Sonata para Carmen

Por Hugo Studart

Carmen Navarro tem passado seus dias a espera de uma canção. Qual? Ora, qual ela não canta, é um segredo, um dos mais fechados dentre os arquivos secretos da ditadura militar brasileira. Mas a espera é torturante. Aos 83 anos, lúcida, culta e bem informada, Carmen aguarda a chegada da música que seu filho Hélio Luiz Navarro Magalhães compôs antes de partir. A última vez que se viram foi em 1970. Hélio tocou-lhe a canção e partiu. Foi se juntar a um punhado de estudantes que montavam uma guerrilha na região do Araguaia. Era um compositor, pianista, estudante de Química. Adotou o codinome de Edinho. Hoje figura na lista dos 133 desaparecidos da ditadura.

O coração de mãe, as informações que apura, tudo dá conta que Hélio Luiz pode estar vivo, resguardado sob a identidade que lhe arrumaram os militares. Por muitos anos Carmen alimentou a esperança de abraçar o filho ao menos uma vez. Hoje conforma-se em receber um singelo sinal de vida – a música que lhe compôs antes de se transformar num “desaparecido”. Somente os dois conhecem os acordes. Podem chegar por e-mail anônimo, ou via CD postado no Correio. Ela só espera esse acalento.

A história por trás desse drama é delicada, é pura nitroglicerina política – e provoca tantas fúrias quanto são as lágrimas derramadas por Carmen. Já é aceito, historicamente, que em fins de 1973, depois de duas campanhas militares dentro das Leis da Guerra, o presidente Emílio Médici deu ordens ao Exército para caçar e aniquilar por completo os 47 guerrilheiros que ainda lutavam no Araguaia. Não queria ninguém vivo. Coube a Ernesto Geisel, seu sucessor, cumprir a ordem. Cerca de 20 guerrilheiros tombaram na mata, de armas na mão. Entre 25 e 30 foram feitos prisioneiros e depois executados.

Ocorre que cinco deles teriam sido poupados. Uso aqui os verbos na condicional, em sinal de prudência acadêmica. Esses cinco, que passaram a ser chamados de “mortos-vivos” pelos militares, teriam feito acordo com os algozes e recebido novas identidades. Tal qual ocorre nos decantados programas de proteção às testemunhas dos Estados Unidos, pelo acerto, não poderiam sequer procurar suas famílias. Alguns teriam seguido a ordem com rigor, como Hélio Luiz. Mas quem seriam os cinco mortos-vivos? Ora, os nomes encontram-se nas categorias dos chamados “segredos de Polichinelo”, conhecidos há quase 40 anos por grande parte dos antigos militares da repressão, e há mais de 20 anos pelos militantes dos Direitos Humanos.

O ex-ministro Jarbas Passarinho já revelou, reafirmou e confirmou que de fato seriam cinco os “mortos-vivos”, e que empregou dois deles no MEC quando era ministro da Educação. A juíza Solange Salgado, da 1ª Vara da Justiça Federal em Brasília, responsável pela sentença que obriga o Exército a procurar pelos desaparecidos do Araguaia, há um ano expediu ordem à Polícia Federal para que investigue e localize esses possíveis sobreviventes. Na ordem, citou os nomes a serem procurados.

O caso mais conhecido envolve Hélio Luiz e os dois companheiros que com ele foram presos, Luiz Renê Silveira, o “Duda”, e Antônio de Pádua Costa, o “Piauí”. Hélio é filho de um comandante de Marinha, Hélio de Magalhães. Mais que isso, sobrinho do almirante Gualber de Magalhães, um anti-comunista ligado à repressão. Quando os três foram presos, Gualber era o chefe do Estado Maior da Armada, espécie de vice-ministro que exerceu de fato o poder na Marinha. Os prisioneiros já estavam sendo executados no Araguaia. Mas quando os comandantes do Exército descobriram que haviam prendido o filho de um companheiro e sobrinho do Gualber, tiveram rever os planos. Hélio pediu que poupassem também os amigos Renê e Pádua. Passarinho acredita que sejam esses dois os que abrigou no MEC. Aberta a exceção, pelo menos mais dois teriam feito acordo para sobreviver – um deles seria Tobias Pereira Jr., o “Josias”.

Luiz René Silveira e Silva, o “Duda”

Hélio teria ficado sob a proteção do Centro de Informações da Marinha, Cenimar. Os demais, sob monitoramento do Centro de Informações do Exército, CIE. Carmen Navarro jamais acreditou na morte do filho. Com o ex-marido, há muito falecido, jamais conseguiu informações. Muito menos com o ex-cunhado, o almirante Gualber. Este passou três décadas tentando convencê-la, com ênfase inexplicável, de que o sobrinho estaria morto e enterrado nas matas da Amazônia.Sob nova identidade, Hélio teria se mudado para São Paulo a fim de trabalhar numa multinacional francesa que na época se instalava no Brasil –provavelmente o Carrefour. Carmen informa que o almirante Gualber alugou um terreno da família para o Carrefour instalar-se no Rio de Janeiro. Hélio teria se casado logo depois da guerrilha e tido dois filhos. Como fez José Dirceu, não teria revelado para a esposa sua verdadeira identidade. Dirceu se abriu com a mulher depois da Anistia. Ela exigiu desquite. Hélio estaria até hoje casado. Mas nunca procurou a mãe ou a única irmã, Aglaé. No caso de outro possível poupado, Tobias, é sua família que jamais procurou os grupos Direitos Humanos. A família de Tobias não pediu indenização e se recusa a receber militantes de esquerda, historiadores ou jornalistas.

O amigo Luiz Renê, se vivo estiver, também jamais procurou a família. Sua irmã, Elizabeth Silveira, construiu é militante da sessão carioca do Grupo Tortura Nunca Mais. Toda vez que alguém toca do tema dos “mortos-vivos”, fica tomada de ira e ameaça processar, quem quer que seja. Ela já discursou no julgamento do Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos, em nome das famílias dos desaparecidos, argumentando que a possibilidade do irmão ter sido poupado pelos militares é uma acusação pusilânime, uma calúnia leviana e criminosa à sua honra e memória. Deve ser lembrada de que a possível sobrevivência de Renê não desqualifica sua própria história política.

Elizabeth luta para impedir o cumprimento da ordem judicial da PF investigar os supostos “mortos-vivos”; direção da PF, por sua vez, tem optado pela desídia para evitar entrar em um tema polêmico. Seu principal argumento é o de que essa vicinal pode desviar a atenção do caminho principal – a busca dos restos mortais. Conseguiu recrutar alguns familiares de desaparecidos para sua cruzada. Em um ponto eles têm razão: os esforços principais devem ser a busca pelos mortos. Mas também é necessário esclarecer de vez se ainda existem vivos. Eis um tema que, decerto, será tratado pela Comissão da Verdade. Carmen Navarro, por sua vez, enfrenta um impasse. Quer saber do filho, desde que a PF mantenha a discrição. Mas se for para os policiais fazerem mais uma de suas operações espalhafatosas, ou a Comissão da Verdade tentar destruir a atual vida secreta de Hélio Luiz, então é melhor que se deixe tudo como está.

Os prisioneiros Piauí (sentado, esq) e Josias (sentado, centro), com as tropas

Há um pouco mais de um ano, Carmen enviou uma carta ao filho através da Marinha. Dizia a Hélio Luiz que estava com problemas cardíacos e que gostaria de vê-lo ao menos uma vez. Que não lhe cobraria nada, não lhe perguntaria coisa alguma sobre seu passado ou presente, que compreenderia suas razões para todas as atitudes, que ele nada precisava justificar nem ela perdoar – mas que apenas a deixasse vê-lo uma vez. É bem provável que essa carta esteja esquecida na gaveta de algum diligente burocrata do Cenimar, em Brasília. Ainda mais resignada, Carmen agora acalenta a esperança de escutar uma música. Aquela que Hélio certa feita tocou para a mãe antes de desaparecer no Araguaia. Será sua sonata. (Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, Sessão Tendências e Debates)

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