IDENTIFICANDO O IMAGINÁRIO DOS ATORES DO ARAGUAIA – “O Imaginário dos Militares na Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, Cap. 2)

 

 

“Se as coisas são inatingíveis… ora!

Não é motivo para não querê-las…

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!”

(Mário Quintana)

2.1 – A borboleta e a Pistola

 

A guerrilheira Dinalva Conceição Oliveira Teixeira deixou lendas heróicas em sua passagem de quatro anos pela região do rio Araguaia. Corre na tradição oral da região que, de certa feita, quando em combate, mesmo com uma bala alojada no pescoço, teria virado borboleta antes de desaparecer na mata diante dos olhos em estupor dos inimigos[1]. Por conta da sua determinação, os guerrilheiros a obedeciam. Pela coragem testada nas armas, os soldados a temiam. Para os militares que entraram na mata, rondava sempre o temor da sua aparição. Nada pior, acreditavam, do que encará-la de frente. Corriam boatos de que ela seria implacável, invencível. Dina: foi este o codinome que ela escolheu ao deixar para trás,em São Paulo, a identidade original de geóloga, a fim de aderir à Guerrilha do Araguaia. A subcomandante Dina, como gostava ser tratada a partir do momento em que foi promovida a vice-líder do Destacamento C, se tornou um dos ícones maiores da guerrilheira extremista. Protagonista da ação, povoou o imaginário da reação militar.

Certa vez, o guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza, um advogado baiano que usava o codinome de Mundico, esteve diante da determinação implacável da subcomandante. Bastou uma única vez. Era um caso banal de adultério, triângulo entre Rosalindo e o casal de guerrilheiros Arlindo Valadão, o Ari, e Áurea Elisa Pereira Valadão, a Áurea. Levado às barras do Tribunal Revolucionário das Forças Guerrilheiras do Araguaia – era este o nome oficial da instituição – Rosalindo foi acusado de trair a revolução[2]. Cinco companheiros participaram de seu julgamento, entre eles Dina[3]. Sete camponeses testemunharam o episódio[4]. Amarrado numa árvore, com as mãos nas costas, Rosalindo, escutou a acusação. Foi sentenciado ao justiçamento por unanimidade dos votos. Quem executaria a sentença? Dina levantou-se em silêncio e caminhou em direção ao companheiro. Parou a dois metros de distância e apontou seu revólver Taurus calibre 38 para o coração de Rosalindo. Ele nada falou, não chorou, não pediu clemência. Apenas encarou Dina nos olhos na hora em que ela apertou o gatilho. Rosalindo foi enterrado ali mesmo, num banco de areia a 250 metros da casa sede do sítio, enrolado numa rede. Seu corpo jamais foi encontrado. Ele figura na lista dos desaparecidos políticos do Ministério da Justiça. Esses fatos ocorreram a 26 de agosto de 1973[5].

A subcomandante Dina foi presa por uma patrulha de guerra na selva do Exército quase um ano depois, em junho de 1974, numa localidade chamada Pau-Preto, entre o rio Gameleira e o igarapé Saranzal. Estava em companhia da guerrilheira Luiza Augusta Garlipe, codinome Tuca, integrante do Destacamento B[6]. Levada para interrogatório em Marabá, permaneceu por cerca de duas semanas nas mãos de uma equipe da inteligência militar. Estava fraca, desnutrida, há quase um ano sem comer sal ou açúcar. Por conta da tensão, fazia seis meses que não menstruava. No início de julho, Dina foi levada de helicóptero para algum ponto da mata espessa, perto de Xambioá. Um sargento do Exército, Joaquim Artur Lopes de Souza, codinome Ivan, chefiava uma pequena equipe de três homens. “Vocês vão me matar agora?”, teria indagado Dina assim que pisou em solo. “Não, mais na frente um pouco; agora só quero que você reconheça um ponto ali adiante”, respondeu Ivan.

 

O grupo caminhou por cerca de 200 metrosmata adentro, Dina com as mãos amarradas nas costas. Ela e Ivan caminharam lado-a-lado. Mantiveram uma conversa cordial, testemunhada pelos dois militares que vinham logo atrás[7]. A subcomandante se queixou de que estaria se sentindo traída pela cúpula do PC do B. Ela queria combater, partir para o confronto armado com os militares, achava que tinha condições de desencadear a revolução socialista e vencer. O grupo parou em uma clareira. “Vou morrer agora?”, perguntou a guerrilheira. “Vai, agora você vai ter que ir”, respondeu Ivan. “Eu quero morrer de frente”, pediu. “Então vira pra cá”. Ela virou e encarou o executor nos olhos. Transmitia mais orgulho do que medo – relataria mais tarde o militar aos colegas de farda[8]. Ele se aproximou da guerrilheira, parou a dois metros de distância e lhe estourou o peito com um tiro de pistola calibre 45. O tiro pegou um pouco acima do coração. O impacto jogou Dina para trás. Levou um segundo tiro na cabeça. Foi enterrada ali mesmo. Seu corpo, como o de Rosalindo, jamais foi encontrado[9]. Ela também está na relação dos desaparecidos políticos do Ministério da Justiça.

2.2 – O Perfume do Real

 

Que forças induziram guerrilheiros como Dina e militares como Ivan a vivenciarem uma história de violência e de intimidade com a morte? “Me mata de frente”, teria sido o pedido da guerrilheira diante da iminente imolação. ”Então vira pra cá”, teria aquiescido o solícito carrasco. Onde estavam certos princípios hoje considerados universais, a começar pelos Direitos Humanos? Como a banalização da violência se transformou, naquele momento, na prática dos envolvidos no conflito do Araguaia? Como entender as relações estabelecidas entre inimigos a partir dos discursos produzidos sobre determinado evento? O objetivo desta pesquisa é narrar e analisar o imaginário dos militares, mas, ao longo do trabalho, constatei que não há como estudar os militares de forma isolada dos guerrilheiros. Afinal, o imaginário dos militares foi construído e reconstruído em ressonância com as práticas e imaginário dos guerrilheiros. Eram eles, tais como os guerrilheiros como Dina, igualmente os protagonistas da Guerrilha do Araguaia.

 

Como entender o código comportamental de alguns dos guerrilheiros, que matavam seus próprios companheiros sob o verniz do termo “justiçamento”? Além de Mundico, é certo que pelo menos outras duas pessoas foram justiçadas: dois mateiros acusados de colaborar com o governo[10] – e é provável que haja uma terceira execução sumária por parte dos guerrilheiros, a de um adolescente de 16 anos[11].

 

Tais execuções, ou “justiçamentos”, como chamavam os guerrilheiros, revelam o imaginário dos guerrilheiros, na medida em que representavam um princípio ético e moral que norteava as relações entre os revolucionários. O próprio termo que utilizavam para denominar as execuções sumárias revela os códigos estabelecidos entre eles, visto que, para os guerrilheiros, as mortes por “justiçamento” teriam sua legitimidade baseada no princípio de “justiça”, sendo, portanto, necessárias. O simbólico, assim, se encontra primeiro na linguagem, como reflete Castoriadis[12].

 

Havia diversidade de visões e divergências nos atos dos guerrilheiros. Alguns mais extremistas, como Dina; outros com uma visão extremamente crítica da guerrilha; havia, ainda, outros como a guerrilheira Regilena da Silva Carvalho, que foi para o Araguaia apenas para acompanhar o marido, o guerrilheiro Jaime Petit da Silva, segundo seus depoimentos posteriores[13]. Pode-se compreender melhor essas práticas quando levamos em consideração que eles eram movidos pela força do imaginário revolucionário de seu tempo. Contudo, chama mais atenção ainda a prática das tropas contra-revolucionárias do Estado constituído, as Forças Armadas, que tinham por dever cumprir o dogma socrático de zelar pela Lei e a Ordem, independente de quem fosse o adversário. Representavam o Estado, a Lei.

 

Mas, ao historiador, não basta selecionar e organizar fatos. É preciso, também, interpretá-los. A questão que se coloca é por qual arcabouço teórico e metodológico deve-se optar na análise de determinado fato histórico relacionado a uma guerra revolucionária e à sua repressão pelas forças legais organizadas? Ou seja, neste caso específico, como analisar o imaginário dos militares sobre a Guerrilha do Araguaia? Com a ajuda de Max Weber e de seus esquemas sobre o aparato burocrático?[14] Não parece ser o mais adequado para compreender o embate de duas forças políticas em armas. Com a ajuda de Marx e de sua teoria das classes sociais? Alguns estudos anteriores sobre o tema, que foram por mim confrontados[15], tomam por ponto de partida (e também de chegada) as metodologias marxistas ou estruturalistas. Os guerrilheiros do Araguaia eram leitores de Marx, o marxismo era a matriz teórica de suas ações. Ademais, a instrução militar nas décadas de 60 e 70 tinha por base a chamada Segurança Nacional, que essencialmente ensinava os militares a combater o pensamento e a prática comunista. Portanto, ouso afirmar que, paradoxalmente, era o marxismo que também movimentava a ação militar, no sentido de combatê-lo, de eliminá-lo.

 

Entretanto, há muitas questões em que o aparato teórico marxista é insuficiente para análise do objeto de estudo. Há de se perguntar, por exemplo, porque muitos militares, forjados no ideário positivista de guardiões da ordem nacional, cometeram atos de exceção? Como explicar o imaginário anticomunista dos militares que combateram os guerrilheiros? Quanto a seus adversários, há de se indagar, igualmente, como os jovens que se engajaram na luta armada das décadas de 1960 e 1970 foram movidos somente pelas contradições do capitalismo? Seriam eles apenas elementos de uma estrutura social, peões do processo histórico e da luta de classes? Não estariam eles, também, movidos por sonhos individuais, idiossincrasias intransferíveis e toda sorte de razões de ordem pessoal, como a idéia de fazer um Brasil justo e igualitário? Ou por que teriam nascido sob o signo da violência na política, em pleno início da Guerra Fria, ou seja, “com maior consciência da possibilidade do Juízo Final”[16], como escreveu Arendt, ao refletir sobre os significados da violência e seu uso na política? Trata-se apenas de mais uma dentre muitas outras indagações possíveis.

 

E na busca por melhor entender tais questões, na perspectiva aqui adotada, o aparato teórico e metodológico oferecido pela História do Imaginário permite ousar novas leituras. Apresenta-se adequado, inclusive, para uma outra compreensão de conflitos insurrecionais. Acredito que o estudo do imaginário dos atores da Guerrilha do Araguaia seja a argamassa que possibilita a ligação entre diferentes fatos desse episódio da nossa história. Foi a opção desta pesquisa. Desta forma, os conceitos do imaginário encontrados principalmenteem Cornelius Castoriadiseem Bronislaw Baczkoforam fundamentais na presente análise, visto que ambos refletem sobre a dimensão imaginária das instituições. Também se apresentam importantes os diálogos com as idéias de outros autores que analisam a dimensão do imaginário e da cultura, como Roger Chartier, Hommi Bhabha. Essencial, igualmente, na interpretação de alguns episódios pertinentes ao objeto de estudo, manter abertos os canais de diálogo com autores como Hannah Arendt, Michel Foucault, Roger Chartier, Bronislaw Baczko e Eric Hobsbawm, autores que refletem sobre a violência, o poder e a dominação.

 

Em suas análises, Roger Chartier[17] apresenta uma interpretação original sobre o que seria o objeto histórico fundamental. Ao historiador das economias e das sociedades, explica Chartier, que supostamente reconstitui o que existiu, opor-se-ia, efetivamente, o das mentalidades ou das idéias, cujo objeto não é real, mas as maneiras como os homens o pensam e o transpõem. Segundo Chartier, as lutas culturais têm tanta importância quanto as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo se impõe:

 

 “Perante as idéias, ou melhor, perante os conceitos que utilizam os homens de uma época, fornecendo-lhes o conteúdo próprio dessa época, a tarefa do historiador das idéias é, portanto, a de substituir a busca de uma determinação pela função, função essa que só pode ser apreendida se for considerado globalmente o sistema ideológico da época considerada”[18]

 

“A relação entre a consciência e o pensamento é colocado de uma forma nova, (…) pondo em relevo os esquemas ou os conteúdos de pensamento que, embora enunciados sobre o modo individual, são de fato os condicionamentos não conscientes e interiorizados que fazem com que um grupo ou uma sociedade partilhe, sem que seja necessário explicitá-los, um sistema de representações e um sistema de valores”[19]

 

Nesse sentido, cabe lembrar, preliminarmente, que os episódios protagonizados pela guerrilheira Dina, assim como todos os sujeitos da Guerrilha do Araguaia, estavam inseridos dentro do sistema de representações e valores da sociedade brasileira dos anos 60 e 70, quando o país se encontrava sob o regime militar. Era uma época de polarização extrema, maniqueísta, quando predominava, tanto no nível teórico quanto na prática social, o marxismo e o antimarxismo. Portanto, os atores individuais ou coletivos do episódio – os militares, os guerrilheiros e os habitantes da região do conflito — compartilhavam desses valores, dessas representações acerca do comunismo e do anticomunismo, quase sempre uma visão maniqueísta do mundo. Paradoxalmente, os dois lados se apresentavam como defensores da liberdade e da democracia – tanto as Forças Armadas, sustentáculo de uma ditadura militar, quanto os guerrilheiros, vanguarda de uma revolução que pretendia implantar a ditadura do proletariado. Mas todos se encontravam inseridos no mesmo contexto histórico. Em nível teórico, o imaginário permite desconstruir esta visão binária, dicotômica, essa polarização entre o Bem e o Mal reinante na sociedade brasileira no tempo em que ocorreu a Guerrilha do Araguaia.

 

Mas, afinal, o que é imaginário? No cotidiano das pessoas, o termo “imaginário” tem significados diferentes para cada um. Para uns, imaginário é tudo o que não existe, espécie de mundo oposto à realidade concreta. Weber lembra que os racionalistas dos séculos XVIII e XIX rotularam o imaginário como “a louca da casa”, maniqueísmo simplório, para o qual a razão e loucura eram estados mentais opostos e mutuamente exclusivos[20].  Para outros, “é uma produção de devaneios de imagens fantásticas que permitem a evasão para longe das preocupações cotidianas”[21]. Baczko lembra que, “no discurso atual das ciências humanas[…], o imaginário se dissocia cada vez mais de significados tradicionais, tais como ilusório ou quimérico”[22]. Barbier, com extrema propriedade, sintetiza a questão ao afirmar que imaginário “é o perfume do real. Por causa do odor da rosa eu digo que a rosa existe”[23].

 

Corre a lenda que, de certa feita, em conferência, o historiador Cornelius Castoriadis teria dito ser impossível compreender a questão do imaginário sem antes entender Castoriadis. Segundo Barbier, Castoriadis parece ser de fato o autor que apresenta “as melhores vias de acesso” à compreensão do tema[24]. Idéia compartilhada por Rogério de Andrade Córdova, para quem o conceito do imaginário de Castoriadis introduz um novo paradigma no campo filosófico, com repercussões também no campo político[25]. A questão do imaginário aparece, na obra de Castoriadis, no contexto de uma discussão sobre o projeto de autonomia, eixo central do que ele denominará projeto revolucionário. Procuremos entender, portanto, os pontos centrais das suas construções, para melhor compreender os diálogos teóricos que serão realizados ao longo deste trabalho. É o próprio Castoriadis quem explica:

 

“O imaginário é a faculdade originária de por ou dar-se, sob a forma de representação, uma coisa e uma relação que não são dadas na percepção ou nunca foram”[26]

 

Para o autor, o mundo histórico é o mundo do fazer humano, no qual se desenvolve um modo específico de fazer, que é o fazer político por ele designado como práxis[27]. A imaginação social, ainda segundo o autor, é o motor da criação humana inserida no social e no histórico, é criação e fazer ser no tempo. O imaginário não emerge do irracional, nem do pensamento, mas sim da realidade social. Portanto, quando Dina matou o companheiro ou pediu para morrer de frente, não estava tomada da loucura, nem da irracionalidade, mas tão-somente agindo de acordo com o imaginário revolucionário que a constituiu como guerrilheira. Morrer de frente significava morrer de pé, lutando até o último instante, morrer com a dignidade de um revolucionário de seu tempo. O mesmo diga-se a respeito da realidade social contra-revolucionária de seu matador.

 

Para Castoriadis, a sociedade constitui sempre sua ordem simbólica num sentido diferente do que o indivíduo pode fazer. Mas essa constituição não é livre, ressalta. Ela também deve tomar sua matéria no que já existe. Pertinente, portanto, com o modo que Dina escolheu para matar e depois para morrer – sempre olhando nos olhos do inimigo. Igualmente pertinente com o modo supostamente sereno com que o militar Ivan executou Dina, olhando nos olhos. Enfim, na concepção de Castoriadis, o imaginário social está baseado na faculdade da imaginação criadora individual, e o imaginário radical seria motor da sociedade e da história:

 

“Não sendo a causa da alienação, o imaginário é o motor da criação, porque sua ação principal vem do racional que é uma criação social-histórica”[28]

 

Teóricos da linha de Castoriadis apresentam o imaginário como um resultado de uma força criadora radical[29], própria da imaginação humana. Mas Castoriadis utiliza o termo “radical” no sentido de raiz, do criativo, da gênese. Cléria Botelho da Costa ressalta que imaginação e imaginário são palavras hoje muito utilizadas, mas pouco discutidas:

 

“Em nosso cotidiano é comum ouvir-se frases como ‘imagine se tivesse sido assim’, ‘use a imaginação’, ‘imaginário é ilusório’. Nessas frases imaginação é tomada como invencionice, mentira, exagero, excesso, e seu significado está relacionado ao falso, ao ilusório, ao quimérico e o imaginário reduzido ao não material. Na tentativa de entendê-las, parto da indagação: será que, de fato, existe um real bruto, objetivo, percebido como não modificado e nem modificável pelo homem, como propunham os racionalistas?”

 

“O conhecimento do real é sempre perpassado pela imaginação. Enquanto construção, é uma realização dos fazeres do homem, sujeito social de sua história, do seu mundo e, enquanto criação, é uma expressão dos sonhos, das utopias desses sujeitos sociais, pois são suas paixões, seus desejos que os movem a agir, a transformar a natureza” [30]

Bronislaw Baczko[31] apresenta muitas respostas às nossas indagações. Segundo ele, assim como se disputam terras e pão, os atores sociais também disputam as representações do imaginário. Em seus estudos sobre Imaginário e Revolução, Baczko enfatiza o sistema simbólico em que se articulam representações míticas, religiosas e ideológicas – como é o caso dos atores da Guerrilha do Araguaia. O autor parte da análise política das relações de poder. Para ele, a imaginação individual só pode existir na ação do grupo, dentro do imaginário coletivo. Afirma, ainda, que

 

“Todas as épocas têm suas modalidades especiais de imaginário, assim como possuem modalidades específicas de acreditar, sentir e pensar”

 

“O imaginário social elaborado e consolidado por uma coletividade é uma das respostas que esta dá aos seus conflitos, divisões e violências reais ou potenciais. Todas as coletividades têm seus modos de funcionamento específicos desses tipos de representações” [32]

 

Para Castoriadis, uma bandeira pode representar um símbolo com função racional. Para ilustrar seu pensamento, Castoriadis chama a atenção sobre o barrete frígio da Liberdade, usado como símbolo durante a Revolução Francesa. Da mesma forma, os militares e os guerrilheiros que combateram no Araguaia tinham seus próprios símbolos, cada um para expressar, em sua própria linguagem peculiar, ou a restauração da ordem estabelecida, ou a instituição de novos rituais que representassem a utopia revolucionária. Castoriadis apresenta um exemplo curioso de seu pensamento quando lembra da instituição do “Soviete dos Comissários do Povo” pelos comunistas russos. Conta o pensador que Trotsky relata em sua autobiografia que, quando os bolchevistas tomaram o poder, foi preciso encontrar um nome para o mesmo. A designação “ministros” e “Conselho dos Ministros” não agradava a Lênin, pois lembrava os congêneres burgueses e seu modo de desempenhar as funções. Foi Trotsky quem propôs o termo “Comissários do povo” e, para o governo, em seu conjunto, “Soviete dos Comissários do Povo”. Lênin ficou encantado com a idéia, achou a expressão “terrivelmente revolucionária”. E foi essa terminologia que prevaleceu. Para Castoriadis, criava-se

 

“uma nova linguagem e, acreditava-se, novas instituições. Mas até que ponto tudo isso era novo? O nome era novo; e existia, em tendência pelo menos, um novo conteúdo social a exprimir: os sovietes lá estavam, e era de acordo com a sua maioria que os bolchevistas haviam ‘tomado’ o poder (que no momento também não passava de um nome). Mas no nível intermediário que iria revelar-se decisivo, o da instituição em sua natureza simbólica em segundo grau, a encarnação do poder num colégio fechado, inamovível, cume de um aparelho administrativo distinto dos administrados – nesse nível, ficava-se de fato nos ministros, tomava-se a forma já criada pelos reis da Europa Ocidental desde o fim da Idade Média”[33]

2.3 – Matar ou Morrer: A Dignidade dos Guerrilheiros

 

Também se criou uma nova linguagem e se tentou instalar novas instituições no Araguaia. O grupo de 69 militantes do PC do B, por exemplo, se autodenominava de “Forças Guerrilheiras do Araguaia”. Assim assinavam nos comunicados públicos; assim eram os bônus com os quais tentavam arrumar dinheiro na região[34]. Inspirados no Regulamento Disciplinar das Forças Armadas, eles criaram um próprio “Regulamento da Justiça Militar Revolucionária”. Previa penas graves, como o fuzilamento em caso de “covardia diante do inimigo”. Dos seis diferentes crimes previstos no artigo 15, o artigo 16 previa a pena de morte para quatro deles. Mundico, por exemplo, teria sido enquadrado no artigo 16, inciso “d”, que previa a expulsão ou o fuzilamento “no caso de violências contra a mulher”. Estourar seu peito por causa de uma transgressão moral – a conjunção carnal com a companheira de um camarada de armas – foi considerado algo terrivelmente ofensivo ao código revolucionário, segundo narrativas orais. A notícia espalhou-se pela região, aumentando a aura de respeito que os camponeses nutriam por Dina. Foi também crescendo o mito sobre a guerrilheira no imaginário dos militares. O depoimento de um deles, que esteve entre os pelotões mais ativos que combateram na selva, revela com clareza a representação da guerrilheira:

 

“Ela era uma mulher de temperamento muito forte, determinada. Realmente era uma líder nata, tinha capacidade de convencimento e de liderança próprio do guerrilheiro altamente radical, radicalíssima. Durante toda a campanha, a gente nunca notou, nem por ouvir dizer, de qualquer atitude em que ela tenha fraquejado na vida dentro da guerrilha. Isso foi observado tanto por quem combateu na mata, quanto pelo pessoal de inteligência que se infiltrou entre os guerrilheiros e conversou com ela. Foi ela própria, com sua postura, quem fez sua lenda”.

 

“Quando chegamos no Araguaia, a Dina já era famosa e muito benquista entre o povo da mata. Depois que o Exército saiu de lá pela primeira vez, ela começou a criar a fama também como guerrilheira. Quando ela justiçou o Mundico, todos passaram a respeitá-la de forma diferente. Era uma mistura de medo e respeito. Dizia-se que atirava bem, que dominava a mata e começou a correr a lenda de que teria o corpo fechado, que virava borboleta. Outros diziam que ela virava folha. Então os soldados passaram a ter uma cautela especial com ela. A gente tinha em mente que ela era perigosíssima, que se pegasse um de nós, que mataria na hora, que não quebraria o galho de ninguém. Por isso houve uma determinação superior para correr atrás da Dina[35] mais do que de qualquer outro. O objetivo era desmontar o mito para desmoralizar os guerrilheiros. Foi uma luta incansável a que enfrentamos.[36](Grifos meus)

 

Matar Dina significou, assim, muito mais que eliminar um perigo físico, material. Por ter se tornado um mito, um símbolo de ousadia e coragem revolucionárias, apresentava-se como uma ameaça à ação militar. Desmontando esse mito, ajudaria a desmoralizar os guerrilheiros. Ademais, quanto maior o mito a ser eliminado, mais heróico seria o ato de eliminá-lo, maior seria a honra daquele militar que executasse a tarefa. Desta forma, os militares começariam a introduzir novos valores em seu imaginário. Matar a perigosa Dina, por exemplo, seria um troféu muito mais valioso do que capturar a pouco conhecida Tuca, guerrilheira que foi apanhada junto com Dina. A reflexão é de Baczko:

 

 “…a função do símbolo não é apenas instituir uma classificação, mas também introduzir novos valores, modelando os comportamentos individuais e coletivos e indicando as possibilidades de êxito dos seus empreendimentos”[37]

 

Enfim, tomando emprestadas as palavras de Baczko, Dina simbolizava, viva, uma das “possibilidades de êxito dos empreendimentos” guerrilheiros, por isso sua morte apresentava-se tão necessária para a prática dos militares. Ela chegou ao Araguaia em 1970, junto com o seu primeiro companheiro, Antônio Carlos Monteiro Teixeira, codinome Antônio. Meses depois se separaram. Um segundo companheiro passou por sua vida, Gilberto Olímpio Maria, o Pedro Gil. Acabou assistindo de perto à morte de ambos. Por dois anos, Dina trabalhou como parteira junto aos camponeses da região. Também manteve um pequeno comércio para a venda de bebidas e cigarros, chamado de Tabacaria da Dina. Em fevereiro de 1973, foi promovida à patente de subcomandante do Destacamento C das Forças Guerrilheiras. Tornou-se, desde então, a única mulher de todo o grupo em posição de mando.

 

O homem que a executou, Joaquim Artur – aqui, como no Araguaia, tratado apenas por Ivan – tinha sido seminarista em São Pauloantes de entrar para o Exército. Contava aos amigos que decidiu abandonar a batina quando os superiores começaram a implicar com suas leituras sobre Freud. Já fardado, foi campeão de hipismo, primeiro de turma na Escola de Sargentos e primeiro de turma na Escola de Aperfeiçoamento. Lia muitos livros marxistas; aos companheiros de armas, justificava que seria uma “estratégia para conhecer o inimigo”. Com 1m86, moreno, olhos verdes, 34 anos quando entrou em combate, cabelos cacheados e compridos até os ombros[38] – o que lhe dava uma aparência de Sidney Magal, um dos cantores mais populares da época – divertia-se em colecionar namoradas em cada ponto da região do Araguaia.

 

Dono de uma conversa sedutora, converteu uma dúzia delas em informantes do Exército. O general Antônio Bandeira, maior ícone militar durante a guerrilha, dizia a todos que adorava o Ivan. Quando o via, abria um sorriso. Era o único militar subalterno cujas opiniões Bandeira costumava escutar. Ivan morreu de forma trágica, em 1987, no Rio de Janeiro, quando um grupo de homens armados estourou sua cabeça a pauladas. Estava em processo de separação litigiosa da mulher; a Policia chegou a apontar um de seus cunhados como o principal suspeito do crime. Deixou para trás uma filha adolescente que pregou no quarto um pôster de Che Guevara.

 

Dina ocupou por 13 anos o imaginário de Ivan – da hora em que a matou até o instante em que morreu. Era sua heroína, a pessoa mais valente que já conhecera. Quando diante dos amigos de armas, Ivan gostava de cantar loas e boas sobre a imensa coragem demonstrada pela subcomandante na hora em que encarou a morte. Orgulhava-se de tê-la executado, relatam hoje seus amigos. Nesse sentido, o encontro entre Dina e Ivan nos remete ao mito do encontro entre Pentesiléia e Aquiles durante os combates de Tróia. Ela, a rainha das amazonas, terrível em seu grito de guerra, matou muitos bravos guerreiros até sucumbir pela espada de Aquiles. Reza o mito que o guerreiro de Homero se apaixonou por Pentesiléia no átimo de segundo em que os olhares se cruzaram no instante da morte[39].

 

Como parte do imaginário, as lendas sobre os guerrilheiros, que os militares encontraram na região quando ali chegaram, foram parte desta pesquisa. Pelo menos 15 guerrilheiros deixaram histórias no imaginário dos habitantes da região, aquilo que Bhabha conceitua como o “espaço do povo”, a “localidade da cultura”[40]. Para os soldados que entraram na mata, rondava sempre o temor da aparição da subcomandante Dina. Em razão de sua vida e morte singulares, eu a escolhi para ilustrar o lugar das representações dos guerrilheiros no imaginário dos militares.

 

Mas poderia ter feito uso das histórias em torno de outros personagens do mesmo ambiente, como Lúcia Maria de Souza, a Sônia[41], outra história a povoar ainda hoje o imaginário dos militares, que mesmo com uma bala alojada na coxa, cercada que estava por uma patrulha do Exército, resistiu à prisão, sacou sua arma e feriu dois oficiais, Dr. Asdrúbal e Dr. Luchini. Sua morte acabou se tornando a mais conhecida de todas entre os militares, muito mais do que a morte de Dina[42].

 

Persiste no imaginário dos camponeses e dos guerrilheiros – e também dos militares – que a morte de Sônia teria sido heróica, digna de respeito por parte dos inimigos. Isso porque, mesmo cravejada de balas, a guerrilheira teria resistido à prisão e pronunciado uma frase até hoje repetida como exemplo da coragem revolucionária: “Guerrilheiro não tem nome, tem causa”. No imaginário dos camponeses, há algumas variações de sua derradeira frase, como a que teria dito aos militares que estava “em busca da liberdade e de um mundo melhor”[43]. Sônia cursava o quarto ano de Medicina no Rio de Janeiro quando aderiu à guerrilha, em 1970. Trabalhava como parteira no Araguaia. “Soldado é cachorro do governo, só atiro em quem tiver galão”, certa vez anunciou[44].

 

Procurei reconstituir esse episódio tão importante do imaginário dos militares. O que tenho de mais preciso é que a 24 de outubro de 1973, Sônia foi avistada por uma patrulha de oito militares, comandada pelo Dr. Asdrúbal, enquanto bebia água num riacho. Estava descalça, minutos antes, suas botas haviam sido encontradas e os militares foram atrás da dona. “Quieta e mão na nuca”, disse o militar, segundo sua própria reprodução[45]. Ela parou com o grito. Levantou o braço esquerdo e com a mão direita foi desamarrando o coldre do revólver. “Não faça isso”, gritou o oficial, que logo a seguir atirou na guerrilheira. Ele estava agachado, a bala pegou na coxa direita de Sônia. Asdrúbal se aproximou. “Ela sangrava muito, eu estava me abaixando para ver melhor o ferimento, aí não vi mais nada”. Sônia tinha uma arma escondida, um revólver calibre 38. Deu um tiro no rosto de Asdrúbal; entrou por um lado e saiu por outro, esfacelando seu maxilar. Um segundo tiro pegou a mão do oficial; um terceiro pegou no braço de um capitão que vinha logo atrás, Dr. Luchini.

 

Os soldados reagiram atirando. Mesmo ferida, com cerca de dez balas no corpo, Sônia conseguiu fugir se arrastando pela mata. Com Asdrúbal desacordado, Luchini contorcendo-se de dor, dois militares correram atrás dela com duas metralhadoras em punho. Umdeles, chamado pelos militares ora de Javali Solitário, ora de J. Peter, era um suboficial do Exército, já falecido. O outro era então sargento do Exército, codinome Cid[46].  É Cid quem relata, em depoimento para esta pesquisa, o que ocorreu a seguir:

 

“Era umas 17h30 e já escurecia. Eu e o Javali fomos atrás da Sônia, que havia entrado em uma mata de capim de mais ou menos um metro de altura. Quando chegamos, ela estava deitada de costas, com o 38 ainda na mão, muito ferida. Respirava com dificuldade, tinha muitas balas de 9 milímetros no corpo. A 9 milímetros foi feita para ferir e não matar, por isso é possível sobreviver a 10 ou 20 tiros, se não forem em locais vitais. Ao chegar, ela quis levantar a arma. Eu pisei em seu braço e perguntei seu nome. Ela disse: “Guerrilheiro não tem nome”. Eu respondi: “Nem nome nem vida”. Eu e o Javali apontamos juntos nossas metralhadoras para dar o tiro de misericórdia. Não soltamos mais os gatilhos. Ela ia morrer mesmo, só reduzimos o sofrimento dela. Só paramos quando as balas das nossas metralhadoras terminaram. Ela ficou com mais de 80 furos”[47]

 

Em seus depoimentos, militares tecem igualmente elogios ao guerrilheiro Idalísio Soares Aranha Filho, o Aparício[48], que teria levado 53 tiros de metralhadora, inclusive no rosto, e ainda assim conseguiu escapar pela mata. Foi apanhado dois quilômetros adiante, agonizando no chão, e a seguir executado com um tiro de espingarda na cabeça, uma Winchester calibre 44[49]. O tiro moeu por completo sua cabeça. Os restos do guerrilheiro foram levados numa rede a Xambioá para que fosse identificado – ao vê-lo, um major da Aeronáutica teria vomitado copiosamente. Referem-se com admiração a José Humberto Bronca, o Zé Fogoió, um mecânico que fez treinamento na China e em Cuba, especialista em explosivos que acabou virando um dos três membros da Comissão Militar, o único operário da direção, “bravo, dinâmico, o cão”, nas palavras de um dos militares que o perseguiu[50]. Falam ainda do profundo respeito que passaram a nutrir pela guerrilheira Rioko Kaiano, que resistiu bravamente a maus tratos na prisão para proteger o homem que tanto amava, José Genoíno, o Geraldo[51].

 

No imaginário dos atores do Araguaia – tanto o camponês quanto o militar -, ninguém supera em lendas o guerrilheiro Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, gigante de ébano[52], campeão de boxe pelo Botafogo do Rio de Janeiro, tenente do Exército brasileiro[53], treinado como guerrilheiro na Academia Militar de Pequim, o mais conhecido e carismático dentre os guerrilheiros, cuja memória é hoje disputada pelos homens com quem caçou, mulheres que amou e filhos que deixou, tal qual Rolando, Tristão ou Lancelot. Osvaldão já morava na região desde 1966. Como história de cobertura, dizia que teria ido se dedicar ao garimpo. Em carta endereçada a um amigo, Osvaldão relata o que encontrou na região:

 

“Decidi morar em definitivo nesta região porque gosto de seu povo, sentindo-me bem entre ele. Fixei-me em terras junto ao Rio Gameleira, próximo à Santa Cruz, onde desenvolvia trabalho de roça. Aí fui procurado por amigos, que conhecera em grandes cidades, pedindo-me para trabalhar comigo. Eram perseguidos pelo governo por não estarem de acordo com a ditadura dos militares – que impera no país e infelicita o povo. Lutavam para restaurar a liberdade, implantar a democracia em nossa terra e assegurar o bem-estar para os trabalhadores. Não pude fugir ao dever de ficar solidário com eles, dar-lhes abrigo e deixar que aqui reconstituíssem sua vida. Juntos nos dedicamos ao pesado serviço da lavoura”[54]

 

Corria a lenda na região que Osvaldão virava lobisomem e outros tipos de assombração. Outra lenda é que teria a capacidade de se camuflarem fumaça. Assimcomo ocorreria com Dina, para os militares, tornou-se essencial apanhar Osvaldão vivo ou morto – de preferência morto -, para abalar o moral dos guerrilheiros e camponeses simpatizantes. Osvaldão foi abatido no início de 1974, aos 36 anos, quando se viu frente-a-frente com um mateiro, Arlindo Vieira, apelido Piauí. Ele ganhou a fama entre os militares de ser o mateiro mais eficiente da região – e aquele que mais teria ganhado dinheiro guiando as patrulhas do Exército mata adentro. Por isso, Arlindo havia sido publicamente jurado de morte por Osvaldão.

 

Certo dia o mateiro Arlindo pediu para guiar a equipe de cinco militares, chefiada por um sargento da Brigada Pára-quedista, hoje primeiro-tenente. Disse na ocasião ao militares que precisava pegar Osvaldão antes que ele o pegasse. Um detalhe prosaico teria ajudado os militares. Na área de São Geraldo, a equipe encontrou pegadas enormes. Osvaldão calçava 48. As pegadas também eram de uma sandália de pneu. Meses antes Osvaldão havia feito uma sandália com um pneu velho que ganhou de um militar que havia se infiltrado entre os moradores locais. O grupo caminhou dois dias atrás do rastro. Em determinada hora notaram movimentos no capinzal e pararam. Osvaldão teve azar. Caminhou em direção à patrulha e entrou na clareira com o peito de frente para a espingarda A-12 do mateiro. Arlindo se mostrava apavorado, tremia de medo. Osvaldão foi abatido de braços abertos, enquanto afastava o capim[55]. Urrou de dor. Um militar ainda disparou outro tiro de pistola 45 na cabeça do guerrilheiro já caído no chão.

 

Na seqüência, instalou-se no imaginário dos guerrilheiros e dos moradores da região que um helicóptero militar teria desfilado pela região com seu corpo de Osvaldão pendurado a uma corda, como um troféu, um símbolo da vitória[56], numa atitude simbólica que Lênin classificaria de terrivelmente contra-revolucionária. Afinal, como questiona Baczko,

 

“Em qualquer conflito social grave – uma guerra, uma revolução – não serão as imagens exaltantes e magnificentes dos objetivos a atingir e dos frutos da vitória procurada uma condição de possibilidade da própria ação das forças em presença?[57]

 

Militares mostraram em seus relatos que esse fato ocorreu, mas teria sido um mero acidente, um incidente involuntário. Como ele era muito grande, não havia espaço na cabine do helicóptero para todos. Então amarraram o corpo ao estribo do helicóptero, mas teria sido um serviço mal feito. A corda se soltou quando a aeronave sobrevoava a cidade de Xambioá. O corpo então ficou pendurado por uma corda. De qualquer forma, o episódio teve efeito marcante no imaginário da população, simbolizando para eles a derrota final da guerrilha. Afinal, sobrevoar a região com o corpo de um dos “heróis” guerrilheiros, apresentava-se como uma das “imagens exaltantes e magnificentes” dos “frutos da vitória” militar. A população “custava acreditar no que via, já que Osvaldão – ‘imortal, protegido pela Mãe D’Água e por outros deuses da Amazônia’ – tinha-se tornado uma lenda na região”[58]. Ovaldão teria sido inicialmente enterrado dentro da base militar. Meses depois, teria sido exumado para cremação.[59]

 

Gaston Bachelard[60], assim como Castoriadis, vai buscar a importância do imaginário social na psique individual, no sonho. Desta forma, buscaríamos no cotidiano da vida o direito de sonhar e de imaginar.  Portanto, pouco importa ser possível a capacidade da guerrilheira Dina se transformar em borboleta, conforme diz a lenda. Muito menos o fato do tiro que levou no pescoço não ter passado de um leve arranhão. Também pouco importa que Sônia tenha dito — ou não — que guerrilheiro não tem nome, mas causa; ou que Osvaldão virasse lobisomem ou fumaça, que fosse protegido da Mãe D’Água, ou mesmo que os militares tenham desfilado com seu corpo pelas cidades da região – conforme as lendas que povoam o imaginário dos camponeses. Pouco importa até se ele caiu mesmo por acidente do estribo do helicóptero durante os procedimentos de pouso na base militar em Xambioá, conforme o discurso militar.

 

O que importa nesta análise é aquilo que Barbier chama de “perfume da rosa”, os significados inscritos nas experiências e ações dos militares e dos guerrilheiros, que forjaram a criação das lendas. O que importa, no caso de Dina, é que a lenda sobre sua bravura existia, e se tornou crível tanto pelos moradores do Araguaia quanto pelos militares, tanto que esses tinham como prioridade eliminar o mito, o símbolo de resistência. Fez com que eles entrassem cuidadosos na floresta, sabendo – e temendo – que poderiam se defrontar com uma adversária com enorme capacidade de combate, tão hábil na fuga que muitos acreditavam que pudesse virar borboleta ou folha; o arquétipo de Pentesiléa, a rainha das Amazonas, uma adversária que teria o “corpo fechado” – tanto que todos seus companheiros foram metralhados e só ela escapou com vida. Portanto, eles entraram na selva, dispostos a atirar para matar ao primeiro sinal de guerrilheiro, já que poderiam estar diante dos mitos Dina ou Osvaldão. Relata um militar:

 

“Quando se espalhou a história de que Osvaldão virava lobisomem e fumaça, só tinha na área soldados experientes, que não acreditariam facilmente em estórias de assombração. Mas sabíamos que ele já tinha sido oficial do Exército e que atirava muito bem. Enfim, acreditávamos que o Osvaldão era um inimigo especial e que não seria fácil enfrentá-lo. Ficou o consenso de era muito importante pegá-lo antes que ele nos pegasse”[61]

 

No caso de Sônia, as histórias de que mesmo abatida acertou dois oficiais, de que mesmo no instante da morte não vacilou em sua convicção, declarando que “guerrilheiro não tem nome” (e ainda que não tenha dito a frase complementar, “tem causa”), teria levado os militares a não tentarem mais fazer prisioneiros, a atirar para matar, sempre, já que os guerrilheiros não iriam mesmo revelar sequer seus nomes, não tendo, portanto, utilidade vivos.

 

Nos depoimentos e conversas que mantive com militares que participaram dos conflitos no Araguaia, todos eles nutrem um profundo respeito, reverencial até, pelos guerrilheiros que tombaram lutando. Especialmente por aqueles que representavam maior perigo no imaginário militar, como Dina, Osvaldão, Sônia, José Carlos, Velho Mário. Demonstraram, por outro lado, profundo desprezo pelos que fugiram dos combates, especialmente pelos dois dirigentes máximos do partido que deixaram a região ainda no início de 1972, no primeiro sinal da chegada das Forças Armadas – João Amazonas, presidente do PC do B, e Elza Monnerat, membro do Comitê Central do partido. Chamou-me a atenção que onze dos militares com quem conversei, sempre que se referem a João Amazonas, acrescentam o termo “o desertor”. No Dossiê Araguaia, Amazonas é igualmente execrado, ao longo de todo o trabalho, como desertor.

 

A constância com que os militares denominam aqueles e aquelas que não participaram dos conflitos finais de “desertores” apresenta-se elemento rico de possibilidades de análise. Seriam “desertores” porque fugiram do conflito decisivo ou por que os militares não conseguiram capturá-los e exterminá-los, como ditavam as ordens da instituição? Trata-se de um paradoxo existente no discurso militar, haja vista que os métodos de captura e ações empregados contra os guerrilheiros não seguiam os códigos estabelecidos pela Convenção de Genebra, mas consideram traidores os guerrilheiros que fugiram. Combatentes sem honra de uma guerra sem regras.

 

Interessante atentar para a recorrência, nos discursos dos militares, à coragem e bravura dos guerrilheiros mortosem combate. Naqueles, os “heróis” da guerrilha foram os que lutaram até a morte, que feriram ou mataram os militares nas campanhas. Tal mecanismo de engrandecimento do inimigo apresenta-se, talvez, como forma de legitimar a violência utilizada na repressão à guerrilha. Exaltar os feitos de Dina, de Sônia e de Osvaldão, dentre outros guerrilheiros que teriam morrido heroicamente, justificaria a força da violência contra os inimigos. Os militares chegam ao limite de ver glamour nessas mortes. Ademais, construírem seus inimigos como titãs, se transformam em gigantes, tal qual Aquiles e Hércules, heróis da mitologia ocidental. Assim eles poderiam, algum dia, trocar o Tártaro pelo Olimpo da História.

 

 

2.4 – Cumprindo à Risca a Política do Estado

 

O que mais chama a atenção sobre a atuação dos militares na Guerrilha do Araguaia é a forma como alguns valores foram totalmente perdidos a partir de determinado momento. O que levou os militares a matar tanta gente, e de forma tão hostil? Será que para salvar a pátria da ameaça do comunismo? Será que um punhado de subversivos – “terroristas”, “bandidos”, “bandoleiros” ou qualquer outro adjetivo que os militares costumavam lhes dar[62] — isolados em algum lugar das selvas amazônicas, representavam tamanho ultraje para o estado constituído? Será que a guerrilheira Dina deveria ser mesmo executada depois se presa, conforme o anteriormente relatado? Ou a guerrilheira Sônia deveria mesmo ser metralhada no chão? Não bastaria mantê-las sob custódia do estado?

 

As respostas para tais reflexões podem ser encontradas no conceito de heteronomia, apresentado inicialmente por Hannah Arendt e, mais tarde, aprofundado por Castoriadis. A heteronomia deve ser entendida como a condição de pessoa ou de grupo que receba de um elemento que lhe é exterior, ou de um princípio estranho à razão, a lei a que se deve submeter[63]. Embora o corpo principal do trabalho de Arendt sobre totalitarismo seja anterior aos estudos sobre o imaginário, ela em muito ajudou a pavimentar as análises de Castoriadis sobre a heteronomia. Arendt começou aceitando a dicotomia na interpretação histórica e fazendo uso dos conceitos do Bem e do Mal, mas acabou por rejeitar o maniqueísmo e concluiu que o melhor caminho seria o do conceito da heteronomia.

 

Quando escreveu Origens do Totalitarismo[64], ao final da Segunda Guerra, Arendt ousou traçar um paralelo entre o nazismo e o stalinismo, considerando que ambos seriam muito semelhantes por conta das práticas totalitárias. Alemã e judia, dedicou-se muito mais a estudar a ascensão de Hitler, mas também arranhou com bastante eficiência a imagem do grupo político que tomou de assalto o estado soviético em nome da utopia igualitarista. Traçar comparações e paralelos entre os dois regimes foi considerado atitude espúria pela esquerda na ocasião.

 

Naquela época, a União Soviética e Joseph Stalin ainda eram tratados com fervor quase religioso pelos seguidores do socialismo. Os marxistas argumentavam que o termo “totalitário” seria inscrito no contexto de guerra fria e que seu uso seria uma tática do capitalismo liberal para tentar desmoralizar o socialismo real e a ditadura do proletariado. Mais tarde, na década de 1970, pensadores do quilate de Giovani Sartori e Raymond Aron chegaram a decretar o totalitarismo como um acidente histórico já superado[65]. Os acontecimentos posteriores, como o nacionalismo balcânico e o fundamentalismo islâmico, comprovaram ser essa corrente excessivamente otimista.

 

Arendt começou a se interessar pelo tema em 1947, chocada que estava com os acontecimentos políticos da época, com os horrores da guerra e do holocausto. Tentava encontrar explicações filosóficas para compreender o fenômeno totalitário. Naquela ocasião, encontrou em Kant o conceito de Mal Radical[66]. Mais tarde, em 1963, quando foi contratada pela revista The New Yorker para relatar o julgamento de Adolf Eichmann[67], em Jerusalém, elaborou suas reflexões acerca do fenômeno da violência e do totalitarismo.

 

Ela esperava encontrar, no mínimo, um homem perverso, um monstro, um exemplar de malignidade humana, como fazia acreditar a imprensa na época — sentimento semelhante ao que tive quando conheci pessoalmente os primeiros militares que participaram da Guerrilha do Araguaia. Hannah Arendt, contudo, ficou surpresa ao encontrar um homem comum, que podia ser caracterizado como tendo apenas um “vazio de pensamento”. Concluiu que o acusado não seria um monstro, mas “um homem com extremo grau de heteronomia”.[68] Ou seja, segundo a pensadora, Eichmann não passava de um pacato servidor público disposto a não pensar, a não elaborar, disposto somente a cumprir ordens, a qualquer preço, custe o que custar. Enfim, um indivíduo que era um produto típico do estado totalitário.

 

Foi, então, que Arendt passou a encarar o problema do Mal dentro da sua dimensão política, numa visão original, que é a dimensão da banalidade, da falta de grandeza. Ainda, de acordo com sua visão, as instituições públicas dos regimes totalitários dariam aos seus agentes o sentimento de embriaguez, de servir as forças superiores e aos vastos desígnios nos quais eles não são eles mesmos, mas apenas instrumentos tão dóceis como irresponsáveis. Ou seja, banais e infantis agentes cumprindo à risca a política do Estado. Foi essa “política infantil” que teria levado os arianos “eleitos” a produzir massacres administrativos em Treblinka e Sobidor, por exemplo, explica a pensadora. Esse fenômeno é definido como heteronomia.

 

Castoriadis Introduziu a questão da heteronomia especificamente dentro dos estudos do imaginário. Para o filósofo, o fenômeno ocorre quando

 

“(…) o sujeito não se diz, mas é dito por alguém, existe pois como parte do mundo de um outro (certamente, por sua vez, travestido). O sujeito é dominado por um imaginário vivido como mais real que o real, ainda que não sabido como tal. O essencial da heteronomia – ou da alienação, no sentido amplo do termo – no nível individual, é o domínio por um imaginário autonomizado que se arrojou a função de definir para o sujeito tanto a realidade quanto seu desejo”[69]

 

A questão do imaginário aparece na obra de Castoriadis no contexto de uma discussão sobre instituições, alienação e autonomia. Esses três conceitos são importantes para a análise do imaginário em eventos históricos relacionados a questões ideológicas e, em última instância, a revoluções. O imaginário, segundo o autor, é uma invenção, uma criação de sentidos. O imaginário não é a imagem de algo; não é só a representação do real, a mnese, mas é todo ele invenção, criação, vem da ordem da psique, mas que deve ter verossimilhança com o real, para que seja crível – como as lendas criadas em torno de Dina. Segundo Castoriadis, um símbolo

 

“…nem se impõe como uma necessidade natural, nem pode privar-se em seu teor de toda referência ao real […]. Enfim, nada permite determinar as fronteiras do simbólico”[70]

 

O conceito de imaginário é utilizado com o intuito de acabar com dicotomias, maniqueísmos e afins. Para Castoriadis,

 

“A humanidade teve e tem fome de alimento, mas ela também teve fome de vestimentas e em seguida de outras vestimentas que não as do ano anterior, ela teve fome de automóveis e de televisão, fome de poder e fome de santidade, ela teve fome de ascetismo e de libertinagem, ela teve fome de místico e fome de saber racional, teve fome de amor e de fraternidade, mas também fome de seus próprios cadáveres (o grifo é meu), e agora parece que começa a ter fome da Lua e de planetas. É preciso uma boa dose de cretinismo para pretender que ela inventou todas essas fomes porque não conseguia comer ou fazer amor suficientemente”[71] .

 

O conceito tradicional de instituição toma por base os valores sociais cristalizados, os valores sacramentados, que garantem a reprodução das tradições, dos valores instituídos, que sobrevivem ao tempo e às gerações e que asseguram a sobrevivência das sociedades[72]. Castoriadis apresenta um outro conceito para instituição, diferente do tradicional. Para ele, trata-se de uma construção e dispositivo inscrito em uma rede simbólica. Para ele, é nas instituições sociais que encontramos os significantes e os significados dos símbolos e dos valores reconhecidos pela sociedade. O papel da instituição, segundo Castoriadis, está cravado no histórico social, ou seja, os sujeitos estão no mundo numa relação com as instituições, pois as instituições são criações humanas. Os sujeitos estão no mundo numa relação com as instituições, enredados em sua rede simbólica.

 

“Encontramos primeiro o simbólico, é claro, na linguagem. Mas o encontramos igualmente, num outro grau e de uma outra maneira, nas instituições. As instituições não se reduzem ao simbólico, mas elas só podem existir no simbólico, são impossíveis fora de um simbólico em segundo grau e constituem cada qual sua rede simbólica”[73] .

 

A partir daí, Castoriadis vai construindo os conceitos de autonomia e alienação. Ele apresenta esses conceitos como uma crítica ao fenômeno da autonomização. Segundo Castoriadis, na medida em que a instituição ganha força, começa se autonomizar. E no momento em que a instituição adquire a autonomização, vem conseqüentemente a alienação. A alienação surge como uma modalidade da relação com a instituição e, por seu intermédio, da relação com a história[74]. Ou seja, a instituição começa a funcionar como se não tivesse dentro do contexto histórico, começa a se deslocando da sociedade, de seus valores e o código de conduta social. A instituição autônoma se aliena e começa a agir segundo valores deslocados da conduta da sociedade na qual está inserida.

 

“A alienação é a autonomização e a dominância do momento imaginário na instituição que propicia a autonomização e a dominância da instituição relativamente à sociedade. (…) Ou seja, a sociedade não reconhece no imaginário das instituições seu próprio produto.[75].

 

Transportando para o objeto de nossos estudos, teria sido a heteronomia que levou Dina a cumprir, sem vacilo, sem pensar, a sentença de morte que o Tribunal Revolucionário aplicou ao guerrilheiro Mundico? Da mesma forma, teria sido a heteronomia que levou o militar Ivan a cumprir, com aparente serenidade e indiferença, a ordem de executar uma prisioneira que já estava indefesa e inofensiva nas mãos do Estado, e que, portanto, já não representava mais qualquer perigo para a ordem estabelecida?

 

Outro episódio que igualmente ilustra aquilo que Arendt chama de “vazio do pensamento”, o “sentimento de embriaguez” de servir às instituições públicas dos regimes totalitários, ocorreu durante a execução da guerrilheira Dinaelza Santana Coqueiro, a Maria Dina[76]. Estudante de Geologia na Bahia, Maria Dina era uma das mais conhecidas guerrilheiras do Araguaia. Carregava entre os companheiros, os moradores da região e entre os militares, a imagem de valente, corajosa, perigosa. Apanhada pelos pára-quedistas, foi levada a Marabá. É seu próprio algoz, o agente Fernando, quem relata:

 

“Era braba pra cacete, aguentou um pau violento, uns cinco ou seis dias de pau. Aí contou a história dela. Então nossa equipe a levou. Na hora, minha pistola engasgou. Engasgou e não saiu mais bala nenhuma. Ela me olhava com um ódio danado. Não chorou, só me olhava com ódio, um ódio fantástico, ódio, muito ódio. Foi uma merda. Então eu tive que pegar outra arma. Um companheiro chegou perto e me ajudou a fazer o serviço”.[77]

 

E o que esse agente do estado totalitário teria sentido ao encarar os olhos da vitima? Ele próprio responde:

 

“Eu? Com ela, nada. Eu estava preparado para fazer aquilo mesmo”.[78]

 

Somente o “nada”, o “vazio do pensamento”? Seria o agente Fernando um homem perverso, um monstro, um exemplar de malignidade humana, como um dia Arendt de início imaginou que Eichmann fosse? Será que o agente Fernando estaria mesmo preparado para fazer aquilo, como disse que estava? De certa feita, em um de nossos encontros, o agente Fernando narrou a execução de outro guerrilheiro, Tobias Pereira Júnior, o Josias. Para ele foi trágico. Josias era estudante de Medicina no Rio de Janeiro quando decidiu aderir à guerrilha. Preso a 18 de dezembro de 1973, na região do igarapé Gameleira, no início estava com muito medo. Depois se dizia arrependido estar naquele lugar. Ficou com os militares por quase dois meses. Desenhou os mapas da região e ajudou a localizar os remanescentes da guerrilha. Chegou até a ensaiar uma amizade com Fernando, um dos escalados para os interrogatórios[79]. Certo dia Fernando foi chamado para executar Josias. Eis seu relato:

 

“Ele já não oferecia nenhum tipo de ameaça prá gente. Conversamos muito, ele falou do erro de estar ali, prometemos até tomar chope juntos quando a guerra terminasse. Combinamos nos encontrar no Garota de Ipanema[80]. Ele estava cheio de esperança, mas eu sabia que não iria cumprir a promessa. Um dia me veio a ordem de ‘fazer’[81] o Tobias. E eu refuguei. E porque eu refuguei, minha equipe toda não foi. Eu pedi foi pro chefe, ‘Se o Sr. puder me tirar esse cálice’. O termo foi esse: ‘Tira de mim esse cálice, porque eu não vou conseguir assumir esse serviço não’. Eu ainda disse: ‘Se o Sr. quiser me chamar de covarde, sou covarde’.  E ele respondeu: ‘Não, você está certo’. Então o Tobias foi  mandado para outra equipe.”[82]

 

Filho de um pastor presbiteriano, criado nos mais rígidos cânones cristãos, ao ser chamado para matar seu “amigo” Jobias, o agente só se lembrou das palavras de Jesus Cristo às vésperas de sua paixão: “Pai, afasta de mim esse cálice”.[83] Ele não teve coragem de olhar nos olhos do “amigo” Josias, como já encarara Maria Dina, Cid olhara para Sônia, como meses depois Ivan iria olhar para Dina. O agente dera sua palavra de honra ao guerrilheiro que iriam juntos tomar uns chopes no “Garota de Ipanema” quando aquela barbárie terminasse. Como beber dessa bebida amarga? “Chefe, tira de mim esse cálice!”, pediu. E o chefe tirou – tirou de um, mas entregou a outro a missão de beber o cálice com o vinho tinto de sangue. Como bem lembrou Castoriadis, em seu intuito de utilizar os estudos do imaginário para acabar com dicotomias, maniqueísmos e afins na análise da história, a humanidade tem fome de poder e de seus próprios cadáveres, mas também tem fome de santidade, fome de místico, fome de amor e de fraternidade.[84] E agora, ainda parafraseando Castoriadis, parece que começa a ter fome da Lua e de planetas, fome de consciência e de sobriedade. Fome até mesmo de pedir perdão por um dia ter sido — como definiu Hannah Arendt — um agente dócil, infantil, embriagado e irresponsável do regime totalitário instaurado no Brasil depois do movimento de 1964.

 

 

2.5 – O Imaginário e a Longa Noite Hobbesiana

 

Em Vida e Morte do Partido Fardado[85], Oliveiros Ferreira chama de “a longa noite hobbesiana” o período no qual as Forças Armadas protagonizaram forte influência na condução do processo político brasileiro. Uma noite que, segundo o autor, durou século e meio, com início em 1821, quando a tropa do Rio de Janeiro obrigou o príncipe regente Pedro de Alcântara a substituir o ministro da Guerra, e que se prolongou até 1985, quando o último general no poder – João Figueiredo – deixou o Palácio pela porta dos fundos.[86]

Nesse século e meio, foram pelo menos 15 as intervenções políticas dos militares em momentos decisivos da história brasileira. Em alguns deles, como a renúncia de Pedro I, em 1831 e a Revolução de 1930, foram os militares meros coadjuvantes, levados à ação por civis que apareceram nos quartéis para instigá-los à ação. Outros episódios, como a proclamação da República, em 1889, o governo ditatorial de Floriano Peixoto e a imposição do AI-5, em 1968, foram grupos militares que teriam tomado a iniciativa, na condição de atores principais do processo. Há, ainda, aqueles movimentos que ganharam as ruas a partir de uma aliança entre civis e militares, como a instituição do Estado Novo, em 1937, e a deposição de Getúlio Vargas, em 1945.

Foi Oliveira Viana quem definiu como “um poderoso fetiche de dragonas e punhos estrelados” o sentimento que as elites políticas brasileiras costumavam nutrir, desde o Império, pelos militares.[87] “Eu os identifico a todos”, disse de certa feita o marechal Castelo Branco.[88] “E são muitos deles, os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias do poder militar”[89]. Oliveiros Ferreira ressalta que sempre houve uma relação conturbada, de amor e ódio, de conflito de interesses, entre civis e militares brasileiros.

 

“Houve momentos em que, no mundo político e civil, as Forças Armadas foram consideradas como o inimigo do Poder Constitucional; outros, em que os próceres do mundo civil bateram às portas dos quartéis para pedir aos militares que interviessem na política para ajudá-los a manter o status quo ou, então, para que facilitassem mudanças na estrutura política, social ou econômica do país, mudanças essas que eles, civis, não tinham, digamos, certeza de poder realizar sozinhos por meio do mero jogo político”.[90]

 

“Do lado dos militares, a aliança nunca se fez sem reservas mentais, pois não deixavam de perceber na ação dos próceres civis o desejo de servir-se das Forças Armadas para, depois, descartá-las como limão espremido, quando não acabar com elas enquanto organização. Essa relação conturbada, em que a idéia que um grupo fazia do outro sempre impediu que o lacre sobre o qual se apunha o selo da aliança fosse de boa qualidade, não foi motivo para refrear o impulso dos civis de baterem às portas dos quartéis nem, muito menos, o seu aspecto negativo bastou para que, em determinadas circunstâncias, os militares deixassem de aceitar a tarefa que lhe era pedida realizar”[91].

 

A respeito da grande intervenção militar de 1964, que antecedeu diretamente a Guerrilha do Araguaia, considero necessário tecer comentários mais detalhados para melhor entender os diversos significados que os militares atribuíram a suas ações na referida guerrilha. Na busca da compreensão desse movimento, opto por começar a olhar nos agitados anos 30. Abro um parêntese para lembrar que toda época tem seu imaginário e todo grupo social tem seus ícones. Oliveiros Ferreira chama a atenção, em especial, para um carismático oficial do Exército, Pedro Aurélio de Góis Monteiro, cujas idéias serviram de bússola para o grupo que tomou o poder em 1964. Foi o projeto político criado por ele que terminaria por ser imposto a toda a nação. Líder tenentista, Góis havia sido promovido a general ainda em 1931, no fervor da vitória revolucionária. Acabou reconhecido como uma espécie de mentor intelectual de boa parte dos militares por mais de três décadas. Foi um dos articuladores do Estado Novo de 1937 e o principal líder do golpe que depôs Vargas em 1945. Na história brasileira só se encontra paralelo no coronel Benjamin Constant, que inoculou o positivismo na oficialidade do Império[92].

 

Mas afinal, o que pregava Góis Monteiro que seduzia de tal forma o imaginário dos “granadeiros”? Ele personificava, em essência, o sentimento de desprezo que a “caserna” – denominação dada às Forças Armadas – nutria pelos civis. E qual alternativa ele apresentava? Ora, dizia o general, “as classes armadas devem ser a espinha dorsal da nação”[93]. Oliveiros Ferreira considera Góis Monteiro o grande totem de seu tempo, o ideólogo maior do que ele chama de “Partido Fardado” – expressão que doravante tomarei emprestada:

 

“Ao mesmo tempo em que [Góis Monteiro] tem uma idéia muito clara de qual é o interesse do Estado, ele faz do Brasil uma imagem sem retoques e sabe, por isso mesmo, que o Exército deve ocupar e servir o país. Não apenas isso o qualificaria a ser o ‘Intelectual do Partido’; ele o é porque foi o primeiro – e o único general – a dar ao Exército uma missão política que acabava redundando numa concepção de Estado. Em outras palavras, construiu uma doutrina para o Partido (Fardado) e pretendeu que ela fosse a doutrina política do Exército. (…) Para Góis, a missão do Exército era ocupar o país, e sua política – política do Exército e não dos partidos do Exército – era fazer que as decisões governamentais em todos os campos – educação, saúde, indústria, todas, enfim – tivessem sempre como objetivo a mobilização. A política de Góis era, em suma, ocupar o território e impor disciplina ao país”[94]

 

Quando a década de 1960 desponta, encontra o Partido Fardado crescendo dentro das Forças Armadas, inoculadas que estavam com aquele mesmo sentimento da década de 1930 – o desprezo atávico pelos políticos civis – e com aquela mesma idéia latente de que os militares deveriam ser a “espinha dorsal da nação”, no sentido de manter a ordem, condição básica para o país. Assim, pregava o imaginário continuo. Talvez seja o traço mais forte e coeso do imaginário dos militares brasileiros, o que possibilitou que tivessem poder de ação. Poder que, segundo Arendt,

“corresponde à capacidade humana não somente de agir mas de agir de comum acordo. O poder nunca é propriedade de um indivíduo; pertence a um grupo e existe somente enquanto o grupo se conserva unido. Quando dizemos que alguém está ‘no poder’, queremos dizer que está autorizado por um certo número de pessoas a atuar em nome delas. No momento em que o grupo do qual se originou a princípio o poder, desaparecer, ‘seu poder’ some também”[95]

 

A década de 1960 também encontra a Guerra Fria[96] chegando a seu ápice. Na Europa, Ásia, África, América, em todos os cantos do mundo, foram anos extremamente agitados, efervescentes. Na América Latina, desde o triunfo do comandante Fidel Castro em Cuba, em 1959, todo o continente estava em ebulição diante da possibilidade do triunfo de uma outra revolução comunista.

No Brasil, o período que vai da renúncia do presidente Jânio Quadros, em agosto de 1961, até a tomada do poder pelos militares, a 31 de março de 1964, apresentou-se como um dos mais conturbados da história do país. Durante o governo de João Goulart –1961 a 1964 -, a radicalização política tomou conta do cotidiano do País. As esquerdas agitavam-se diante da possibilidade concreta de promover reformas estruturais na economia, “na lei ou na marra”[97], e a principal era a reforma agrária. Os movimentos sociais também chegavam a seu ápice – nas grandes cidades, como São Paulo, os sindicatos operários fortaleciam-se com as greves cada vez mais frequentes; em Pernambuco, proliferavam as Ligas Camponesas. Dentro das Forças Armadas, cabos e sargentos se organizavam politicamente e assustavam os oficiais mais conservadores. Cada vez que Goulart tergiversava, ou tendia para a esquerda, as diferentes facções dentro das Forças Armadas se uniam ainda mais em torno de um novo projeto comum. De um lado, observa Oliveiros, havia os militares que pregavam que a luta contra o comunismo deveria predominar nessa aliança; de outro, havia os que achavam que chegara o tempo de os militares assumirem definitivamente o poder, como pregava Góis Monteiro, “ao invés de dar golpes para instalar civis em um governo que seria deposto por novo golpe na crise seguinte”.[98]

Para Oliveiros, a “chegada do ano de 1964 deixava no ar que o país se encaminhava para duas saídas: a revolução social ou o golpe de estado”[99]. Enfim, o país estava à beira da guerra civil quando um movimento militar, iniciado a 31 de março de 1964, depôs o presidente Goulart e pendeu o poder, definitivamente, para o lado da aliança ocidental, liderada pelos Estados Unidos. O golpe de estado foi o caminho vencedor.

Não cabe aqui tecer descrições alongadas sobre esse período e muito menos ousar analisá-lo em poucas linhas, mas tão somente registrar algumas análises que podem ajudar a pavimentar o percurso principal desta pesquisa –desvelar o imaginário dos militares sobre a Guerrilha do Araguaia. Dentro da Academia, há uma questão sobre a qual há quatro décadas se debatem os historiadores: saber se os militares “comporiam uma instituição autônoma, marcada pelo isolamento e unidade, ou expressariam as clivagens e contradições da sociedade como um todo, sendo reflexo da hierarquia social”, como bem apresentou Carlos Fico[100]:

 

“Seria possível construir um modelo teórico capaz de explicar os regimes militares em países diversos? Ademais, no caso brasileiro, como se caracterizaria a singularidade do golpe de 64 e do regime militar?”[101]
Em outras palavras, o ponto central do debate foi saber se a discussão de certos temas não econômicos ou estruturais, como a valorização dos aspectos políticos e institucionais, ou a autonomia das Forças Armadas brasileiras, vista “como uma corporação possuidora de uma dinâmica própria ou burocracia especializada”[102], ainda segundo Fico, “confrontava o possível entendimento marxista dos militares como agentes instrumentais da burguesia”[103]. Autores marxistas, como Jacob Gorender e João Quartim de Moraes, enfatizam os aspectos estruturais do período pré-1964, e analisam o movimento militar essencialmente como um golpe provocado por uma aliança da burguesia nacional com o capital internacional, no qual os militares serviram como instrumento[104].

Naquela que talvez seja a pesquisa mais completa até hoje realizada sobre o tema – especialmente por conta da qualidade das fontes – o professor René Dreifuss, autor de “1964: A Conquista do Estado”, também expressa a conclusão de que, em 1964, os militares não tomaram o poder sozinhos, mas como integrantes de um “bloco de poder”, formado pelo empresariado nacional e pelo “capital monopolítico transnacional”[105]. Dreifuss apresenta a idéia dos anéis burocrático-empresariais. Partindo de uma análise gramsciana, ele lembra que houve uma longa gestação de um projeto alternativo ao Estado populista. Foram quase dez anos em ebulição nos estudos e debates nas instituições militares, nas entidades da classe patronal, como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, nos grupos de ação política civil, como o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), ou mesmo nos anéis da burocracia estatal, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico:

 

“Antes que o golpe se efetivasse, valores modernizante-conservadores germinados dentro de diferentes formas de poder de classe dominante, expressaram-se através dos vários organismos da sociedade civil. (…) Por um período de quase dez anos, o bloco de poder emergente visou a uma acomodação com o bloco de poder populista. Ele tentou também conseguir reformas parciais no aparelho do Estado, assegurar participação multinacional e associada na legislação e administração, assim como apoiou o domínio populista sobre as classes subordinadas. (…) Quando os canais político-partidários e administrativos não obtiveram êxito em atingir as reformas necessárias prenunciadas pelo bloco modernizante-conservador, e quando os interesses multinacionais e associados notaram as dificuldades crescentes em se conseguir conter a massa popular dentro do sistema político populista, o bloco de poder emergente teve de recorrer a outros meios”[106]

Alfred Stepan, outro autor que analisa o período militar no Brasil, valoriza o papel que teve a Escola Superior de Guerra – ESG -, criada em 1948, na preparação do golpe e, mais tarde, como importante aparelho de Estado do regime militar[107]. Um outro totem dos militares brasileiros, o marechal Cordeiro de Farias, o “arquétipo do conspirador histórico”, nas palavras de Dreifuss, personagem proeminente em todos os dez episódios de intervenção militar entre 1922 e 1964[108], ilustrou de forma precisa o imaginário dos militares sobre o papel da ESG na tomada de poder:

“Em 1948, nós plantamos carvalhos. Não plantamos couve. A couve floresce rapidamente, mas uma só vez. Os carvalhos demoram, mas são sólidos. Quando chegou a hora, nós tínhamos os homens, as idéias e os meios”[109]

Os historiadores da escola norte-americana, por sua vez, os chamados brazilianists, tendem a valorizar a questão da autonomia das Forças Armadas. Thomas Skidmore, primeiro brazilianist a se debruçar sobre a questão[110] apresenta a idéia de que o golpe de 64 teria sido essencialmente uma operação militar. Alfred Stepan lembra, ainda, que, historicamente, os “civis que formam as camadas politicamente importantes” da sociedade brasileira “sempre tentaram servir-se dos militares para atingir seus próprios objetivos políticos”[111]. Em seus estudos sobre o tema, Stepan trabalha com a hipótese da existência daquilo que ele batizou de “padrão moderador” das relações entre civis e militares. Segundo ele, haveria um padrão repetitivo nas intervenções militares verificadas na história brasileira e de toda a América Latina, na qual diferentes grupos políticos tentaram cooptá-los para atingir seus próprios objetivos de poder. Seria esse o “padrão moderador” dos militares. Segundo ele, a instituição militar não seria um fator autônomo, mas deveria ser pensada como um subsistema que reage às mudanças no conjunto do sistema político. Para Stepan, antes da crise de 1964, os militares vinham sendo chamados tão somente para depor um governo e depois transferi-lo para outro grupo de políticos civis. Em 1964, os militares teriam mudado de padrão, sentindo-se capacitados para assumir de vez o poder. Stepan explica:

“Um aspecto fundamental do relacionamento civil-militar é a tensão potencial que se manifesta diante de uma dupla necessidade dos governantes políticos civis: de um lado, manter uma força armada como instrumento da política e da ordem interna e, de outro, garantir que o poder militar não usurpe o poder político”

 

“As exigências políticas são elevadas, mas a capacidade política de convertê-la em resultados efetivos é pequena. A sociedade é pretoriana, no sentido de que todas as instituições – a igreja, o trabalho, os estudantes – são altamente politizados. Ao mesmo tempo, porém, as instituições política são fracas. Nesse tipo de sociedade, os militares também são politizados e todos os grupos tentam cooptá-los para aumentar sua força política” [112]

Mais recentemente, emergiu a tese de que o golpe de 1964 teria sido uma conspiração essencialmente militar, que contou com o apoio dos grupos econômicos brasileiros, e não a resultante de uma aliança entre a burguesia nacional e as transnacionais com o apoio da classe média, que contou com a participação dos militares, como analisam os marxistas e estruturalistas[113]. Ou seja, desde a preparação do golpe, depois na montagem do governo Castelo Branco, consolidando-se num crescente de governo a governo, teria ocorrido uma clara hegemonia dos militares sobre quaisquer outros segmentos sociais. Para asseverar essa idéia, tome-se a crescente militarização do regime, assim como a criação do aparato de repressão política a partir de 1968.

Os principais defensores dessa tese são os pesquisadores Gláucio Ary Dillon Soares e Maria Celina D’Araújo[114], do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas, o CPDOC. Em depoimentos que fizeram com militares que tiveram papéis relevantes no regime, eles perceberam que o imaginário dos militares, de forma majoritária, ao deflagrar o golpe, estava motivado pelo anticomunismo e pelo mal-estar com a iminente quebra da hierarquia nas Forças Armadas, provocada pelos movimentos sindicais de cabos e sargentos. Ou seja, com a quebra da ordem. E pouco ou nada se referem à decantada aliança com o capital estrangeiro e com os Estados Unidos, em particular. Segundo Dillon Soares, os militares teriam bastante “autonomia na criação e manutenção de um sistema de valores”, em função de seu “alto grau de isolamento social”[115], visto que as

 

“interpretações iniciais do golpe militar enfatizaram suas causas econômicas. (…) O economicismo do pensamento político e social na América Latina fez com que se fosse buscar nas elites econômicas os responsáveis pelo golpe. O golpe, porém, foi essencialmente militar: não foi dado pela burquesia ou pela classe média, independente do apoio que estas lhe prestaram”[116]

 

Por fim, concordo com Castoriadis ao afirmar que o imaginário está cravado no histórico social, ou seja, os valores que nortearam as ações dos militares no Araguaia foram forjados na sociedade.

 

 

 

 

2.6 – O Sonho: República Popular do Brasil

 

O historiador Luís Mir lembra que, por quase cinco décadas, entre os anos 30 e 70, aesquerda internacional olhava para o Brasil acreditando que o país estaria “fadado ao grande destino de protagonizar a terceira grande revolução do século XX”[117] – a primeira foi a da União Soviética e a segunda, a da República Popular da China. A terceira, avalia Mir, seria a implantação da República Democrática Popular do Brasil:

“Para os brasileiros e estrangeiros que a tentaram, foi a revolução impossível. Moscou e Pequim, as capitais que encabeçaram ou pretenderam conduzir a revolução socialista mundial, voltaram-se para este país sempre com um olhar de admiração e urgência”[118]

 

Foi assim em 1935, no movimento armado protagonizado pela Aliança Nacional Libertadora (ANL), do capitão Luís Carlos Prestes[119]. Igualmente em 1969, quando a Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella, e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), do capitão Carlos Lamarca, pegaram em armas – a partir de1972, a luta se estenderia também ao campo, desta vez com o PC do B do dirigente João Amazonas e do comandante guerrilheiro Maurício Grabois. Ainda segundo Mir, havia um

 

…”Consenso universal à alteração estratégica que uma revolução no Brasil provocaria no cenário internacional e na relação de forças das superpotências. No Brasil, os atores desse fracasso repetido, derrota anunciada, nunca transpuseram a fronteira do desejo. Os comunistas brasileiros nunca foram uma ameaça real. As duas maiores barreiras que enfrentaram: internamente, um anticomunismo profissional e permanente dos militares e da elite brasileira; externamente, o estigma da credibilidade”[120] 

 

Prosseguindo com sua análise, para Mir o grande equívoco dos comunistas brasileiros foi o de superestimar suas forças. Pagaram um preço altíssimo em 1935, maior ainda nas décadas de 1960 e 1970:

 

“Essa permanente visão irrealista acerca do país e da sua realidade política se repete em 1964 para Moscou (PCB assegurando a tomada pacífica do poder pelos comunistas e nacionalistas) e em 1967 para Havana, por parte dos dissidentes do PCB que formavam a ALN (só era necessário dar o primeiro tiro; quem o fizesse, arrastaria o país inteiro)” [121]

 

“Avaliaram equivocadamente o seu inimigo principal, o Exército brasileiro, que dividiu sua história neste século[XX]em antes e depois de Prestes tentar, com a Internacional Comunista à frente e o Partido Comunista do Brasilcomo coadjuvante, assaltar o poder. Na reedição da tentativa de tomada do poder dos comunistas pelas armas em 1969, não enfrentariam 50 mil militares desmoralizados e odiados pela população,como estava o Exército cubano em 1959. O choque seria com 300 mil homens das Forças Armadas, transformadas em um bem equipado exército de ocupação interna e com todos os recursos repressivos à disposição, tendo mais de 200 mil policiais (federais, civis, militares) como força auxiliar”[122]

 

Para melhor compreensão do ambiente histórico em que se deu a Guerrilha do Araguaia, essencial introduzir neste ponto um fato já bastante conhecido da historiografia brasileira: a crise do stalinismo. Isso porque a morte de Joseph Stalin, em 1953, levaria a esperada revolução brasileira a tomar novos rumos. Em 1956, no XX Congresso do PC soviético, o novo líder Nikita Kruschev, o herói que comandara a vitória contra os alemães no mais sangrento embate militar da história, a Batalha de Stalingrado[123], passou a apontar o caminho pacífico para a tomada do poder pelos comunistas, aderindo às teses de Antonio Gramsci[124]. Na Praça Vermelha, em Moscou, incitados por Kruschev, populares derrubaram a marteladas a estátua de Stalin. Assustados com os rumos de sua própria revolução, a delegação chinesa saiu do Congresso e depositou uma vistosa coroa de flores no túmulo do líder falecido. Teve inicio, nesse episódio, uma divisão irreversível entre o PC soviético e o chinês, cujas conseqüências até hoje são sentidas na geopolítica global.

 

No Brasil, já em 1956, Luis Carlos Prestes escreveu um manifesto aos militantes brasileiros acatando as novas orientações de Kruschev e proibindo o debate interno sobre o assunto – dentro do partido, o texto ficou conhecido por “Carta Rolha”.[125] A partir de então, a divisão dentro do PCB acirrou-se: de um lado Prestes, comandando o Comitê Central com mão-de-ferro e seguindo as orientações de Kruschev; do outro, comandando os stalinistas, um grupo de quatro ex-dirigentes do PCB, como João Amazonas e Maurício Grabois[126]. Em 1960, no 5o Congresso do partido, o PCB decidiu alterar seu nome, que de Partido Comunista do Brasil passou a ser Partido Comunista Brasileiro, mas manteve a sigla. Decidiu, ainda, expurgar dos estatutos as expressões “marxismo-leninismo” e “internacionalismo proletário” e, na seqüência, expulsar os stalinistas de suas fileiras.

 

Em 1962, depois de cinco anos de brigas internas, os stalinistas fundaram uma nova agremiação, o Partido Comunista do Brasil, PC do B[127]. Num documento divulgado logo depois, o PC do B definiria Stalin como o “quarto clássico” do marxismo, ao lado de Marx, Engels e Lênin, repudiando o caminho pacífico proposto por Kruschev e oficializando sua inspiração no Partido Comunista Chinês e no Partido do Trabalho da Albânia[128]. A crise do stalinismo, segundo Mir, “se arrastaria dentro do movimento comunista brasileiro minando-o, destruindo-o, esgarçando sua unidade de décadas, irreversivelmente”.[129]

 

         Com o movimento de 1964, aos poucos o garrote militar e as lideranças políticas civis[130]sufocaram o que restou da esquerda brasileira – tanto os social-democratas quanto aqueles que defendiam a ditadura do proletariado. Boa parte dos marxistas, por sua vez, jamais se conformou com a derrota. Entusiasmados com as idéias práticas de Che Guevara e a teoria de Régis Debray a respeito do “foco guerrilheiro”[131], começaram a proliferar dissidências do PCB e a aparecer novos grupos, cada um com sua própria sigla, dispostos a pegar em armas[132]. Disseminava-se o imaginário guerrilheiro, engendrado num ambiente social e político de radicalizações ideológicas. Para Jacob Gorender, à exceção

“da maioria do Comitê Central do PCB, a esquerda considerou a falência do caminho pacífico um fato provado. Seguia-se que a luta armada, não travada contra o golpe de direita, tornava-se imperativa quando os golpistas já tinham o poder nas mãos”[133]

Já em 1965, por exemplo, quando o presidente Castelo Branco ainda pregava a idéia de um sucessor civil, o ex-governador Leonel Brizola organizava uma frustrada aventura armada na Serra do Caparaó (ES), sob a coordenação de ex-militares nacionalistas. Dessa tentativa, terminaram todos presos sem que se desse um único tiro[134]. O Dossiê Araguaia acrescenta:

 

“Anteriormente já haviam sido feitas tentativas de implantação da guerrilha rural. Pode ser dito que elas tiveram início em 1965, quando o coronel reformado do Exército Jefferson Cardim de Alencar Osório, que se encontrava exilado no Uruguai, decidiu tomar a iniciativa. Convocou alguns aliados, também exilados, e penetrou no Rio Grande do Sul, chegando até a localidade de Três Passos, onde após dominar o pequeno destacamento local, dirigiu-se para o norte. Todavia, a rápida resposta das forças legais e a fraqueza do contingente mobilizado pelo referido militar rapidamente eliminaram a ameaça”[135] .

Em 1966 ocorreu o primeiro atentado armado da época, quando uma bomba explodiu no Aeroporto de Guararapes, Recife, matando um militar e um jornalista – o alvo era o general Arthur da Costa e Silva, então ministro do Exército[136]. O Atentado de Guararapes representa o marco inicial da guerrilha urbana no Brasil. Também foi a partir de 1966 que uma centena de revolucionários, jovens universitários em sua quase totalidade, se instalou na região do rio Araguaia, imaginando criar uma experiência utópica no meio da Amazônia. A escolha pela região do Araguaia pautava-se no imaginário difundido pelos manuais lidos pelos guerrilheiros, de que a revolução deveria começar pelo campo e difundir-se pela cidade. Para o PC do B, ali, no interior do país, deveriam preparar núcleos guerrilheiros com a participação das massas camponesas, desencadear ações armadas e estabelecer uma área conflagrada através de uma guerra popular prolongada[137]. A região do Araguaia, ofereceria, segundo Ângelo Arroyo, condições propícias, visto ser

 

“zona de mata, e na mata o inimigo não pode usar tanques, artilharia, bombardeio aéreo de precisão, etc. Tem de estar de pé como o guerrilheiro. É uma zona de massa pobre e explorada, (…) circundada por povoados e cidades pequenas e médias também de grande pobreza. Dispõe-se de caça abundante, castanha-do-pará, babaçu e outros meios de alimentação.Possui vasta área, em extensão e profundidade, que serve de campo de manobra às forças armadas”[138]  

 

Em outubro de 1967, dias após a morte de Che Guevara, Marighella, já dissidente do PCB, seria convocado por Fidel Castro para suceder, agora no Brasil, o mitológico guerrilheiro argentino[139]. Começava, então, um dos períodos mais conturbados da história, os “Anos de Chumbo”, onde se deu a proliferação da luta armada nas cidades e no campo — e a resposta militar.

 

 

 

2.7 – Imaginários Cruzados

Quem eram, afinal, os militares que desconstruíram a Guerrilha do Araguaia? Uma discussão que se faz necessária para esta pesquisa, é quanto à propalada dicotomia entre comunistas e militares. Há no imaginário brasileiro um grande abismo que separa revolucionários de contra-revolucionários, marxistas de militares, esquerdistas de direitistas – para usar uma terminologia cada vez mais em desuso, mas que norteou as relações sociais, econômicas e políticas ao longo do século XX. Um exame mais atento da história brasileira demonstra que se deve questionar tais premissas. Seriam esses dois grupos opostos e contraditórios, como estão representados no imaginário social dos brasileiros? Seriam eles, respectivamente, os representantes do proletariado oprimido e da burguesia opressora? Seriam eles os representantes das forças revolucionárias e das forças reacionárias, do progresso e do atraso, da liberdade e da opressão?

 

Em grande parte da historiografia sobre o período militar, assim como no material publicado na imprensa, encontra-se a tendência – explícita ou velada – a uma análise dicotômica dos acontecimentos, reproduzindo, desta forma, uma visão maniqueísta sobre a luta armada no Brasil. Como explicar, nesse caso, que dois dos maiores ícones na “nossa revolução”[140] sejam egressos do Exército, o capitão Luís Carlos Prestes e o capitão Carlos Lamarca?

 

Em verdade, as Forças Armadas brasileiras jamais foram monolíticas. Tiveram, sim, em alguns períodos históricos, pontos de convergência e ideologias hegemônicas, como o positivismo que resultou na República, o liberalismo que derrubou a ditadura Vargas ou o anti-comunismo que implantou o Regime Militar de 64. Contudo, ao longo do Século XX, as escolas militares, do Colégio Militar à Escola Superior de Guerra, foram palcos de debates sobre os destinos do Brasil. Naturalmente, brotaram novas idéias e vicejaram ideologias de múltiplos matizes. Entre elas, o marxismo-leninismo e o integralismo, versão local do fascismo europeu. Durante o regime militar de 64, contudo, o anticomunismo prevaleceu de forma clara e hegemônica. Ainda assim, até mesmo nesse período, havia militares marxistas.

 

Detalhe pouco explorado pela historiografia brasileira, mas importante para essa pesquisa, é que a partir de meados dos anos 1950, com a morte de Stalin e a ascensão de Kruschev, os novos dirigentes do PC soviético passaram a defender a participação dos militares “nacionalistas” (ou seja, anti-americanistas) no processo revolucionário como força fundamental no Terceiro Mundo[141], já que não poderiam contar com uma classe operária organizada. A idéia central era a de que,nesses países, os militares seriam uma força real com origens populares, constituídos, em sua maioria, por egressos do proletariado[142]. Essa política era conhecida entre os governantes comunistas como “socialismo por decreto”, ou seja, atingir a revolução através de golpes de Estado, exatamente como fizeram os bolcheviques na Rússia em outubro de 1917 quando, comandados por Leon Trotski e liderados por Wladimir Lênin, tomaram de assalto o poder dos mencheviques de Kerensky, força política que havia derrubado o czar[143]. Essa opção pelos militares como “vanguarda revolucionária”, em detrimento dos PCs, já havia sido testada com êxito na Europa Oriental depois da Segunda Guerra Mundial.

 

Pautados naqueles novos valores políticos, teve início treinamento, pelo Exército Vermelho soviético, de membros das Forças Armadas e de militantes comunistas do Terceiro Mundo. Desta forma,Manoel Messias, militante do PCB em Pernambuco, foi o primeiro brasileiro a concluir o curso de oficial do Exército Vermelho, em 1961[144]. Os stalinistas do PC do B não gostariam de ficar na retaguarda. Paralelamente, a Academia Militar de Pequim começaria a patrocinar o treinamento de seus próprios revolucionários. Segundo Mir, o Araguaia representou os anos chineses da revolução brasileira. A 29 de março de 1964, dois dias antes do Golpe Militar, o primeiro contingente de militantes do PC do B embarcaria para treinamento na Academia Militar de Pequim, na vanguarda do que seria a futura guerrilha rural do Araguaia[145]. André Grabois estava nessa primeira leva. Tinha, então, 17 anos.

 

Ainda de acordo com Luís Mir, “a história dos comunistas do Brasil correu sempre paralela à do Exército brasileiro neste século”[146]. Mir revela a existência de uma organização secreta dos comunistas dentro das Forças Armadas, o Grupo Antimil (antimilitar), criado em 1929, após resolução do Comitê Central do PCB, e que funcionaria como “mola mestra da tentativa de neutralização da maior força anticomunista que o país teve neste século: o Exército brasileiro”[147]. Em obra lançada em fins de 2004, Um Olhar à Esquerda – A Utopia Tenentista na Construção do Pensamento Marxista de Nelson Werneck Sodré, o professor Paulo Ribeiro da Cunha[148] disseca o funcionamento do Antimil.

 

Na pesquisa, uma tese de doutorado da Unicamp, Cunha analisa a trajetória intelectual Werneck Sodré, militar de profissão, general de patente, e um dos mais importantes historiadores brasileiros, autor do clássico História Militar do Brasil. Segundo Cunha, o general Werneck seria, ele próprio, um ativo membro desse grupo. O Antimil tinha a função de “atuar junto aos militares com o objetivo de desenvolver ações insurrecionais” para a eventualidade de tomada do poder pela via da luta armada. Ainda de acordo com o pesquisador, às vésperas do movimento de 1964, esse grupo chegaria a contar com a militância ou simpatia de 5% a 10% do efetivo das Forças Armadas, os oficiais e praças de corrente nacionalista. A Marinha, segundo a pesquisa, chegou a contar com cerca de 300 suboficiais militantes no PCB, que editaram um jornal clandestino chamado “Bandeira Vermelha”. O grupo teria tido, como membro efetivo, até um brigadeiro, Francisco Teixeira. Cerca de mil militares acabaram expulsos no período posterior a 1964 por conta da participação no Antimil. Cunha aponta para a curiosidade de que o Brasil talvez seja o único país do mundo no qual os militares tiveram uma intensa participação política de esquerda, pelo menos até os expurgos pós-64.

 

Mir corrobora essa tese. Segundo ele, a partir de meados da década de 50, sob a nova orientação de Kruschev, o capitão Luís Carlos Prestes passou a se dedicar pessoalmente, e de forma prioritária, à cooptação de oficiais e sargentos nacionalistas nas Forças Armadas para uma luta de “libertação nacional”, que serviria de base para um futuro governo “anti­imperialista”, não importando se a tomada do poder fosse pela via pacífica ou violenta[149]. Em toda a sua caminhada como líder dos comunistas brasileiros, para Prestes, a militarização do PCB foi uma vertente básica de seu funcionamento e organização[150]. Até a década de 1970, quase a totalidade dos membros da Executiva era constituída ou por militares integrantes do movimento tenentista, ou por remanescentes do levante de 1935. Ao longo de sua história, nada menos que 18 militares, sendo 16 oficiais e dois cabos, já fizeram parte do Comitê Central do PCB[151]. Entre eles Maurício Grabois, que foi oficial de artilharia da Força Expedicionária Brasileira na Itália. Jacob Gorender relata que Carlos Marighella também mantinha boas relações com membros das Forças Armadas, tanto antes quanto depois de 1964[152].

 

O caso do capitão Carlos Lamarca é o mais ilustrativo. Ele não esteve diretamente envolvido na Guerrilha do Araguaia, mas sua história é essencial para compreendermos o imaginário naqueles conturbados anos 60 e 70 no Brasil, tanto o imaginário dos militares, quanto o dos revolucionários. Lamarca teve contato com as idéias socialistas pela primeira em 1957, quando ainda era cadete[153], o que corrobora a idéia exposta acima sobre a intensa atividade do PCB dentro dos quartéis a partir de meados da década de 50. Somente em 1964, servindoem Porto Alegre, quando o regime militar já estava vitorioso e consolidado, Lamarca decidiu-se por assinar a ficha de filiação ao PCB. Foi desaconselhado pelos próprios comunistas, por questão de segurança.

 

Considerado um oficial brilhante, exímio atirador, Lamarca tinha um futuro promissor no Exército. Era tamanha a confiança dos comandantes no jovem oficial que, ao servir no regimento do quartel de Quitaúna, Osasco (SP), a partir de 1966, passou a treinar um grupo de atiradores de elite destinados a combater os “terroristas”. Também ensinava funcionários de bancos a se defender de assaltos guerrilheiros. Ou seja, nesse momento, o futuro guerrilheiro integrou-se à Comunidade de Informações e fazia parte das forças de repressão do regime – e é bem provável que seu imaginário tenha sido, em determinado momento, muito parecido com o dos colegas de farda que foram designados para combater o PC do B na Guerrilha do Araguaia. O imaginário do agente Ivan, por exemplo, que também costumava ler obras marxistas.

 

Recrutado por uma célula de sargentos do Exército, em fins de 1968, Lamarca aderiu a uma das novas organizações que proliferavam na esquerda, a Vanguarda Popular Revolucionaria, VPR, dissidência de uma outra sigla recém-nascida, a Política Operária (POLOP), imaginada por estudantes e intelectuais paulistanos[154]. Ele se entusiasmou com um plano mirabolante de expropriar armamento pesado do Exército para atacar simultaneamente o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, o Quartel-General do II Exército, a Academia de Polícia e, ainda por cima, dar início à guerrilha no campo – tudo ao mesmo tempo[155]. O voluntarista capitão deixou o quartel de Quitaúna[156] em 24 de janeiro de 1969, em companhia de um sargento, um cabo e um soldado[157], levando consigo um carregamento de fuzis[158]. Estava mais bem armado do que todos os 69 militantes do PC do B no Araguaia.

A esquerda vibrou com a atitude de Lamarca, na mesma proporção que os militares ficaram indignados. Aderiu publicamente a VPR e ganhou de imediato o titulo de “Capitão da Guerrilha”. Passou a usar os codinomes Cid, inspirado em El Cid, épico nos cinemas da época, e César, codinome a que tinha direito mais do que qualquer outro militar brasileiro, posto que atravessara seu Rubicão. Nessa época, o PC do B já havia instalado três destacamentos de guerrilheiros na região do Araguaia para que dessem início àquilo que Lamarca gostaria de protagonizar, uma guerra revolucionária no campo. Ele morreu em 1971, aos 33 anos. Lamarca foi encontrado no interior da Bahia por uma pequena patrulha do Exército, comandada pelo major Nilton[159]. Dois anos depois ele seria convocado para a caçada aos guerrilheiros do Araguaia.

 

O capitão Carlos Lamarca guarda em sua história a impossibilidade do encontro desses dois mundos, o dos militares e o dos guerrilheiros, em proporção similar, ouso afirmar, à de outro personagem da política brasileira, o capitão Luis Carlos Prestes. O velho Prestes representa o imaginário dos militares nos tempos do tenentismo. Lamarca representa o imaginário de parte dos militares durante o regime de 1964, incluindo aqueles que combateram no Araguaia. Representa, igualmente, o contra-imaginário dos revolucionários que fizeram a guerrilha nas selvas, um punhado de 69 homens que pegou em armas para enfrentar as Forças Armadas de 300 mil soldados e tentar implantar uma utopia socialista no Brasil. Lamarca também põe por terra, em boa parte, a suposta dicotomia entre os militares e os revolucionários brasileiros. Fazendo uso do aparato teórico do imaginário, analiso o que, afinal, havia de tão diferente entre os extremistas Dina e Ivan? Ou ainda, mutatis mutandis, como foi que o general Confúcio Danton de Paula Torres Avelino[160], homem que muitos poucos brasileiros algum dia ouviram falar, comandou com poderes absolutistas[161] a caçada final ao que restou dos guerrilheiros treinados por um ex-companheiro de farda, o comandante Maurício Grabois?



[1] A lenda foi criada a partir de um episódio ocorrido em 20 de setembro de 1972, quando houve em combate com uma patrulha de oito pára-quedistas do Exército, comandada pelo então capitão Álvaro de Souza Pinheiro, mais tarde promovido a general, e filho do general Ênio de Souza Pinheiro, primeiro comandante da Escola Nacional de Informações, ESNI, e um dos líderes da repressão militar na época. Os soldados metralharam a área em que quatro guerrilheiros se escondiam. Dois morreram na hora e um terceiro foi apanhado ferido, morrendo mais tarde. No embate, Dina disparou um tiro que feriu o capitão Álvaro no ombro. Ela escapou, com um arranhão de bala no pescoço. Fonte: Relatório Arroyo, Op. cit. Mais tarde, o jornal Correio Braziliense enviou equipe para a região do Araguaia a fim de fazer uma série de reportagens sobre a guerrilha. O jornalista constatou que a lenda de que Dina teria virado borboleta consolidou-se no imaginário popular da região. SILVA, Eumano, “A história do Exército que torturava, matava e cortava cabeças”, In: Correio Braziliense, Brasília, 28 nov. 2001, págs. 07 e 08.

[2] O Regulamento da Justiça Militar Revolucionária, em seu artigo 16, inciso “d”, rege: “no caso de violências contra a mulher, de acordo com a gravidade da falta, a pena pode variar entre a suspensão de funções, a expulsão das Forças Guerrilheiras e o fuzilamento”. Mais detalhes no Capítulo IV, item “O Tribunal Revolucionário”.

[3] Os informes dos militares apontam que Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, e André Grabois, o José Carlos, teriam participado do julgamento. Quando aos demais, os militares avaliam que tenham sido dois integrantes da Comissão Militar, mas não conseguiram identificá-los a partir dos relatos dos camponeses que testemunharam o episódio. In: Depoimentos orais de Hoffmann (codinome), em 30 mai. 2001, e José Luis (codinome), em 17 out. 2004.

[4] Entre eles o dono do sítio onde ocorreu o julgamento, conhecido por João do Buraco. In: Depoimento oral de Hoffmann (codinome), em 30 mai. 2001 e Louro (codinome), em 21 set. 2002.

[5] Sobre a morte de Rosalindo, o PC do B informa em seu site oficial que ele “morreu em setembro de 1973, na guerrilha do Araguaia, vítima de um acidente com sua própria arma” (In: http://www.vermelho.org.br/pcdob/80anos/martires/martires30.asp. Acesso: 08 jun. 2003). O comandante Maurício Grabois registra em seu Diário que “esse combatente apareceu morto, talvez vitimado por acidente com seu revólver” (Anotação de 01 set. 1973). Entre os documentos que obtive com militares, há o relato de um agente que foi infiltrado entre os camponeses e que descreve a cena da execução, testemunhada por ele e outros camponeses – veremos esse documento adiante. Também entrevistei dois militares que conversaram com camponeses que testemunharam o episódio. O jornalista Eumano Silva entrevistou um camponês que teria testemunhado o episódio, Cícero Pereira, ex-mateiro do Exército: “Os comunistas teriam dito, segundo Cícero, que Mundico havia sido morto por eles mesmos porque teria desobedecido a orientação do partido de não namorar guerrilheiras casadas. Mundico estaria vivendo um caso amoroso com Áurea Elisa Pereira, mulher do também guerrilheiro Arlindo Valadão”. Eumano Silva. “A história do Exército que torturava, matava e cortava cabeças”. Jornal Correio Braziliense , Brasília, 28 de novembro de 2001, pág. 7

[5][5]Idem, Ibidem, pág. 7.

[6] Tuca se encontra na lista dos desaparecidos políticos. O Dossiê registra a morte de Tuca como tendo sido em julho daquele ano, mesma época da morte de Dina. Informações de militares dão conta que Tuca teria sido executada no mesmo dia de Dina, em ações separadas. In: Depoimento oral de Louro (codinome), em 21 set. 2002.

[7] Foi um deles que reconstituiu os diálogos supracitados. In: Idem, Ibidem.

[8] Ele também relatou que por muito tempo ficou com o olhar de Dina na cabeça. In: Idem, Ibidem.

[9] Seu corpo foi inicialmente enterrado no local da execução. Em 1975 teria sido exumado e levado para a cremação em outro local. In: Idem, Ibidem.

[10] Além dos militares, Maurício Grabois registra esses dois “justiçamentos”em seu Diário. Detalharemos os episódios adiante.

[11] Filho do camponês José Pereira, foi o adolescente quem levou o primeiro grupo de militares a um dos esconderijos dos guerrilheiros, ainda em março de 1972, por ordem do pai. In: Depoimento oral de Asdrúbal (codinome do coronel Lício Maciel Ribeiro), em 05 de dezembro de 2004. Ver também Capítulos 3 e 4.

[12] Cornelius Castoriadis. A instituição imaginária da sociedade…Op. Cit., pág. 144.

[13] Ela desertou em 21 de julho de 1972, foi presa e depois interrogada em Brasília. Um longo depoimento de Regilena sobre sua participação na guerrilha, sua ideologia e as razões de sua fuga se encontra no livro de Luiz Maklouf Carvalho. Mulheres que foram à luta armada. São Paulo: Globo, 1998, pág. 443.

[14] Um dos fundadores da sociologia moderna, seus estudos sobre o capitalismo, os sistemas de classes e os sistemas sociais, fizeram escola entre os acadêmicos do Ocidente. Na opinião de Weber, a tendência da civilização ocidental tem sido rumo à racionalização, conduzida pela crença no progresso por intermédio da razão, que abriu caminho para o desenvolvimento de organizações sociais, políticas e econômicas distintas da maior parte das outras culturas. Chris Rohmann.  O Livro das Idéias – pensadores, teorias e conceitos que formam nossa  visão  de  mundo. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2000, pág. 427.

[15] Destaco neste ponto, como principal estudo acadêmico inventariado, a tese de doutorado do professor Romualdo Campos Filho, que foi publicada como livro em 1997. Romualdo Pessoa Campos Filho. Guerrilha do Araguaia – A Esquerda em Armas… Op. Cit.

[16] Hannah Arendt. “Da violência”. In: ARENDT, Hannah. Crises da República. 2a ed., São Paulo: Ed. Perspectiva, 2004, pág. 105.

[17] Roger Chartier. A História Cultural – Entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil / Lisboa: Difel, 1990.

[18] Idem, Ibidem, pág. 49.

[19] Idem, Ibidem.

[20] René Barbier. Sobre o Imaginário. In: Revista Em Aberto, Brasília, Ano 14, nº 61, ed.Jan/Mar 1994, pág. 14.

[21] Idem, Ibidem, pág. 15.

[22]Bronislaw Baczko. Imaginação Social. In: Enciclopédia Eunadi, Vol. V., Lisboa: Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1987, pág. 296.

[23] René Barbier, Op. Cit.

[24] Barbier, Op. Cit.,pág. 15.

[25]Rogério de Andrade Córdova. “Imaginário Social e Educação”. In: Revista Em Aberto. Brasília, Ano 14, nº 61, ed. Jan/Mar 1994.

[26] Cornelius Castoriadis. Op. Cit., pág. 154.

[27] Córdova, Op. Cit., pág. 24.

[28] Córdova, Op. Cit. Pág. 25.

[29] Cornelius Castoriadis. Op. Cit.

[30] Cléria Botelho da Costa. “Imaginário: Objeto da História”. In: Revista Estudos, Vol.27, nº 4, 2000..

[31]Bronislaw Baczko. Op. Cit.

[32] Idem, Ibidem, pág. 309.

[33] Idem, Ibidem. pág. 147.

[34] Impressos em mimeógrafo, prometiam os bônus: “O portador deste receberá, após a vitória, com juros e correção monetária, a quantia de VINTE CRUZEIROS”. Assinavam os bônus os comandantes Paulo e Joaquim. No rodapé do bônus, estava escrito: “Abaixo a ditadura militar! Por um governo popular revolucionário!”. In: nos documentos em anexo, há um exemplar original desse bônus.

[35] E também do guerrilheiro Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, informa o mesmo depoimento.

[36] Narrativa oral de Mike (codinome), em 02 de março de 2000.

[37] Baczko, Op. Cit., pág. 309.

[38] Os militares dos serviços de informações tinham todos orientação para usar cabelos compridos e trajes civis. In: Depoimento oral de George (codinome), em 08 de junho de 2001.

[39] O choque bélico entre Aquiles e Pentesiléia foi relatado na Ilíada, de Homero. Mais tarde, em Aethiopis, Arctino de Mileto introduz os primeiros fragmentos mito de que Aquiles teria se apaixonado por sua vítima quando os olhares se cruzam no instante da morte. Bulfinch, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia – Histórias de Deuses e Heróis. Rio de Janeiro: Ediouro, 2ª ed., 2004, pág. 266.

[40] Hommi Bhabha. O Local da Cultura. Belo Horizonte: UFMG, 2001.

[41] Parteira no Araguaia que integrou o Destacamento A da guerrilha. O Dossiê aponta sua morte a 14 de outubro de 1973. In: Dossiê Araguaia, Op. Cit.
, pág. 115.

[42] Gaspari relata que em fevereiro de 1974 os generais João Batista Figueiredo e Ernesto Geisel iniciaram a conversa sobre a Guerrilha do Araguaia, então em andamento, relatando a morte de Sônia. “Houve uma menina (…).  E encontrou uma moça escondida atrás de uma árvore com uma metralhadora na mão”, teria contado Figueiredo ao homem que tomaria posse na Presidência dias depois. Gaspari também narra uma conversa de Geisel com o chefe de sua segurança pessoal, o tenente-coronel Arnoldi Pedrozo, do CIE, em 18 de janeiro de 1974.  In: GASPARI, Op. Cit, págs. 402-404.

[43] Depoimento oral de Margarida Ferreira Félix, da localidade de São Domingos, ao professor Romualdo Pessoa Campos, Op. Cit., pág. 151 e 152.

[44] Ainda de acordo com o depoimento de Margarida Felix a Romualdo Campos. In: Idem, Ibidem.

[45] Esse episódio me foi relatado em detalhes pelo próprio Dr. Asdrúbal, em depoimento oral. Ele também fez o mesmo relato a Luis Maklouf Carvalho, publicado em seu livro (Op. Cit.). Entrevistei outra testemunha, Cid, então sargento, que teria sido o responsável direto pela morte de Sônia, segundo seu próprio relato.

[46] Hoje é suboficial na reserva. Ele prefere que sua verdadeira identidade seja preservada para não provocar constrangimentos à sua família.

[47] Depoimento oral de Cid (codinome), em 04 de outubro de 2004.

[48] Idalísio chegou ao Araguaia em janeiro de 1971 e a data de sua morte, segundo o Dossiê, foi 13 de julho de 1972.

[49] A 13 de julho de 1972, Aparício foi encontrado por uma equipe de militares da inteligência. Um mateiro o executou enquanto agonizava no chão (neste caso, optei por preservar a identidade do mateiro, que na presente data se encontra vivo e ainda mora na região). Aparício foi inicialmente enterrado no cemitério local, na ala dos indigentes. Os militares mataram um cachorro e enterraram em cima do seu corpo para futura identificação. Pode estar entre os guerrilheiros que foram exumados em 1975 para cremação. In: Depoimentos orais de Márcio (codinome), em 21 de setembro de 2002, e de Cid (codinome), 04 de outubro de 2004.

[50] Foi um dos últimos a tombar, em 14 de março 1974, segundo o Dossiê Araguaia. Op. Cit., pág. 115.

[51] O episódio sobre a prisão de Rioko será relatado adiante, no Capítulo IV, item “Bandeira Militar”.

[52] Era um negro, tinha 1m98 de altura e calçava 48. Foi descrito por um camponês como “um negão que tinha um braço que parecia uma perna”. Disponível em: http://www.vermelho.org.br/pcdob/80anos/martires.  Acesso em: 12 mai. 2003.

[53] A patente foi conseguida no Curso de Preparação de Oficiais da Reserva, CPOR, de um ano, e não na Academia Militar das Agulhas Negras, onde o jovem tem quatro anos de formação para seguir carreira militar. In: Idem, Ibidem,

[54] Osvaldão. “Carta de um chefe guerrilheiro do Araguaia”, 15 JUL 1972. Uma cópia dessa carta se encontrava nos arquivos pesquisados pelos militares que elaboraram o Dossiê Araguaia, e foi cedida para mim. Encontra-se entre os documentos em anexo.

[55] In: Depoimento oral de José Luis (codinome), em 17 de outubro de 2004.  A revista Época, em edição de 06 de dezembro de 2004, também informa que foi o mateiro Arlindo quem matou Osvaldão; também mostra uma cópia colorida da carteira de identidade de Arlindo. In: FORTES, Leandro. “Missão Secreta ao Araguaia – Relatório reservado revela que a Aeronáutica esteve em agosto na região e localizou crematório de corpos”. Revista Época, 06 Dez 04, págs. 44-46. Ver também Capítulo IV, item a “Caçada Final”.

[56] “Atado a um helicóptero, seu corpo foi exibido aos povoados da região”. In: Jacob Gorender. Combate nas Trevas. Op. cit., pág. 237.

[57] Baczko, Op. Cit., pág. 300.

[58] Amaury Ribeiro Júnior. “Osvaldão: do sucesso em Praga a morte no Araguaia, jornal O Globo, Rio de Janeiro, 29 de abril de 1996, pág. 11.

[59] In: Depoimento oral de José Luis (codinome), em 17 de outubro de 2004.  A revista Época também informa que foi o mateiro Arlindo quem matou Osvaldão. A revista mostra uma reprodução colorida da carteira de identidade de Arlindo. In: Leandro Fortes. “Missão Secreta ao Araguaia – Relatório reservado revela que a Aeronáutica esteve em agosto na região e localizou crematório de corpos”. Revista Época, São Paulo, 06 de dezembro de 2004, págs. 44-46.

[60] Gaston Bachelard. O Direito de Sonhar. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.

[61] Depoimento oral de Márcio (codinome), em 02 de março de 2000.

[62] Os militares jamais utilizavam o termo “guerrilheiros” nas comunicações orais ou escritas com a população do Araguaia. Eles tinham a orientação dos superiores de só trata-los por “subversivos”, “terroristas”, “bandidos” ou “bandoleiros”. Tratá-los por “guerrilheiros” lhes daria status. In: Narrativa oral de Dr. Hoffmann (codinome), em 14 de setembro de 2003.

[63]Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1ª Ed., 10ª impressão, [1985?], pág. 721.

[64] Hannah Arendt. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

[65] Nádia Souki. Hannah Arendt e a Banalidade do Mal. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998. pág. 37.

[66] Importante atentar para o fato de que Arendt utiliza o termo “radical” com a conotação de extremo, enquanto Castoriadis prefere o termo “radicalismo”.

[67] Eichmann era o funcionário público encarregado da questão judaica no regime nazista. Ao final da guerra, fugiu para a Argentina. Em 1961, o líder israelense David Ben Gurion mandou seqüestrá-loem Buenos Aires e levou-o a julgamento em Jerusalém.

[68] APUD: Souki, op. cit. pág. 40.

[69] Castoriadis, op. cit., pág. 124.

[70] Castoriadis, Op. Cit. pág. 144.

[71] Idem, Ibidem, pág. 164.

[72] Rogério de Andrade Córdova. “Imaginário Social e Educação”. In: Revista “Em Aberto”, Brasília, Ano 14, nº 61, ed. Jan/Mar, 1994, págs. 139-140.

[73] Idem,Ibidem, pág. 142.

[74] Idem, Ibidem, pág. 140.

[75] Castoriadis, Op. Cit., pág. 170.

[76] As datas prováveis de sua morte são contraditórias. A Marinha registra sua morte a 08 de abril de 1974 e o Dossiê em dezembro de 1973. Segundo o militar que relata que a executou, teria morrido em fins de janeiro ou início de fevereiro de 1974.

[77] Narrativa oral de Fernando (nome fictício), a 26 de outubro de 2001.

[78] Idem,Ibidem.

[79] A amizade entre prisioneiro e carcereiro é algo comum, chama-se Síndrome de Estocolmo.

[80] Trata-se de um bar, dos mais conhecidos do País. Fica no bairro de Ipanema, Rio de Janeiro.

[81] “Fazer” era o eufemismo que os militares utilizavam para o verbo “executar”.

[82] Narrativa oral de Fernando (nome fictício), a 26 de outubro de 2001.

[83] A expressão bíblica remete ao momento em que Jesus pressentiu, no horto do Getsêmani, o terrível sofrimento que iria passar durante sua paixão. Então exclamou: “Abá, Pai, tudo te é possível: afasta de mim este cálice!” Em seguida resignou-se: “mas não se faça o que eu quero, senão o que tu queres”. In: Marcos: 14, 36. Acrescento que na época da execução de Tobias, fevereiro de 1974, um dos maiores sucessos musicais do país era a canção “Cálice”, lançada em 1973, de Chico Buarque de Holanda. O refrão dizia: “Pai, afasta de mim esse cálice/ De vinho tinto de sangue/ Como beber dessa bebida amarga/ Tragar a dor, engolir a labuta/ Mesmo calada a boca, resta o peito/ Silêncio na cidade não se escuta/ De que me vale ser filho da santa/ Melhor seria ser filho da outra / Outra realidade menos morta/ Tanta mentira, tanta força bruta”

[84] Inverti a frase original de Castoriadis: “… (a humanidade tem) fome de poder e fome de santidade, ela teve fome de ascetismo e de libertinagem, ela teve fome de místico e fome de saber racional, teve fome de amor e de fraternidade, mas também fome de seus próprios cadáveres, e agora parece que começa a ter fome da Lua e de planetas”. In: Castoriadis, op. cit., pág. 164

[85] Oliveiros Ferrreira. Vida e Morte do Partido Fardado. São Paulo: Senac, 2000.

[86] Oliveiros Ferreira, contudo, apresenta o ano de 1969 como o marco do fim da “longa noite hobbesiana”. Isso porque, naquele ano, os ministros militares criaram uma série de regras internas de promoção e aposentadoria que, na prática, acabaram com a possibilidade de surgir lideranças carismáticas dentro das Forças Armadas. A partir daí, segundo Oliveiros, as intervenções políticas armadas ficariam inviáveis. Apesar dessa demarcação do mestre Oliveiros, minha opção foi por fixar o fim da “noite hobbesiana” coincidindo com a saída do último general do poder.

[87] APUD: Oliveiros Ferreira, Op. Cit., pág. 11.

[88] Primeiro presidente da República do regime militar (1964-1966), que disse a frase em agosto de 1964, no auditório da Escola de Comando e Estado Maior do Exército. Na verdade, queixava-se dos civis que acusavam seu governo de militarista. A frase foi incorporada ao imaginário político brasileiro. In: Roberto Campos. A Lanterna na Popa – Vol.1. Rio de Janeiro: TopBooks, 2ª ed. revista, pág. 566

[89] Idem, Ibidem, pág. 566.

[90] Oliveiros, Op. Cit.,  pág. 09.

[91] Idem, Ibidem, pág. 15.

[92] Idem, Ibidem, pág. 93.

[93] Idem, Ibidem, pág. 95.

[94] Idem, Ibidem, págs. 93 e 94.

[95] Hannah Arendt. Da violênciaOp. Cit., pág. 123.

[96]Eric Hobsbawm baliza a Guerra Fria como o período compreendido entre o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945 e a queda do Muro de Berlim, em 1989. In: Eric Hobsbawm. A Era dos Extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 2ª ed., 2001, pág. 14.

[97] A célebre frase foi dita pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, cunhado de Goulart e virtual candidato à Presidência da República pelo PTB.

[98] Oliveiros Ferreira. Op. Cit., pág 108.

[99]Idem, Ibidem.

[100] Carlos Fico. Além do Golpe – Versões e controvérsias sobre 1964 e a Ditadura Militar. São Paulo: Record, 2004. pág. 30.

[101] Idem, Ibidem.

[102] Idem, Ibidem, pág. 32.

[103] Idem, Ibidem.

[104] APUD Carlos Fico. Op. Cit. pág. 34.

[105]René Armand Dreifuss. 1964: A Conquista do Estado. Petrópolis: Vozes, 1981, pág. 106.

[106] Idem, Ibidem, pág. 106-107.

[107] Alfred Stepan. Os Militares na Política. Rio de Janeiro: Artenova, 1975.

[108] Dreifuss lista os eventos de 1922, 1924, 1930, 1932, 1937, 1945, 1954, 1955, 1961 e 1967. In: René Armand Dreifuss, Op. Cit.

[109] Entrevista com Cordeiro de Farias, realizada por René Dreifuss a 16/06/76; In: Idem, Ibidem, pág. 105.

[110] Em 1966, Skidmore publicou a tese de doutorado Politics in Brasil, 1930-1964: an experiment in democracy, que foi publicada no Brasil 3 anos depois. Ver: Thomas Skidmore. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco (1930-1964). Rio de Janeiro: Saga, 1969; e Thomas Skidmore: Brasil: de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

[111], Alfred Stepan, Op. Cit. pág. 224.

[112] Idem, Ibidem, pág. 46.

[113] Tomei conhecimento dessas idéias através de Fico, em Além do Golpe, Op. Cit.

[114] Gláucio Ary Dillon Soares. “O Golpe de 64”. In: Gláucio Ary Dillon Soares e Maria Celina D’Araújo (orgs.). 21 Anos de Regime Militar: balanços e perspectivas. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1994.

[115] APUD  Carlos Fico, Op. Cit., pág. 38.

[116] Idem, Ibidem., pág. 38.

[117] Luís Mir. A Revolução Impossível – A esquerda e a luta armada no Brasil. São Paulo: Best Seller, Círculo do Livro, 1994, pág. 10.

[118] Idem, Ibidem, pág 11.

[119] William Waack. Camaradas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. Chamo a atenção para a importância dessa obra. Jornalista, correspondente do Jornal do Brasil em Moscou, Waack aproveitou o caos que se seguiu ao fim do regime comunista para ter acesso a documentos secretos do PC-URSS sobre a Intentona Comunista de 1935, comprovando que o movimento ocorreu sob orientação e patrocínio financeiro da União Soviética.

[120] Luis Mir, Op. Cit., pág. 11.

[121] Idem, Ibidem, pág. 11.

[122] Idem, Ibidem, pág. 13.

[123] Em 1942, onde morreram cerca de 800 mil pessoas, entre soldados alemães, soviéticos e civis.

[124] Filósofo e político italiano, um dos mais originais e importantes pensadores marxistas do Ocidente, Gramsci (1891-1937) é autor da idéia de revolução pacifica dentro do aparelho do Estado. Em sua obra principal, Cadernos do Cárcere, redigidos durante sua prisão pelo regime fascista, defende a tese de que na sociedade moderna o controle não é exercido pela força bruta, mas pela “manipulação sutil com que a classe dominante conquista a aceitação de sua ideologia por intermédio das normas e das instituições da sociedade burguesa”. In: Chris Rohmann. O Livro das Idéias. São Paulo: Campus, pág. 184.

[125] O título original era “Carta aberta de Luis Carlos Prestes aos Comunistas”.

[126] Os outros eram Pedro Pomar e Diógenes de Arruda Câmara.

[127] A reunião, batizada de Conferência Nacional Extraordinária, foi realizada de11 a 18 de fevereiro de 1962,em São Paulo.

[128] O documento, de julho de 1963, foi intitulado “Proposta Kruschev”.

[129] Luis Mir, Op. Cit., pág. 17.

[130] Entre os principais líderes civis, destaco os ex-governadores Carlos Lacerda (RJ), Adhemar de Barros {SP) e Magalhães Pinto (MG). Os dois primeiros, como Robespierre, terminaram cassados pelo próprio regime que ajudaram a criar.

[131]“A esquerda brasileira tomou conhecimento da teoria do foco através dos escritos de Ernesto Che Guevara, desde A Guerra de Guerrilhas, de 1960, e de Régis Debray. Deste último, Revolução na Revolução?, folheto de 1967, suscitou entusiasmo instantâneo”. In: GORENDER, J. Op. Cit., pág. 88. Vale ainda lembrar que corre a lenda nas esquerdas latino-americanas que o líder cubano Fidel Castro teria ditado a teoria a Debray, em longas noites de conversas gravadas –lenda que nenhum dos dois jamais confirmou ou desmentiu. Posteriormente, em 1974, Debray escreveu A Crítica das Armas, onde faz uma autocrítica e diz que o que havia restado da sua teoria era uma montanha de mortos.

[132] Chegaram a haver 17 partidos ou grupos guerrilheiros organizados. Partidos: PCB e PC do B. Grupos guerrilheiros: ALN, Molipo, PCR, MPR, VPR, Colina, PCBR, MR-8, VAR-Palmares, MNR, M3G, P, PRT, Polop/POC, PORT. In: Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio. Dos Filhos Deste Solo – Mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar: a responsabilidade do Estado. 1a ed., São Paulo: Boitempo e Editora Fundação Perseu Abramo, 1999.

[133] Jacob Gorender, Op. Cit., págs. 135-136.

[134] Exilado no Uruguai, o ex-governador Leonel Brizola conseguiu apoio financeiro (US$ 1,2 milhão) e político de Fidel Castro para organizar o Movimento Nacionalista Revolucionário, MNR. O grupo instalou-se no início de 1966 na Serra do Caparaó, nas divisas dos Estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. In: MIR, Op. Cit, pág 166-169

[135] Dossiê Araguaia, Op. Cit.,  pág. 65.

[136] Morreram o almirante Nélson Gomes Fernandes e o jornalista Edson Regis de Carvalho.

[137] Romualdo P. Campos Filho. Guerrilha do Araguaia. Op.Cit., pág. 102.

[138] Ângelo Arroyo. Relatório Arroyo. São Paulo: 1976. In: POMAR, Wladimir. Araguaia: O Partido e a Guerrilha – Documentos Inéditos. São Paulo: Ed. Brasil Debates, nº 2, 1980, pág. 280.

[139] Em abril de 1967, Carlos Marighella, então membro da Comitê Central do PCB, defendeu a tese da luta armada durante a Conferência Municipal do partido em São Paulo. Venceu a cúpula do partido, que reagiu imediatamente declarando a ilegalidade regimental da conferência. Marighella contra-atacou com ironia: “Buscam firulas jurídicas para questionar uma eleição num partido clandestino”. Na sequência, em julho, Marighela partiu para uma conferência da Organização Latino-Americana Socialista em Cuba. Ali, fundou uma organização de luta armada, ainda sem nome, e foi ungido por Fidel estrela de primeira grandeza da revolução no continente. Nesse ínterim, o Comitê Central do PCB o expulsou do partido. Quando retornou ao Brasil, em março de 1968, definiu o nome de sua organização, ALN, Aliança Libertadora Nacional, que viria a ser o maior entre todos os grupos da luta armada urbana. Marighella morreu em 4 de novembro de 1969, numa emboscada das forças de repressão, em São Paulo. Ver mais detalhes em MIR, Op. Cit, págs. 244-303.

[140] “Nossa Revolução” é o título que Sérgio deu ao sétimo e último capítulo do clássico Raízes do Brasil. Quando o mestre Sérgio escreveu sobre o tema, em 1936, estava se referindo “ao processo geral – e em verdade revolucionário – da transformação dos territórios coloniais em sociedades cultas e modernas”. Para ele, o termo “revolução” não tinha, necessariamente, a acepção de convulsão ou sangue. A versão brasileira seria “uma revolução lenta, mas segura e concertada, a única que, rigorosamente, temos experimentado em toda a nossa vida nacional”. Não é objetivo desta pesquisa debater o conceito de Sérgio Buarque do que venha a ser revolução. Contudo, esclareço de antemão que a expressão “nossa revolução” será utilizada ao longo da pesquisa para analisar tão-somente as experiências da guerrilha armada que grupos socialistas, de cunho marxista-leninista, utilizaram com o objetivo de realizar a revolução que introduziria o socialismo no país, entre o início dos anos 1960 e fins dos anos 1970. A “nossa revolução” segundo a visão dos que fizeram a luta armada nos anos 1960 e 1970 no Brasil. A “nossa revolução” que povoou o imaginário dos militares brasileiros que atuaram na Guerrilha do Araguaia. Sobre o conceito, ver: Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. 26ª ed., São Paulo: Companhia das Letras, 1995, pág. 126.

[141] “Terceiro Mundo é uma expressão criada por estudiosos franceses na década de 1950 que passou a ser utilizada para designar os países subdesenvolvidos, por oposição ao Primeiro Mundo, que inclui os Estados unidos, Japão e Europa, e um Segundo Mundo, abrangendo União Soviética e seus satélites europeus. O Terceiro Mundo reúne uma ampla variedade de países, na África, Ásia e América Latina”. In: Hélio Jaguaribe. Estudo Critico da História. São Paulo: Paz e Terra, 2001 Vol II, pág. 607.

[142]  Luis Mir, Op. Cit., pág. 17.

[143] Vsevolod Eichenbaum Volin. A Revolução Desconhecida. São Paulo: Global, 1980, pág. 126-128.

[144] Naquele ano, 1961, 13 militantes das Ligas Camponesas em Pernambuco receberiam treinamento militar na União Soviética. In: Luis Mir,  Op. Cit., pág. 17.

[145] De acordo com o Dossiê Araguaia, entre 250 e 300 brasileiros teriam recebido treinamento militar no exterior, em Moscou, Pequim, Havana ou Praga. O Dossiê também apresenta a relação nominal dos 14 guerrilheiros do Araguaia que foram treinados na China. In: Dossiê Araguaia,Op. Cit., págs. 29 e 55.

[146] Luis Mir, Op. Cit., pág. 9.

[147] Idem,Ibidem, pág. 10.

[148]Paulo Ribeiro da Cunha. Um olhar à esquerda: A utopia tenentista na construção do pensamento marxista de Nelson Werneck Sodré. Rio de Janeiro: Revan / São Paulo: FAPESP, 2004.

[149] Luis Mir, Op. Cit., Pág. 17-18.

[150] Idem, Ibidem, pág. 18.

[151] São eles: Luiz Carlos Prestes (Exército), Agildo Barata Ribeiro (Exército); Salomão Malina (Exército), Giocondo Dias (cabo do Exército), Severino Teodoro de Melo (cabo do Exército), Mauricio Grabois (Aeronáutica), Dinarco Reis (Aeronáutica), Ivan Ramos Ribeiro (Aeronáutica), Leivas Otero (Aeronáutica), Agliberto Vieira de Azevedo (Aeronáutica), Benedito de Carvalho (Exército), Orestes Timbaúva Rodrigues (Exército), Lincoln Cordeiro Oest (Exército), Henrique Cordeiro Oest (Exército), Apolônio de Carvalho (Exército), Walter de Souza Ribeiro (Exército), Renato de Oliveira Motta (Exército), Sebastião Vitorino da Silva (Exército). In: Arquivo pessoal de Carlos Azambuja (codinome) de um dos militares que trabalharam na elaboração do Dossiê Araguaia.

[152] Jacob Gorender. Op. Cit., pág. 189.

[153] Oldack Miranda e Emiliano José. Lamarca – O capitão da Guerrilha. São Paulo: Global, 7a ed., págs. 33-35.

[154] Cabe aqui introduzir uma pequena filigrana conceitual para atender os marxistas ortodoxos. A VPR não era exatamente uma organização marxista-leninista, segundo eles próprios. Os sargentos que se juntaram aos estudantes da POLOP e fundaram a VPR eram originários do Movimento Nacionalista Revolucionário, de Leonel Brizola, ao qual pertenciam como egressos do PCB. Alguns dos sargentos eram marxistas-leninistas, mas a VPR não era uma organização marxista-leninista, não tinha programa como tal e muito menos projeto político ou social de inspiração marxista-leninista. Fonte: Luiz Mir, narrativa oral, em 08 de junho de 2002.

[155] O plano fracassou por conta de um incidente banal, “uma briga de comadres”, como definiria mais tarde o sargento PM que foi chamado para resolver o incidente. Um grupo guerrilheiro, escondido em uma chácara em Itapacerica da Serra, próxima à capital paulista, pintava um caminhão com as cores e as insígnias do Exército. Uma criança se aproximou e levou um tapa no rosto de um dos guerrilheiros que, segundo explicou mais tarde aos companheiros, bateu no menor “para que deixasse de ser curioso”. A mãe da criança procurou a polícia, que acabou levando todo mundo para a cadeia. Alertado, Lamarca decidiu que chegara a hora de desertar. In: Luis Mir, Op. Cit., pág. 353.

[156] Foi desse mesmo quartel de Quitaúna que, em 1922, saiu boa parte dos militares que pegaram em armas contra o governo de Artur Bernardes, numa fracassada insurreição que terminaria na Coluna Prestes, “uma das mais extraordinárias marchas revolucionárias da história da humanidade”, nas palavras de Domingos Meirelles, protagonizada por “dignos e honrados jovens oficiais com o talhe de caráter dos homens de bem do seu tempo, empurrados pelo sonho de transformar o Brasil numa grande nação”. In: Domingos Meirelles. As Noites das Grandes Fogueiras – Uma história da Coluna Prestes. Rio de Janeiro: Record, 2001.

[157] Sargento Darcy Rodrigues, cabo José Mariani e soldado Carlos Roberto Zanirato. In: Mir. Op. Cit., pág. 354-355.

[158] 63 fuzis, três metralhadoras e munição.

[159] Em seus últimos instantes, o capitão teria mantido um diálogo com seu algoz, o major Cerqueira, que ilustra o imaginário  corrente na época. Teriam sido três ou quatro perguntas banais. O oficial teria começado indagando pelo nome do prisioneiro: “Capitão Carlos Lamarca”, identificou-se. A seguir teria perguntado onde estariam sua mulher e filhos: “Em Cuba”, respondeu. O major teria ficado desconcertado diante das respostas sinceras do maltrapilho à sua frente, em cujo estômago, constataram os legistas mais tarde, só havia capim. A última das perguntas: “Você sabe que é um traidor do Exército brasileiro?”. Lamarca: “Eu sei perder, eu sei perder”. O que se deu a seguir é controvertido. Cerqueira teria então atirado no capitão, segundo seu próprio relato posterior aos superiores. De acordo com um militar que acompanhou os acontecimentos, Lamarca teria praticado uma desfeita antes de morrer. Teria se levantado, balançado os ombros e braços, no gesto de quem quer dizer “e daí?”, “o que importa?”, e antes de levar os tiros, teria tentado dar as costas ao representante do Exército. In: Narrativa oral de Dr. Leonardo (codinome), em 10 de fevereiro de 1998.

[160] O general Confúcio assumiu a direção do Centro de Informações do Exército em fevereiro 1974, em substituição ao general Milton Tavares. Ver Capítulo 4.

[161] Mas sempre prestando contas de seus atos ao ministro do Exército e ao presidente da República, que tudo sabiam.

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