Hegel, segundo Gombrich, e o Espírito do Tempo da luta armada brasileira

Eis o Espírito da Liberdade

A História Cultural foi toda erigida sobre os alicerces hegelianos, lembra o historiador E.H. Gombrich[1]. E para Hegel, a história do universo era a história de Deus a criar-se a si próprio e a história da humanidade era, no mesmo sentido, a contínua encarnação do espírito. Hegel imagina o desenvolvimento do espírito como um processo inevitável e imagina-o encarnado em sucessivos espíritos nacionais. Haveria, portanto, o espírito do brasileiro; haveria, igualmente, o espírito revolucionário dos anos 60 e 70 (objeto dos meus estudos historiográficos), o espírito dos guerrilheiros do Araguaia, por exemplo, e por fim, o espírito da repressão militar daquele tempo. Prosseguindo, ainda segundo Hegel, o objetivo mais elevado da história da humanidade seria o seu desenvolvimento em direção ao espírito da liberdade. Explica Gombrich:

 “Toda gente sabe que Hegel pretendia erguer esses alicerces sobre um sistema metafísico que dizia ter construído a partir das críticas feitas por Kant à metafísica. No entanto, o que é mais relevante no contexto presente é o regresso de Hegel às tradições da teologia. A tua teologia teria de ser, obviamente, classificada como herética, pois não atende ao dogma cristão da criação como evento único e ao da encarnação como uma ocorrência igualmente única no tempo”[2].

É nesse sentido, interpreta Gombrich, que o absoluto não se discute. Isso se aplica tanto ao passado como ao presente. Um historiador pode observar os sinais do tempo, prossegue Gombrich, mas não tem o direito de os julgar. Todos podem esperar ser o porta-voz do espírito, na verdade até mesmo sua encarnação, rege ainda. Hegel, por exemplo, chamava Napoleão de “o espírito do mundo a cavalo”, mas em certo sentido tudo é, ou tudo e todos podem vir a ser, um instrumento do espírito.

E não é preciso ser Napoleão, um grande estadista, um herói conquistador para ser um legítimo representante de um determinado espírito. O espírito da Guerrilha do Araguaia, por exemplo, não precisa ser representado pelo comandante Maurício Grabois ou o general Antônio Bandeira[3], mas pode estar encarnado em qualquer figurante, um anônimo soldado raso que cumpriu ordens superiores, ou num dos guerrilheiros que nenhum ato heróico deixou registrado no imaginário coletivo. Desta forma, podemos dizer que os guerrilheiros do Araguaia acreditavam encarnar o espírito da revolução; os militares, por sua vez, seriam o espírito da ordem. Mais uma vez, Gombrich:

“É óbvio que há qualquer coisa na intuição hegeliana segundo a qual nada na vida está isolado de qualquer evento, assim como qualquer criação de uma dada época está ligada por mil fios à cultura em que se insere”[4].

Com a palavra, o próprio Hegel:

“Apego-me, por natureza, ao que é tangível, à realizada visível, à história. Todavia, ao coordenar os fatos, tenho sempre tendência para procurar encontrar paralelos e tenho conseguido chegar a alguns princípios gerais. Tenho consciência da existência de um princípio ainda mais alto de generalidade, que paira acima destes diversos princípios, e talvez seja capaz de me elevar em direção a esse nível. Não podes imaginar em que medida este esforço, por unilateral que seja, vai, gradualmente, emprestando significado aos fatos da história, às obras de arte, aos monumentos de todas as eras, testemunhos das fases mais remotas da evolução do espírito. Acredita que sinto freqüentemente uma excitação temerosa quando vejo claramente a presença dessa época nas eras do passado. O objetivo mais elevado da história da humanidade, o desenvolvimento em direção à liberdade, tornou-se a convicção que me guia”[5].


[1] GOMBRICH, E.H. Para uma História Cultura. Lisboa : Gradiva, 1994, 1ª ed., 107 p.

[2] Op. Cit., pág. 19-20.

[3] Principal chefe militar durante a Guerrilha do Araguaia. Teremos um capítulo dedicado a ele.

[4] Op. Cit., pág. 63.

[5] Cit. In. GOMBRICH, Op. Cit., pág. 24-25.

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