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ago 5, 2012

O conceito de Cultura: entre a teia de significados de Geertz e o entrelugar de Bhabha

Aos historiadores da cultura, é uma boa opção construir a narrativa dentro do conceito da “teia de significados” de Clifford Geetz. Ou a partir do conceito do entrelugar do indiano Hommi Bhabha

por Hugo Studart

Desde que nos primórdios do Iluminismo John Locke apresentou seu projeto humanista e civilizatório fundamentado na ideia de superioridade filosófica e cultural de uns povos sobre os outros, pelo menos no Ocidente, o conceito de cultura vem guardando uma intrínseca relação com os hábitos da aristocracia, relegando todas as demais manifestações no interior das sociedades civilizadas a disciplinas outras, denominadas folclore, ou antropologia social, ou história das tradições populares. Locke chegou a propor a imposição de uma língua homogeneizada, que permitisse a difusão das “verdades universais” a todos os seres humanos[1].

“Verdades” eurocêntricas, um projeto universalista que foi apropriado por sucessivas cartas semânticas — Iluminismo, colonialismo, liberalismo e marxismo – ao longo dos últimos 300 anos. Resultado disso é que, se manifestações culturais emergissem ou de extratos sociais “inferiores” ou “incivilizados”, segundo as sucessivas cartas eurocêntricas, essas manifestações poderiam ser qualquer coisa, menos cultura.

É relativamente recente o emprego do termo “cultura” para definir o conjunto de atitudes, crenças e códigos de valores compartimentados num determinado período histórico. Foi através do conceito de “cultura primitiva” e, principalmente, dos estudos antropológicos de Clifford Geetz, que se chegou de fato a reconhecer que aqueles sujeitos sociais, outrora chamados de “camadas inferiores dos povos civilizados”, possuíam cultura.

Geetz acredita que a Cultura é formada por construções simbólicas, os significados contidos num conjunto de símbolos compartilhados. Para ele, “a análise cultural é intrinsecamente incompleta e, o que é pior, quanto mais profunda, menos completa”[2]. Seu conceito é essencialmente semiótico. Fundamenta-se no compartilhamento das idéias, a “teia de significados”, amarradas coletivamente:

“Acreditando, como Marx Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado. É justamente uma explicação que eu procuro, ao construir expressões sociais, enigmáticas na sua superfície”[3]

 

Para Geertz, o conceito de cultura enquanto estrutura, sobre a qual as ações humanas se baseiam, é fundamental para compreender os conflitos entre grupos heterogênos convivendo em determinado espaço – como é o caso da região do Araguaia durante a guerrilha, onde se estabeleceram pelo menos três diferentes culturas, guerrilheiros, camponeses e militares. Ele procura mostrar que uma grande parte dos conflitos em determinada comunidade estudada (no seu caso, no Marrocos) ocorre por causa da heterogeneidade cultural, que geram interpretações e percepções conflitantes sobre o mundo em questão.

Assim, embora Geertz procure mostrar como culturas diferentes originam ações e interpretações diferentes, deflagrando conflitos entre os grupos, ele não propõe buscar eliminar a heterogeneidade, como defendiam as cartas eurocêntricas, a começar pelo Iluminismo. Ao contrário, Geertz enfativa a importância da o conceito de “estruturura cultural guiadora de ação” para compreender os conflitos entre grupos heterogênos[4].

Foi a partir desse tronco antropológico aberto por Geertz que se abriram outros ramos de estudos, como a História Cultural. Nos últimos 20 anos, dentre os historiadores da cultura, abrigam-se as mais diversas concepções e, sobretudo, propostas analíticas, geralmente conceituadas como o conjunto de reflexões, representações ou interpretações sobre a História como processo. Há uma vastidão de conceitos e uma constelação pensadores sobre o tema.

Para Ricoeur, o conceito de Cultura Histórica é circular e redundante em sua substantivação e em sua adjetivação. Ou seja, toda cultura é histórica e tudo que é histórico é cultural. Para Hommi Bhabha, por sua vez, cultura é diversidade, mas também existe um “local da cultura” determinado às sociedades, local de encontro e de convivência de uma multidão de fragmentos étnicos, lingüísticos e culturais[5].

De acordo com o pensamento de Bhabha, as diferentes culturas ficam se digladiando, alguns se impondo e deixando seus valores disseminados, outros resistindo. Bhabha chama de “entre-lugar” esse local onde ocorre um choque cultural permanente, onde as diferentes culturas disputam seus espaços, sem contudo nunca haver hegemonia[6].

Com o conceito do “entre-lugar”, Bhabha quebra a idéia antropológica da aculturação, coisa passiva, como também quebra historicamente o conceito de dominantes e dominados para chegar ao que Mikhail Bakhtin define por “circularidade cultural”. Esses entre-lugares fornecem terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular ou coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria ideia de sociedade, de acordo com Bhabha.

Bhabha utiliza a expressão “Babel no penhasco” para tentar explicar a “anarquia pluralista” que há muito vem sendo construída pelo capitalismo transnacional e o conseqüente empobrecimento de nações periféricas – ou Estados periféricos, no caso desta pesquisa — que enviam levas e mais levas de trabalhadores migrantes para regiões com melhores oportunidades. Uma das resultantes desse grande processo estrutural é o deslocamento cultural e a discriminação social – “onde sobreviventes políticos tornam-se as melhores testemunhas históricas”, diz Bhabha[9].

Ou seja, um local onde onde diferentes culturas ficam dialogando ou se digladiando, com algumas se impondo e deixando seus valores disseminados, outras resistindo, mas sem nunca haver uma completa hegemonia de um grupo sobre o outro. Em outras palavras, um entre-lugar onde cada grupo ou indivíduo construía estratégias distintas de resignificação da própria identidade.


[1] Apud: Lynn Mário T. Menezes de Souza. “Cultura, língua e emergência dialógica”. Revista Letras & Letras, Uberlândia, MG, Vol. 26, nº 2, págs. 289-306, Jul-Dez 2010.

[2] Clifford Geertz. A Interpretação das Culturas. Op. Cit. pág. 39.

[3] Id., ib., pág. 15.

[4] Lynn Mário de Souza, op. cit.

 [6] Hommi Bhabha. O Local da Cultura. Op. cit.

[[9] Bhabha. Op. cit., pág.xx

 

Para saber mais:
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. São Paulo: LTC, 2003.

dez 9, 2011

Sobre bandeiras e cartas

Um diálogo entre a teoria da História Cultural e os filmes “A Bandeira dos Nossos Pais” e “Cartas de Iwo Jima”, ambos dirigidos por Clint Eastwood (seminário para disciplina “História, memória e imagens fílmicas”, dentro do Doutorado em História Cultural, Universidade de Brasília)

Imagem épica que ajudou a definir o curso da História

por Hugo Studart

Apresentação

Optei pela análise do díptico histórico sobre a Batalha de Iwo Jima, um dos mais simbólicos e sangrentos embates da Segunda Guerra Mundial, por conta do objeto da minha pesquisa em andamento. No mestrado, o tema foi “O Imaginário dos Militares da Guerrilha do Araguaia”. No doutorado, o objeto proposto é “Imaginário e Cotidiano dos Guerrilheiros do Araguaia”. Em “A Bandeira dos Nossos Pais[1]”, lançado em 2006, o diretor Clint Eastwood narra a batalha sob o ponto de vista norte-americano. Em “Cartas de Iwo Jima”, também de 2006, o mesmo diretor tece uma trama sobre o mesmo episódio sob a ótica japonesa. Utilizou em boa parte dos dois filmes os mesmos personagens, episódios e cenas. Teve o mérito de conseguir construir obras complementares, mas paradoxalmente singulares. Que me sirva de inspiração.

Os episódios e os personagens de ambos os filmes emergem da história factual. Em “A Bandeira…”, o diretor constrói a trama em torno de um “instantâneo da história” — parafraseando Braudel[2] — a fotografia no qual soldados anônimos fincam a bandeira dos Estados Unidos no cume do Monte Suribashi, imagem que ajudaria a mobilizar a população norte-americana a se engajar no esforço final de guerra comprando bônus do governo. Em “Cartas…”, o diretor constrói a trama em torno das narrativas pessoais que soldados japoneses teceram para suas famílias sobre as emoções e as intempéries do cotidiano no front[3].

Clint Eastwood é um bom e veterano ator. Como diretor, nos anos recentes tem construído uma obra cada vez mais reconhecida. Obviamente não se espera que seja um intelectual refinado, um erudito, ou mesmo um historiador. Continue reading »

dez 10, 2010

O entre-lugar de Bhabha na Los Angeles de Crash

Anotações sobre o filme “Crash, no Limite” (diretor: Paul Haggis, EUA, 2004) sob a luz das teorias de Hommi Bhabha sobre o multiculturalismo, o “local da cultura” e  o “entre-lugar” (seminário para disciplina “História, memória e imagens fílmicas”, dentro do Doutorado em História Cultural, Universidade de Brasília)

O filme parece ter saído das teorias de Hommi Bhabha, um dos mais respeitados pensadores da cultura na pós-modernidade

por Hugo StudartO filme, em suas parte e no teu todo, parece ter saído de um ensaio de Homi Bhabha sobre o chamado “local da cultura”. Para Bhabha, cultura é diversidade, mas também existe um “local da cultura” determinado às sociedades – no caso em questão, a multifacetada Los Angeles do tempo presente, local de encontro e de convivência de uma multidão de fragmentos étnicos, lingüísticos e culturais. Em Crash, como no pensamento de Bhabha, as diferentes culturas (anglo-saxãos, afrodescendentes, hispânicos e asiáticos) ficam se digladiando, alguns se impondo e deixando seus valores disseminados, outros resistindo. Bhabha chama de “entre-lugar” esse “local”, onde ocorre um choque (um crash) cultural permanente, onde as diferentes culturas disputam seus espaços, sem contudo nunca haver hegemonia.

Com o conceito do “entre-lugar”, Bhabha quebra a idéia antropológica da aculturação, coisa passiva, como também quebra historicamente o conceito de dominantes e dominados para chegar ao que Mikhail Bakhtin define por “circularidade cultural”. Em Crash, não há claramente dominantes nem dominados. Um branco anglo-saxão, o promotor, pode até estar no topo da cadeia alimentar, mas precisa fazer concessões aos negros, precisa do apoio dos negros para se manter onde está. Em outro segmento social, mais abaixo, um policial branco (nesse caso irlandês) perdeu por completo a hegemonia para os negros por conta da política oficial de cotas raciais. Revolta-se, tenta se rebelar, muda de estratégia e tenta se aliar – em vão, é massacrado e discriminado pela assistente social negra, que faz contra ele exatamente o que os brancos faziam com as gerações anteriores. Continue reading »

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