Para entender Henrique Meirelles, o homem que reinou por quase uma década na economia e sonhou com o lugar de Lula

 São três diferentes momentos na vida desse financista. Primeiro, seu perfil quando foi confirmado presidente do Banco Central no segundo mandato de Lula, em texto parcialmente publicado na revista Istoé, em dezembro de 2006. No segundo perfil, de dezembro de 2002, quando ele tomou posse no BC e anunciava que gostaria de ser candidato a Presidência da República. Por fim, 15 histórias sobre seu passado, jamais publicadas, que ajudam a entender esse homem público que mandou por quase uma década na economia brasileira

Para lembrar que Meirelles era chamado de “fiador da estabilidade” e, dizia-se, o Brasil não poderia sobreviver sem ele

 

— Inflação na meta, inflação baixa e estável. E equilíbrio no balanço de pagamentos… e também o equilíbrio fiscal. Ninguém fez isso tudo antes. Não, tudo isso junto.

Ele desabotoa o paletó, se ajeita na cadeira de espaldar alto. Saca a caneta e começa a falar pausado, didático, rabiscando uma folha de papel:

— Ora, é evidente que este governo não inventou a Lei da Gravidade nem estabilizou a economia sozinho. É um processo, que começou nos anos 80 com a extinção da conta movimento. Fernando Henrique nos deixou como legado uma inflação baixa. Neste governo, a grande mudança é que ancoramos a expectativa de inflação. Hoje o mercado tem a certeza de que o Banco Central vai cumprir a meta de inflação.

Meirelles chegou ao Banco Central com nossa economia em crise, com inflação de 12,5% ao ano (e crescendo), reservas internacionais de US$ 38 bilhões (muito baixas) e taxa de juro real de 18,5%. E o que Meirelles fez? Aplicou, com ortodoxia, os cânones monetaristas. Sua primeira medida foi levar o Copom a subir os juros. Manteve o juros na estratosfera, os mais altos do planeta por mais de dois anos.

– Fui muito criticado, logo descobri que presidente de Banco Central não pode buscar a popularidade. Mas eu não podia criar a reputação de ser frouxo, tinha que ser implacável no combate à inflação. Nesse jogo não pode haver blefe porque um dia alguém pode pagar para ver. Tem que ter uma carta na manga. Qual é essa carta? Ora, juros!

Hoje a inflação está em 3,2%, as reservas atingiram o nível recorde de US$ 83 bilhões e os juros reais estão em 8,4%, os menores da nossa história. É a mais sólida combinação de números desde o milagre econômico dos anos 70. Em2005, arevista The Banker, de Londres, lhe deu o título de melhor banqueiro central das Américas. Agora foi escolhido o melhor banqueiro da América Latina em 2006. O mais paradoxal é que, neste exato momento, Henrique Meirelles está sofrendo um forte ataque, de dentro e de fora do governo, para que acelere a queda dos juros. É a fórmula que os heterodoxos pregam para o Brasil crescer.

— Isso é um equívoco. Ficam dizendo, “ah, se a inflação fosse um pouco mais alta, o crescimento seria maior”. Digo que não seria, que é uma ilusão pensar que é só deixar a inflação correr solta que o Brasil vai crescer. Digo que inflação dentro da meta leva o País a crescer exatamente dentro do seu potencial. O Banco Central não é o responsável pelo crescimento, mas só pela inflação. Estou me sentindo como o goleiro, que defende bem, mas que é criticado por não fazer gol.

Filho de um advogado do Banco do Estado de Goiás e de uma estilista de vestidos de noiva, Henrique Meirelles nasceu em Anápolis, a40 quilômetrosde Goiânia. Só teve dois empregos na vida. Está no segundo. O primeiro foi no BankBoston, hoje Fleet-Boston. Entrou na instituição em 1974, quando engenheiro recém-formado pela Politécnica de São Paulo. Para ganhar fluência no inglês, passava noites lendo Shakespeare no original, com um dicionário ao lado. Assistia aos clássicos do cinema para treinar o ouvido. Já tinha organização, disciplina e foco. Meirelles subiu ao topo do mundo, chegou a presidente mundial do banco americano e a ser um dos mais populares membros da corte de Bill Clinton. Aposentou-se, retornou ao Brasil e decidiu entrar para a política. Eleito em 2002 o deputado federal mais votado de Goiás, pelo PSDB, Meirelles chegou a Brasília com a imagem de ser um banqueiro com sensibilidade popular, que gostava do cheiro do povo, pregava a distribuição de renda e a criação de empregos. Na época, ambicionava governar Goiás e depois chegar à Presidência da República.

– Foi durante a campanha, nos vilarejos do interior, que tive uma experiência transformadora. Vi que a leis do mercado sozinhas não resolvem e passei a acreditar nos subsídios e nos programas compensatórios de renda. O crescimento econômico em si é insuficiente para que a população atinja níveis sociais desejáveis.

Meirelles chegou a ganhar no Fleet-Boston US$ 1,5 milhão por ano. Aposentou-se com rendimentos de US$ 65 mil mensais, cerca de R$ 140 mil. É dinheiro enviado pelos fundos americanos, faz questão de lembrar Meirelles. Some-se a isso os R$ 8,5 mil mensais que ganha como presidente do BC. “Levo um padrão de vida compatível com os aposentados das grandes multinacionais”, explica.

Hoje ele mantém cinco residências fixas. Em Brasília, mora numa casa alugada à beira do Lago Sul. “A casa é simples, o forte daqui é o jardim e a vista”, avalia. Em Goiânia, comprou um apartamento de cobertura no melhor edifício do melhor bairro da cidade. Possui também uma cobertura na avenida Vieira Souto, de frente para a praia de Ipanema, Rio, onde promove há anos um Reveillon só com os velhos amigos –e sem autoridades da hora. Em São Paulo, possui uma casa discreta e confortável perto do Aeroporto de Congonhas.

Ele foi solteirão convicto (e bon vivant) até o ano 2000, quando conheceu Eva Missine, separada, dois filhos, uma respeitada psiquiatra adepta dos pensamentos de Jung. Casaram-se. Eva mantém consultórioem Belo Horizonte. Fica na cidade a principal residência de Meirelles. É sintomático que só agora Eva esteja montando um segundo consultório em Brasília.

Um das razões do sucesso de Meirelles no mercado financeiro norte-americano é seu jeito didático de explicar as vicissitudes da economia brasileira. Ele adora usar metáforas para traduzir o Brasil para os financistas e o economês para os brasileiros. Neste momento, seu grande desafio é convencer o presidente Lula –e por extensão todo o governo— a não adotar fórmulas milagrosas para acelerar o crescimento.

– Está crescendo pouco, concordo. E qual a solução? Só sei que o caminho não é a volta da inflação. Há muitas medidas a serem tomada pelos ministérios e pelo Congresso. E o papel do Banco Central nesse processo é manter a inflação na meta.

Antes de se despedir, já na segunda etapa da longa entrevista, Henrique Meirelles chama o repórter a um canto de sua casa e pede duas gentilezas. A primeira é que explique bem aos leitores não vai dar certo a idéia apregoada pelos heterodoxos de acelerar artificialmente a queda dos juros para a economia crescer. O outro pedido, bem mais simples, diz respeito a forma como gostaria de ser lembrado pela história:

— Meu legado no Banco Central foi: economia equilibrada e estável.

* Este perfil foi parcialmente publicado na revista Istoé, em dezembro de 2006.

MEIRELLES QUER O LUGAR DE LULA

No perfil abaixo, resultado de uma conversa que mantive com Meirelles no dia em que ele chegou a Brasília para assumir o Banco Central, 18 DEZ 2002, ele avisa de onde veio, o que pretende fazer no BC e aonde quer chegar: a Presidência da República. Naquela época ninguém acreditou. Melhor levar Meirelles a sério

Ele está conquistando um lugar singular na cena brasileira, onde ninguém ousara imaginar. Nada a ver com a já conhecida história de Henrique Meirelles ter sido até julho o poderoso presidente mundial do FleetBoston — mas sim com a iminência de um homem com credibilidade do mercado, ambição política e rara sedução eleitoral estar construindo um poder paralelo no Brasil. Há três fatos inéditos e simultâneos que chamam a atenção sobre sua súbita ascensão.

A primeira novidade, anunciada na semana passada, é que ele está prestes a virar o primeiro presidente do Banco Central brasileiro independente do Poder Executivo. Deverá ter um mandato fixo concedido pelo Congresso Nacional, como o mitológico Alan Greenspan, do Fed, um asceta das finanças, mas sem carisma ou pretensões políticas. Acrescente-se à essa independência o fato de Henrique Meirelles querer ocupar o lugar que em breve será de Luiz Inácio Lula da Silva. “Todo brasileiro com um mínimo de dever cívico ambiciona a Presidência da República”, confidenciou.

Um terceiro ingrediente igualmente inédito, um banqueiro com sensibilidade popular, que gosta do cheiro do povo, que prega a distribuição de renda e a criação de empregos. Vale à pena acompanhar de perto a trajetória desse fenômeno, o primeiro brasileiro que poderá se tornar, de fato e de direito, o Guardião do Dinheiro do Povo.

“O bem público, por excelência, é a moeda nacional”, afirma, em tom religioso, Henrique Meirelles. “Minha principal missão é resguardar o poder de compra do real”. Entrou para os anais da política a frase de Olavo Setúbal, do Itaú, quando anos atrás rejeitou horrorizado a idéia de ser candidato a governador de São Paulo: “Banqueiro não ganha eleição”.

Eleito o deputado federal mais votado de Goiás, até nesse ponto Henrique Meirelles é singular. “Visitei em campanha 242 dos 246 municípios do Estado”, contabiliza. Foi nos vilarejos do interior, relata Meirelles, que ele viu pela primeira vez a miséria de perto. “Tive uma experiência transformadora”, diz. Dono de um sorriso fácil, olhar maroto, gestos largos e respostas rápidas, Meirelles agora tem nos programas sociais prometidos por Lula seu tema predileto. “O crescimento econômico em si é insuficiente para que a população atinja níveis sociais desejáveis”.

Meirelles veste-se sempre com ternos sóbrios e bem cortados. Os poucos cabelos laterais, estão sempre aparados. Usa pouquíssimos anglicismos. No Brasil, toma o cuidado de se referir ao seu antigo empregador como “Banco de Boston”, em português. A fluência no inglês, conquistou só depois de virar funcionário da instituição, há 25 anos. Passava noites lendo Shakespeare no original, com um dicionário ao lado. Para treinar o ouvido, assistia aos clássicos do cinema. Tem organização, disciplina e foco. Na terça-feira 17, por exemplo, chegou ao Congresso Nacional 40 minutos antes da sabatina. Trancou-se numa sala vip para se concentrar. Recusou telefonemas, conversas ou leituras. Manteve-se cercado de assessores e políticos, apenas sorrindo, sem nada dizer. Como Antônio Palocci, Meirelles carrega um sotaque do interior.

Filho de um advogado do Banco do Estado de Goiás e de uma estilista de vestidos de noiva, ele nasceu em Anápolis, a40 quilômetrosde Goiânia. O banqueiro que andou por bandas norte-americanas adora comida da sua própria terra. Quando em Goiânia, criou o hábito de freqüentar o restaurante Piquiras. O garçom já sabe o que ele vai pedir: arroz com pequi, lingüiça frita e guariroba, um palmito amargo típico do cerrado. Em Nova York, é habitué do Le Cirque, o restaurante dos donos do mundo. Chegou a ser um dos mais populares membros da corte de Bill Clinton.

Meirelles foi solteirão convicto até dois anos atrás, quando conheceu Eva Missine. Quando foi o casamento? “Também temos nossos segredinhos”, diz ela, hoje companheira de todas as horas. Filha de alemães, criada em Belo Horizonte, é uma respeitada psiquiatra adepta dos pensamentos de Jung. Os amigos dizem que é ela quem analisa e opina sobre o comportamento dos interlocutores de Meirelles. “Não é verdade, ele é extremamente sagaz e independente”, garante Eva.

Um das razões do sucesso de Meirelles no mercado financeiro norte-americano é seu jeito didático de explicar as vicissitudes da economia brasileira. Ele adora usar metáforas para traduzir o Brasil para os financistas e o economês para os brasileiros. Foi assim que em 1989 conquistou o coração de Aloízio Mercadante, quando presidia a Câmara Americana de Comércio e decidiu convidar o candidato Lula a expor suas idéias. Em 1994, Meirelles e Mercadante sentaram-se para imaginar, juntos, algum projeto social que pudesse ser tocado por empresários e PT. Criaram a Fundação Travessia, que ajuda crianças de rua. Meirelles foi o primeiro presidente da fundação. E o deputado Ricardo Berzoini seu primeiro diretor-executivo. Mercadante e José Dirceu bancaram, juntos, a indicação de Meirelles para o Banco Central. O banqueiro conheceu Dirceu em 1967, quando era militante de base da esquerda católica. Chegou a presidir o Centro Acadêmico da Politécnicaem SP. “Masjamais fui marxista”, ressalva. Quanto a Antônio Palocci, os dois só se conheceram depois do convite, em um jantar na embaixada brasileira em Washington. Foi amor à primeira vista. Teria sido predestinação?, perguntou DINHEIRO a Meirelles. “Sou um homem de resultados, acredito em Deus, não em predestinação”.

 

15 histórias sobre o passado que ajudam a entender Henrique Meirelles no presente.

1)    Henrique Meirelles aposentou-se do BankBoston com rendimentos de US$ 1,5 milhão ao ano. O que ganha com aplicações no mercado financeiro, é um segredo que guarda a sete chaves. Mas estima-se que, até deixar o banco, em fins de julho, tivesse rendimentos, em bônus e comissões, no patamar de US$ 15 milhões anuais. Ele ganhou ainda US$ 110 milhõesem ações do FleetBoston. Umamigo próximo calcula que seu patrimônio acumulado chegue perto de US$ 300 milhões –e que está prestes a romper a barreira do seu primeiro R$ 1 bilhão.

 

2)    As relações entre Meirelles e o PT são mais profundas e antigas do que supõe a ala ortodoxa do partido. Ele e Lula se conheceram em 1989, na primeira campanha presidencial de Lula. À época presidente do BankBoston no Brasil, Meirelles também comandava a Câmara Americana de Comércio. Lula gosta de lembrar que foi ele quem bancou o único encontro que manteve naquele pleito com as multinacionais. A partir desse episódio, Meirelles passou a ter entre seus bons amigos o economista Aloizio Mercadante.

 

3)    Foram os dois que imaginaram, juntos, em1994, aFundação Travessia, na qual empresários ajudam crianças de rua. Meirelles foi o primeiro presidente da ONG; o deputado Ricardo Berzoíni, foi seu primeiro diretor-executivo. Outro petista com quem o banqueiro tem afinidades é José Dirceu. Conheceram-se em 1967, quando Meirelles, estudante de engenharia, presidia o diretório acadêmico da Politécnica, da USP. “Mas jamais fui marxista”, ressalva. Dirceu era presidente da União Estadual dos Estudantes, Meirelles era um simples militante de base. Os dois se reencontraram em março deste ano, na presença de Mercadante. Dirceu não se lembrava de Meirelles –foi o banqueiro quem lhe refrescou a memória.

 

4)    Meirelles chegou ao Banco Central indicado por Dirceu e Mercadante. Antônio Palocci já havia fracassadoem três convites. Meirellesfoi a quarta opção. Um forte lobby de petistas de Goiás correu a seu favor. O tesoureiro do partido, Delúbio Soares, pessoa da absoluta confiança de Lula, mobilizou o prefeito de Goiânia, Pedro Wilson, para que entregassem ao presidente eleito uma entrevista de Meirelles a um jornal local na qual garantia: “Eu sei como baixar os juros”. Meirelles e Palocci só se conheceram no dia do convite, em um jantar na embaixada brasileira em Washington. Tanto os petistas quantos os assessores de Meirelles garantem que a afinidade pessoal entre eles foi total e instantânea.

 

5)    Meirelles foi o principal executivo do BankBoston por quatro anos, de 1996 até outubro de 1999, quando houve a fusão com o Fleet. Tinha o cargo de presidente mundial e a função de COO (Chief Operational Officer). Acima dele, só o CEO Chad Gifford. No FleetBoston, cresceu em volume de dinheiro a ser administrado mas caiu na hierarquia. O chefão, o CEO, passou a ser Terry Murray, egresso do Fleet. Seus antigos poderes foram divididos em duas bandas, varejo e atacado. Meirelles passou a ser o COO do atacado nos EUA e de todos negócios no resto do mundo. Comandava 60% das operações, ativos de US$ 220 bilhões, segundo seus próprios cálculos. Tinha o cargo de presidente do FleetBoston Global Bank.

 

6)    Parte do mercado atribui sua saída do FleetBoston a uma derrapada monumental na Argentina. Meirelles apostou as fichas no mercado da América Latina. O banco teve US$ 800 milhões de prejuízo com a quebra da Argentina, há um ano. Ele foi substituído por Eugene McQuaid, um executivo que está com a missão de reerguer as operações. A verdade é que Meirelles vinha preparando sua saída um ano antes da crise Argentina, desde fins de 2000. Ainda hoje, seis meses depois de se aposentar, o banco lhe dá todo o suporte de assessores e infra-estrutura no Brasil.

 

7)     Uma das idéias era fundar uma ONG no Brasil. Sua primeira opção, contudo, era a política. Primeiro conversou com Michel Temer, presidente do PMDB. Chegou a cogitar disputar as prévias do partido com Itamar Franco. No caminho, foi convidado por Ronaldo Caiado, fundador da UDR, para disputar o governo de Goiás pelo PFL. Visitou César Maia, prefeito do Rio, flertou com o PTB, mas numa conversacom Fernando Henrique Cardoso, no Palácio do Planalto, decidiu-se pelo PSDB. Sua primeira idéia era o Senado; teve que se conformar com a Câmara.

 

8)    O melhor amigo de Meirelles nos EUA é um brasileiro com perfil e sucesso internacional muito semelhante ao seu: Alan Belda, presidente mundial da Alcoa, cargo que passou a ocupar quando George Bush convocou seu antecessor, Paul O´Niel, para ser o secretário do Tesouro dos EUA. Meirelles também abriu acesso à cúpula das finanças mundiais. No governo de Bill Clinton, passou a manter relações pessoais o primeiro escalão de Washington. Chamou a atenção da Casa Branca o fato de Meirelles ser o primeiro estrangeiro a presidir um banco americano. Quando o então secretário de Estado, Warren Christopher, veio ao Brasil, ele o convenceu a visitar uma agência BankBoston em São Paulo.

 

9)    Outro que ele cativou foi o banqueiro Robert McNamara, ex-secretário de Defesa de John Kennedy e Lindon Johnson, ex-presidente do Banco Mundial. Certa vez, um pouco antes de retornar ao Brasil, Meirelles levou um conhecido brasileiro para almoçar no restaurante Le Cirque, em Nova York, o predileto dos poderosos americanos. McNamara o avistou, abriu os braços e gritou para que todos ouvissem: “Hei, Renrick, my friend!”.

 

10) Ele mantém relações com seis universidades da costa leste.Em Harvard, Boston, é membro do Comitê de Conselheiros da Iniciativa de Políticas Corporativas. Também conselheiro do reitor da John F. Kennedy Scholl of Government, de Harvard. No MIT, em Cambrigde, tem o mesmo cargo de conselheiro do reitor. Na Boston College, é membro do Conselho de Administração. Na George Washington University, na capital, é conselheiro do Centro de Estudos Latino Americanos. É chamado a dar conselhos –e, principalmente, a dar contribuições e bolsas de estudos. Isso é uma tradição nos EUA. Meirelles também fez parte do Conselho de Administração de uma série de empresas ligadas ao BostonBank ou o Fleet. Entre 1998 e julho último, por exemplo, era conselheiro da Raytheon, empresa que venceu a concorrência do Sivam em 1994. O banco é acionista da indústria.

 

11) Por exigência do board do BankBoston, ele só pode circular pelo Brasil com cinco seguranças. Terá que mudar o esquema ao chegar ao governo brasileiro. Em Boston, morava sozinho em uma mansão vitoriana, guarnecida por nove empregados –tudo pago pelo banco. Já abriu a intimidade da mansão para a revista Caras. Em 2001, comprou por U$ 5 milhões uma cobertura na Quinta Avenida, Manhattan, de frente para o Central Park. Acertou então com o board do FleetBoston fixar baseem Nova York. Argumentouque, desta forma, estaria mais perto dos mercados financeiros. Passou a visitar a sede em Boston uma ou duas vezes semana –e passava a maior parte do tempo visitando os 32 países sob sua responsabilidade. Também possui uma cobertura na avenida Vieira Souto, de frente para o mar de Ipanema, Rio. No início deste ano comprou uma cobertura em Goiânia, no melhor bairro, Setor Oeste. É hoje sua residência principal, onde pretende passar este Natal e o Ano Novo.

 

12) Ali, desde o início dos anos 90 vinha recebendo cerca de 100 amigos para o Reveillon na cobertura da Vieira Souto. Também vem promovendo há 10 anos grandes festas anuais em seu aniversário, 30 de agosto. A deste ano, para 250 convivas, foi no restaurante O Leopoldo, São Paulo. Ele cultiva uma turma de 20 amigos desde os tempos de adolescente no Liceu de Goiânia, entre eles, Ovídio de Angelis, o atual ministro do Desenvolvimento Urbano, e Servito Menezes, secretário da Cidadania de Goiás. Insiste em reuni-los todos os anos, convida-os para suas festas, escala assessores para organizar reuniões em Goiânia. Há sete anos, também vem participando em julho de uma reunião da família em Anápolis, há40 quilômetrosde Goiânia. Entre as nove tias vivas, irmãos, primos e sobrinhos, aparecem cerca de 150 familiares. Na festa de 1999, ele chegou de helicóptero, deixou que os parentes dessem voltas na aeronave, ficou duas horas na festa e seguiu para Singapura. Seus pais ainda estão vivos, ambos com 93 anos. Diva, a mãe, foi estilista de vestidos de noiva. Mora em São Paulo, onde ainda frequenta aulas de inglês e de pintura. Hegezypo, o pai, era advogado do Banco do Estado de Goiás. Trabalhou no banco até os 91.

 

13)  Há quase duas décadas que Meireles se apresenta como um banqueiro com interesses públicos. Foi ele quem criou, por exemplo, o movimento Viva o Centro, para restaurar o bairro paulistano. Em 1962, quando aos 17 anos foi eleito presidente do Grêmio Acadêmico do Lyceu de Goiânia, já anunciava: “Vou ser governador de Goiás”, dizia. “E depois presidente da República”. Entrou para a Juventude Estudantil Católica. Sua visão estava mais para as obras assistenciais do que para revolução armada. No ano seguinte fundou a Confederação dos Estudantes Goianos. Fez questão de incluir nos estatutos que a entidade tinha por função cuidar das pessoas carentes. A esquerda marxista, organizada no Partido Comunista Brasileiro, lhe fez forte oposição.

 

14)  Henrique Meirelles manteve-se solteiro até os 55 anos. Namoradas? Sua prima Maria Helena de algumas, todas rápidas, nenhuma atriz ou modelo. “Ele é um workaholic”. Há dois anos casou-se com a psiquiatra Eva Missine, divorciada, dois filhos. Normalmente dorme cinco horas por noite –deita-se à 1h da madrugada e se levanta às 6h da manhã. Na campanha, marcava compromissos até 2h da madrugada. Na semana passada, iniciou uma entrevista coletiva à meia-noite, após a sabatina de quase seis horas no Senado. Estava inteiro. Respondeu a todas as perguntas pacientemente, até que os jornalistas exaustos não tivessem mais nada para perguntar.

15) Henrique Meirelles está uma década construindo meticulosamente sua imagem pública. Joga sempre a longo prazo. Quando tomou posse como presidente mundial do BankBoston, em 1996, convidou jornalistas dos principais veículos do Brasil para conhecer de perto seu trabalho em Boston. Há um ano, na iminência de entrar para a política, voltou a convidar jornalistas para conhecer seu trabalhoem Nova York. Osmais importantes, levou para almoçar no Le Cirque. Repetiu a dose em julho, quando recebeu em Miami o título de “Homem do Ano” da Câmara de Comércio da Flórida. Em campanha, seis veículos estrangeiros, como o Financial Times o Herald Tribune, enviaram jornalistas para Goiás.

 

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