Por que deixar de lado a tal “neutralidade” e escrever na primeira pessoa do singular?

Ensinaram-me que um jornalista deve buscar a tal “neutralidade” e a só usar verbos na terceira pessoa, do singular ou plural. Já me ensinaram muita coisa errada fundamentada no racionalismo aristotélico. Quando entrei para o Mestrado em História, minha orientadora instigava-me a redigir na primeira pessoa do singular. Achei estranho.

“E a neutralidade científica?” –questionei.

“Não existe” –asserverou. 

Aos poucos, fui me acostumando a escrever sobre as ideias ou experiências pessoais e a acreditar ser impossível dissociar um conteúdo de seu autor. Afinal, como já ensinava o estóico Zenão com sua teoria do Macrocosmos e do Microcosmo, tão em voga no panteísmo pós-moderno, a energia divina trespassa todos os seres. Nós próprios somos a entidades a ser analisadas, ensinava o hermeneuta Heiddeger. Por isso, antes de escrever ou pensar, é essencial confessar.

Partindo-se da escola filosófica Zenão e passando-se por Heiddeger, chega-se à conclusão de que, antes de pensar, é preciso confessar. Pois há muitas nebulozidades ideológicas por trás de cada autor

Por Hugo Studart

Hoje, costumo usar o “eu” até mesmo em artigos políticos. Dias atrás enviei um artigo acadêmico para uma revista de História, no qual teci relatos das minhas pesquisas de campo sobre a Guerrilha do Araguaia. O pareceirista devolveu, pedindo que eu extraísse o que fosse referência pessoal, posto que não interessaria a ninguém. Mantive, mas com uma longa justificativa em nota de rodapé. Minha própria mulher, Adriana, já me aconselhou a extrair referências pessoais de um livro que estou escrevendo. Afinal, argumentou, simbolizando o que pensa a maior parte dos homens e mulheres de nosso tempo, a história do autor só interessa ao próprio, talvez à família, ou ainda ao psicólogo. Discordo

Ora, impossível dissociar a obra de seu autor. Zenão de Cítio (332-265 a.C.), filósofo grego fundador da escola dos estoicos, partiu da ideia do cosmos e do microcosmos para formular a ideia de que todos os seres e fatos estariam interligados numa espécie de teia, a grande teia da Criação. Discípulo de Diógenes, fundador da escola dos cínicos, Zenão nutria muito pouca paciência com as especulações metafísicas da Academia platônica. Mas acreditava que o Cosmos (mesmo que Universo, em latim) e era governado por um legislador supremo. Diante do macrocosmos, desse “deus desconhecido”, o homem seria totalmente impotente, e que restaria a nós tão-somente aprender a aceitar as trapaças da sorte e as tragédias do Destino.

Mas Zenão apresentou um caminho para que consigamos aceitar os sofrimentos com serenidade. Para ele, existe racionalidade no homem, existe livre-arbítrio, e ninguém é obrigado a seguir o Bem. Mas pode desistir de tentar controlar aquilo sobre o qual não consegue ter controle e começar a buscar a serenidade, até mesmo a indiferença, diante da pobreza e da riqueza, das dores e dos prazeres.

Após a morte de Aristóteles, o estoicismo de Zenão ganhou grande popularidade na Grécia. Mais tarde se transformaria no pensamento hegemônico durante o apogeu de Roma. Marco Aurélio, por exemplo, o último dos “imperadores sábios”, pai do enlouquecido imperador Cômodo, o vilão do filme Gladiador, era um filósofo do estoicismo.

O grande legado de Zenão, contudo, foram os conceitos do macrocosmos e do microcosmos, tão presentes em nossa Nova Era como fundamento maior do pensamento ecológico e nas teorias sobre as mudanças climáticas do planeta. É base do panteísmo, da alquimia e da magia. Guarda grandes afinidades com o anarquismo light de Proudhon com as práticas instauradas por Gandhi. Fundamenta, ainda, o princípio maior da pós-modernidade, o reconhecimento aos direitos de todos os povos e culturas, como a tolerância às diversidades sexual, étnica, racial e ideológica.

Em suma, Zenão reconhecia uma energia divina (Cosmos) em cada Ser (microcosmos). Homem ou animal, vegetal ou mineral, todos seriam produto da mesma Criação e estariam interligados entre si por uma energia invisível. Seria um só sistema cósmico, ou universal, se preferirem a terminologia latina. Milênio e meio depois, o filósofo Bento Espinosa (1632-1677), um judeu português que refugiou-se da Inquisição na Holanda, apresentaria um pensamento similar, ainda que muito mais profundo e complexo, ao asseverar que Deus seria a causa de tudo o que existe, como tudo o que existe teria existência em Deus.

Assim, seguindo a linha de pensamento que começa com Zenão e passa por Espinosa até desaguar nos pós-modernos, o que acontece com um homem, de alguma forma, reflete com todos os demais. O que acontece com mulher no Irã, pode refletir sobre as mulheres do Canadá, provocando, por exemplo, mobilizações coletivas, ou reflexões pessoais. Mutatis mutandis, as confissões de um autor sobre suas experiências, os traumas, os erros e acertos, vitórias e derrotas, seu caminhar em busca de um Destino, pode igualmente provocar empatia, levando os senhores leitores a reflexões sobre o tecer de suas próprias histórias pessoais.

Pois a opressão contra uma única mulher no Irã, está a acontecer com bilhões de outras mulheres em todo o mundo. O que aconteceu comigo, está a acontecer com milhões de outros sonhadores, idealistas e empreendedores que, desde o dia em que presenciaram uma alvorada, desde que usufruíram daquele momento mágico no qual o Sol desponta na linha do horizonte, vêm imaginando como ajudar a construir de um mundo melhor — sem contudo conseguirem encontrar o caminho da materialização dos sonhos.

Arthur Shopenhauer (1788-1860), o filósofo das angústias, dizia que o homem parte de seus próprios horizontes, dos limites do seu campo de visão, como os limites do mundo. Assim, a minha versão sobre o mundo é limitada tantos pelas observações limitadas que posso fazer do Universo, quanto pelas experiências pessoais inseridas em uma vasta “vontade” universal, ou cósmica, da qual minha ação é apenas uma mera parte. Por isso todos nós costumamos tomar nossos respectivos horizontes pessoais como o sendo limites universais.

“Nós próprios somos as entidades a ser analisadas” –escreveu o hermeneuta alemão Martin Heidegger.

Academicamente, faço parte de uma escola de pensamento que começa com o grego Sócrates e seu discípulo Platão, passa por Santo Agostinho até desaguar em Martin Heiddeger (1889-1976). Meu primeiro mestre na universidade, Fernando Bastos, era discípulo do filósofo lusitano Eudoro de Souza, considerado pela Enciclopédia Britânica como um dos helenistas maiores do século 20. Eudoro foi aluno de Heiddeger. Minha pensadora política predileta é a alemã Hannah Arendt, que foi aluna e amante de Heiddeger. Ando encantado com as ideias sobre o Destino de Hans-Georg Gadamer, outro aluno de Heidegger. O japonês Hajime Tanabe –que prega a ideia de que antes de pensar, precisamos confessar– foi igualmente discípulo de Heidegger. Portanto, por silogismo, acabei por adotar Heidegger como mestre, ainda que nosso contato se atenha aos livros.

E o que pregava de tão relevante esse tal de Heidegger? Em sua obra mais reconhecida, Ser e Tempo, o alemão parte da velha máxima socrática de buscar compreender o homem como ser, exposta na frase “conhece-te a ti mesmo”, como também o princípio platônico de estudar o mundo como ideia. Heidegger, assim, defende a tese de que a filosofia precisa ser encarada a partir da perspectiva de nossa relação pessoal com nosso próprio ser interior –ou nossa alma, diria Platão.

Para ele, só conseguiremos analisar o ser humano, objeto fundamental da Filosofia, assim como suas ações na História, a partir da perspectiva interna. Não mais a perspectiva abstrata, dentro da tradicional escola platônica, “superficial”, segundo ele. Mas sim uma análise concreta do “ser”, a partir de nossas próprias experiências vividas, a partir do ser humano imerso no mundo cotidiano. Em sua hermenêutica, ele propõe aprofundar o pensamento de Platão através da análise concreta do “ser”, a partir de nossas próprias experiências vividas, a partir do ser humano imerso no mundo cotidiano.

Seu discípulo japonês, Hajime Tanabe, foi mais fundo. Defendeu a ideia de que, se quisermos pensar sobre algo, não podemos faze-lo sem uma prévia confissão, como fez Santo Agostinho, o teólogo maior do cristianismo, em sua obra Confissões. Segundo Tanabe, filosofar é fazer perguntas mais profundas sobre a vida. Para isso, precisamos antes fazer como Sócrates e admitir nossa ignorância e nossas limitações diante da vida.

“Quanto mais sei, mais sei que não sei”, disse o grego.

Segundo Tanabe, pensar não é discutir pontos refinados de lógica, hermenêutica ou epistemologia. Mas é algo realmente fundamental, um processo profundo que leva ao nosso relacionamento com nosso próprio ser. É apenas pela confissão, portanto, que podemos redescobrir nossa alma (ou verdadeiro ser), em um processo muito mais religioso do que racionalista, que o pensador descreveu como “morte e ressurreição” que produz reflexões e conclusões. Assim, segundo minha escola de pensamento, só posso escrever sobre a temática Destino e construção da História se, antes ou concomitante, eu confessar meus próprios erros e limitações.

Desta forma, quando defendo diante da Academia explanações sobre experiência pessoais nas pesquisas, ou exponho aos leitores meu próprio sistema de representações e de valores, inspiro-me também em um caso concreto e atual vivido pelo professor Boaventura de Sousa Santos, de quem fui aluno quando pesquisador em mobilidade do Centro de Estudos Sociais (CES), da Universidade de Coimbra, entre 2009 e 2010. Boaventura é hoje o ideólogo maior dos marxistas pós-muro de Berlim e um dos idealizadores do Fórum Social Mundial, organizado primeiro em Porto Alegre, como contraponto das esquerdas ao capitalismo global debatido no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça.

Em sua obra Um Discurso sobre as Ciências, Boaventura procura demonstrar que a ciência moderna se encontra numa profunda crise epistemológica, e que estamos em um tempo atônito, com os pés num cruzamento de sombras – “sombras que vêm do passado que ora pensamos já não sermos, ora pensamos não termos ainda deixado de ser, sombras que vêm do futuro que ora pensamos já sermos, ora pensamos nunca virmos a ser”.

A época atual, segundo ele, deve ser considerada época de transição para um novo paradigma científico, rumo a uma ciência cujas bases ainda não conhecemos, muito menos sua nomenclatura. À ciência desses tempos de transição, a zona cinzenta entre algo que já se foi e o que ainda não chegou, ele propõe que seja chamada de “ciência pós-moderna”. É nessa obra que ele apresenta o conceito, dentre outros, de que todo conhecimento seria, em verdade, autoconhecimento. E defende, ao mesmo tempo, o caráter autobiográfico de investigação científica:

“Parafraseando Clausewitz, podemos afirmar que hoje todo objeto é a continuação do sujeito por outros meios. Por isso, todo conhecimento científico é autoconhecimento. A ciência não descobre, cria (…). Os pressupostos metafísicos, os sistemas de crenças, os juízos de valor não estão antes nem depois da explicação científica da natureza ou da sociedade. São parte integrante da mesma explicação”.

 Boaventura invoca Descartes para argumentar sobre o caráter autobiográfico da ciência, destacando um trecho do Discurso do Método, no qual o pensador clássico explica que gostaria representar sua vida como num quadro, “para que cada qual a possa julgar, e para que, sabedor das opiniões que sobre ele foram expendidas, um novo meio de me instruir se venha juntar àqueles de que costumo servir-me”. Ainda Boaventura:

“Hoje sabemos ou suspeitamos de as nossas trajetórias de vida pessoais e coletivas (enquanto comunidades científicas) e os valores, as crenças e os prejuízos que transportam são a prova íntima do nosso conhecimento”. 

Na obra seguinte, Introdução a uma Ciência Pós-Moderna, Boaventura aprofunda os conceitos e debate a ideia de uma “ciência edificante”, ou seja, engajada, dentro do que ele já havia chamado antes de “ciência pós-moderna”. Para ele, “a luta por uma ciência pós-moderna e pela aplicação edificante do conhecimento científico é, simultaneamente, a luta por uma sociedade que torne possíveis a maximize a sua vigência”.

Dando prosseguimento à ideia da ciência como autoconhecimento, Boaventura defende ainda o conceito de que ciência e emoção não são excludentes, como pregavam os positivistas. Ao contrário, são complementares, são elementos não-cognitivos (emoção, paixão, desejo, ambição, etc.). Ele acredita que uma interação mais profunda e tolerante entre processos cognitivos e não-cognitivos, entre ciência e emoção, é uma das áreas de convergência entre a concepção de ciência pós-moderna e que tenho vindo a propor e a teoria feminista, por exemplo. Sua ideia central nessa obra é a de que, qualquer que seja a opção epistemológica, a reflexão sobre a ciência não se pode escapar do circulo hermenêutico. Ou seja, não se pode…

(…) “compreender quaisquer das suas partes sem termos alguma compreensão de como trabalham as suas partes. Aliás, o todo e a parte são aqui, de algum modo, uma ilusão mecânica, pois o princípio hermenêutico é o de que a parte é tão determinada pelo todo como o todo pelas suas partes.

 “A reflexão hermenêutica visa transformar o distante em próximo, o estranho em familiar, através do discurso racional (…) orientado pelo desejo de diálogo com o objeto de reflexão para que ele ‘nos fale’ numa língua não necessariamente a nossa, mas que nos seja compreensível, e nessa media se nos torne relevante, nos enriqueça e contribua para aprofundar a auto-compreensão do nosso papel na construção da sociedade, ou, na expressão cara à hermenêutica, do mundo da vida”. 

Há muito que Boaventura de Sousa Santos trabalha dentro dos parâmetros do autoconhecimento e da autobiografia. Já em sua tese de doutorado em Sociologia do Direito, “Notas sobre a história jurídico-social de Pasárgada” (1973), pela universidade de Yale, Boaventura buscou inovar ao incluir sua experiência pessoal entre os moradores de uma favela do Rio de Janeiro. Relatou sentimentos, emoções e até a relação com as namoradas que arranjou em suas pesquisas sociológicas. Publicou uma tese díptica. Nas páginas à esquerda, narrou a experiência pessoal. Nas páginas à direita, publicou a análise teórica. Procurou sintonizar a narrativa pessoal com a análise acadêmica.

Atualmente, Boaventura sempre exige de seus orientandos de doutorado pelo menos um capítulo narrativo sobre as próprias experiências pessoais na pesquisa. Exige, principalmente, esclarecimentos sobre a formação intelectual do candidato, pois é indefectível, pensa o sociólogo, que a ideologia do pesquisador influencie e permeie toda a análise. Ele chegou a tecer um texto defendendo a narrativa  autobiográfica, “Sociologia na Primeira Pessoa”, dentro da perspectiva das ciências pós-modernas.

Publicou uma tese díptica. Nas páginas à esquerda, narrou a experiência pessoal. Nas páginas à direita, publicou a análise teórica. Procurou sintonizar a narrativa pessoal com a análise acadêmica. Desde então, Boaventura sempre exige de seus orientandos de doutorado pelo menos um capítulo narrativo sobre as próprias experiências pessoais na pesquisa. Exige, principalmente, esclarecimentos sobre a formação intelectual do candidato, pois é indefectível, pensa o sociólogo, que a ideologia do pesquisador influencie e permeie toda a análise.

Por todas essas razões, meus caros leitores, devemos deixar de lado a tal “neutralidade” científica ou jornalística e começar a escrever na primeira pessoa do singular.

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