de Identidade, chamou a atenção dos Órgãos de Informações por ser elemento procurado há 2 anos por ter comparecido ao Congresso de Ibiúna. Preso e interrogado, declarou ter sido levado com sua companheira 2 anos antes, de São Paulo para a região de Marabá, acrescentando que, naquela área, havia um campo de preparação de Guerrilha Rural. Abandonou o campo, diante da impossibilidade de conciliar assistência à sua esposa grávida com suas obrigações ‘revolucionárias’ – conforme o pensamento dos dirigentes do Partido local” [34]

 

Em pesquisas posteriores, encontrei um militar que chegou a conversar com Pedro Albuquerque em Brasília e que acompanhou de perto os desdobramentos do caso. Essa narrativa ilustra o funcionamento da rede de segurança e informações criada pelo regime militar. O narrador chegou a registrar parte desse episódio da História em um documento reservado do Exército, que serviu como apostila de um curso do Centro de Informações do Exército (CIE) sobre a Guerrilha do Araguaia, ministrado em 1993[35].  De acordo o relato desse militar, Pedro teria sido reconhecido pelo então superintendente da Polícia Federal no Ceará, delegado Antônio Laudelino, quando estava numa fila da policia civil para tentar tirar um novo documento de identidade. O policial, que vigiava o movimento estudantil, conhecia Pedro dessa época. Lembrou-se que ele sua mulher, Teresa Cristina, haviam desaparecido do Estado um ano antes e decidiu detê-los para averiguar onde estavam e o que fazia nesse tempo. Como Pedro estava sem documento, ainda que estivesse numa fila para tirá-lo, ficou legalmente detido sob acusação de “vadiagem”.

 

Ainda de acordo com a narrativa do militar, já na delegacia de início Pedro teria resistido a revelar onde estava e o que fizera. “Você vai tentar me enganar? Logo eu que já te prendi tantas vezes”, teria dito o delegado. Na seqüência, o delegado teria arriscado um palpite: “Em qual guerrilha você estava?”. Bastante assustado e intimidado, Pedro teria começado a revelar o que sabia sobre o Araguaia. Disse que estava no interior de Goiás, numa área com mata muito espessa, mas não sabia exatamente onde, pois havia ido para lá à noite. Pedro e Teresa revelaram que o grupo morava perto de um lugarejo chamado Cigana, e que lembravam que algumas vezes escutava algum companheiro comentar que iria fazer compras numa cidade chamada São Girardi. Relata o documento redigido pelo militar:

 

“O casal declarou que havia sido recrutado por membros do PC do B para atuar no interior de Goiás, numa região da floresta localizada às margens de um grande rio, próximo a uma cidade chamada São Girardi.”[36]

 

Pedro Albuquerque contou ainda, segundo o relado do militar, que decidira fugir em agosto de 1971 porque Teresa Cristina ficara grávida, e que recebera ordens dos companheiros para abortar. De início, Pedro teria vacilado, pois a deserção era punida com a pena de morte[37]. Mas Teresa estaria determinada a fugir sozinha. Pedro decidiu acompanhá-la. Não sabiam onde estavam nem como sair de lá. Então Teresa subornou um morador da região com um punhado de jóias que havia levado escondido para o Araguaia. O que mais teria revoltado o casal Pedro e Teresa, de acordo com o militar, teria sido o fato uma outra companheira ter ficado grávida na mesma época, mas que nesse caso foi permitido que saísse da área para ter o filho, já que era mulher de um dos comandantes – provavelmente estava se referindo a Criméia Almeida, companheira de André Grabois. Chamo a atenção para o fato de que as duas deserções mais polêmicas, a do casal Albuquerque e a de Lúcia Regina, teriam ocorrido pela mesma razão: suposta revolta com o tratamento diferenciado dado à gravidez de Criméia, nora do comandante Grabois.

 

O depoimento de Pedro Albuquerque foi enviado para o Centro de Informações do Exército (CIE)em Brasília. Asrevelações não se referiam especificamente ao Araguaia, mas somente a um grande rio e à cidade de São Girardi, que não se encontrava em nenhum mapa. O CIE então solicitou à Polícia Federal em Fortaleza para que ouvisse novamente Pedro e Teresa —desta vez com mais cuidado. Nesse segundo depoimento, os policiais conseguiram arrancar de Pedro o nome da cidade de Conceição, e de Teresa Cristina o nome de outra cidade, chamada Shangrila. Pedro, então, tentou se suicidar na cela da Polícia Federal cortando os pulsos com uma lâmina de barbear, mas foi encontrado a tempo e levado a um hospital. Um documento de cinco páginas do CIE, classificado com o carimbo de “CONFIDENCIAL” e batizado de “1º Relatório Parcial da Operação Peixe”, transcreve, já como primeiro item, um telegrama informando as circunstâncias da prisão, o teor do depoimento e a tentativa de suicídio de Pedro Albuquerque:

 

“NR 812 S 106/AF DE 21 MAR72 PT”.

“RETRANSMITO SEGUINTE MSG RCB CIE/ADF PARA ESSA SEÇÃO PTPT”.

“NR 0031/MB de 21 MAR 72 PTESTA AI RETRANSMITE O RD ABAIXO VG RECEBIDO DO CI/DPF PTPT 490-SD8-GAB-170372 PTFOI DETIDO ESTA DEL REG PEDRO DE ALBUQUERQUE FILHO MILITANTE DO PC DO B FORAGIDO ESTA AREA CERCA DOIS ANOS PT DECLARAÇÕES PRESTADAS INFO TER SIDO LEVADO COM SUA ESPOSA DE S PAULO PARA ESTADO PARAH MUNICIPIO CONCEIÇÃO LUGAREJO CHAMADO CIGANA VG ONDE HÁ CAMPO DE PRAPARAÇÃO GUERRILHA RURAL DIRIGIDO INDIVIDUOS DE CONDINOMES PAULO ET VITOR VG AMBOS DE SÃO PAULO PT PERMANECEU REFERIDO SEIS MESES VG ONDE HÁ QUINZE INDIVÍDUOS SOB TREINAMENTO VG TENDO ABANDONADO LOCAL MESMO JUNHO ÚLTIMO VG QUANDO INDIVIDUOS SE ENCONTRAVAM NA MATA EM EXERCICIO ET DEIXADOA ELE ET SUA MULHER RESPONDENDO PELO APARELHO MONTADO NAQUELE LOCAL PT INFO SER CIDADE SÃO GERARDI ET CHANGRILA MAIS PROXIMAS LOCAL CAMPO PREPARO GUERRILHEIROS PT ESCLARECEU QUE PARA FUGA APROPRIOU-SE TRINTA MIL CRUZEIROS PERTENCENTES ORGANIZAÇÃO TERRORISTA PT NOITE DE HOJE VG APÓS ESSES ESCLARECIMENTOS VG TENTOU SUICIDAR-SE VG SECCIONANDO VEIAS BRAÇOS VG ENCONTRANDO-SE HOSPITAL PRONTO SOCORRO PT DR CEPT PT – TEM CEL BRAGA CIE/ADF PT – CEL COELHO NETTO SUBCHEFE CIE.”[38]

 

Para os militares, a partir desse segundo depoimento foi fácil encontrar o que queriam. Começaram a procurar nos mapas os nomes de cidades nas margens de rios grandes. Logo concluíram que Shangrilá deveria ser Xambioá, San Girardi seria São Geraldo e Conceição seria Conceição do Araguaia, todas no Bico do Papagaio. Organizador do Dossiê, Dr. George, teceu a seguinte observação para essa pesquisa:

 

“Para nós, as informações prestadas pelo Pedro permitiram uma ação concreta contra o PC do B. As informações que o pai de Lúcia Regina teria prestado ao CIE ficaram por lá. Nenhuma agência de inteligência gostava de passar esse tipo de informações a outra. Ali, poderia haver uma ‘mina de ouro’. Eu mesmo fechei muitas informações importantes a outras agências.”[39]

 

O que se deu daí para frente mostra que, na “verdade”, Pedro não era um colaborador dos militares e que os dirigentes do PC do B teriam sido injustos quando o apontaram por anos como um “traidor”. O fato é que o depoimento de Pedro chegou às mãos do general Antônio Bandeira, então comandante da 3ª Brigada de Infantaria. Um general que pensava 24 horas por dia em como combater os “terroristas”. Bandeira mandou buscá-loem Fortaleza. Pedrofoi instalado na prisão do Pelotão de Investigações Criminais (PIC) do Comando Militar do Planalto,em Brasília. Quemrelata o terceiro interrogatório é o coronel Lício Augusto Ribeiro:

“O general Bandeira é que fez a inquirição. Metemos um capuz na cabeça dele, e o general conversou com ele, e eu gravando. Ele estava se fazendo de debilóide. Nada do que ele dizia coincidia com o que ele tinha dito em Fortaleza. Negou tudo, disse que não. O general disse: ‘Esse cara não tem valor’. Então o Caldas, que era o major auxiliar do general Bandeira, falou: ‘General, se é um cachorro que esteve lá, ele pode nos servir de guia’. O general concordou. ‘É verdade, solta o cachorro na mata e vai atrás dele que ele vai bater na área da guerrilha. Era lá que a gente queria ir, mas ninguém acreditava que existisse guerrilha. Era uma coisa impossível.”[40]

 

 

Desde 1969, os órgãos de segurança já tinham uma série de informações sobre a existência de “atividades subversivas” na região do Bico do Papagaio, por onde passa o rio Araguaia, mas não de uma guerrilha sendo organizada. A ALN de Carlos Marighela chegara a planejar um dia levar a luta armada para a região. Os militares sabiam disso. Também sabiam que o PC do B estava enviando militantes para a região. Mais tarde, descobriram que um dos guerrilheiros, João Carlos Haas Sobrinho, dirigira um pequeno hospital na cidade de Porto Franco antes de embrenhar na mata. Em 1971, chegou-se a fazer um grande exercício militar na região, a Operação Mesopotâmia. A operação estava prevista para ocorrer na região Sul, mas por pressão do general Bandeira foi transferida para Imperatriz (MA). Bandeira acreditava, mais por intuição do que por informações concretas, que os “comunas” (era assim que ele e quase totalidade dos militares se referiam aos marxistas) estariam preparando a luta armada exatamente no Araguaia. Sobre isso, o Dossiê ressalva que a Operação Mesopotâmia não foi contra o PC do B, mas sim contra a VAR-Palmares, que tinha trabalho de campo na região de Imperatriz, Maranhão, e às margens do rio Tocantins.

 

Para o PC do B, que há três décadas busca culpados para o desastre que levou ao abate de seus melhores quadros no Araguaia, tem sido importante encontrar quem teria sido “O Traidor”. Para o partido, a “verdade” estaria contida num dilema: Pedro ou Lúcia Regina. Mas, para os militares, as informações colhidas com Lúcia Regina e extraídas de Pedro Albuquerque foram secundárias. O Dossiê Araguaia é bastante preciso ao contextualizar a importância dessas informações, segundo o pensamento de Foucault sobre a “verdade”:

 

“Mesmo com o silêncio de Pedro Albuquerque, fatalmente as atividades guerrilheiras do PC do B seriam detectadas, visto que a região escolhida era objeto de constantes buscas exploratórias em conseqüência de um quase tradicional conflito de terras lá existentes, da atuação da Igreja Progressista e do inexplicável desaparecimento simultâneo de diversos militantes do partido de diversas áreas urbanas – onde suas atividades vinham sendo monitoradas pelos Órgãos de Inteligência – sempre em direção a São Paulo”[41]

 

“Por outro lado, tendo o PC do B passado a ser um dos alvos dos órgãos de Inteligência, face ao desmantelamento da guerrilha urbana, suas atividades passaram a ser melhor acompanhadas, objetivando uma possível futura ação policial contra sua estrutura clandestina, na época constituída por cinco Comitês Regionais, além do Comitê Central”[42]

 

 

Eis o que conclui o Dossiê Araguaia:

“Quando se descobriu a existência de uma guerrilha no Araguaia, as Forças Armadas já tinham pleno conhecimento da teoria e da prática da Guerra Revolucionária. Mas nunca havia sido possível conhecer os efeitos da capacitação militar dentro de um quadro real de rebelião, pois sempre faltou o elemento principal: a população. Para as Forças Armadas, a questão principal no Araguaia era: como ‘ganhar’  a população?”[43]

Tais conclusões mostram que a descoberta da Guerrilha do Araguaia é interpretação não de uma “traição”, como acredita o imaginário dos guerrilheiros. Mas são diferentes interpretações do imaginário militar da época que, movido pelo ideário anticomunista e pela doutrina de segurança nacional, criou Sistema de Informações e Segurança. Naquela época, como acima relatado, a Comunidade de Informações funcionava, mais que isso, prendia e aterrorizada os adversários do regime militar. Ninguém ousava tratar com escárnio seus agentes, chamá-los de “arapongas”. Os inimigos do regime “desapareciam”; eles davam medo, a tal ponto que muitos de seus prisioneiros, como Pedro Albuquerque, eram levados a tentar cometer suicídio. Enfim, foi a partir do depoimento de Pedro que os militares precipitaram uma reação que mais cedo ou mais tarde seria desencadeada no Araguaia. Naquela primeira investida, batizada de Primeira Campanha, a hegemonia das operações ficou com as Tropas Regulares, fardadas – e não com a Comunidade de Informações, conforme veremos nas próximas páginas.

3.4 – Os Primeiros Embates

O Dia D dos militares, segundo o Dossiê Araguaia, foi a 25 de março de 1972, duas semanas depois de levarem Pedro Albuquerque preso para Brasília. Batizada de Operação Peixe, os comandantes militares enviaram um pouco mais de 30 agentes da inteligência para realizar as primeiras patrulhas. Eram cerca de 20 agentes do Exército[44], uma dúzia da Aeronáutica e exatamente cinco homens da Marinha. Buscavam informações sobre os guerrilheiros, mas ainda não se tinha a menor idéia do tamanho da ameaça. O objetivo era essencialmente checar as informações extraídas de Pedro Albuquerque.

 

Desembarcaram em Xambioá com a missão de subir pela mata até a rodovia Transamazônica atrás de informações, comandados pelo coronel Carlos Sérgio Torres, então chefe de Operações do CIE. Pedro Albuquerque estava num dos grupos, obrigado a servir de guia. A maior parte estava disfarçada de agente da Sucam – Superintendência de Campanhas de Saúde Pública do Ministério da Saúde, o órgão do governo para o controle de endemias. Outros, de funcionários da Embratel – Empresa Brasileira de Telecomunicações, na época, uma Estatal, hoje privatizada – ou do INCRA – Instituto Nacional de Reforma Agrária. Por coincidência, já estava havendo naquele momento naquela área uma Ação Cívico Social – ACISO -, com diversas frentes de ações sociais do governo, visto que a região passou a despertar a atenção das Forças Armadas desde a Operação Mesopotâmia.

 

Os militares então começaram a entrar em todos os sítios e fazendas que encontraram pelo caminho com a desculpa que precisariam fazer a pulverização das casas contra o barbeiro, inseto transmissor da doença de Chagas; ou de escolher o traçado das novas linhas telefônicas. O que se deu daí para frente encontra-se relatado em detalhes no Dossiê Araguaia:

 

“Saiu a campo uma equipe de seis agentes, tendo como referência a região de Cigana, distante 40 km a sudoeste de Marabá. Essa equipe não confirmou a existência de uma possível base guerrilheira em Cigana, e sim em Faveiro, situada a 70 km de Marabá, bem como indícios da existência de uma base no km 72 da Transamazônica, entre Marabá e Araguatins, local mais tarde identificado como Chega com Jeito”[45]

 

“Novas buscas foram realizadas, em um período de sete dias, com uma equipe de 16 agentes, sendo confirmada a existência dessa base guerrilheira em Chega com Jeito. No dia 12 de abril de 1972 foi realizada uma operação com o objetivo de destruir essa base. No local foi encontrada uma oficina equipada com torno, fole, forja, prensa, equipamentos e ferramentas de precisão, operados manualmente. Foi também encontrada uma metralhadora calibre 38, em estágio de fabricação, carabinas, granadas, minas, munição de vários calibres, inclusive para fuzil FAL, utilizado pelo Exército brasileiro. A equipe de busca constatou ainda a existência de uma outra base, denominada Metade”[46]

 

A 12 de abril uma equipe do CIE chegou ao local que Pedro Albuquerque indicara em seu depoimentoem Fortaleza. Aequipe tinha cinco pessoas, incluindo Pedro. Mas três deles permaneceriam juntos até os últimos dias no Araguaia – o único grupo que permaneceu na área do início ao fim, e que foi o responsável pelo maior número de mortes de guerrilheiros, 12 no total, segundo os cálculos deles próprios. O chefe da equipe era o Dr. Asdrúbal, o major Lício Augusto Ribeiro Maciel, já anteriormente citado. O segundo homem, chamado por eles ora de Javali Solitário, ora de J. Peter, era o subtenente João Pedro do Rego. O terceiro integrante do grupo tinha o codinome Cid, primeiro-sargento, que, por razões familiares prefere, por enquanto, a preservação de sua identidade. Além do trio, havia ainda um terceiro-sargento nessa primeira incursão no Araguaia, mas que não teve destaque maior nos eventos posteriores. Cid descreve, em narrativa oral, os eventos dos dias 11 e 12 de abril que restaram nas suas lembranças:

 

“Voltando ao Rio Araguaia, após ultrapassarmos as cachoeiras, por volta das 6 horas da manhã chegamos ao tal lugar chamado Pará-da-Lama. Na realidade era só um lugar onde os barcos atracavam, não havia nada por ali, nem viva alma. Saltamos e fomos seguindo pelo caminho indicado por Pedro. O rapaz estava bastante debilitado, havia ficado muitos dias perdido na mata e sem alimentação, falava rápido e sem sentido. Ele repetia a mesma coisa, nos dando a entender que era doido, ou artista, ou realmente haviam guerrilheiros naquelas matas. No caminho mais de uma pessoa cumprimentou Pedro, até o abraçou. Uma coisa era certa a partir daquele reconhecimento, Pedro Albuquerque estava falando a verdade, e o caminho mostrado era realmente o que ele conhecia. Durante o trajeto, tratamos Pedro como um companheiro de equipe que tinha as mesmas finalidades de encontrar e combater os guerrilheiros. Nessas alturas, ele não tinha muita escolha.Ou derrubava os guerrilheiros ou os guerrilheiros o derrubariam, onde quer ele estivesse, já que conheciam sua esposa, e ele acabaria um dia tentando contatá-la.”[47]

 

“Após andar o dia todo, já bem tarde chegamos a um lugar que seria a última casa da região, onde morava com a mulher e os filhos um homem chamado Antônio Pereira. Daí para frente seria só mata fechada. Fomos bem recebidos, a família nos convidou para pernoitar, comemos galinha com arroz, um verdadeiro banquete depois de um dia inteiro sem comer nada. Doutor Asdrúbal fez questão no dia seguinte de pagar as despesas, que com muita insistência acabou sendo aceita. Conversamos sobre o que se dizia do povo da mata, os paulistas, como eram chamados os guerrilheiros, que até então os moradores não sabiam que eram guerrilheiros. Nos foi dito que não muito longe dali uns quatro ou cinco deles, incluindo uma mulher, plantavam e colhiam bastante mantimentos, muito mais do que necessitavam, que não conversavam muito e não recebiam visitas”[48]

 

“Antônio Pereira falou com o filho mais novo, de 16 anos, para nos guiar até o local onde moravam os paulistas. Saímos bem cedo, antes do dia clarear. Andamos muito, devia passar do meio-dia quando chegamos lá. Sei disso não só porque eu estava com muita fome, mas porque os residentes estavam se preparando para almoçar, a mesa estava sendo arrumada quando um deles nos avistou. Havia três homens deitados em redes, era a mulher quem colocava a mesa. Esperávamos chegar até ele com uma história de cobertura, como compradores de terra, e achávamos que naturalmente eles também teriam sua própria história de cobertura. Mas ao nos avistar, eles saíram correndo. Foi uma surpresa. Nosso grupo correu atrás, mas estava longe. Eu ainda tentei bancar o sabido e tentei descer a ladeira por dentro de um riacho. Mas eles haviam plantado arranha-gato, uma erva rasteira que se agarra na roupa e você não consegue dar um passo sequer”[49]  

 

Os quatros guerrilheiros fugiram para a mata por um caminho nos fundos da casa, uma rota de fuga previamente preparada. “Pensávamos que fôssemos encontrar meia dúzia de cabras safados fazendo subversão, mas o negócio lá era muito grande”[50], disse Dr. Asdrúbal. No depoimento a Maklouf, o militar fez outra descrição detalhada do que encontrou:

 

“Aí eu caí das alturas. O que eu encontrei lá foi uma coisa estúpida. Grandes telheiros de comida, material cirúrgico, remédios, uma oficina de rádio muito bem montada, máquina de costura, tudo escondido em espaldões. Destruímos tudo”[51]

 

“Eu subi num telheiro, encontrei toda documentação deles. Tinha ordem de treinamento, livros de Mao Tse-Tung, Engels, milhões de comunas desses aí. Eu nunca li nada desses caras. Nem quero. Mandei botar tudo na mala grande para levar como prova. Depois tocamos fogo em tudo. Picotamos à bala tudo quanto era jerimum, melancia e mamão. Tocamos fogo, esperamos o fogo baixar”[52]

 

Cid completa:

 

“Estávamos eufóricos. Achamos que havíamos acabado de comprovar a existência da famosa Grande Área anunciada por Marighella, que estaria sendo preparada desde 1962. Documentos apreendidos em aparelhos derrubados pelo CIE falavam dessa Grande Área. Tinha que ser ali, no Sul do Pará, não podia ser outra. Regressamos à casa de Antônio Pereira para passar a noite, mas não conseguimos dormir. A adrenalina e a euforia nos impedia. Todos nós estávamos conscientes de que o que tínhamos descoberto era algo muito grande e muito organizado. No dia seguinte, começaria a grande caçada”[53]

 

No terceiro dia, o grupo estavaem São Geraldo, localidade à beira do Araguaia, em frente a Xambioá, quando recebeu um informe sobre um outro grupo de paulistas, entre eles Dina. Relata Cid:

 

“Já havíamos ouvido falar dela, pois ela batizava muitas crianças na área para fazer amizades com os caboclos. O caboclo me disse que Dina morava na roça perto da sua casa, um local muito longe, de caminhada demorada. As chances de alguém avisá-la da nossa chegada era proporcional à distância e às amizades que ela desfrutava. Resolvemos ir de avião com o piloto da região, o Pedro Careca. Lá embaixo era tudo igual; detalhes, só ele via, como se conhecesse cada pé de árvore. Pouco tempo depois pousamos no Castanhal da Viúva. Pouco tempo depois soubemos que o pessoal da Dina havia partido. Os fugitivos do primeiro dia já haviam passado por lá”[54]

 

A partir desse momento, havia um novo fator no imaginário dos militares – a existência de um foco de guerrilha rural no país. As táticas de combate de uma guerrilha rural são absolutamente diferentes da guerrilha urbana. E a descoberta do foco obrigaria as duas partes a mudar suas estratégias. Tanto os militares quanto os guerrilheiros. Os militares estavam até então adestrados nas táticas de combate de uma guerra convencional. No caso da guerrilha urbana, o serviço de repressão era uma tarefa exclusiva dos agentes da Comunidade de Informações – e passava longe dos quartéis. Mas para combater uma guerrilha rural, o regime estabelecido teria que alterar substancialmente suas táticas. A área de combate era muito grande, a imensa Amazônia. Mais tarde se descobriria que a guerrilha tentava se instaurar somente num pequeno ponto da Amazônia. Ainda assim uma área significativa, cerca de6.500 quilômetrosquadrados, maior do que o Distrito Federal. Seria impossível reprimir a guerrilha somente com os agentes da Comunidade de Informações. Naquela época, eles eram menos de 500 em todo o Brasil.

 

A descoberta da guerrilha, igualmente, precipitou mudanças substanciais na estratégia dos guerrilheiros. Eles haviam começado a se instalar na área em 1966. E ainda que fossem chamados na região de “paulistas” e tratados como um grupo exógeno, muitos dos guerrilheiros já haviam se integrado por completo à comunidade local, haviam batizado crianças, caçavam juntos, participavam de um cotidiano comum, eram parte da paisagem estabelecida. Mas com a chegada dos militares, tiveram que repentinamente se embrenhar na mata e adotar práticas novas de segurança jamais imaginadas.

 

No Destacamento B da guerrilha, por exemplo, ocorreria um episódio comovente envolvendo uma cadela, Coroa, há anos mascote do grupo. Coroa acabara de parir quando os militares chegaram à região e o destacamento escondeu-se na mata. A cadela os seguiu até o novo acampamento. A partir de então, ela dormia com os filhotes no antigo sítio e toda a manhã se dirigia ao esconderijo dos guerrilheiros. Fazia o trajeto duas vezes por dia. Coroa tornou-se uma grande ameaça. Os guerrilheiros decidiram que a melhor forma de manterem a segurança seria sacrificá-la. O guerrilheiro Micheas Gomes de Almeida foi sorteado para executá-la. Não poderia disparar tiros com os militares por perto. Coroa foi sacrificada a facadas.

 

Em meados de abril, segundo o Dossiê, os militares já tinham identificado nove guerrilheiros[55]. Na madrugada de 12 de abril, mesmo antes de se conhecer os resultados da incursão da equipe do Doutor Asdrúbal, o guerrilheiro Danilo Carneiro, o Nilo, foi detido na Transamazônica. Os militares informam que ele estaria tentando desertar. O Dossiê informa que, no interrogatório, Nilo teria revelado a base guerrilheira de Metade. Segundo o Dossiê, também teria revelado os codinomes de cinco guerrilheiros de uma só vez[56]. O trabalho para identificação dos guerrilheiros passou a ser prioritário.

 

Em 14 de abril, prenderam, na Transamazônica, o militante do PC do B Eduardo José Monteiro Teixeira. Ele tentava se incorporar à guerrilha. No dia seguinte, a militante Rioco Kayano foi presa em um hotel em Marabá. Elatambém tentava chegar à guerrilha. Estava acompanhada da dirigente do PC do B Elza Monerat. Quando viu a movimentação dos militares, Elza fugiu[57], sem conseguir avisar a Rioco. O Dossiê prossegue na descrição dos detalhes:

 

“A partir de 16 de abril, caboclos da região passaram a colaborar espontaneamente com as equipes de busca, dando informes a respeito das localizações das bases de Gameleira e Castanhal, na localidade Sobra de Terra. Nessas bases, uma equipe constatou a presença de, pelo menos, 12 pessoas reunidas, mas evitou o confronto por estar em inferioridade numérica”[58]

 

Naqueles dias, ocorreu um incidente curioso, marcante nas lembranças de cinco dos militares entrevistados para a pesquisa. Uma equipe de três agentes de informações, dois cabos e um delegado da Polícia Federal, encontrou 17 guerrilheiros reunidos em uma marcenaria na beira do Araguaia[59]. Eles tinham dois fuzis, um FAL semi-automático e um HK-33, uma pistola e, juntos, cerca de 40 tiros. Preferiram não arriscar e pediram pelo rádio reforço para atacar. Receberam como resposta a informação de que nenhum dos dois helicópteros estava disponível e que não poderiam ser deslocados. Um estava à disposição do pessoal da Sucam; o outro estava em outra missão, transportando Coca-Cola para um churrasco de confraternização da tropa. Argumentaram que tinham certeza que eram os “terroristas” que estavam reunidos, mas o interlocutor do outro lado da linha não acreditou. Ficaram furiosos. Um relatório do CIE revela:

 

“Por várias oportunidades, os elementos do Sul estiveram em vias de capturar ou eliminar terroristas, deixando de fazê-lo face ao levantamento ainda incompleto do grau de subversão existente na área e à quebra do sigilo da operação” [60]

 

Do norte, a partir de Marabá, seguiu rumo ao sul um outro grupo de militares. Pertenciam à 8ª Região Militar,em Belém. Receberama orientação de Brasília de enviar militares disfarçados de civis, com alguma história de cobertura. No meio do caminho os dois grupos se encontraram. Os agentes que vinham do sul descobriram que os militares que vinham do norte estavam todos fardados. Eram, em sua maioria, recrutas, soldados com menos de 20 anos, organizados em três pelotões formais e ostensivos. Haviam intimidado camponeses e queimado sítios suspeitos. Estavam perguntando à população local se por acaso eles sabiam onde se escondiam os “terroristas”, como revela, ainda, o Relatório:

 

“Devido ao emprego de elementos fardados levado a efeito pela 8ª RM, a Operação de Informação abortou, posto que os terroristas tomaram conhecimento do que ocorria. O Destacamento do Norte, por onde passou, queimou choupanas abandonadas que encontrou, marcando bem a sua passagem. A quebra do sigilo operacional foi fator preponderante no prolongamento da atuação dos guerrilheiros na região”[61]

 

Igualmente, em outro relatório sobre a operação, existem referências aos erros táticos cometidos pelas tropas, como nos mostra o trecho a seguir:

 

“Diversos informantes comentam o erro tático do EB [Exército Brasileiro] ao realizar missões ostensivas, permitindo a fuga do inimigo. Informantes que se expuseram conduzindo nas incursões o pessoal da FAB e do Exército encarece [sic] a necessidade de localizações e derrota do inimigo, caso contrário sentir-se-ão desprotegidos após a retirada da área por parte das Forças Armadas”[62]

 

Enfim, os agentes da Inteligência concluíram que a missão deles acabara, que àquela altura os guerrilheiros já haviam fugido e que era hora de voltar. O Dossiê revela ainda que os agentes da inteligência militar, disfarçados em trajes civis, temiam que os inexperientes soldados fardados acabassem atirando em um deles ao confundi-los com “terroristas”. Os conflitos pelo comando entre as Tropas Regulares e as Irregulares estavam apenas começando. No caminho de volta, aproveitaram a viagem e foram buscar um suspeito, conhecido por Geraldo, que se descobriu mais tarde se chamar José Genoíno Neto. Também tocaram fogo em todos os depósitos de suprimentos que haviam identificado na viagem de ida. No Dossiê Araguaia, os militares fazem revelação semelhante:

 

“O sucesso apenas parcial, e não total da operação, pode ser atribuído aos conflitos de concepção no que diz respeito às ações a serem empreendidas, entre o comando da força regular e a coordenação dos grupos de Inteligência, estes já experientes em ações contra a subversão. A presença do soldado uniformizado espantou e deu chance à guerrilha para que se retraísse. Por outro lado, a utilização de conscritos inexperientes dificultou sobremaneira os trabalhos de busca, especialmente pelo fato de os agentes de Inteligência estarem descaracterizados, trazendo, com isso, a insegurança, por temerem ser confundidos, por esses conscritos, com os guerrilheiros”[63]

 

De acordo o Dossiê, o CIE se retirou da área em fins de abril levando o codinome de 55 dos guerrilheiros (eram 69) e a localização de 19 bases de apoio[64]. Também levou preso um guerrilheiro armado[65], um desertor, dois militantes do partido que tentavam se juntar à guerrilha e um morador da região que militava no PC do B[66]. Eis o saldo, segundo o Dossiê:

 

“Após cerca de duas semanas de operações, em virtude dos insucessos para localização e prisão dos guerrilheiros, houve ordem superior para o retraimento da tropa empenhada. Entretanto, para os serviços de Inteligência, esse período foi altamente produtivo. Na população, foi levando o nome daqueles que colaboravam com os guerrilheiros e daqueles que se dispunham a colaborar com as Forças Armadas”[67]

 

A Operação Peixe, primeira fase da Campanha, chegou ao fim em 01 de maio. No “Relatório Sumário de Operações” referente a essa primeira fase, há uma pequena descrição do que encontraram, da situação do “inimigo”:

 

“O inimigo está na área há mais de três anos. Conhece o terreno, está bem armado e organizado. Tem possibilidade de lá permanecer por tempo indeterminado.

Sua organização básica é a formação de Destacamentos, cada um composto de 3 grupos com 7 elementos. Estimamos que devem possuir 4 Destacamentos, totalizando 84 elementos, subordinados à Comissão Militar, órgão político, estratégico e tático. Seus instrutores formaram-se em guerrilha e capacitação política, na China Comunista. Conhecem, perfeitamente, a filosofia e o desencadeamento da guerra de guerrilhas”[68]

 

 

Mais tropas fardadas chegariam à região nos dias subseqüentes, naquilo que ficou conhecido como a Primeira Campanha. Essa segunda ação seria batizada de Operação Ouriço. De Belém, chegou uma companhia do 2º Batalhão de Infantaria na Selva. Do Rio de Janeiro, foi enviado um pelotão da Brigada de Pára-quedistas. De Brasília e de Araguari, o general Bandeira escalou dois pelotões que ele vinha preparando para o combate a “terroristas”. No total, cerca de 250 homens fardados. Segundo o Dossiê, a Aeronáutica entrou com 15 agentes do CISA e 47 homens fardados no apoio. A Marinha apresentou-se com cinco agentes do CENIMAR. Por fim, a Polícia Militar do Pará foi mobilizada para bloquear a Transamazônica com mais 20 homens. A partir desse momento, deu tudo errado e os militares deixaram a região praticamente escorraçados. Os autores do Dossiê rejeitam a expressão “escorraçados”. Preferem definir a retirada com o eufemismo “recuo estratégico para a busca de informações”[69].

 

Os recrutas de Belém foram os primeiros a chegar para esta Primeira Campanha. O comandante da 8ª Região Militar era o general Darcy Jardim de Matos, homem de tropa regular, que nunca pertenceu à Comunidade de Informações. Ele delegou a coordenação da operação, com poderes totais, ao coronel Carlos Pitta, chefe de seu Estado Maior, que também era um oficial de tropa regular. Pitta não quis trabalhar em conjunto com a Comunidade de Informações. Nem o general Darcy.  Ilustrativa desse conflito de comando que começou a se tornar visível na Primeira Campanha foi a reunião entre os comandantes da operação – Comandante Lima Barros, Tenente Coronel Borges, Capitão Rangel e o Coronel Pitta -, ocorrida logo no início da campanha, em 10 de abril. Nela, Pitta e Lima Barros não concordavam com os métodos de ação, o que foi registrado da seguinte forma, em relatório confidencial das Forças Armadas:

 

“Foi, então, o Cmt LIMA BARROS interrompido pelo Cel // PITTA, que lhe disse que sabia como deveria agir. Resolveu, então, o Cmt LIMA BARROS, retornar ao Rio de Janeiro, desde que a condução das operações estava entregue a um Cel que sabia como agir”[70]  

 

Para os comandantes das tropas regulares, havia, na época, muita petulância dos membros do CIE. O termo “petulância”, aliás, foi utilizado por um antigo membro do CIE, como autocrítica, em depoimento oral para esta pesquisa. Como os agentes de inteligência eram subordinados diretamente ao ministro, estavam fora da cadeia hierárquica e tinham a liberdade de atuar em todo o País. Por isso os oficiais do CIE costumavam tentar dar ordens para a tropa regular. Pitta decidiu resistir e se recusou a fazer acordo para entregar o comando da operação ao CIE. A jurisdição sobre a área era da 8ª Região Militar. Portanto, ele conduziria aquela guerra do jeito que conhecia, segundo o manual, de acordo com a Convenção de Genebra. Mas os agentes do CIE permaneciam na área. Dr. George fez as seguintes observações em depoimento para essa pesquisa:

 

“Quando surgiram os indícios da guerrilha, o território estava na área sob a responsabilidade da 8ª Região Militar. O coronel Pitta foi designado por seu comandante, o general Darcy, para cumprir aquela missão. É preciso lembrar que o coronel Pitta, assim como a grande maioria dos oficiais do Exército, foi treinada para combater na guerra regular. Aquela ação era novidade para ele, assim como para a maioria dos oficiais superiores que serviam na região. É preciso lembrar também que naquela época não havia subversão armada na região Norte e Exército, Marinha e Aeronáutica tinham pouca ou nenhuma experiência na matéria. O coronel Pitta, como representante da 8ª RM [Região Militar] naquela missão, tinha a prioridade do comando. Portanto, ele só deveria receber ordens do general Darcy e qualquer orientação que viesse de outra área ou comando, teria que passar antes pelo comandante da 8ª RM. O conflito se deu naqueles dias porque o pessoal da repressão não pôde comandar as coisas como queria”[71]

 

A primeira baixa do Araguaia ocorreu justamente nas fileiras do Exército. A 5 de maio, uma patrulha militar foi surpreendida por dois guerrilheiros do Destacamento B[72]. Estavam todos em trajes civis, com identificação falsa de funcionários do INCRA. Receberam ordens de Belém para fazerem um reconhecimento na área da base da Gameleira, onde Genoíno havia sido apanhado. Foi colocado no comando o 2ª tenente Mata Rezende, que cumpria seu serviço militar obrigatório dentro do NPOR[73]. Surpreendido enquanto bebia água no rio, o cabo Odílio Cruz Rosa foi abatido com um tiro. Um sargento também foi ferido. A patrulha deveria defendê-los, dar-lhe cobertura, mas todos fugiram apavorados, abandonando o corpo do cabo nas margens do rio – não se sabe, sequer, se naquele momento ele ainda estava vivo. Alguns dos militares ficaram perdidos por dias na mata. O tenente sofreu uma punição grave por ter fugido sem o corpo – foi excluído antecipadamente do NPOR[74]. O Dossiê narra o que se deu a seguir:

 

“Após o incidente, optou-se por um novo emprego ostensivo da tropa. Para isso, foram deslocados para Xambioá três pelotões – também constituídos por recrutas — um Destacamento de tropas especializadas (pára-quedistas), helicópteros e aeronaves de observação. A missão prioritária era, então, resgatar o corpo do cabo. Para isso buscou-se a colaboração de mateiros. Temerosos, recusaram-se a ir até o local da emboscada”[75]

 

Os militares descobriram que o comandante do Destacamento B, o guerrilheiro Osvaldão, mandou avisar, através de camponeses, que não autorizava ninguém a retirar o corpo. Também foi realizada uma operação para o resgate do corpo. Segundo Relatório do Exército:

 

“Tal operação não obteve êxito, em virtude de informes espalhados pela região de que quem se aproximasse do local seria morto pelo grupo de guerrilheiros”[76]

 

Os restos do cabo só seriam resgatados uma semana depois, já em adiantado estado de decomposição[77]. O Dossiê registra uma observação, repetida com insistência, com palavras similares, por todos os militares entrevistados nesta pesquisa – o que me leva à conclusão que seja uma questão relevante para o imaginário deles:

 

“Neste ponto vale uma observação: não foram as Forças Armadas que tiveram a iniciativa da luta. Sua missão era desbaratar um trabalho de campo que objetivava o início de uma guerra popular para a tomada do poder. As pessoas que militavam na guerrilha tinham plena consciência de que ali se encontravam para lutar, ou seja, para matar ou morrer, pois não há guerra sem mortes, de ambos os lados. E sabiam de antemão, pois receberam essa orientação dos que cursaram a Academia Militar de Pequim, que a guerra irregular é uma guerra suja. No entanto, hoje a esquerda, derrotada no campo e na própria ideologia, aparece no muro das lamentações, condenando a ‘repressão brutal’ e passando-se por vítima, como se os guerrilheiros tivessem sido levados ao Brasil Central para fazer camping”[78]

 

No discurso militar, as Forças Armadas apenas teriam reagido à ação armada dos guerrilheiros, não sendo, portanto, responsáveis pelo início do conflito. Naquele contexto específico, onde todos estavam ali “para matar ou morrer”, o emprego da violência – material e numericamente desproporcional – foi justificado pelo fim a ser alcançado, a eliminação dos focos guerrilheiros. O argumento dos militares, de que uma “guerra irregular é uma guerra suja”, a rigor poderia eximi-los da responsabilidade sobre os excessos cometidos na região. Nesse sentido, a violência praticada no Araguaia pode ser analisada à luz das reflexões de Hannah Arendt, para quem a essência da ação violenta é

 

“regida pela categoria meio-fim, que quando aplicada a questões humanas tem a característica de estar o fim sempre em perigo de ser sobrepujado pelos meios que ele justifica e que são necessários para atingi-lo. O fim da ação humana, em contraposição aos produtos finais de fabricação, nunca pode ser previsto com segurança; deste modo freqüentemente os meios utilizados para alcançar objetivos políticos são muitas vezes mais relevantes para o mundo futuro do que os próprios objetivos pretendidos”[79]

 

A partir da morte do cabo Rosa, as hostilidades entre as tropas regulares e a Comunidade de Informações se agravaram. Dr. Asdrúbal, agora se apresentando com sua patente e nome verdadeiro, major Lício Maciel, foi tirar satisfações em público com o coronel Pitta pelo fato dele ter enviado um jovem e inexperiente tenente do NPOR para enfrentar “terroristas”. Apesar da rígida hierarquia militar – Lício estava duas patentes abaixo de Pita – ameaçou incluí-lo no AI-5 e ainda o chamou de “palhaço” na frente dos subordinados. Lício, em narrativa para esta pesquisa, teceu os seguintes comentários sobre esse episódio:

“Não houve conflitos de autoridade dignos de nota durante as operações. Apenas alguns poucos desentendimentos sem relevância. Para cima, a autoridade do ministro Orlando Geisel era incontestável. Como a área de atuação pertencia a vários comandos, o ministro assumiu o controle. Para baixo, o tenente-coronel Torres, do CIE, que era mantido na área, evitou maiores atritos que eventualmente poderiam surgir. A diplomacia do Torres era reconhecida e respeitada”[80]

 

“Sobre o caso do coronel Pita, ele costumava desviar o emprego do helicóptero (de uma mineradora, emprestado para as operações), para comparecer aos churrascos nas fazendas, transportar Coca-Cola, etc. O Torres cortou o privilégio, agindo com seu costumeiro discernimento e diplomacia, mas com firmeza. Anteriormente, o coronel Pitta foi o responsável por ter mandado uma patrulha comandada por um oficial R-2, despreparado, para a área onde foi preso o José Genoíno, depois do CIE ter informado o fato e ter alertado que os comunas não estavam lá para brincadeira. Resultado: mataram o cabo Rosa”[81]

 

A observação abaixo é do Dr. George, em narrativa oral:

 

“Lício tem grande coragem pessoal, mas sempre foi muito afoito e o que ele fez tem que ser levado em conta porque estava indignado e com grande irritação pelo que estava acontecendo. Entretanto seu ato não pode ser tomado como fruto de um sentimento coletivo da Comunidade de Informações. Ele jamais poderia ter faltado o respeito com um superior hierárquico. Ninguém entre nós, por mais que estivesse irritado com as decisões erradas de Belém, aprovou o ato dele. Brigar com os superiores nunca deu certo.”[82]

 

Lício prossegue com o assunto em seu depoimento, ilustrando, a meu ver, muito do imaginário dos militares da Comunidade de Informações durante o regime militar:

“Conflito de autoridade é uma questão muito complexa, envolvendo a base da profissão militar: disciplina. Mas vale tecer o comentário que o militar não pode nunca ser instrumento servil e complacente, responsável por obediência passiva, inconsciente, que avilta seu caráter, destrói seu incentivo e degrada sua moral. Quem se omite, indiretamente se associa”

 

“É evidente que existe muita diferença entre oficiais carreiristas, que querem, de qualquer maneira, sair general, e os que na justeza dos critérios, por merecimento individual, como é voz corrente na tropa. Infelizmente, a maioria desses últimos leva carona” [83]

 

Tal conflito pode ser analisado segundo o conceito de Castoriadis sobre heteronomia, cujo essencial, no nível individual, seria o “domínio por um imaginário autonomizado que se arrojou a função de definir para o sujeito tanto a realidade quanto seu desejo”[84]. Nesse sentido, o coronel Lício não questionava o fim pretendido pela ação militar, pois esse já havia se tornado o “seu desejo”. Discordava apenas sobre a forma mais rápida e eficiente para atingi-lo.

Segundo o Relatório Arroyo, em 8 de maio, três dias depois da morte do cabo Rosa, morreria o primeiro guerrilheiro, Bérgson Gurjão Farias, codinome Jorge[85]. Foi abatido na mata por uma patrulha de pára-quedistas do Rio de Janeiro. Era estudante de Química e tinha 24 anos. Seu corpo foi levado para a base de Xambioá, com o rosto todo deformado. José Genoíno, que havia sido levado pelos militares de volta à região, assistiu quando o corpo de Bérgson foi pendurado numa árvore, de cabeça para baixo, para catarse dos militares que chutavam sua cabeça inerte.

 

Uma nova morte ocorreria na seqüência, em 25 de maio. A vítima foi o barqueiro Lourival de Moura Paulino[86]. Já eram três as vítimas do conflito, simbolicamente, um militar, um guerrilheiro e um camponês. A versão dos militares na ocasião é que ele teria se enforcado na prisão da Delegacia de Xambioá. Os militares que prestaram depoimento para esta pesquisa garantem, até hoje, que teria sido suicídio mesmo, que Lourival não teria resistido às “pressões psicológicas” que vinha sofrendo[87]. Para a Comissão dos Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça, o barqueiro morreu vítima de tortura. Todavia, a morte do barqueiro é ilustrativa da relação que os militares estabeleceram com a população nos primeiros tempos da Primeira Campanha. Se inicialmente os habitantes da região não entenderam toda a movimentação de tropas[88], logo tiveram suas rotinas alteradas profundamente. Para Romualdo Campos Filho:

 

“a inexperiência das tropas, o desconhecimento do inimigo e de seus reais objetivos e o preconceito contra o povo pobre da região surtiram um efeito negativo no meio da população. Toda aquela movimentação ostensiva, com acusações contra pessoas que até então procuravam dar atenção e cuidar da população [os guerrilheiros], foi recebida com desconfiança pela população”[89]

 

De acordo com o Dossiê, na terceira semana de maio, a Comunidade de Informações promoveu um encontro para fazer a primeira avaliação da campanha. Concluíram que os guerrilheiros estariam reunidos em dois grandes grupos (na verdade eram três, os Destacamentos A, B e C), com aproximadamente 50 guerrilheiros no total (eram 69).  As informações mais importantes diziam respeito à organização dos guerrilheiros. Já naquela avaliação descobriram que uma Comissão Militar comandava a guerrilha, diretamente subordinada ao Birô Político do partido, “este instalado em São Paulo, em segurança”, fustigam os autores do Dossiê[90]. Essas informações seriam mais tarde utilizadas para a organização da caçada final aos guerrilheiros

 

Um documento do Exército, elaborado ainda no início da campanha, em maio, revelava as informações obtidas até aquele momento. Optei por transcrever somente os itens de6 a10 do documento:

 

“6) O chefe, dos subversivos existentes na área, é alcunhado de OSVALDÃO. Conhece profundamente a região e possui grande aptidão para o deslocamento nas picadas das matas.

 

7) Há informações que existem na área elementos treinados no exterior.

 

8) Está sendo realizada na área uma forte atividade psicológica, com o objetivo de tornar a população temerosa quanto a atuação das forças militares. É dito que as FA caso não prendam o OSVALDÃO e seu bando, em revide incendiarão as fazendas e destruirão as vilas.

 

9) Os bandidos têm se apresentado na área armados de espingarda de chumbo, calibre 12 ou 16, Winchester e revolver 38 ou 45. Tudo fazem para se apossar de uma metralhadora.

 

10) O fora da lei OSVALDÃO apresenta-se como governador do Pará, aos moradores das vilas e povoados localizados às margens do rio ARAGUAIA”[91]

 

Um outro documento, elaborado pelo CISA, da Aeronáutica, também resume o que os militares sabiam dos guerrilheiros no final da Primeira Campanha:

“os depoimentos, coleta de informes e apreensão de farta documentação, permitiram levantar todo o esquema de Guerrilha na área, que consta de 3 destacamentos, A, B e C divididos em Grupo de 6 militantes, perfazendo o total de aproximadamente 70 guerrilheiros comandados por um Comitê Militar”[92]        

 

Quando o mês de maio terminou, já não havia nenhum recruta ou soldado inexperiente no Araguaia. Segundo o Dossiê, entre os dias 27 de maio e 7 de julho, foram enviados para Xambioá outros 250 homens, parte da 8ª Região Militar do general Darcy Jardim de Mattos, parte da 3ª Brigada de Infantaria do general Antônio Bandeira. Eram poucos soldados, os comandantes avaliavam, um efetivo de cinco militares para cada guerrilheiro. Os tradicionais manuais militares de guerra não-regular (rebeliões, revoltas, guerrilhas e guerras civis) apontavam um número ideal de dez contra-rebeldes para cada rebelde[93]. Mais tarde, esse pequeno efetivo inicial seria multiplicado por quinze. Mas naquele momento eram 250 soldados fardados. A missão: apenas resguardar uma área onde habitavam cerca de 20 mil pessoas. Para a localização dos guerrilheiros, agora somente equipes da Inteligência poderiam entrar na mata. Mais uma vez é o coronel Lício quem comenta em narrativa a esta pesquisa:

 

“Nunca houve no Araguaia conflitos de comando graves, que chegassem à quebra da hierarquia. Os generais estavam errados na concepção inicial de combate à guerrilha. Foram alertados pelo censo de lealdade de seus auxiliares e se convenceram a tempo. Quanto aos oficiais que estavam atrapalhando, foram transferidos, talvez até por vontade própria, para não enfrentar a guerra”[94]

 

Assim, tanto as Tropas Regulares como as não-regulares, independente de defenderem métodos de ação diferenciados entre si, combatiam o inimigo comum tendo como premissa a mesma idéia: a de que faziam parte da espinha dorsal da nação e, portanto, que deveriam salvá-la da ameaça comunista, no Araguaia personificada pelos guerrilheiros. Mas, ainda que ambas as tropas fossem partes de uma mesma instituição, tivessem incorporado os mesmos valores, e buscassem os mesmos objetivos, a forma como foram criadas as Comunidades de Informações forjou, além da constituição de outras concepções de combate, uma auto-representação diferenciada daquela das tropas regulares.

 

O imaginário plural dos militares continuava provocando divergências no seio da instituição. A partir do início de julho de 1972, o general Bandeira começaria a tomar conta da região. Mas com restrições. A tropa do coronel Pitta foi evacuada. Para o lugar, Bandeira acertou com os chefes em Brasília enviar seus próprios homens, reforçados por tropas regulares e agentes de informações da Aeronáutica. Mas os conflitos entre tropa regular e Comunidade de Informações prosseguiriam.

 

Mudaram os chefes, mas o propósito continuava o mesmo: desbaratar a guerrilha. Nesse período, mais um militar seria ferido e três guerrilheiros seriam mortos – Kleber Lemos da Silva, o Carlito[95]; Maria Lúcia Petit da Silva, a Maria[96], e Idalísio Soares Aranha Filho, o Aparício[97]. Outro morador da região, Juarez Rodrigues Coelho, teria cometido suicídio na cadeia, de acordo com os militares. Por fim, a guerrilha sofreria mais duas baixas: Dagoberto Alves Costa, o Miguel, e Regilena da Silva Carvalho, a Lena, foram presos enquanto tentavam escapar da região. Os militares registram que nesse período, em meados de julho, os guerrilheiros também teriam “justiçado” um jovem camponês de 16 anos, João Pereira, filho do sitiante Antônio Pereira – o adolescente que guiou o grupo do Dr. Asdrúbal até um acampamento guerrilheiro.

 

O que chama mais a atenção no Dossiê Araguaia sobre essa Primeira Campanha é o relato dos militares sobre o completo abandono da região pelas autoridades constituídas. O Araguaia vivia em estado de quase anarquia, com a população local sem qualquer assistência dos órgãos governamentais e à mercê de uma legião de grileiros, jagunços e toda a sorte de aproveitadores, informam os próprios militares. A partir de junho, os militares começariam a tomar providências para pôr ordem naquela terra de ninguém. Eles denominam essas providências de “ações psico-sociais”. Eis o que registra o Dossiê Araguaia sobre as novas estratégias utilizadas pelas Forças Armadas na região, centradas na arregimentação da simpatia dos habitantes:

 

 “No período, a Inteligência constatou a existência de diversas vulnerabilidades na área, que implicavam uma imediata correção:

  • isolamento e abandono da população pelos órgãos do Governo Federal, em particular SUDAM e INCRA;
  • o trabalho na região era baseado na exploração do homem pelo homem, no regime de troca de trabalho por alimentos. Um sistema medieval de mão-de-obra escrava, no qual o trabalhador ficava sempre devendo aos proprietários-patrões, cabendo somente a estes os grandes lucros obtidos pela exploração dos castanhais do Pará;
  • presença constante de charlatões dizendo-se credenciados pelo INCRA e SUDAM, abusando da credulidade dos posseiros para retirar-lhes a posse das terras;
  • ineficácia total do sistema judiciário, disso resultando o costume, já arraigado, da aplicação da lei do mais forte.
  • existência de maus delegados e policiais corruptos na área, buscando atender apenas aos desejos dos grileiros de terras, sem dedicar nenhuma atenção a possíveis reivindicações dos posseiros;
  • total ausência de assistência médica no que diz respeito a pessoal, instalações e medicamentos. Essa foi a vulnerabilidade melhor explorada pelo PC do B, propiciando à população um mínimo de assistência médica através de seus quadros de médicos e enfermeiros engajados na guerrilha;
  • rede de abastecimento precária e deficiente em gêneros de primeira necessidade, restringindo a alimentação dos habitantes locais a peixes, farinha, arroz, milho, mandioca e frutos sazonais;
  • elevado índice de analfabetismo, conseqüência da inexistência de escolas e professores na grande maioria das localidades;
  • precaríssimas condições das habitações existentes, facilitando a proliferação de doenças endêmicas;

 

Considerando esse quadro caótico, caldo de cultura inesgotável para os guerrilheiros, as Forças Armadas pressionaram os órgãos competentes do governo federal para a solução imediata de alguns desses problemas, visando equilibrar as condições psico-sociais na região”[98]

 

Fazendo uso mais uma vez do pensamento de Foucault, lembro que o que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito

 

(…) “é simplesmente que ele não pesa como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induza o prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social, muito mais do que a instância negativa que tem como função reprimir”[99]

 

O Dossiê Araguaia revela um detalhe surpreendente sobre a guerrilha, expondo mais uma vez o imaginário plural dos militares. A cúpula das Forças Armadas, até àquela altura, ainda não considerava prioritário o combate aos guerrilheiros. Para o CIE, para o CISA e para o general Antônio Bandeira, que na ocasião era um dos líderes da Comunidade de Informações, era de máxima relevância que o Exército tomasse posições no Araguaia para realização de operações de busca de informações. Mas, para o Alto Comando do Exército, aquela história de subversivos no meio de um matagal no fim do mundo não passava de “paranóia do Bandeira”. Descreve o Dossiê:

 

“No entender dos altos escalões das Forças Armadas, o trabalho de campo do PC do B não apresentava perigo iminente; era uma questão a ser resolvida por partes e a custos menores. E isso foi feito”[100]

 

Diante desse quatro o chefe do CIE, general Milton Tavares, teve que se retirar temporariamente de campo. Mas pediu a seu aliado do CISA, o brigadeiro Newton Vassallo, que tomasse seu lugar no Araguaia. Em palestra ao Alto Comando da Aeronáutica, a 11 de agosto de 1972, no qual o ministro Araripe Macedo tentava engajar a Força Aérea, por inteiro, nos combates aos “subversivos” do Araguaia, Vassallo revelaria:

 

“Face aos constantes atritos na concepção e condução das operações entre os Órgãos de Informações e os Órgãos da 8ª Região Militar, o CIE se retirou, solicitando ao CISA que prosseguisse nas operações de busca de informes”[101]

 

Nessa mesma palestra de cooptação, Vassallo conclui que o despreparo das Forças Armadas ante o processo subversivo em andamento na Região do Araguaia teria como causas:

 

  • “o desequilíbrio dos meios pertencentes aos Comandos envolvidos;
  • falta de uniformidade de interpretação dos conceitos de Segurança Interna e Defesa Interna;
  • as variações das motivações pessoais dos comandos empenhados”[102]

Também em um relatório elaborado pela Aeronáutica, em 28 de agosto de 1972, as estratégias utilizadas pelas Tropas Regulares são consideradas deficientes. Nesse, os mateiros não simpatizantes dos guerrilheiros assim apontavam os principais erros cometidos pela tropa regular no interior da mata:

 

“(1) – faz muito barulho;

 (2) – deixa várias pistas;

 (3) – só desloca-se nas estradas e piques;

 (4) – é muito estática; e

 (5) – utiliza excessivamente o helicóptero no transporte de pessoal de uma clareira para outra”[103]

 

Mas a situação logo seria alterada, quando o Alto Comando do Exército decidiu atacar os guerrilheiros promovendo uma grande manobra na região. Os soldados voltaramem outubro. Destavez com as tropas devidamente organizadas e obedecendo a um único comando. Desta vez com muito mais homens, na proporção de quase cinquenta contra-rebeldes para cada rebelde.

 

 

3.5 – O Grande Combate

Desde 1965, as Forças Armadas vinham realizando, quase todos os anos, manobras para o treinamento das tropas, não para a eventualidade de uma guerra externa, mas com enfoque na segurança interna. Antes que se descobrisse a Guerrilha do Araguaia, já haviam sido realizadas pela Aeronáutica a Operação Charrua, no Sul do país, a Poti, no Nordeste, a Pantanal, no Mato Grosso, e a Carajás, na região de Carolina, no Maranhão, pela Aeronáutica. Em 1970, foi realizada pelo Exército e com o apoio da Aeronáutica a Operação Pajuçara[104], no agreste da Bahia – esta sim, uma operação real que visava única e exclusivamente prender o capitão Carlos Lamarca -, e no ano seguinte a Operação Mesopotâmia, em Imperatriz, Maranhão, com o objetivo de desbaratar o grupo guerrilheiro VAR-Palmares na região do Bico do Papagaio. Explica o Dossiê Araguaia:

 

“O objetivo era fazer frente ao surgimento de um possível cenário de guerra revolucionária, como, aliás, já ocorria em diversos países vizinhos. Dessa forma, todos os exercícios e manobras das Forças Armadas, conforme experiências já adquiridas por outros países, passaram a enfatizar a Segurança Interna. Manobras militares eram tradicionalmente realizadas, anualmente, em áreas remotas do território nacional, objetivando adaptar a tropa a diferentes situações geográficas”[105]

 

“É evidente que em todo esse treinamento, por mais que se tentasse chegar o mais próximo possível da realidade, sempre eram observadas lacunas. Embora o papel de guerrilheiros fosse desempenhado por militares bastante treinados, não existia uma população cujas tendências político-ideológicas pudessem ser avaliadas e ser ‘ganha’  para as posições do contra-rebelde. Dessa forma, a descoberta do trabalho de campo do Partido Comunista do Brasil, em 1972, ofereceu uma oportunidade única de realização de uma manobra dentro de um quadro real. Havia, então, o guerrilheiro e uma população a ser considerada”[106]

 

 

Em julho de 1972, houve uma reunião do Estado Maior do Exército. O ministro do Exército era o general Orlando Geisel, mas ele não teria participado pessoalmente dessa reunião. O Estado Maior, naquela época, era muito independente. O que é certo é que se decidiu, ali, realizar uma grande manobra militar anti-subversiva na região do Araguaia. Com exceção da Operação Pajuçara – a grande caçada a um homem só -, seria a primeira grande operação militar da história brasileira em cenário real desde a Segunda Guerra Mundial. A manobra seria realizada na segunda quinzena de setembro de 1972, numa área entre as cidades de Marabá, Araguatins e Araguanã. Foi batizada de Operação Papagaio e seria realizada essencialmente em áreas sob a jurisdição do Comando Militar da Amazônia. Por conta das mobilizações que também teriam que ser realizadas no sul do Maranhão, foram chamadas tropas dos IV Exército, com sede em Recife. Naprática, os poderes dos comandantes de Belém, principais protagonistas do desastre da Primeira Campanha, ficariam diluídos. Em 09 de agosto de 1972, foi elaborado um documento com as diretrizes da Segunda Campanha, no qual foram assim estabelecidos os objetivos da manobra:

a. Realizar, por intermédio da manobra, uma operação psicológica visando a:

  • alijar da área os elementos subversivos que lá vêm atuando;
  • capacitar a população de que poderá contar com o apoio do Exército, conquistando-lhe, também, a simpatia pelas ACISO empreendidas.

 

b. Testar o novo QO[quadro de operações] de Batalhão de Infantaria de Selva (Experimental) elaborado pelo EME[estado maior].

 

c. Testar o grau de instrução  da tropa.

 

d. Exercitar a tropa na realização de:

  • reconhecimentos, marchas motorizadas e estacionamentos;
  • operações anti-guerrilhas;
  •  vivência na selva;
  • operações de informações e busca de informes de interesse para a Segurança Interna;
  • ligações com outras Forças Singulares”[107]

 

O Dossiê também revela que foi decidido entregar a direção-geral da operação ao general Viana Moog, homem com tino político, mas sem maiores ligações com a repressão política que, na ocasião, exercia o cargo de Comandante Militar do Planalto. De acordo com o Dossiê, a decisão teria sido tomada não contra o comando de Belém, mas porque o comando do Planalto tinha mais unidades que poderiam ser engajadas. Ademais, havia nesse comando uma brigada operacional extremamente bem treinada, a 3ª Brigada de Infantaria, sediada em Brasília, na ocasião sob o comando do general Antônio Bandeira. Desta forma, a estratégica função de comandante operacional foi entregue ao general Bandeira. Para o Alto Comando, o Estado Maior e o general Viana Moog, tratava-se de uma importante manobra militar, mas apenas mais uma das muitas manobras desde 1965. Para o general Bandeira, deveria ser mais do que isso. Explica o Dossiê:

 

“Na realidade, o general Bandeira nunca pensou em realizar uma manobra, pois sempre manteve seus comandados conscientizados de que iriam participar de uma operação de combate objetivando eliminar a guerrilha que se instalara na área do Araguaia”[108]

 

Um outro documento do CIE reforça a idéia de que persistia, ainda que em menor escala, a mesma divisão verificada na Primeira Campanha. O Alto Comando e a tropas regulares de um lado; Comunidade de Informações, liderada pelos generais Bandeira e Milton Tavares de outro. Até os termos utilizados são similares:

 

“Nós falamos em combate, uma vez que a 3ª Brigada nunca pensou em realizar a manobra. Ela conscientizou seus integrantes e os demais componentes da operação e que haveria uma atuação de combate, visando eliminar o foco subversivo da área”[109]

 

A 12 de setembro de 1972 as tropas começariam a se deslocar rumo ao Araguaia. Por terra, água e ar. Batizada de Operação Papagaio, foi a maior mobilização militar da história desde que as Forças Expedicionárias Brasileiras desembarcaram na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. De Brasília, o general Viana Moog deslocou um pelotão do 8º Grupamento de Artilharia de Brasília e outro pelotão do 2º Batalhão Ferroviário de Araguari (MG). O general Bandeira, por sua vez, mandou, para a luta no Araguaia, os melhores homens de todas as tropas que estavam sob suas ordens. De Brasília, seguiram a 3ª Brigada de Infantaria. De Goiânia, foi o 10º Batalhão de Caçadores. De Ipameri (GO), foi chamados o 6º Batalhão de Caçadores. De Uberlândia, seguiu o 10º Batalhão de Infantaria. De Cristalina (GO), seguiu a 2ª Companhia do 6º Batalhão de Caçadores.

 

Sob as ordens do Comando Militar da Amazônia, seguiu de Belém o 2º Batalhão de Infantaria de Selva. O IV Exército, em Recife, enviou o 25º Batalhão de Caçadores de Teresina (PI). Do Rio de Janeiro, seguiu uma companhia da Brigada de Pára-Quedistas e duas equipes de tropas especializadas em inteligência. A Marinhaapareceu com uma companhia do Grupamento de Fuzileiros Navais de Brasília. A Aeronáutica seguiu com uma ala inteira da Força Aérea, com 180 homens e 15 aeronaves, sob o comando de um de seus coronéis de maior prestígio, Cherubim da Rosa Filho, mais tarde promovido a ministro do Superior Tribunal Militar. No total, nada menos que 3.250 militares foram deslocados de distâncias de até 1.850 quilômetrosem estradas, a maior parte de terra. O Dossiê descreve a estratégia traçada[110].

 

A manobra – ou a guerra, para os homens de Bandeira – começou a 18 de setembro. A primeira reação dos soldados ao pisar na mata foi de medo. Não apenas dos guerrilheiros, mas também de cobra, de insetos, de onça. A mata escurecia por volta da 16h30. Na melhor das hipóteses, eles precisavam de quatro dias andando nas imediações das cidades até que tivessem coragem de se embrenhar na selva amazônica na caça a guerrilheiros. Alguns pelotões precisaram de oito dias de adaptação. Alguns pelotões só caçaram guerrilheiros por quatro dias antes de receberem a ordem de retirada. Registra o Dossiê:

 

“Deve ser assinalado que o longo deslocamento por estradas de má qualidade, aliado ao clima inóspito da selva provocaram na tropa, como é natural, um prematuro desgaste”[111]

 

“A partir de 19 de setembro os guerrilheiros passaram a realizar constantes deslocamentos, dentro da selva, preocupando-se em não utilizar picadas ou estradas. Ações diversas de emboscadas, inquietação e fustigamentos contra a tropa foram realizadas pela guerrilha durante o período dos dez dias de aclimatação”[112]

 

Os guerrilheiros captaram a fragilidade dos militares. Os próprios militares transcreveram no Dossiê Araguaia as observações que Maurício Grabois registrou em seu Diário:

 

“O inimigo tem extensa frente a atender, que vai de Marabá a Xambioá. Por isso, tem que mobilizar numerosos efetivos, que apesar de seu vulto não atendem à necessidade de golpear seriamente as Forças Guerrilheiras. O moral da tropa do inimigo é baixo. Os camponeses informam que os soldados revelam medo. Até hoje, os milicos não se encorajaram a penetrar na selva. As patrulhas do Exército andam somente pelas estradas, caminhos e, excepcionalmente, picadas. As forças repressivas têm espírito defensivo, revelam displicência, afoiteza e completa falta de vigilância. Isso favorece a realização de ações ofensivas de nossa parte (emboscadas, assaltos e fustigamentos)”[113]

.

 

A 20 de setembro, tombariam em combate mais dois guerrilheiros, os primeiros dessa Operação Papagaio – Francisco Manoel Chaves, o Zé Francisco, e Miguel Pereira dos Santos, o Cazuza[114]. Dias depois, a 26 de setembro, seria a vez dos guerrilheiros matarem o sargento Mário Ibrahim da Silva.

 

Agora eram três guerrilheiros mortos[115] e dois militares. A morte do sargento mudou o ânimo dos militares, e a partir daquele episódio a iniciativa mudaria de lado. Bandeira deu ordens às suas tropas para avançar. E as tropas saíram à caça. Desta vez com mais impetuosidade. Em paralelo, o CIE, sempre sob a liderança de Bandeira, começou a recrutar mateiros para guiá-los. Nos quatro dias subseqüentes, os militares mataram nada menos que nove guerrilheiros[116]. Mas as notícias demoraram a chegar ao comandante Mário. Em anotação do dia 03 de outubro de 1972, Velho Mário registra em seu Diário:

 

“No mês de setembro, por ocasião da grande campanha das FF AA [Forças Aramadas] contra o movimento guerrilheiro, o DC [Destacamento C] teve mais 4 baixas fatais. Todas elas por infração das leis da guerrilha e por inexperiência militar do seu VC[vice-comandante]. Este, em companhia de Cazuza, ia se encontrar com 3 co do D. No caminho, ouviram ruído de vozes. Cazuza achou, sem qualquer razão, que se tratava de gente da guerrilha. No dia seguinte de manhã, Vitor permitiu que seu companheiro fosse investigar, sem que houvesse qualquer necessidade de fazê-lo. Resultado: tratava-se de um acampamento inimigo. Cazuza foi descoberto e morto, sendo enterrado no próprio local. Sozinho, Vitor foi ao encontro de Antonio, Dina e Zé Francisco. Depois de apanhá-los, ao passar por um caminho, Vitor observou rastros do inimigo. Resolveu então observá-lo, sem que houvesse motivo para isso. O local escolhido para a observação era péssimo: em frente a um cipoal e a uns poucos metros da estrada. Alguns co não acharam justa a decisão, mas Vitor insistiu. Três horas depois, o inimigo apareceu. Já tinha passado quase toda a tropa adversária, quando faltava passar apenas o último soldado, Zé Francisco fez barulho, talvez deixando cair a arma. Irrompeu, então, violento tiroteio. Dina caiu fora, tendo uma bala arranhado seu pescoço. Os outros três ficaram mortos no terreno. Assim o DC ficou desfalcado de 11 combatentes, sendo 7 mortos e 4 presos. Restavam apenas 9. Só então Paulo empenhou-se em se ligar com a CM[comissão militar]”[117]

        

 

Na semana seguinte, a primeira de outubro, outros cinco guerrilheiros também morreriam. Àquela altura, a guerrilha já havia sofrido o total de 30 baixas desde abril – 17 mortos, um guerrilheiro justiçado[118], 11 presos e um desertor[119], contabiliza o Dossiê.  Mas as notícias demoravam a chegar para o comandante das Forças Guerrilheiras. Em anotação de 07 de novembro de 1972, um mês após o término da Segunda Campanha, Velho Mário registraria no Diário:

 

“7/11- Elementos da massa informaram que viram em Xambioá os cadáveres de 6 companheiros nossos dentro de sacos de lona. Junto a eles estavam 6 mochilas semelhantes às nossas. Dizem os informantes que os guerrilheiros foram surpreendidos em acampamento perto de uma grota. Será que um golpe de tal envergadura foi desfechado contra o DC ou contra o grupo do Ju? Tenho minhas dúvidas. Aguardo novas informações para saber o que aconteceu”[120]

 

Nenhuma das mortes dessa Segunda Campanha provocaria tanta comoção quanto a de Helenira Rezende de Souza Nazareth, a Fátima. Ela tombou a 28 de setembro, perto de um local chamado Remanso dos Botos, quando uma patrulha de fuzileiros navais deu de frente com a guerrilheira. No tiroteio, Fátima morreu. No Diário, Velho Mário afirma que a guerrilheira teria sido fuzilada depois de apanhada com vida:

 

“Novas informações foram trazidas sobre o incidente em que a co Fátima tombou sem vida. Os combatentes do DA estavam preparando uma embosca. Dividiram-se em 2 grupos que deveriam atuar em conjunto. Umsob o comando do Pe (da CM) e outro sob a direção de Nu. Este último, que vinha na frente, deixou no caminho da corrutela de S. José dois observadores, Lauro e Fátima, e fez alto a uma certa distância. Precisamente nesse momento surgiu na estrada uma força inimiga de 16 homens que acompanhava 4 burros tropeados pelo Edith. À frente da unidade do Exército vinham três batedores (o que levou Isauro a pensar que a tropa era constituída apenas de 3 soldados). Um deles, o sargento, veio para o lado do barranco onde estavam nossos combatentes. Lauro, que portava arma longa semi-automática de 9 tiros, atrapalhou-se com a arma, não atirou e fugiu. O milico pressentiu a Fátima e disparou o FAL em sua direção. Esta, com sua arma de caça 16, o fuzilou. Em seguida, correu e se entrincheirou mais adiante. Um soldado, que pesquisava o local à sua procura, foi por ela abatido mortalmente com tiros de revólver 38. Ferida nas pernas, foi presa. Perguntaram-lhe onde estavam seus co. Respondeu que poderiam matá-la, pois nada diria. Então os milicos a assassinaram friamente. Seu corpo foi enterrado nas Oito Barrancas, para onde foi transportado em burro. Seucomportamento causou grande admiração entre a massa. Esta informa que um capitão dissera que se nossa companheira tivesse uma boa arma teria liquidado boa parte dos 16 militares. Não há dúvida de que a combatente Fátima revelou grande bravura e notável firmeza revolucionária. A história de nosso povo revela poucos exemplos de semelhante heroísmo. Sozinha, com absoluta inferioridade de armamento, enfrentou quase duas dezenas de soldados muito bem armados e matou dois. Arrostou com coragem seus captores e preferiu serenamente a morte a conservar a vida delatando seus irmãos de luta. Que o exemplo da Fátima seja seguido por todos os combatentes das FF GG do Araguaia e por todos os jovens revolucionários brasileiros!”[121]

 

Registro que nem o Dossiê Araguaia, nem os militares que prestaram narrativas orais a esta pesquisa, confirmam a morte dos dois militares relatada por Velho Mário. Após a morte de Fátima, o comandante dos fuzileiros passou um rádio para o Bandeira pedindo permissão para voltar, porque a tropa não estava em condições psicológicas de permanecer no mato. Teria entradoem pânico. Bandeira permitiu que voltassem, mas também deixou que a história se espalhasse entre a soldadesca. Foi o suficiente para que, desmoralizados perante os homens do Exército e a Aeronáutica, os militares da Marinha fossem definitivamente excluídos das futuras missões no Araguaia. Não participariam da missão de inteligência seguinte, a Operação Sucuri, nem da Terceira Campanha, a Operação Marajoara –que de fato decidiu esse episódio.

 

Entre os guerrilheiros, a morte Fátima – agora tratada por seu verdadeiro nome, Helenira – continuaria ajudando a construir o imaginário sobre o Araguaia. Em um comunicado do Comando das Forças Guerrilheiras do Araguaia, datado de 8 de dezembro de 1972, intitulado “Uma heroína do povo”, Helenira é descrita como heroína, cuja morte deveria servir de exemplo aos jovens:

 

“A vida de Helenira é exemplo de valentia, desprendimento e dedicação à causa do povo. É motivo de inspiração para toda a juventude, para todos os democratas e patriotas. A história do Brasil assinala poucas atitudes tão heróicas por parte de uma mulher como a desta corajosa guerrilheira. Três gestos marcam sua trajetória de lutadora da liberdade e da emancipação nacional. O primeiro foi sua incorporação voluntária às Forças Guerrilheiras do Araguaia, fato que, por si só, revelou imenso destemor. O segundo consistia na denodada (sic) decisão de enfrentar sozinha uma força numerosa para garantir a segurança de seus irmãos de ideal, liquidando, apesar de enorme inferioridade de armas, dois inimigos. O terceiro se expressou na posição firme e serena de preferir a tortura e a morte a trair seus companheiros”[122] 

 

Para as Forças Armadas, a Segunda Campanha foi isso: oito dias com medo de entrar na selva, seguido de 12 dias de combates efetivos. A 07 de outubro, exatamente no dia marcado para o término da manobra, as tropas receberam ordens de Brasília para retornar aos quartéis. Bandeira ficou furioso, pois queria prosseguir com a caçada que começara a apresentar resultados. Falou com o general Viana Moog; apelou para os generais do Estado Maior com quem tinha maior trânsito. Argumentou que, se as tropas permanecessem no Araguaia, conseguiria desmantelar a guerrilha antes do Natal. Entretanto, revela o Dossiê, o Estado Maior alegou que os custos operacionais eram altos e que o Exército não poderia suportá-los.[123] E um documento do CIE igualmente registra:

 

“Lamentavelmente, quando os elementos operacionais estavam psicologicamente preparados para prosseguir em suas atividades, a operação acabou, pois era considerada MANOBRA…”[124] (Grifos no documento original)

 

O general Viana Moog, contudo, decidiu que pequenos efetivos permaneceriam com o objetivo de marcar a presença militar e fazer a segurança da região. A Polícia Militar de Goiás passou a realizar o controle da área de Xambioá e a Polícia Militar do Pará ocupou São Geraldo. Do Exército, segundo o Dossiê, permaneceu um pelotão do 36º Batalhão de Infantaria de Uberlândia, subordinado a Bandeira, com a missão de realizar a Operação Presença, de caráter social, em sete localidades[125]. A FAB também foi designada para fazer uma nova operação ACISO, levando médicos e dentistas e distribuindo remédios e material escolar à população da área:

 

“Esse trabalho foi altamente positivo, uma vez que angariou a simpatia e a confiança da população. Todavia, não foi conseguido o grau de lealdade desejado, em conseqüência da visão oportunista daquela gente, pois enquanto estava sendo beneficiada, mostrava-se grata às Forças Armadas. Mas cessado o apoio, bandeava-se para o lado de quem lhe prometesse algo mais”[126]

 

 

Bandeira ficou encarregado de fazer o relatório oficial da manobra, um livro grosso, com informações detalhadas sobre as operações. Omitiu o constrangedor incidente dos fuzileiros de seu relatório final: “Esse aqui eu não vou colocar na história não, vou deixar na minha gavetinha de rabo-de-gato, porque toda vez que eu quiser é só puxar um rabo assim”, disse ele a um militar, que prestou depoimento a esta pesquisa. Numa conversa com o general Darcy, Bandeira reclamaria, com seu vocabulário informal: “Porra Darcy, a morte do sargento Ibrahim prova que terrorismo não se combate com Aciso. Quantos homens a mais vamos perder?”[127]

 

Na mesma época, CIE, CISA e CENIMAR começaram a produzir para seus respectivos ministros relatórios sobre a situação que haviam deixado para trás no Araguaia. Um deles alertava que quando o Exército chegou à região, em abril de 1972, as polícias militares de Goiás e do Pará haviam realizado um trabalho “desagregador” junto à população e, caso a postura tivesse a ser repetida, comprometeria a ação social que acabara de ser realizada. Segundo o Dossiê, outro relatório alertava:

 

“Análise produzida pelos Órgãos de Inteligência a respeito da saída da tropa, após o encerramento da manobra, dando à guerrilha a falsa idéia de derrota do Exército, considerou que esse fato poderia influir negativamente com relação à ação psico-social realizada junto à população, que passaria a mostrar-se temerosa com a possibilidade de retaliações por parte de integrantes da guerrilha. Por outro lado, os guerrilheiros, convictos da derrota do Exército, sentir-se-iam livres para realizar um ostensivo trabalho de massa buscando aumentar sua rede de apoio, bem como o recrutamento de combatentes para a causa”[128]

 

Para Elio Gaspari, a derrota do Exército nessa campanha não teria sido falsa, visto que as “operações de 1972 resultaram num incompreensível desastre militar. Conceitualmente disforme, a ofensiva acumulou quase todos os erros que a situação permitia”.[129] O grande equívoco teria sido o de se comportarem como uma força de ocupação, na qual o tamanho da mobilização e a conduta dos soldados teriam assustado a população[130]. Nessa Segunda Campanha, enfim, os militares não criaram nenhuma nova estratégia de luta. Fizeram uma MANOBRA, como bem escreveu com letras maiúsculas e grifo o oficial de informações que duas décadas depois relataria o episódio aos novos membros do CIE, uma manobra de treinamento ao velho estilo.

 

Ainda que os militares tivessem fracassado nessa campanha – levando-se em conta os parcos resultados obtidos -, a operação serviu para que os militares conhecessem melhor o inimigo e planejassem a terceira e última ofensiva. Estaria nesse ponto a capacidade criativa do Exército nessa Segunda Campanha: testar as tropas e equipamentos, de fazer um ensaio geral para os combates inovadores que seriam travados adiante, estes sim com novas táticas militares. Mas, em um ponto, o CIE avaliou a situação na direção correta. Com a retirada das tropas pela segunda vez, a guerrilha cantou vitória. A Comissão Militar da guerrilha avaliou que a selva seria inexpugnável. Mais tarde se constatou que estavam errados. Os militares reproduzem no Dossiê Araguaia uma anotação de Maurício Grabois em seu Diário, que ilustra com precisão o clima na região depois da Segunda Campanha:

 

“As Forças Armadas da ditadura realizaram duas grandes campanhas contra as FFGG [Forças Guerrilheiras]. Uma em abril e outra em setembro/outubro. Ambas fracassaram, porque seus planos foram elaborados sobre mapas, fora da realidade da selva. Grandes massas de soldados não podem penetrar na selva por inúmeras razões. Elas acabam se concentrando na Transamazônica, nas cidades e vilarejos da periferia. O excesso de homens traz ao inimigo enormes dificuldades, como falta de transportes, precária logística e emprego de tropas sem experiência de luta anti-guerrilha. Além do mais, os guerrilheiros só aparecem quando querem e julgam conveniente. O Exército combate um inimigo invisível”[131]

 

A retirada dos militares da região deu aos guerrilheiros a ilusão da vitória, que, mesmo temporária, despertou-lhes entusiasmos e algo próximo de uma “felicidade do guerrilheiro maoísta”.[132] Também em alguns discursos de militares, os guerrilheiros teriam alguns elementos concretos que alimentavam a idéia da vitória, como na estimativa de um oficial do Exército, na qual

 

“o inimigo tinha o apoio de oito em cada dez habitantes da região e de quase todos os pequenos comerciantes. Noutro cálculo dos militares, os guerrilheiros tiveram a adesão direta ou indireta de até 180 moradores. O amparo derivava tanto da simpatia como do medo”[133]

 

 

Paradoxalmente, um entusiasmo também observado no Comunicado de número 2, de 20 de outubro de 1972, onde as Forças Guerrilheiras do Araguaia assim profetizaram a volta do Exército à região:

 

“As Forças Armadas do governo, em especial o Exército, dedicam-se, agora, à abertura de estradas em toda a região, objetivando sua mais fácil locomoção. Estão preparando nova e mais espetacular campanha contra os guerrilheiros. Estes saberão enfrenta-los de acordo com as circunstâncias para frustrar os infames desígnios dos generais da ditadura”[134]

 

Naquele momento, em Brasília, o Exército treinava um seleto grupo de militares para desencadear a maior operação de inteligência da história do País. Preparava a criação de uma nova estratégia de combate – uma recriação do imaginário militar.



[1] Tomo aqui emprestado este pequeno trecho a respeito do marechal Floriano Peixoto, primeiro ditador militar de República. In: Cléria Botelho da Costa. “Lima Barreto: Sonho e Desilusões com a República”. Goiânia: Editora UCG. Revista Fragmentos de Cultura, vol. 14, nº 9, set., 2004, pág. 1683.

[2] Carlos Fico, Op. Cit., pág. 77

[3] O guerrilheiro é um dos desaparecidos. Segundo o Dossiê, morreu em junho de 1974.

[4] Depoimento oral de Hoffmann (codinome), em 30 mai. 2001. Ver Capítulo IV, item “A Caçada Final”.

[5] O professor Carlos Fico faz uma distinção entre os serviços de informações e os serviços de segurança do Estado. O primeiro, integrado pelo Serviço Nacional de Informações, o SNI, e pelas Divisões de Segurança e Informações dos ministérios, formava a chamada Comunidade de Informações. O segundo, liderado pelo CIE, do Exército, e integrado pelos seus congêneres da Aeronáutica, Marinha, Polícia Federal e pelos Codi-DOI dos Estados, era a polícia política do regime militar e formava o que Fico define como Comunidade de Segurança. Somente essa segunda comunidade promovia operações de repressão política, como a do Araguaia. O SNI não participou da Guerrilha do Araguaia. A Polícia Federal e os Codi-DOI dos Estados envolvidos também. Como os militares do CIE, CISA e Cenimar que participaram do Araguaia se autodenominavam membros da Comunidade de Informações, optei por tratá-los desta forma, conforme o imaginário deles próprios, sem fazer a distinção conceitual proposta pelo professor Fico, conceito este que foi aceito e será analisado adiante. FICO, Carlos. Além do Golpe – Versões e controvérsias sobre 1964 e a Ditadura Militar. São Paulo: Record, 2004, pág. 77.

[6] Dossiê Araguaia, Op. cit., pág. 62.

[7] Idem, Ibidem, pág. 63

[8] Idem, Ibidem, pág. 64.

[9]Idem, Ibidem.

[10]Hannah Arendt. Da violênciaOp. Cit. pág. 128.

[11] Narrativa oral de Dr. Hoffmann (codinome), em 12 de fevereiro de  2003.

[12]Dossiê Araguaia, Op. Cit., págs. 64-65.

[13] Dossiê Araguaia, Op. Cit.,  pág. 65.

[14] Tratava-se da 8ª Região Militar, com sede em Belém, comandada pelo general Darcy Jardim de Mattos.

[15] Dossiê Araguaia, Op. Cit.,  pág. 65.

[16] Michel Foucault. Vigiar e Punir. 18a ed., Petrópolis: Ed. Vozes, 1987, pág. 148.

[17] Esse apelido pejorativo foi criado em fins dos anos 1980, com a exibição pela Rede Globo da mini-série “Araponga”, na qual o ator Tarcísio Meira interpretava um agente secreto trapalhão. Caricatura de James Bond, ele repetia o bordão: “Ponga, meu nome é Araponga”.

[18] Carlos Fico, Op. Cit. pág. 77.

[19] Idem, Ibidem, págs. 77 e 78.

[20] Idem, Ibidem, pág. 79.

[21] Idem, Ibidem.

[22] O Codi-DOI, forma usada por Fico, ou DOI-Codi, forma mais sonora e comum, foi criado em setembro de 1970, por ordem do presidente Médici. Foi implementado em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Porto Alegre, Fortaleza e Belém. In: Carlos Fico, Op. Cit., págs. 79 e 80.

[23] Idem, Ibidem, pág. 80.

[24] Idem, Ibidem, pág. 84.

[25] Michel Foucault. Microfísica doPpoder. 14a ed., Rio de Janeiro: Edições Graal, pág. 12.

[26] Idem, Ibidem, pág. 13.

[27] Idem, Ibidem, pág. 14.

[28]  Relatório Arroyo, Op. cit.,  pág. 57.

[29] Em agosto de 2003, o jornal Correio Braziliense publicou duas reportagens, com trechos do depoimento de Pedro à Polícia Federal quando foi preso, no qual ele, de fato, revela que o PC do B estava preparando uma guerrilha no Estado de Goiás. O jornalista falou com ele em Fortaleza, onde vivia como professor. Pedro disse que o documento seria uma “condensação de vários momentos de extração de informações sob tortura. (…) De uma coisa eu tenho certeza: não foi através de mim que descobriram a guerrilha”. Eumano Silva. “Revelações sob tortura e Preso depois de fugir da selva. Correio Braziliense, Brasília, 12 de agosto de 2003, pág. 01.

[30] Alunos da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero (SP), Ana Carolina Almirón, Maria Cláudia Calaf Zucare, Mariana Moraes e Rafael Oliveira Andrade. A entrevista transformou-se no trabalho de conclusão do curso, Vestígios do Araguaia, sob orientação dos professores Carlos Dias, Maurício Stycer e Sidney Ferreira Leite. Os originais do trabalho me foram entregues por uma das autoras, Maria Cláudia Zucare, em outubro de 2004. Formada em Jornalismo, Maria Cláudia trabalhava naquela data como repórter do jornal Diário de São Paulo.

[31] Era casada com o guerrilheiro Lúcio Petit.

[32] Narrativa oral do coronel Lício Maciel, em 05 dez. 2004.

[33]Dossiê Araguaia, Op. cit., pág. 78.

[34] Conferência proferida pelo Exmº Sr. Brig. Newton Vassallo da Silva, chefe do Serviço de Informações da Aeronáutica –  CISA – em 11 de Agosto  de 1972, para o Alto Comando da Aeronáutica no auditório do Gabinete do Ministro da Aeronáutica.

[35] O documento tem o título de “Guerrilha do Araguaia – Operação Sucuri”. Não tem data. Trata-se de uma palestra aos oficiais do CIE sobre o episódio. Seu autor recorda que foi chamado a ministrar a palestra em meados de 1993. Entregou uma cópia do documento para os arquivos do CIE.

[36] Idem, Ibidem, pág. 03.

[37] O Regulamento da Justiça Militar Revolucionária, no artigo 16, letra f, rege: “no caso de traição à revolução a pena é de fuzilamento”.

[38]1º Relatório Parcial da Operação Peixe”, 21 de março de 1972.

[39] Narrativa oral para esta pesquisa, em 15 dez. 2003.

[40] Luis Marklouf Carvalho. Op. cit., págs. 73-74.

[41] Dossiê Araguaia, Op. cit., pág. 98.

[42] Idem, Ibidem.

[43] Idem, Ibidem.

[44] Entre agentes do CIE, do Comando Militar do Planalto e agentes da 3ª Brigada de Infantaria, em Brasília, comandada pelo general Antônio Bandeira. In: Dossiê Araguaia, Op. cit., pág. 65.

[45] Idem, Ibidem, pág. 107.

[46] Idem, Ibidem.

[47]Narrativa oral de Cid (codinome), a 04 out. 2004.

[48] Idem, Ibidem.

[49] Idem, Ibidem.

[50] Narrativa oral a esta pesquisa, em 29 de setembro de 2004.

[51] Luis Maklouf Carvalho. O Coronel Rompe o Silêncio. Op. cit. pág. 78.

[52] Idem, Ibidem.

[53] Narrativa oral de Cid (codinome), em 04 out. 2004.

[54] Idem, Ibidem.

[55]  Joca, Zé Carlos, Luiz, Mauro, Maria, Cid, Alice, Regina e Beto. In: Dossiê Araguaia, Op. cit., pág. 86.

[56] Nelson de Lima Piauhi Dourado (Nelito), Uirassu de Assis Batista (Valdir), Luis René Silveira e Silva (Duda), Antônio Carlos Monteiro Teixeira (Antônio), Jana Moroni Barroso  (Cristina) e Helenira Resende Nazareth (Fátima). in Dossiê Araguaia, Op. cit., 70

[57] Os militares, tanto no Dossiê quanto nas entrevistas orais, só utilizam o verbo “desertar” para se referir à fuga de Elza. Ocorre que ela não era guerrilheira, mas cumpria o papel de “volante”, pessoa encarregada de levar novos guerrilheiros para a área.

[58] Idem, Ibidem, pág. 67.

[59] Marcenaria Marcelinense, que fica do lado do Pará, em frente à cidade de Araguanã, em Goiás. Curiosamente, foi nessa marcenaria que mais tarde um dos grupos de extermínio montaria sua base. In Dossiê Araguaia, Op. Cit., pág. 111.

[60] Palestra: “Guerrilha do Araguaia – Operação Sucuri”, Op.Cit., 08.

[61] Idem, Ibidem.

[62] Relatório referente ao dia 27 de abril de 1972, CMT PCFA.

[63] Dossiê Araguaia, Op. cit., pág. 117.

[64] O Dossiê enumera cada nome e base, pág. 68.

[65] José Genoíno Neto, o Geraldo, preso em 18 de abril de 1972. Lício Maciel revelou a Maklouf Carvalho que Genoíno teria prestado depoimento ainda na mata, quando ameaçaram castrá-lo, mas não o torturaram. Genoíno disse a Maklouf que teria sofrido torturas extremadas já em Brasília, quando teria começado a contar aos poucos o que sabia, administrando as informações para preservar sua vida e ao mesmo tempo dar tempo dos companheiros escaparem. In: Marklouf L Carvalho, Op. cit. págs. 85-102. Em narrativa oral, Dr. George esclarece que Genoíno teria conseguido administrar com extrema inteligência seu interrogatório. “Ele sabia que cedo ou tarde contaria, todos acabam contando”, explica o militar. “Mas ele foi administrando bem as informações que soltava. Dialogava, discutia doutrina, não provocava e conseguia ir ganhando tempo. Quando íamos checar suas informações, já não havia mais ninguém no local. Nenhum guerrilheiro caiu por causa dele. Mas garanto que ele não foi torturado; pode até ter sido muito pressionado, jamais torturado”. Narrativa oral em 15 de dezembro de 2004. Outro militar relata que em maio de 1972, Genoíno foi levado de volta ao Araguaia. Chegou descalço e algemado com as mãos nas costas. Os militares queriam que ele os guiasse mata adentro. O militar, um tenente-coronel, então disse: “Você vai agüentar andar dois dias na mata descalço e algemado? Vai se arrebentar todo”. Então deu ordens para que lhe dessem botinas e lhe tirassem as algemas. “Mas você vai me dar a palavra que não vai tentar fugir. Se tentar, recebe um tiro na testa, ouviu?”. Ele não fugiu. Narrativa oral do Dr. Hoffmann em 18 de fevereiro de 2005. Em setembro, Genoíno seria levado de novo à região. Segundo o mesmo militar, recusou-se a dividir uma barraca com outro guerrilheiro, acusando-o de “delator”. Sobre esse último episódio, ver item “No Baú do Bandeira”, adiante.

[66] Na ordem: Danilo Carneiro, o Nilo, preso em 12 de abril de 1972; Eduardo José Monteiro Teixeira e Rioco Kayano  e Francisco Amaro Lins, preso em 13 de abril de 1972. In: Dossiê Araguaia, Op. cit., pág 127.

[67] Idem, Ibidem.

[68]Relatório Sumário de Operações”, Quartel no Escalão Recuado do CISA, 10 de maio de 1972.

[69] Dossiê Araguaia, Op. cit., 71.

[70] Relatório Sumário de Operações – Operação Peixe, 10 de maio de 1972.

[71] Narrativa oral a essa pesquisa, em 17 jul. 2003.

[72] Nem o Relatório Arroyo nem o Diário do Velho Mário revelam quem são. O Destacamento B era comandando por Osvaldão. In: Dossiê Araguaia, Op.Cit., pág. 114.

[73] Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva, que forma oficiais temporários, mas não de carreira. São jovens egressos das universidades que não serviram como recrutas ao completarem 18 anos.

[74] Maklouf Carvalho.Op.Cit., pág. 104-105.

[75] Dossiê Araguaia, Op. Cit. 69.

[76]Relatório do dia 18 de maio de 1972”, Xambioá.

[77] Dossiê Araguaia, Op.Cit., pág. 127.

[78] Idem,Ibidem.

[79] Hannah Arendt. Da violência. Op. cit., pág. 94.

[80]Narrativa oral a essa pesquisa, em 15 dez. 2004.

[81] Idem, Ibidem.

[82]Narrativa oral a essa pesquisa, em 05 dez. 2004.

[83]Narrativa oral a essa pesquisa, em 15 dez. 2004.

[84] Cornelius Castoriadis. A instituição imaginária da sociedade. Op.Cit., pág. 124.

[85] Segundo o Dossiê, Bérgson teria morrido em 04 de maio. In: Dossiê Araguaia, Op. cit., pág. 70.

[86] Sua morte não consta no Dossiê Araguaia.

[87] Segundo narrativa de um militar (ele estava operando em Xambioá quando morreu o barqueiro), Lourival era muito popular em toda a região. O Exército já estava acantonado próximo da cidade, à beira do rio, e como medida de segurança, isolou a área com arame farpado. Lourival foi encontrado na cozinha do acampamento. Os militares teriam acreditado que ele estaria tentando colocar veneno na comida da tropa. Ele foi preso. Seus familiares levaram uma rede para que pudesse dormir. Lourival teria se enforcado com essa rede. Narrativa oral de Fernando (codinome), a 05 abr. 2002.

[88] O efetivo teria chegado a corresponder a praticamente a metade da população de Xambioá, de acordo com Romualdo Pessoa Campos Filho. Guerrilha do Araguaia. Op. Cit., pág. 110.

[89] Idem, Ibidem, pág. 111.

[90] Dossiê Araguaia, Op.Cit., pág. 71.

[91] Documento do Exército, de número 191200, batizado de “Ordem de Operações nº 1”, classificado com o carimbo de “SECRETO” e assinado pelo general Antônio Bandeira, em maio de 1972.

[92] Conferência proferida pelo brigadeiro Newton Vassallo, chefe do CISA, para o Alto Comando da Aeronáutica a 11 de agosto de 1972.

[93] O Dossiê Araguaia tem um capítulo inteiro sobre guerras não-regulares; seus autores chegaram a compilar um manual de ações contra-rebelde, a nomenclatura que utilizam, anexado ao final desta pesquisa.

[94]Narrativa oral a essa pesquisa, em 05 dez. 2004.

[95] Morto em 29 de junho de 1972. In: Dossiê Araguaia, Op. cit. 74. O PC do B suspeita que tenha sido preso antes de morrer.

[96] Morta “em confronto”, em 29 de junho de 1972, segundo o Dossiê. Pág. 74.

[97] Morto em 13 de julho de 1972, segundo o Dossiê, pág. 74.

[98] Dossiê Araguaia, Op. cit., pág. 141.

[99] Michel Foucault Microfísica do Poder. Op. cit, pág.8.

[100]Dossiê Araguaia, Op. cit., pág. 141.

[101] Palestra proferida pelo Brigadeiro Newton Vassalo…Op.Cit., pág. 11.

[102] Idem, Ibidem, pág. 12.

[103]Relatório de missão realizada na localidade de Xambioá/GO, no período de 16 a 24 de agosto de 1972”, Ministério da Aeronáutica – CISA, 28 ago. 1972.

[104] Doutor George, coordenador do Dossiê, revelou em nossas conversas que participou da Pajuçara, mas sem papel relevante. Narrativa oral,  em 15 dez. 2004.

[105]Dossiê Araguaia, Op. Cit., pág. 76.

[106] Idem, Ibidem, pág. 76.

[107] Diretriz para a realização da manobra do CMP (GPT A/72), de 9 de agosto de 1972.

[108] Dossiê Araguaia, Op.Cit., pág. 146.

[109] O documento, já citado do capítulo anterior, foi produzido como roteiro de um curso do CIE sobre a Guerrilha do Araguaia, já nos Anos 90. O autor do documento, que foi entrevistado para a pesquisa, trabalhava diretamente com o general Bandeira, na 3ª Brigada. Mais tarde foi para o CIE.

[110] Dossiê Araguaia, Op. Cit., pág. 143.

[111] Idem, Ibidem.

[112] Idem, Ibidem, pág. 80

[113] Idem, Ibidem pág. 83.

[114] Idem, Ibidem, pág. 80.

[115] Um na Primeira Campanha e dois na Segunda.

[116] Helenira Resende de Souza Nazareth, a Fátima, em 28 de setembro; Em 29 de setembro foram mortos Antônio Carlos Monteiro Teixeira (Antônio), Dinaelza Santana Coqueiro (Maria Dina) e José Toledo de Oliveira (Vítor); Em 30 de setembro: Ciro Flávio Salazar de Oliveira (Flávio), João Carlos Haas Sobrinho (Juca), Valquíria Afonso Costa (Val), Manoel José Nurchis (Gil) e Antônio Teodoro de Castro (Raúl). In: Dossiê Araguaia, Op.Cit., págs. 80-81.

[117] Diário do Velho Mário, Op.Cit., pág.145.

[118] Seria o guerrilheiro Paulo, segundo informações colhidas pelos militares junto a camponeses. Mas Paulo jamais identificado pelos militares. Ficou na época a informação, colhida de camponeses, que ele teria sido morto pelos próprios companheiros. Mais tarde, depois de terminado o Dossiê, os próprios pesquisadores do Dossiê descobriram que Paulo, na verdade, havia desertado. Trata-se do guerrilheiro João Carlos Borgeth, nome que usava na época, que na presente data mora em Niterói e trabalha como acupunturista utilizando seu verdadeiro nome, João Carlos Campos Wisnesky. Optei por manter a informação original que se encontra no Dossiê, fazendo a correção em nota de rodapé.

[119] In: Dossiê Araguaia, Op.Cit., 83.

[120] Diário do Velho Mário, Op.Cit., pág. 45.

[121]Idem, Ibidem, págs. 146 -147.

[122]Uma heroína do povo”, comunicado das Forças Guerrilheiras do Araguaia, em 08 de dezembro de 1972.

[123] Dossiê Araguaia, Op.Cit., pág. 165.

[124] “Guerrilha do Araguaia – Operação Sucuri”, palestra aos oficiais do CIE (1993), pág 15.

[125] Sobra de Terra, Axixá, Abóbora, Esperancinha, Peri, Caximbeiro e Caiano.

[126] Dossiê Araguaia, Op.Cit., pág. 146.

[127] O diálogo foi reproduzido por um oficial que, na época, era da confiança do general Bandeira.

[128] Dossiê Araguaia, Op. Cit., pág. 149.

[129]Elio Gaspari. A ditadura escancarada…Op. Cit.,  pág. 425.

[130] Idem, Ibidem, pág. 418.

[131] Dossiê Araguaia, Op.Cit., pág. 151.

[132] Elio Gaspari, Op. Cit., pág. 430.

[133] Idem, Ibidem.

[134] “Comunicado número 2”, Forças Guerrilheiras do Araguaia, de 20 de outubro de 1972.

abr 11, 2005

A GUERRA INVISÍVEL — “Imaginário dos Guerrilheiros na Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, cap. 4)

Capítulo 4

A Guerra “Invisível”

  

“Os mais afoitos e desesperados
em vez de regressarem como eu
sobre os covardes passos,
e em vez de abrirem suas tendas para a fome dos
desertos,
seguiram no horizonte uma miragem
e logo da luta
passaram ao luto”

(Affonso Romano de Sant’Anna, Que país é este?)

 

 

4.1 –Os Estabelecidos e os Outsiders

 

Ao estudar os sistemas de normas de dominação e as relações de poder entre grupos sociais endógenos e exógenos de uma determinada comunidade do interior, Norbert Elias[1] apresentou a idéia de que só se constrói o “nós” quando se tem o “outro” como referência. Para o autor, um grupo precisa ter o outro como contraposição para que seja possível a coesão interna, assim como para a localização cultural e da identidade do sujeito coletivo, aquilo que ele define por “imagens de nós”. Em outras palavras – e transportando o conceito para o objeto desta pesquisa – significa que o imaginário dos militares no Araguaia estava intrinsecamente ligado ao imaginário dos guerrilheiros, como irmãos siameses, como a contra-revolução precisa da revolução para existir.

 

Elias denomina os endógenos de “estabelecidos” e os exógenos de “outsiders”. Seu trabalho ajuda a analisar como um grupo de guerrilheiros, a maior parte jovens universitários, embevecidos pelas “fantasias coletivas”, ainda segundo os termos de Elias, emprenhados da sagrada chama da convicção de que conseguiriam desencadear uma guerra popular revolucionária que mudaria a história do Brasil, chegaram à região do Araguaia e passaram a se relacionar com uma população estabelecida, 20 mil camponeses, posseiros e aventureiros solitários, isolados do establishment pelas privações da selva e pela amnésia do tempo. Foi um choque cultural, econômico e, principalmente, de valores. Portadores de um imaginário de luta contagiante – tão forte que a maior parte deles, mesmo quando ficou patente que a guerra estava perdida, preferiu morrer lutando a se entregar aos inimigos – os guerrilheiros eram chamados pelos estabelecidos de “paulistas”, numa referência que indica a condição de outsiders para os moradores da região.

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abr 11, 2005

O Imaginário dos Militares na Guerrilha do Araguaia – CONCLUSÃO E BIBLIOGRAFIA (Dissertação de Mestrado)

CONCLUSÃO

No presente trabalho, busquei pesquisar e analisar o imaginário dos militares sobre a participação das Forças Armadas Brasileiras na Guerrilha do Araguaia, um dos episódios mais obscuros da nossa história recente, ocorrido naquela “era dos extremos”, como definiu Hobsbaum, naqueles “anos terríveis”, como adjetivou Berlin, quando o mundo atravessava a chamada “Guerra Fria” e o país estava sob a égide do regime militar autocrático instaurado em 1964.

Os depoimentos dos militares revelaram, até mesmo por documento inédito, que eles cometeram atos de exceção no combate aos guerrilheiros – torturaram, atiraram em guerrilheiros feridos no chão, executaram prisioneiros, violando Direitos Humanos, relegando as Leis da Guerra e seus próprios valores. A pesquisa demonstrou que as exceções foram parte de uma política deliberada do Estado autocrático. Antes do Araguaia, atos de exceção eram práticas usuais do Estado no combate à guerrilha urbana; por conseguinte, foram também levadas ao combate à luta armada rural. Contudo, o fratricídio e os atos de exceção durante a Guerrilha do Araguaia não foram cometidos pela Forças Armadas em seu conjunto. Nem se violou direitos o tempo inteiro.

O imaginário fraticidante dos militares certamente se fundava na herança positivista de Augusto Comte, Continue reading »

fev 9, 2003

A retórica revolucionária de algum lugar das selvas amazônicas

Os Comunicados das Forças Guerrilheiras do Araguaia como representações do sistema de valores expressos pela retórica radical dos Anos 60 e 70 no Brasil (Monografia produzida para a disciplina “Identidade, Memória, Texto e Narrativa”; Mestrado em História, Universidade de Brasília)

1. APRESENTAÇÃO

Este trabalho é resultado de reflexões acadêmicas realizadas no Curso de Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília, dentro do seminário ministrado pelos professores Sônia Lacerda e Jaime de Almeida, realizado entre novembro de 2002 e fevereiro de 2003, que abordou o tema “Identidade, Memória, Texto e Narrativa”. A temática aqui escolhida, a Guerrilha do Araguaia, é objeto dos estudos que venho desenvolvendo no curso de pós-graduação supracitado, dentro da linha de pesquisa “História Cultural”. Trata-se de uma pesquisa essencialmente empírica, que tem por propósito trazer à luz uma série de documentos das Forças Armadas sobre a guerrilha, boa parte inéditos, para conseqüente análise historiográfica do discurso militar sobre o episódio.

Nesse sentido, houve um esforço de entrecruzar neste trabalho um recorte do meu objeto de pesquisa, a Guerrilha do Araguaia, com parte das fontes de análise historiográficas analisadas no seminário, notadamente as que abordam a questão do discurso e da retórica das revoluções armadas. As reflexões aqui tratadas serão oportunamente incorporadas à dissertação de mestrado que estou desenvolvendo.

Faz-se mister esclarecer, preliminarmente, a carência de publicações com relatos de fontes primárias sobre a Guerrilha do Araguaia, especialmente sobre a terceira fase, entre outubro de 1973 e julho de 1974, quando teriam morrido 47 guerrilheiros –para somente dois sobreviventes conhecidos[1]. Esclareça-se, ainda, que entre dezembro de 1997 e junho de 2001, este pesquisador realizou entrevistas orais com 27 militares que participaram da Guerrilha do Araguaia, incluindo os oficiais de mais alta patente que estiveram presentes no teatro de operações. Essas entrevistas resultaram na obtenção de uma série de outros documentos sobre o episódio, produzidos tanto pelas Forças Armadas quanto pelas Forças Guerrilheiras. Continue reading »

set 1, 2002

A Morte e a morte da subcomandante Dina

A história de uma guerrilheira como representação do imaginário coletivo radical compartilhado por revolucionários e militares na Guerrilha do Araguaia (Monografia para a disciplina “Identidades e Representações”, do Mestrado em História, Universidade de Brasilia).

 

 

A mentalidade de um indivíduo, mesmo que se trate de um grande homem, é justamente o que ele tem de comum com outros homens de seu tempo” – J. Le Goff

“O homem cria o sublime, mas, também, pode criar o monstruoso”. Hanna Arendt

 

Dinalva Conceição Oliveira Teixeira deixou algumas lendas heróicas em sua passagem de quatro anos pela região do Rio Araguaia. Conta-se que de certa feita, quando em combate, mesmo com uma bala alojada no pescoço, teria virado borboleta antes de desaparecer na mata diante dos olhos em estupor dos inimigos[1]. Por conta da sua determinação, os guerrilheiros a obedeciam. Pela violência de seus atos, os camponeses a respeitavam. Pela coragem testada nas armas, os soldados a temiam. Dina –foi este o codinome que ela escolheu ao deixar para trás, em São Paulo, a identidade original a fim de aderir a um grupo de 69 militantes do Partido Comunista do Brasil, o PC do B, que pretendia implementar uma guerra popular revolucionária na região do Bico do Papagaio, entroncamento de Goiás, Pará e Mato Grosso, que ficou conhecida como Guerrilha do Araguaia. A subcomandante Dina, símbolo maior da guerrilheira radical. Matou quem achou que merecia e morreu da forma que bem pediu.

Uma única vez o guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza, codinome Mundico, esteve diante da determinação da subcomandante. Era um caso banal de adultério, triângulo entre Rosalindo e o casal de guerrilheiros Arlindo Valadão e Áurea Elisa Pereira. Levado às barras do Tribunal Revolucionário, Rosalindo foi acusado de alta traição. Quatro companheiros participaram de seu julgamento, entre eles Dina. Sentenciado ao “justiçamento”[2], teve execução sumária. Foi amarrado numa árvore pelo companheiros, com os olhos vendados. Dina levantou-se e foi direto ao companheiro, sem vacilos. Estourou-lhe a cabeça com um tiro de pistola. Foi enterrado ali mesmo. Seu corpo jamais foi encontrado. Esses fatos ocorreram a 16 de agosto de 1973[3].

A subcomandante Dina foi presa pelas forças do Exército cinco meses depois, em janeiro de 1974, de acordo com os arquivos militares a que este pesquisador teve acesso. Segundo os mesmos arquivos, ela morreu em julho daquele ano. Ainda é uma incógnita o que aconteceu nos seis meses em que esteve nas mãos do Estado. Seu corpo jamais foi encontrado. Relato de um militar a este pesquisador[4] dá conta de que ela foi levada de helicóptero, a partir da cidade de Xambioá (GO) para algum ponto da mata espessa. Chefiava o pelotão um militar do Exército, codinome Ivan. “Vocês vão me matar?”, indagou Dinalva assim que pisou em solo. “Não, só quero que você reconheça um ponto ali adiante”, respondeu o militar. Ela caminhou por cerca de 15 minutos mata adentro, com as mãos amarradas nas costas. Mantiveram uma conversa relativamente cordial, testemunhada por cinco militares. A guerrilheira queixou-se de que estaria se sentindo traída pela cúpula do PC do B. Ela queria combater, partir para o confronto armado com os militares, mas os chefes do partido deram ordem de fuga. O grupo parou em uma clareira. “Vou morrer agora?”, perguntou a guerrilheira. “Vai”, respondeu o militar. “Então eu quero morrer de frente”, pediu. “Então vira pra cá”. O militar se aproximou e lhe estourou a cabeça com um tiro de pistola. Foi enterrada ali mesmo. Seu corpo jamais foi encontrado. Dina encontra-se na relação dos desaparecidos políticos do Ministério da Justiça.

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