ago 29, 2012

Oração de Charles de Foucauld entregando-se a Deus

Charles de Foucauld era um aristocrata francês. Ao ficar orfão de pai de e mãe, em 1864, herdou uma enorme fortuna. Dilapidou-a rapidamente em jogo, indisciplina e excentricidades. Retratou-se e, já oficial do Exército francês, foi transferido para servir na Argélia. Deixou a vida militar e tornou-se explorado no Marrocos. Chegou a receber uma medalha da Sociedade Francesa de Geografia em reconhecimento pelo seu trabalho de investigação no Norte da África.

Mais tarde, uma prolongada reflexão sobre a vida espiritual conduziu-o a uma conversão súbita e levou-o a ingressar na Ordem Trapista. Deixou a Ordem em 1897 em busca de uma vocação religiosa autônoma e ainda não definida. Foi ordenado sacerdotes em 1991. Regressou à Argélia e levou uma vida isolada do mundo numa zona dos tuaregues. Aprendeu a língua tuaregue e estudou o léxico e a gramática, os cantos e as tradições dos povos do Saara. Tinha a intenção de criar uma nova ordem religiosa, o que sucedeu apenas depois da sua morte: os Pequenos Irmãos de Jesus. Foi assassinado por assaltantes de passagem em 1916.  Charles de Foucauld foi beatificado em 2005 pelo papa Bento 16.

Uma vida à procura da fé

(Fonte: Wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_de_Foucauld)

 

É dele essa belíssima ORAÇÃO DE ENTREGA A DEUS

Fazei de mim o que for do Vosso agrado.
O que quiserdes fazer de mim, eu Vos agradeço.
Estou pronto para tudo, aceito tudo,
Desde que Vossa vontade se realize em mim
e em todas as Vossas criaturas.
Não desejo outra coisa, meu Deus!
Deponho minha alma em Vossas mãos.
Eu a dou, meu Deus, com todo o amor do meu coração.
Porque Vos amo e porque para mim é uma necessidade de amor dar-me, entregar-me em Vossas mãos, sem medida,
Com uma confiança infinita, pois sois meu Pai.

(de Charles de Foucauld)

ago 28, 2012

Histórias de homens que sonhavam produzir vinho de qualidade no Brasil

de Bento Gonçalves

Nova Pádua tem 500 habitantes, mas consegue protagonizar dois fenômenos agrícolas. Encravada numa das mais belas paisagens do Vale das Antas, na Serra Gaúcha, o município é o sétimo maior produtor nacional de uvas. O que mais chama a atenção por lá, contudo, é uma pequena vinícola familiar, a Boscato, protagonista do mais ousado projeto de produção de uvas finas do País. Proprietário de dois nacos de terras que somam 14 hectares, metade de uma gleba da reforma agrária, o patriarca Clóvis Boscato, 56 anos, tinha o sonho de produzir uvas extraordinárias (e vinhos idem) com tecnologia de ponta mundial. Então enviou a filha Roberta para estudar agronomia na capital; e depois mandou que fizesse mestrado em irrigação. Um dia ela voltou para casa com um ideal, encomendado pelo pai, de irrigar cada palmo da terra por gotejamento.

“Pai, é inviável”, decretou.

Antes que o patriarca desabasse de decepção, a mãe Inês decidiu:

“Então vamos fazer”.

Cinco anos depois, cada centímetro da terra dos Boscato é irrigado é por gotejamento –e tudo é controlado por computadores. Há uma estação meteorológica própria que orienta a vazão das gotas para cada micro-clima –no alto do morro, mais seco, vai mais água, na depressão da fralda, menos. As videiras, uma a uma, são podadas pela família e os oito empregados, apenas sete ramos para cada lado, e eles só deixam amadurecer dois quilos de uva em cada planta (geralmente são 10 quilos). Assim, toda a força da terra se concentra nos poucos cachos. Resultado: os Boscato estão produzindo 300 mil garrafas de alguns dos vinhos mais conceituados pelos enólogos brasileiros. É quase unânime entre eles que o Gran Reserva Boscato, R$120 a garrafa em São Paulo, é disparado o melhor vinho nacional.

“Sou o primeiro louco do Brasil a arriscar um projeto anti-econômico como esse”, brinca Clóvis Boscato. “Mas tenho o prazer de realizar o sonho de elaborar vinhos excepcionais”.

Ele não é o único. Na verdade, os Boscato fazem parte de um fenômeno novo na economia brasileira. De 2004 anos para cá, estão surgindo no mercado centenas de novas marcas de vinhos finos nacionais –muitos deles excelentes – a face mais visível de uma revolução no campo iniciada na virada do século 21. Em Flores da Cunha, a família Giacomin implantou em 2000 um sistema de condução vertical e hoje, com uma linha de vinho moscatel excelente, está se mostrando bastante competitiva. Continue reading »

ago 26, 2012

Zé Rodrix me deu um livro e depois morreu

Esclareça-se de antemão que o personagem não morreu porque me deu um livro. Há um intervalo de um ano entre o acontecimento extraordinário (o envio do livro) e o fato lamentável (a morte do autor). Escrevo essas singelas linhas, sem reboliços ou rebuscados, só para registrar que a vida, grata e generosa, sempre nos apresenta oportunidades de crescimento. E que por razões diversas, ou sabe-se lá por quais vacilos, deixamos a chance passar. Rodrix foi uma dessas oportunidades perdidas.

Rodrix, em sua fase de iniciado nos mistérios da Maçonaria

Ele deu vários indícios carinhosos de que gostaria de se aproximar de mim. Agora não dá mais, azar o meu. Puxou assunto em cinco ou seis encontros que mantivemos. Convidou-me para almoçar com nossas mulheres e alguns amigos. Insistiu para que eu fosse no lançamento do seu livro, em 2008. Foi em São Paulo; eu estava em Brasilia, não pude ir. Ou não cavei uma maneira de ir. Tempo, diz o velho ditado, é questão de prioridade.Ato contínuo, Rodrix me enviou o livro pelo Correio. Em verdade três livros, batizados de “Trilogia do Tempo” (Record), e assinados no estilo dos mestres clássicos das artes da cabala e das bruxarias — *Z. Rodrix*, dessa forma aí, ladeado de asteriscos, com o nome José escrito no duplo diminutivo, e o sobrenome Rodrigues no diminutivo simples.

O primeiro volume chama-se “Johaben: Diário de um Construtor do Templo”. Tem 446 páginas. O segundo ele batizou de “Zorobabel: Reconstruindo o Templo”. Tem 640 páginas, é ainda maior. O terceiro volume da trilogia chama-se “Esquin de Floyrac – O Fim do Templo”. Mais 655 páginas. Total: 1.740 páginas – um susto! Guardei na estante, num lugar de honra e destaque, é verdade, mas sem abri-lo sequer.

Em cada detalhe, a trilogia exala esoterismo e dá indícios de que o autor pertenceria a alguma escola iniciática. Vi na televisão que seu corpo foi velado na Grande Loja Maçônica de São Paulo. E que quanto mais velho ficava, quanto mais o tempo passava, mais entusiasmado estava com os mistérios da maçonaria. Continue reading »

ago 26, 2012

Oração àquele que nos é tão íntimo

Não sei ao certo se ele está dentro ou se está fora. Se posta-se acima, ao lado, à frente ou às nossas costas. Nem sei se ele tem vida própria, um espírito independente, que vai e volta segundo com suas próprias regras e vontades, e que precisa ser regado com orações. Ou se ele se faz parte de nossa essência mais profunda, o outro nome da Alma, uma energia interior que nos leva à conexão com o Criador.

Deum intimior intimo meo!, Deus é-me mais íntimo a mim do que eu sou a mim próprio” –certa feita escreveu Santo Agostinho.

O legado cultural hebraico nos ensinou a chamá-lo de Anjo da Guarda. O sincretismo espiritualista prefere tratá-los por “Espírito Guardião”, ou “Guia”. Em nossos tempos pós-modernos, com a retomada do legado panteísta helênico, grupos esotéricos e ecologistas passaram a falar de “Luz Divina”, “Energia Cósmica” ou expressões afins.

Em verdade, pouco importa por qual nome devemos tratá-lo, se Anjo da Guarda, Espírito Guardião ou Energia Cósmica. Apenas devemos buscar senti-lo. Em meu próprio caso, confesso, sinto um profundo vazio interior nos períodos em que o deixo ficar distante. Quando o mantenho por perto, tratando-o como se cuida de uma flor, a Vida flui em meu corpo, a luz ocupa a mente e a alegria toma conta do coração.

Então consigo sentir minha própria essência mais profunda, meu verdadeiro Eu. Só assim consigo sentir a conexão com algo muito maior do que a própria vida material, Aquele que nos é desconhecido, chamado de Yaveh em lingua hebraica, Teos em grego, Deum em latim e Allah em árabe.

Por isso nos é aconselhavel manter por perto aquele (ou Aquele) que, nas palavras de Agostinho, é-me mais íntimo a mim do que eu sou a mim próprio.

Compartilho uma oração muito popular por sua beleza métrica e simplicidade:

SANTO ANJO DA GUARDA

Anjo santo, meu conselheiro, inspirai-me.
Anjo santo, meu defendor, protegei-me.
Anjo santo, meu fiel amigo, pedi por mim.
Anjo santo, meu consolador, fortificai-me.
Anjo santo, meu irmão, defendei-me.
Anjo santo, meu mestre, ensinai-me.
Anjo santo, testemunha de todas as minhas ações, purificai-me.
Anjo santo, meu auxiliar, amparai-me.
Anjo santo, meu intercessor, falai por mim.
Anjo santo, meu guia, dirigi-me.
Anjo santo, minha luz, iluminai-me.

Anjo santo, a quem Deus encarregou de conduzir-me, governai-me.

Santo Anjo do Senhor,
meu zeloso guardador,
se a ti me confiou a piedade divina,
sempre me rege, guarda, governa e ilumina.
Amém.

ago 25, 2012

Em defesa da vida nos Infernos

Depois de muito conversar com os mortos, o filósofo e teólogo Emanuel de Swedenborg descobriu que o Inferno, na verdade, seria uma das mais inteligentes obras de Deus, e que estilo de vida ideal para a eternidade é o dos prazeres

Por Hugo Studart

O mito da felicidade rege que todo homem ambiciona a liberdade durante a vida e o Céu após a morte. A realidade prova, contudo, que a maior parte dos seres humanos procura viver no Inferno, tanto aqui quanto acolá. Talvez seja o Inferno um local aprazível, bem menos aterrorizante do que nossa imaginação ocidental seja capaz de cogitar. Mas afinal, qual o estilo de vida ideal para se ter na Eternidade?

De acordo com o imaginário cristão, a vida no Paraíso seria de muita paz e serenidade, e só poderia ser conquistada caso o candidato levasse um cotidiano na Terra tomado de amor fraternal, orações, modéstia, caridade e recato. Enfim, uma vida tendendo ao jejum, ao silêncio e ao celibato monástico. Por outro lado, caso o homem venha a ter uma vida na Terra tomada de prazeres materiais e carnais, ambicionando fama, dinheiro, poder, estaria fadado a purgar a eternidade no quinto dos infernos.

Existe a possibilidade, contudo, da vida após a morte não ser regida por esse maniqueísmo medieval, no qual as coisas, como observou Bertrand Russel, são “celestialmente brancas ou diabolicamente negras”. E se pudessemos usufruir na outra vida de música alegre, conversas inteligentes, prazeres espirituais e até mesmo de amor e sexo? Estaríamos no Céu ou no Inferno?

O teólogo Emanuel Swedenborg foi quem melhor analisou tal assunto ao escrever que o inferno é uma das mais inteligentes obras de Deus. Não se trata, a acertiva acima, de uma heresia. É a síntese da obra de um homem santo. Não estranhes, prezado leitor, caso jamais tenhas ouvido falar desse tal de Swedenborg.

Filho de um bispo luterano, foi também sacerdote e teólogo inspirado. A base do luteranismo é a salvação pela graça. A base da doutrina de Swedenborg é a salvação pelo trabalho, pelas boas obras na terra. Devemos conhecê-lo para procurar entender por que quase todos nós, os humanos, buscamos a felicidade se entregando aos prazeres infernais. Continue reading »

ago 25, 2012

Salmo 23: O Senhor é meu pastor e nada me faltará…

O Senhor é o meu pastor e nada me faltará.

Deitar-me faz em pastos verdejantes,

Guia-me mansamente a águas tranqüilas.

Refrigera a minha alma,

Guia-me pela veredas da justiça

Por amor de seu nome.

Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte,

não temerei perigo algum, pois tu estás comigo;

a tua vara e o teu cajado me protegem.

Preparas um banquete para mim à vista dos meus inimigos.

Tu me honras, ungindo a minha cabeça com óleo

e fazendo transbordar o meu cálice.

Sei que a bondade e a fidelidade me acompanharão todos os dias da minha vida,

e voltarei à casa do Senhor enquanto eu viver. Salmos 23:1-6

 

ago 24, 2012

O Primeiro Clássico do Século XXI

Obra-prima do pensador inglês George Orwell, a alegoria-política “1984” contem em suas páginas um manual sobre como um grupo organizado pode tomar de assalto um Estado em nome dos interesses coletivos. Orwell é corrosivo, irônico, asperge ácido sulfúrico da primeira à última página em suas críticas tanto às sociedades comunistas quanto às capitalistas, sem distinções ideológicas. Datada só na aparência externa, a obra de Orwell trespassa o tempo, tornando-se obrigatória para os que pretendem entender a gênese da economia globalizada, da cibercultura ou, ainda, o fenômeno que ele batiza de “coletivismo oligárquico”, adotado por organizações como o PT e as igrejas evangélicas, como para corporações transnacionais e ordens mafiosas

O Big Brother está te vigiando (cena do filme 1984)

Por Hugo Studart

            O jornalista e escritor inglês Eric Blair emplacou seu pseudônimo, George Orwell, como um dos patriarcas da ficção científica. Ele deve ser também analisado como um dos mais importantes pensadores políticos do Século XX. A fábula infantil Animal Farm, publicado no Brasil com o título de “A Revolução dos Bichos”, marcou profundamente a esquerda internacional organizada ao denunciar como Stalin e sua camarilha usurparam o poder em nome da coletividade. Três anos depois, em 1948, Orwell terminou de escrever sua obra mais conhecida, 1984 (Editora Nacional: SP, 1998), uma alegoria política que denunciava a explosiva combinação de um Estado forte com as tecnologias de comunicações avançadas. Foi aí que nasceu o Big-Brother, sinônimo do Leviatã Cibernético, do Estado-total, que tudo vê, tudo sabe e tudo controla, como um deus onipresente, onisciente e onipotente.

Durante a guerra-fria, a obra de Orwell foi muito comentada por acadêmicos que estudavam a organização do Estado e o fenômeno do poder invisível. Com o advento da internet e o aparecimento dos cibercrimes e de personagens como Bill Gates, Steve Jobs e, mais recentemente, Julian Assenge, Orwell voltou à tona invocando a questão da privacidade. Há muito que Big-Brother transformou-se em expressão popular, banalizada em programas de exibicionismo explícito na TV. É importante ressaltar, no entanto, que o trabalho desse jornalista deve ser analisado também sob outros paradigmas.

Para quem se propõe estudar fenômenos como a globalização e os organismos multilaterais; a geopolítica das grandes potências e os conflitos com o Oriente Médio; a economia digital e a ciber-cultura; ou ainda o crescimento fenomenal de igrejas evangélicas, de ONG’s do bem ou do mal, de facções para-políticas ou de “Organizações Criminosas”, como o grupo de petistas que está sendo julgado pelo Mensalão, a obra de George Orwell transformou-se no primeiro clássico a entrar no século XXI.  Vejamos o por quê.

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ago 23, 2012

Em busca das memórias perdidas

O acessar aos arquivos secretos da ditadura e o desvendar das lembranças dos sobreviventes da Guerrilha do Araguaia (Publicado originalmente na revista acadêmica “Em Tempo de História”, da Universidade de Brasilia)

As ex-guerrilheiras Lúcia Regina e Regilena Carvalho, em visita ao Araguaia, quatro décadas após a guerrilha

 

Resumo:

 Comunicação de pesquisa que busca detalhar as descobertas e a abordagem metodológica da investigação historiográfica em curso sobre a guerrilha rural brasileira (1966-1974), através do uso combinado de fontes escritas remanescentes (diários e cartas dos guerrilheiros, documentos políticos do partido e documentos militares) e das fontes orais sobreviventes (guerrilheiros, camponeses e militares), procurando diálogo teórico com Walter Benjamin, Paul Ricoeur e Hannah Arendt a partir de suas reflexões sobre o conceito de memória, assim como em questões como memória e esquecimento, anistia e perdão.

Abstract:

Communication of research that aims to detail the discoveries and the methodology of historiographical research in progress on the Brazilian rural guerrilla (1966-1974), through the combined use of remaining written sources (diaries and letters of the insurgents, political documents of the party and military documents) and survivors of oral sources (guerrillas, peasants and soldiers), seeking for theoretical dialogue with Walter Benjamin, Paul Ricoeur and Hannah Arendt from her reflections on the concept of memory, as well as on questions such as memory and forgetfulness, amnesty and pardon.

Introdução

A guerrilha rural brasileira guarda um grande paradoxo. Foi uma das insurreições armadas mais representativas da luta revolucionária no Brasil; o conflito interno com a maior mobilização de contingentes das Forças Armadas desde a Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, permanece como um dos episódios mais obscuros da nossa história. Teve início em 1966, quando um pequeno grupo de militantes do recém-fundado Partido Comunista do Brasil, PC do B, jovens universitários voluntaristas em quase totalidade, sem armas ou provisões, chegou à região do rio Araguaia, sul do Estado do Pará, na selva Amazônica, a fim de preparar um movimento armado revolucionário, de cunho marxista-leninista, que pretendia partir do campo para a conquista das cidades. Continue reading »

ago 17, 2012

E se o Negão quiser ser candidato a presidente?

O Presidente Negro é um livro de ficção de Monteiro Lobato, de 1926, cuja trama se passa nos Estados Unidos, no ano 2028. Lobato cogitou tal possibilidade para os Estados Unidos em um futuro remoto, jamais para o Brasil. Já temos um possível nome, ainda que remoto. Com o julgamento do mensalão, o ministro Joaquim Barbosa chama mais uma vez a atenção para sua figura impar. É “O Negão”, personalidade que, segundo o imaginário popular, veio debaixo, do povão, chegou lá pela competência e hoje enfrenta com imensa coragem as elites políticas corruptas. Detalhe pouco lembrado: ele será presidente do Supremo (por antiguidade) em novembro de 2012, assim que terminar o julgamento do mensalão. Tem planos para enfrentar seus próprios pares a fim de mexer com as estruturas viciadas do Judiciário. Se der certo, pode vir a consolidar sua imagem popular. E depois disso? Qual o futuro que o Destino lhe reserva?

Eis o Negão: consolidando uma imagem de imensa coragem no imaginário social

Por Hugo Studart

Toda história deve ter início, meio e fim. E, nesse caso, o preâmbulo nos remete ao remoto ano de 2006, quando Joaquim Barbosa pegou a missão de relatar o processo do mensalão.  Naquela ocasião, Lula estava em frangalhos políticos, cogitava até mesmo não ser candidato à reeleição. Seu principal adversário era o Geraldo Alckmin, que jamais encantou. Vários partidos buscavam candidatos, como o PSol, que acabou disputando com Heloísa Helena, e o PSB, que lançou Ciro Gomes. Poucos acreditavam que Lula ressuscitaria das cinzas e ainda teria músculos para eleger uma técnica desconhecida e sem carisma como sucessora.

Sem ter nada a ver com a política, Joaquim acenou que seria duro com os réus do mensalão em seu futuro relatório. Fez simplesmente isso. Mas bastou um mero aceno para começar a construir uma imagem pública no imaginário popular, auxiliado por dezenas de reportagens que relatavam sua infância pobre em Paracatu, o filho de um mecânico de automóveis que passou no difícil vestibular em Direito da Universidade de Brasília Continue reading »

ago 5, 2012

A memória como metáfora

A partir dos pensamentos de Walter Benjamin e de Paul Ricoeur, compreendemos que mimesis é, em síntese, a reconstrução de experiências do passado no tempo presente –um exercício de re-memorar os acontecimentos e subtraí-los às contingências do tempo em uma metáfora. Exatamente como fez Proust quando em busca do tempo perdido…

por Hugo Studart

Walter Benjamin era filósofo, sociólogo, romanista, grafólogo, teórico da história, das artes e da tradução. Alemão e judeu, era um marxista que se recusava a se organizar em partidos. Era também usuário de haxixe. Por conta dessa heterodoxia, até hoje a maior parte das academias européias de Filosofia não considera sua obra digna de estar entre os cânones do pensamento moderno. Na América Latina, contudo, Benjamin tem sido considerado cada vez mais o “Filósofo das Vanguardas” por conta de sua tendência à ruptura e ao novo, sua rejeição ao dogmatismo e ao cientificismo das academias de seu tempo, por sua ousadia de “tentar inventar novas imagens para pensarmos nossos limites e fronteiras”[1], como também pelo seu método transdisiciplinar de pensar as Ciência Humanas, tendência da pós-modernidade, mas que Benjamin já a pregava e praticava nos anos 1930.

Sua Teoria da História e, sobretudo, sua visão teórica original sobre a memória, ou a mimesis, são pontos nevrálgicos da obra de Walter Benjamin. Ele foi crítico ácido e bem fundamentado do historicismo positivista do século XIX, o modelo modelo de escrita da História que privilegiava os documentos criados pelo aparato do Estado – e portanto, conservador também sob o ponto-de-vista político. Essencialmente, ele negou a possibilidade de uma História “tal como de fato aconteceu”, segundo o credo positivista, e propôs resgatar a memória como meio de nos relacionarmos com o passado. Para Benjamin, não existe a tal neutralidade científica; e todo conhecimento é um embate de interesses. O registro da memória, segundo o pensador, é mais aberto, aceita os testemunhos e as imagens (e não só a escrita burocrática), aceita inclusive a visão dos vencidos, nem se apega ao dogma científico das supostas neutralidades. Continue reading »

ago 5, 2012

O conceito de Cultura: entre a teia de significados de Geertz e o entrelugar de Bhabha

Aos historiadores da cultura, é uma boa opção construir a narrativa dentro do conceito da “teia de significados” de Clifford Geetz. Ou a partir do conceito do entrelugar do indiano Hommi Bhabha

por Hugo Studart

Desde que nos primórdios do Iluminismo John Locke apresentou seu projeto humanista e civilizatório fundamentado na ideia de superioridade filosófica e cultural de uns povos sobre os outros, pelo menos no Ocidente, o conceito de cultura vem guardando uma intrínseca relação com os hábitos da aristocracia, relegando todas as demais manifestações no interior das sociedades civilizadas a disciplinas outras, denominadas folclore, ou antropologia social, ou história das tradições populares. Locke chegou a propor a imposição de uma língua homogeneizada, que permitisse a difusão das “verdades universais” a todos os seres humanos[1].

“Verdades” eurocêntricas, um projeto universalista que foi apropriado por sucessivas cartas semânticas — Iluminismo, colonialismo, liberalismo e marxismo – ao longo dos últimos 300 anos. Resultado disso é que, se manifestações culturais emergissem ou de extratos sociais “inferiores” ou “incivilizados”, segundo as sucessivas cartas eurocêntricas, essas manifestações poderiam ser qualquer coisa, menos cultura.

É relativamente recente o emprego do termo “cultura” para definir o conjunto de atitudes, crenças e códigos de valores compartimentados num determinado período histórico. Foi através do conceito de “cultura primitiva” e, principalmente, dos estudos antropológicos de Clifford Geetz, que se chegou de fato a reconhecer que aqueles sujeitos sociais, outrora chamados de “camadas inferiores dos povos civilizados”, possuíam cultura.

Geetz acredita que a Cultura é formada por construções simbólicas, os significados contidos num conjunto de símbolos compartilhados. Para ele, “a análise cultural é intrinsecamente incompleta e, o que é pior, quanto mais profunda, menos completa”[2]. Seu conceito é essencialmente semiótico. Fundamenta-se no compartilhamento das idéias, a “teia de significados”, amarradas coletivamente:

“Acreditando, como Marx Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado. É justamente uma explicação que eu procuro, ao construir expressões sociais, enigmáticas na sua superfície”[3]

 

Para Geertz, o conceito de cultura enquanto estrutura, sobre a qual as ações humanas se baseiam, é fundamental para compreender os conflitos entre grupos heterogênos convivendo em determinado espaço – como é o caso da região do Araguaia durante a guerrilha, onde se estabeleceram pelo menos três diferentes culturas, guerrilheiros, camponeses e militares. Ele procura mostrar que uma grande parte dos conflitos em determinada comunidade estudada (no seu caso, no Marrocos) ocorre por causa da heterogeneidade cultural, que geram interpretações e percepções conflitantes sobre o mundo em questão.

Assim, embora Geertz procure mostrar como culturas diferentes originam ações e interpretações diferentes, deflagrando conflitos entre os grupos, ele não propõe buscar eliminar a heterogeneidade, como defendiam as cartas eurocêntricas, a começar pelo Iluminismo. Ao contrário, Geertz enfativa a importância da o conceito de “estruturura cultural guiadora de ação” para compreender os conflitos entre grupos heterogênos[4].

Foi a partir desse tronco antropológico aberto por Geertz que se abriram outros ramos de estudos, como a História Cultural. Nos últimos 20 anos, dentre os historiadores da cultura, abrigam-se as mais diversas concepções e, sobretudo, propostas analíticas, geralmente conceituadas como o conjunto de reflexões, representações ou interpretações sobre a História como processo. Há uma vastidão de conceitos e uma constelação pensadores sobre o tema.

Para Ricoeur, o conceito de Cultura Histórica é circular e redundante em sua substantivação e em sua adjetivação. Ou seja, toda cultura é histórica e tudo que é histórico é cultural. Para Hommi Bhabha, por sua vez, cultura é diversidade, mas também existe um “local da cultura” determinado às sociedades, local de encontro e de convivência de uma multidão de fragmentos étnicos, lingüísticos e culturais[5].

De acordo com o pensamento de Bhabha, as diferentes culturas ficam se digladiando, alguns se impondo e deixando seus valores disseminados, outros resistindo. Bhabha chama de “entre-lugar” esse local onde ocorre um choque cultural permanente, onde as diferentes culturas disputam seus espaços, sem contudo nunca haver hegemonia[6].

Com o conceito do “entre-lugar”, Bhabha quebra a idéia antropológica da aculturação, coisa passiva, como também quebra historicamente o conceito de dominantes e dominados para chegar ao que Mikhail Bakhtin define por “circularidade cultural”. Esses entre-lugares fornecem terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular ou coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria ideia de sociedade, de acordo com Bhabha.

Bhabha utiliza a expressão “Babel no penhasco” para tentar explicar a “anarquia pluralista” que há muito vem sendo construída pelo capitalismo transnacional e o conseqüente empobrecimento de nações periféricas – ou Estados periféricos, no caso desta pesquisa — que enviam levas e mais levas de trabalhadores migrantes para regiões com melhores oportunidades. Uma das resultantes desse grande processo estrutural é o deslocamento cultural e a discriminação social – “onde sobreviventes políticos tornam-se as melhores testemunhas históricas”, diz Bhabha[9].

Ou seja, um local onde onde diferentes culturas ficam dialogando ou se digladiando, com algumas se impondo e deixando seus valores disseminados, outras resistindo, mas sem nunca haver uma completa hegemonia de um grupo sobre o outro. Em outras palavras, um entre-lugar onde cada grupo ou indivíduo construía estratégias distintas de resignificação da própria identidade.


[1] Apud: Lynn Mário T. Menezes de Souza. “Cultura, língua e emergência dialógica”. Revista Letras & Letras, Uberlândia, MG, Vol. 26, nº 2, págs. 289-306, Jul-Dez 2010.

[2] Clifford Geertz. A Interpretação das Culturas. Op. Cit. pág. 39.

[3] Id., ib., pág. 15.

[4] Lynn Mário de Souza, op. cit.

 [6] Hommi Bhabha. O Local da Cultura. Op. cit.

[[9] Bhabha. Op. cit., pág.xx

 

Para saber mais:
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. São Paulo: LTC, 2003.

ago 3, 2012

Por que deixar de lado a tal “neutralidade” e escrever na primeira pessoa do singular?

Ensinaram-me que um jornalista deve buscar a tal “neutralidade” e a só usar verbos na terceira pessoa, do singular ou plural. Já me ensinaram muita coisa errada fundamentada no racionalismo aristotélico. Quando entrei para o Mestrado em História, minha orientadora instigava-me a redigir na primeira pessoa do singular. Achei estranho.

“E a neutralidade científica?” –questionei.

“Não existe” –asserverou. 

Aos poucos, fui me acostumando a escrever sobre as ideias ou experiências pessoais e a acreditar ser impossível dissociar um conteúdo de seu autor. Afinal, como já ensinava o estóico Zenão com sua teoria do Macrocosmos e do Microcosmo, tão em voga no panteísmo pós-moderno, a energia divina trespassa todos os seres. Nós próprios somos a entidades a ser analisadas, ensinava o hermeneuta Heiddeger. Por isso, antes de escrever ou pensar, é essencial confessar.

Partindo-se da escola filosófica Zenão e passando-se por Heiddeger, chega-se à conclusão de que, antes de pensar, é preciso confessar. Pois há muitas nebulozidades ideológicas por trás de cada autor

Por Hugo Studart

Hoje, costumo usar o “eu” até mesmo em artigos políticos. Dias atrás enviei um artigo acadêmico para uma revista de História, no qual teci relatos das minhas pesquisas de campo sobre a Guerrilha do Araguaia. O pareceirista devolveu, pedindo que eu extraísse o que fosse referência pessoal, posto que não interessaria a ninguém. Mantive, mas com uma longa justificativa em nota de rodapé. Minha própria mulher, Adriana, já me aconselhou a extrair referências pessoais de um livro que estou escrevendo. Afinal, argumentou, simbolizando o que pensa a maior parte dos homens e mulheres de nosso tempo, a história do autor só interessa ao próprio, talvez à família, ou ainda ao psicólogo. Discordo

Ora, impossível dissociar a obra de seu autor. Zenão de Cítio (332-265 a.C.), filósofo grego fundador da escola dos estoicos, partiu da ideia do cosmos e do microcosmos para formular a ideia de que todos os seres e fatos estariam interligados numa espécie de teia, a grande teia da Criação. Discípulo de Diógenes, fundador da escola dos cínicos, Zenão nutria muito pouca paciência com as especulações metafísicas da Academia platônica. Mas acreditava que o Cosmos (mesmo que Universo, em latim) e era governado por um legislador supremo. Diante do macrocosmos, desse “deus desconhecido”, o homem seria totalmente impotente, e que restaria a nós tão-somente aprender a aceitar as trapaças da sorte e as tragédias do Destino. Continue reading »

ago 2, 2012

Na encruzilhada entre o passado e o futuro

Confesso a tragédia existencial que vivencio, entre manter a herança do imaginário Iluminista, com a tendência atávica pela visão idealista do presente e pela busca incessante por lançar luzes e respostas para futuro. Ou aderir de vez aos cânones da Nova História e ao multiculturalismo panteísta, que busca compreender esse mundo fragmentado e transgêneros da nossa pós-modernidade? O fato é que jamais perdi a Esperança no Homem, na Sociedade, na Civilização. E enquanto não decido entre o passado e o futuro, reafirmo minha identificação especial pela Filosofia da História de Hegel, segundo a qual, em síntese, a História da Civilização é a da busca incessante do homem pela Liberdade

Na encruzilhada a Meta-Históiria com a Nova História

Por Hugo Studart

Em sua obra “O Método – Volume 3”[1], Edgar Morin confessa que vivenciou, ao longo da construção do trabalho, “uma tríplice tragédia”. Primeiro, a tragédia bibliográfica, na qual, em cada domínio que se propunha caminhar, via-se diante do crescimento exponencial dos novos conhecimentos e referências. Segundo, a tragédia da complexidade dos temas. Por fim, a tragédia de visar à totalização, à unificação, à síntese. Mas terminou por chegar à “consciência absoluta e irremediável do caráter inacabável de todo conhecimento, de todo pensamento e de toda a obra”[2]. Concluiu, ainda, que sua tríplice tragédia seria a tragédia de todo saber moderno.

Aproveito a oportunidade para confessar, também, que atravesso neste momento uma experiência similar à de Morin. Uma tríplice tragédia neste momento em que busco concluir meu doutorado. Encontro-me diante de quase quatro metros de documentos alinhados, livros e textos teóricos, muitos lidos, compreendidos e marcados; outros que pela complexidade anunciada se postam diante dos meus olhos como espectros em uma noite escura. Sinto-me, por vezes, como o mítico Teseu diante de seu Labirinto, precisando segurar os amores e temores, vestir o elmo da racionalidade e enfrentar o Minotauro. Ou ser devorado. Continue reading »

ago 1, 2012

Assim liquidaram o Molipo. Mas quem seria o traidor?

Um dos grandes mistérios que restam à historiografia sobre a luta armada brasileira dos anos 60 e 70 é descobrir como os órgão de repressão militares conseguiram liquidar com o Movimento de Libertação Popular, Molipo. Trata-se de um grupo formado em Cuba, sob o patrocínio direto do comandante Fidel, a partir de uma dissidência de exilados da Aliança Libertadora Nacional, ALN, então a maior organização nacional. Entre seus membros, o jovem José Dirceu de Oliveira e Silva. E por que o Caso Molipo seria intrigante? Porque, de seus 28 membros em Cuba, 23 foram executados assim que retornaram ao Brasil, alguns deles na fronteira.

Há uma certeza consolidada: havia um delador em Havana, avisando aos militares sobre as movimentações do grupo. Mas quem seria, afinal, o chamado “Traidor do Molipo”? As esquerdas gostam de apontar o dedo para o cabo Anselmo. Ele assume muitos erros, inclusive o de ter delatado sua própria companheira, Soledad Barrett Viedma, grávida de um filho seu, que morreu executada nas mãos do delegado Fleury. Mas Anselmo garante que não tem nada a ver com o caso Molipo. O Traidor do Molipo seria outro. Quem? Esse é um tema que ainda demanda uma investigação da histórica. Há protagonistas vivos, incluindo os militares que executaram as missões, como o coronel Lício Augusto Maciel, que chefiou a operação que resultou na morte do militante Jeová de Assis Gomes (foto). Há também documentos relevantes nos arquivos secretos militares.

O jornalista e sociólogo Renato Dias acaba de trazer à luz, em reportagem especial para o jornal A Opção, de Goiânia, documento garimpado  no Arquivo Nacional, revelando que foi a prisão do militante Boanerges de Souza Massa que acelerou desmantelamento do grupo. Documento revelador, reportagem relevante, que reproduzo na íntegra. Mais um passo para a construção dessa história Continue reading »

jul 31, 2012

Os desejos e as estrelas

“Se as coisas são inatingíveis… ora!

Não é motivo para não querê-las…

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!”

(Mário Quintana)

jul 31, 2012

Castoriadis, o Imaginário e as teorias marxistas

Um dos pontos interessantes do pensamento de Cornelius Castoriadis, um dos mais reconhecidos filósofos dos estudos do Imaginário e das Representações na Teoria da História, é quando ele contrapõe a análise do imaginário à teoria marxista. Ele lembra que, a despeito do que escreveram os teóricos marxistas sobre a história e a evolução inexorável da humanidade para a igualdade e o socialismo universal, o imaginário das nações se revela “mais sólido do que todas as realidades, como mostras duas guerras mundiais e a sobrevivência dos nacionalistas”. Ele argumenta:

“Os marxistas atuais, que acreditam eliminar tudo isso dizendo simplesmente, ‘o nacionalismo é uma mistificação’, evidentemente se auto-mistificam. Que o nacionalismo seja uma mistificação, não resta dúvida. Que uma mistificação tenha efeitos tão maciçamente e terrivelmente reais, que ela se mostre muito mais forte do que todas as forças ‘reais’ (inclusive o simples instinto de sobrevivência) que ‘deveriam’ ter impelido há muito tempo os proletariados a uma confraternização, eis o problema. Dizer – ‘prova de que o nacionalismo era uma simples mistificação, por conseguinte alguma coisa de irreal, é que ele se dissolverá no dia da revolução mundial’, não é somente cantar vitória antes da hora, é dizer: ‘Vocês, homens que viveram de 1900 a 1965 e quem sabe até quando ainda, e vocês os milhões de mortos de duas guerras, e todos os outros que sofreram com isso e são solidários – todos vocês, vocês inexistem, vocês sempre inexistiram aos olhos da verdadeira história; tudo o que vocês viveram foram alucinações, pobres sonhos de sombras, não era a história. A verdadeira história era esse virtual invisível que será e que, traiçoeiramente, preparava o fim de vossas ilusões’. Esse discurso é incoerente, porque nega a realidade da história da qual participa e porque ele convoca por meio irreais esses homens irreais a fazerem uma revolução real”.



 

jul 31, 2012

Nietzsche e a Auto-Ilusão

Busquemos no pensamento Nietzsche o arcabouço teórico para compreender o imaginário e sua utilização metodológica na análise da História. Coube a Hidden Write[1] a árida tarefa de analisar as teorias sobre o Imaginário encontradas ao longo da obra do filósofo alemão, autor da polêmica idéia do Ubermensch[2], o sobre humano, e dar às mesmas a roupagem historiográfica. A idéia central de Nietzsche, segundo seu intérprete, é a de que a história não é como um fim, mas como um meio ela perpassa todas as outras ciências. Sobre a “objetividade da história”, Nietzsche escreveu que a objetividade é “composição” em sua forma mais elevada, “cujo resultado será uma imagem artisticamente, mas não historicamente, verdadeira”. Segundo Write, isso significa que o saber histórico, que se distingue do conhecimento ou da informação histórica, é percepção, fabulação dramática ou, como o próprio White a denominou, “elaboração de enredo”. Segundo ele, Nietzsche sustentou que, de fato:

“Poderia haver uma espécie de escrita histórica que não contivesse um pingo de realidade, e que, no entanto, fizesse jus a ser considerada objetiva no mais alto grau. (…) Portanto, preveniu Nietzsche, essas concepções de ‘objetividade’ deve ser usada com cautela. Não se deve presumir que haja alguma ‘oposição’ entre a ‘ação humana e o processo do mundo’. Eles são a mesma coisa[3]

De acordo com Nietzsche, a forma mais destrutiva de ilusionismo é a que transforma uma imagem num conceito e depois congela a imaginação dentro dos limites estabelecidos pelo conceito. Ele compara o poder dinâmico Continue reading »

jul 31, 2012

Hegel, segundo Gombrich, e o Espírito do Tempo da luta armada brasileira

Eis o Espírito da Liberdade

A História Cultural foi toda erigida sobre os alicerces hegelianos, lembra o historiador E.H. Gombrich[1]. E para Hegel, a história do universo era a história de Deus a criar-se a si próprio e a história da humanidade era, no mesmo sentido, a contínua encarnação do espírito. Hegel imagina o desenvolvimento do espírito como um processo inevitável e imagina-o encarnado em sucessivos espíritos nacionais. Haveria, portanto, o espírito do brasileiro; haveria, igualmente, o espírito revolucionário dos anos 60 e 70 (objeto dos meus estudos historiográficos), o espírito dos guerrilheiros do Araguaia, por exemplo, e por fim, o espírito da repressão militar daquele tempo. Prosseguindo, ainda segundo Hegel, o objetivo mais elevado da história da humanidade seria o seu desenvolvimento em direção ao espírito da liberdade. Explica Gombrich:

 “Toda gente sabe que Hegel pretendia erguer esses alicerces sobre um sistema metafísico que dizia ter construído a partir das críticas feitas por Kant à metafísica. No entanto, o que é mais relevante no contexto presente é o regresso de Hegel às tradições da teologia. A tua teologia teria de ser, obviamente, classificada como herética, pois não atende ao dogma cristão da criação como evento único e ao da encarnação como uma ocorrência igualmente única no tempo”[2].

É nesse sentido, interpreta Gombrich, que o absoluto não se discute. Isso se aplica tanto ao passado como ao presente. Um historiador pode observar os sinais do tempo, Continue reading »

jul 31, 2012

Entre anjos e demônios interiores

“O homem cria o sublime, mas, também, pode criar o monstruoso”. Hannah Arendt

Hannah Arendt: judia, discípula e amante do polêmico Heiddeger (um dos filósofos de Hitler), ela passou uma vida a buscar reflexões sobre os fenômenos nazista e comunista, a malignidade humana e as mentiras na política

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