INVENTARIANDO O CORPUS E A PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA – “O Imaginário dos Militares sobre a Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, Cap. 1)

 

“A história das coisas feitas

 só sobrevive se for narrada,

se o que é dito, for bem ”

Hannah Arendt

1.1 – O Despertar Pessoal

 

Ao versar sobre o conceito de História, Benjamin explicou ser impossível conhecer todo o passado, em sua plenitude, da maneira exata que os fatos se deram em seu tempo. Para o pensador, articular o passado historicamente não significa conhecê-lo como ele de fato foi, mas “significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo”[1].

Há muito que os fatos que ocorreram na Guerrilha do Araguaia me despertam inquietações. Há 13 anos que acalento o projeto de conhecer esse pedaço da nossa história em sua plenitude, embora agora eu tenha consciência de que não conhecerei a maneira exata como aqueles fatos se deram. Reconheço essa impossibilidade, exposta com extrema clareza por Benjamin, mas ousarei reconstruir lembranças de outrora ainda próximas do presente. Benjamin também alerta que essas lembranças podem ser rememoradas tanto sob a ótica dos vencidos quanto dos vencedores – e o perigo se impõe ao reconstruí-las somente sob a visão da historia oficial. Nesse sentido, esta pesquisa tenta ir além dos parcos documentos oficiais públicos. Ela escava fatos ainda não conhecidos publicamente.
Na manhã de 20 de janeiro de 1992, quando o governo de São Paulo deu início à cerimônia de abertura para o público dos arquivos do extinto Departamento de Ordem Política e Social, criados pela ditadura do Estado Novo, o DOPS[2], um adolescente imberbe chamava-me a atenção. Postava-se em um canto do enorme salão empoeirado de um depósito do Arquivo do Estado, sozinho, visivelmente deslocado entre uma centena de autoridades públicas e militantes políticos, quase todos com mais de 50 anos. Eu participava daquela cerimônia na condição de jornalista, trabalhando para o jornal Folha de São Paulo. Mas o adolescente era um corpo estranho naquele ambiente pesado. Muito nervoso, andava de um lado para outro, ameaçava abordar o governador, recuava, tentava de novo. Aproximei-me para tentar entender por que aquele garoto estava ali.

Seu nome é João Carlos de Almeida Grabois, o Joca, e tinha acabado de fazer 18 anos, como me contou. Revelar a sua identidade facilitou a reconstrução da sua história familiar. Ele é neto de Maurício Grabois, codinome “Velho Mário”, comandante-em-chefe das Forças Guerrilheiras do Araguaia, movimento de luta armada desencadeado pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B) no coração das selvas amazônicas, entre 1966 e 1974. Velho Mário levou o filho André Grabois para a aventura na mata. André tombou em combate, aos 26 anos[3]. Jamais viu seu filho. Quando se descobriu, em agosto de 1972, que sua companheira estava grávida – a guerrilheira Criméia Alice Schmidt de Almeida[4]– os comandantes da guerrilha a enviaram de volta a São Paulo. Foi presa pelos militares quatro meses depois. A criança nasceu em uma prisão do Pelotão de Investigações Criminais do Exército, em Brasília, em fevereiro de 1973. Foi entregue a seguir aos tios-avós maternos, em Belo Horizonte. Joca Grabois cresceu em São Paulo, com a mãe, mantendo contato com a família paterna, emocionando-se com as histórias que lhe contavam a respeito do pai-herói, como o relato de Ângelo Arroyo, no qual André foi descrito como um “homem capaz e um dos mais puros revolucionários”, além de um “excelente comandante”, cujo “primeiro erro que, no entanto cometeu, foi-lhe fatal”[5]. Diziam, os que conheceram André, que a cada dia Joca ficava mais parecido com o pai.

 

Joca jamais vira a imagem do pai adulto, só fotografias de André quando criança ou adolescente. Quase todas as fotografias foram destruídas por ordem do partido, quando ele caiu na clandestinidade, ainda em 1964. Desde a primeira infância, Joca vinha procurando alguma imagem paterna. Procurou junto a familiares. Conversou pessoalmente com os dirigentes do Partido Comunista do Brasil, o PC do B, do qual seu pai André era militante e seu avô, Maurício Grabois, havia ajudado a fundar. Foi até o líder João Amazonas[6]. Tudo em vão. Os arquivos do DOPS eram uma esperança. Sensibilizado com a história, conduzi Joca sem demora ao governador Luiz Antônio Fleury Filho. Juntos, governador e adolescente procuraram num armário de ferro a gaveta “G” de Grabois. Nada, nenhuma fotografia. Tentaram na gaveta “A” de André e de Araguaia. Nada. Joca chorou ali mesmo. Batizado de João Carlos em homenagem ao guerrilheiro João Carlos Haas Sobrinho[7], mas chamado de Joca em homenagem ao guerrilheiro Líbero Giancarlo Castiglia[8], codinome Joca, o jovem Grabois então passou a procurar por pistas sobre o local onde o corpo de André se encontra enterrado. Nada. Publiquei sua história em reportagem na primeira página da Folha de S.Paulo[9].

 

Anos depois, em dezembro de 1997, quando pesquisava informações sobre um assunto correlato – as circunstâncias que levaram ao cerco e à morte da guerrilheira Iara Iavelberg[10]-, me encontrei em Brasília com um militar, coronel na reserva[11], antigo membro dos órgãos de informações e repressão que havia participado do episódio da Guerrilha do Araguaia. Contei-lhe a história de Joca Grabois e lhe pedi que procurasse nas repartições militares alguma fotografia do pai-guerrilheiro. O militar buscou nos arquivos em Brasília, aos quais tinha acesso. Mobilizou outros militares no Rio de Janeiro e São Paulo e, dias depois, respondeu que, infelizmente, nada encontrara. Procuraram inclusive nas fotografias de passeatas estudantis. Existira, sim, uma fotografia de André morto, mas teria sido destruída em fins de 1974, junto com outros documentos da guerrilha. Havia ainda uma chance, informou o militar: a Polícia Federal, responsável pela emissão de passaportes. Afinal, André partira do Brasil em 1964 para treinamento na Academia Militar de Pequim, China. A última tentativa foi igualmenteem vão. O jovem André provavelmente havia saído do Brasil com passaporte falso. Saíra, descobri mais tarde, com o nome falso de José Vieira Júnior. Por esse caminho tortuoso, despertei interesse sobre o Araguaia. Novos encontros foram marcados para que o militar contasse o que sabia sobre a guerrilha.

1. 2 – A Construção do Dossiê Araguaia

 

Na conversa com esse militar sobre a Guerrilha do Araguaia, a idéia inicial era fazer um trabalho jornalístico sobre o tema, mostrando os discursos[12] das Forças Armadas sobre os acontecimentos. Nas semanas subseqüentes, o militar apresentou outros colegas de corporação que também haviam estado no Araguaia. Colhi alguns depoimentos orais, relatos sobre fatos isolados. O mais importante, contudo, foi dar início ao conhecimento mútuo, ganhar sua confiança para convencê-los a revelar os segredos que guardavam sobre esse período da história brasileira e a importância de enfrentar esse momento, esse passado, essa história.

 

Havia uma dificuldade extra: a busca de documentos. Quase três décadas depois do início dos conflitos no Araguaia, os protagonistas com poder de decisão ou estavam mortos, ou na reserva, portanto sem acesso aos arquivos dos quartéis. Seria preciso, então, contar com a ajuda dos comandantes ainda na ativa. Ajuda, essa, informal, extra-oficial, posto que a subtração de documentos das repartições públicas, notadamente de documentos secretos, fere o Regulamento Disciplinar das Forças Armadas, ponto relevante para um militar. Ainda que subtrair documentos seja crime também previsto no Código Penal, para eles a lei dos civis é secundária. O que vale é o Regulamento Disciplinar.

 

Mesmo acessando os arquivos, seriam pequenas as chances de encontrar algum que revelasse a história detalhada, alertaram os militares. Os principais documentos teriam sido quase todos queimados em fins de 1974, assim que se concluiu que a guerrilha já havia sido destruída. Mas haviam, ainda, muitos documentos dispersos sobre a Guerrilha do Araguaia ou nos próprios arquivos militares – cópias indexadas em outras gavetas ou pastas, como PC do B -, ou dispersos em processos arquivados na Justiça Militar. A maior parte, contudo, estava guardada nos arquivos pessoais dos oficiais de Inteligência que atuaram no Araguaia, ainda que não fosse uma prática comum levarem documentos classificados para casa. Contudo, muitos militares levaram papéis para casa, como recordação das ações no Araguaia. Seria preciso encontrar o paradeiro de cada um. As principais fontes, entretanto, foram as memórias dos que estiveram no front, os depoimentos orais, suas narrativas, enfim, os

 

“documentos vivos, que denunciam costumes, mentalidades, diferenças sociais e poderes de uma época; oferecem informações históricas, sociológicas e antropológicas”[13]

 

Em meados de 1998, havia militares dispostos a relatar a “versão” das Forças Armadas sobre a Guerrilha do Araguaia. Uma parte deles estava disposta a pesquisar – seis no início, depois quatro. Outros pretendiam somente prestar depoimentos ou informações. Dois desses militares, ex-integrantes dos órgãos de Inteligência e repressão durante o regime militar, acabaram tomando a frente dos trabalhos, sempre com a minha participação. Ao longo de quatro anos, a equipe de pesquisa recebeu apoio de 27 militares em postos e graduações diferentes, de soldado a general, da ativa ou na reserva, incluindo oficiais-generais da ativa. Agiram das mais diversas formas.

 

Alguns copiaram documentos – ou simplesmente entregaram os originais que haviam guardado, como favor pessoal entre amigos. Outros prestaram depoimentos, longos ou curtos, gravados ou anotados, ativando suas memórias, recordando acontecimentos, conferindo informações. Foram esclarecidas dúvidas e comparadas versões conflitantes. Os pesquisadores militares também enfrentaram dificuldades. Um brigadeiro, chefe do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica na ocasião, soube que a pesquisa estava sendo feita e proibiu expressamente seus subordinados de prestarem qualquer ajuda. A ordem foi obedecida. Os autores do Dossiê acabaram tendo acesso aos documentos desejados, por outros meios e sem dificuldades maiores. Veteranos do ofício, eles conhecem os caminhos subterrâneos dos centros de inteligência militar. E sabiam que esses documentos desejados ainda estavam em outros arquivos oficiais.

 

Cabe aqui esclarecer que a maior parte dos documentos encontrados não passava de fragmentos da história. Sozinhos, não tinham sentido. Examinados por um leigo, pouco ou nada esclareciam. Havia, por exemplo, dezenas de folhas soltas, com carimbos de “confidencial” ou “secreto”, mas descoladas das páginas iniciais ou finais, sem datas, sem títulos, sem contexto.  Em muitos casos, não dava sequer para saber sobre qual assunto tratavam. Foram raros os documentos operacionais encontrados, aqueles que relatavam os combates. Com esses, seria possível rastrear os locais onde cada guerrilheiro teria sido enterrado. Como arqueólogos diante de fragmentos de ossos ou peças de argila, os militares utilizaram esses documentos muito mais para orientar suas memórias e, depois, narrar aquilo que seus imaginários acreditavam ter sido a Guerrilha do Araguaia. Explica Olgária Matos,

 

“a possibilidade de contar e ouvir ‘estórias’ é tecida pelo próprio esquecimento, esquecimento que permite narrar uma mesma história, sempre a mesma e sempre outra, pelas lacunas abertas pela nossa própria indeterminação, indeterminação pela qual se exerce a ação de tempos heterogêneos e que configuram nossa identidade” [14].

 

Na seqüência, cruzaram seus próprios dados com as informações já divulgadas pelo PC do B. No primeiro ano, fiquei responsável pela pesquisa de documentos públicos, como livros, reportagens e depoimentos. A cada documento novo que eu entregava aos militares, mais detalhes vinham às suas memórias[15]. Com o tempo, fui participando das narrativas dos militares, até que pude conversar pessoalmente com 12 daqueles militares que ajudaram desde o primeiro momento. Acabei depositário de boa parte dos documentos originais que sobraram do episódio, como mapas e relatórios secretos das operações de infiltração e espionagem. Também foram procuradas fotografias de André Grabois.

 

Entre março de 2000 e maio de 2001, os dois militares que tomaram a frente dos trabalhos de pesquisa produziram um relatório pormenorizado, sistematizando as informações recolhidas. Não participei da redação nem fiz qualquer interferência no conteúdo. Tomei conhecimento do texto só depois de pronto. Contudo, ajudei os militares na pesquisa de novos documentos ou dados que me foram solicitados. A primeira versão do texto tinha 387 páginas e tornava públicos documentos sobre o Araguaia que haviam sido apreendidos pelos órgãos de repressão. Alguns deles ainda inéditos, como o Diário do Velho Mário, de autoria do comandante-em-chefe das Forças Guerrilheiras, Maurício Grabois, codinome Mário – ou Velho Mário, como era tratado pelos próprios companheiros. Outros documentos já divulgados, que serviram como objeto de análise e referência.

 

Os militares envolvidos na pesquisa começaram, então, a lapidação desse grande relatório, ou seja, o processo de confirmar informações, corrigir dados, retirar os excessos e as informações repetidas. Segundo os autores do Dossiê, tratou-se de processo necessário no sentido de tornar o texto mais “enxuto”, mais claro. Eles também “lapidaram” trechos ou informações que poderiam provocar polêmicas entre os próprios militares. Assim, mesmo com todo o trabalho de pesquisa e análise empreendido pelos militares, como membros das Forças Armadas, como homens de Estado que foram, enfim, eles avaliaram ter razões para o cuidado de conjurar certos perigos nas informações a que tiveram acesso. Foucault, em suas análises sobre os procedimentos de exclusão, prefere utilizar o termo “interdição” no lugar de “lapidação”, visto que

 

…em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade”[16]

 

De sua terceira e última versão, já “lapidada”, foram excluídos os apêndices com os documentos. A redação do trabalho terminou em junho de 2001. Seus autores batizaram-no de Suplantando a Guerrilha. Avalio que se trata de um livro quase acabado, um amplo estudo que analisa sob a ótica dos militares a história da luta armada no Brasil, tanto a urbana quanto a rural. Esse trabalho também apresenta os fundamentos doutrinários das guerras insurrecionais, onde entram as rebeliões, guerras civis, revoluções e as guerras de partisans, nome universal das guerras de guerrilha[17]. Seus organizadores pretendiam registrar a história da luta armada no Brasil para que servisse de fonte de consulta nos estabelecimentos militares, principalmente nas academias militares.

 

Os conflitos do Araguaia são parte desse trabalho maior – Suplantando a Guerrilha. Contudo, é a parte que os autores trataram com maior ênfase. Essa parte específica sobre o Araguaia tem, na versão final, 174 páginas. Decidi batizá-la, sob a concordância dos autores, de Dossiê Araguaia. Trata-se, avalio, do único relato detalhado até hoje produzido sobre as ações, estratégias, objetivos e versões dos militares brasileiros durante o conflito do Araguaia, revelador de seu cotidiano e do imaginário social que orientou aquelas ações, formas de pensar, sentir e inferir sentido às suas experiências.

 

Os pesquisadores do Dossiê Araguaia preferiram manter suas verdadeiras identidades ocultas até o falecimento de todos da equipe. Tal decisão, justificaram eles, foi tomada para proteger seus familiares. Um dos militares que mais ajudaram, por exemplo, tem um filho que, na presente data, trabalha na Presidência da República, justamente no Gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esses militares serão doravante tratados, de comum acordo, pelas identidades “frias” que adotaram no Araguaia.

 

A coordenação geral da pesquisa coube a um coronel, na reserva, doravante tratado pela identidade George Costa, o “Dr. George”[18], codinome que de fato utilizava durante da Guerrilha do Araguaia, quando era um ativo oficial da inteligência militar. Entrou para a área de informações em 1966, quando começou a servir em diferentes órgãos de inteligência que foram sendo montados pelo regime militar. Era especializado na área de “operações especiais” [19]. A partir de 1969, organizou redes urbanas de informantes, treinou civis e militares nos métodos de espionagem[20]. Participou de ações de repressão, principalmente no paralelo acima do Distrito Federal. Entrevistou mais de uma centena de presos políticos, segundo sua própria contabilidade[21]. Seu nome verdadeiro não se encontra na relação de torturadores denunciados no livro Brasil: Nunca Mais[22]. Nem seu codinome. Seu trabalho principal na repressão era o planejamento e levantamento de organizações guerrilheiras, tanto urbanas quanto rurais. Especializou-se em infiltrar agentes nos grupos de esquerda, tanto os brasileiros como, também, no Cone Sul[23].

 

No Araguaia, Dr. George acompanhou de perto a mobilização militar desde o seu início, em 1972. Na ocasião, tinha a patente de tenente-coronel. Coordenou durante todas as campanhas equipes de inteligência militar, que apoiavam as tropas de combate. Foi um dos oficiais mais graduados que atuaram durante a fase invisível da guerrilha, a partir de 1973, quando tropas especiais desceram na selva com a ordem expressa de erradicar por completo os guerrilheiros. Em junho de 2001, toda a documentação primária referente à pesquisa dos militares me foi entregue para análise e posterior publicação. O Dossiê Araguaia é a peça mais importante, resultado do esforço de sistematização das informações pelos próprios militares. Há também mapas, relatórios descrevendo os períodos das ações das patrulhas e relatos de agentes infiltrados na guerrilha. Todo esse material foi classificado como “Secreto” ou “Confidencial”.

 

Curioso descobrir que um dos traços do imaginário dos militares é uma enorme resistência para gravar depoimentos, mas costumam fazer longos relatos de suas experiências por cartas ou por e-mails. Ainda há cartas, bilhetes, manifestos e outros documentos apreendidos dos guerrilheiros. O principal é o chamado Diário do Velho Mário, tal como já dito, que acabou se tornando um documento essencial utilizado pelos militares para a produção do Dossiê Araguaia. Serviu de contraponto na reconstituição de fatos, pessoas, datas e locais.

 

De posse de vasta documentação, me restava decidir o que fazer com o material. A primeira idéia era publicá-lo como livro. O Dossiê seria utilizado como ponto de partida. Avaliei que havia a necessidade de pesquisas complementares para esclarecer muitas omissões e lapsos por parte dos militares na redação do Dossiê. Algumas, porque não foram consideradas relevantes. Outras eram omissões propositais, resultado do que eles avaliaram ser assuntos sigilosos, que por Razões de Estado assim deveriam permanecer.

 

Enquanto realizava essa nova rodada de pesquisas sobre o tema, ingressei no Mestrado em História da Universidade de Brasília. Foi então acertado com os autores do Dossiê Araguaia que o mesmo seria utilizado como uma das fontes principais da minha pesquisa. Para realizar o trabalho proposto para a universidade – analisar as práticas dos militares na Guerrilha do Araguaia – seria necessário pesquisar muito mais. Principalmente um detalhamento maior sobre o cotidiano dos pelotões e o imaginário dos militares – o que pensavam sobre os guerrilheiros, o que temiam, suas emoções, valores, ideais, imagens, significações que conferiram às suas ações.

 

Nesse contexto, o Dossiê Araguaia é um documento de relevância para a historiografia brasileira. O documento marca a primeira vez que informações sobre o modus operandi da inteligência militar brasileira vêm a público de forma sistemática. Ele é extremamente rico em informações sobre a participação efetiva de militares nas três campanhas do episódio, em especial na terceira, quando teriam sido utilizados oficiais e praças de tropas especializadas em guerra na selva e em operações especiais, vestidos com trajes civis e com grande independência operacional, e com ordens superiores expressas para perseguir, prender e eliminar, de vez, aquele movimento revolucionário – fatos negados oficialmente pelas Forças Armadas até a presente data.

 

No Dossiê, os militares relatam pela primeira vez seu próprio saldo da Guerrilha. Dos 107 guerrilheiros e camponeses que participaram do conflito, 64 teriam morrido[24], 18 teriam “paradeiro desconhecido”[25], 15 foram presos e sobreviveram, sete teriam desertado e dois teriam cometido suicídio. Informam, também, que um guerrilheiro teria sido “justiçado” pelos próprios companheiros, abordando um dos temas mais delicados para a esquerda brasileira[26]. O Dossiê revela, ainda, a data provável de cada prisão ou morte. Também revela as possíveis baixas nas Forças Armadas: cinco mortos e seis feridos[27].

 

Comparados com os nomes e números apresentados pelo PC do B à Comissão dos Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça, são significativas as discrepâncias em relação ao saldo dos militares no Dossiê. De acordo com o PC do B, teriam tombado 75 pessoas, sendo 58 guerrilheiros e 17 camponeses[28]. Segundo a contabilidade dos militares, teriam sido 85. Ou seja, os militares admitem dez mortos a mais. O Dossiê informa quem são e quando teriam morrido. Essa, decerto, é a informação mais esperada pelas organizações de Direitos Humanos em atividade no Brasil.

 

Uma das questões essenciais que restaram obscuras no Dossiê é sobre as circunstâncias das mortes dos “desaparecidos” – relata apenas as mortes que teriam sido “em combate”. O Dossiê também não esclarece onde estariam os corpos. Homens de Estado que são, podem até acreditar que se trata de um dever omitir essas informações. Pesquisadores, contudo, têm por dever de ofício buscar sempre jogar clarões de luzes sobre aquilo que Fernand Brandel define como instantâneos da História[29].

 

 

         1.3 – O Segredo: Uma Exceção do Estado

 

Não sobraram muitos documentos sobre o episódio nos arquivos das Forças Armadas. Pelas narrativas dos militares, teriam sido quase todos cremados – principalmente os da Terceira Campanha – entre fins de 1974 e início de 1975, depois que os comandantes concluíram que a Guerrilha do Araguaia já estava completamente debelada. Eram fotografias e relatos de combates que poderiam levar à localização dos corpos. De quem teria sido a ordem? Do presidente Ernesto Geisel, apontam os militares envolvidos naquela operação. Por qual razão? Razões de Estado, questões de segurança nacional, os militares justificam em suas narrativas.

 

Foi Platão quem apresentou, pela primeira vez, o conceito da “nobre mentira”, aquele que concedia aos governantes o direito de simular e de dissimular, tal como um médico mente aos pacientes, ou como se mente às crianças[30]. Contudo, coube a Maquiavel re-elaborar o conceito, estabelecendo os fundamentos da idéia de “Razões de Estado”, legitimando a dissimulação e a falsidade dos governantes como uma nova tradição do pensamento moderno. Em seus Comentários Sobre a Primeira Década de Tito Lívio, Maquiavel aconselha os príncipes a se resguardarem dos perigos interno e externo, “não deixando para trás nenhum caso documentado de um e de outro”[31].

 

Bobbio, um dos mais profícuos pensadores contemporâneos, debruçou-se sobre esse tema, que ele prefere tratar por arcana imperii – expressão criada por Tácito[32] para definir os mistérios do Estado e as autoridades ocultas.  Em O Futuro da Democracia, Bobbio também apresenta o conceito do criptogoverno, que seria um “conjunto de ações realizadas por forças políticas eversivas que agem na sombra em articulação com os serviços secretos”[33]. Segundo Bobbio, é importante compreender que na categoria dos arcana entram dois fenômenos diversos, porém estreitamente coligados:

 

“O fenômeno do poder oculto ou que se oculta e o poder que oculta, isto é, que se esconde escondendo. O primeiro compreende o tema clássico do segredo de estado, o segundo compreende o tema igualmente clássico da mentira lícita e útil (lícita porque útil) que nasce, nada mais nada menos, com Platão. No estado autocrático, o segredo de estado não é a exceção, mas a regra”[34]

 

No ensaio A Mentira na Política, Hanna Arendt mostra que a veracidade nunca esteve entre as virtudes políticas, e que mentiras, embustes e auto-embustes foram encarados como instrumentos justificáveis nesses assuntos:

 

“Sigilo – diplomaticamente chamado de ‘discrição’ e de arcana imperii (os mistérios do governo – e embuste, ou seja, a falsidade deliberada e a mentira descarada, são usadas como meios legítimos para alcançar fins políticos desde os primórdios da história documentada. (…) A negação deliberada dos fatos – isto é, a capacidade de mentir – e a faculdade de mudar os fatos – a capacidade de agir – estão interligadas; devem suas experiências à mesma fonte: imaginação”[35]

 

E Swergio Pistone, assim resume a questão:

 

“Das teses da doutrina da Razão de Estado, esta tradição afirma que a segurança do estado é uma exigência de tal importância para os governantes que, para a garantir, são obrigados a violar normas jurídicas, morais, políticas e econômicas que consideram imperativas, quando essa necessidade não corre perigo”[36].

 

Enfim, foi exatamente o que os militares instituíram ao final da Guerrilha do Araguaia. As autoridades de então decidiram manter o conflito sob o império do oculto, pensando que poderiam apagá-lo da História nada revelando à opinião pública. Para tal, contaram mentiras – nobres mentiras? – simularam, dissimularam, violaram normas jurídicas e morais, sob a justificativa da segurança do Estado. Venceram a guerra, mas de saldo, cremaram papéis e esconderam arquivos sobre o episódio, não deixando para trás, como bem diria Maquiavel, muitos casos documentados de um e de outro lado.

 

E quais as exatas razões de Estado, afinal, justificaram a decisão maquiavélica de não deixar casos documentados de um e de outro lado? Eram tempos de Guerra Fria, lembram os militares, e havia o forte temor dentro do regime militar de que a Albânia[37], a China ou algum país do bloco socialista reconhecesse a área do Araguaia – ou a Amazônia inteira – como “Área Liberada”, uma região autônoma, independente do Brasil, onde haveria uma guerra civilem curso. Durante os combates, a Rádio Tirana, da Albânia, transmitia noticiário em português narrando a vitória das “forças populares”. Maurício Grabois, comandante-em-chefe das Forças Guerrilheiras, registrou tal intenção em seu diário, que acabou caindo na mão dos militares. Eis o que ele escreve, numa anotação datada de 05 de agosto de 1972:

 

“Nossa perspectiva na região é criar uma área liberada, conquistar uma base de apoio. Isto, por enquanto, é só uma perspectiva, mas nós avançamos muito nesse sentido. Surgem os primeiros embriões da área liberada. (…) Se temos a perspectiva de criar uma área liberada, devemos, desde já, ter em vista os embriões do poder local”[38]

 

 

Em maio de 1975, por exemplo, quando já fazia mais de um ano que a guerrilha fora derrotada, a Executiva do PC do B divulgava um comunicado oficial proclamando “as vitórias das Forças Guerrilheiras nas três campanhas de cerco realizadas pelo Exército”. Simultaneamente, em segurança na Europa, os dirigentes do partido conseguiam publicar na rádio Tirana, da Albânia, e no jornal Le Monde, em Paris, reportagens sustentando que a guerrilha teria o controle sobre uma área liberada do tamanho da Bélgica[39].

 

Para as Forças Armadas, portanto, o conflito do Araguaia deveria ser tratado como assunto ultra-secreto diante do público externo, algo que sequer existiu. Vale lembrar que, diferentemente, a guerrilha urbana foi tratada de forma acintosa e aberta pelo regime militar, que espalhou pelas cidades cartazes com fotografias de “terroristas” procurados. Diferença de tratamento que podemos imputar à maior facilidade de montagem da guerrilha urbana, visto que os guerrilheiros

 

“não precisavam contar com a solidariedade ou conivência de massa, mas podiam explorar o anonimato da cidade grande, além do poder de compra do dinheiro e um mínimo de simpatizantes, na maioria da classe média. Esse grupos de ‘guerrilha urbana’, ou ‘terroristas’, acharam mais fácil produzir dramáticos golpes publicitários e assassinatos espetaculares […], para não falar de ataques para levantar fundos, do que revolucionar seus países”[40]

 

O que se discute atualmente é como conciliar, em doses certas, os princípios das liberdades públicas com as necessidades do Estado. Em A Mentira na Política, Arendt escreveu que “os homens atuantes, quando se sentem donos de seus próprios futuros, ficarão eternamente tentados a se fazerem donos do passado também”[41].

 

Podem não ter restado muitos casos documentados nos arquivos oficiais, contudo, sobraram documentos sobre a guerrilha, tanto em escaninhos secretos nos quartéis, como também guardados nas residências dos ex-combatentes, especialmente documentos que tratam das fases anteriores à Terceira Campanha. Mas só é possível extrair informações relevantes desses documentos remanescentes, insisto em explicar, quando é feita uma minuciosa leitura por algum militar que conheça detalhes da história que ficou oculta. Só assim, examinando os documentos com a mesma disposição do arqueólogo que analisa fragmentos de ossos, é possível encontrar outros sentidos. Enfim, só é possível reconstruir o imaginário da época através da memória.

 

Mas encontrei muitos documentos ao longo da pesquisa. Sobre a fase na qual os militares promoviam uma guerra não-regular, usando trajes civis, a chamada Operação Marajoara, somente dois me ajudaram. Um deles é oficial, secreto, e faz uma avaliação das primeiras semanas de caçada aos guerrilheiros. O outro é fichário pessoal de um militar de informações, anotações à mão dos nomes e das circunstâncias das mortes dos guerrilheiros, além de um organograma com a possível hierarquia das Forças Revolucionárias no Araguaia. Mas ambos são insuficientes para esclarecer as circunstâncias das mortes – e onde estão os corpos.

 

Desta forma, saí a campo complementando a pesquisa anterior. Voltei aos militares que havia ajudado e colhi depoimentos orais para tentar esclarecer minhas próprias dúvidas sobre o episódio. Tentava esclarecer, principalmente, as circunstâncias da morte dos guerrilheiros mais conhecidos, tema que os autores do Dossiê não abordaram. Para eles, o melhor seria promover um esquecimento sobre o assunto. Para Cléria Botelho da Costa,

 

“Narrar implica uma construção de significados e estabelece uma interação entre quem narra e os eventos narrados, entre o sujeito pensante e os ouvintes. E, neste processo de reconstrução dos fatos narrados, o sujeito rememorador seleciona, organiza e recria mentalmente os fatos”[42]

 

Assim, ao narrarem as lembranças da guerrilha, os militares não apenas reviviam o passado, mas o reconstruíram a partir de suas rememorações, muitas das quais não desejavam que tornassem públicas. Avalio que obtive informações relevantes nessa busca de informações através de depoimentos orais. Entrevistei militares que integraram pelotões de execução. Colhi depoimentos de militares escalados pelos superiores para apertar o gatilho. Gravei alguns deles. Consegui apurar informações preciosas, portanto, para analisar o imaginário dos militares na Guerrilha do Araguaia.

 

Mas à medida que a pesquisa avançava e eu descobria detalhes mais profundos sobre os atos de exceção no Araguaia, muitos militares foram recuando na disposição inicial de me ajudar. Conversavam uns com os outros, discutiam entre si o que poderiam me revelar ou não. Muitos me procuraram para insistir que suas verdadeiras identidades deveriam ser resguardadas. Nas questões mais delicadas, aquelas que envolviam a morte dos guerrilheiros, alguns deles não queriam sequer que eu revelasse seus codinomes. Por quê? Ora, me explicaram, porque os próprios companheiros saberiam que estavam quebrando o código do silêncio, há muito pactuado.

 

Dr. George, coordenador das pesquisas que resultaram no Dossiê Araguaia, como já dito, posicionou-se explícita e peremptoriamente contra qualquer revelação sobre as circunstâncias das mortes. Principalmente sobre a existência de pelotões de execução. E, mais ainda, contra a eventual revelação de nomes. Argumentou, numa das muitas conversas e entrevistas orais que mantivemos, que eu não tinha provas sobre os fatos que pretendia narrar. E que eu acabaria sendo “desmoralizado como pesquisador”. Advertiu que os militares, caso acareados, negariam publicamente os fatos narrados. Enfim, argumentou o militar, eu poderia ser acusado de produzir uma obra de ficção. Haveria, inclusive, o risco de quebra da minha “integridade física”.

 

Bobbio nos lembra que um dos princípios fundamentais do Estado constitucional é que “o caráter público é a regra, o segredo a exceção”[43]. Kant, por sua vez, afirmou resolutamente que o iluminismo exige “a mais inofensiva de todas as liberdades, qual seja, a de fazer uso público da própria razão em todos os campos”[44]. Portanto, optei por relatar e analisar aqueles episódios mais obscuros que foram rememorados por militares nas entrevistas orais. Optei também por manter o compromisso de preservar, de não tornar públicas as identidades daqueles que cometeram atos de exceção. Por isso, usei codinomes na identificação deles.

 

Nessas narrativas orais de militares, colhi a informação de que a maior parte dos mortos na Primeira e na Segunda Campanha – cerca de 15 -, teria sido enterrada no cemitério da cidade de Xambioá, uma área reservada aos indigentes, aos posseiros e a uma legião de vítimas anônimas dos conflitos de terras da região. Mais quatro teriam sido enterrados no cemitério de Marabá, também sem identificação. Indaguei por que não há cruzes para identificar os locais onde foram enterrados os corpos. Segundos as narrativas orais, a ironia corrente na ocasião entre os militares é que não se deveria fincar cruz em sepultura de guerrilheiro em respeito ao próprio morto. Afinal, alegavam, comunista não acreditaem Deus. Entãoquestionei: e quanto a colocar simples placas com identificações? Em outra ironia, me responderam que os guerrilheiros também não tinham identidade, só codinomes. Portanto, seria uma ilegalidade enterrar alguém com o nome falso.

 

Quando aos demais guerrilheiros, cerca de 70 desaparecidos, informaram que teriam sido sepultados na própria mata, perto de onde cada um tombou, de forma que se tornou praticamente impossível com o tempo detectar o local exato de cada cova. Outros, cerca de 20, tiveram seus corpos levados para os quartéis e ali enterrados. Os restos de André Grabois, por exemplo, se encontrariam perdidos na mata. Os de Maurício Grabois também. Ambos foram fotografados depois de mortos. Os militares informam que tinham o hábito de fotografar os corpos antes de enterrá-los na mata, pois ajudaria na identificação posterior pelos órgãos de inteligência em Brasília. Umpouco mais de 40 foram fotografados, mas quase todas as imagens teriam sido cremadas em fins de 1974. Em pelo menos quatro casos, no qual os pelotões não dispunham de máquina fotográfica nem condições de carregar os corpos, amputaram o polegar direito do guerrilheiro (ou a mão inteira) depois de falecido[45].

 

Essas narrativas orais me revelaram ainda que pelo menos cinco guerrilheiros, talvez sete, teriam tido suas cabeças cortadas por moradores da região, a serviço do Exército. A razão para tais atos, segundo os militares, era o prêmio em dinheiro vivo por cada cabeça – exatos 5 mil cruzeiros por cada vivo, ou 10 mil cruzeiros se entregue morto, valor que na época dava para comprar um sítio de 50 hectaresna região. Por isso, no imaginário deles, alguns camponeses resolveram colaborar com o Exército[46]. Também me foi revelado, nas narrativas dos militares, que entre 15 e 20 guerrilheiros teriam sido presos vivos e executados depois dos interrogatórios. Outro grupo, entre 20 e 30 guerrilheiros, também teria sido exumado em 1975 para imediata cremação, geralmente com a ajuda de pneus usados. Isso porque os camponeses teriam começado a encontrar corpos e os militares preferiram fazer uma limpeza na área.

 

O único corpo de guerrilheiro até agora identificado é o de Maria Lúcia Petit da Silva, a Lúcia, morta logo no início dos conflitos, em 16 de junho de 1972[47], de acordo com o Dossiê, em combate com soldados regulares do Exército. Seu corpo foi encontrado pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo em 1991, sem cruz ou placa de identificação, no Cemitério de Xambioá. Exumado, identificado cinco anos depois por peritos da Unicamp, seus restos se encontram enterrados no Cemitério de Bauru, sob os cuidados da família[48]. Por outro lado, infiro que a prática do enterro “clandestino” era uma forma de demarcar um lugar de poder, de retirar do “outro”, o guerrilheiro, o direito de ter um nome e um corpo a ser velado e imantado, respeitosamente, por suas famílias, um valor da nossa cultura.

 

 

1.4 – Corpus Diversificados

 

Somente três guerrilheiros conseguiram escapar vivos da última campanha do Araguaia, quando os militares desceram na mata com táticas de guerra não-regular e com ordens expressas de extirpar de vez com o levante – 47 estão desaparecidos. Um dos sobreviventes foi o comandante Ângelo Arroyo, segundo na hierarquia da guerrilha, abaixo somente de Maurício Grabois. Ele conseguiu deixar a mata em janeiro de 1974. Mais tarde, em São Paulo, Arroyo teve tempo de relatar os acontecimentos que protagonizara em dois longos documentos: um relatório sobre os fatos testemunhados e um balanço com sua avaliação sobre a guerrilha. Esses dois documentos são conhecidos pelo nome genérico de Relatório Arroyo. O comandante morreu em 1976, no cerco militar a uma reunião que o partido promovia em São Paulo, episódio conhecido por “Chacina da Lapa”[49]. O Relatório Arroyo é o documento público mais importante que se tem sobre a Guerrilha. Serviu como fonte primária para absolutamente todos os documentos de avaliação do partido, para os livros publicados e para as pesquisas históricas sobre a guerrilha[50].

 

O segundo guerrilheiro que escapou chama-se Micheas Gomes de Almeida, codinome Zezinho. Era um dos poucos operários recrutados pelo PC do B para a aventura e um dos raros guerrilheiros, dentre todos os 69, que sabia como entrar e sair da área dos conflitos sem enfrentar grandes riscos. Aliás, era essa a sua missão: inserir e extrair guerrilheiros. Foi Micheas quem retirou o comandante Arroyo da mata quando o naufrágio era iminente e depois desapareceu, mas seu nome não chegou a integrar a lista de desaparecidos políticos do Ministério da Justiça, visto que Arroyo registrou, em seus escritos, a saída de Micheas da mata. Nem o partido nem os militares sabiam de seu paradeiro. Muitos acreditavam que pudesse estar morto. Micheas se reapresentou em 1996[51]. Contou que havia mudado de identidade. Explicou na ocasião que se manteve na clandestinidade por 22 anos porque os traumas da guerrilha o teriam deixado com amnésia parcial[52].

 

Haveria, ainda, um terceiro sobrevivente da Terceira Campanha. Sem saber sua verdadeira identidade, Micheas também o retirou da área, segundo revelou o comandante Arroyo em seu relatório. Sua identidade ainda é desconhecida e, a rigor, pode ser qualquer um dos 47 desaparecidos[53]. Além desses três guerrilheiros sobreviventes – Arroyo, Micheas e o Desconhecido — somente os militares que participaram da guerrilha sabem ao certo quem morreu e o que ocorreu na terceira e decisiva fase da Guerrilha do Araguaia.

 

Há um outro documento, além do Relatório Arroyo, que ao longo das décadas de 80 e 90 tem sido utilizado como fonte primária de informações sobre o Araguaia, o chamado Relatório Pomar, produzido por Pedro Pomar, então membro do Comitê Central do PC do B e um dos idealizadores da guerrilha. Pomar esteve na área antes do início dos combates para montar uma base de apoio. Depois da derrota, o partido difundiu boletins internos garantindo uma estrondosa vitória no Araguaia e começou a divulgar no exterior que teria o controle sobre uma área maior do que a Bélgica. Pedro Pomar então redigiu uma análise controvertida, relatando o que sabia sobre a derrota e tecendo autocrítica sobre a aventura. Pedro morreu logo depois, na “Chacina da Lapa”, junto com Ângelo Arroyo. Foi seu filho, Wladimir Pomar, quem tomou a iniciativa de tornar público o documento, publicando-o em livro em 1980[54], depois de romper com o PC do B para ajudar a fundar o Partido dos Trabalhadores, PT.

 

Por fim, existe um terceiro documento que registra o cotidiano da Guerrilha. Trata-se do Diário do Velho Mário, redigido entre 30 de abril de 1972 e o Natal de 1973, cujo teor manteve-se por todos esses anos oculto do conhecimento público. Maurício Grabois, o Velho Mário, foi um dos primeiros guerrilheiros a chegar à região, ainda em 1966. Morreu em 25 de dezembro de 1973, em combate, quando seu destacamento foi cercado por uma patrulha de pára-quedistas e terminou de ser dizimado, num episódio que ficou conhecido como “Chafurdo do Natal”. Seu corpo jamais foi encontrado.

 

Quanto ao Diário, chegou a Marabá no final da tarde de 25 de dezembro para ser encaminhado na primeira hora do dia seguinte para o Centro de Informações do Exército em Brasília. Uma história envolve esse documento. Um capitão da área de informações pediu o material emprestado aos colegas para examiná-lo. Então convocou cinco cabos e soldados para que se revezassem na tarefa de copiar o conteúdo à mão. O Diário original teria sido cremado. Mas restaram cópias datilografadas. Tive acesso a uma cópia digital desse documento, preservada nos arquivos pessoais desse capitão.

 

Por maior que fosse o detalhamento do Dossiê Araguaia, esse documento foi elaborado por um dos lados do conflito, o dos militares. Necessário, portanto, fazê-lo dialogar com outras falas, tirar os vencidos do silêncio[55]. Desta forma, esses três documentos redigidos por guerrilheiros – Relatório Arroyo, Relatório Pomar e Diário do Velho Mário –, apresentaram-se, ao lado do Dossiê Araguaia, como corpus fundamental para a presente pesquisa. Complementam os discursos produzidos pelos militares, cruzando informações, percebendo discrepâncias, descobrindo, desvelando, decifrando os sentidos aí inscritos. Foram também necessárias outras leituras, outros olhares sobre o tema, outras reflexões.

Com a Anistia, em setembro de 1979, apartir de 1980 foram publicados livros-reportagens sobre o tema, todos eles hoje esgotados. Destacamos três: os livros dos jornalistas Palmério Dória, Clóvis Moura e Fernando Portela[56]. Essas obras vêm sendo largamente utilizadas como fontes de referências essenciais das pesquisas posteriores. A partir de 1996, o tema Araguaia voltou à imprensa, às editoras e às academias. Fato importante foi a direção do PC do B ter decidido, finalmente, divulgar o discurso oficial do partido sobre os acontecimentos, publicando o livro-revista Guerrilha do Araguaia – Documentos do PC do B[57]. Na seqüência, o professor Romualdo Pessoa Campos Filho publicou sua pesquisa de doutorado[58], utilizando como fontes primárias justamente as obras supracitadas. O pesquisador teve o mérito de colher, pela primeira vez de forma acadêmica e sistemática, depoimentos orais de 33 camponeses e moradores na região que testemunharam os conflitos. Em seu conjunto, esses depoimentos formam importante registro para a História sobre o imaginário dos moradores da região do Araguaia sobre a Guerrilha, sobre a dimensão simbólica instituinte do social, tão importante quanto a dimensão material, na maior parte das vezes desconsiderada pela historiografia. Seu trabalho, desde sua publicação, passou também a ser referência obrigatória em alguns livros de História do Brasil, nos capítulos que versam sobre a Guerrilha do Araguaia[59].

 

Em 2002, foram publicadas mais quatro obras sobre o assunto. A primeira é Coração Vermelho – A vida de Elza Monnerat[60], sobre uma das fundadoras do PC do B e organizadoras da Guerrilha. Ela voltou para São Paulo em março de 1972, junto com João Amazonas, assim que os militares chegaram à região. Nada testemunhou no teatro de operações, mas é figura essencial em todo o processo, relatado no livro. Outra obra de destaque é o relato da ex-guerrilheira Criméia de Almeida, publicado na página virtual da organização não governamental Desaparecidos Políticos.[61] Ela também não estava no Araguaia durante a campanha decisiva, mas tem sido a militante política que mais acompanha, junto às organizações de Direitos Humanos, as novas informações que surgem sobre os desaparecidos do Araguaia.

 

Há, ainda, a contribuição da imprensa, que desde 1996 vem publicando documentos e depoimentos sobre o Araguaia. A mais importante é a série de reportagens do jornalista Amaury Ribeiro Júnior, publicada no jornal O Globo entre 1996 e 1998, a partir dos arquivos que ele conseguiu junto a militares da Brigada de Pára-quedista do Rio de Janeiro,[62] e na seqüência os documentos que estavam guardados na casa do general Antônio Bandeira.[63] Em novembro de 2001 e agosto de 2003, o jornal Correio Braziliense publicou duas séries de reportagens também significativas, coordenadas pelo jornalista Eumano Silva a partir de documentos militares inéditos obtidos principalmente pela pesquisadora Tais Morais Hime Urbano[64]. Parte desses documentos foi encontrada nos arquivos do Superior Tribunal Militar, dentro dos processos – os chamados Inquéritos da Policial Militar (IPM) – dos guerrilheiros presos no Araguaia, mostrando para outros pesquisadores um importante caminho para se obter documentos sobre o tema. Os mais relevantes foram obtidos junto a fontes militares da pesquisadora[65].

 

É exígua a produção historiográfica sobre o imaginário dos militares a respeito do Araguaia. Recentemente foram publicadas mais três obras relevantes que abordam a participação das Forças Armadas na Guerrilha do Araguaia, todas baseadas exclusivamente na memória e em narrativas orais de militares. A primeira é A Ditadura Escancarada, do jornalista Élio Gaspari, lançada em fins de 2002[66]. No último capítulo, “A Floresta dos Homens sem Alma”, o autor compila os fatos relevantes até o momento conhecidos sobre a Guerrilha do Araguaia, avançando na análise a partir de informações inéditas obtidas em narrativas orais de militares, todos eles mantidos sob sigilo.

 

Em dezembro de 2002, foi lançado outro livro que aborda o tema, do coronel do Exército Aluísio Madruga de Moura e Souza[67], que trabalhou por 35 anos nos órgãos de informações das Forças Armadas. Madruga relata que esteve por seis meses no Araguaia, participando das operações de inteligência da Segunda Campanha. Em um dos capítulos da obra, o militar revela, em 42 páginas, detalhes inéditos de como foi a ação das Forças Armadas no Araguaia. Importante ressaltar que o coronel Madruga teve acesso a uma cópia do Dossiê Araguaia, que lhe foi entregue por um dos militares que o redigiram, e não encontrou nenhuma informação conflitante entre seu livro e o Dossiê.

Há, ainda, o livro O Coronel Rompe o Silêncio[68], no qual o coronel Lício Augusto Ribeiro, que participou dos combates na selva nas três campanhas da guerrilha, usando o codinome Dr. Asdrúbal, faz um longo depoimento ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho. Para esta pesquisa, considero o livro de Maklouf o mais significativo dentre os documentos públicos disponíveis, que utilizo, ao longo do trabalho, como contraponto ao Dossiê Araguaia. O coronel Lício, ressalto, é um dos militares que mais colaboraram com esta pesquisa.

 

Cabe analisar, aqui, os sentidos inscritos nesse consenso entre as versões construídas por militares. Esses, ao construírem um discurso homogêneo sobre a Guerrilha do Araguaia, revelam a sua “verdade” sobre o conflito. Verdade que, segundo Foucault, é um “conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder”[69]. Uma verdade, portanto, que tenta ser homogênea, consensual, para legitimar-se como a única verdade, e que tem por objetivo deslegitimar outras falas, outros discursos, como os dos guerrilheiros. Enfim, a história construída pelo imaginário de cada um dos diferentes atores não mostra a verdade, uma vez que não há verdade absoluta. Ao contrário. Muitas vezes são construídas em cima do que Arendt chamou de embustes, auto-embustes – ou mesmo de deslavadas mentiras.

 

Há muito que o Brasil já se encontra sob a égide de um regime democrático, mas perduram muitos pontos obscuros na história da Guerrilha do Araguaia – tanto do lado dos militares, quanto dos guerrilheiros. Bobbio lembra que, onde o sumo poder é oculto, tende a ser oculto também o contra-poder:

 

“Poder invisível e contra poder invisível, são as duas faces da mesma medalha. A história de todo regime autocrático e a história da conjura são duas histórias paralelas que se referem uma à outra. Onde existe o poder secreto existe também, quase como seu produto natural, o antipoder igualmente secreto ou sob a forma de conjuras, complôs, conspirações, golpes de estado, tramados nos corredores do palácio imperial, ou sob a forma de sedições, revoltas ou rebeliões preparadas em lugares intransitáveis e inacessíveis. (…) Ao lado da história dos arcana dominationis poder-se-ia escrever, com a mesma abundância de particulares, a história dos arcana seditionis”[70]

 

Entendo que até a presente data, por exemplo, a historiografia não esclareceu uma das questões primordiais do movimento: como os militares, os arcana dominationis, venceram os guerrilheiros? Outra questão obscura é compreender por que as Forças Armadas permitiram que os arcana seditionis, derrotados em campo, pudessem atravessar mais de três décadas apresentando, sozinhos e sem contestação, o seu próprio imaginário sobre o episódio – por vezes construído em cima do que Arendt chama de embustes e auto-embustes. Assim resumiu Maria Inês Nassif:

 

“Para criar o mito, o PC do B proscreveu ou manteve sob suspeita quem ousou sobreviver. Para transformar em heróis os que morreram, tratou como traidores os que viveram. Chega a ser irônico, mas enquanto o PC do B dizia que marchava vitoriosa uma guerrilha já massacrada pelas forças da ditadura, as Forças Armadas, que derrotou, tentava apagar da história qualquer resquício de sua existência. Bem ou mal, a história que o PC do B escreveu sobre o Araguaia é pública. As Forças Armadas, no entanto, transformaram um pedaço da nossa história num espectro. A determinação militar de apagar do mapa uma guerrilha (…) transformou o episódio em algo digno de ser contado por Kafka. Negou-se ao país tanto o nome dos que morreram lutando na guerrilha, como dos que morreram lutando contra ela”[71]

 

Por fim, me parece importante destacar que, em maio de 2003, quando já realizava a pesquisa de campo, procurei o endereço e telefone de Joca Graboisem São Paulo. Eusó havia falado com ele uma única vez, quando o conheci em 1992. Para minha surpresa, ele me informou haver encontrado a fotografia de seu pai, dois anos depois da publicação da reportagem. Era um André com 23 anos, em fotografia de 1968, tirada pelo FBI no Paquistão e enviada para a Polícia Federal do Brasil. Depois foi encontrada uma segunda fotografia, ele meio de perfil, sorrindo, numa festa de criança no Araguaia. Joca acabara de completar 30 anos, tocava uma pequena editoraem São Pauloe ainda se mostrava ansioso por saber de toda e qualquer informação sobre a vida e a morte do pai. Em 2002, Joca chegou a ir ao Araguaia, acompanhando Guilherme Schelb, procurador da República, atrás de depoimentos de camponeses que testemunharam o conflito entre guerrilheiros e militares na década de 70.

 

Espero que o resultado desta pesquisa agora o ajude a entender melhor as circunstâncias que levaram o jovem André Grabois a abandonar o conforto da cidade para se embrenhar numa luta fratricida em algum lugar das selvas amazônicas. Colhi durante a pesquisa o depoimento de dois militares que estavam na patrulha que cercou o destacamento de André[72]. Decerto será reconfortante para Joca saber que o pai tombou lutando por seus sonhos – cercado por uma patrulha do Exército, ainda tentou sacar sua arma. Morreu em combate, como sonham morrer os revolucionários, como convém ser a morte de guerreiros. Foi o coronel Lício Maciel quem disparou a arma que o matou. Em seu livro depoimento[73], o coronel disse o seguinte:

 

“Eu li o depoimento de uma pessoa falando sobre a viúva e o filho do André Grabois. Eu pensei: é justo que se dê uma notícia, para eles não ficarem nessa esperança. ‘Será que meu pai está morto?’ O cara morreu. Acabou. Morreu em combate, gloriosamente. Podia estar morto de câncer, de tuberculose, mas morreu heroicamente, no combate. O cara pegou a arma e foi peitudo, porque não se entregou. Eu fiquei calado por imposição, e tudo tem o seu limite. Está na hora de contar a nossa versão”[74]

 

O coronel revela, com suas palavras, informações que durante muitos anos foram segredo do Estado. Esse ato expressa a gradual desconstrução da falsidade e da dissimulação como tradição da sociedade moderna como resposta às reivindicações da sociedade civil brasileira.



[1] Walter Benjamin. “Sobre o conceito da história”. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7a ed., São Paulo: Brasiliense, 1994, pág. 224.

[2] Os DOPS, criados pela ditadura de Getúlio Vargas vinculados aos governos dos Estados, foram amplamente utilizados durante o regime militar para a repressão política. Em fins de 1982, o governador José Maria Marin, que completou o mandato de Paulo Maluf no governo do Estado de São Paulo (1979-1982), enviou os arquivos para a Polícia Federal antes da posse do governador eleito Franco Montoro (1983-1986). O DOPS paulista foi extinto durante o governo de Orestes Quércia (1987-1991) e, em 1992, os arquivos foram devolvidos para o Arquivo do Estado, já na gestão do governador Luiz Antônio Fleury Filho (1991-1995), que tomou a decisão de tornar públicos esses documentos.

[3] André Grabois, codinome “Zé Carlos”, era o comandante do Destacamento A da guerrilha. Nascido em 03 de julho de 1947, André cursou a Academia Militar de Pequim (China); chegou ao Araguaia em 1968. Tanto o PC do B quanto os militares registram sua morte em 13 outubro de 1973, em combate, junto com outros quatro guerrilheiros. In: O Destino dos Guerrilheiros (em anexo); e site www.desaparecidospoliticos.com.br, acesso em: 20 ago. 2002.

[4] Criméia Alice Schmidt de Almeida, codinome “Alice”. Na presente data, ela é membro da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos de São Paulo, que pertence ao Instituto de Estudos sobre a Violência do Estado de São Paulo. Também edita o site www.desaparecidospoliticos.com.br.

[5]Wladimir Pomar. Araguaia: O Partido e a Guerrilha. São Paulo: Ed. Brasil Debates. Brasil Estudos, nº 2, 1980, pág. 311.

[6] Presidente do PC do B desde a fundação, em 1962, até sua morte, em 27 de maio de 2002.

[7] João Carlos Haas Sobrinho, codinome Juca, médico gaúcho, um dos melhores amigo de Criméia Almeida. Morreu em combate com o Exército a 30 de setembro de 1972, aos 31 anos. Seu corpo até hoje encontra-se desaparecido. In: Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio. Dos Filhos Deste Solo – Mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar: a responsabilidade do Estado. São Paulo: Boitempo e Editora Fundação Perseu Abramo, 1999, pág. 178.

[8] Italiano, Líbero Giancarlo Castiglia era o único estrangeiro na guerrilha. Desapareceu em 25 de dezembro de 1973. In: Idem, Ibidem, pág. 185.

[9] Hugo Studart. “Garoto procura foto do pai no arquivo do DOPS: Joca quer conhecer rosto adulto de André Grabois”. Folha de S.Paulo, 21 jan. 1992, p.1 et p. 1-4.

[10] A pesquisa resultou em reportagem publicada pela revista Manchete. Hugo Studart. “Paixão na Guerrilha: Militar de alta patente divulga cartas que revelam o quanto o capitão da guerrilha amava sua musa”. Manchete. Rio de Janeiro, Revista nº 2388, 17 de janeiro de 1998, págs. 22 e 23.

[11]O militar prefere manter seu nome em sigilo.

[12] Aqui utilizo o conceito de discurso de Michel Foucault, para quem “O discurso […] não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; é, também, aquilo que é objeto de desejo; e visto que […] o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar”. In: Michel Foucault. A ordem do discurso. 6a ed., São Paulo: Ed. Loyola, 1996, pág. 10. O termo utilizado no meio jornalístico é “versão”.

[13] Cléria Botelho da Costa. “Memórias compartilhadas: os contadores de histórias” In: Cléria Botelho da Costa e Nancy Alessio Magalhães (orgs.) Contar História, fazer História – História, cultura e memória. Brasília: Paralelo 15, 2001, pág. 77.

[14] Olgária Matos. A narrativa: Metáfora e liberdade. In: Cléria Botêlho da Costa e Nancy Alessio Margães, op. cit., pág. 22.

[15] A metodologia de trabalho foi a mesma utilizada antes, com grande sucesso, pelo editor José Mário Pereira, da Topbooks, para ajudar o falecido senador Roberto Campos a escrever sua autobiografia, A Lanterna na Popa. Primeiro, Pereira pesquisava informações sobre determinados fatos ou períodos históricos para despertar a memória de Roberto Campos. Numa segunda etapa, Campos redigia seu próprio discurso sobre os acontecimentos. Essa metodologia se mostrou extremamente eficiente na pesquisa sobre a Guerrilha do Araguaia.

[16] Michel Foucault. A Ordem do Discurso. São Paulo: Ed. Loyola, 1996, pág. 10.

[17] Os partisans surgiram quando Aníbal, o grande general de Cartago, tentou conquistar Roma. Os romanos então criaram uma nova tática militar de fustigamento, evitando o confronto direto. Venceram. O termo “guerrilha” surgiria na Espanha no início do Século 18, durante as guerras napoleônicas. Na América Latina, a nomenclatura adotada foi “guerrilha”. In: Gabriel Gabriel. Guerras Insurrecionais e Revolucionárias. Trad. Major Rubens Mário Jobim. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira e Biblioteca do Exército Editora, 1963, pág. 43.

[18] O principal colaborador, que também prefere ter sua identidade preservada, é um especialista em história militar, que usa a identidade fictícia de Carlos Ilich Azambuja, codinome professor Azambuja. Trabalhou nos serviços de inteligência militar desde os primórdios do regime de 1964. Especializou-se em analisar a luta armada no Brasil e as organizações marxistas, notadamente o Partido Comunista Brasileiro (PCB), ao qual chegou a se filiar para acompanhar as atividades internas da organização. Nunca esteve no Araguaia, mas criou a fama no imaginário dos próprios militares de ter organizado o melhor arquivo existente sobre a luta armada e o PC do B. Na pesquisa sobre a Guerrilha do Araguaia, coube a ele pesquisar e redigir os capítulos doutrinários e históricos que constam no Dossiê. Também coordenou o levantamento dos mortos e desaparecidos, procurando nomes e datas de cada morte. Ele foi peça essencial na pesquisa. Coube ao Dr. George, por sua vez, pesquisar e redigir os capítulos operacionais, ou seja, relatar as operações de contra-guerrilha desencadeadas pelos militares.

[19] No jargão militar, “operação especial” é aquela no qual o militar é treinado para agir segundo técnicas não convencionais utilizadas na guerra regular. Entre os grupos mais conhecidos de tropas especiais estão os Comandos Britânicos, os Boinas-Verdes e os Rangers, dos Estados Unidos. No Brasil, destacam-se os Boinas-Pretas (pára-quedistas) e os comandos de guerra na selva. Esses dois grupos formaram o grosso das tropas especiais que participaram da Terceira Campanha no Araguaia, como veremos adiante.

[20] O termo “espionagem” é utilizado no jargão militar para trabalhos de inteligência em outros países. No caso da repressão durante o regime militar brasileiro, incluindo a Guerrilha do Araguaia, o termo exato é “contra-subversão”. Utilizamos “espionagem” para facilitar a leitura.

[21] Descobri mais tarde nas narrativas orais de outros militares, que Dr. George cumpria o papel de aparecer para conversar os presos na condição de “bom amigo” e “confidente”, depois dos interrogatórios (com tortura física ou psicológica) conduzidos por outros militares que faziam o papel de “inimigo”. Ao indagar sobre esses relatos com o próprio Dr. George, ele não só confirmou. Como também explicou que esse método seria uma das formas mais eficientes de recrutar militantes “desiludidos” com a luta armada, transformando-os em informantes das Forças Armadas.

[22] Obra organizada após a Anistia, em 1979, pela Arquidiocese de São Paulo. Contém relatos sobre tortura e maus tratos sofridos por militantes marxistas durante o Regime Militar. Mitra Arquidiocesana de São Paulo. Brasil: Nunca Mais. Tomos I a VI. Petrópolis: Vozes, 1985-1988.

[23] Uruguai, Argentina, Paraguai e Chile. Nos anos 90, apareceram documentos mostrando que os regimes militares do Cone Sul colaboraram entre si na repressão aos grupos de esquerda armada, a chamada Operação Condor.

[24] Nessa conta, os autores do Dossiê somam os guerrilheiros do PC do B cujas circunstâncias das respectivas mortes são públicas, aqueles que  tombaram em emboscadas ou em combates verdadeiros na selva, de armas em punho; com os “desaparecidos”, aqueles que podem ter sido capturados vivos, levados como prisioneiros para as cidades e depois executados. Há pelo menos cinco casos com fortes indícios de guerrilheiros que teriam sido presos antes de desaparecer, conforme detalharei adiante.

[25] “Paradeiro desconhecido” é o eufemismo que os militares, autores do Dossiê, escolheram para se referir a 18 moradores da região do Araguaia que foram recrutados pelo PC do B, e que depois também se tornaram “desaparecidos”. Quase totalidade dos integrantes dessa lista não foi incluída na lista dos “desaparecidos políticos” preparada pelas organizações de Direitos Humanos e entregue ao Ministério da Justiça. Permanecem como vítimas anônimas da guerrilha.

[26] “Justiçamento” era o termo utilizado pela esquerda brasileira para caso de execuções sumárias de guerrilheiros acusados de traição. Os “justiçamentos” teriam ocorrido tanto na guerrilha urbana quanto na rural. O assunto é polêmico. Os militares afirmam que o guerrilheiro Rosalindo de Souza, por exemplo, teria sido “justiçado” pelos companheiros por causa de um caso banal de adultério envolvendo o casal de guerrilheiros Arildo Valadão e Áurea Elisa Pereira. Já o PC do B sustenta a versão de que Rosalindo teria morrido acidentalmente enquanto limpava a arma. Abordarei o caso adiante.

[27] Dois mortos em combate, atingidos pelos guerrilheiros, sendo um cabo e um sargento; outros dois mortos por acidente, atingidos pelos próprios companheiros; mais um desaparecido na selva, que tanto pode ter sido atingido pelos guerrilheiros quanto atacado por cobra ou onça. Desses cinco, consegui nomes, datas e circunstâncias de suas mortes, ou no Dossiê, ou através de relatos de militares. Há boatos nas Forças Armadas que teriam morrido 16 militares; depoimentos de moradores da região apontam para um número não inferior a 15. Não encontrei, até o momento, nenhum indício concreto dessas mortes.

[28] Inicialmente, o PC do B, com base no Relatório Arroyo, contabilizava seis camponeses. A partir da década de 1980, esses números foram aumentando, à medida que os moradores da região faziam relatos de pessoas que teriam desaparecido. O PC do B já chegou a contabilizar 19 camponeses mortos, mas um deles apareceu. Criméia Almeida contabiliza em “cerca de 17”. Optei por esse número mais conservador.

[29] APUD Sônia Lacerda. “História, narrativa e imaginação histórica”. In: Tânia Navarro Swain, (Org.). História no Plural. Brasília: Ed. UnB, 1994, pág. 13.

[30] O conceito de nobre mentira, ou piedosa mentira, foi apresentado quando Platão escreve sobre a formação do Estado na República. Na passagem 389, ao dialogar com Adimanto, Sócrates apresenta a idéia: “Mas se a alguém é lícito faltar com a verdade, será unicamente a aqueles que governam a cidade, autorizados a fazê-lo com respeito a seus inimigos e seus concidadãos. Ninguém mais poderá fazê-lo”. Adiante, na passagem 414, no diálogo com Glauco, Sócrates exemplifica o que seria uma nobre mentira ao contar uma lenda que teve início na Fenícia, lenda essa que justificava a diferença de classes, que diz que os membros das três classes procedem de raças distintas, a saber, de ouro, prata, e ferro: “De que mecanismos nos valeremos agora para inventar alguma mentira beneficiosa e com isso tratar de convencer aos governantes ou mesmo ao resto da cidade?”, diz Sócrates no Diálogo. Aristóteles, nos Ensaios Sofísticos, legitima a dissimulação para que governantes se resguardem de seus inimigos externos. In: Platon. “La República”. In: Obras Completas. Madrid: Aguilar, 1969, págs. 703 e 719:

[31] Nicolau Maquiavel. Comentários Sobre a Primeira Década de Tito Lívio. 2a ed. Brasília: Editora UnB, 1979, págs 314-328. No Livro Terceiro, Capítulo Sexto, “As Conspirações”, Maquiavel apresenta os contornos gerais do conceito, mas não chega a utilizar a expressão “razões de Estado”. O conceito apareceu pela primeira vez na obra do pensador renascentista Giovanni Botero, Della Ragion di Stato, de 1589, na qual ele, apesar de criticar a obra de Maquiavel, acaba ajudando a imortalizar o maquiavelismo vulgar contido na máxima “os fins justificam os meios”. In: Nicola Abbagnano. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998, verbete “Razões de Estado”, pág. 830.

[32] Historiador romano (55.-111 d.C.) que narrou a história  de Nero e do início da Era Cristã. Nos Anais 2.36, Tácito escreve sobre os segredos do governo. In: Swergio Pistone. “Razão de Estado”. In: Norberto Bobbio; Nicola Matteucci; Gianfranco Pasquino. Dicionário de Política. João Ferreira (coord.). Brasília: Editora UnB, 2ª ed., 1986, pág. 1.066.

[33] Norbert Bobbio. O Futuro da Democracia – Uma defesa das regras do jogo. 1a ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, pág 103.

[34] Idem, Ibidem, pág. 94.

[35] Hannah Arendt. A Mentira na Política – Considerações sobre os Documentos do Pentágono. In: Hannah Arendt. Crises da República, 2ª ed., São Paulo: Perspectiva, 2004, pág. 15.

[36] Swergio Pistone. “Razão de Estado”. In: Norberto Bobbio. Dicionário de Política. 2ª ed., Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1986, pág. 1.066.

[37] O PC do B, que nasceu seguindo a linha chinesa, naquele momento era vinculado politicamente e financiado pelo governo da Albânia, “O Farol da Humanidade”, como pregavam seus militantes.

[38] In, Diário do Velho Mário, págs. 89-90.

[39] Amaury Ribeiro Jr.. “Vencido, PC do B não admitiu derrota para o Exército – ‘Outros Araguaias surgirão’, dizia documento que DOI-Codi apreendeu no Massacre da Lapa, dois anos após o fim da guerrilha”. O Globo, Rio de Janeiro, 08 abr. 1998, pág. 10.

[40] Eric Hobsbawm. Era dos Extremos: o breve século XX – 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, pág. 429.

[41] Hannah Arendt, Op. Cit., pág. 20.

[42] Cléria Botelho da Costa. “Memórias compartilhadas: os contadores de histórias” In: Cléria Botelho da Costa e Nancy Alessio Magalhães (orgs.) Contar História, fazer História – História, cultura e memória. Brasília: Paralelo 15, 2001., pág. 83.

[43]Noberto Bobbio. O Futuro da Democracia…Op. Cit.,  pág. 86.

[44] APUD Idem, Ibidem, pág. 90.

[45] Depoimentos orais dos militares Dr. Barbosa (codinome), em 23 de maio de 2003, e Dr. Sérgio (codinome), em 11 de junho de 2003.

[46] Depoimento de CAJ, em 08 de junho de 2001.

[47] O PC do B estima que sua morte tenha sido em junho de 1972, mas não sabe a data exata.

[48] Há evidências de que um outro corpo exumado, em 1991, do Cemitério de Xambioá, seja do guerrilheiro Francisco Manoel Chaves. Os peritos descobriram que os restos mortais seriam de um homem velho e negro, características de Chaves. O corpo encontra-se, desde então, com os peritos do Instituto Médico Legal de São Paulo, mas até a presente data a identificação não foi realizada por falta da ficha antropológica. Em 1996, a Comissão de Mortos de Desaparecidos do Ministério da Justiça retirou do Cemitério de Xambioá três outras ossadas. As ossadas ficaram até novembro de 2003 guardados na Polícia Federal em Brasília. Havia indícios de que uma delas pertencesse ao
guerrilheiro João Carlos Haas Sobrinho, mas o teste de DNA não confirmou. Em fevereiro de 2003, duas ossadas que não apresentavam características de serem de guerrilheiros (ambas sem ferimentos de bala, uma delas com um crucifixo) foram enviadas de volta a Xambioá sem exame de peritos. Em novembro de 2003, restos de uma ossada foi enviada para perícia na Argentina. Há ainda restos de duas ossadas, sem crânio, encontradas na reserva dos índios suruís, que ajudaram os militares na caçadas aos guerrilheiros. Pelos relatos dos camponeses, seriam restos de guerrilheiros. In: depoimentos orais de Criméia Almeida, em 29 de outubro de 2004; e da pesquisadora Myrian Luiz Alves, militante dos direitos humanos e biógrafa do guerrilheiro do Araguaia Líbero Giancarlo Castiglia, o Joca, em 15 de setembro de 2004.

[49] Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio. Op. Cit., págs. 205 e 206.

[50] Ressalto que o Diário do Velho Mário, ainda inédito, tem informações ainda mais detalhadas sobre o cotidiano da Guerrilha.

[51] Durante a Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembléia Legislativa de São Paulo que investigava o cemitério clandestino na cidade de Perus, a CPI da Vala de Perus, Micheas se apresentou à deputada Teresa Lajolo, do PT. Disse que havia sido guerrilheiro no Araguaia. A deputado consultou a ex-guerrilheira Criméia Almeida, que conversou com ele e confirmou sua história. Na seqüência, foi reapresentado à história pelo professor Romualdo Pessoa Campos Filho, da Universidade Federal de Goiás, autor de importante obra sobre a guerrilha, conforme veremos adiante. Os dirigentes do PC do B o reintegraram ao partido. Hoje ele mora em Goiânia e trabalha para o partido. In: depoimento oral de Criméia Almeida, em 29 de outubro de 2004.

[52] Em depoimentos orais para historiadores, jornalistas ou militantes do PC do B, Micheas já tentou por diversas vezes fazer uma reconstituição factual da guerrilha, em especial da Terceira Campanha. Mas não  consegue conectar episódios e nomes de forma coerente. Costuma ficar nervoso quando apresentado a contradições e muda de assunto ou suspende as entrevistas. A maior dificuldade é fazer com que relembre dos detalhes de sua fuga no Araguaia. Eu o entrevistei em setembro de 2004, em Brasília. Em conversas posteriores com jornalistas ou pesquisadores que também já o entrevistaram, como Criméia Almeida, descobri que Micheas se comportou de forma semelhante.

[53] Com base em uma série de indícios, os militares que redigiram o Dossiê Araguaia chegaram a acreditar que o Desconhecido fosse José Antônio Botelho, codinome Antônio, um dos desaparecidos da lista dos militares. Posteriormente, em minhas próprias pesquisas, descobri que Botelho era um dos nomes falsos usados por Antônio Ferreira Pinto, o Antônio Alfaiate, morto a 13 de outubro de 73, em companhia do guerrilheiro Jaime Petit da Silva, segundo o Dossiê Araguaia.

[54]Wladimir Pomar. Araguaia: O Partido e a Guerrilha – Documentos Inéditos. São Paulo: Brasil Debates, 1980.

[55] Aqui utilizo expressão do historiador Edgar De Decca, In: 1930 – O Silêncio dos Vencidos. São Paulo: Brasiliense, 1984.

[56] Palmério Dória. A Guerrilha do Araguaia. São Paulo: Alfa-Ômega, 1981; Clóvis Moura. Diário da Guerrilha do Araguaia. São Paulo: Alfa-Ômega, 1985; Fernando Portela. Guerra de Guerrilhas no Brasil. São Paul: Global, 1987.

[57] Carlos Pompe (Preparação e Revisão). Guerrilha do Araguaia – Documentos do PC do B. São Paulo: Ed. Anita Garibaldi, 1996.

[58] Romualdo Pessoa Campos Filho. Guerrilha do Araguaia – Esquerda em Armas. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 1997.

[59] Destacamos duas obras recentes, que as respectivas editoras têm feito esforços para que sejam adotadas como livros didáticos no 2ª Grau e no ensino superior. Fernando Vieira et alii. Sociedade Brasileira: Uma História Através dos Movimentos Sociais – Vol. I e II. São Paulo: Record, 2000, 2 vol.; Renato Mocellin. Reações Armadas ao Regime de 64: Guerrilha ou Terror?. São Paulo: Editora do Brasil, 1999.

[60]Verônica Bercht. Coração Vermelho – A vida de Elza Monnerat. São Paulo: Anita Garibaldi, 2002.

[62] Esses documentos foram doados por um dos militares que combateram no Araguaia, o coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel, à 2ª Seção (Informações) da brigada; mais tarde, um militar da brigada entregou cópias ao jornalista. In: Depoimento oral do coronel Lício Maciel, em 27 de setembro de 2004.

[63] Amaury Ribeiro Jr. “Segredos da ditadura no baú do general – Arquivos de Bandeira, ex-comandante do III Exército, mostram que líderes de esquerda foram mortos durante torturas, e não em combate”. O Globo, Rio de Janeiro, 25 abr. 1998, págs. 1 e 10-16.

[64] Eumano Silva e Gilberto Alves. A história do Exército que torturava, matava e cortava cabeças. Correio Braziliense, Brasília, 28 de novembro de 2001, págs. 1 et 6-9.

[65] Eumano Silva e Tais Morais pretendiam lançar um livro sobre o tema. Trabalhavam para publicá-lo no primeiro semestre de 2005, tornando público a íntegra de seus documentos.

[66] Élio Gaspari. A Ditadura Escancarada – As Ilusões Armadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

[67] Aluísio Madruga de Moura e Souza. Movimento Comunista Brasileiro; Guerrilha do Araguaia – Revanchismo: A Grande Verdade. Brasília: Edição do Autor, 2002.

[68] Luiz Maklouf Carvalho. O Coronel Rompe o Silêncio, Lício Augusto Ribeiro, que matou e levou tiros na caçada aos guerrilheiros do Araguaia, conta sua história. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

[69] Michel Foucault. Microfísica do poder. 14a ed., Rio de Janeiro: Edições Graal, 1999, pág.13.

[70] Bobbio. O Futuro da Democracia. Op. Cit., pág. 95.

[71] Maria Inês Nassif. “Da Estória das vítimas e dos algozes”. Valor Econômico, São Paulo, 10 jan. 2005, pág. A8.

[72] O coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel, codinome Doutor Asdrúbal, e um sub-oficial que usava o codinome de Cid, que até a presente data não autorizou a publicação de sua verdadeira identidade.

[73]Luiz Maklouf Carvalho. O Coronel Rompe o Silêncio… Op. Cit.

[74] Idem, Ibidem, pág. 221.

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