Nietzsche e a Auto-Ilusão

Busquemos no pensamento Nietzsche o arcabouço teórico para compreender o imaginário e sua utilização metodológica na análise da História. Coube a Hidden Write[1] a árida tarefa de analisar as teorias sobre o Imaginário encontradas ao longo da obra do filósofo alemão, autor da polêmica idéia do Ubermensch[2], o sobre humano, e dar às mesmas a roupagem historiográfica. A idéia central de Nietzsche, segundo seu intérprete, é a de que a história não é como um fim, mas como um meio ela perpassa todas as outras ciências. Sobre a “objetividade da história”, Nietzsche escreveu que a objetividade é “composição” em sua forma mais elevada, “cujo resultado será uma imagem artisticamente, mas não historicamente, verdadeira”. Segundo Write, isso significa que o saber histórico, que se distingue do conhecimento ou da informação histórica, é percepção, fabulação dramática ou, como o próprio White a denominou, “elaboração de enredo”. Segundo ele, Nietzsche sustentou que, de fato:

“Poderia haver uma espécie de escrita histórica que não contivesse um pingo de realidade, e que, no entanto, fizesse jus a ser considerada objetiva no mais alto grau. (…) Portanto, preveniu Nietzsche, essas concepções de ‘objetividade’ deve ser usada com cautela. Não se deve presumir que haja alguma ‘oposição’ entre a ‘ação humana e o processo do mundo’. Eles são a mesma coisa[3]

De acordo com Nietzsche, a forma mais destrutiva de ilusionismo é a que transforma uma imagem num conceito e depois congela a imaginação dentro dos limites estabelecidos pelo conceito. Ele compara o poder dinâmico de produzir imagem a um dom, semelhante ao dos deuses helênicos Apolo e Dionísio, que é, por conseguinte, uma síntese viva de forma e movimento, estrutura e processo. Felizmente, prosseguiu Nietzsche, o homem possui a faculdade de esquecer o que sabe – “mais até, uma aptidão para negar o que sabe; conta com uma capacidade de sonhar, de se deleitar nas imagens, e de revestir o terror, a dor e o sofrimento causador pela consciência de sua finitude com sugestões oníricas de imortalidade”, explica Write:

“Ela pode embruxar-se, evadir-se para o interior de uma metáfora, oferecer uma ordem e uma forma críveis à sua vida, agir como se a metáfora fosse a verdade, e converter a consciência de sua iminente destruição numa ocasião de afirmação heróica”[4].

Em Nascimento da Tragédia, ainda de acordo com a interpretação de Write, Nietzsche caracterizou essa aptidão inconfundivelmente humana para a auto-ilusão numa brilhante inversão de figuras que faz lembrar a metáfora do Sol no início da Filosofia da História de Hegel.

“Depois de uma vigorosa tentativa de fitarmos o Sol, e tão logo desviamos a vista, temos, quase como um remédio, pontos escuros diante dos nossos olhos. Inversamente, as imagens luminosas dos heróis sofoclianos –aquelas máscaras apolíneas– são as produções necessárias de uma visão profunda do horror da natureza; pontos brilhantes, por assim dizer, destinados a curar um olho ferido pela treva insondável”[5].

 


[1] WHITE, Hidden. “Nietzsche – A defesa da historio no modo metafórico”. In WHITE, HIDDEN. Meta História. São Paulo : Edusp, 1995.

[2] Significa, literalmente, “sobre humano”, mas tem sido erroneamente interpretado como “super homem”. Tal distorção foi utilizada pelos nazistas para justificar a suposta superioridade dos arianos.

[3] Idem, pág. 360.

[4] Ib..

[5] Idem, pág. 355.

Esta entrada foi publicada em Pensamentos e marcada com a tag , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *