Quando Deus chama um poeta

BRUNO TOLENTINO Era um intelectual de estirpe clássica, escreveu sua apologia em Oxford e desceu ao inferno para resgatar os demônios. Queria morrer como um filósofo. De volta ao Brasil, virou uma peste. Encontrou um país devastado pelas panelinhas ideológicas, deu início a uma faxina cultural e decidiu escolher um outro fim, o de um kamikaze. Entrei em seu apartamento no exato momento em que o poeta soube que em breve iria morrer de Aids. Quis a providência que a primeira pessoa a escutar o poeta em suas reflexões sobre a vida após o aviso da morte fosse um repórter (Publicado originalmente pela revista República)

Tolentino: oito horas consecutivas de entrevista com o poeta sensibilizado pela informação de que iria morrer de Aids

Por Hugo Studart

Em 1964 Cecilia Meireles foi visitada em seu leito de morte por um jovem poeta de boa estipe, um certo Bruno Tolentino. O rapaz sentou-se à cabeceira da musa e, comovido, compôs um longo poema –depois desapareceu do Brasil e nunca mais se ouviu falar de sua pena. Ficaram os versos, no qual ele explica como gostaria que fosse sua própria morte:

— Esta vida se compõe de curas/ provisórias e sucessivas,/ mas tu, por muito mais que vivas,/ te curaste só das amarguras:/ nem peço cura mais tranquila/ para mim. Tentarei repetí-la.

Passaram-se mais de três décadas. Diria hoje um poeta da velha estirpe, como já é o caso de um Tolentino, que nada, nada mais é como dantes, posto que o bafo da morte acabara de se fazer anunciar. “Soube ontem do resultado da biópsia”, revelou, já nas primeiras das muitas revelações desse encontro. “Estou com câncer”. Em verdade era Aids, confessaria ele mais tarde. Quis a providência que a primeira pessoa a escutar o poeta em suas reflexões sobre a vida após o aviso da morte fosse um repórter.

— Chegou a minha vez e eu vou ter que encarar mesmo esse negócio… Estou com muita saudade de Deus, há muito que ele não me aparece. Talvez agora possa me dar mais atenção.

Bruno Tolentino, 56 anos, professor muito amado, ensaísta renomado, pensador erudito, polemista sádico, católico fervoroso e poeta –um dos maiores da atualidade, garantem seus pares europeus– está ansioso.

— Há situações extremas, como a do encarceramento ou a iminência da morte, em que a criatura se confronta com questões fundamentais. Então caem as máscaras e a introspecção torna-se inevitável. Essa solidão é produtora de poesia, ou de desespero.

Para quem ainda não se situou, Bruno Tolentino é aquele imodesto professor de literatura que provocou tamanha selvageria intelectual em Oxford com seu humor corrosivo que chegou a ser apontado por críticos britânicos como o mais próximo sucessor de Oscar Wilde. Se pudesse escolher, preferiria ser conjugado com Yeats. Margaret Thatcher o odiava. Muitos outros também. Terminou condenado à prisão de segurança máxima da “Ilha do Diabo” –conheceremos essa historia mais adiante.

Retornou ao Brasil há dois anos, depois de 30 anos de ausência, para instaurar a desordem entre a inteligência local. Conseguiu. Chamou, por escrito, em poemas, a musa da esquerda pátria, a professora Marilena Chauí, de “Marxilena Xuxauí”, e os totens da intelectualidade paulista, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, de “sapos-rei, zeuses do pântano da mediocridade”.

Com lirismo, sátiras ou baixarias, Tolentino tem conseguido tirar a poesia dos guetos literários e restituí-la ao pedestal do debate de idéias. Arnaldo Jabor, eufórico com a arruaça, escreveu que ele trouxe de volta a “peste clássica” e que sua presença no pais encerrou “uma noite que durava trinta anos”. Talvez o dia nos seja curto.

— Ainda não sei se estou com metástase, aguardo o resultado completo dos exames. Meu pai teve esse mesmo câncer e ainda durou cinco anos; minha avó viveu mais oito anos; o Antônio Callado sobrevive há dez anos… Quem sabe eu ainda consiga tempo o suficiente para acabar de desmascarar os farsantes que seqüestraram a inteligência do meu país?

Foram oito horas consecutivas de entrevista, a 23 de novembro de 1996, no apartamento (velho, amplo e de fundos) que a mãe de Tolentino lhe deixou, no bairro carioca da Tijuca. Ele alternou diversas vezes seu estado de ânimo. Ora vinha a melancolia, ora a euforia, às vezes contava historias hilariantes, outras respondia às questões com razão e lógica. Em diversos momentos declamou poesias, longos trechos. Chegou a entrar em seu computador para escrever, pessoalmente, certas respostas. Interrompeu a conversa uma vez para fazer um pedido –foi o seu único pedido.

— Por favor, prefiro que não escreva sobre minha doença.

Pardon, oh captain, responderia Coleridge, desculpe-me pela indiscrição, my captain, mas é impossível atendê-lo, pois Deus não concedeu aos repórteres o direito de esconder um poeta no clamor da sensibilidade.

PRIMEIRA HORA – A ÉTICA

Até 1964 havia no Brasil um jovem poeta cuja erudição e estilo impressionavam homens como Drummond, Manuel Bandeira e Ledo Ivo. Tolentino foi embora para a Europa, aos 24 anos, diz ele que horrorizado com o festival de besteiras que assolava o país.

Deu aulas de literatura nas universidades Bristol, Essex e Oxford. Publicou cinco livros de ensaios e poemas, em francês e inglês, muito bem aceitos pela crítica européia. Passou a trocar figurinhas em saraus intelectuais com sumidades do porte do italiano Giuseppe Ungaretti e dos franceses Yves Bonnefoy e Saint-John Perse –este, Nobel de Literatura. Arrogante, apelidaram-no, em fina ironia, de Talentino. Foi então que, em 1987, um incidente extraordinário ocorreu em sua vida. Tolentino foi preso, julgado e condenado ao xilindró por consumo de cocaína.

— O flagrante foi armado, mas era verdade que eu cheirava. A cocaína é tradição em Oxford desde 1920. Há quem garanta que até a rainha mãe cheira.

Ele começa a se animar com a conversa. Troca a poltrona por uma cadeira só para contar, mais de perto, que meses antes ajudara a humilhar Margaret Thatcher. Ao ser reeleita primeira-ministra pela terceira vez, a “Dama-de-Ferro” pedira aos professores de Oxford, encarecidamente, que lhe honrassem com o título de doctor honoris causa. É tradição no reino que os primeiros-ministros recebam, espontaneamente, tal salameque.

— A Thatcher vinha nos maltratando com seguidos cortes de verbas e estávamos dispostos a uma rebelião. Eu então lhe criei um apelido, “Atila, the hen” (galinha), que colou. Um deputado maluco chegou a revelar a maldade no Parlamento.

Conforme a tradição, os doutos eruditos de Oxford vestiram beca e peruca e se reuniram em consistório para votar o pedido de Mag. A BBC transmitia a cerimônia para todo o reino, ao vivo e em cores. Na hora “H” os scholars se retiraram da sala, na proporção de quatro a um. A humilhação teve troco. Logo depois a Scotland Yard promoveria uma devassa na universidade. Estavam atrás de professores drogados; Thatcher, estava atrás de uma vingança exemplar. Tolentino foi um dos três que dançou.

— As acusações eram absurdas, de tráfico para cima. Eles queriam provar que eu induzia meus alunos ao consumo de drogas. Eu vivia um sincero drama ético. Estava dividido entre o impulso de me defender, por medo da prisão, e o desejo cristão de assumir a culpa e purgar meus erros.

Na verdade, Tolentino estava tentado a repetir na própria alma uma das mais belas páginas da história, o julgamento de Sócrates. O velho filósofo fora acusado de corromper a juventude ateniense com suas idéias e hábitos excêntricos. Em vez de se defender, provocou a ira dos jurados e acabou condenado a tomar cicuta. Tolentino optou por escrever sua própria apologia.

— A todas as acusações, eu respondia: “guilty” (culpado). O juiz chegou a lembrar que eu estava assumindo a culpa por fatos que ocorreram quando sequer estava no país. E eu: “guilty, guilty, guilty”. Realmente me achava culpado e talvez quisesse ser imolado.

Assumiu sozinho a culpa de toda a universidade e foi condenado a 11 anos de cadeia. Ganhou o respeito entre os intelectuais britânicos e a auréola de herói da contestação anti-establishment. Dois anos depois a Suprema Corte faria a revisão do processo. Tolentino foi libertado, numa sentença na qual foi definido como “exemplum humanae vitae”.

 

SEGUNDA HORA – O CÁRCERE

A prisão de Dartmoor foi construída há 200 anos, durante as guerras napoleônicas. Fica no meio de um enorme pântano, é quase impossível escapar de lá com vida. A umidade escorre pelas paredes, só é permitido banhos semanais e mais do que cinco homens juntos já é considerado motim. Os ingleses chamam­-na de “Ilha do Diabo”. Tolentino conseguiu transformar seu cativeiro num mero claustro e protagonizou o ápice da aventura lírica.

— Aquele isolamento devasta a vida emocional de um detento, encurrala os homens no gueto de uma solidão mental desesperadora. Cocteau tinha razão ao sugerir que o homem se mata porque não consegue tornar-se poeta.

Ressalte-se que ele chegou à Ilha do Diabo já com fama nacional e usufruindo do respeito dos guardas. Ganhou dos detentos a alcunha de Tontolino, the mad professor. Criou, de imediato, uma oficina literária. Começou cantando as letras de John Lennon e Bob Dylan após o toque de recolher. Aos poucos foi introduzindo os versos de Chaucer e Hardy, até chegar a Auden e a Shakespeare.

— Ia abrindo portas da sensibilidade àquela gente rude. A concentração das poderosas emoções de um preso servia de guia de acesso a patamares cada vez mais altos na busca de expressão pessoal. Aprendia-se a compor versos, primeiro em estrofes, logo em limericks, sonetos, baladas e sextinas.

Sua oficina tinha 49 alunos permanentes chegou a ter 80 voluntários –haviam 700 presidiários. Quase todos os participantes terminaram transferidos a condições carcerárias melhores ou conseguiram que suas sentenças fossem encurtadas.

Nessa época conheceu Nick, o detento “212”. O rapaz só atendia aos guardas quando o chamavam pelo número que tatuara no pescoço. Nick foi uma fonte de inspiração espantosa. Tontolino gosta de relatar a aventura com Nick declamando trechos de sua obra-prima, A Balada do Cárcere.

— Era o 212!/ Voltava a cara, ou as costas,/ se alguém o chamava Ambrose:/ cruzara as últimas portas,/ passara a ser algarismos./ Como os morcegos penduram-se/ ao nada sobre os abismos/ dependurara-se a um número…

Nick era um rapaz da Cornuálha, terra de lendas, de Tristão e Isolda, de Arthur e Guinevere. Aos 20 anos matara a mulher. Estrangulou-a por ciúmes e pegou prisão perpétua. Era analfabeto e tinha grande dificuldade de se expressar oralmente. O curioso é que conhecia profundamente a mitologia greco-romana, a Medusa, Cérbero, o cão do inferno, o Minotauro e seu labirinto. Na prisão virou um numeropata, o “212”. Se achava um monstro, um verme, dizia ele, e se definia como um Minotauro.

— Nick era intimidante, os demais presos tinham grande respeito por ele. Não era um criminoso contumaz, nem um maníaco sexual, nem um violento compulsivo. Seu drama tinha menos de patológico que de exemplar. Eu jamais havia encontrado alguém tão inarticulado, tão selvagem.

Tontolino compôs os versos ao longo de quase dois anos de convivência com o Numeropata. Foram 79 líricas, originalmente em inglês, enviados da cadeia para os jornais e revistas inglesas. As revistas Agenda e Oxford Poety Now tiveram que aumentar as tiragens tal foi o sucesso provocado pelo tema. A Literary Review chegou a rodar três vezes. A medida que o Minotauro ia saindo do labirinto, seu único amigo relatava a aventura em versos.

— Dois olhos cheios da história/ de uma vida desterrada/ nesta terra provisória/ em que um corpo arrasta a alma/ enterravam-me o punhal/ do olhar que revolve as vísceras,/ desce às entranhas do mal:/ não gostava de visitas.

Os poemas foram reunidos em livro somente no Brasil. A Balada do Cárcere (TopBooks) foi lançado em dezembro último. Ganhou o premio Cruz e Souza, 10 mil dólares no bolso do autor. Não é apenas um poema intenso e dramático, mas um documento sobre os limites do patológico e da imaginação, a aventura de um poeta católico que desce ao inferno e lá resolve converter um demônio.

— Conheci uma alma incapaz de traduzir seu tormento em diálogo. Só a poesia me teria permitido nela entrar e dela extrair, por obra e graça do Espírito Santo, mais que um poema, uma metamorfose.

Nick aprendeu a ler com o amigo e em dois anos prestou vestibular. Passou para a Open University. Hoje é psicólogo e membro da Royal Society of Psychology. Cumpre sua prisão perpétua em regime semi-aberto. No primeiro aniversário de Tontolino na cadeia (12 de novembro), os presos presentearam-no com um versinho: “Some like it hot,/ some like it not,/ but everybody likes Toly-tot!”. Tot não quer dizer nada, foi introduzido apenas para rimar com hot.

            TERCEIRA HORA – A POLÊMICA

No Brasil, Toly-tot rimou com Pol-Pot, o falecido líder do Khmer Vermelho, uma peste negra que matou 1 milhão de cambojanos (quase todos alfabetizados) a fim de promover uma faxina ética e ideológica no país. Só perdeu em barbárie para Stalin e Hitler, pela ordem. Toly-tot também voltou barbarizando. Desembarcou no Rio de Janeiro e descobriu que os únicos debates de idéias que haviam chamado a atenção nos últimos anos foram os de Angela Rô-rô versus Zizi Possi, e o de Lulu Santos versus Caetano Veloso.

— Tive uma grande decepção quando encontrei todo mundo com rabo preso. As coisas no Brasil têm sido resolvidas em petit comite, na ação entre amigos. São todos candidatos a alguma coisa, a bolsa, a dinheiro, a cátedra, e ninguém diz nada de substancial. Decidi acabar com a mamata que havia de se poder dizer besteiras impunemente.

O poeta paulista Augusto de Campos, um dos fundadores do movimento concretista, foi o primeiro a ir para o paredón. Vale relembrar a quizumba para aqueles que só agora chegaram à festa. Augusto publicou no Mais!, da Folha de S.Paulo, a tradução de um poema de Hart Crane. Toly-tot apresentou-se no Suplemento Literário, do Estadão, com uma crítica devastadora, tentando provar que Augusto de Campos, apesar de seus 27 livros traduzidos, não saberia inglês. Já nas primeiras linhas da crítica, utilizou termos como “insosso duble de Pitanguy literário”, “bisturi sub-parnasiano”, “mata-mosquitos cultural”, “asno pomposo”, “lobotomia do verso”, “velho metrônomo oitocentista dos saraus bocejantes”, “rimas de pau molenga”, “ontológica dor de barriga verbal” e assim por diante.

Foi um escândalo, a polêmica chegou à primeira página dos jornais. Augusto de Campos reagiu de forma pífia. Acusou o adversário de não saber português (teria utilizado o “posto que” de forma inadequada) e apresentou um abaixo-assinado no qual 105 amigos protestam contra a baixaria. Três eram do ramo –João Cabral de Melo Neto, Marilena Chauí e Haroldo de Campos, irmão de Augusto. Os demais eram amigos de bar ou gente como Caetano, José Miguel Wisnik e Gal Costa.

— Achei uma gracinha a intelectual Gal Costa protestando contra minha critica sobre a tradução de Hart Crane.

Toly-tot é louco por uma esgrima, de preferência com porretes. Mexe-se na poltrona, agita os braços, altera a voz e se levanta excitado ao relatar suas polêmicas em solo pátrio. Nesse episódio, nosso poeta chegou ao sadismo ao publicar um livro, Os Sapos de Ontem (Editora Diadorim, esgotado) no qual corrói com prosa, verso e ácido sulfúrico os irmãos Campos, os poetas concretistas e todos os seus amigos e conhecidos, no melhor estilo Gregório de Matos. Ganhou, cada um dos adversários, poemas satíricos. Os irmãos Campos foram presenteados com “Retirada da Lacuna”; Toly-tot adora declamá-lo:

— Com dó do terceiro mundo/ dois irmãos inventam a roda:/ pedante vira profundo,/ pernóstico entra na moda./ Vai-se abrindo uma lacuna/ no cérebro nacional/ e a poesia vira aluna/ de sapos de manual.

A lírica em homenagem a Marilena Chauí chega às raias da sordidez. Relata, em 15 estrofes de nove versos, a história de Lili, uma hetaira de Alexandria, mulher desejada por todos, intelectual farsante, que foi flagrada por um amante no exercício do plágio. Toly-tot derrama saliva ao declamar Lili.

— Sabia tudo de Epicuro/o seu xodó. Falava bem,/ punha qualquer um de pau duro/ com as dissertações e o vaivém/ das mãos sábias, no claro-escuro,/ à beira-leito…

QUARTA HORA – A REVOLUÇÃO

No momento ele está preparando um ensaio sobre a subliteratura com um título ridículo “Os glabros candelabros: letrismo e beletrismo no Brasil”. Há muitas outras vítimas na sua lista negra. São muitas as idéias e precisos os argumentos.

— Não quero jamais ter o poder, pois faria uma faxina cultural a la Pol-Pot.

–Como fazer cultura sem polêmica? Impossível. Só lamento não estar conseguindo polemizar com ninguém. Polêmica é uma coisa, é o que se fazia no tempo de Machado de Assis, limpeza urbana é outra. Nossos intelectuais não respondem, não encontram argumentos para entrar em discussão.

— Há muita pusilanimidade por aqui, mas há também surpresas agradáveis. O Arnaldo Jabor é uma delas. Ele está fazendo um jornalismo de idéias fantástico, virou uma mixagem de Raymond Aron com Émile Zola.

— A receita da honestidade intelectual é simples, foi ensinada por Sócrates: é não fingir que sabe o que não sabe, uma doença brasileira, e por outro lado não fingir que não sabe aquilo que sabe perfeitamente bem.

— Eu e o mano Caetano somos duas pessoas caricatas. Nos parecemos demais porque tendemos a aparecer com o que temos de pior. O Caetano tem gênio, reconheço, mas não é intelectual porque tem preguiça de ler.

— O mais curioso é que o (ensaísta e embaixador José Guilherme) Merquior também tenha morrido cedo, mais ou menos com a minha idade. Ele foi o único que antes havia tentado desmascarar os farsantes para iniciar uma renovação cultural. A morte de Merquior foi um alívio, ufa!, acabou-se aquele chato que tinha uma cultura filha da puta e não deixava passar nada. Mas agora será diferente: tem um outro sujeito, o (filósofo) Olavo de Carvalho, que vai continuar o que o Merquior e eu começamos.

— É irônica essa coisa de que eu vá morrer logo depois de iniciar uma luta pela renovação cultural no Brasil. Talvez Deus esteja sendo indulgente com os vigaristas. Mas decidi que esse tempo que me resta vou vive-lo fazendo a faxina. Sou agora um kamikaze.

 

QUINTA HORA – A UTOPIA

Toly-tot faz uma pausa para o lanche. Apenas uma xícara de chá, queijo frescal e cinco cream crackers. Mastiga três bolachas, bebe a infusão, deixa o queijo de lado e oferece café ao visitante. Ele come pouco, pretende a esta altura da vida se  transformar em um asceta. Nada de álcool, nada de fumo, nada de pó.

Toly-tot quer falar de utopias. Quer explicar porque os intelectuais tendem a preferir o mundo como idéia em detrimento do mundo como tal. Diante de uma provocação sobre o marxismo, senta-se diante do computador e escreve, pessoalmente, o seguinte trecho:

— Conhece-se a árvore pelos frutos, já dizia o Cristo. O erro do marxismo, aliás, vem desde Nicolau de Cusa, mas passa por Descartes, Kant, Hegel antes de dar nos campos do Gulag. Trata-se do culto da razão separada do milagre que é a vida. Só podia dar na KGB da rua Maria Antônia (sede da Faculdade de Filosofia da USP). Hegel disse: “Se os fatos não coincidem com as minhas idéias, tanto pior para eles”. Hegel era um vigarista.

Agora de viva voz, Toly-tot continua:

— A luta da minha vida inteira tem sido para separar a realidade da idéia que tenho sobre ela, que naturalmente é sempre muito melhor do que a realidade.

— Quando o Fernando Henrique disse “esqueçam tudo o que escrevi”, eu pensei, “pronto!, ganhou meu voto”. Ele era um teórico, mas se despiu da arrogância intelectual para lidar com a realidade, juntar os cacos do Brasil e tentar levá-lo ao século 21. Com aquela frase, o Fernando Henrique virou o anti-Hegel.

Há uma curiosa coerência ente o que pensa e o que faz Toly-Tot. Ele se considera um dos herdeiros do poeta Rilke. Foi ele, Rilke, quem certa vez escreveu: já que Deus não havia lhe dado escolha sobre a vida, que pelo menos lhe concedesse o direito de escolher a qualidade da própria morte. A tradução do poema, improvisada primeiro em voz alta, depois com a caneta, é do próprio Tolentino:

— A morte é imensa./ Somos as bocas com que ela ri./ É quando mais te sentes vivo/ que ela gargalha dentro de ti”.

SEXTA HORA – O PATRICIADO

— Precisamos restaurar o patriciado brasileiro.

Antes que vocês se assustem, prezados leitores, é bom esclarecer que Bruno Tolentino não sofre de qualquer doença mental, não prega a volta da monarquia nem o fim da democracia. O que ele pede é que volte a existir uma massa significativa de cidadãos com uma formação ética e cultural mediana, dispostos a promover uma revolução cultural, ou pelo menos que sirvam de referência e bússola aos demais brasileiros.

O que ele define por “patriciado” é aquele povo que libertou os escravos, proclamou a República, se reorganizou no tenentismo, derrubou as velhas oligarquias, promoveu a industrialização, implantou a democracia e que jamais se importou em comer carne de segunda para poder comprar (e ler) a obra de Machado de Assis ou de Tolstoi. Esse povo, por fim, se dividiu em 1964.

— O patriciado se perdeu e colocou o Brasil num labirinto. Nós tínhamos uma alma nacional e sabíamos onde queríamos chegar, mas há 30 anos os nossos melhores quadros seguiram pela irrealidade do marxismo, de um lado, ou preferiram se aproveitar da truculência capitalista. Hoje somos um país sem referencia ética, sem identidade cultural clara e sem inteligências que debatam seriamente o novo rumo a seguir. Perdemos nossas elites, só restaram as oligarquias.

— O labirinto só tem uma abertura, portanto, refazer os próprios passos é o único modo de transformar a porta da entrada na da saída.

Enquanto toma fôlego, Toly-tot mostra ao repórter um trecho da Introdução de A Balada do Cárcere. Está ali uma questão que gostaria de levar ao debate público: o papel da poesia no processo de restauração do patriciado.

— É no movimento vertical  do espírito que o ser alcança sua dignidade e define seu lugar e sua posição ante o real, o bem, o mal, a vida e a morte. Somente a poesia tem a amplitude de meios capazes de exprimir as grandes perplexidades da alma. É o poeta que resume a raça, é ele que a afirma e a canta, onde o mero cantador simplesmente seus males espanta.

SÉTIMA HORA – OS VERSOS

Membro de duas tradicionais famílias, uma mineira (os Carneiro Mendonça) e outra carioca (os Tolentino), Bruno aprendeu o inglês e o francês antes do português. Em 1957 ele teve uma visão, talvez um desejo, o de que iria fazer uma obra poética trilingüe. Ele já escreveu 1400 poemas em português (632  publicados). Em inglês, são 47 publicados e outros 34 inéditos; em francês são 43 publicados mais 15 inéditos. Há ainda meia dúzia de poemas em italiano e outro punhado em espanhol.

— Nunca deixei de me espantar com a qualidade dos meus poemas. Sou um dos nossos poetas maiores, mas isso todo mundo sabe. Menos óbvio é que sou um dos líricos do pensamento na linhagem que vai de Dante e Leopardi, a Montale, Rilke, Yeats, Drummond e Fernando Pessoa.

Assim que retornou ao Brasil, Bruno Tolentino lançou As Horas de Katharina (Companhia das Letras) longo poema sobre a busca de Deus e a transcendência da alma, no qual conta, na primeira pessoa, a história de uma carmelita do século passado. Os originais foram escritos entre 1971 e 1993, em quatro línguas, mas a primeira unidade foi publicada em português. Muita gente torceu o nariz para tamanha pompa, mas o resultado final foi um respeitoso silêncio. Fazer o quê? Ninguém se atreveu a vir a público criticar a qualidade. Depois publicou Os Deuses de Hoje (Record) e o polêmico Os Sapos de Ontem. A Balada acabou de sair e o próximo a chegar às livrarias chama-se O Mundo como Idéia, sua obra mais importante, garante, a décima.

— Minha obra parte de uma atitude grave: a vida do espirito é a verdadeira arte. Faço poesia séria, ambiciosa no sentido mais saudável do termo. A autocrítica me levou sempre a atrasar a publicação de meus livros e trabalhá-los durante décadas.

Sobre os novos poetas brasileiros, Toly-tot afirma:

— Na vitrine só tem merda, mas a poesia brasileira não é, de forma alguma, anêmica. Basta procurar com isenção. O problema é que aqui letra de música é chamada de poesia. Jamais, como na experiência do cárcere, me aparecera tão nítida a distância expressiva que há entre o texto de um poema e as palavras de uma canção. Não dá para continuar confundindo Caetano com Drummond.

Sobre a qualidade de um poema:

— Roberto Campos ensinou-me um truque infalível: quando em dúvida quanto à qualidade de um poema, traduza-o para o latim. O que passar é poesia, o resto era perfume. Ora, o latim é a língua menos abstrata do mundo, exige substancia no que é dito, ou simplesmente não se consegue dizê-lo. Nunca mais deixei de submeter meus próprios poemas a esse teste.

Sobre os poetas brasileiros, Tolentino começa a dar sua opinião oralmente. De repente se levanta e vai ao computador escrever a resposta. Relê, altera a ordem dos nomes, até que se dá por satisfeito:

— Tivemos no Brasil meia dúzia de poetas maiores, aqueles que têm ao mesmo tempo gravitas,  abrangência de temas e vistas e fôlego lírico, além do perfeito controle formal; ex.: Gonçalves Dias, Castro Alves, Cruz e Souza,  Bandeira, Drummond, Cecília; há que somar-lhes uma dúzia de grandes poetas do porte de Gregório de Matos, Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Alphonsus de Guimarães, Jorge de Lima, Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto, etc. Estes têm quase tudo o que os outros tinham, mas infelizmente dentro de certos limites que os poetas maiores ou ultrapassaram ou nunca conheceram. E, dado que nossa tradição, a ibérica, é tão rica quanto as de língua inglesa ou russa, temos ainda inúmeros bons poetas menores, como Varela, Bilac, Vinícius etc. O diabo é que, como o país de beletristas que somos, a cada geração produzimos enxames  de imitadores de poesia, pastichadores inconscientes. O bagaço fica no fundo do poço, é uma miríade de poetômanos que quase sempre se rotulam isto ou aquilo: marginais, modernos, minimalistas, tradicionalistas, vanguardistas, etc. A diferença entre os dois tipos, o poetastro e o poetômano, é que o primeiro parodia o que há de melhor, mesmo sem originalidade alguma, produz alguma coisa de parecido à verdadeira voz lírica, como em Cassiano, Oswald, Leminski etc. Já o poetômano escreve absolutamente qualquer coisa e chama-o de poema só porque foi ele quem o fez, Ana Cristina César parece-me um dos piores exemplos disso. Esse tipo não lê senão o que escreve.

 

OITAVA HORA – ADEUS

Bruno Tolentino demonstra, a esta altura da entrevista, uma estafa visível. Precisa tomar seus medicamentos e dormir. Os sinais do incendiário Toly-tot dão lugar a um poeta católico e reflexivo.

— A vida não é para se confundir com a mera existência. Os gregos tinham duas palavras para ela: bios e zoe. Esta ultima é imortal. São Boaventura ensinou que a criatura é um primeiro rascunho do ser. A alegria de viver o vai enchendo de garatujas e a dor o vai passando a limpo. Na morte Deus dá ao esboço sua forma final, perfeita.

Peço ao poeta que diga qual o epitáfio de intelectual pelo qual gostaria de ser lembrado. Hesita, mas vai ao computador e escreve:

— Fui um homem livre, um espírito a serviço da vida do espírito. Isto por esforço próprio. Se fui de fato poeta, já isso o terei sido pela graça de Deus.

Ele já não tem muitas forças e o repórter se põe de pé. Se o cárcere não tivesse triturado a sua antiga arrogância, conforme o próprio confessa, teria Tolentócrates levantado a cabeça para pedir ao repórter, “Devemos um galo a Esculápio”. Trata-se do último pedido de Sócrates ao amigo Críton para que fosse imolado um galo, em seu nome, em oferenda ao deus pagão da Medicina. Mas o poeta optou por prestar honras ao Deus único e todo-poderoso dos cristãos. Hora de se despedir; hora de recordar o último poema de Katharina.

– Adeus, poesia./ Adeus, solidão./ Dou-vos uma fria/ carícia de mão,/ a mão leve, esguia,/ hesitante e tão/ cheia de emoção,/ que é quase harmonia,/ quase paz, meu trêmulo,/ meu último adeus…/ Tocai-os, os meus/ dedos, os meus remos/ soltos, mas deixemo-los,/ demo-los a Deus.

 

“Não terei tempo de fazer a faxina”

O segundo encontro com Bruno Tolentino durou um pouco mais de duas horas. Foi a 14 de dezembro, um final de tarde de sábado. O poeta abriu a porta. Estava de pijama, acabara de acordar. Ele tem vivido de com sedativos. O repórter lhe submeteu o texto com a entrevista. O poeta sentou-se à mesa da sala de jantar e o examinou linha por linha, por mais de uma hora.

Escreveu à mão os versos de Rilke, traduzindo-os de cabeça, e depois acrescentou embaixo o original em alemão a fim de comprovar a qualidade da versão. Parou para checar grafias e concordâncias, contou com os dedos o número de seus alunos do cárcere (“Tudo ok”) e solicitou exatas doze alterações. Nada essencial. Uma virgula aqui, uma troca de adjetivo acolá, uma separação incorreta de versos alí, colocar “renovação” no lugar de “revolução” e assim por diante. Era um professor de literatura analisando friamente o texto de um aluno. Não demonstrou grandes emoções.

— Li o texto com avidez, ansioso para saber o que aconteceria com o personagem no próximo capítulo. Mas não poderia jamais interferir no conteúdo. Servi como um modelo a um pintor, não poderia alterar a visão que um repórter tem de mim.

Fumou um Habana, escondido da mulher Martine Pappalardo, uma francesa, ex-professora de literatura em Oxford (“Tomara que eu tenha tempo de desenvolver um câncer no pulmão). Depois entregou um ensaio inédito, ainda sem revisão, A Oposição Chamada Vida (“Faça o que quiser, não há mais tempo de terminá-lo”). Estava extremamente fraco. Riu muito, contudo. Destilou mais alguns litros de veneno e acrescentou histórias não relatadas na reportagem. Seria bom que o espaço fosse infinito.

— O marido da Cecília Meireles não se conformava com a iminência de sua morte. “Ahhh, logo agora que você lançou vários livros…”. Era ela quem tinha que consolar os amigos e os familiares. “Mas os livros já estão lançados, não precisam mais de mim”. Eu quero ir com a mesma serenidade da Cecília.

O poeta olhou para a mulher, como que delatando-a. Ela chegara cinco dias antes de Marselha com o filho Raphael, de nove anos. Moravam lá desde 1992; Tolentino retornou ao Brasil sozinho,  há dois anos, como já sabemos.

— Martine não se conforma; Raphael ainda não sabe. Decidimos deixá-lo entender aos poucos o que está acontecendo. Ele vai sofrer muito.

Tolentino vinha recebendo a visita de uma enfermeira duas vezes por dia. Passara a se deslocar de ambulância. O resultado de novos exames: estado terminal. A grande preocupação: grana, por demais minguada para o custo do tratamento.

Naquele fim de tarde, a professora Martine tomava as lições de Raphael. Ela é exigente com o filho, enérgica (“Quer que ele seja um gênio como o pai”). O garoto é fluente em francês e inglês e se esforça para entender as primeiras palavras em português. O curioso é que a chegada de Raphael estava planejada bem antes de Tolentino procurar um médico. Queria se tornar brasileiro, como o pai, por sua própria decisão.

— Os médicos disseram que ainda posso durar dez anos com esses tratamentos modernos. É mentira, sinto que estou no fim, nem sei se conseguirei chegar ao Ano Novo. Vou fazer de tudo para sobreviver mais tempo, por meu filho, só por ele. Mas não terei tempo nem forças de fazer a faxina cultural que havia planejado”.

Bruno Tolentino despediu-se sereno. Tudo indica que esteja conseguindo declamar a última lírica de Cecília Meireles.

 

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