O Aniversário da Sra. Cohen

Como um fato tão banal quanto o aviso de aniversário pelo Facebook de uma senhora de meia-idade nos remete a um tal de Walter Benjamin, um judeu fumador de haxixe que  nos ensinou a usar as reminiscências da memória para fazer do presente um maravilhoso ponto de encontro da recordação com a esperança

Benjamin nos ensina a usar uma simples imagem, extraída de um album de família, como relevante fonte para a construção da História. À esq. estou eu, abraçado por Dayse Cohen

Por Hugo Studart

Dayse Cohen completa anos hoje, me avisa o Facebook. Nada mais banal do que uma senhora com aparência de meia-idade, mãe de família e trabalhadora completar aniversário. Só dentre minhas relações das redes sociais, todos os dias três ou quatro festejam suas datas. Um fato extraordinário, contudo, emerge desse evento banal em sua aparência. Dayse desperta-me reminiscências, relampejos de um tempo que se foi e não volta mais, memórias que, se trabalhadas e resiginificados da forma adequada, podem lançar luzes rumo à construção do futuro. Para mim –ou para os senhores, prezados leitores. Como assim?

Dayse, dit Corrêa de Mattos, é minha prima de primeiro grau. Grande amiga e confidente naqueles tempos de inseguranças e dúvidas das nossas adolescências no Rio de Janeiro. Éramos três de idades parecidas, Dayse, eu e nossa prima Márcia Corrêa Rodrigues. Dayse é filha da tia Haydée Alves Corrêa, irmã mais velha de meu pai Jonas, e de Moacir de Mattos. Adotou o sobrenome Cohen por casamento. Adotou também, por livre arbítrio, boa parte dos sistema de representações e de valores do marido, a ponto de submeter o bilau de seus filhos amados à faca amolada de um rabino inclemente. Pobrezinhos –ficamos todos nós, os familiares, muito condoídos.

O relevante nessa história é que o aniversário de Dayse pode nos remeter a um tal de Walter Benjamin, esse aí morto desde 1940, mas cujo pensamento pode nos ajudar a fazer bom uso das nossas memórias do passado. Quero versar um pouco sobre o pensamento de Benjamin para, ao fim e ao cabo, retornar à Sra. Cohen.

Benjamin era filósofo, sociólogo, romanista, grafólogo, teórico da história, das artes e da tradução. Alemão e judeu, era um marxista que se recusava a se organizar em partidos. Ao materialismo histórico, preferia a espiritualidade mística. Era também usuário de haxixe. Por conta dessa heterodoxia, até hoje a maior parte das academias européias de Filosofia não considera sua obra digna de estar entre os cânones do pensamento moderno.

Na América Latina, contudo, Benjamin tem sido considerado cada vez mais o “Filósofo das Vanguardas” por conta de sua tendência à ruptura e ao novo, sua rejeição ao dogmatismo e ao cientificismo das academias de seu tempo, por sua ousadia de “tentar inventar novas imagens para pensarmos nossos limites e fronteiras” (nas palavras de seu intérprete Márcio Seligmann-Silva), como também pelo seu método transdisiciplinar de pensar as Ciência Humanas, tendência da pós-modernidade, mas que Benjamin já a pregava e praticava nos anos 1930.

Sua Teoria da História e, sobretudo, sua visão teórica original sobre a memória, ou a mimesis, são pontos nevrálgicos da obra de Walter Benjamin. Ele foi crítico ácido e bem fundamentado do historicismo positivista do século 19, o modelo de escrita da História que privilegiava os documentos criados pelo aparato do Estado. Essencialmente, ele negou a possibilidade de uma História na base do “vale o que está escrito”, segundo a máxima do jogo-do-bicho, ou “tal como de fato aconteceu”, de acordo com o credo positivista, , e propôs resgatar a memória como meio de nos relacionarmos de forma positiva com o passado.

Para Benjamin, o registro da memória é mais aberto, aceita os testemunhos e as imagens (e não só a escrita burocrática), aceita inclusive a visão dos vencidos, nem se apega ao dogma científico das supostas neutralidades. Ele encontrou na obra-prima de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido (de sete volumes, escritos entre 1913 e 1927), a qual foi leitor obsecado e tradutor do francês para alemão, os fundamentos da compreensão do conceito de memória e, por conseguinte, da História e, talvez, da construção do futuro.

Benjamin observou que Proust, em sua busca pelo tempo perdido, não se propôs a simplemente revelar suas memórias, nem o acontecido tal qual teria ocorrido. Mas sua proposta foi a de buscar analogias e semelhanças entre o passado e o presente, relembrar os acontecimentos e subtraí-los às contingências do tempo em uma metáfora.

Concluiu Benjamin, no ensaio “A Imagem de Proust”, que o acontecido vivido é finito, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois.

“A eternidade que Proust nos faz vislumbrar não é a do tempo infinito, e sim do tempo entrecruzado. Seu verdadeiro interesse é consagrado ao fluxo de tempo sob sua forma mais real, e por isso mesmo mais entrecruzada, que se manifesta com clareza na reminiscência (internamente) e no envelhecimento externamente)”, explicou o próprio filósofo.

Proust também mostrou a Benjamin que a memória é sempre seletiva na construção do passado, e que é também a partir do esquecimento –tema este que já havia sido abordado por Nietzsche– que os fatos abrigados pela memória são reconstruídos.

Benjamin então buscou ampliar a visão sobre a memória, que ele, academicamente, preferia tratar pelo nome original em grego, mímesis. Ele distingue dois momentos principais da atividade mimética: não apenas reconhecer, mas produzir semelhanças.

Ou seja, a memória conserva os traços gerais do acontecido, mas a imaginação modifica e amplia. Assim, lembrar não seria apenas reviver o passado, resgatá-lo tal qual ele foi – ou acredita-se que tenha sido. Mas seria a reconstrução das experiências passadas no tempo presente.

Em outras palavras, nossa história vivida não passa de uma metáfora, uma representação do passado gravado na memória. É sempre seletiva, e o homem vive, em sua passagem pela Terra, uma incessante dialética entre a recordação e o esquecimento. Assim, cada indivíduo participa, simultaneamente, de vários campos da memória, conforme a perspectiva que se coloca e a sua retrospecção, de forma que passado, presente e futuro passam o tempo inteiro a se entrecruzar, criando novas possibilidades para nossa vida, transformando nossas vidas num eterno ponto de encontro da recordação com a esperança.

A esta altura os leitores estão a se questionar: afinal, o que essas teorias desse tal de Benjamin têm a ver com o aniversário da Sra. Cohen. Ora, as teorias foram objetos de reflexões meses atrás, durante a construção de minha tese de doutorado. Mas foi o aniversário da Sra. Cohen que me fez compreendê-las em sua plenitude, como num insigth, relampejos de luzes a atiçar minhas memórias.

Primeiro o Facebook avisou-me sobre o aniversário, fato tão banal quanto extraordinário. Em nossa sociedade da hiper-informação, as pessoas estão aparentemente próximas, mas de fato cada vez mais longe. Vejo a foto de Dayse, de outros primos e amigos quase todos os dias através do Facebook. Pessoas a quem amo, ou com quem vivi boas experiências. Mas o fato de estarem disponiveis através de uma rede social nos anestesia, nos prende à letargia, nos impede de procurá-las e, olho no olho, coração frente a coração, perguntar: “Como de fato você está?”. Tão perto, tão longe…

Família Alves Corrêa: meus avós Elvira e Generoso com os 12 filhos. Meu pai Jonas, o caçula, é o guri sentado em frente à mãe. Tia Haydée, mãe da Dayse, está sentada à direita, com o filho Nei no colo (reparem no penteado). Tio Moacir, seu marido, é o sujeito de bigodinho e semblante simpático atrás de Haydée

Ao ser avisado sobre seu aniversário, veio-me uma boa lembrança sobre Dayse. Fui então escarafunchar meus arquivos, em busca de alguma imagem que pudesse homenageá-la. Encontrei! Aí está a ilustrar esta crônica. Um instantâneo onde aparecem, da esquerda para a direita, este escriba, então com seus 14 ou 15 anos, calça boca de sino e camisa listradinha; Dayse me abraçando com carinho, um imenso carinho que sempre nutriu por mim; depois vem meu pai Jonas, com minha irmã Anelisa no colo; a seguir tio Moacir, pai de Dayse; meu irmão Rodrigo e minha prima Carla, neta de Moacir, filha do primo Nei. Ela tem dois irmãos mais velhos: Nei e Odinei –e por ambos tambémn nutro imenso carinho, cada um de um jeito diferente.

Ora, observando-se essa imagem e buscando seus significados, emerge um turbilhão de emoções e de reminiscências positivas, cujos detalhes deixariam entediados os senhores, prezados leitores. Basta saber que são memórias de um tempo repleto de sonhos e de esperanças, quando a família acabara de se mudar para o Rio de Janeiro. E também de dúvidas e inseguranças.

Três primos adolescentes e com idades parecidas, Dayse, Hugo e Márcia, muito se encontravam e conversavam. Vivenciei com elas, por exemplo, as primeiras experiências místicas –aquela brincadeira do copo que abrigaria um espírito a dar respostas através de letras. Vivenciei com o pai da Márcia, tio Haroldo Rodrigues, as primeiras experiências subindo montanhas.

Essas memórias de um tempo perdido, como as de Proust, só têm relevância caso eu consiga resignificá-las com a visão do presente –mas sempre em busca de um tempo futuro. As recordações de Jovens que nutriam sonhos e que, mesmo cheios de inseguranças, eram tomados de esperanças. Lembranças sobre uma família que se frequentava e de adolescentes que se amavam e se ajudavam. E, hoje homens e mulheres de meia-idade, ainda se ajudam sempre que acionados.

São esses sonhos e esperanças, hoje despertados através de uma fotografia antiga, que vêm a nutrir nossos corações no presente. E que jogam suas luzes em direção ao futuro.

Assim, meus caros leitores, quando o Facebook lhes avisar que alguém está completando aniversário, tentem parar por alguns instantes a fim de buscar imagens em suas memórias. Pode ser que esse fato tão banal quanto extraordinário, possa vir a se transformar em uma ponto de encontro da recordação com a esperança.

Ultima imagem qie tenho do tio Moacir, em festa de aniversário de 92 anos, no apt da Dayse. Da esq. para a dir.: Tia Vera, mãe da prima-amiga Márcia; Moacir, eu, Adriana, minha mãe Margarida Studart, e tia Hayddé.

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