dez 19, 2012

O encontro de Lúcifer com o Anjo da História de Benjamin

Eis o Anjo do Progresso, de Klee

Por Hugo Studart

Em um de seus memoráveis ensaios, “Sobre o conceito de História”, o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) toma como referência metafórica uma aquarela de Paul Klee que ele comprou em 1921, batizada de Angelus Novus. Por se ter transformado em emblemática na obra de Benjamin, aquela imagem acabou tomando dimensão bem maior do que sua silhueta, citada em boa parte dos trabalhos dos historiadores da pós-modernidade. Com a palavra, Benjamin:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O Anjo da História deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do Paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.

O Angelus Novus, em outras palavras, ilustra o caminho teórico e metodológico de todos aqueles que têm a Esperança de controlar o próprio Destino, ou influir nos acontecimentos do mundo –ou seja, aqueles que vêm construindo a História, a Civilização e a Humanidade. Benjamin, em perigosa ousadia para teu tempo, propôs uma narrativa entrelaçando passado, presente e futuro. Afinal, como ele próprio escreveu, a estrada que nos leva ao futuro é a mesma que nos trouxe do passado.

Nesse ensaio, Walter Benjamin só omitiu um detalhe, sobre o qual, como o judeu e místico que era, ele tinha plena e total consciência. A interpretação sobre o Angelus Novus pintado por Klee foi inspirada na representação de um mito muito conhecido por nós. Benjamin desdobrou-se em metáforas e eufemismos para se referir ao Anjo Caído dos judeus, aquele ser metafísico que roubou o fogo-sagrado da consciência divina e o entregou para os homens.

O Anjo da História é outro nome de Lúcifer! Continue reading »

nov 19, 2012

Tortura como cisão de corpo e mente

Com o funcionamento da Comissão Memória e Verdade vem à tona com toda a sua barbárie a tortura como método sistemático do Estado ditatorial militar de enfrentar seus opositores. Já se estudaram detalhadamente os processos de desumanização do torturado e também do torturador. Este precisa reprimir sua própria humanidade para  praticar seu ato desumano. Não sem razão que muitos torturadores acabaram se suicidando por não aguentarem tanta perversidade.

Por Leonardo Boff

Quero, entretanto, destacar um ponto nem sempre suscitado na discussão que foi muito bem analisado pelos psicanalistas, especialmente na Alemanha pós-nazista e entre nós por Hélio Peregrino, já falecido. O mais terrível da tortura política é o fato de que ela obriga o torturado a lutar contra si   mesmo. A tortura cinde a pessoa ao meio. Coloca a mente contra o corpo.  A mente quer ser fiel à causa dos companheiros, não quer, de forma alguma, entregá-los. O corpo, submetido à extrema intimidação e aviltamento, para ver-se livre da tortura, tende a falar e assim a fazer a vontade do torturador. Essa é a cisão. Continue reading »

out 29, 2012

O despertar da consciência — com Gurdyeff e Ouspensky

O misterioso mago Gurdyeff atravessou a vida na busca pelo “Milagroso”. Já seu parceiro, Ouspensky, buscava o “Conhecimento Real” na conciliação entre espírito e matéria. Contudo, o que mais me chamou a atenção nos ensinamentos de Gurdyeff foi o fato de confessar que depois de andar por muitos povos e lugares, em parte alguma encontrou nada tão sublime e eficiente para o encontro do Paraíso quanto a imensa fé demonstrada pelos monges católicos em seus momentos de orações profundas

 

Gurdjeff, no fim dos tempos

Por Hugo Studart

Meus melhores valores éticos, a noção que tenho do certo e do errado, aprendi com meu pai, Jonas. Ele sempre esteve a meu lado, em todos os acontecimentos importantes. Principalmente quando eu estava errado. Por vezes com conselhos. Mas sempre com apoio. A disposição para curar as feridas e a força para escapar das armadilhas do mundo, vieram da minha mãe, Margarida. Quando em criança chegara em casa chorando, derrotado por algum menino mais forte, ela dizia:

“Volta lá e bate nele. Não importa se vai apanhar, mas volta lá e bate nele”.

Por vezes ela consegue ser sábia. Geralmente é apenas mãe. Já me deu alguns bons conselhos sobre manter a cabeça sempre erguida, mesmo quando derrotado.

“Em sua vida terão muitos galhos secos. Avance sempre. Se tropeçar em algum e cair, construa deles uma escada e suba de novo”.

Assim que caí do ninho para as armadilhas da vida, tive a sorte de encontrar dois grandes mestres. Meu professor Fernando, que me apresentou à Mitologia e aos clássicos do humanismo, como também iniciou-se nas sete artes liberais clássicas, a começar pela Lógica. Em nossas longas conversas sobre o horizonte e a construção do Destino, ofereceu a argamassa intelectual para fundamentar uma caminhada provida de valores.

Então surgiu Robyn Aragão, que me apresentou ao Desconhecido e ao misticismo esotérico. Com o guru, aprendi as primeiras técnicas e práticas para o autodesenvolvimento espiritual. Fernando e Robyin eram totalmente diferentes um do outro, o oposto contraditório. No meu coração, são complementares.

Como o primeiro amor, do primeiro guru a gente jamais esquece. Robyn era indiano. Seu nome Aragão vem do fato de ter nascido na cidade de Goa, antiga colônia portuguesa. Entendia em doze línguas, mas falava apenas oito com fluência. Um dia apareceu no Brasil, sabe-se lá vindo de onde, para fazer uma palestra em um congresso de ufologia. Gostou daqui e foi ficando. Abriu uma Escola de Autodesenvolvimento Harmonioso, que muitos dos alunos definam como sendo de magia mental. Assim como chegou do nada, um dia desapareceu sem deixar vestígios. Ele pregava o tempo inteiro a necessidade de controle da mente. Certa vez perguntei-lhe se acreditava na existência de Deus?

“Existe, mas está muito ocupado com as coisas grandes. Melhor ficarmos bons amigos dos espíritos mais próximos de nós”.

Robyin dizia que não adianta fugir de nossas provações, pois todos os lugares são iguais em violência e miséria; em decepções e sensações. E que a felicidade só poderia ser encontrada dentro de nós, a partir do despertar da consciência. Sempre dizia que todos os seres e todas as coisas são criações divinas, que o espírito de Deus estava presente em todos os homens, animais, plantas, e que até mesmo as pedras tinham uma espécie de alma. Portanto, que é preciso ver a manifestação de Deus em tudo e em todos. Continue reading »

set 30, 2012

O grande diálogo do amor


Assim falou, um dia, o Amante à sua Amada:

“- Não quer você seguir, comigo, a mesma estrada?
“E Ela disse: “- E se for uma grande subida  para enfrentarmos, os dois, durante toda a vida?” 

“Não temas a subida” – então diz-lhe o Amante,
“pois o amor nos transporta em sua asa possante.”

Mas a Amada persiste: “E se houver muito espinho e muita pedra aguda, ao longo do caminho?”

E ele responde: “Espinho e pedra viram flor quando existe no peito um grande, imenso Amor.”
“E se a noite chegar, deixando tudo escuro”,  – diz ela – “como achar a trilha do futuro?”

“Sossegue!… A minha vida, unida sempre à tua,
será brilho de sol, será clarão de lua!”

Mas ela insiste: “E o frio?… a neve em vez de orvalho
e a gente a caminhar sem agasalho?”

“Querida, o nosso Amor” – diz ele – “é chama ardente
que sempre há de aquecer a existência da gente!”

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set 30, 2012

A encruzilhada mágica da recordação com a Esperança

Dormimos sem as respostas sobre qual caminho seguir para efetivar nossos sonhos. E na manhã seguinte queremos recomeçar outra vez. E nos cobramos pelo que não terminamos. Se levantamos todo dia, é porque refletimos sobre o passado. Buscamos em nossos erros e acertos a compreensão do presente com o objetivo de construir o futuro. Se caminhamos todo o dia, é porque nutrimos a Esperança de conhecer, ainda nesta vida, aquele maravilhoso lugar ao qual chamamos Paraíso.

Assim, quando o Sol desponta no horizonte e encontra algum idealista ou empreendedor de pé, ocorre um fenômeno que parece físico, mas em verdade é metafísico –no qual as sombras do ontem projetam-se sobre o dia de hoje, apontando a direção das luzes do amanhã. Então passado, presente e futuro se entrelaçam, fazendo de toda alvorada a encruzilhada mágica da recordação com a Esperança.

set 29, 2012

Os Degraus de Ouro da Teosofia

Uma vida limpa
Uma mente aberta
Um coração puro
Um intelecto faminto
Uma percepção espiritual desvelada
Ser fraternal para com todos Corajosa paciência na injustiça pessoal…

Mestre Krishnamurti

set 28, 2012

Suba em paz, meu caro professor de como ser macho-alfa, mas com ética

Ele era o único ícone de carne-e-osso em nossos mais remotos ensaios para algum dia virarmos machos-alfa. Um gostava do Superman. Outro, do Aranha. Eu queria ser o Batman. Mas nas brincadeiras de luta-livre dos moleques de rua, todos queríamos ser o Teddy-Boy Marino.

Nas noites de sábado, fim dos anos 60, parávamos tudo para assistir às lutas do Telecatch. Era tudo muito ingênuo, uma grande marmelada na qual os mocinhos como Teddy-Boy eram de início massacrados pelo jogo-baixo, as joelhadas e as vilanias de lutadores como Verdugo, Fantomas, Leopardo e Índio Paraguaio. Mas ao final, o Bem vencia o Mal. Quando a turma de moleques se encontrava, tentávamos repetir as lutas. Ninguém sentia-se à vontade encarnando os vilões.

Soube há pouco que Teddy Boy Marino faleceu, aos 73 anos. Era imigrante italiano. Seu nome: Mario Marino. Ao fim das transmissões do Tele-Catch, em 1972, começou a carreira de ator. Atuou muito com “Os Trapalhões”.

Olhando para trás, constato ter sido ele meu primeiro coach nos treinamentos para macho-alfa. Ensinava a lutar. Mas sempre com ética. Os heróis e ídolos daquele tempo, todos eles, buscavam forjar as crianças dentro de um sistema de valores anti-maquiavélico, cuja ética sobrepujava a necessidade de vitória. O espelho-invertido do que o PT vem pregando de uns tempos para cá.

Teddy Boy Marino fazia parte do imaginário daquele tempo. Mas para uma geração de brasileiros, pode ter representado um farol. Cujo facho de luz foi muito maior do que sua silhueta.

Suba em paz, velho amigo. E aos leitores, compartilho video no qual Teddy-Boy luta contra El-Rino http://www.youtube.com/watch?v=MWDdk6UTulc

 

set 28, 2012

Vergonha de ser honesto

 “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar  da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser  honesto“. (Rui Barbosa – Senado Federal, RJ. Obras Completas, v. 41, t. 3, 1914, p. 86

set 26, 2012

O Aniversário da Sra. Cohen

Como um fato tão banal quanto o aviso de aniversário pelo Facebook de uma senhora de meia-idade nos remete a um tal de Walter Benjamin, um judeu fumador de haxixe que  nos ensinou a usar as reminiscências da memória para fazer do presente um maravilhoso ponto de encontro da recordação com a esperança

Benjamin nos ensina a usar uma simples imagem, extraída de um album de família, como relevante fonte para a construção da História. À esq. estou eu, abraçado por Dayse Cohen

Por Hugo Studart

Dayse Cohen completa anos hoje, me avisa o Facebook. Nada mais banal do que uma senhora com aparência de meia-idade, mãe de família e trabalhadora completar aniversário. Só dentre minhas relações das redes sociais, todos os dias três ou quatro festejam suas datas. Um fato extraordinário, contudo, emerge desse evento banal em sua aparência. Dayse desperta-me reminiscências, relampejos de um tempo que se foi e não volta mais, memórias que, se trabalhadas e resiginificados da forma adequada, podem lançar luzes rumo à construção do futuro. Para mim –ou para os senhores, prezados leitores. Como assim?

Dayse, dit Corrêa de Mattos, é minha prima de primeiro grau. Grande amiga e confidente naqueles tempos de inseguranças e dúvidas das nossas adolescências no Rio de Janeiro. Éramos três de idades parecidas, Dayse, eu e nossa prima Márcia Corrêa Rodrigues. Dayse é filha da tia Haydée Alves Corrêa, irmã mais velha de meu pai Jonas, e de Moacir de Mattos. Adotou o sobrenome Cohen por casamento. Adotou também, por livre arbítrio, boa parte dos sistema de representações e de valores do marido, a ponto de submeter o bilau de seus filhos amados à faca amolada de um rabino inclemente. Pobrezinhos –ficamos todos nós, os familiares, muito condoídos.

O relevante nessa história é que o aniversário de Dayse pode nos remeter a um tal de Walter Benjamin, esse aí morto desde 1940, mas cujo pensamento pode nos ajudar a fazer bom uso das nossas memórias do passado. Quero versar um pouco sobre o pensamento de Benjamin para, ao fim e ao cabo, retornar à Sra. Cohen.

Benjamin era filósofo, sociólogo, romanista, grafólogo, teórico da história, das artes e da tradução. Alemão e judeu, era um marxista que se recusava a se organizar em partidos. Ao materialismo histórico, preferia a espiritualidade mística. Era também usuário de haxixe. Por conta dessa heterodoxia, até hoje a maior parte das academias européias de Filosofia não considera sua obra digna de estar entre os cânones do pensamento moderno. Continue reading »

set 26, 2012

Sobre a arte de ser julgado

set 25, 2012

As imprudências de Ana Prudente na luta pelos deficientes físicos

Ela mobilizou famílias, procurou autoridades, organizou passeatas de mães carregando filhos nas costas rumo às escolas como se fossem sacos de batatas. Eis a história de Ana e seu filho Denis –ela uma mãe-leoa que luta por uma vida menos dura para os portadores de necessidades especiais

Saindo do hospital em 1984, Ana Prudente entrou em choque. Paralisada, apavorada. “Não me lembro nem como consegui dirigir até a minha casa”, se recorda. Ela havia acabado de receber a notícia: seu filho fora  diagnosticado com paralisia cerebral. Dênis não iria andar, falar ou comer. Seria um vegetal. O casamento estava fadado ao fracasso. Homem nenhum suporta essa barra, ele vai achar outra. “Naquele dia o médico disse que minha vida tinha acabado. Eu tinha perdido tudo”, revela Ana. A paralisia foi consequência de um erro na hora do parto. Antes dos 7 meses de gestação, ela teve sangramentos e perdeu muita água, a consequência foi o nascimento prematuro. A cesariana foi muito difícil e o bebê demou para respirar em seus primeiros momentos de vido. Isso afetou a parte motora de Dênis e mudou pra sempre a vida de Ana.

“A partir dali, foram só vitórias, cada movimento, cada palavra”, diz Ana. Ela passou a se dedicar inteiramente as necessidades do filho e, quatro anos após o diagnóstico, foi até Boston realizar uma bateria de exames para descobrir quais  eram as reais possibilidades de Dênis. Ela voltou para São Paulo decidida a matriculá-lo em uma escola comum. Para sua surpresa, ele não foi aceito em nenhuma das instituições. Alfabetizar uma criança que não pode escrever parecia uma missão impossível. Ana. Ela pesquisou as opções e decidiu abandonar tudo no Brasil e se mudar para Hungria, onde há uma sistema de educação preparado para alunos especiais. Antes da viagem, ela descobriu que no Graac a situação era um pouco melhor e conseguiu uma vaga. Resolveu apostar no Brasil. Continue reading »

set 25, 2012

A hora do beija-flor

A vida é tão intensa! Geralmente só conseguimos registrar na memória grandes eventos, furacões, vulcões, guerras, heróis olímpicos, personalidades tonitroantes… Mas é bom por vezes parar por alguns minutos. Respirar, refletir, observar… São nesses instantes, tão raros quanto delicados, que uma borboleta azul se aproxima. Ou um beija-flor.

set 22, 2012

Por uma tomada de “ligar” e “desligar” emoções

 Amei esta imagem. Inspiradora. Seria real ou criação da arte humana? Descobri ser uma foto das Torres Del Paine, Patagônia Chilena. Curioso: estive ai anos atrás. Com um grupo de desconhecidos. Em um momento emocionalmente frágil. Não curti. Não gravei. Seria bom se houvesse tomada de “ligar” e “desligar” das nossas emoções. Assim conseguiríamos achar sublime todas as paisagens, seres e eventos do mundo.

set 22, 2012

Quando encontramos frestas de luzes nas sombras de nosso caminho

Em nossa longa caminhada pela Vida, seria tão bom que só houvesse vales verdejantes. Mas estamos sempre a nos defrontar com encruzilhadas, montanhas, escarpas, precipícios, muralhas, cavernas… De longe, costumam produzir belas paisagens. Algumas, dá para escalar ou contornar. Outras, provocam medo. Até mesmo desespero. Podemos sentar e chorar. Ou buscar frestas de luz. Seguindo a luz, podemos até mesmo chegar a uma encruzilhada mágica, aquele ponto maravilhoso onde as sombras se tornam luzes. Ou as luzes desaquam às trevas…
set 22, 2012

Por vezes nossos caminhos tornam-se nebulosos. Como saber se escolhemos os caminhos do bem?

set 19, 2012

No aniversário do mestre Tolkien, a encruzilhada mágica entre História e Mito

Hoje completam-se 75 anos da publicação de “The Hobbit”, livro que deu origem à saga “O Senhor dos Anéis” (The Lord of the Rings). Dia 22 de setembro, junto com a primavera, os personagens Bilbo e Frodo completam aniversário.

Devia ter eu 15 ou 16 anos quando conheci a saga de “O Senhor dos Aneis”. Um único livro, velho e desgastado. Naquela época, em portugueê, havia somente uma edição lvsitana, em seis volumes, sendo o sétimo o livro “O Hobbit”. Não sei se o primeiro que me chegou ao olhos foi o volume dois ou três. Mas não foi o primeiro. Comecei a correr mundo atrás da saga completa, volume por volume.

Ao longo de três anos, sempre que avistava algum sebo, entrava à procura de algum dos volumes ainda não adquiridos. Terminei a leitura depois dos 18 anos, já na universidade, no exato momento em que a saga foi editada no Brasil, em três grossos volumes.

Acho que foi através de Tolkien que tomei consciência de ser um idealista, um sonhador. Foi meu primeiro contato com a mitologia, antes mesmo de começar a conhecer as sagas de Prometeu, de Ulisses e de Heitor de Tróia através de meu mestre Fernando Bastos. Hoje, repleto de cabelos brancos, estou cada vez mais próximo dos mitos. Cada vez mais convencido do encontro mágico entre realidade e ficção, História e Mito, matéria e espírito, passado, presente e futuro.

Parabéns, mestre Tolkien.

set 7, 2012

“O homem é do tamanho do seu sonho” (Fernando Pessoa)

ago 30, 2012

Da série: os limites entre o jornalista e a fonte – 3

Celso Amorim faz o tipo simpático e suave. É extremamente culto, mas sem pedantismo. Conheço-o há quase 30 anos. Foi meu professor no curso de Ciência Política na UnB. Depois foi minha melhor fonte quando ele era assessor internacional do Ministério da Ciência e Tecnologia e eu, um mero foca, cobria a guerra comercial do Brasil com os EUA por conta da reserva de mercado em informática (lembram-se?).

Quando virou chanceler do governo Lula, aproximei-me muito dele. Recebeu-me todas as vezes que precisei. Atendia o telefone em qualquer parte do mundo. Agora, como ministro da Defesa de Dilma, continuo podendo usufruir desse acesso especial à fonte.

Obviamente, acabei criando simpatia pessoal por Amorim. Contudo, acredito que tenha conseguido separar a empatia pessoal dos deveres profissionais. Escrevi e publiquei dezenas de matérias ou artigos criticando a gestão de Amorim no Itamaraty. Alguns bastante contundentes, em especial sua política de aproximação carnal com os BRIC’s e com os regimes ditatoriais do Oriente Médio e América Latina . Ele, por sua vez, sempre conseguiu separar o jornalista do ex-aluno. Em geral escalava um assessor para reclamar com o jornalista. Por vezes ele mesmo reclamava. Mas jamais deixou de tratar o ex-aluno com deferência especial.

ago 30, 2012

Da série: os limites entre o jornalista e a fonte – 2

Guido Mantega faz o tipo tímido e introspectivo. É afável. Mas não é o tipo de autoridade que costume manter relações pessoais com jornalistas. Ao contrário, procura manter distância regulamentar. O “fontismo” em Brasília é a regra. Jornalistas e fontes acabam entabulando relações pessoais acima do recomendável, até mesmo relações sexuais.

Jornalistas, historiadores, sociólogos, advogados, etc –somos todos seres humanos e cidadãos. Como médicos se emocionam com alguns pacientes ou professores têm predileção por alguns alunos, é compreensível que acabemos criando simpatias ou antipatias por algumas fontes. Assim, posso até visitar na cadeia os simpáticos João Paulo Cunha e Delúbio Soares. Como também tenho o direito de me recusar a apertar a mão de certas figuras. Mas simpatias e antipatias pessoais devem ser exceção. A racionalidade profissional precisa ser a regra.

No caso de Guido Mantega, sempre mantive com ele uma relação meramente profissional, desde os tempos em que era um assessor econômico do PT. Acredito que todos os textos que já escrevi sobre ele e seu trabalho, reportagens ou artigos, tenham sido positivos. Mas foram frutos de avaliações racionais. Subjetivas, como tudo que se refere às ciências humanas, mas dentro do esquadro da racionalidade.

Quanto a esta foto, recebi-a recentemente de presente do jornalista Ramiro Alves (o calvo, de pé). Ele era assessor de imprensa do Ministério da Fazenda na época dessa entrevista. Ao lado, de bigodes, o jornalista Ricardo Moraes.

ago 30, 2012

Quais os limites entre um profissional e a fonte de informação?

 

Residência oficial da Presidência da Câmara: João Paulo Cunha com os jornalistas Hugo Studart e Carla Spegiorin

É curioso eu ter encontrado essa foto antiga, de 2005, no exato dia em que o deputado João Paulo Cunha, do PT, teve a certeza de que será condenado pelo Supremo no processo do mensalão. João Paulo era presidente da Câmara dos Deputados. Eu era editor da revista IstoÉ Dinheiro; estava nesse café-entrevista com a repórter Carla Spegiorin.    João Paulo estava, nessa época, em plena fase de pegar dinheiro com Marcos Valério. Mas ainda não se sabia disso; o mensalão não havia estourado.

Sujeito simpático, esse João Paulo. Afável, conversa boa. Os petistas eram, em sua maioria, a personificação da arrogância. João Paulo, a encarnação da simplicidade. Impossível não gostar dele. Também era uma boa fonte de informação. Tinha bons bastidores a revelar.

Há politicos e autoridades os quais não quero como fonte. Recuso-me até mesmo a apertar a mão. O mais grave é que orgulho-me dessa inflebilidade  –algo não recomendável para um profissional da informação. A maior parte das autoridades , contudo, consigo conviver numa boa, mesmo sabendo que nosso sistema político alimenta-se de caixa 2. Eu conversava tranquilo com o saudoso PC Farias. Um dos meus orgulhos foi ter “descoberto” PC, ainda nas primeiras semanas do governo Collor. Continue reading »

ago 29, 2012

Arendt e a Comissão da Verdade

“É bem verdade que o passado nos assombra; é função do passado assombrar a nós que somos presentes e queremos viver no mundo como ele realmente é, isto é, como se tornou o que é agora” (Hannah Arendt)

ago 29, 2012

A memória, o perdão e o esquecimento –ou a dor de sentir a presença da ausência

 Uma discussão sobre o paradoxo entre a Lei da Anistia e a Comissão da Verdade, em diálogo com os pensamentos de Paul Ricoeur e Hannah Arendt

O passado nos assombra, diz Arendt

Por Hugo Studart

O episódio a ser analisado neste ensaio, a Guerrilha do Araguaia, trás a oportunidade de se analisar e questionar as dimensões do perdão às violações de Direitos Humanos cometidos pelos militares no Araguaia, assim como sobre o alcance a a interpretação da Lei de Anistia, promulgada em 1979. A questão comporta multiplos aspectos de ordem jurídica, ética, política, institucional, teológica, psicológica, filosófica. Entretanto, a proposta é analisá-la sob a dimensão de duas questões essenciais no Brasil do tempo presente: a memória e o esquecimento.

Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Nietzsche – são muitas as contribuições dos pensadores clássicos sobre memória e História, esquecimento e perdão. Faz-se necessário, obviamente, revisitá-los, cada um em seu próprio momento da discussão. Mas o objetivo da pesquisa é abordar o tema com ênfase especial nos pensamentos de Paul Ricoeur e de Hannah Arendt – buscando apoio em Jacques LeGoff e Jacques Derrida, entre outros.

Ricoeur enfrentou ao longo de toda a juventude a dor da ausência do pai. Ele nasceu em 1913. Um ano depois seu pai seguiria para uma daquelas trincheiras da Primeira Guerra. Aguardou-o com ansiedade até o final os conflitos. Muitos pais retornariam com vida. Ou em caixões. Mas Ricoeur-pai permaneceria ausente. Desaparecera exatamente no Dia da Vitória. Assim, o sentimento de ausência tornou-se a maior presença em sua vida. Os restos mortais só seriam encontrados em 1932. Ricoeur forjou todo o seu pensamento uma constante contra a violência. “Meu pai morreu por nada”, escreveria mais tarde.

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