O entre-lugar de Bhabha na Los Angeles de Crash

Anotações sobre o filme “Crash, no Limite” (diretor: Paul Haggis, EUA, 2004) sob a luz das teorias de Hommi Bhabha sobre o multiculturalismo, o “local da cultura” e  o “entre-lugar” (seminário para disciplina “História, memória e imagens fílmicas”, dentro do Doutorado em História Cultural, Universidade de Brasília)

O filme parece ter saído das teorias de Hommi Bhabha, um dos mais respeitados pensadores da cultura na pós-modernidade

por Hugo StudartO filme, em suas parte e no teu todo, parece ter saído de um ensaio de Homi Bhabha sobre o chamado “local da cultura”. Para Bhabha, cultura é diversidade, mas também existe um “local da cultura” determinado às sociedades – no caso em questão, a multifacetada Los Angeles do tempo presente, local de encontro e de convivência de uma multidão de fragmentos étnicos, lingüísticos e culturais. Em Crash, como no pensamento de Bhabha, as diferentes culturas (anglo-saxãos, afrodescendentes, hispânicos e asiáticos) ficam se digladiando, alguns se impondo e deixando seus valores disseminados, outros resistindo. Bhabha chama de “entre-lugar” esse “local”, onde ocorre um choque (um crash) cultural permanente, onde as diferentes culturas disputam seus espaços, sem contudo nunca haver hegemonia.

Com o conceito do “entre-lugar”, Bhabha quebra a idéia antropológica da aculturação, coisa passiva, como também quebra historicamente o conceito de dominantes e dominados para chegar ao que Mikhail Bakhtin define por “circularidade cultural”. Em Crash, não há claramente dominantes nem dominados. Um branco anglo-saxão, o promotor, pode até estar no topo da cadeia alimentar, mas precisa fazer concessões aos negros, precisa do apoio dos negros para se manter onde está. Em outro segmento social, mais abaixo, um policial branco (nesse caso irlandês) perdeu por completo a hegemonia para os negros por conta da política oficial de cotas raciais. Revolta-se, tenta se rebelar, muda de estratégia e tenta se aliar – em vão, é massacrado e discriminado pela assistente social negra, que faz contra ele exatamente o que os brancos faziam com as gerações anteriores.

 

Bhabha utiliza a expressão “Babel no penhasco” para tentar explicar a “anarquia pluralista” que está sento construída pelo capitalismo transnacional e o conseqüente empobrecimento de nações periféricas, que enviam levas e mais levas de trabalhadores migrantes para as nações centrais, a grande diáspora econômica e política desse mundo pós-moderno. Uma das resultantes desse grande processo estrutural é o deslocamento cultural e a discriminação social – “onde sobreviventes políticos tornam-se as melhores testemunhas históricas”, diz Bhabha. Esse é o cenário de Crash.

O pensamento clássico fazia uma distinção entre os estrangeiros e os bárbaros – ambos em contraposição com os cidadãos. Estrangeiro era uma definição eminentemente política, geralmente o cidadão de uma mesma cultura, a helênica, que falava a mesma língua, tinha os mesmos hábitos, mas que por ser de outra cidade não poderia exercer a cidadania. Bárbaro tinha língua, cultura e valores diferentes. Mais tarde os latinos instauraram a conceito do huno, piores que os simples bárbaros, pois não apresentavam qualquer vestígio de “cultura”, no conceito clássico, pois eram nômades (portanto sem origem definida), não conheciam a agricultura (conceito maior de riqueza) e muito menos adotavam hábitos como culturais como as artes, roupas ou a higiene.

Crash apresenta arquétipos desses quatro mundos. Um dos momentos ícones é o diálogo entre um casal de policiais, ele um negro; ela uma hispânica. Ele muito bem posicionado na hierarquia social, resultado de décadas de luta anti-segregracionista e das ações afirmativas presentes, que adquirira parte dos hábitos e valores dos brancos. Portanto, mutatis mutandis, um ex-“estrangeiro”, descendente de “bárbaros”, mas que já se tornara um “cidadão” muito bem posicionado. Em determinado momento ele diz para a mãe que estava dormindo com uma “mexicana”. É como se tivesse rebaixado a namorada à condição de “bárbaro”. Revoltada, ela reagiu. Disse que na verdade era porto-riquenha, ou seja, “cidadã” de origem, tanto ou mais do que o namorado.

Na atual sociedade pós-moderna, pós-colonial, pós-feminina, explica Bhabha, “o afastamento das singularidades de classe ou gênero como categorias conceituais e organizacionais básicas resultou em uma consciência das posições do sujeito – de raça, gênero, local institucional, localidade geopolítica, orientação sexual – que habitam qualquer pretensão à identidade no mundo moderno. (…) Esses entre-lugares fornecem terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular ou coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria idéia de sociedade”, acrescenta Bhabha.

Outro personagem ícone é um cineasta, artista com fama e dinheiro (e poder, influência dentro de seu próprio segmento de mundo). Talvez dentre todos os personagens, seja o mais bem posicionado. Negro, explicitamente e assumidamente aculturado, aparenta ter perdido sua identidade. Chegou a ser acusado pela esposa negra de ter esquecido que é um negro. Diria Bhabha que, diante desse mundo pós-moderno, construiu uma estratégia de resignificação à própria identidade É um dos protagonistas do enredo, a quem comparamos ao Ulisses, de Homero. Na mitologia clássica, num primeiro momento, antes de se tornar o herói da Odisséia, Ulisses não passa de um estrangeiro errante. Até que consegue proteção da aristocracia. Mas não é qualquer estrangeiro que pode ser aceito pelos aristocratas. Precisa possuir alguns atributos. O primeiro pré-requisito é estético. Ulisses e o cineasta negro tinham boa aparência. O policial negro também. O segundo pré-requisito é o domínio da oratória. Os três personagens em questão passaram no teste. Por fim, a coragem, a força para que seja temido e estimado por todos. Ulisses teve que vencer o ciclope. Em Crash, cineasta e o policial, cada um a seu modo, enfrentaram seus ciclopes e vivenciaram suas próprias odisséias. Ainda que a trama tenha sido construído com múltiplos fragmentos de histórias e de personagens, o cineasta e o policial acabam emergindo como os heróis do enredo.

Mais do que os demais personagens, esses dois, o cineasta e o negro, estão naquele lugar que Bhabha chama de o “poço da escada”, um espaço liminar, uma passagem situada no meio das designações de identidade. Esse “poço da escada”, explica o historiador, “transforma-se no processo de interação simbólica, o tecido de ligação que constrói a diferença entre o superior e o inferior, negro e branco. O ir e vir do poço da escada, o movimento temporal e a passagem que ele propicia, evita que as identidades a cada extremidade dele se estabeleçamem polaridades primordiais. Essapassagem intersticial entre identificações fixas abre a possibilidade de um hibridismo cultural que acolhe a diferença sem uma hierarquia suposta ou imposta”.

Ao estudar os sistemas de normas de dominação e as relações de poder entre grupos sociais endógenos e exógenos de uma determinada comunidade do interior, Norbert Elias apresentou a idéia de que só se constrói o “nós” quando se tem o “outro” como referência. Para o autor, um grupo precisa ter o outro como contraposição para que seja possível a coesão interna, assim como para a localização cultural e da identidade do sujeito coletivo, aquilo que ele define por “imagens de nós”. Em Crash, há uma dupla de assaltantes, ambos negros, que atravessam a trama criando espaços de tensões com um sujeito coletivo, a sociedade opressora onde os anglo-saxões, o “outro” – a referência necessária para que pudessem construir o “nós”. Elias denomina os endógenos de “estabelecidos” e os exógenos de “outsiders”. Seu trabalho ajuda a compreender alguns dos personagens em diáspora na Los Angeles de Crash. O chaveiro hispânico e o comerciante iraniano, por exemplo, são dois outsiders em conflito. O chaveiro, um outsider que resiste negociando com os estabelecidos. O iraniano um outsider que, simplesmente, resiste, que não aceita ser um estranho longe do lar, e que tenta afirmar sua identidade cultural pela atividade negadora, através do choque puro e direto. Na definição clássica, o iraniano é, assumida e orgulhosamente, um “bárbaro”.

Na trama fílmica há igualmente lugar para “bárbaros” e “hunos”. Bárbaro, por exemplo, é o casal de chineses. E hunos, os vietnamitas que os chineses tentam vender como escravos. Termina o enredo com esse grupo sendo libertado e tomando o primeiro contato com um entre-lugar chamado Los Angeles, onde darão início a uma longa caminhada que decerto levarão esses hunos a se tornarem bárbaros, depois estrangeiros, até que finalmente, depois de muitos choques culturais e econômicos, de muita resistência e de negociações políticas e culturais diversas, sejam aceitos como “cidadãos” de um mundo pós-moderno, onde impera o que Bhabha define por “multiculturalismo”. A “Babel no penhasco”, um entre-lugar chamado Los Angeles.

BIBLIOGRAFIA

 

BHABHA, Homi. O Local da Cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.

ELIAS, Norbert e SCOTSON, John. Os Estabelecidos e os Outsiders – Sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

FÉLIX, Loiva Otero e GOETTEMS, Miriam Barcellos (org.). Cultura Grega Clássica. Porto Alegre: Editora UFRS, 1989.

 

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