O homem-farol e a vocação agrícola do Brasil

“Quem foi a figura histórica que mais contribuiu para a agricultura brasileira?”, indagou Kátia Abreu, senadora e presidente da Confederação Nacional da Agricultura.

“Foi o barão de Mauá, pois com a estrada de ferro ele criou a logística”, respondeu um amigo de Kátia.

“Foi o Alison Paulinelli, que iniciou a conquista do cerrado”, respondeu outro.

“Foi o Roberto Rodrigues, que abriu os mercados globais”, disse mais um.

“Nenhum deles”, arrisquei intervir na conversa. “Foi o professor Eugênio Gudin, sem dúvida”.

Kátia virou os olhos para cima, como quem puxa informações da memória e me perguntou por quê? Raposa velha que é, o ex-senador Jorge Bornhausen acha Kátia perspicaz. Gudin era informação diferente para ela. “Por quê?”, insistiu.

“Porque foi ele o primeiro a defender com fervor nossa vocação agrícola, ele dizia há mais de 50 anos que o papel natural do Brasil era o de ser o celeiro da humanidade”, respondi. “Ele é o pai do liberalismo econômico brasileiro”, insisit. “Então escreve um artigo defendendo Eugênio Gudin”, sugeriu Kátia. Eis:

Foi o inspirado Roberto Campos quem certa vez escreveu: “Gudin foi a mais multifacetada das figuras, capaz de combinar a um tempo a intensidade do raio laser e a alegria cromática do arco-íris”. Em sua obra-prima, “A Lanterna na Popa”, o economista, professor, embaixador e ministro Campos tece longos trechos falando de seu mestre Gudin. É sobre Gudin aquele que considero o trecho mais inspirado da obra-prima de Campos:

 “Há grandes homens que são como pirâmides: projetam um cone de sombras. Há grandes homens que são como faróis: projetam um cone de luz. Luz de dimensão maior que sua silhueta”.

É impressionante constatar que, quanto mais o tempo passa, mais a realidade da economia prova que o professor Eugênio Gudin tinha razão. Gudin viveu exatamente um século, entre 1886 e 1986. Seu apogeu, como figura pública, foi entre as décadas de 30 e 50, quando os brasileiros gostavam de dizer que o Brasil é o país do futuro, a ciência econômica ainda engatinhava e nossos poucos economistas debatiam sobre qual nosso melhor projeto estratégico —  ou seja, para onde vamos, afinal? E principalmente como vamos chegar lá?

Foi nesse tempo que apareceram duas correntes, a dos liberais, fundada pelo carioca Gudin, e a dos desenvolvimentistas, criada pelo paulista Roberto Simonsen, fundador da Fiesp e maior líder que a indústria brasileira já teve. Foi justamente um tempo em que o país também começou a falar em construir sua própria indústria e em explorar as riquezas nacionais, como o petróleo. Foi um tempo de maniqueísmo ideológico, de guerra fria, de nacionalismo emergente, no qual o pensamento das esquerdas entrou em ascensão.

Sem medo de nadar contra a corrente, Gudin defendia que o país se dedicasse a explorar as atividades em que detivesse vantagens comparativas, como a agricultura. Foi muito criticado por isso, acusado de inimigo da indústria, de pregar nosso subdesenvolvimento e a manutenção do Brasil como nação periférica, colônia fornecedora de produtos primários às nações industrializadas. Na verdade, o que Gudin combatia era o protecionismo e os subsídios, “destruindo assim todo o incentivo à melhoria da produtividade na indústria”, como escreveu à época. Só dos anos 90 para cá, a realidade provou ser a agricultura a salvação da nossa economia, proporcionando superávits comerciais capazes até de liquidar nossa dívida externa.

O pensamento de Gudin era baseado num diagnóstico básico dos problemas estruturais que impedem ou dificultam, até hoje, o crescimento brasileiro. Para ele, o Brasil deveria concentrar esforços em setores nos quais temos vantagens comparativas. E nesse item, a agricultura deveria ser a prioridade; para ele, o Brasil tem a vocação natural de ser o grande celeiro do mundo. A segunda prioridade básica, segundo Gudin, deveria ser diminuir o enorme atraso educacional. Hoje é esse o pensamento hegemônico em todo o mundo. Mas muito poucos assimilaram essa idéia naquela época. E por fim, investir pesado em infra-estrutura, como energia e transportes. Nesse último item, Gudin só colheu aplausos.

“A proposta de Eugênio Gudin era aumentar a produtividade na agricultura a fim de conseguir mão-de-obra excedente que possa deslocar-se para a indústria, e como ele concebe tal processo de industrialização”, explica o professor Carlos Henrique Rodrigues, autor de uma dissertação de mestrado, da Unicamp, comparando os pensamentos de Gudin e Simonsen.

Em outros pontos de seu pensamento, Gudin defendia a abertura do país aos investimentos estrangeiros, a estabilidade fiscal e a economia baseada na iniciativa privada – e não nas empresas estatais. Com o nacionalismo de direita e o estatismo de esquerda em ascensão, cada um por um lado, Gudin foi repelido como se suas teses fossem insultos à soberania e manifestação de gente “vendida” aos trustes, como a esquerda nacional chamava as multinacionais.

“Passados 20 anos do seu falecimento, em 1986, após um século de vida, é impressionante verificar a atualidade do seu pensamento”, diz uma carta do IBRE, de 1996, resgatando o pensamento de Gudin.

DEBATES COM SIMONSEN
Gudin não nasceu economista, mas engenheiro. Já maduro resolveu estudar Economia. Era um autodidata. Foi o pai de todos os economistas brasileiros. Na década de 30, ensinava a importância da lógica econômica aos estudantes de Engenharia e Direito. Na década de 40, redigiu de próprio punho a lei que instituiu o curso acadêmico de Economia no país e ajudou na criação da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas, a primeira voltada para a área no Brasil. Também foi um dos criadores da Fundação Getúlio Vargas.

Os anos 40 foram marcados um debate intelectual memorável entre duas personalidades maiores, Gudin e Roberto Simonsen. O fundador da Fiesp, pioneiro da escola econômica desenvolvimentista, defendia políticas de industrialização com a ajuda do governo. Gudin, profeta do liberalismo, defendia políticas monetárias rígidas e a vocação natural do Brasil como o grande celeiro de alimentos. Gudin acusava Simonsen de pregar um modelo que dependia do “guarda-chuva estatal”:

“Na execução da política de produtividade por que está a bradar o povo brasileiro, importa estar atento à insidiosa resistência passiva dos interesses reacionários de grupos e associações industriais que visam, antes de tudo, a defesa dos interesses particulares dos industriais já instalados, desenvolvendo surda oposição e hábeis manobras contra tudo o que possa vir a com eles concorrer”.

O DIA DA CRIAÇÃO
Os debates entre Gudin e Simonsen estavam em máxima efervescência quando, junho de 1944, Franklin Roosevelt convocou uma conferência para definir como seria o novo o sistema financeiro internacional ao término da Segunda Grande Guerra. Compareceram 730 delegados de 44 países, confinados por três semanas no Mount Washington Hotel, em Bretton Woods, New Hampshire. Só saíram de lá com o acordo assinado.

Três delegações tiveram um papel fundamental nas negociações, relata Roberto Campos – que estava lá. A primeira, evidentemente, foi a norte-americana, chefiada pelo secretário do Tesouro Henry Morgenthau, o anfitião, mas liderada por um dos homens públicos mais proeminentes do pós-guerra, Dean Acheson, então secretário-adjunto de Estado. A delegação britânica, liderada por Lord Keynesem pessoa. Ea brasileira, presidida pelo ministro da Fazenda de Vargas, Arthur de Souza Costa. “Mas a grande estrela da delegação era sem dúvida o professor Eugênio Gudin”, conta Campos.

Bretton Woods foi marcada por acirrados debates entre essas três delegações. Ou melhor, entre Lord Keynes, Dean Acheson e Eugênio Gudin. Sim, o brasileiro Gudin, o único com ousadia e preparo intelectual para enfrentar Keynes. O economista britânico queria a adoção de uma moeda mundial, o Bankor. Gudin, ao lado do americano Acheson, pregavam a afirmação dos princípios liberais no regimento do mercado mundial.

Ao final eles venceram. Foi criado o atual sistema financeiro, com o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o dólar como moeda-lastro. Seria ingenuidade pensar que Gudin venceu Keynes. Na verdade, os americanos impuseram a força do império que nascia dos escombros de um velho mundo esfacelado pela guerra. Mas vale lembrar que Gudin foi figura relevanteem Bretton Woods. RobertoCampos estava a seu lado, como assistente. Era terceiro secretário da embaixada do Brasil em Washington e jovem estudante de economia. “Eu não passava de um protozoário diplomático”, escreveu Campos. “Mas estava lá, naquele que seria lembrado como o Dia da Criação”.

HERANÇA BENDITA
Nas décadas subseqüentes, os debates sobre o modelo econômico brasileiro prosseguiram. Enquanto os discípulos de Eugênio Gudin, como Octávio Gouveia de Bulhões e Roberto Campos, defendiam o Estado mínimo, os discípulos de Roberto Simonsen acreditavam que não era possível industrializar o Brasil sem o concurso do setor público. Os desenvolvimentistas, em maior ou menor grau, tendiam a ser estatizantes.

“Eu sou contrário é a essa indústria preguiçosa, que amassa fortunas para uma minoria de privilegiados à custa do consumidor, num regime de preços altos e de produtividade muito baixa”, bradava Gudin em 1956, logo depois de ter sido, por apenas oito meses, ministro da Fazenda de Café Filho.

Sua passagem pelo poder foi breve, marcante, polêmica. Gudin impôs uma política econômica de rígido controle monetário a fim de segurar os índices inflacionários. Criou o Imposto sobre Energia Elétrica e introduziu o desconto do imposto de renda sobre o trabalho assalariado diretamente na fonte. Também facilitou investimentos estrangeiros no país. Pediu demissão tem jamais ter explicado a razão.

Como presidente do Instituto de Economia da Fundação Getúlio Vargas, Gudin promoveu a vinda de vários economistas de fama internacional ao Brasil. Com esses eventos e conferências, buscava ampliar a discussão sobre o desenvolvimento econômico de nações subdesenvolvidas. Ele sempre se interessou muito pelas particularidades das economias latino-americanas. Apesar de defender o liberalismo, Gudin preocupou-se em repensar princípios liberais na ótica de uma economiaem desenvolvimento. Buscou, portanto, renovar e adaptar conceitos como o do câmbio livre a casos específicos do subdesenvolvimento.

Desde os governos Vargas, passando por JK, e pelos sucessivos governos militares, prevaleceram as políticas intervencionistas para forçar a industrialização – com raros períodos de liberalismo, como o governo Castelo Branco. Foi bom para o Brasil por algum tempo. Acabou por criar um parque industrial com jóias como a Embraer. Mas também produziu indústrias artificiais, que precisavam das facilidades do governo e benesses do erário para sobreviver – aberrações que começaram a ser decantadas com o neo-liberalismo iniciado por Collor, consolidado com Fernando Henrique e aprofundado na Era Lula.

Hoje o Brasil é uma potência industrial mediana – ou emergente, se preferirem. Mas caminha para ser, naturalmente, a maior potência agrícola do planeta, provando que, historicamente, o professor Eugênio Gudin tinha razão. Ele continuou ativo até seus últimos dias de vida, publicando artigos sobre economia no jornal “O Globo”. Ele morreu três meses depois de completar 100 anos de idade, em 1986, no Rio.

E se alguém ainda tiver dúvidas que Eugênio Gudin foi a figura histórica que mais contribuiu para a agricultura brasileira, vale aqui repetir a frase que Roberto Campos lapidou sobre seu mestre:

“Há grandes homens que são como faróis: projetam um cone de luz. Luz de dimensão maior que sua silhueta”

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