O despertar da consciência — com Gurdyeff e Ouspensky

O misterioso mago Gurdyeff atravessou a vida na busca pelo “Milagroso”. Já seu parceiro, Ouspensky, buscava o “Conhecimento Real” na conciliação entre espírito e matéria. Contudo, o que mais me chamou a atenção nos ensinamentos de Gurdyeff foi o fato de confessar que depois de andar por muitos povos e lugares, em parte alguma encontrou nada tão sublime e eficiente para o encontro do Paraíso quanto a imensa fé demonstrada pelos monges católicos em seus momentos de orações profundas

 

Gurdjeff, no fim dos tempos

Por Hugo Studart

Meus melhores valores éticos, a noção que tenho do certo e do errado, aprendi com meu pai, Jonas. Ele sempre esteve a meu lado, em todos os acontecimentos importantes. Principalmente quando eu estava errado. Por vezes com conselhos. Mas sempre com apoio. A disposição para curar as feridas e a força para escapar das armadilhas do mundo, vieram da minha mãe, Margarida. Quando em criança chegara em casa chorando, derrotado por algum menino mais forte, ela dizia:

“Volta lá e bate nele. Não importa se vai apanhar, mas volta lá e bate nele”.

Por vezes ela consegue ser sábia. Geralmente é apenas mãe. Já me deu alguns bons conselhos sobre manter a cabeça sempre erguida, mesmo quando derrotado.

“Em sua vida terão muitos galhos secos. Avance sempre. Se tropeçar em algum e cair, construa deles uma escada e suba de novo”.

Assim que caí do ninho para as armadilhas da vida, tive a sorte de encontrar dois grandes mestres. Meu professor Fernando, que me apresentou à Mitologia e aos clássicos do humanismo, como também iniciou-se nas sete artes liberais clássicas, a começar pela Lógica. Em nossas longas conversas sobre o horizonte e a construção do Destino, ofereceu a argamassa intelectual para fundamentar uma caminhada provida de valores.

Então surgiu Robyn Aragão, que me apresentou ao Desconhecido e ao misticismo esotérico. Com o guru, aprendi as primeiras técnicas e práticas para o autodesenvolvimento espiritual. Fernando e Robyin eram totalmente diferentes um do outro, o oposto contraditório. No meu coração, são complementares.

Como o primeiro amor, do primeiro guru a gente jamais esquece. Robyn era indiano. Seu nome Aragão vem do fato de ter nascido na cidade de Goa, antiga colônia portuguesa. Entendia em doze línguas, mas falava apenas oito com fluência. Um dia apareceu no Brasil, sabe-se lá vindo de onde, para fazer uma palestra em um congresso de ufologia. Gostou daqui e foi ficando. Abriu uma Escola de Autodesenvolvimento Harmonioso, que muitos dos alunos definam como sendo de magia mental. Assim como chegou do nada, um dia desapareceu sem deixar vestígios. Ele pregava o tempo inteiro a necessidade de controle da mente. Certa vez perguntei-lhe se acreditava na existência de Deus?

“Existe, mas está muito ocupado com as coisas grandes. Melhor ficarmos bons amigos dos espíritos mais próximos de nós”.

Robyin dizia que não adianta fugir de nossas provações, pois todos os lugares são iguais em violência e miséria; em decepções e sensações. E que a felicidade só poderia ser encontrada dentro de nós, a partir do despertar da consciência. Sempre dizia que todos os seres e todas as coisas são criações divinas, que o espírito de Deus estava presente em todos os homens, animais, plantas, e que até mesmo as pedras tinham uma espécie de alma. Portanto, que é preciso ver a manifestação de Deus em tudo e em todos.

Acreditava que devemos aprender a sentir as vozes das almas, pois todas elas, sejam dos homens ou das pedras, podem nos ensinar algo de bom, podem nos servir de remédio para o corpo, a mente ou para nosso espírito. Basta aprender a sentir-se no outro, coração com coração, pensamentos com pensamentos, nossa alma ao lado da outra alma. Que é preciso buscar as razões dos outros e a aprender a escutar as vozes dos espíritos.

“A vida é uma música com milhões de instrumentos tocando e vozes cantando, todos falando a língua dos anjos. Você só vai ser feliz quando aprender a escutar a música da vida, a escutar com atenção o que diz o coração do outro. Mas cuidado, porque os demônios também falam, eles passam o tempo inteiro disputando com os anjos nossos ouvidos”.

Robyin era um ser paradoxal. Conhecia e ensinava as mais eficientes técnicas de meditação e controle mental dos iogues hindus. Buscava ser um asceta, rejeitava o pensamento lógico e, aceitando a tradição védica da Índia, acreditava que o principal erro dos homens, a razão maior para a infelicidade, seria acreditar que o mundo material constitui-se a única realidade.

“Maya, maya, é tudo maya (ilusão)”, repetia o velho bordão hindu, popularizado no Ocidente a partir da obra Sidharta, de Hesse.

Entretanto, logo eu descobriria, Robyin não ensinava quase nada das tradições da Índia. Em verdade, era seguidor apaixonado dos ensinamentos de Gurdjieff, um misterioso mago originário no Cáucaso, que chegou à Rússia no início do Século 20 e acabou por disseminar pela Europa as danças sagradas dos sufis, uma seita de magos muçulmanos, e as muitas técnicas de controle mental dos sábios orientais. Foi ele, Georg Ivanovich Gurdjieff (1866-1949), o fundador de um grupo esotérico secreto, a Escola de Desenvolvimento Harmonioso do Homem, que propunha pesquisar e praticar um excêntrico conjunto de ideias psicológicas, cosmológicas e históricas, chamadas de o “Sistema”.

O jornalista Ouspensky

Assim como Sócrates só ensinava e seu discípulo Platão escrevia, Gurdjeff contou por alguns anos com um escriba-seguidor, Piotr Demianovitch Ouspensky (1878-1947), que deixou registrado os principais ensinamentos do guru a respeito da “busca pelo milagroso”, segundo suas palavras. Robyin apresentou-me também aos livros de P.D. Ouspensky, como gostava de assinar. Era um jornalista de sucesso na Rússia czarista, com luz própria, ideias singulares e que passou quatro décadas viajando pelo Oriente e Ocidente em busca de respostas.

Encontrou Gurdjeff em sua Rússia e juntou-se a ele por cerca de uma década ou mais. Até que divergiram. O misterioso mago era um otimista, aberto às mais excêntricas experiências na busca pelo Desconhecido. O jornalista asceta, por sua vez, era um pessimista. Os dois jamais explicaram as razões do rompimento. Mas o fato é que o legado de ambos se confunde; são dípticos, complementares, como Sócrates e Platão.

Ouspensky é respeitado por conta de uma obra notável, Tertium Organum, que trata da necessidade de ir para além do pensamento racional como o único caminho para se compreender a natureza do homem e as coisas do mundo. É um livro totalmente seu. Sua obra mais conhecida, contudo, é Em Busca do Milagroso, no qual retrata com precisão a essência do pensamento das técnicas de autodesenvolvimento apresentadas por Gurdjeff.

O pensamento dessa dupla misteriosa, em síntese, parte da convicção de que principal erro do homem na Terra é acreditar que o mundo material seria a única realidade. Nesse ponto, essa tese está em sintonia com a Alegoria da Caverna, de Platão. Essa ilusão material, explicam, seria a fonte da maior parte dos problemas humanos. As pessoas atravessam a existência lutando inutilmente em torno de questões irreais, deixando de lado o único problema realmente essencial, que seria a libertação do apego à matéria.

Ouspenski ataca o pensamento lógico e racional do Ocidente. Para ele, a Lógica aprisiona o homem no mundo material. A matéria e a Lógica são a substância da sugestão diabólica. Gurdjeff, por sua vez, vislumbrou muito antes de Einstein apresentar sua equação da relatividade, e=mc2, que matéria e energia são intercambiáveis, e que o nível de materialidade teria relação direta com o de consciência.

Mas haveria alguns segredos para a conquista da libertação do homem em relação à matéria. Em um de seus livros, Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido, Ouspensky relata que, depois de muitas décadas de busca, Gurdjieff concluíra que há basicamente três caminhos – o do faquir, o do iogue, o do monge.

O faquir submete-se ao jejum para alcançar estados alterados de consciência. Controla o corpo, ao ponto de não mais sentir as dores. A esmagadora maioria dos homens, lembra Gudyeff, de acordo com os registros de Ouspensky, é sinestésica. Assim, só consegue alcançar os estados alterados de consciência através de movimentos, como a dança, ou das religiões que fazem uso excessivo do corpo. As seitas afro, lembro eu, as congregações neo-pentecostais, ou mesmo o movimento católico-carismático.

O Caminho do Monge é o da fé, o das orações pela crença na existência de um Criador onde podemos encontrar todas as respostas às nossas dúvidas, as consolações para as nossas dores, e os milagres para nossos desejos. Por fim, o Caminho do Iogue, o do controle dos pensamentos, a chamada meditação, que era, por sinal, a estrada escolhida pelo meu primeiro guru, Robyin. Um caminho para raras pessoas. O iogue, lembra Gurdjieff, consegue em poucas horas alcançar os mesmos estados de consciência que o faquir leva dia.

Para Gurdjeff, todos os três caminhos são bons, todos podem levar o homem à felicidade na Terra a partir da libertação da matéria. Vai depender da característica pessoal do indivíduo. Alguns caminhos são mais rápidos que os outros, contudo. Assim, o homem pode alcançar o mesmo estado alterado de consciência através de 3 horas de dança, ou de 2 horas de orações, ou ainda 30 minutos de meditação.

O que mais me chamou a atenção nos ensinamentos desse mago, contudo, foi uma observação perdida em meio aos muitos escritos de Ouspensky. Gurdyeff contou ao amigo e seguidor que andara por muitos povos e lugares, conheceu muitas e muitas técnicas em sua busca pelo milagroso. Contudo, em parte alguma encontrou nada tão sublime e eficiente para o encontro do Paraíso quanto a imensa fé demonstrada pelos monges católicos em seus momentos de orações profundas.

Para aquele um mestre do caminho mental, enfim, a porta mais rápida para o Paraíso localiza-se no mesmo coração de onde emana a Esperança.

Curioso o fato de que nenhum dos gurus indianos jamais ter impressionado Ouspenski. Ele não estava interessado em cortar os laços com o Ocidente e tornar-se um monge budista, por exemplo. Estava mais interessado em entender a natureza do tempo e da eternidade. Ademais, ele andava em busca do “conhecimento real”, explicou, mas só encontrara “homens santos” no Oriente, que talvez tivessem conquistado a libertação interior, mas não podiam transmitir seus métodos as demais pessoas.

Os gurus tratam essencialmente da libertação através do autocontrole e do autoconhecimento, da própria evolução espiritual e humana através daquilo que, no Ocidente, conhecemos como o primeiro mandamento socrático: Conhece-te a ti mesmo. Assim como entre os gurus indianos, em nosso Ocidente, a proposta reconhece a espiritualidade e busca da sabedoria interior, que nos leva à moderação, à clemência, à misericórdia, ou seja, a todos os caminhos apontados pelos grandes profetas, como Moisés, Buda, Confúcio, Jesus e Mohammad. Pois a sabedoria e a moderação são as maiores virtudes dos grandes profetas. Juntas, induzem os homens a compreender o ponto de vista do outro, a aceitar o diferente, a reconhecer a diversidade.

Só isso já ajuda e muito a reduzir a violência e as tragédias do mundo. Mas que fique bem claro, caros leitores, que o caminho da libertação pela fé e pela sabedoria é um caminho individual, que não tem como proposta resgatar outros. E por isso é um caminho um pouco perigoso. Por que?

Perigoso, porque a qualquer momento uma tragédia coletiva pode tragar a todos, caso venha ocorrer aquele fenômeno que Isaiah Berlin conceituou como o conflito entre a liberdade “negativa” e a “positiva”. Vejam o exemplo do Tibete. Talvez seja o país mais espiritualizado do mundo, o mais moderado, o de maior número de sábios por habitante, o menos violento, o mais profundo na fé. A paz lá reinou por milênios. Até que um dia a Guerra Fria levou os chineses a invadir aquela nação pacífica, a oprimir o povo e a massacrar os monges a fim de lhe impor seus próprios conceitos de “igualdade” entre os homens e de “fraternidade” entre os povos.

Os chineses praticamente extinguiram com os mosteiros, exterminaram a bala os principais focos de oposição política, até mesmo janelas para a ventilação de ideias. Hoje querem acabar com a língua e a cultura local e ainda ameaçam todos os países do mundo que ousam cogitar o Tibete como uma nação independente da China. Enfim, ser o berço do Dalai Lama, possuir uma cultura que prega a religiosidade e a sabedoria, pode até estar ajudado os monges do Himalaia a encontrar a paz e a libertação interior. Mas a liberdade política não se encontra pela fé no Criador. Liberdade se busca pela luta na História.

Naqueles tempos de juventude, conversei muito com meu guru Robyin sobre a busca da Liberdade pelo Caminho da Fé. Procurei respostas em novos autores, avenidas e vicinais entreabertas a partir das primeiras leituras sobre o mago Gurdjeff e o pensador Ouspenski. Jamais obtive respostas absolutamente seguras, mas conseguir ao longo dos anos vislumbrar janelas bastante coloridas sobre a relação entre espiritualidade e a busca da felicidade. Mantiveram-se bastante vivas em minha memória três grandes ensinamentos.

O primeiro, bastante simplório, nascido das ideias do meu guru indiano – a de que não adianta fugir de nossas provações, pois todos os lugares são iguais em violência e miséria; em decepções e sensações. E que a felicidade só poderia ser encontrada dentro de nós, a partir do despertar da consciência.

A outra, do mago Gurdjeff – a de que todos os caminhos podem nos levar à libertação, mas que, de todos eles, a imensa fé demonstrada pelos monges dos mosteiros católicos seria a mais seguro e eficiente.

Por fim, a observação do crítico Ouspenski – a de que o Caminho do Iogue (e por extensão o dos monges) até poderia levar à libertação do indivíduo, mas não ao do homem socializado, ou seja, da Humanidade.

Tempos depois, a partir dos 30 anos, dei início a uma longa e curiosa jornada de visitar outras encarnações e, ao mesmo tempo, em busca do sentido da vida. Vida passadas? Mas não há comprovação científica de tal heresia – reagiriam os mais céticos. Ora, desde Platão, quando no diálogo Menon já se referia à possibilidade dos conhecimentos adquiridos em outras vidas, relevantes pensadores de todos os tempos, passando por São Tomás de Aquino (1225-1274) e Gottfried Leibniz (1646-1716), até chegar ao anarquista pós-moderno Noam Chomsky (1928- ), há teorias científicas sobre o que os acadêmicos chamam de “conhecimento inato” e de “experiências reveladas” para além dos cinco sentidos.

No meu caso, as “viagens” aos “conhecimentos inatos” não eram meros sonhos, eram visões reais. Acabei convencido de que fui monge em minha última passagem pela Terra. Pelo interesse pelos temas do Tibete e o respeito ao Dalai Lama, pela emoção que sempre vem quando escuto o som da trompa budista, ou a indignação visceral que sinto toda vez que penso na opressão dos invasores chineses àquele povo pacífico, pela preferência por frio e por montanhas, é bem provável que tenha vivido lá pelas bandas do Himalaia.

De acordo com as visões dessa viagem astral, quando morri, achei que iria ascender para um local de paz merecida. Então alguém lá de cima cobrou-me resultados que nada tinham a ver com a vida de contemplação na busca pela auto-elevação:

“Mas onde estão os outros? Volte lá e vá buscá-los”.

Ainda não sei se nascemos sem consciência ou apenas sem memória. Platão acreditava que todo conhecimento genuíno está localizado em nossa essência, e que, quando morremos, nossas almas reencarnam em novos corpos e o choque do nascimento nos faz esquecer tudo. A educação, portanto, seria um processo de rememorar o que já estaria dentro de nós. Leibniz dizia que a mente pode dar a impressão de ser uma tábula rasa no nascimento, mas em verdade contém conhecimentos inatos que a experiência vai revelando gradualmente. O fato é que certo dia acabei convencido de que deveria resgatar algumas pessoas para a vida espiritual no Paraíso. Quem? Quando? Como? Por quê?

Ainda hoje não tenho as respostas. Voltei a procura-las em Ouspenski, afinal, ele atravessou toda sua vida dilema semelhante. Buscava o que chamou de “conhecimento real”, para além da “libertação interior”. Em seus últimos tempos, logo após a Segunda Grande Guerra Mundial, o russo teceu autocriticas sobre suas próprias ideias.

Segundo ele, na juventude acreditava que a espiritualidade e o humanismo poderiam andar de mãos dadas se a religião fosse eliminada da primeira, e o materialismo do segundo. Disse então a um amigo, o escritor britânico John G. Bennet, que escrevera algumas notas com uma proposta nova, a de mostrar o papel do “Trabalho” como terceira força capaz de reconciliar espírito e matéria. Mas que ainda não encontrara uma maneira de tornar o tema suficientemente dramático. Faleceu antes de apresentar suas notas. Permaneço com a mesma voz ecoando em meus sonhos, mesmo quando acordado:

“Mas onde estão os outros? Volte lá e vá buscá-los”.

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