O segredo dos índios mercenários

Por Lucas Figueiredo
(Publicado originalmente na GQ)

Sob um céu grande angular de nuvens pesadas, o território brasileiro dá um nó – o Norte se encontra com o Nordeste; a Amazônia lambe o Cerrado e três Estados dividem fronteiras (Pará, Maranhão e Tocantins). Talvez nenhum outro lugar do país seja tão indicado para guardar um segredo, sobretudo segredo grave como este. Naquele rincão perdido, quatro décadas atrás, teve lugar um dos episódios mais obscuros da história do Brasil: a transformação de índios em mercenários de guerra do Exército.

Agora, o segredo acabou.

Suruís: guias dos militares durante a Guerrilha do Araguaia

Em quatro meses de investigação, GQ reuniu provas que mostram que, no início dos anos 1970, no governo do general-ditador Emílio Garrastazu Médici, a Força Terrestre fez de pacíficos índios Aikewara – da aldeia Suruí Sororó, no Pará – máquinas de caçar e matar homens. Na aldeia, a reportagem localizou e entrevistou índios que confirmaram terem sido cooptados pelo Exército, por meio de tortura,alegam eles, para dar apoio às campanhas contra a Guerrilha do Araguaia. GQ também obteve cópia de um relato pessoal de um militar da reserva que participou das operações em que ele afirma que, na caçada humana, os índios mercenários não se limitaram a matar. Cortavam cabeças. Era a prova que o Exército exigia do dever cumprido. Exigia dos índios e dos camponeses que também se engajaram nesse serviço.A história já começa acelerada. Desde tempos imemoriais, a vida dos Aikewara é um constante fugir. Primeiro, fugiam da perseguição de índios inimigos. Depois, fugiam de massacres praticados pelos brancos e do risco de extinção. Agora, tentam fugir do passado.Foi correndo de seus primeiros algozes, os Kayapó Xicrin, no início do século XX, que algumas centenas de Aikewara chegaram ao sudoeste do Pará, a cerca de 100 quilômetros de Marabá. Era uma área de mata tropical fechada, com poucos rios, mas caça abundante. Por ali ficaram. Com a palha das palmeiras, construíram ocas redondas, e com o arco e flecha caçaram macacos, veados, caititus (animal parecido com o javali), tatus e cotias. A ração diária era complementada com o que conseguiam coletar (jabutis, peixes, castanha) e plantar (mandioca, batata doce, milho e banana). Quando não estavam cuidando do sustento, costumavam de ficar, todos juntos, numa tenda armada no centro da aldeia, a taquapucu, onde passavam horas pintando o corpo com tintas obtida do jenipapo e do urucum. Entre agosto e setembro, dançavam o Saporahái, evocando seu herói mítico, Mahyra, pai do sol e da lua. Não existia disputa de poder na aldeia, já que os caciques se sucediam em linha hereditária. Nas relações afetivas, viam com simpatia o casamento entre primos e de tios com sobrinhos, e não era condenável um homem se servir de mais de uma mulher e vice-versa. Não contavam a idade, porque isso não era importante.

A aliança com os militares salvou-os da extinção. Hoje todas as crianças estão na escola bilíngue, todos os casais têm casa de alvenaria e as mulheres adultas estão grávidas

Pela descrição, pode parecer que eram prósperos e felizes, o que não é verdade. Tudo indicava que o destino da tribo era desaparecer. Como não tinham meios de resistir aos ataques dos Kayapó Xicrin, os Aikewara passaram a cultivar uma tradição terrível: para facilitar a fuga, evitam que as mulheres tivessem dois filhos de colo simultaneamente, e para isso recorriam a meios abortivos ou mesmo ao infanticídio. Até início dos anos 70, com a chegada dos militares na região, o infanticídio era uma prática bem comum.

O primeiro contato com o homem branco se deu em 1953. Começaram trocando presentes com os Kamará (homem branco), mas em pouco tempo estavam morrendo pelo chumbo ou pelas doenças (varíola e gripe, sobretudo) trazidas por fazendeiros e castanheiros. O impacto do contato com o homem branco aliado à tradição do controle da prole fez com que os Aikewara entrassem em rota de extinção. Em 1961, sobravam na aldeia apenas 34 índios.

O pior ainda estava por vir. A partir de 1966, os Aikewara começaram a ganhar novos vizinhos: militantes do clandestino Partido Comunista do Brasil (PCdoB) que chegavam àquele fim de mundo com a idéia de promover uma revolução armada no país. Era a Guerrilha do Araguaia.

Como os Aikewara não falavam português, mas somente akwáwa (ramo do tupi-guarani), o comando da guerrilha os descartou como possível massa revolucionária – ou “elementos de massa”, como naqueles tempos e ainda hoje os dirigentes do partido chamam camponeses e operários em geral. Os índios, por sua vez, não tinham a menor idéia de quem eram aqueles homens e mulheres, que os habitantes locais chamavam de “paulistas”. “Índio não sabia nada”, explicou, num precário português, Warikasú, um dos índios feitos mercenários pelo Exército.

Seis anos depois da chegada dos guerrilheiros, veio o Exército com a missão de destruir o foco de insurreição. Eram 20 soldados para cada guerrilheiro, estes dominavam melhor o terreno. “Soldado não sabe andar na mata”, conta Warani, outro ex-mercenário da aldeia. Foi então, a partir de uma dificuldade operacional, que surgiu no Exército a idéia de usar os índios para guiar os soldados e, em alguns casos, assumir o combate. Começava a descida dos Aikewara ao inferno do homem branco.

Segredo a esconder das novas gerações

Ainda adolescente, Tawé foi obrigado a se tornar um mercenário do Exército. Ele conta que, depois de invadir e tomar a aldeia, os militares semearam o pânico entre os índios. Começaram queimando as roças e os impedindo de caçar. “Amarraram o índio e bateram muito, apontaram metralhadora, estupraram mulher do índio”, relata Tawé. “Um dia, soldado pegou Tawé e pai de Tawé <Kuimuá, já falecido> e levou de helicóptero para a mata. Índio tinha muito medo e pensava que tinha feito alguma coisa errada.” Só quando chegaram à selva fechada, Tawé, que já falava um pouco de português, soube o motivo do sequestro. “Soldado mostrou fotografia do povo da mata e disse para índio caçar”, diz ele, referindo-se aos guerrilheiros.

Nos quatro dias que ficaram na mata, Tawé e Kuimuá não puderam acender fogueiras para cozinhar ou para se aquecer, porque corriam o risco de virar alvo dos guerrilheiros. Para sobreviver, comeram jabá cru e alimentos enlatados frios, fornecidos pelos militares.

Nos dois dias que permaneceu na aldeia Suruí Sororó, a reportagem de GQ ouviu relatos de sete dos onze ex-mercenários Aikewara. Umasú disse que também foi levado para a mata de helicóptero, primeiro para servir de guia dos soldados, depois para “caçar o povo da mata”. Com a ajuda de um interpreta de akwáwa, Warini, aparentemente o Aikewara mais velho da aldeia, contou que quase foi atingido num tiroteio entre soldados e guerrilheiros. Viveu para relatar a história, mas ficou surdo por causa dos estampidos. Em português precário, Warani (não confundir com Warini) descreveu como os soldados o levaram à selva com a desculpa de que iriam caçar macacos e caititus. “Mentira. Era para caçar terrorista”, disse ele, usando o termo que aprendeu com os militares. Waiwera narrou que um homem identificado como cabo Lima o levou, quando ainda era adolescente, para a Serra das Andorinhas e depois para Bacaba para “caçar” guerrilheiros. Com o dorso nu pintado com pontos pretos a imitar o rasto de um caititu, Massara descreveu, com a ajuda de um tradutor, que durante “a guerra” ele foi obrigado a passar muitos dias na mata, com fome, a espera dos helicópteros das Forças Armadas que lançavam alimentos e iam embora.

Não pergunte a um ex-mercenário Aikewara como ele lutou contra os guerrilheiros e se no confronto houve vítimas. Essa parte da história é um tabu para os índios.

Massú Surui: ex-guia na caçada aos guerrilheiros

GQ testemunhou o esforço da nova geração em evitar que os velhos assumam ter cometido atos de violência. Qualquer pergunta dirigida a um ex-mercenário que envolva as palavras combate, prisioneiro, morto ou corpo é cortada por um Aikewara mais novo, que nega ter havido confronto direto entre índios e guerrilheiros. Na maior parte do tempo em que esteve na aldeia, a reportagem foi acompanhada de perto por Ikatu, líder local da nova geração, de 34 anos. “Quando Kamará (homem branco) chega à aldeia, nós pergunta logo o que vem fazer. Os velhinhos são muito inocentes. Nós que somos novos respondemos por ele”, assume Ikatu.

Quando os jovens se afastavam, porém, os mais velhos procuravam a reportagem para contar suas histórias. Tawé disse que viu corpos de guerrilheiros, e Warini, que presenciou enterros à beira de uma estrada. Amassu contou ter estado com Osvaldo Orlando da Costa (nome de guerra: Osvaldão) e Antônio Teodoro de Castro (Raul) e também ter presenciado a prisão de Dinalva Oliveira Teixeira (Dina), três guerrilheiros cujos corpos estão desaparecidos até hoje.(Atenção leitores: Dinalva, a Dina, e Dinaelza Santana, Maria Diná, eram e ainda são confundidas uma com a outra. Dina foi presa muito longe da aldeia. Já Maria Diná foi presa ali do lado. É bem provável que ele esteja se referindo a Maria Diná).

Mas, afinal, os Aikewara mataram guerrilheiros? Os índios ficam perturbados quando a pergunta é feita, desviam o olhar e negam. Admitem ter “caçado” os militantes do PCdoB e admitem ter visto seus corpos. Mas nada falam sobre as mortes. É como se existisse o antes e o depois, mas não o momento em que as vidas foram tiradas.

Para decifrar o limite dos índios, GQ investigou outra ponta dessa história, a dos militares. E acabou encontrando um documento de grande valor histórico produzido pelo coronel da reserva Aluisio Madruga de Moura e Souza, veterano dos combates no Araguaia.

Num e-mail enviado a um amigo, também coronel da reserva do Exército, no dia 6 de abril de 2007, Madruga atestou que os índios de fato participaram da terceira campanha militar no Araguaia. Na mensagem, depois de fazer uma série de comentários sobre os combates, o coronel faz uma afirmação grave: “O único caso de cabeças cortadas – duas – que tenho conhecimento foi protagonizado pelos índios <da aldeia> Suruí já mais para o final da Operação Marajoara (…)”. Madruga diz também que o caso ficou “restrito” e que mesmo ele desconhecia os detalhes.

É a primeira vez que oficial que serviu no Araguaia põe no papel que o Exército cooptou índios para a campanha contra a guerrilha. Mais: é a primeira vez que um oficial afirma, por escrito, que, ao cumprir sua missão, os mercenários mutilaram corpos.

Não há porque duvidar da autenticidade do e-mail. Primeiro, porque o endereço do remetente é o mesmo utilizado por Madruga para vender os livros de sua autoria sobre a luta armada. Segundo porque a cópia da mensagem foi repassada à reportagem, datada e assinada com caneta azul, pelo seu destinatário.

O coronel Madruga não é um militar de passado ordinário na caserna. Este carioca de cabelo cuidadosamente penteado e bigode triangular serviu por 35 anos em algumas das mais instituições mais barra pesada da ditadura: DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna), SNI (Serviço Nacional de Informações), CIE (Centro de Informações do Exército) e Polícia do Exército. Madruga não só comandou destacamentos que entrariam na história como centros de tortura e extermínio de opositores do regime como ele próprio foi denunciado como torturador (acusação à qual rechaça com veemência).

Em 1973, sua experiência na área de informações e de caça a comunistas o levou ao Araguaia. Naquele ano, por seis meses, sob a patente de capitão e o codinome doutor Melo, Madruga participou do comando da chamada Operação Sucuri, que levantou dados sobre a população local (como o grau de simpatia de cada morador em relação à guerrilha) e desvendou o esquema dos insurretos (localização, armamentos e estrutura). Na fase seguinte da campanha, com as informações da Sucuri e a ajuda de mercenários (índios e brancos), o Exército dizimou os 56 insurretos que ainda sobravam na região.

No livro que escreveu 29 anos depois (Guerrilha do Araguaia – Revanchismo – a Grande Verdade), o coronel reconhece que a Força Terrestre contratou mateiros – homens que conhecem a mata profundamente – para servir de guias para as tropas. Porém, apesar de identificar a aldeia Suruí Sororó num mapa reproduzido na obra, ele não cita a cooptação dos índios. Ainda em relação ao livro, o coronel nada fala sobre mutilação de corpos, mas admite que, dadas as condições do terreno, não era “lógico ou mesmo viável que componentes de um grupo conduzissem corpos de opositores mortos por dezenas de quilômetros, através da selva, correndo o risco de serem emboscados”. Já no e-mail, ao citar as decapitações, ele insinua que a conduta teria sido de responsabilidade total dos índios. “<O corte das cabeças de guerrilheiros> causou constrangimento na maioria <dos militares>. Mas índio é índio”, escreveu o coronel. Procurado pela reportagem, Madruga não se pronunciou.

A suposta vexação dos militares em relação à mutilação de corpos não encontra sustentação na realidade. No município de Palestina (Pará), distante cerca de 120 quilômetros da aldeia Surui Sororó, há uma prova viva disso. Num pequeno sítio com bananeiras, mangueiras e pés de milho, a reportagem encontrou Sinésio Martins Ribeiro, de 86 anos, mateiro que serviu de guia para Exército no Araguaia. À GQ, Ribeiro deu um depoimento histórico que ajuda a colocar mais uma peça no quebra-cabeça: o Exército não apenas lhe confiou a missão de caçar guerrilheiros na mata. Mandou que ele, depois de localizar e matar os alvos, lhes cortassem a cabeça e as levassem à presença de um oficial como prova do serviço cumprido. “Eles <os militares> davam um saco de plástico branco, forte, e diziam: derruba o papagaio e tira o bico dele. Papagaio era como eles chamavam os guerrilheiros, e bico era a cabeça”, relatou o mateiro.

A exemplo dos índios, Ribeiro conta que aceitou colaborar com os militares para por fim às torturas. Mas, diferentemente dos Aikewara, vai até o final no relato – e admite: numa ação contra a guerrilha da qual participaram apenas mateiros, num local conhecido como Grota do Cristal, próximo ao município de São Raimundo do Araguaia (PA), ele usou seu facão para cortar a cabeça do guerrilheiro Arildo Aírton Valadão (Ari), ex-estudante de física de 25 anos. “Foi rápido”, contou Ribeiro, sem demonstrar sinal de arrependimento ou de orgulho. O corpo mutilado foi deixado na Grota do Cristal (e posteriormente, pesquisa-se hoje, teria sido enterrado por guerrilheiros). A cabeça, levada para uma base do Exército. “Era a ordem. Não podíamos passar por cima”, explicou o mateiro.

Ribeiro confirmou ter lutado ao lado de dois Aikewara. Foi em 1973, na ação que resultou na morte e decapitação do guerrilheiro Jaime Petit da Silva, ex-professor de 28 anos. “Quando começou o tiroteio, os índios correram para dentro da mata, chorando. Eram frouxos.”

Na aldeia, a reportagem perguntou aos ex-mercenários Aikewara se algum deles conhecia Ribeiro. Tawé – aquele que foi levado para a mata junto com o pai – afirmou se lembrar de mateiro. “Bateram muito nele”, contou.

É verdade que, antes de aderir ao Exército, índios e mateiros foram torturados física e psicologicamente pelos militares. Mas é verdade também que os mercenários receberam recompensas pelos guerrilheiros abatidos. Quem afirma é historiador e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) Hugo Studart, detentor do maior arquivo privado de documentos relacionados à guerrilha e observador independente do Grupo de Trabalho Tocantins (leia mais sobre o GTT no boxe sobre a guerrilha). “Por certo houve maus tratos e tortura, mas o Exército também soube atrair a população local oferecendo recompensas pelas cabeças dos guerrilheiros. A tabela de preços variava de acordo com a importância e a localização do alvo”, disse o historiador, que prepara um segundo livro sobre a guerrilha. ”Os mateiros cortaram sete ou oito cabeças. Já os índios mataram outros tantos, inclusive com decapitações. Ambos, mateiros e índios, foram obrigados a isso para poder sobreviver. Mas o que se sabe hoje é que deve haver até nove corpos de guerrilheiros enterrados em algum ponto da reserva Suruí.

Outra observadora do GTT que está em contato com os Aikewara, Maria Mercês Pinto de Castro, afirma que, por falta de preparo para combate em região de selva, o Exército terceirizou a luta no Araguaia, obrigando índios e mateiros a matar e mutilar os guerrilheiros. “Todos os homens da região, índios e brancos, acima de 19 anos foram recrutados”, afirmou ela. Maria Mercês viaja ao Araguaia desde 1979 a procura da ossada de seu irmão, o guerrilheiro Antônio Theodoro de Castro (Raul). Ex-estudante de farmácia, morto aos 28 anos, Castro teria sido decapitado por um mateiro. Maria Mercês não guarda mágoa de índios e mateiros. Hoje, ela auxilia os Aikewara no processo em que, como vítimas do regime militar, eles requerem o benefício financeiro da Comissão da Anistia do Ministério da Justiça.

Jorge Zaverucha, cientista político e coordenador do Núcleo de Estudos de Instituições Coercitivas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), observa que, embora tecnicamente o Brasil não estivesse em estado de guerra, para as Forças Armadas havia uma operação de guerra no Araguaia. Ele defende que a cooptação de índios e de mateiros pelo Exército seja investigada e seus autores, punidos. “Mesmo nas guerras há regras, como a Convenção de Genebra. Mutilar é crime, pois o inimigo já está derrotado, no caso morto.” Acionado por GQ, o Exército preferiu não se manifestar, sob o argumento de que “o assunto faz parte da história recente do país”.

A questão agora é: o que o Exército fez com as cabeças dos guerrilheiros que foram entregues a oficiais da instituição pelos mercenários? Criméia Alice Schmidt de Almeida, ex-guerrilheira do Araguaia que se salvou por ter saído da região assim que os militares chegaram, afirma que, em 1973, quando se encontrava presa no Pelotão de Investigações Criminais de Brasília, seus interrogadores mostraram a ela fotos de cabeças cortadas de seus companheiros. “Foram as fotografias mais chocantes que vi na vida. Lembravam as fotos da Guerra do Vietnã”, disse ela. Criméia não acredita que os índios tenham matado e decepado os guerrilheiros, mas sim os militares. “O Exército sabe onde estão as ossadas. E o Brasil precisa saber a verdade.”

A verdade, nessa história, é e será sempre perturbadora. Do mesmo modo que é correto dizer que os índios foram vítimas do Exército, é correto também admitir que foi a adesão dos índios à Força Terrestre que “assegurou-lhes a sobrevivência”. Quem diz isso é Roque de Barros Laraia, professor da UnB e ex-presidente da Associação Brasileira de Antropologia. Trata-se do maior especialista dos Aikewara no Brasil, com 40 anos de estudos de campo na tribo.

De fato, o fim das operações militares no Araguaia, no início de 1975, coincidiu com uma melhora nas condições de vida dos índios. Em 1977, ainda na ditadura, a terra dos Aikewara foi demarcada pelo governo federal, alcançando 26,2 mil hectares (o equivalente a 26 mil campos de futebol ou ainda 5% da área de Brasília). A demarcação deixou de fora os melhores castanhais da região, o que descontentou os índios, mas é inegável que a posse definitiva da terra trouxe para os índios uma instabilidade até então inédita.

Dali em diante, mesmo com o crescimento desordenado e violento da região, a aldeia se transformou num oásis de estabilidade. Nas duas décadas, num raio de 150 quilômetros a partir da reserva Suruí Sororó, a terra tremeu – basta citar quatro episódios: a construção da maior hidrelétrica brasileira, Tucuruí (1975-84), a invasão de Serra Pelada por 80 mil garimpeiros (1980-92), o início da exploração da maior reserva de mineiro de ferro do mundo, Carajás (1980), e o massacre de 19 sem-terra em Eldorado de Carajás, o pior conflito no campo do Brasil (1996). Na região que cerca a aldeia, é possível encontrar quase tudo que é sinônimo de tragédia social: índices elevados de violência, extração ilegal da madeira, garimpo, mineração, disputas por terra, desmatamento, queimadas, criação extensiva de gado, tráfico de drogas, tráfico de armas etc. Não se pode dizer que os Aikewara estejam imunes a tudo isso, mas a vida na aldeia segue tranquila.

Hoje, em sua porção de terra, última área de mata nativa da região, os índios têm escola bilíngue, posto de saúde, água encanada e eletricidade. Já são 30 as casas de alvenaria, todas elas com uma oca, feita de palha e madeira, a título de puxadinho.

De acordo com levantamento feito pela Funasa, a aldeia abrigava 330 índios no ano passado. Hoje seriam aproximadamente 400, segundo os próprios Aikewara. As tradições de evitar o segundo filho de colo e o infanticío foram abolidas. As crianças são muitas e brincam descalças na terra, fingindo serem onças. Entre crianças, jovens e velhos, muitos hábitos não mudaram: eles pintam o corpo, dançam o Saporahái e, entre eles, falam preferencialmente o tupi-guarani. A história que os antigos gostam de contar não tem guerrilheiro nem soldado. Só animais, que usam as flechas dos índios para fazer uma grande escala, na qual sobem para ir dançar no céu.

 

Massú Suruí: guia dos militares na caçada aos guerrilheiros

O QUE FOI A GUERRILHA DO ARAGUAIA

Desde o início da década de 1960, o Bico do Papagaio – região banhada pelo rio Araguaia na confluência do Pará, Maranhão e Goiás (atualmente, Tocantins) – era vista por grupos radicais de esquerda como local ideal para abrigar um movimento guerrilheiro. Por três motivos: o isolamento, a precária presença do Estado e as grandes distorções econômicas e sociais que pesavam sobre a população, de cerca de 20 mil habitantes.

Dois anos depois do golpe militar de 1964, o clandestino Partido Comunista do Brasil (PCdoB) começou a internar militantes na região. Eles deveriam viver em meio à população, disfarçados de taberneiros, mascates, farmacêuticos, colonos etc., até amadurer o momento histórico em que deflagrariam uma luta armada com o objetivo de derrubar a ditadura militar e, ato contínuo, impor uma ditadura socialista nos moldes da China e de Cuba,.

Em 1972, antes que a Guerrilha do Araguaia entrasse na fase do proselistimo para ganhar as massas e disparasse um único tiro, o movimento foi descoberto pelas Forças Armadas. Havia então 69 insurretos na região e sete a caminho – na maioria, estudantes na média de 30 anos de idade, comandados por alguns poucos veteranos, como João Amazonas e Maurício Grabois.

Naquele mesmo ano, o Exército promoveu duas campanhas na região. Na primeira, uma série de pequenas missões de reconhecimento, empregou 170 homens, quase todos jovens recrutas que serviam em Belém. Já a Segunda Campanha, com 3.250 combatentes das três Forças Armadas, recrutados em unidades militares de nove Estados, acabou se transformando na maior mobilização de tropas brasileiras desde a campanha na Itália, na Segunda Guerra Mundial (1939-45). No entanto, e por diversas razões, como a inexperiência dos soldados com a selva e os conflitos de comando entre os militares, os comunistas conseguiram resistir, apesar das baixas.

No ano seguinte, após um trabalho de inteligência na região conhecido como Operação Sucuri, o Exército deflagrou uma terceira campanha, a Operação Marajoara. Os militares então desceram na mata com trajes civis, identidades falsas, armas leves e a ordem expressa de não fazer prisioneiros. Um a um, os 62 guerrilheiros restantes (56 militantes do PCdoB e seis colonos) foram então caçados por uma equipe de 250 militares de elite, entre membros da Brigada Para-quedista, do Rio de Janeiro, e do Batalhão de Guerra na Selva, de Manaus. Por meio de tortura física e psicológica, mas também a troco de recompensa material e financeira, a população local foi cooptada pelo Exército, servindo de guia ou mesmo como combatente.

No final de 1974, a guerrilha estava dizimada. À rara exceção dos insurretos que lograram fugir, todos os outros foram mortos, muitos deles depois de dominados ou mesmo presos. O Exército não entregou os corpos e não divulgou o que foi fizera deles.

Em duas ocasições, 1972 e 1979, o grupo que edita O Estado de S.Paulo e o Jornal da Tarde conseguiu furar a censura e publicar informações sobre a guerrilha. Entretanto, a maior parte da população só tomar conhecimento do episódio com o fim da ditadura, em 1985.

Nesses 37 anos, após um monumental esforço das famílias, foram encontrados dois dos cerca de 60 corpos desaparecidos, os de Maria Lúcia Petit e Bergson Gurjão Farias, ambos abatidos ainda na Primeira Campanha e enterrados lado a lado no Cemitério de Xambioá.

Em 2003, a Justiça Federal condenou a União a informar o paredeiro dos corpos. E em 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos, órgão judicial da Organiação dos Estados Americanos (OEA), determinou ao Estado brasileiro que investigasse os crimes cometidos pelo Exército no Araguaia, julgasse os responsáveis e buscasse os corpos dos desaparecidos. Em meados de 2009, o Ministério da Defesa criou o Grupo de Trabalho Tocantins (GTT), cuja missão é buscar, recolher, identificar e devolver às famílias os corpos dos guerrilheiros. Os trabalhos não têm data para acabar.

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