Quando um cacaçor de torturadores acusa um cidadão sem indicar quando e contra quem ele teria cometido excessos

O historiador Jarbas Silva Marques me procurou para denunciar que um torturador acaba de virar presidente da Academia Brasiliense de Letras. Segundo ele, o poeta, escritor, empresário e líder maçônico José Carlos Gentili, que tomou posse na semana passada na presidência da ABL, seria o ex-delegado federal José Carlos Gentil, incluído no livro “Brasil: Tortura Nunca Mais”, obra da Arquidiocese de São Paulo que enumera 444 supostos torturadores do regime militar brasileiro.

Gentili, ex-policial, hoje lider da Maçonaria

De acordo com Jarbas, Gentil teria trocado de identidade por volta de 1989, aproveitando-se da “Lei dos Oriundi”, aprovada na Itália. Foi então que o ex-policial Gentil, que em 1985 havia sido denunciado pelo próprio Marques, teria emergido como o empresário Gentili, escritor e festejado líder dos pioneiros de Brasília, Grão-Mestre Vitalício da Grande Loja Maçônica do Distrito Federal.

José Carlos Gentili confirma, através de um amigo, que de fato é o delegado José Carlos Gentil. Que serviu na PF na época do regime militar. Era delegado federal concursado. Mas que nunca foi torturador. Neste momento nosso amigo em comum está intermediando uma entrevista exclusiva com Gentili.

Jarbas Marques é um dos mais conhecidos “caçadores de torturadores” do País. Foi membro da Juventude Comunista, do velho partidão; virou militante do PC do B; foi preso em 1967, torturado, ficou na cadeia por dez anos, até 1977. Nos anos 80, ele identificou cerca de 30 militares e policiais que entraram na lista de torturadores do “Brasil: Tortura Nunca Mais”.

Foi Jarbas quem identificou e denunciou José Carlos Gentil pela primeira vez, em 1985. Na época, Gentil era delegado da Polícia Federal na Paraíba. Ele havia sido indicado pela Maçonaria para compor o Conselho da República, do então presidente José Sarney. Gentil foi desconvidado, pediu demissão do cargo na Paraíba e mergulhou na burocracia da PF.

Desde então Jarbas vem acompanhando a trajetória de Gentili, até sua posse na Academia Brasiliense de Letras. Descobriu uma história ilustrativa sobre os Anos de Chumbo no Brasil – que está detalhada abaixo, em relato do próprio Jarbas Marques. Essa é também uma boa oportunidade de debater a Lei de Anistia e as ações dos militantes dos Direitos Humanos para levar ex-torturadores ao banco dos réus.

A LEI DA ANISTIA

O que se sabe de certo e concreto é que José Carlos Gentili, ex-Gentil, serviu ao regime militar como delegado da Polícia Federal. Até aí, nada demais. Dois dos principais conselheiros do presidente Lula, do PT, também serviram ao regime e ninguém critica. São eles Delfim Netto, que foi um dos ministros que avalizou o AI-5, e Jorge Gerdau, que muitos militantes dos Direitos Humanos acreditam que teria financiado operações para-militares. Fora conselheiros íntimos do petista Lula que nasceram e cresceram sob a proteção dos militares, como Abílio Diniz, do Pão de Açúcar, e Sérgio Andrade, da Andrade Gutierrez.

Ora, mais do que a um regime militar, Gentil serviu a uma ditadura. Em sua defesa, pode-se argumentar que viveu o maniqueísmo da Guerra Fria, aquela época que Eric Hobsbawn chamou de a “Era dos Extremos”, que Isaiah Berlin definiu com o “século mais terrível da história”. E que, nesse contexto maniqueísta, extremista, terrível, Gentil optou por servir a um regime autocrático que se opunha aos guerrilheiros (eles chamavam de “terroristas”) que tentavam transformar, pela força das armas, o Brasil numa ditadura do proletariado, ou seja, criar um regime bem pior, totalitário como o de Stalin e Fidel. Nesse contexto, o delegado Gentil pode ter servido a uma causa menos pior do que a causa do professor Jarbas Marques.

Mas o professor Jarbas, ele mesmo vítima de torturas terríveis, acusa o escritor de ter sido um torturador, não um mero servidor da ditadura. Jarbas não soube me precisar exatamente quem o ex-delegado Gentil teria torturado, nem onde. Consultei o livro Brasil: Tortura Nunca Mais. Seu nome de fato está lá, mas só o nome, sem qualquer informação complementar. Também não há nada na internet. Marques informa que os nomes dos torturados estão dispersos nos processos no Superior Tribunal Militar.

Todos os ex-terroristas (ou guerrilheiros, se preferirem) foram anistiados em 1979, pela Lei da Anistia do ministro Petrônio Portella, no governo do general João Figueiredo. Os ex-torturadores também foram anistiados pela mesma lei, na cláusula dos “Crimes Correlatos”. Colocou-se uma pedra sobre o passado? É evidente que não.

Jarbas Marques argumenta que a Lei de Anistia não é legítima, pois foi aprovada quando ainda havia a hegemonia dos braços da ditadura no Congresso Nacional. “Colocam a culpa só nos militares, mas esquecem que a ditadura foi civil e militar”, diz Jarbas.

Ademais, argumenta ele, o Brasil assina todos os tratados internacionais contra a tortura e o genocídio, que são crimes imprescritíveis na condição humana. Ora, pergunto ao professor, se os terroristas de esquerda foram anistiados pelos militares, por que os militares não podem ser anistiados também?

“Não houve terrorismo, só crimes políticos”, responde. “Todas as vítimas dos guerrilheiros, morreramem combate. Oúnico caso questionável é o do tenente PM, morto a coronhadas pelo Lamarca”. Ele lembra também que até hoje se caçam os nazistas e que o Tribunal de Haia continua caçando os genocidas da Sérvia. Esse é o argumento dele.

Minha posição política pessoal é pela anistia ampla, geral e irrestrita para os dois lados. Mais: já que as vítimas da ditadura estão sendo indenizadas, defendo também a indenização para as vítimas da guerrilha.

Mas o nome do escritor Gentili está aí, posto à execração pública. Portanto, a história precisa ser publicada e o seu caso debatido. Inclusive abrindo a chance de ele limpar de vez sua biografia, se estiver sendo injustiçado por Jarbas Marques.

 

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE GENTILI, SEGUNDO JARBAS

 por JARBAS SILVA MARQUES*

O ex-delegado da Polícia Federal José Carlos Gentil lançou no dia 9 de junho (de 2006), no Restaurante Albatroz, do Aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília, o livro A Igreja e os Escravos, numa ação de revanchismo político contra a Igreja Católica Apostólica Romana, que o identificou como torturador de presos políticos no livro Brasil Nunca Mais, elaborado pela arquidiocese de São Paulo, com a coordenação do cardeal dom Paulo Evaristo Arns.

No livro, que tem as orelhas apresentadas pelo senador Cristovam Buarque, José Carlos Gentil colige documentos para denunciar a Igreja Católica na conivência com a escravidão e os regimes escravocratas, apresentando-se como historiador, após, numa manobra diversionista — aproveitando-se da Lei Italiana, que dá cidadania a filhos de italianos —, ter modificado seu nome para Jose Carlos Gentili, tentando, assim, escapar dos registros da Justiça Militar do Estado da Paraíba, que o identificam como um dos 444 torturadores da ditadura civil-militar de 1964.

O ovo da serpente — José Carlos Gentil nasceu em 30 de maio de 1940, em Porto Alegre (RS), e, em 1960, após fazer o Curso de Oficiais da Reserva (CPOR), também na capital do Rio Grande do Sul, muda-se para Brasília e ingressa na Guarda Especial de Brasília (GEB), no posto de tenente, sendo nomeado, em 1962, como diretor do Presídio da Papuda.

Em 1964, após exercer as funções de ajudante-de-ordens do diretor-geral do Departamento Federal de Segurança Pública, assume a Superintendência de Serviços Gerais da DFSP e, em 1965, é enviado a Washington pela ditadura militar para estudar na Academia Internacional de Polícia (IAP), do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Tão logo conclui o curso na IAP, vai cursar a Academia de Los Fresnos, em Brownswille, Texas, onde são preparados os quadros policiais de repressão fazendária.

De volta ao Brasil, vai servir na Divisão de Repressão ao Contrabando da Polícia Federal e, em 1970, é deslocado para o Estado da Paraíba, onde passa a ocupar a função de delegado regional substituto.

Em 1971, ascende ao posto máximo da carreira policial na Polícia Federal, quando passa a inspetor de polícia, aos 31 anos de idade.

Em 1972, após chegar ao ápice da carreira, pede exoneração.

O Serviço Nacional de Informações (SNI), para efetivar o controle sobre todo o corpo da sociedade brasileira — cidadãos e empresas —, necessitava do acesso às informações econômicas e financeiras disponíveis no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), criado pelas associações comerciais e pelos clubes de lojistas em todo o país.

No Distrito Federal, logo após sua instalação e a inauguração de Brasília, um esperto empresário registrou uma empresa com o nome de Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), idêntico às demais unidades do SPC ligadas às associações comerciais. Quando a Associação Comercial do Distrito Federal quis criar esse serviço, o nome não mais poderia ser usado, sendo então criado o Clube dos Dirigentes Lojistas (CDL), com as mesmas atribuições de suas congêneres no Brasil, mas com o nome diferente.

José Carlos Gentil, em 1980, adquire a Sociedade Brasileira de Cobrança, com escritórios no Pará, Pernambuco e Goiás, para, logo em seguida, adquirir o Serviço de Proteção ao Crédito de Brasília.

Com a sigla SPC em mãos, o Serviço Nacional de Informações (SNI), a partir de Brasília, passou a ter acesso a todo o sistema estruturado nacionalmente pelos empresários, preservando-se de pedidos, declarações e acompanhamentos que denunciassem sua ação no corpo social da nação.

Nessa época, ele funda também uma empresa turística, a Gentil Turismo. Esta empresa passa então a organizar excursões turísticas nos países comunistas de então. Os ingênuos turistas que procuravam esses pacotes “vermelhos”, mais do que depressa já estavam no índex dos órgãos de segurança.

Em 1985, tem início uma nova fase de José Carlos Gentil. Primeiramente, ele entra na Maçonaria e articula a fundação da Academia Maçônica de Letras, elegendo-se presidente. A partir daí, a Maçonaria serviu de biombo para o seu trabalho de infiltração, ao ponto de, em 1989, a Maçonaria o indicar para ser nomeado conselheiro da República, só não conseguindo seus objetivos porque uma corrente maçônica tomou conhecimento de uma matéria, publicada no jornal Voz de Luziânia, que o identificava como um dos 444 torturadores listados pela arquidiocese de São Paulo.

Mas esse acidente de percurso não o impediu de atingir seus objetivos, e, na última página de seu livro, ele lista que é integrante da Academia de Letras de Brasília, da Academia de Letras e Artes do Planalto Central, da Academia Maçônica de Brasília, da Academia de Letras, Artes e Música de Pirenópolis, da Academia de Artes e Música do Distrito Federal, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, da Academia de Letras de Anápolis, da Academia Cristalinense de Ciências, Artes e Letras, da Academia Petropolitana de Poesia Raul Leoni, da Academia Maçônica Paulista, da International Academy of Letters of England e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

No entanto, como toda essa manobra para descaracterizá-lo como um dos torturadores listados pela Igreja Católica esbarrava no seu nome de batismo e registro civil, José Carlos Gentil partiu para uma última manobra: mudar o nome. Valendo-se da legislação italiana, que dá dupla nacionalidade aos filhos de italianos, os “oriundos”, ele requereu a cidadania italiana e mudou seu nome para Jose Carlos Gentili.

Com esse nome ele assina A Igreja e os Escravos, que é a sua vingança revanchista contra a Igreja Católica Apostólica Romana, que o eternizou como torturador de presos políticos.

Os luízes que se cuidem — É hoje de domínio público que três advogados brasileiros arriscaram suas vidas para que a arquidiocese de São Paulo elaborasse o livro Brasil Nunca Mais.

Por um critério rigoroso, estabelecido por dom Paulo Evaristo Arns, a obra Brasil Nunca Mais teria por base documentos inquestionáveis, as cópias dos Inquéritos Policiais Militares (IPMS) que denunciavam as torturas e os torturadores julgados, ou em julgamento, no Superior Tribunal Militar (STM), sediado em Brasília.

Os advogados Antônio Modesto da Silveira, Luiz Eduardo Greenhalgh e Luiz Carlos Sigmaringa Seixas passaram a requerer os IPMS, xerografar os depoimentos e mandá-los para dom Evaristo Arns em São Paulo.

Os braços do revanchismo alcançaram o advogado Antônio Modesto da Silveira — que foi seqüestrado pelo DOI-Codi do Rio de Janeiro — e Luiz Eduardo Greenhalgh, que teve, pela Internet, uma campanha difamatória afirmando que ele estaria riquíssimo por receber parte das indenizações devidas aos anistiados, quando se sabe que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, em seus quase quatro anos de governo, não pagou os atrasados devidos aos cassados anistiados pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.

O deputado federal pelo Distrito Federal Luiz Carlos Sigmaringa Seixas (PT), até o momento, felizmente ainda não acusou nenhum ato revanchista.

Em 1988, o deputado Augusto Carvalho (PPS) tentou, junto ao governador José Aparecido de Oliveira, que o governo do Distrito Federal cancelasse a condecoração concedida a José Carlos Gentil, da Ordem do Mérito de Brasília.

José Carlos Gentil não cita em seu livro as medalhas e comendas que recebeu, mesmo porque, hoje, ele tem outro nome e outra identidade.

Pode ser que, agora, depois da derrota de Berlusconi, o grupo de “oriundos” que queria requerer ao governo italiano a cassação desta cidadania, com base nos acordos internacionais que abominam a tortura, crie novo ânimo para requerê-la.

*(Este artigo foi publicado originalmente no Jornal Opção, de Goiânia, edição de 18 a 22 de junho de 2006)

** Jarbas Silva Marques em autorizou a divulgar seu telefone, caso alguém queira mais detalhes: 61-8118 5023

 

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