Browsing articles tagged with " conceito de memória"
jan 18, 2014

É sempre bom lembrar que somos feitos da mesma matéria dos sonhos

Foi Próspero, protagonista de “A Tempestade”, obra de Shakespeare, que disse isso. Contudo, por pertinência ao tema, tomei a frase emprestada para a abertura da Tese de Doutorado que acabo de entregar à banca. Chama-se: “EM ALGUM LUGAR DAS SELVAS AMAZÔNICAS: As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia (1966-1974)”. Foram cinco anos de pesquisa, leituras e escrita. Uffa. Compartilho com os amigos o texto de Apresentação da Tese, no qual trato muito de esperança e de sonhos. Afinal, como bem o disse Próspero, “somos feitos da mesma matéria dos sonhos”.

Foram cinco anos pesquisando e escrevendo; estudando e escrevendo; escrevendo e reescrevendo

E o homem é feito de carne, que vive, morre e volta a ser pó. Mas carrega ao mesmo tempo uma essência que muitos acreditam ser infinita e imortal. Platão chamou essa essência de anima, alma. Seria ela a responsável por nos fazer recordar o passado e imaginar o futuro. O homem é, definitivamente, o maior paradoxo da Criação, um ser que existe simultaneamente em anima e em carne, que constrói e destrói, que vive ao mesmo tempo no passado, no presente e no futuro.

Sonhadores, idealistas e aventureiros. Conquistadores, missionários e voluntários. Ativistas e revolucionários. Existem seres que atravessam a existência tomados de sonhos, de esperança no futuro. Pois desde que os primeiros deles saíram às portas das cavernas e começaram a olhar em direção ao horizonte, imaginando o que poderia haver do outro lado da montanha, esse punhado de homens só desejava uma coisa – construir um mundo melhor. E são eles que, de alguma forma, com idas e vindas, luzes e trevas, vêm construindo dois projetos tão belos quanto catastróficos. O primeiro é um projeto chamado Humanidade. O outro é a Civilização.

Sonhador ou idealista, missionário ou revolucionário, pouco importa. O relevante é ressaltar que aqueles que porventura vieram ao mundo tomados de alguma dessas características, qualquer delas, faz parte de um grupo de pessoas movidas pelos sonhos do passado e pela esperança no futuro. O acreditar no próximo, no homem, na vida. Um desejo inexplicável de ajudar a construir um mundo melhor.

Sou um deles. Sonhador na infância, imaginava-me entre os personagens da Liga da Justiça. Queria ter sido um dos 300 espartanos de Leônidas. Na juventude, transformei-me em idealista. Passei a ler sobre as revoluções. A francesa, a soviética, as grandes guerras do Século XX. Depois, sobre nossa própria revolução, em suas dimensões distintas – o regime militar, a luta armada urbana e a guerrilha rural. O tempo passa… e eis que que me encontro na maturidade, sob o diapasão da racionalidade, buscando compreender o fenômeno revolucionário. Em outras palavras, pesquisando sobre o que leva alguns homens a sacrificar a própria vida por um ideal político.

“Com o que devemos sonhar?” – certa feita indagou-se Lenin. “Escrevo estas palavras e de repente fico assustado”[1]. Materialista até a essência, estava assustado com o aparente desacordo entre sonho e realidade. Lenin então buscou respostas nas palavras de um líder político russo, Dimitri Pissarev, contemporâneo de Marx. Pissarev era, paradoxalmente, revolucionário e niilista. Lenin gostou desse desacordo aparente:

“Se o ser humano fosse completamente desprovido da faculdade de sonhar, se não pudesse de vez em quando adiantar o presente e contemplar em imaginação o quadro lógico e inteiramente acabado da obra que apenas se esboça em suas mãos, eu decididamente não poderia compreender o que leva o ser humano a empreender e a realizar vastos e fatigantes trabalhos na arte, na ciência e na vida prática (…) O desacordo entre o sonho e a realidade nada tem de nocivo se, cada vez que sonha, o ser humano acredita seriamente em seu sonho, se observa atentamente a vida, compara suas observações com seus castelos no ar e, de uma forma geral, trabalha conscientemente para a realização de seu sonho. Quando existe contato entre o sonho e a vida, então tudo vai bem!”[2]

Representação do personagem Próspero, de “A Tempestade”: alegoria do homem dividido entre o Mundo das Ideias e a Realidade do Mundo

Na obra Espírito da Utopia, Ernest Bloch nos lembra que é penetrando no fenômeno da esperança do futuro que o mundo, no focus imaginarius, na parte mais escondida e inteligível de nossa subjetividade, faz sua aparição[3]. Assim, é o apelo à vontade do homem pela esperança, explica ele, que possibilita o surgimento das mais diferentes manifestações idealistas, incluindo os movimentos revolucionários. Walter Benjamin, por sua vez – colega de escola e leitor de Bloch – preferiu versar sobre sonhos, notadamente os sonhos coletivos. Benjamin propõe desconstruir a dialética hegeliana racionalista por uma dialética que olha para a História em movimento, que leve em conta a dimensão simbólica, as imagens dos sonhos, em um tempo descontínuo e saturado de agoras, com épocas que se distinguem e se entrelaçam na incalculável vontade do homem de fazer História[4].

* * *

Nesta pesquisa, apresento a reconstrução das memórias de um grupo formado por um punhado de homens e de mulheres que, essencialmente movidos pela esperança, por um sonho coletivo, acreditavam poder influir na construção de um país justo e igualitário. Eram estudantes universitários ou jovens profissionais liberais, em sua esmagadora maioria, que nas décadas de 1960-70 instalaram-se no coração das selvas amazônicas, em um ponto remoto ao sul do Estado do Pará, às margens do rio Araguaia, sem armas ou provisões, a fim de deflagrar uma insurreição armada que tinha por objetivo final promover uma revolução socialista no Brasil. Este episódio, ocorrido durante os anos mais repressivos do regime militar brasileiro, entrou para a nossa História sob o nome de Guerrilha do Araguaia.

Continue reading »

jan 27, 2013

Como fundamentar uma tese sobre a memória dos guerrilheiros do Araguaia

Por Hugo Studart

 Nas escolas de Jornalismo, minha primeira carreira, ensinam com fervor quase religioso que o certo é cultuar a neutralidade e a só usar verbos na terceira pessoa, do singular ou plural. Já me ensinaram muito pastiche fundamentado no pretenso racionalismo aristotélico, que encara o mundo tão-somente dentro dos sentidos materiais. Quando entrei para o mestrado em História, minha orientadora[1] instigava-me a redigir na primeira pessoa do singular. Achei estranho.

“E a neutralidade científica?” –questionei.

Walter Benjamin

Foi a deixa para que me apresentasse aos autores da Nova História. Segundo Walter Benjamin, por exemplo, não existe a tal “neutralidade científica”. Todo conhecimento, explica, é um embate de interesses. Aos poucos, fui me acostumando a escrever sobre as ideias ou experiências pessoais e a acreditar ser impossível dissociar um conteúdo de seu autor.

Arthur Schopenhauer, o filósofo das angústias, dizia que o homem parte de seus próprios horizontes, dos limites do seu campo de visão, como os limites do mundo. Assim, nossas versões sobre o mundo são limitadas tantos pelas observações limitadas que posso fazer do Universo, quanto pelas experiências pessoais inseridas em uma vasta “vontade” universal, da qual nossas ações são apenas uma mera parte. Por isso todos nós costumamos tomar nossos respectivos horizontes pessoais como o sendo limites universais.

“Nós próprios somos as entidades a ser analisadas”, ensina Martin Heidegger.

Em sua obra mais reconhecida, Ser e Tempo[2], Heidegger parte da velha máxima socrática de buscar compreender o homem como ser, exposta na frase “conhece-te a ti mesmo”, Continue reading »

set 26, 2012

O Aniversário da Sra. Cohen

Como um fato tão banal quanto o aviso de aniversário pelo Facebook de uma senhora de meia-idade nos remete a um tal de Walter Benjamin, um judeu fumador de haxixe que  nos ensinou a usar as reminiscências da memória para fazer do presente um maravilhoso ponto de encontro da recordação com a esperança

Benjamin nos ensina a usar uma simples imagem, extraída de um album de família, como relevante fonte para a construção da História. À esq. estou eu, abraçado por Dayse Cohen

Por Hugo Studart

Dayse Cohen completa anos hoje, me avisa o Facebook. Nada mais banal do que uma senhora com aparência de meia-idade, mãe de família e trabalhadora completar aniversário. Só dentre minhas relações das redes sociais, todos os dias três ou quatro festejam suas datas. Um fato extraordinário, contudo, emerge desse evento banal em sua aparência. Dayse desperta-me reminiscências, relampejos de um tempo que se foi e não volta mais, memórias que, se trabalhadas e resiginificados da forma adequada, podem lançar luzes rumo à construção do futuro. Para mim –ou para os senhores, prezados leitores. Como assim?

Dayse, dit Corrêa de Mattos, é minha prima de primeiro grau. Grande amiga e confidente naqueles tempos de inseguranças e dúvidas das nossas adolescências no Rio de Janeiro. Éramos três de idades parecidas, Dayse, eu e nossa prima Márcia Corrêa Rodrigues. Dayse é filha da tia Haydée Alves Corrêa, irmã mais velha de meu pai Jonas, e de Moacir de Mattos. Adotou o sobrenome Cohen por casamento. Adotou também, por livre arbítrio, boa parte dos sistema de representações e de valores do marido, a ponto de submeter o bilau de seus filhos amados à faca amolada de um rabino inclemente. Pobrezinhos –ficamos todos nós, os familiares, muito condoídos.

O relevante nessa história é que o aniversário de Dayse pode nos remeter a um tal de Walter Benjamin, esse aí morto desde 1940, mas cujo pensamento pode nos ajudar a fazer bom uso das nossas memórias do passado. Quero versar um pouco sobre o pensamento de Benjamin para, ao fim e ao cabo, retornar à Sra. Cohen.

Benjamin era filósofo, sociólogo, romanista, grafólogo, teórico da história, das artes e da tradução. Alemão e judeu, era um marxista que se recusava a se organizar em partidos. Ao materialismo histórico, preferia a espiritualidade mística. Era também usuário de haxixe. Por conta dessa heterodoxia, até hoje a maior parte das academias européias de Filosofia não considera sua obra digna de estar entre os cânones do pensamento moderno. Continue reading »

ago 29, 2012

A memória, o perdão e o esquecimento –ou a dor de sentir a presença da ausência

 Uma discussão sobre o paradoxo entre a Lei da Anistia e a Comissão da Verdade, em diálogo com os pensamentos de Paul Ricoeur e Hannah Arendt

O passado nos assombra, diz Arendt

Por Hugo Studart

O episódio a ser analisado neste ensaio, a Guerrilha do Araguaia, trás a oportunidade de se analisar e questionar as dimensões do perdão às violações de Direitos Humanos cometidos pelos militares no Araguaia, assim como sobre o alcance a a interpretação da Lei de Anistia, promulgada em 1979. A questão comporta multiplos aspectos de ordem jurídica, ética, política, institucional, teológica, psicológica, filosófica. Entretanto, a proposta é analisá-la sob a dimensão de duas questões essenciais no Brasil do tempo presente: a memória e o esquecimento.

Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Nietzsche – são muitas as contribuições dos pensadores clássicos sobre memória e História, esquecimento e perdão. Faz-se necessário, obviamente, revisitá-los, cada um em seu próprio momento da discussão. Mas o objetivo da pesquisa é abordar o tema com ênfase especial nos pensamentos de Paul Ricoeur e de Hannah Arendt – buscando apoio em Jacques LeGoff e Jacques Derrida, entre outros.

Ricoeur enfrentou ao longo de toda a juventude a dor da ausência do pai. Ele nasceu em 1913. Um ano depois seu pai seguiria para uma daquelas trincheiras da Primeira Guerra. Aguardou-o com ansiedade até o final os conflitos. Muitos pais retornariam com vida. Ou em caixões. Mas Ricoeur-pai permaneceria ausente. Desaparecera exatamente no Dia da Vitória. Assim, o sentimento de ausência tornou-se a maior presença em sua vida. Os restos mortais só seriam encontrados em 1932. Ricoeur forjou todo o seu pensamento uma constante contra a violência. “Meu pai morreu por nada”, escreveria mais tarde.

Continue reading »

ago 5, 2012

A memória como metáfora

A partir dos pensamentos de Walter Benjamin e de Paul Ricoeur, compreendemos que mimesis é, em síntese, a reconstrução de experiências do passado no tempo presente –um exercício de re-memorar os acontecimentos e subtraí-los às contingências do tempo em uma metáfora. Exatamente como fez Proust quando em busca do tempo perdido…

por Hugo Studart

Walter Benjamin era filósofo, sociólogo, romanista, grafólogo, teórico da história, das artes e da tradução. Alemão e judeu, era um marxista que se recusava a se organizar em partidos. Era também usuário de haxixe. Por conta dessa heterodoxia, até hoje a maior parte das academias européias de Filosofia não considera sua obra digna de estar entre os cânones do pensamento moderno. Na América Latina, contudo, Benjamin tem sido considerado cada vez mais o “Filósofo das Vanguardas” por conta de sua tendência à ruptura e ao novo, sua rejeição ao dogmatismo e ao cientificismo das academias de seu tempo, por sua ousadia de “tentar inventar novas imagens para pensarmos nossos limites e fronteiras”[1], como também pelo seu método transdisiciplinar de pensar as Ciência Humanas, tendência da pós-modernidade, mas que Benjamin já a pregava e praticava nos anos 1930.

Sua Teoria da História e, sobretudo, sua visão teórica original sobre a memória, ou a mimesis, são pontos nevrálgicos da obra de Walter Benjamin. Ele foi crítico ácido e bem fundamentado do historicismo positivista do século XIX, o modelo modelo de escrita da História que privilegiava os documentos criados pelo aparato do Estado – e portanto, conservador também sob o ponto-de-vista político. Essencialmente, ele negou a possibilidade de uma História “tal como de fato aconteceu”, segundo o credo positivista, e propôs resgatar a memória como meio de nos relacionarmos com o passado. Para Benjamin, não existe a tal neutralidade científica; e todo conhecimento é um embate de interesses. O registro da memória, segundo o pensador, é mais aberto, aceita os testemunhos e as imagens (e não só a escrita burocrática), aceita inclusive a visão dos vencidos, nem se apega ao dogma científico das supostas neutralidades. Continue reading »

Fotos

  • Martin Luther King Martin Luther King
  • Mandela Mandela
  • Paulo de Tarso Paulo de Tarso
  • Kenobi Kenobi
  • Proudhon Proudhon
  • Tereza Tereza
  • Yoda Yoda

Amigos do Blog no Face

Arquivo

junho 2016
D S T Q Q S S
« dez    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930  

Tags

Escolha o Indioma

'