Mimi e o jornalismo do baixo clero

A morte do colunista social Emivaldo Silva, o folclórico Mimi, de Brasília, trás lições aos jornalistas sobre a relevância de valorizar as fontes do baixo clero. E aos historiadores, sobre a pertinência da história contada de baixo, sem heróis, estadistas ou superestruturas marxistas

 

O saudoso Mimi, com alguma socialite

Por Hugo Studart

Mimi se foi para sempre. Li no Correio Brasiliense de domingo 13 de julho, que o colunista social Emivaldo Silva, o Mimi, que publicava suas gossips no Jornal de Brasília, entre outros órgãos, faleceu aos 51 anos, vítima de um AVC. Estava com uma barriga enorme, pornográfica.

— É tudo champanhe francês e caviar Beluga – respondeu-me recentemente, às gargalhadas.

A maior parte dos jornalistas da capital o desdenhava. Em especial os jornalistas políticos e econômicos. Com seu jeito debochado, trejeitos de homossexual afetado, muito afetado, mulato e sem refinamento cultural, os coleguinhas não o queriam por perto. Mimi era o ícone do baixo clero do jornalismo federal.

Eu gostava dele. Quando fez 50 anos, deu um festão para comemorar. Não pude comparecer, mas dei uma nota na coluna que eu assinava na IstoÉ, “Brasil Confidencial”.  Muitos entranharam. Mas homenageando-o em vida, estava retribuindo muitos favores. Mimi era uma das minhas boas fontes de informações. Fonte de notas, de pautas, de bastidores. Quando eu esgotava a garimpagem entre as “altas fontes”, muitas vezes vinha o insight: “Mimi vai me salvar!”.

— Mimi, me conta quem agora está comendo quem?

— Ah, meu bem, você sabe que aqui todo mundo come todo mundo… ah, lembrei, o Fulano virou amante da mulher do Sicrano.

— É verdade que o deputado Tal virou marreca?

— Ihhh, amiga, agora ele é aaaaamiga. Imagine que…

Eu começava assim mesmo as conversas, com uma frase rasteira e palavras de baixo calão. E daí? Uma das lições básicas da entrevista é conseguir sintonizar ao máximo com o entrevistado. De que adianta ao jornalista se manter no pedestal, distante da fonte, para deleite de seu próprio ego – e desgraça da reportagem?

Mimi sabia (quase) tudo o que acontecia no submundo da corte brasiliense. Entrava em todas as festas, relevantes ou não, como penetra ou convidado de honra, pouco importa. O que importa é que ele estava lá, fotografando, bebericando, escutando… Muitas socialites lhes faziam confidências, inclusive sobre os negócios dos maridos e bastidores da política. Muitos maridos não o levavam à sério e acabavam revelando o que não podiam na frente de Mimi.

— Outro dia a Moema Leão…

Hummm, Moema Leão, mãe da Viviane, mulher do Nélson Piquet… a medida que os mexericos fluíam, eu ia fazendo as conexões na cabeça. Saía daí uma pauta econômica sobre o Piquet. Ou boas informações sobre Lula ou Marisa Letícia; sobre a guerra fratricida entre os empreiteiros J.C. Gontijo e Fernando Queiroz, da Via Engenharia; ou ainda as últimas de Paulo Octávio e da família Kubistchek (para quem não sabe, o senador Paulo Octávio, atual vice-governador do Distrito Federal, quase R$ 1 bilhão de patrimônio, é casado com Anna Christina, neta de JK).

Mimi não tinha uma noção muito clara sobre o que dava uma boa nota, o que era um grande furo ou uma simples fofoca. Era preciso prospectar, com paciência. O jornalista precisa saber prospectar informações. Cada fonte de um jeito, uma abordagem singular.

A vida e a morte de Mimi é uma lição de humildade para os profissionais da informação. É uma lembrança de que é preciso tratar com deferência também o baixo clero. O colunista social sem refinamento intelectual, por exemplo, o motorista, a secretária, o caseiro. Pois um dia podemos estar diante de uma fonte relevante, apesar de ser do baixo clero. Alguém como o motorista Eriberto França (que derrubou Fernando Collor), a secretária Fernanda Karina (que revelou o mensalão e o Marcos Valério) ou um caseiro como o Francenildo Costa (que arriou Antônio Palocci).

Jornalistas têm muito em comum com os historiadores. Nos temas de interesse, na metodologia. Em priscas eras, os historiadores costumavam se debruçar somente sobre os grandes feitos, os heróis, os estadistas. Vide nosso jornalismo político. Depois apareceu o método de análise marxista, no qual analisar as estruturas econômicas é o que importa. Vide nosso jornalismo econômico.

Nos últimos 20 anos, crescem novos métodos de pesquisa e análise da história, quase todas provenientes da História Cultural. Eu, por exemplo, sou adepto dos estudos do Imaginário, um ramo da História Cultural. Há ainda a micro-história, a história do cotidiano. Isso é para preparar a última observação:

Quem não quiser mirar em Mimi como lição para se valorizar as fontes do baixo clero, os que vêm de baixo, ou prestar atenção nos pequenos detalhes, pode ler textos de pensadores renomados como Peter Burke e Carlo Ginzburg. Recomendo um livro, “As Muitas Faces da História”, de Maria Lúcia Pallares-Burke (Editora Unesp), pertinente também para jornalistas. Um livro que Mimi certamente não leu.

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