jul 31, 2012

O grande homem e o homem comum

“A mentalidade de um indivíduo, mesmo que se trate de um grande homem, é justamente o que ele tem de comum com outros homens de seu tempo” – J. Le Goff

Dalai Lama: ícone da mentalidade panteísta de nosso tempo

jul 30, 2012

O grande diálogo do amor

Assim falou, um dia, o Amante à sua Amada:
“Não quer você seguir, comigo, a mesma estrada?”
E Ela disse: “- E se for uma grande subida  para enfrentarmos, os dois, durante toda a vida?”
“Não temas a subida” – então diz-lhe o Amante, “pois o amor nos transporta em sua asa possante.”
Mas a Amada persiste: “E se houver muito espinho e muita pedra aguda, ao longo do caminho?”
E ele responde: “Espinho e pedra viram flor quando existe no peito um grande, imenso Amor.”
“E se a noite chegar, deixando tudo escuro”, – diz ela – “como achar a trilha do futuro?”
“Sossegue!… A minha vida, unida sempre à tua, será brilho de sol, será clarão de lua!”
Mas ela insiste: “E o frio?… a neve em vez de orvalho e a gente a caminhar sem agasalho?”
“Querida, o nosso Amor” – diz ele – “é chama ardente que sempre há de aquecer a existência da gente!”
“E se chegar um dia a fome, em mau momento e a vida nos negar o trigo do sustento?”
“Cavaremos a terra os dois juntos, então, para plantar o Amor que é trigo, fruto e pão!”
“E se formos, depois, por um grande deserto, uma região sem água alguma longe ou perto?”
Mas ele dizia: “Querida, a vida de quem ama,  é fonte de onde a água, em ondas se derrama”
“E se o Amor acabar?…” a Amada então hesita… “que nos vai suceder em tamanha desdita?”
“Querida, o Amor não morre, o Amor é puro e terno, porque o Amor é Deus e o grande Deus é eterno! Não, o Amor não acaba…” o amante respondeu…
“Se todo Amor for grande assim como este meu, ele só acabará quando o sol apagar e não houver mais água alguma em todo o mar!”
E ele estendeu a mão, assim como proposta e ela lhe deu a sua, assim como resposta…
E sorrindo, o bom Deus, que tudo estava a olhar, pôs mais chamas no sol e mais águas no mar!…

(Não sei o autor. Tem uns 10 anos ou mais que encontrei esse texto. Guardei. Hora de compartilhá-lo)

 

jul 28, 2012

A morte em preto e branco

 Ensaio: uma discussão sobre tortura, os desaparecidos políticos da ditadura militar e o imaginário nos tempos em que as coisas eram diabolicamente negras ou celestialmente brancas (Originalmente escrito para a revista Plenarium, da Câmara dos Deputados)

Maria Lúcia Petit, morta na Guerrilha do Araguaia

Por Hugo Studart

             Quando a Lei de Anistia foi aprovada pelo Congresso Nacional, em agosto de 1979, ocorreram reações contra a abertura política, como atentados à bomba de grupos militares extremistas. Entretanto, a partir daquele momento, instaurou-se no país um processo histórico tão inédito quanto irreversível de conquista das liberdades civis e de amadurecimento e lapidação da nossa democracia – processo que perdura até hoje, e parece não ter mais fim. Primeiro libertou-se os presos políticos e nossos irmãos exilados retornaram ao país. Foi uma festa, belíssima. Os partidos políticos puderam se reorganizar. Aboliu-se a censura prévia à imprensa e, diante de uma liberdade de expressão raras vezes usufruída em nossa história, iniciou-se um processo de revisão do passado recente, de crítica aos militares e a seus colaboradores – como também autocrítica ao pensamento dogmático e às práticas fundamentalistas das facções da esquerda.

            Uma imagem marcante, a povoar até hoje o imaginário pátrio, foi a fotografia do ex-guerrilheiro Fernando Gabeira desfilando de tanga na praia de Ipanema – era o início do fim do stalinismo e a ortodoxia gauche. No capítulo das críticas, muito mais longo e profundo, a imprensa começou a publicar denúncias sobre fatos ainda obscuros, como a morte sob tortura do jornalista Wladimir Herzog, em 1975, e do operário Manoel Fiel Filho, em 1976, dois episódios-ícones que marcaram o enfraquecimento definitivo do regime autocrático e precipitaram a abertura. A tortura era um cancro a ser encarado – como de fato o foi, na Constituinte dos anos subsequentes. Os mortos da luta armada urbana também foram contados. Mas havia também a questão muito mais dolorosa, até hoje não resolvida. Onde estariam, afinal, uma legião de desaparecidos políticos? Este é um tema que tortura até hoje os familiares, notadamente aqueles que tiveram seus entes queridos envolvidos na luta armada rural, conhecida como a Guerrilha do Araguaia. Continue reading »

jul 24, 2012
superadmin

“O valor das coisas”

O valor das coisas não esta no tempo em que elas duram mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas inseparáveis” (Fernando Pessoa)

Irmãos, 1973: Andrea (esq), Hugo, Astrid, Rodrigo e Anelisa

jun 21, 2012

O contubérnio entre Lula e Maluf

É público que há muito o ex-presidente malufou. O que está chocando senhoras pudicas, como Erundina, é que misturas de mau gosto, como feijão com marracão ou Lula com Maluf, deveriam se manter confinadas à serventia da casa

Contubérnio: o mesmo que relação ilícita

Por Hugo Studart

Contubérnio é um termo clássico, originário da menor unidade dos exércitos romanos, o contubernium, grupamento de oito homens que dividiam a mesma tenda, comiam juntos e lutavam idem. Era um substantivo positivo, de camaradagem. O cristianismo adotou o termo para se referir à convivência de pessoas que mantém relações sexuais sem estar casadas. Geram filhos bastardos. Na política, passou a ser usada como aliança secreta, ilícita, reprovável. Alianças espúrias, enfim.

Isto posto, reproduzo um diálogo entre o Sr. Paulo Salim Maluf e dois jornalistas:

– Mas o que está que está acontecendo? Por que Maluf lulou?

– Não, eu não lulei, o Lula é que malufou. Ele é quem está aderindo às minhas ideias.

– Como assim?

– O Lula já disse tempos atrás que quem na juventude é certo ser socialista, mas quem depois dos 60 anos continua com as mesmas ideias, tem que procurar um psiquiatra. Ele caiu na real e hoje defende as ideias do Paulo Maluf quando foi candidato à Presidência há 20 anos atrás. E defende as ideias liberais com mais ardor do que eu. Ele até “delfinhou”, escuta mais o Delfim Netto do que o PT. Enfim, tudo aquilo que eu pregava, o Lula engatou a quarta, botou 8 mil rotações e está andando a 300 quilômetros por hora. Hoje ele está à minha direita, o Lula é mais malufista que eu. Continue reading »

dez 23, 2011

Sonata para Carmen

Por Hugo Studart

Carmen Navarro tem passado seus dias a espera de uma canção. Qual? Ora, qual ela não canta, é um segredo, um dos mais fechados dentre os arquivos secretos da ditadura militar brasileira. Mas a espera é torturante. Aos 83 anos, lúcida, culta e bem informada, Carmen aguarda a chegada da música que seu filho Hélio Luiz Navarro Magalhães compôs antes de partir. A última vez que se viram foi em 1970. Hélio tocou-lhe a canção e partiu. Foi se juntar a um punhado de estudantes que montavam uma guerrilha na região do Araguaia. Era um compositor, pianista, estudante de Química. Adotou o codinome de Edinho. Hoje figura na lista dos 133 desaparecidos da ditadura.

O coração de mãe, as informações que apura, tudo dá conta que Hélio Luiz pode estar vivo, resguardado sob a identidade que lhe arrumaram os militares. Por muitos anos Carmen alimentou a esperança de abraçar o filho ao menos uma vez. Hoje conforma-se em receber um singelo sinal de vida – a música que lhe compôs antes de se transformar num “desaparecido”. Somente os dois conhecem os acordes. Podem chegar por e-mail anônimo, ou via CD postado no Correio. Ela só espera esse acalento.

A história por trás desse drama é delicada, é pura nitroglicerina política – e provoca tantas fúrias quanto são as lágrimas derramadas por Carmen. Continue reading »

dez 9, 2011

Sobre bandeiras e cartas

Um diálogo entre a teoria da História Cultural e os filmes “A Bandeira dos Nossos Pais” e “Cartas de Iwo Jima”, ambos dirigidos por Clint Eastwood (seminário para disciplina “História, memória e imagens fílmicas”, dentro do Doutorado em História Cultural, Universidade de Brasília)

Imagem épica que ajudou a definir o curso da História

por Hugo Studart

Apresentação

Optei pela análise do díptico histórico sobre a Batalha de Iwo Jima, um dos mais simbólicos e sangrentos embates da Segunda Guerra Mundial, por conta do objeto da minha pesquisa em andamento. No mestrado, o tema foi “O Imaginário dos Militares da Guerrilha do Araguaia”. No doutorado, o objeto proposto é “Imaginário e Cotidiano dos Guerrilheiros do Araguaia”. Em “A Bandeira dos Nossos Pais[1]”, lançado em 2006, o diretor Clint Eastwood narra a batalha sob o ponto de vista norte-americano. Em “Cartas de Iwo Jima”, também de 2006, o mesmo diretor tece uma trama sobre o mesmo episódio sob a ótica japonesa. Utilizou em boa parte dos dois filmes os mesmos personagens, episódios e cenas. Teve o mérito de conseguir construir obras complementares, mas paradoxalmente singulares. Que me sirva de inspiração.

Os episódios e os personagens de ambos os filmes emergem da história factual. Em “A Bandeira…”, o diretor constrói a trama em torno de um “instantâneo da história” — parafraseando Braudel[2] — a fotografia no qual soldados anônimos fincam a bandeira dos Estados Unidos no cume do Monte Suribashi, imagem que ajudaria a mobilizar a população norte-americana a se engajar no esforço final de guerra comprando bônus do governo. Em “Cartas…”, o diretor constrói a trama em torno das narrativas pessoais que soldados japoneses teceram para suas famílias sobre as emoções e as intempéries do cotidiano no front[3].

Clint Eastwood é um bom e veterano ator. Como diretor, nos anos recentes tem construído uma obra cada vez mais reconhecida. Obviamente não se espera que seja um intelectual refinado, um erudito, ou mesmo um historiador. Continue reading »

dez 3, 2011

Vanessa atirou seu baby onde não viu

Se fetos têm direito à honra, como quer Vanessa Camargo, por que não teriam direito à vida? Teriam também direito à biodiversidade, à água potável e aos recursos naturais do planeta?

Direito dos não-nascidos

por Hugo Studart

Esse é um daqueles casos cuja dimensão é muito maior do que a silhueta de seus personagens – o comediante Rafinha Bastos, a cantora Vanessa Camargo, grávida, seu marido Marcus Buiz e o futuro filho do casal. O Ministério Público de São Paulo acaba de considerar que o feto de Vanessa é, sim, pessoa capaz de ser juridicamente ofendida pelas diatribes verbais de Rafinha. E inverveio no caso para defendê-lo nos processos criminal e civil que o casal move contra o comediante.

O comediante, vale lembrar, disse que “comeria Vanessa e seu bebê”. A polêmica, que gerou processos do casal contra o banal, em si já cansou a todos. O que vale a pena acompanhar são os desdobramentos do pedido inusitado do casal de incluir o filho que ainda não nasceu como um dos ofendidos. A juiza do caso já havia decidido pela exclusão do feto como parte. Agora vem a reviravolta, com o Ministério Público intervindo no processo razão da presença do nascituro no pólo ativo da ação. Continue reading »

nov 25, 2011

Enterrem meu coração num jatobá na floresta

 

Este é o Velho Bugre, cada vez mais parecido com Touro Sentado

Por Hugo Studart

Estive ontem à noite na festa de entrega do Troféu Raça Negra, promovida pela Afrobrás e pela UniPalmares, Faculdade da Cidadania Zumbi dos Palmares, de São Paulo. Na noite anterior, assisti ao DVD “Enterrem meu coração na curva do rio”, sobre um índio sioux, em verdade um mestiço, egresso da tribo do mitológico cacique Touro Sentado, que viveu no mundo dos brancos, se tornou o primeiro “índio” médico nos Estados Unidos e terminou a vida lutando pela defesa e justiça para com seu povo.O filme me comoveu profundamente. A festa de Zumbi também. Foi um dos eventos mais bonitos, edificantes e emocionantes que meus cabelos brancos já presenciaram. Por vezes, ou melhor, muitas vezes, me questionam por que eu, um branco, ao invés de defender a meritocracia, instrumento mais democrático já inventado pelas sociedades, defendo ações afirmativas, como cotas para negros nas universidades e empresas? Jamais revelei as verdadeiras razões. Defendo por meu pai, por mim, por todos. Defendo as ações afirmativas para as minorias étnicas, negros e índios, porque quero que enterrem meu coração ao pé de um grande jatobá de uma vasta floresta.

SER BUGRE, SER CRIOULO
Certa feita, ainda adolescente, li a história de um militante dos Direitos Civis nos Estados Unidos. Seu nome foi-se no tempo, mas a história ficou na memória. Ele começava o enredo contando que só na idade adulta descobriu que era negro. Seu pai havia conseguido ascender na escala social, o que permitira morar em bairros melhores e estudar em boas escolas. Viviam entre brancos, como brancos. Em casa, os pais jamais haviam falado de suas origens étnicas. Na escola, pensavam que fosse descendente de indianos ou asiáticos. Demorou muito tempo para que tomasse consciência de sua verdadeira identidade étnica e cultural. Daí para a militância pelos Direitos Civis e a luta anti-segregacionista dos anos 60 nos EUA, foi um pulo.

Sou bisneto de índios – mas como o personagem da história acima, só depois dos 40 anos comecei a encontrar minhas verdadeiras raízes culturais. Meu pai, Jonas Alves Corrêa, é um caboclo do Pantanal do Mato Grosso.  Continue reading »

out 7, 2011

Prevaricação humanitária

O Nobel da Paz para duas mulheres da Libéria e uma do Iêmen nos leva a indagar por que autoridades e jornalistas brasileiros costumam se omitir sobre a opressão contra outros povos. Sofreriam de humanofobia ou de maquiavelismo pragmático?

Três mulheres de coragem: a iemita Tawakkul Karman e as liberianas Ellen Johnson Sirleaf, Leymah Roberta Gbowee

Por Hugo Studart

O sol nasceu mais brilhante em dois dos mais obscuros e remotos pontos do planeta. Um é a Libéria, o outro, o Iêmen. Se algum dos senhores, prezados leitores, jamais ouviu falar de um ou de outro desses pontos, não se culpe por inteiro, mas divida o fardo com as autoridades e os jornalistas brasileiros. Essas duas categorias sofreria de humanofobia crônica, ora aguda. Só conseguem olhar para o próprio umbigo, só sabem praticar a tal “realpolitik”, a diplomacia e a cobertura jornalística pragmáticas e amorais, baseadas nos valores maquiavélicos, profissionais incapazes de identificar o significado de expressões como Humanidade, Humanismo, Solidariedade ou Paz. Nosso consolo é que existe um punhado de homens, cidadãos de um outro ponto remoto e gélido do planeta chamado Noruega, que pegou para si a missão de descobrir pequenos fachos de luz em meio à escuridão.

Pois esses noruegueses acabam de conceder o Prêmio Nobel da Paz para três mulheres que têm se dedicado a lutar pela Liberdade, aqui grafado com letra maiúscula. Duas delas são da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf e Leymah Roberta Gbowee. A terceira é do Iêmen, Tawakkul Karman. Quem são elas? Algum dos senhores leitores já ouviu falar de alguma delas? Não? Nem eu. E quanto a esses tais países chamados de Libéria e Iêmen, alguém arrisca dizer algo sobre eles? É natural que poucos saibam, que jamais tenham lido a respeito dessas mulheres ou desses países na imprensa brasileira. Ou na imprensa ocidental. Continue reading »

out 2, 2011

Retóricas Gongóricas dos chefes do Poder Executivo, Judiciário e Moderador

Por Hugo Studart

Nunca antes em nossa história foi tamanho o Febeapá retórico, o Festival de Besteiras que Assola o País –título de um livro satírico do saudoso Stanislaw Ponte Preta sobre a mediocridade política que grassava na década de 1960. Uma série de fatos ocorreram nos últimos dias, todos relacionados àquilo que o romano Cícero chamava de Arte da Retórica. Em nosso caso, a falta de arte, de ética ou de substância relevante no uso das palavras.

De todas as sete Artes Liberais clássicas (Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia) , as matérias que Cícero considerava “dignas dos homens livres”, em um esquema científico que tornou-se universal e perdurou até meados do Século XIX, a Retórica é sem dúvida a mais polêmica. Por um lado, vem sendo mais cultuada como essencial para a conquista da Liberdade e a instauração da democracia.

Mas também vem sendo há mais de dois milênios amaldiçoada por ser o caminho mais curto para a mentira, a demagogia e a manipulação do povo. É colossal o poder de uma boa retórica. Foi usada pelo maior estadista de Atenas, Péricles, no apogeu da democracia, para ganhar poderes de tirano. Foi minuciosamente estudada pelo maior demagogo da História, Júlio César, para manipular a plebe, jogá-la contra o patriciado e, assim, terminar com a República. De lá para cá, foi utilizada por homens como Robespierre, Lenin, Hitler e Khomeini para incitar as massas a promover banhos-de-sangue. Mas também foi a principal arma de arautos da Liberdade, homens do quilate de Rousseau, Gandhi, Kennedy e Mandela, e ainda o único instrumento de profetas como Jesus, Maomé, Luther King e Karol Wojtyla.

Apresentada a essência da Retórica, vamos aos fatos do nosso Febeapá: Continue reading »

set 1, 2011

Ah, se eu pudesse escrever novamente…

Análise autocrítica sobre o livro “A Lei da Selva”, de minha autoria, sob a luz de novas teorias e autores da História Cultural (Monografia para a disciplina Teoria e Metodologia, do Doutorado em História Cultural da UnB; ministrado pela profª Cléria Botêlho da Costa)

Eu com a profª Cléria Botêlho da Costa, no lançamento do livro

APRESENTAÇÃO

O livro escolhido para análise é A Lei da Selva – Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares sobre a Guerrilha do Araguaia[1], de minha própria autoria. Razão para a escolha é fazer uma autocrítica da pesquisa, a partir dos novos autores e novas leituras assimiladas nesta disciplina. Esclareço ainda que o objeto escolhido para a pesquisa de doutorado é similar ao da obra — produto de dissertação de mestrado — a Guerrilha do Araguaia. Pertinente, portanto, fazer uma revisão acadêmica da pesquisa anterior, que servirá de ponto de partida da atual pesquisa, em andamento.

Acredito que na obra em questão eu tenha delineado claramente o objeto de pesquisa e análise, ao esclarecer, já na Introdução:

“A presente pesquisa tem o propósito de trazer à luz elementos com os quais se possa vislumbrar o imaginário dos militares sobre a participação de nossas Forças Armadas no combate à insurreição do Araguaia. Fique claro, portanto, que o objetivo não é analisar o episódio sob o ponto de vista dos guerrilheiros, tampouco dos moradores da região. Muito menos ainda existe a pretensão de reconstruir a “história definitiva” da guerrilha. Trata-se, aqui, de relatar o significado do conflito sob a óptica de um dos lados envolvidos, os militares brasileiros que participaram da luta. A finalidade é somente e tão-somente pesquisar e analisar o significado do conflito para os militares, assim como interpretar seus sistemas de representações à luz de um quadro teórico e dos valores da época.”[2] Continue reading »

ago 20, 2011

Breve história do buraco e dos sapos

O Parque Olhos D’Água foi concebido por causa de uma cratera. Conhecer essa história pode inspirar aqueles que lutam pela preservação de uma área com nascente, árvores (e cratera) na capital federal

Lagoa dos Sapos: pelo Plano Piloto de Lúcio Costa, era para virar concreto. Hoje abriga o Parque Olhos D´´Agua, em Brasília

 

Por Hugo Studart

Vou narrar aos senhores, prezados leitores, uma singela história por muito poucos conhecida. Tinha um buraco de rua no meio do caminho entre os homens, sempre ávidos pelo progresso sem fim, e os sapos que habitavam uma pequena lagoa no final da Asa Norte, em Brasília. Era um dia qualquer de julho de 1979, quente e seco, quando o síndico de um bloco da superquadra 415 norte telefonou para o Correio Braziliense. O bloco, não sei mais a letra, se J ou K; sei apenas que se espraia de frente para a L-2, bem ao lado esquerdo do Parque Olhos D´Água. O síndico queria se queixar de uma cratera aberta no meio do estacionamento do bloco. Já pedira várias vezes providências ao Governo do Distrito Federal. Em vão. Agora recorria aos jornais.

Apresento-me, preliminarmente. Hoje sou morador de São Paulo. Mas naquela época, 1979, era estudante de Jornalismo da Universidade de Brasília. Acabara de completar 18 anos e conseguira um estágio de repórter no Correio. Certo dia o editor mandou-me fazer uma matéria sobre aquele buraco de rua na 415 norte. Para um jornalista, não há nada mais humilhante do que esse tipo de cobertura. Da mesma forma que no Direito se humilha profissionais tratando-o por “advogado de porta de cadeia”, temos o “jornalista de buraco de rua”. Mas aquela era uma das primeiras matérias que eu iria fazer sozinho, sem a supervisão de um repórter mais experiente. Continue reading »

ago 10, 2011

Dilma declara sua guerra relâmpago

A presidente não tem nenhum projeto político que precise do Congresso. Nada, nada. Seu pacto agora é com Mefistófeles, o demônio do progresso. Pode, portanto, tentar varrer parte da corrupção na Esplanada a fim de sobrar mais dinheiro para mega-obras

Mefistofeles: demônio que inspirou o jeitão Dilma de governar

por Hugo Studart

Muito antes de Adolf Hitler desencadear sua blitzkrieg para conquistar toda a Europa, o césar Juliano inventou a guerra-relâmpago, ainda no Século IV, levando seus legionários da Gália diretamente para Constantinopla, sem paradas, e tornando-se assim o primeiro romano a governar, simultaneamente, os Impérios do Oriente e do Ocidente. Quando se olha os acontecimentos presentes pela perspectiva da História, descobre-se que os fatos sempre se repetem, com quase nenhuma originalidade, mas com muita farsa. A presidente Dilma Roussef está, neste exato momento, exercitando a mesma doutrina tática de Juliano e de Hitler, utilizando suas forças móveis para desfechar ataques rápidos e de surpresa, com o intuito de evitar que as forças adversárias tenham tempo de organizar a defesa.

A guerra-relâmpago da presidente contra os mesmos políticos que compõem a aliança que a levou ao poder foi oficialmente declarada na manhã de 8 de Agosto, quando a Polícia Federal invadiu o Ministério do Turismo e prendeu 38 autoridades públicas acusadas de formar uma quadrilha de corruptos. São todos afilhados de políticos do PMDB, em especial do senador José Sarney, presidente do Congresso Nacional. Antes disso, ela começou a desmontar, com escaramuças indiretas, os esquemas montados pelo mesmo PMDB no Ministério da Agricultura, demitindo, em especial, os afilhados do vice-presidente Michel Temer e do líder do governo no Senado, Romero Jucá.

Ainda antes, iniciou uma faxina no Ministério dos Transportes, onde também havia sido instaurada há oito anos uma quadrilha de assalto aos cofres públicos Continue reading »

jul 16, 2011

Previsões sobre o governo Dilma

Era previsível desde antes da posse que a presidente rompesse com seu criador. A campanha já está na rua, Dilma x Lula. Há outras previsões se concretizando

É possível ver o futuro do governo Dilma: feudos políticos, resultados concretos pífios e economia com oligopólios crescentes

Por Hugo Studart

É do escritor William Faulkner a observação de que “o passado nunca está morto, nem sequer é passado”. Hannah Arendt, uma das maiores pensadoras do século XX, adorava fazer uso dessa frase de Faulkner para argumentar que o mundo em que vivemos, em qualquer momento, é o mundo do passado. O mundo “consiste nos monumentos e nas relíquias do que os homens fizeram para o bem ou para o mal; os seus fatos são sempre o que se tornou”, escreveu Arendt. “Em outras palavras, é bem verdade que o passado nos assombra; é função do passado assombrar a nós que somos presentes e queremos viver no mundo como ele realmente é, isto é, como se tornou o que é agora”.

Isto posto, venho confessar que estou assombrado com algumas previsões que fiz antes da posse de Dilma, e que estão se concretizando de forma muito mais rápido do que nossa vã imaginação poderia cogitar. Relato a história completa a vocês, prezados leitores. No dia da eleição presidencial do segundo turno, assim que as urnas foram fechadas e as pesquisas de boca-de-urna apontaram a vitória da candidata de Lula, um velho e bom amigo, Continue reading »

jul 8, 2011

Oligopólios e feudos de Dilma

Ou a presidente não quer mudar os esquemas nos ministérios, como o dos Transportes. Ou não pode mudar a máquina de impunidade no qual os Abílios pegam bilhões no BNDES

Por Hugo Studart

Noam Chomsky, o mais instigante pensador da atualidade, tenta explicar a economia globalizada de uma forma singular. Segundo ele, não vivemos o capitalismo, nem nos Estados Unidos, nem na Europa. O sistema que haveria seria o do “estatismo oligopolizante”. A expressão é dele. Assim, a economia é toda organizada por oligopólios, com cinco ou seis mega-corporações dominando cada um dos principais setores da economia – financeiro, siderúrgica, petróleo, química, mídia, armamentos, tecnologia, e assim por diante.

Ao sistema, segundo o pensador, não interessa a existência de monopólios, como o monopólio global no setor de tecnologia que a Microsoft tentou firmar, mas sim de oligopólios. E essas mega-corporações oligopolistas, por sua vez, precisam da ajuda dos Estados e dos políticos para firmarem-se como corporações nacionais ou globais. Financiam os políticos que, no poder, lhes dão concessões de todo o tipo. Como financiamento de bancos públicos, investimentos estatais diretos, prioridade para o fornecimento ao governo e toda e qualquer espécie de concessão imaginável e inimaginável. Chomsky referia-se aos EUA, Europa e Japão.

Mas poderia estar falando do Brasil que Dilma Roussef recebeu de mão-beijada de Luis Inácio Lula da Silva – e este, por sua vez, recebeu de Fernando Henrique Cardoso. Se listarmos os cinco principais setores econômicos Continue reading »

jun 15, 2011

Dilma, o sigilo perpétuo e o lado errado da história

Por Hugo Studart

Recaiu sobre os ombros de Dilma Roussef a missão política de resgatar três grandes ausências da nossa História. Seus dois antecessores, Fernando Henrique e Lula, conseguiram driblar o assunto e empurrá-lo para frente, na esperança que caíssem no esquecimento do tempo. Será muito difícil a Dilma fazer o mesmo. O primeira ausência é o julgamento histórico, político e jurídico da ditadura militar brasileira e de seus principais protagonistas. Está prestes a nascer uma Comissão da Verdade, mas até agora nossa presidente não deu o menor sinal de que queira meter a mão nessa cumbuca. A segunda missão é a busca pelos corpos dos desaparecidos das guerrilhas urbana e rural. Há um grupo de trabalho criado por Lula – por determinação judicial, ressalte-se— que procura os restos mortais dos guerrilheiros do Araguaia. Mas no governo Dilma, o assunto ainda está em obsequiosa hibernação.

Mas a terceira ausência histórica a ser resgatada, o acesso aos arquivos secretos do Estado, acaba de explodir no colo da nossa presidente. A polêmica da hora é a manutenção (ou não) do sigilo eterno dos documentos oficiais. Os documentos da ditadura militar, do regime Vargas, do Itamaraty, enfim, o sigilo refere-se a tudo e a todos! O mais preocupante desse dilema é que, entre o passado e o futuro, entre Maquiavel e os iluministas como Voltaire, nossa brava presidente decidiu perder-se pelo lado errado. O perigo maior é começar a ter banzo de seus tempos de militante clandestina e cogitar instaurar uma criptocracia por essas bandas. Do que se trata? Rege a sabedoria que quando se perde o rumo, a melhor coisa a fazer é voltar ao início a fim de refazer todo o caminho. Continue reading »

jun 7, 2011

Wikileaks para a ditadura!

Neste momento em que se discute a criação de uma Comissão da Verdade para rememorar ou punir os atos de exceção da ditadura, somente uma política de ampla, geral e irrestrita transparência dos documentos será capaz de resgatar nossa História (Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo, Sessão Tendências e Debates, pág. 3)

Pela transparência total

Por Hugo Studart

Insólito constatar que a ex-torturada Dilma Roussef mantenha uma política restritiva de acesso aos documentos secretos da ditadura militar. É verdade que, em abril, o governo publicou portaria facilitando o acesso aos papéis que estão sob a guarda do Arquivo Nacional. Depois, Dilma anunciou a intenção de terminar com o sigilo eterno de documentos do Estado. Dias atrás, foi a Unesco quem anunciou, em Paris, que os documentos da ditadura viraram “memória do mundo”, algo similar a “patrimônio da humanidade”. Na casca, todos esses fatos aparentam dar maior relevância e transparência aos acervos. Na essência, são irrelevantes para a reconstituição da História.

Para começar, o Brasil não tem uma lei que regulamente o acesso aos arquivos públicos. Há anos que se arrasta no Congresso o projeto da Lei de Acesso, mas a própria base aliada do governo (deste e do anterior) tem sabotado a tramitação. Significa, na prática, que as direções dos arquivos públicos têm amplos poderes para tratar do assunto com bem entender. O Arquivo Nacional, por exemplo, tal qual nos tempos da censura prévia dos militares, hoje só permite o acesso aos documentos depois que burocratas anônimos examinarem o teor das informações.

Querem antes saber se há informações incômodas aos personagens da história ou às suas famílias. Continue reading »

mai 27, 2011

A relação carnal de Palocci com os bancos

Talvez o ministro-chefe tenha que cair para não ser investigado. Será uma tragédia para o sistema se descobrirem provas do que ele vem fazendo para os banqueiros

Melhor não escarafunchar muito…

Por Hugo Studart

É preciso voltar dez anos no tempo para compreender a incrível, fantástica, inacreditável e extraordinária força de Antônio Palocci na política brasileira. Era Novembro de 2000 quando um banco espanhol, o Santander, aparece por essas bandas, as Índias Ocidentais, e arremata, por R$ 7,05 bilhões, o Banespa. Na época, o PT ainda era um partido que se dizia socialista e que tinha entre suas bandeiras a luta contra a corrupção e, principalmente, contra as privatizações que vinham sendo promovidas pelos tucanos. Contra as vendas federais, por FHC. E contra as privatizações paulistas, promovidas por Mário Covas e, depois, por Geraldo Alckmin.

No caso do Banespa, um pouco mais de 50 prefeitos petistas, reeleitos ou recém-eleitos, ameaçavam retirar suas contas do banco, agora sob administração espanhola. Prefeituras grandes, algumas delas as maiores do País, como e São Paulo, Bernardo do Campo, Santos, Campinas e Ribeirão Preto. Achavam um pecado mortal movimentar as contas correntes das prefeituras em um banco privado, pior, privatizado, pior ainda, multinacional. Na maior das ameaças, queriam retirar as folhas de pagamento (o filé mignon) do Santander. Seria um início desastroso para os espanhóis no Brasil. Mas os espanhóis tinham uma excelente carta na manga, um executivo, então vice-presidente do Santander, que conhecia muito bem o prefeito de Ribeirão Preto, Antônio Palocci. O nome do executivo, a esta altura aposentado, não é essencial conhecer.

Palocci era um político meio enrolado em sua terra. Vinha enfrentando acusações de corrupção, como favorecimento de empreiteiras locais, como uma tal de Leão-Leão, especializada em coleta de lixo, compra e venda de terrenos urbanos e ligações perigosas com usineiros. O caso mais polêmico daquele momento era o uma concorrência fraudulenta para a merenda escolar das crianças, no qual o prefeito Palocci queria latas de ervilha com molho de tomate peneirado, especiaria que só tinha um único fornecedor.

Mas Palocci já era o mesmo sujeito sonso e quase cínico de hoje. Os que precisavam de seus favores, também naquela época preferiam defini-lo como afável, bom de conversa, um caso paradoxal de ex-trotsquista flexível. O executivo do banco foi procurá-lo e pedir ajuda. O teor da conversa, o acordo entre eles, é segredo que ambos devem levar para o túmulo. O fato concreto é que Palocci convocou uma reunião com os prefeitos petistas de sua região, Ribeirão. Ao final, convenceu todos a manter as contas de suas prefeituras no banco multinacional. Na sequência, mais reuniões com prefeitos de outras regiões. E mais outras. Ao fim e ao cabo, Palocci havia convencido toda a prefeitada petista e manter-se fiel ao Santander.

Um ano depois, no início de 2002, acontece uma tragédia no PT. Celso Daniel, prefeito de São Bernardo, é assassinado – em um caso que até hoje a cúpula petista esforça-se para abafar a apuração. Oficialmente, Daniel seria o “coordenador do programa de governo” da candidatura de Lula à Presidência da República. Ora, esse título era só um eufemismo. Na verdade, Celso Daniel seria o arrecadador de recursos da campanha, o PC Farias de Lula. Era essa sua verdadeira função, cuidar do caixa dois. Mal o caixão baixou à sepultura, Lula anuncia que o prefeito Palocci seria seu novo “coordenador do Programa de Governo”.

Entre Março de Abril de 2002 Lula organiza sua primeira “palestra” para grandes empresários. “Palestra” é o eufemismo para pedir recursos ou, no popular, “passar o chapéu”. Desde a eleição presidencial de 1989, o esquema de arrecadação para grandes campanhas funciona mais ou menos com a mesma ritualística. Primeiro algum amigo empresário organiza uma “palestra” com o candidato, seja ele Collor, FHC, Serra ou Lula, e convida banqueiros ou capitães da indústria. É um encontro relativamente público. Nem tão ostensivo a ponto de chamar a atenção de gente miúda. Nem tão reservado a ponto de chamar a atenção da imprensa. Esses encontros sempre obedecem ao mesmo ritual. O candidato fala suas intenções para a economia e os empresários fazem perguntas. O mais importante desses encontros é observar a principal companhia do candidato. Ou seja, quem o candidato vai apresentar aos empresários.

Aquele primeiro encontro de Lula com os empresário foi organizado com a ajuda do mesmo executivo do Santander. Lula levou Antônio Palocci. Apresentou-o como “meu coordenador do Programa de Governo”. Trocaram cartões, Palocci e os empresários. Cerca de 20 naquele primeiro encontro. Mas Palocci era tão caipira, tão inexperiente, estava tão deslumbrado com a nova função, que ensaiou pedir dinheiro naquele encontro, na frente de todo mundo. Levou um puxão de orelhas do preceptor do Santander. O executivo explicou preocupado ao afilhado deslumbrado que, ali, em um convescote público, ele não poderia pedir nada a ninguém, em hipótese alguma.

Deveria se ater a sorrir amarelo e trocar cartões de visitas. Primeiro porque o candidato estava presente. Jamais deveria pedir dinheiro na frente do candidato. Segundo porque seria pecado mortal falar de dinheiro com um empresário na frente de outro empresário. Um não poderia saber com quanto o outro contribuiu – nem se contribuiu. Antônio Palocci tem um grande mérito – e sobre esse mérito todos nós temos que admitir. Palocci aprende rápido. Aprendeu rápido a ser arrecadador. Alias, um excelente arrecadador. Lula ficou encantado com o pragmatismo discreto daquele prefeito. Vitorioso nas urnas, Lula deu-lhe então uma missão ainda mais difícil, a de coordenar o serpentuário que virou a equipe de transição. Palocci, jeitoso como ele só, saiu-se bem.

Acabou ministro da Fazenda com uma única credencial, naquela ocasião – virara um expert em multiplicar o patrimônio da caixinha de campanha de Lula. Nos três anos em que esteve no cargo, Palocci esmerou-se em manter uma política econômica ainda mais ortodoxa do que a de Pedro Malan. Uma de suas primeiras providências como ministro, a pedido do Santander, foi lutar para abrir o crédito consignado dos aposentados da Previdência para os bancos privados. A aliança com o Santander logo estendeu-se ao Bradesco. E do Bradesco ao Unibanco, que foi comprado pelo Itaú com providencial ajuda do consultor Palocci. Com Palocci na Fazenda, nunca antes nesse país os bancos lucraram tanto. Aquele médico sanitarista, que jamais segurou num estetoscópio, acabou se tornando o principal fiador da política econômica dos grandes bancos instalados no Brasil.

Quando Palocci caiu da Fazenda, em Março de 2006, naquela crise com o caseiro Francenildo, passou um tempinho na geladeira. Mas não muito tempo. Lula estava em baixa pelo escândalo do mensalão e tinha uma eleição presidencial pela frente. Nos bastidores, coube justamente a Palocci fazer as primeiras arrecadações junto aos banqueiros amigos, as primeiras apostas na difícil reeleição de Lula. Mais uma vez saiu-se bem. Vem daí uma imensa força e prestígio junto a Lula. Palocci é hoje o principal homem de Lula no governo Dilma, seu Rasputin, seu olheiro.

Essas histórias explicam por que Lula joga todas as cartas para manter Palocci no poder. Mas por que tantos senadores e deputados fingem que está tudo bem com Palocci? Ora, por conta dos bancos, principais financiadores das campanhas políticas. Cada um dos senadores instalados (senão todos, quase todos), da base aliada ou da oposição, recebeu a ração de campanha dos três grandes bancos privados – Bradesco, Itaú e Santander. A grande imprensa também. A Editora Abril, por exemplo, que edita a Veja, tinha o Unibanco como sócio oculto. Agora é do Itaú. A Editora Três, que edita a IstoÉ, por sua vez, sobrevive com um tubo de oxigênio controlado pelo Bradesco. Para essas revistas, em suas últimas reportagens sobre o caso Palocci, o ministro não fez nada de ilegal ou imoral –e a culpa seria da legislação, omissa sobre a prática do lobby.

Capitalistas em geral, banqueiros em especial, são pragmáticos. E quando um executivo pensa com o coração, outro assume as rédeas da razão. Os executivos do Bradesco, Itaú e Santander passaram as duas últimas semanas avisando às suas bases políticas no Congresso que não devem derrubar Antônio Palocci. Preferem que ele fique no poder. E ai de quem se rebelar. Vai morrer à míngua, sem ração financeira. Seja deputado ou senador, petista ou tucano, seja revista, jornal ou televisão, a ordem dos banqueiros é, por enquanto, é manter Palocci exatamente onde está.

Ocorre que nem mesmo os banqueiros conseguem controlar o curso dos acontecimentos em democracias representativas. Palocci, Malan, Meirelles, qualquer um, é substituível. Dentro do próprio círculo íntimo do poder já apareceu um candidato que poderia contar com a confiança dos banqueiros, o ministro das Comunicações Paulo Bernardo, tão “pragmático”, “afável”, “flexível” e “jeitoso” quanto Palocci. Bernardo conta com a simpatia da presidente Dilma e é quase tão ligado a Lula quanto Palocci. Inclusive foi um bom arrecadador oculto na última eleição.

O problema dos banqueiros, enfim, não é saber o nome do ministro-chefe. Mas o risco de Palocci ser investigado de fato pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Ter seu sigilo bancário e telefônico quebrado seria extremamente danoso para os negócios financeiros do país. Como a crise palocciana não esfriou, nem dá sinais de que vá esfriar, é bem provável que a qualquer momento os executivos dos grandes bancos avisem à presidente Dilma que chegou a hora de trocar os anéis. Para não perder os dedos. Façam suas apostas.

mai 26, 2011

Pode um gay governar seu povo?

A História mostra que não há qualquer relação entre sexualidade e a grandeza moral de um homem. Neste momento em que o Supremo formaliza o direito à união civil entre pessoas do mesmo sexo, é uma boa oportunidade para lembrar que, também, não existe relação alguma entre opção sexual –hétero, bi ou homo—  e competência profissional, ou coragem, bondade, honestidade.

Por Hugo Studart
Alexandre da Macedônia, por exemplo, era gay assumido. Em Roma, Júlio César era bissexual. Imperadores Otávio e Adriano eram homo. São Paulo de Tarso resistia a um “espinho na carne”. Não há como questionar a competência e coragem de nenhum deles. Ou a grandeza moral de Paulo e de Adriano.

John F. Kennedy, por sua vez, era um hétero promíscuo, Pedro I idem. Dom Pedro II era quase casto. JK era um boêmio. O sedutor Bill Clinton foi muito melhor como imperador do que o monogâmico George W. Bush. Napoleão manteve inúmeras, mas só amou duas. Bin Laden era poligâmico. Gandhi gostava de dormir nú, cercado de jovens “sobrinhas”, igualmente nuas em pêlo.

Heterossexuais, casados e com filhos, os ditadores Stalin, Pol Pot, Saddam Hussein, Augusto Pinochet, Emilio Médici. Por outro lado, solteiros e sem filhos: Hitler, Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Madre Teresa de Calcutá, Dalai Lama…

A conclusão é que a opção sexual ou o estado civil não significa nada, não é nada mesmo! Não há lógica alguma em relacionar sexualidade com política, por exemplo.

Tarefa perdida, quase tanto quanto comparar os alcóolatras (Churchill e, diz o New York Times, nosso Lula) com os abstêmios (Hitler); os pequenos (Gandhi) com os grandes (Idi Amin); os brancos (Mussolini) com os negros (Mandela); os tarados (Kennedy) com os fidelíssimos (Ernesto Geisel).


TEORIA DA LIBERDADE

Ora, então porque os homossexuais foram tão perseguidos ou discriminados ao longo da história? Se a sexualidade não tem nada a ver com coisa alguma deste mundo, por qual razão ainda há 51 países do mundo que prendem cidadãos por sua opção sexual, e outros 08 países que os condenam à morte? Continue reading »

mai 13, 2011

Por que esse João ainda encanta?

Às vésperas do Vaticano anunciar a beatificação de João Paulo 2º, num dos mais rápidos processos da história para fazer de um simples Homem um grande santo, há de se perguntar por que ele ainda encanta? Qual o conteúdo mágico de suas mensagens? Talvez ele exprimisse a esperança de um tempo, aquela tumultuada transição rumo ao Terceiro Milênio

 

O Apóstolo da Nova Era

Por Hugo Studart

“Santo subito” – exigia a multidão durante os funerais de Karol Wojtyla, em abril de 2005. Vox populi, vox Dei – responderam os prelados católicos. Preparem-se, prezados leitores, pois vem aí o Papa-Santo! João Paulo 2º foi beatificado por seu sucessor, o teólogo Joseph Ratzinger, ora Bento 16, diante de 1 milhão de peregrinos. Foi o último estágio para sua canonização oficial. É intrigante entender o que fez desse homem alguém tão encantador? Seis anos após sua morte, como consegue continuar mobilizando multidões? Qual o conteúdo mágico de suas mensagens? Talvez esse papa exprimisse a esperança de um tempo. Já escreveram que ele seria o 13º Apóstolo. O Apóstolo do Novo Mundo.

Mas de onde viria seu poder? Na hierarquia das nações, um papa não passa de um sacerdote, o chefe dos católicos, cuja religião é praticada por somente 17% da população mundial. Manda de fato em alguns quarteirões da cidade de Roma (o Vaticano) e em alguns milhares de sacerdotes espalhados pelo mundo. Contudo, talvez pelo que disse, ou quem sabe por conduta pessoal, a verdade é que não houve na transição dos séculos XX para o XXI nenhum outro líder político ou religioso de quem emanasse tanta autoridade moral. Ele foi decerto um dos gigantes do cenário político mundial, como Churchill e Adenauer, talvez o último apóstolo com visões amplas e princípios universais a apontar para um novo mundo – daquela estirpe que gerou Gandhi e Martin Luther King. É intrigante entender o que fez desse homem alguém tão especial.

Por onde passava, governantes paravam para recebê-lo, e multidões corriam para aclamá-lo. Beijava o solo de todos os países onde passava. Reunia legiões que ultrapassam, com freqüência, 1 milhão de pessoas. Quase 200 milhões foram às ruas aplaudi-lo e seu rosto foi conhecido por mais da metade da humanidade. A história ocidental registra que, antes dele, somente três homens haviam mobilizado multidões fora da terra natal – Alexandre da Macedônia, Júlio César e John Kennedy. Em seu pontificado, pronunciou 2.357 discursos no exterior, fez 102 viagens, levou sua pregação a 129 povos e nações, visitou 620 cidades. O recordista anterior era o papa Paulo VI, com 12 viagens. “Ide e proclamai a minha palavra”, ordenou Jesus aos discípulos – lembraria João Paulo 2º no início do pontificado. Então, percorreu quase 1,2 milhão de quilômetros em linha reta, o que equivale a dar 30 voltas em torno da Terra (ou três vezes a distância até a Lua), façanha capaz de acanhar aventureiros do quilate de Marco Polo. Somente o apóstolo Paulo de Tarso, no início do cristianismo, havia ousado algo semelhante, ao peregrinar por todo o Império Romano para levar sua mensagem.

Somente dois grandes países não receberam a visita de João Paulo 2º: China e Rússia. Tinha claro desprezo pela morte. Arriscou a vida em uma nação muçulmana, a Bósnia, a fim de rezar uma missa para 35 mil pessoas debaixo de forte nevasca. Quando não conseguiu autorização para ir à China, foi pregar para alguns poucos milhares nas ilhas Fiji e Seychelles. Continue reading »

fev 28, 2011

O segredo dos índios mercenários

Por Lucas Figueiredo
(Publicado originalmente na GQ)

Sob um céu grande angular de nuvens pesadas, o território brasileiro dá um nó – o Norte se encontra com o Nordeste; a Amazônia lambe o Cerrado e três Estados dividem fronteiras (Pará, Maranhão e Tocantins). Talvez nenhum outro lugar do país seja tão indicado para guardar um segredo, sobretudo segredo grave como este. Naquele rincão perdido, quatro décadas atrás, teve lugar um dos episódios mais obscuros da história do Brasil: a transformação de índios em mercenários de guerra do Exército.

Agora, o segredo acabou.

Suruís: guias dos militares durante a Guerrilha do Araguaia

Em quatro meses de investigação, GQ reuniu provas que mostram que, no início dos anos 1970, no governo do general-ditador Emílio Garrastazu Médici, a Força Terrestre fez de pacíficos índios Aikewara – da aldeia Suruí Sororó, no Pará – máquinas de caçar e matar homens. Na aldeia, a reportagem localizou e entrevistou índios que confirmaram terem sido cooptados pelo Exército, por meio de tortura,alegam eles, para dar apoio às campanhas contra a Guerrilha do Araguaia. GQ também obteve cópia de um relato pessoal de um militar da reserva que participou das operações em que ele afirma que, na caçada humana, os índios mercenários não se limitaram a matar. Cortavam cabeças. Era a prova que o Exército exigia do dever cumprido. Exigia dos índios e dos camponeses que também se engajaram nesse serviço.A história já começa acelerada. Desde tempos imemoriais, a vida dos Aikewara é um constante fugir. Primeiro, fugiam da perseguição de índios inimigos. Depois, fugiam de massacres praticados pelos brancos e do risco de extinção. Agora, tentam fugir do passado.Foi correndo de seus primeiros algozes, os Kayapó Xicrin, no início do século XX, que algumas centenas de Aikewara chegaram ao sudoeste do Pará, a cerca de 100 quilômetros de Marabá. Era uma área de mata tropical fechada, com poucos rios, mas caça abundante. Por ali ficaram. Com a palha das palmeiras, construíram ocas redondas, e com o arco e flecha caçaram macacos, veados, caititus (animal parecido com o javali), tatus e cotias. A ração diária era complementada com o que conseguiam coletar (jabutis, peixes, castanha) e plantar (mandioca, batata doce, milho e banana). Quando não estavam cuidando do sustento, costumavam de ficar, todos juntos, numa tenda armada no centro da aldeia, a taquapucu, onde passavam horas pintando o corpo com tintas obtida do jenipapo e do urucum. Entre agosto e setembro, dançavam o Saporahái, evocando seu herói mítico, Mahyra, pai do sol e da lua. Não existia disputa de poder na aldeia, já que os caciques se sucediam em linha hereditária. Nas relações afetivas, viam com simpatia o casamento entre primos e de tios com sobrinhos, e não era condenável um homem se servir de mais de uma mulher e vice-versa. Não contavam a idade, porque isso não era importante.

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