abr 12, 2014

Número de camponeses mortos no Araguaia pode chegar a 31

Pesquisador aponta que 76 pegaram em armas ou apoiaram guerrilheiros (Reportagem publicada por “O Globo”, edição de domingo, 12 Abril 2014, pág 11)

por Cleide Carvalho

SÃO PAULO — O número de camponeses que tiveram participação ativa e morreram durante a Guerrilha do Araguaia, entre 1967 e 1974, pode ser maior do que consta em registros históricos. A tese de doutorado apresentada à Universidade de Brasília (UnB) em fevereiro pelo jornalista e historiador Hugo Studart reúne 31 nomes de camponeses mortos e de dois desaparecidos na guerrilha. Apenas as 12 mortes apresentadas como casos consolidados — com histórias conhecidas por militantes de direitos humanos e moradores da região — representam o dobro do número de camponeses do Araguaia listados pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, da Secretaria de Direitos Humanos. Segundo o coordenador da Comissão, Gilles Gomes, dos 148 desaparecidos políticos brasileiros, 70 participaram da guerrilha, dos quais 64 eram militantes políticos e seis eram camponeses.

Segundo Studart, os nomes que emergem da pesquisa mostram que 76 camponeses pegaram em armas ou serviram de “apoio forte” aos guerrilheiros — ou seja, ajudaram as forças guerrilheiras conscientes do que estavam fazendo, arriscando suas vidas. É quase o mesmo número de militantes comunistas, que somavam 79 quando os conflitos começaram, em 1971.

— Meu objetivo foi montar o quebra-cabeças de informações e dar voz aos anônimos e esquecidos. Os camponeses foram relegados a mera estatística pelos grupos de direitos humanos, que se preocuparam apenas com os guerrilheiros, a maioria estudantes de classe média e profissionais liberais — diz Studart.

Criméia Alice Schmidt Almeida, ex-guerrilheira e militante do PCdoB, explica que apenas seis nomes de camponeses foram incluídos no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos por falta de informações. Segundo ela, havia certeza do engajamento de apenas dois camponeses — Luis Vieira de Almeida e Antônio Alfredo Lima, ambos mortos em 1973 e considerados desaparecidos.

Como observador da Universidade de Brasília (UnB) no Grupo de Trabalho do Araguaia (GTA) desde 2009, Studart afirma ter reunido cerca de 15 mil documentos sobre a guerrilha — alguns oficiais e outros sem timbre ou carimbo dos respectivos órgãos. Segundo ele, um relatório da agência do SNI em Marabá informa que até 15 de novembro de 1973 haviam sido presos 161 camponeses considerados “apoio” dos guerrilheiros e outros 42 estavam sendo procurados. Ou seja, o SNI havia identificado 203 camponeses ligados à guerrilha.

 

Exército: 36 nomes de ‘apoios fortes’ à guerrilha

Durante sua tese, o jornalista e historiador Hugo Studart usa ainda como fonte de comparação de dados a reprodução de um documento atribuído ao Centro de Informações do Exército. Nele, militares identificam 36 nomes de “apoios fortes” à guerrilha, em maioria coincidentes com os do SNI. Além de apresentar novos nomes, o documento relaciona 10 camponeses mortos. Outros 142 camponeses são apresentados como “apoios fracos” aos guerrilheiros, sem participação política direta.

— O PCdoB só conhecia o nome de três mortos e contabilizava 18 moradores da região que aderiram à guerrilha — diz Studart, lembrando que a lista de mortos pode ser dez vezes maior do que a elaborada pelo partido.

Segundo Studart, é certo que a adesão dos camponeses à guerrilha foi maior do que a descrita. Ele cita Adalgisa Lopes, dona de casa. Moradora de São Domingos do Araguaia, Adalgisa teria participado da logística de assalto a um posto da polícia na Transamazônica. O marido, Frederico Lopes, também aderiu.

Para o Exército, os camponeses eram caboclos que só conheciam a “lei do mais forte” e precisavam ser tratados com “rigor”. Já Maurício Grabois, comandante da guerrilha, registrou em seu diário: “Sobre a atitude da massa, podemos afirmar que é de profunda simpatia em relação à nossa luta e de condenação às forças da repressão”.

Maria Rita Kehl, da Comissão da Verdade, entrevistou 14 camponeses no Araguaia, a maioria sobrevivente da guerrilha. Ela ressalta que, dos mortos listados por Studart, sete foram assassinados ao lado de guerrilheiros.

Rita lembra ainda a tortura sofrida pela família de José Ribeiro Dourado. A mulher dele, Madalena, contou que ele foi morto por dar comida ao guerrilheiro Osvaldão. Disse ainda que seu filho mais velho, Deusdete, foi preso. Libertado, entrou em depressão, ficou alcoólatra e enlouqueceu. A mãe só soube depois o que houve: o rapaz fora obrigado pelos militares a cortar a cabeça do pai morto. Antes de morrer, ele teria mostrado o local onde cabeças foram enterradas na base militar de Xambioá.

 

Leia mais sobre esse assunto em

http://oglobo.globo.com/pais/numero-de-camponeses-mortos-no-araguaia-pode-chegar-31-12181391

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