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jan 18, 2014

Como foi a decapitação do guerrilheiro Arildo Valadão, um dos desaparecidos do Araguaia

(Trecho de abertura do Capítulo 2 da minha Tese de Doutorado, “Em algum lugar das selvas amazônicas: As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia”)

O guerrilheiro Ari ainda estava vivo quando o facão (cego) serrou o seu pescoço

A BARBÁRIE COMO ESCOLHA

No momento em que teço estas linhas, em novembro de 2013, completam-se exatos 40 anos que seis jovens de origens distintas, cada qual acalentando suas próprias esperanças, encontraram-se em uma encruzilhada remota de algum lugar das selvas amazônicas. Na trama grega, as tragédias costumam ter início em uma encruzilhada. Como aquele entroncamento de três estradas no qual Édipo, por obra do Acaso, se encontra com o rei Laio e o mata depois de uma discussão banal, sem saber que era seu próprio pai[1]. No caso em questão, objeto desta pesquisa, a encruzilhada fica na Grota do Cristal, uma pequena fonte de água onde três trilhas na floresta se encontram, localizada a 200 metros do rio Sororozinho, bem no epicentro da região onde as Forças Guerrilheiras do Araguaia e o Exército brasileiro se enfrentaram por três anos consecutivos.

Foi nessa tríplice encruzilhada que o Acaso[2] colocou três guerrilheiros e três camponeses frente a frente, em fatídico encontro que definiria o desfecho daquela luta. O sol a pino indicava que era meio-dia de 26 de novembro de 1973 quando o primeiro grupo chegou à grota. O líder (dos camponeses) chamava-se Sinésio Bringel, um pequeno posseiro, tropeiro e dono de bodega, casado, três filhos, tinha 38 anos na ocasião[3]. A seu lado, Iomar Galego, 33 anos, casado, cinco filhos, caçador e posseiro de uma roça de subsistência[4]. Por fim, Raimundinho Cacaúba, também casado, três filhos, 35 anos, posseiro e caçador[5].

* * *

Os britânicos criaram dois termos semelhantes, story e history, para distinguir ficção e realidade. Um seria uma estória que se conta. Outro, uma história que se constrói. Para Paul Ricœur, entretanto, mais do que um preciosismo linguístico, tal distinção seria um erro epistemológico. Afinal, os britânicos ousaram esquecer aquilo que os antigos sempre souberam: que História e ficção emergem da mesma matriz, a memória – embora guardem distinções quanto ao método e, principalmente, quanto ao objetivo[6]. Ricœur também lembra que os historiadores, tais quais os narradores orais medievais, tecem uma trama de acordo com a sua visão pessoal do que venha a ser a realidade e os fatos[7]. Ao fazer a defesa da narrativa para a tecitura da história, Ricœur aconselha que o historiador busque rebaixar a pretensão explicativa e eleve a capacidade narrativa[8].

Assim, esclareço preliminarmente que a trama sobre os fatos ocorridos naquela encruzilhada da floresta foi construída de acordo com as visões pessoais dos três camponeses sobreviventes – Sinésio, Iomar e Raimundo – sobre o que teria sido a “realidade” por eles vivenciada e exposta em narrativas orais a esta pesquisa. Entre 2009 e 2012, realizei quatro entrevistas orais com Sinésio Bringel, quatro com Iomar Galego e uma com Raimundo Cacaúba. Cheguei a viajar com os três, separadamente, na busca da reconstituição de episódios da guerrilha, dentre eles, este que aqui narro[9].

Eles estão aqui tratados como protagonistas, de acordo com as interpretações de Benjamin e dos Annales sobre a necessidade de valorizar os anônimos, os pequenos, os perdedores e até mesmo os anti-heróis. Até aquele momento, aqueles três eram apenas isso: pequenos posseiros, tropeiros, caçadores, pais de família, que viviam em uma região com total ausência dos serviços do Estado. Enfim, esquecidos.

* * *

Quatro dias antes de chegarem à encruzilhada na Grota do Cristal, estavam todos presos numa base do Exército, eles e suas famílias. O Exército havia retornado ao Araguaia pela terceira vez, mas até então os resultados eram pífios. Haviam matado uma guerrilheira 40 dias antes[10]. Desde então, o único embate em toda a região fora uma emboscada dos guerrilheiros, na qual um soldado saíra ferido. Por essa razão, os militares decidiram fazer uma experiência. A nova tática: recrutar camponeses para a luta armada.

Sinésio, que estava preso, foi o primeiro a receber a proposta. Seria solto se ajudasse o Exército a caçar os “terroristas”. E, se bem sucedido, ainda ganharia um prêmio em dinheiro. Sinésio aceitou. Raimundo Cacaúba prontificou-se a ir junto. Foram então buscar Iomar Galego, considerado um dos três melhores rastreadores de toda a região, capaz de perceber os indícios de caça (ou de humano) com até seis dias na estação das chuvas e de três dias em tempos de seca.

Os três foram levados diante de um militar, alguém importante, um chefe – recordam-se eles – pois tinha cerca de 40 anos, mandava nos demais soldados e era chamado de “doutor”. Naquele momento da luta, os militares só andavam com roupas civis, ou seja, “descaracterizados”, e portavam identidades falsas, “codinomes”. Os oficiais usavam o qualificativo de “doutor” para demarcar a hierarquia. Sargentos, cabos e soldados usavam codinomes simples. O oficial que os convocou para dar as instruções era chamado de “Doutor César”[11].

“Me tragam um bico de papagaio”, determinou o oficial, enquanto afiava a mão direita aberta no próprio pescoço, de orelha a orelha.

Com aquele sinal, os três camponeses compreenderam que o “doutor” exigia cabeças. Receberam ração para missão de oito dias. No segundo dia, encontraram rastros humanos. No quarto, chegaram à Grota do Cristal. Cogitaram tomar banho na bacia de água que formava a fonte. Desistiram, muito perigoso. Foi então que escutaram um som, leve e sutil.

“Até pensei que fosse o barulho de um beija-flor” – relata Iomar.

Na dúvida, armaram tocaia, cada um deles atrás de uma árvore. Naquele tempo havia milhões de árvores majestosas, salpicadas na mata espessa que se espraiava pelas duas margens do rio Araguaia em direção ao infinito – hoje é uma devastação só em forma de pastos. Em poucos minutos, três guerrilheiros começaram a adentrar na Grota do Cristal por uma das três trilhas que desaguam naquela encruzilhada.

O guerrilheiro Ari (foto) vinha na vanguarda, abrindo caminho. Sua identidade, antes de chegar ao Araguaia, era Arildo Airton Valadão, um capixaba de Cachoeiro do Itapemirim. Era estudante de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro e líder estudantil. No Araguaia, passou a ser vice-comandante do Destacamento C das Forças Guerrilheiras. Tinha então 25 anos.

No meio, vinha Jonas, codinome adotado pelo camponês Josias Gonçalves quando, 11 meses antes, aos 17 anos, encantara-se com as pregações revolucionárias e aderira à guerrilha[12].

Fechando a retaguarda, Raul (foto), membro do Grupamento de Saúde do Destacamento B da guerrilha. Nascido Antônio Theodoro de Castro, cearense de Itapipoca, era estudante de Bioquímica e de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro até chegar ao Araguaia. Em novembro de 1973, tinha 28 anos[13].

Caminhavam pelas matas para uma grande reunião das Forças Guerrilheiras do Araguaia. Seria a primeira desde que o Exército retornara pela terceira vez à região dois meses antes, nos primeiros dias de outubro de 1973. O objetivo era discutir a estratégia de combate. Ou decidir pela fuga enquanto ainda era possível. Um grupo de guerrilheiros já se encontrava acampado ali perto, a cerca de 150 metros da grota, quando o Acaso colocou os três guerrilheiros frente-a-frente com os três camponeses.

O vice-comandante Ari notou a tocaia. Parou e apontou sua arma para Sinésio. Não deu tempo de atirar. Iomar acertou-lhe um tiro no peito com sua espingarda de caça. Rápido, Jonas caiu na mata, encontrou uma moita, e por lá se manteve escondido, a tudo assistindo. Raul correu morro acima em direção ao ponto marcado para a reunião dos companheiros. Sinésio atirou em Raul. A bala acertou o prato de metal escondido no bornal que carregava às costas. Escapou. Escutou-se então o som do grupo de mais de 30 guerrilheiros correndo na direção oposta aos tiros.

Ari estava estirado no chão quando os três camponeses se aproximaram. Foi Sinésio quem mandou que cortassem sua cabeça. Raimundinho não teve coragem. Iomar prontificou-se ao serviço.

Ari ainda estava vivo quando o facão (cego) serrou o seu pescoço. As pernas estrebucharam[14].

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jul 28, 2012

A morte em preto e branco

 Ensaio: uma discussão sobre tortura, os desaparecidos políticos da ditadura militar e o imaginário nos tempos em que as coisas eram diabolicamente negras ou celestialmente brancas (Originalmente escrito para a revista Plenarium, da Câmara dos Deputados)

Maria Lúcia Petit, morta na Guerrilha do Araguaia

Por Hugo Studart

             Quando a Lei de Anistia foi aprovada pelo Congresso Nacional, em agosto de 1979, ocorreram reações contra a abertura política, como atentados à bomba de grupos militares extremistas. Entretanto, a partir daquele momento, instaurou-se no país um processo histórico tão inédito quanto irreversível de conquista das liberdades civis e de amadurecimento e lapidação da nossa democracia – processo que perdura até hoje, e parece não ter mais fim. Primeiro libertou-se os presos políticos e nossos irmãos exilados retornaram ao país. Foi uma festa, belíssima. Os partidos políticos puderam se reorganizar. Aboliu-se a censura prévia à imprensa e, diante de uma liberdade de expressão raras vezes usufruída em nossa história, iniciou-se um processo de revisão do passado recente, de crítica aos militares e a seus colaboradores – como também autocrítica ao pensamento dogmático e às práticas fundamentalistas das facções da esquerda.

            Uma imagem marcante, a povoar até hoje o imaginário pátrio, foi a fotografia do ex-guerrilheiro Fernando Gabeira desfilando de tanga na praia de Ipanema – era o início do fim do stalinismo e a ortodoxia gauche. No capítulo das críticas, muito mais longo e profundo, a imprensa começou a publicar denúncias sobre fatos ainda obscuros, como a morte sob tortura do jornalista Wladimir Herzog, em 1975, e do operário Manoel Fiel Filho, em 1976, dois episódios-ícones que marcaram o enfraquecimento definitivo do regime autocrático e precipitaram a abertura. A tortura era um cancro a ser encarado – como de fato o foi, na Constituinte dos anos subsequentes. Os mortos da luta armada urbana também foram contados. Mas havia também a questão muito mais dolorosa, até hoje não resolvida. Onde estariam, afinal, uma legião de desaparecidos políticos? Este é um tema que tortura até hoje os familiares, notadamente aqueles que tiveram seus entes queridos envolvidos na luta armada rural, conhecida como a Guerrilha do Araguaia. Continue reading »

jul 1, 2009

A guerra acabou

A abertura dos arquivos secretos da ditadura sobre a Guerrilha do Araguaia será doloroso para os dois lados –militares e PCdoB. Mas pode também ser um alívio. Será como a dor de um parto, no caso, o parto da reconciliação com a história (Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S.Paulo, pág. 2, Opinião)

 

Por Hugo Studart

Que fique bem claro que ainda há batalhas pela frente, algumas delas bem difíceis. Contudo, caso haja alguma sensatez na cabeça das autoridades brasileiras, as civis e as militares, existe possibilidades de, ainda neste de 2009, a frase supracitada, expressão máxima de júbilo dos povos, também possa ser enunciada no Brasil: “A guerra acabou!”. Refiro-me, prezados leitores, àquela guerra ideológica fratricida ocorrida nos anos 70 da região do Araguaia – naqueles tempos em que o filósofo Isaiah Berlin chamou de “os mais terríveis da história” – quando exatos 69 jovens voluntaristas, sem armas, provisões ou apoio popular, tentaram implantar uma tirania comunista no Brasil — mas foram fulminados por um Estado autocrático, que cometeu violações aos Direitos Humanos. A aventura deixou um saldo de pelo menos 95 vítimas. Desses, 17 já descansam em sepulturas, sendo 10 militares, seis camponeses e uma guerrilheira. Ainda haveria 78 desaparecidos – 57 guerrilheiros, 20 camponeses e um soldado.

A sociedade brasileira jamais quis a guerrilha. Contudo, quase quatro décadas depois, a guerra não acabou. Poderia ter findado em 1979, com a Anistia recíproca. E se não terminou, a culpa maior é das Forças Armadas, que se recusam a entregar os corpos dos desaparecidos às suas famílias. Elas têm o direito sagrado de enterrá-los em sepulturas dignas. A novidade é que essa guerra pode estar chegando a seus estertores, graças à série de reportagens que o Estado de S. Paulo publicou dias atrás com os arquivos secretos do tenente-coronel Sebastião “Curió” de Moura. O que o militar revelou, em suma, é que o Exército teria executado 41 prisioneiros no Araguaia. E o mais importante, indicou os locais usados para a ocultação dos cadáveres. Os fantasmas se materializaram. Os mortos se levantaram e estão pedindo sepultura.

Antes de Curió cantar, já se sabia que o Exército executara prisioneiros. Em minhas pesquisas junto a militares, cheguei a identificar e a confirmar 16 execuções. Também registrei mais 28 possíveis execuções, no total de 44. Mas a lista tinha lacunas. A listagem de Curió é mais precisa; ainda assim contém imprecisões. Inclui como executados, por exemplo, três guerrilheiros que se entregaram, foram poupados e receberam novas identidades: Hélio Navarro de Magalhães, Antonio de Pádua Costa e Luiz Rene Silva. Pelo menos Navarro está vivo; até tempos atrás trabalhava numa multinacional francesa, em São Paulo. O fato de terem sido 41, 38 ou 16 execuções, é tema irrelevante para a História. Mas saber o destino de cada um, individualmente, é essencial para o acalento e a pacificação das famílias.

Nos últimos cinco anos, alguns oficiais superiores que combateram no Araguaia vêm abrindo seus próprios arquivos. Mas abriram de forma seletiva, ocultando fatos que detratam o Exército. A relevância do ato de Curió, tomado à revelia dos comandantes, é que provoca um desfecho histórico possível à guerra. Se os comandantes aproveitarem a oportunidade, seguirão atrás de Curió pelo rumo certo da História.

É ingenuidade imaginar que os papéis que restaram nos quartéis contenham revelações bombásticas. Militares podem ter agido como hunos, mas não eram imbecis. Não registraram os atos de exceção em documentos oficiais. Ademais, as pistas relevantes foram cremadas em 1975, por ordem do presidente Ernesto Geisel. Portanto, esqueçam história positivista. Só é possível reconstruir os fatos com metodologias pós-modernas, através de narrativas orais dos remanescentes. São estes os arquivos que os militares precisam abrir: os fragmentos de suas memórias.

Quando isso ocorrer, se ocorrer, restará comprovado que os militares cometeram de atos de exceção no combate aos guerrilheiros. Prenderam moradores da região de forma arbitrária, executaram prisioneiros, profanaram corpos, relegaram seus próprios valores e instauraram a Lei da Selva. Também ficará constatado que o presidente Emilio Médici deu a ordem expressa de executar prisioneiros – ordem ratificada pelo sucessor Geisel. A esta altura, que grande novidade há em confessar esses erros?

Por outro lado, restará igualmente comprovado que os atos de exceção não foram cometidos pela Forças Armadas em seu conjunto, mas tão-somente por uma pequena facção, a Comunidade de Informações, cerca de 40 homens no Araguaia. Nem se violou direitos o tempo inteiro. Nas duas primeiras campanhas, as Forças combateram segundo as Leis da Guerra. Quem morreu, tombou em combate; quem foi preso, está vivo. As violações ocorreram apenas nos derradeiros combates da Terceira Campanha, quando as tropas desceram na selva com a ordem de não fazer prisioneiros. Desapareceram com 47 guerrilheiros e cerca de 20 camponeses.

Se os militares abrirem seus arquivos, igualmente se descobrirá que os atos de barbárie foram recíprocos, e que os guerrilheiros chegaram a esquartejar vivo um garoto de 17 anos, João Pereira – primeiro cortaram-lhe as orelhas, as mãos, os pés, os braços – na frente da família, como punição exemplar pelo fato dele ter levado militares a um acampamento guerrilheiro, quando prenderam José Genoíno. A abertura dos arquivos será doloroso para os dois lados. Mas pode também ser um alívio. Será como a dor de um parto, no caso, o parto da reconciliação com a história

O Exército organiza uma expedição ao Araguaia para procurar corpos.  Curió indicou quatro locais de desova. Um deles, vale lembrar, é a cabeceira sul da pista de pouso de Bacaba. Deve haver ali três corpos. Já os restos de Rosalindo Cruz Souza, justiçado pelos companheiros por conta de um caso banal de adultério, ainda devem estar em frente à casa do sítio de um conhecido camponês, João do Buraco. Podem ir lá pegá-lo; está sem a cabeça. A torcida agora é que o comandante Enzo Peri esteja de fato fazendo a opção histórica que leve as famílias a gritar: “A guerra acabou”.

set 20, 2008

Devolvam os corpos dos desaparecidos

Corpo de Maria Lúcia Petit

Estamos diante de um paradoxo histórico e político. Há brasileiros deixados para trás e só os militares sabem onde estão. Mas resgatá-los é algo complexo. Exige o engajamento dos comandantes das Forças Armadas, para convencerem suas tropas a revelar onde deixaram os corpos. Ocorre que essa operação exige como contrapartida que os grupos de Direitos Humanos também “embainhem” suas “armas”, desmobilizem a campanha em curso de julgar militares por crimes de tortura (Artigo originalmente publicado pelo Jornal O Estado de S.Paulo, pág. 2, Opinião) 

 Por Hugo Studart

Já lá se vão quase 30 anos que familiares dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia entraram com um processo na Justiça exigindo que o Estado informe o destino dos guerrilheiros. O caso deve ser decidido em novembro pelo Superior Tribunal de Justiça. Querem, essencialmente, que as Forças Armadas abram os arquivos secretos da ditadura para que se descubra onde estão os corpos. São  78 desaparecidos conhecidos – 57 guerrilheiros, 20 camponeses e um soldado. Onde estão os cadáveres? As famílias têm direito aos restos mortais. Querem enterrá-los com dignidade, de acordo com seus credos, ritos fúnebres, ajoelhar em contrição, acalentar suas memórias, desejam enfim prestar honras a seus guerreiros

Ora, o direito ao sepultamento digno dos mortos está impregnado no imaginário ocidental, herança de nossa raiz cultural helênica. A mitologia está pontilhada de passagens em que se condena a profanação dos corpos. Historicamente, em pleno século de ouro da Grécia, o general Alcibíades, homem forjado em rígidos valores morais pelo próprio Sócrates, foi julgado e condenado à morte por ter abandonado insepultos os corpos de um punhado de soldados na Sicília. Para eles era uma profanação ultrajante que exigia o castigo máximo.

Há brasileiros deixados para trás e só os militares sabem onde estão. Mas resgatá-los é algo complexo. Exige o engajamento dos comandantes das Forças Armadas, para convencerem suas tropas a revelar onde deixaram os corpos. Ocorre que essa operação exige como contrapartida que os grupos de Direitos Humanos também “embainhem” suas “armas”, desmobilizem a campanha em curso de julgar militares por crimes de tortura. Estamos diante de um paradoxo. Se algum militar que combateu no Araguaia apontar onde enterrou um guerrilheiro, estará automaticamente confessando um ato criminoso. Imprescritível, inafiançável, passível de julgamento pela Corte Internacional de Haia, como quer o atual ministro da Justiça Tarso Genro.

Dias atrás apareceu uma seqüência de fotografias do corpo de dois guerrilheiros. As fotos foram sacadas em setembro de 1972. Um ex-combatente, o sargento Ciro Oliveira, hoje reformado, guardou-as na gaveta por 38 anos. Revelou-as só agora. Um dos guerrilheiros guardava um diário. Foi identificado na hora como sendo o médico e guerrilheiro João Carlos Haas Sobrinho. Do outro, o sargento jamais soube o nome. Numa das imagens, um helicóptero militar leva os dois corpos. O que essas fotos têm de relevantes? Ora, são mais uma prova cabal de que militares, a serviço do Estado, desapareceram com brasileiros. Na Grécia Antiga, o general Alcibíades foi condenado à morte por muito menos.

Até hoje nenhuma autoridade dos governos democráticos pós-1985 quis saber a opinião das famílias dos desaparecidos do Araguaia — sendo 57 guerrilheiros, cerca de 20 camponeses e um soldado, registre-se mais uma vez. Elas querem julgar militares por crimes contra a Humanidade? Ou preferem enterrar seus mortos? Os militares, por sua vez, preferem o fim da guerra e entregar os despojos dos guerreiros inimigos ou permanecer na penumbra da lei da selva?

Os militares cometeram, sim, atos de exceção. Submeteram camponeses a tratos violentos, torturaram guerrilheiros, executaram prisioneiros, vilipendiaram cadáveres, deixaram corpos insepultos, como o de Lúcia Maria de Souza. Cerca de 30 guerrilheiros morreram em combate, como guerreiros. Contudo, outros 25, aproximadamente, foram presos e depois executados. Entre cinco e sete deles foram decapitados, como Jaime Petit e Arildo Valadão. As violações de direitos foram recíprocas.

O primeiro cadáver deixado insepulto foi o de um soldado, o cabo Odilo Rosa. O comandante guerrilheiro Osvaldo Orlando Costa queria expô-lo insepulto como troféu da revolução. O primeiro civil executado pelos guerrilheiros foi um camponês, o adolescente João Pereira, 17 anos. Seu pai foi visitado por uma equipe de agrônomos do INCRA perguntando pelos “paulistas”, como eram chamados os guerrilheiros. O garoto recebeu ordens do pai para servir de guia. O chefe dos “agrônomos” era o major Lício Maciel, cuja equipe prendeu José Genoíno e matou outros 12. Deflagrada a guerrilha, o garoto João Pereira foi julgado como “traidor do povo” pelo Tribunal Revolucionário e mutilado, na frente da família, a golpes de facão – primeiro cortaram-lhe as orelhas, depois as mãos, os pés, as pernas… Outros quatro também foram executados pelo Tribunal Revolucionário, sendo três camponeses e um guerrilheiro, acusados de colaboração e traição.

No início, em 1972, os militares combateram segundo as leis da guerra. Quem morreu tombou lutando, quem foi preso está vivo. As fotografias de Haas Sobrinho são dessa fase. Mas quando entraram na selva para a Terceira Campanha, em fins de 1973, com ordens do presidente Emílio Médici de não fazer prisioneiros, a barbárie se generalizou. Nenhum prisioneiro retornou. Nem como cadáver.  As Forças Armadas deixaram o Araguaia em fins de 1974.

É possível resgatar muitos corpos. Há uma década venho pesquisando a guerrilha junto aos próprios militares. Eles me informaram que cerca de 25 estão enterrados nos cemitérios de Xambioá e Marabá. Os demais foram deixados na mata. Mas o local dessas sepulturas jamais foi registrado nos arquivos. Será preciso recorrer àqueles que participaram das missões. Em 1975 o Exército voltou ao Araguaia para a chamada “Operação Limpeza”. Entre 12 e 15 corpos foram exumados e cremados, entre eles o de Osvaldão.

Ainda haveria uma dúzia de corpos nos cemitérios da região, na ala dos indigentes. O corpo do guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza estaria num barranco de rio no sítio de João do Buraco, camponês conhecido na região. Sem cabeça. Há um corpo na cabeceira da pista de pouso de Marabá. E três corpos numa área de treinamento militarem Brasília. Hátrês desaparecidos que mudaram de lado e estão vivos, sob nova identidade.

É muito difícil que algum militar se ofereça à imolação pública promovida pelas entidades de Direitos Humanos revelando o que sabe sobre os corpos. Cabe ao governo perguntar seriamente às famílias dos guerrilheiros mortos o que preferem: julgar os militares pelos crimes bárbaros que cometeram? Ou patrocinar uma conciliação histórica que comece revelando os erros dos dois bandos naquela guerra suja. Uma anistia recíproca que começaria com a indenização das famílias do cabo Rosa e de cinco outros soldados abatidos em combate; do garoto João Pereira e dos demais camponeses esquecidos; e que termine na localização e devolução de todos os cadáveres.

A professora Sônia Haas, irmã de João Carlos, se confessa num “dilema complexo”. Seu coração prefere encerrar a história do irmão “com a dignidade que ele merece”. E para ela e sua família, forjada no catolicismo, digno é dar a João Carlos um ritual de despedida e uma sepultura. “Mas a razão pede mais, exige que os culpados sejam julgados”, acrescenta Sônia. “Meu dilema é bastante complexo, pois quero alcançar as duas coisas”. Eis uma encruzilhada da História.

Defendo o direito sagrado e inalienável das famílias de se ajoelhar diante do túmulo de seus guerreiros. Não há mortos de esquerda ou de direita para as famílias dos guerrilheiros e dos militares mortos em combate. Há mortos, há cadáveres, tem que haver paz. A sociedade brasileira não pode ficar refém ad eternum de uma guerra que ela não quis, não quer e não vai querer que continue manchando a história nacional.

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