jan 12, 2013

Eu queria ser o Batman

Um ensaio (iluminista) sobre a construção dos heróis: desde os nossos ídolos das histórias em quadrinhos, Hulk ou Volverine, aos épicos da mitologia, aqueles homens como Ulisses ou Teseu que possuiam a fórmula mágica para mudar o Destino de todo um povo

Por Hugo Studart

 Toda criança tem um herói de inspiração. Capitão América, o Incrível Hulk, Volverine, o Surfista Prateado, Asterix, Tintim, Hércules ou Thor, o Príncipe do Trovão. A onda dos super-heróis em quadrinhos ou em desenhos animados foi extraordinária naqueles tempos maniqueístas que o historiador egípcio Eric Hobsbaun definiu, com definitiva pertinência, como a “Era dos Extremos”; e o filósofo alemão Isaiah Berlim classificou, consternado, como o “século mais terrível da História”. Os Estados Unidos, líder da guerra fria e da indústria cultural desse período, foram pródigos em criar e divulgar ícones que ocuparam o imaginário de sucessivas gerações nascidas ao longo do Século 20. Do Canadá à Polinésia, da Finlândia aos confins da Patagônia, criança alguma deve ter escapado dos sonhos de virar justiceiro com super-poderes a fim de salvar o mundo em nome da Liberdade.

Ao arrumar seu baú de velharias, meu pai encontrou recentemente um desenho de minha autoria. Pela primariedade dos rabiscos, eu não devia ter sequer cinco anos. Era um esboço de um homem-morcego. Abaixo, uma frase escrita com letra segura e feminina, decerto da professora: “Papai é o Batman”. Eis aí a síntese de dois heróis da primeira infância. Já mantive com zelo extremado toda a coleção de gibis do Cavaleiro das Trevas. Ainda hoje não perco um filme sequer do Morcegão quando lançado por Hollywood.

Também já brinquei de ser Namor, o Príncipe Submarino; de Ivanhoé, o cavaleiro andante; de Will Robinson, o garoto da série de TV “Perdidos no Espaço”; ou ainda de Speed Racer, aquele garoto tão corajoso quanto voluntarista que, ao fim e ao cabo, sempre vencia os malfeitores. Na pré-adolescência, encantei-me por Tistu, “O Menino do Dedo Verde”, personagem do francês Maurice Druon; e logo depois por Lancelot do Lago, pelo capitão Kirk, de Star Trek; até chegar à dupla de cavaleiros Jedi da saga Stars War, Obi-Wan Kenobi e mestre Yoda.

IDEAIS DA ALMA

Em Menon, Platão (427-347 a.C.) apresenta a Teoria das Ideias Inatas, segundo a qual já nascemos com determinados valores, tão profundamente enraizados em nossa alma que, segundo o filósofo, só poderiam vir carregados de vidas passadas. Ou seja, traríamos de outras vidas certos conhecimentos, valores morais e características da personalidade. É o que o pensador chama de conhecimento verdadeiro. A educação, portanto, não seria um processo de aprendizagem, mas de recordação.

Desde então, do medieval São Tomás de Aquino ao pós-moderno Noam Chomsky, muitos pensadores de relevo debruçaram-se sobre a questão, parte concordando com a tese; outros tentando desconstruí-a com o argumento de que, em verdade, nascemos como tábulas rasas, em branco, e todo e qualquer conhecimento sobre o mundo só poderia ser adquirido através das experiências com os cinco sentidos.

Dessa discussão filosófica derivam outras questões da Ciência Política ou das Relações Internacionais, como a existência (ou não) de valores morais Universais, ou mesmo da Direitos Humanos Fundamentais. Mas fato que nos interessa agora é lembrar que pelos super-heróis da nossa infância é possível descobrir muito do nosso sistema de representações e quais são nossos valores realmente profundos.

Crianças, em geral, ainda não foram contaminadas pelas máscaras e pela hipocrisia social. Jean Jacques Rousseau apresentou a ideia de que todos os homens seriam bons ao nascimento, o chamado “bom selvagem”, e que é a sociedade que nos corrompe. Caso aceitemos, por princípio, a combinação das teorias das “ideias inatas” de Platão com a do “bom selvagem” de Rousseau, chegamos ao pressuposto de que nossos heróis da infância são autênticas representações dos sonhos e dos ideais traçados pelo Destino de cada um.

Namor, o príncipe submarino

O Príncipe Submarino era um sonhador que vivia imerso na timidez e na introspecção. Mas quando chamado aos grandes problemas, aparecia para aspergir o bem. Assim, como identificava-me com Namor, então eu deveria ter o sonho de aspergir o bem como valor inato, mas a introspecção sorumbática como característica limitante da personalidade.Tistu tinha a inacreditável capacidade de transformar em flor tudo aquilo o que tocava. Ivanhoé e Lancelot são muito parecidos, dois cavaleiros idealistas, quase invencíveis, que dedicaram suas vidas a salvar seus mundos da barbárie. Speed Racer é igualmente um cavaleiro andante, só que sobre quatro rodas. Não tinha por objetivo principal combater o mal. Apenas corria em direção a seu objetivo, a linha de chegada, seu único foco, enquanto tentava escapar das armadilhas dos invejosos, ambiciosos, farsantes e vigaristas. Armadilhas do Destino? Speed jogava limpo, sempre dentro da ética, independente das consequências. Para ele, como diria Maquiavel, os fins não justificam os meios.

Dentre os cavaleiros andantes, Lancelot é tão complexo que até se transformou em arquétipo da Psicologia. Anda sozinho a maior parte do tempo, sempre em busca de uma boa causa a servir com sua coragem, sua competência e sua espada. É o melhor dos cavaleiros britânicos, quase invencível. Mas não é um típico aventureiro atrás de meras experiências e excentricidades. Ele busca uma causa. Lancelot é fruto de uma encruzilhada do Destino, a concepção em ritual mágico no qual Viviane, rainha das feiticeiras, manteve relações com um varão desconhecido, escolhido pelos druidas celtas, que cumpriu o dever da fertilização com máscara e a pele de um cervo selvagem.

A principal característica de Lancelot é não aceitar ordens. Não obedece a absolutamente ninguém. Mas não se trata de um selvagem indomável. Ao contrário, seu Destino é servir com lealdade àquele que porventura for capaz de derrotá-lo. Essa busca por uma causa e por um líder maior do que nós é o que a Psicologia batizou de Complexo de Lancelot. O cavaleiro celta acabou por aceitar seguir a Arthur, único que o derrotou, ainda que por apenas alguns segundos, ao invocar as forças encantadas de Excalibur. O rei da Bretanha não era mais forte, nem mais hábil, nem mais corajoso. Contudo acenava com uma boa causa, a construção de um reino de paz e prosperidade, a Terra Prometida.

DUPLA PERSONALIDADE

Batman, meu primeiro herói, consegue ser ainda mais complexo do que Lancelot. Tem dupla personalidade. A face social, afável e cortesã de Bruce Wayne, um gentleman, autêntico chevallier, protótipo do cavalheiro hussardo, mecenas das letras, da cultura e das artes, como também um homem de coração bom, um voluntarista dedicado às boas ações filantrópicas e sociais.

 Mas é a face oculta do Homem-Morcego que o faz um dos heróis mais fascinantes da imaginação humana. Tem pesadelos terríveis com seus instintos primitivos. Carrega no sangue o vírus da besta-fera, meio homem, meio animal, sempre prestes a perder as estribeiras, recorrer à violência e aos instintos primitivos. Lembra em quase tudo o arquétipo do lobisomem, só que ao invés de pêlos, possui uma capa-preta que lhe serve de asas. Enfim, o afável Bruce Wayne carrega dentro de si um demônio interior, um Satanás que dorme de ponta a cabeça, um justiceiro solitário que a toda hora tem vontade de sair das cavernas do inconsciente para encarnar o Cavaleiro das Trevas.

É preciso ressalvar, entretanto, que o Batman não é bipolar ou esquizofrênico. Nada tem a ver com Dr. Jeckel e Mr. Hyde, as personalidades opostas e conflitantes do protagonista de “O Médico e o Monstro”. Bruce e Batman são faces complementares. Formam um díptico, como os meio-irmãos Castor e Pólux da mitologia grega, eternizados por Zeus na forma das estrelas que representam o signo de Gêmeos no Zodíaco. Bruce consegue como poucos dominar seus demônios interiores, invocar o besta-fera apenas nos momentos necessários, fazer uso da força instintiva e, depois, guardá-lo de volta no armário das trevas, a bat-caverna. Com a maior serenidade, como se nada tivesse acontecido. Eis aí a história de um homem de bem que guarda dentro de si um demônio de estimação adestrado.

O médico e o monstro: personalidade esquizofrênica

Confesso que de uns anos para cá tenho estado encantado com um personagem similar, Volverine, esse ai um mero lobisomem, relançado pelo cinema na saga dos X-Men. Isso é preocupante, um retrocesso em meu desejado processo de evolução. Batman já atingiu ao estado de autocontrole. Encontra-se a caminho da sabedoria e da serenidade. Volverine está sempre a perder racionalidade e se deixar levar pela emoção.

TRÁGICOS E ÉPICOS

Só quando os cabelos brancos chegaram, comecei a constatar que os heróis da antiguidade clássica são os mais interessantes. Os gregos foram os primeiros a estudar formas de escapar das armadilhas do Destino, por eles chamadas de tragédias. Também acreditaram, como raras culturas da História, que poderiam controlar o Destino. Tanto individual quanto o coletivo. Eram aqueles gregos uns inconformados – característica absorvida pelos romanos.

Os gregos criaram então os homens trágicos e épicos. O trágico está presente em mitos por demais conhecidos, trazidos a nós pela dramaturgia em peças como Medeia, de Eurípedes, e Édipo Rei, de Sófocles. Eles pensam que podem controlar o Destino, mas não controlam. Eles não têm método e estão sempre sozinhos. Mas sobre o homem trágico trataremos mais tarde.

Quanto ao épico, está presente em poemas como A Ilíada e A Odisseia, ambos de Homero, protagonizados por aventureiros como Ulisses, Aquiles e Ajax, ou nos mitos de heróis como Hércules e Teseu, aquele que derrotou o Minotauro. Foram as epopeias desses heróis que inspiraram os grandes personagens da história ocidental, homens como Leônidas e seus 300 de Esparta, Alexandre da Macedônia, Júlio César, Cristóvão Colombo, Napoleão Bonaparte e, em nossos tempos, os astronautas Yuri Gagarim e Niel Amstrong, que personificam a grande epopeia do homem moderno, o sonho da conquista do espaço — levar as fronteiras da esperança para um novo horizonte.

Foi a epopéia dos heróis da mitologia que inspiraram personagem na História, como Leônidas de Esparta, cujos feitos à frente de 300 homens acabaram inspirando o tempo presente

 Intriga compreender como os gregos conseguiam fugir do acaso e das tragédias a fim de controlar o Destino. Controlar inteiramente, por inteiro, ninguém consegue. No épico grego sempre tem os acontecimentos imprevisíveis. Mas pode-se construir uma história diferente da anterior. Para isso, eles acreditavam que era preciso a combinação de uma série de fatores: o coletivo, o conhecimento, a proteção da aristocracia e, por fim, a aliança com algum dos deuses.

No homem épico, os personagens representam sempre o coletivo. Quase sempre fazem parte de um grupo maior, como os heróis da Odisseia, como os super-heróis da Liga da Justiça, Lanterna Verde, The Flash e Vingador Fantasma, ou como os X-Men da Escola de Mutantes do Professor Xavier, Volverine, Vampira e Tempestade. Mas também podem estar sozinhos, como Batman, Superman e Hércules, desde que estejam indefectivelmente a serviço uma causa maior e coletiva. No épico não há espaço para interesses pessoais ou para o individualismo. Esta é a grande lição legada pela mitologia clássica –somente dentro de um grupo maior conseguiremos mudar o Destino de um povo.

Na mitologia clássica, num primeiro momento, antes de se tornar o herói da Odisseia, Ulisses não passa de um estrangeiro errante. Até que consegue proteção da aristocracia grega. Mas não é qualquer estrangeiro que pode ser aceito pelos aristocratas. Precisa possuir alguns atributos. O primeiro pré-requisito é atrair pela estética. Não precisa como Brad Pitt ou George Cloney, mas não pode ser feio a ponto de provocar rejeição, como o Quasímodo, o Corcunda de Notre Dame. Ulisses tinha boa aparência. Nelson Mandela também.

O segundo pré-requisito é o domínio da oratória. Não há a necessidade de ser como Luther King, emocionando multidões com seus discursos sobre sonhos, ou carismático como John Kennedy, ou ainda como João Paulo II, arrastando nações inteiras às ruas com suas pregações sobre a Esperança de construção de um mundo mais justo e fraterno no Terceiro Milênio. Basta ter a capacidade de convencer. Primeiro, os protetores que vão financiar a empreitada; depois os liderados que vão segui-lo nos momentos de perigo.

Um herói precisa ter boa oratória. Nem precisa ser como a de Luther King; basta convencer

Por fim, a coragem, a força para que seja temido e estimado por todos. Ulisses, chamado de Odisseu em grego, teve que vencer o ciclope antes de ter o direito de liderar heróis do quilate do temperamental Aquiles ou do gigante Ajax em empreendimentos como a conquista de Troia, que Homero entronizou no imaginário universal a partir de suas obras A Ilíada e A Odisseia.

PERIGOS, DRAMAS, SOFRIMENTOS…

Mas a trama épica não é tão simples. Ela nunca é linear. Sempre há perigos a serem enfrentados, há sofrimentos, muitas vezes há derrotas, vários dramas e até mesmo algumas tragédias no meio do caminho. Moisés vagou 40 anos pelo deserto e, pior, não usufruiu da sorte louca de conhecer a Terra Prometida. César teve que atravessar o Rubicão e deflagrar uma guerra civil – um fratricídio é sempre trágico.  Jesus teve que recolher-se 40 dias no deserto antes de derrotar o demônio. Paulo de Tarso enfrentou por toda a vida um espinho na carne. Mohammad foi exilado por seu povo antes de dar início a uma das mais completas civilizações da humanidade, a islâmica.

A trama épica nunca é linear; há sempre muitos perigos a superar. Jesus, por exemplo, teve que recolher-se 40 dias no deserto antes de derrotar o demônio.

Napoleão foi derrotado na campanha da Rússia pelo general Inverno; foi aprisionado por seu próprio povo na ilha de Santa Helena; voltou triunfante ao poder; foi derrotado em Waterloo e morreu de forma patética exilado na ilha de Elba. Mas o túmulo apoteótico que lhe ergueram em Paris, a inscrição que seus patrícios incrustaram à porta, O Imperador, o fazem do mais épico dentre todos os heróis da história de França.

A epopeia de Ho Chi Min foi emocionalmente errante. Jovem, era um iluminista à moda francesa, apaixonado pelo idealismo de Voltaire, Montesquieu e Rousseau. Quando deflagrou a guerra de libertação de sua pátria (então chamada de Indochina) do colonialismo francês, foi obrigado a ocupar seu coração com os norte-americanos Jefferson e Washington, igualmente iluministas. Pobre Ho. Morreu antes de ver seu miserável povo humilhar os Estados Unidos com a maior derrota militar desde que Touro Sentado fulminou a cavalaria do general Custer.

Mas os que tecem a trama épica nunca são vítimas do Destino. Não se curvam conformados, lamuriando-se contra as trapaças da sorte. São lutadores, guerreiros buscando construir a própria história. Nelson Mandela enfrentou com altivez uma cela fétida por 27 anos antes de antes de conseguir acabar com o regime do apartheid da África do Sul. O Dalai Lama vaga há mais de 40 anos sem rumo, como o Moisés do Oriente, enquanto tenta criar oportunidades de libertar o Tibete da opressão dos invasores chineses. Mas o final da história épica é sempre otimista, homem sempre consegue controlar o Destino.

TESEU E O MINOTAURO

O mito de Teseu talvez seja o mais emblemático para se compreender como construir a história de um povo. Ele é principal herói de Atenas. A mitologia conta que por volta do ano 1.200 a.C., no momento em que Atenas estava em guerra com Creta, Zeus teria enviado uma peste contra os atenienses. Derrotados na guerra, o sofrimento foi maior ainda, trágico. O rei de Creta, Minos, cobrou como taxa a obrigação de, todos os anos, os atenienses enviarem sete rapazes e sete donzelas para o sacrifício humano. Eles seriam devorados pelo filho monstruoso do rei, o Minotauro, metade homem, metade touro, que morava no famoso Labirinto de Creta.

Teseu, o grande herói de Atenas, vestiu o elmo da racionalidade e investiu-se de coragem para derrotar o Minotauro. Conseguiu mudar o Destino de seu povo

O Minotauro é uma das personificações da Besta-Fera. Batman é um demônio sob controle, quase sereno. Já o Minotauro, tal qual o Lobisomem, era um ser só de instintos e violência, que não tinha qualquer autocontrole, não tinha limites, a ponto de se alimentar de carne humana, uma besta que precisava viver isolado em um labirinto porque não conseguia conviver com outros homens.

Na terceira remessa dos jovens atenienses, Teseu decidiu substituir um deles para tentar libertar seu povo daquele Destino. Ou morrer na empreitada. Portanto, ele não estava sozinho no mundo, como no caso das tragédias. Além de fazer parte de um grupo, sua luta não era pessoal, era uma causa maior, ele buscava salvar sua cidade daqueles horrores. E o que fez Teseu de diferente? Primeiro ganhou a proteção da deusa da sabedoria, Palas Atenas. Todo ato épico precisava da prévia proteção metafísica.

Precisa também estar embalado pela paixão, ou pelo menos imerso em emoções positivas, o amor. Quando chegou a Creta, o acaso o levou a conhecer Ariadne, filha do rei Minos. O cupido flechou a princesa em seu primeiro olhar para Teseu. O príncipe de Atenas igualmente se apaixonou. Antes da entrada no labirinto, Ariadne deu a Teseu uma espada e um novelo de lã. Só então Teseu vestiu o elmo da racionalidade, segurou as emoções e usou de toda capacidade cerebral.

Para não se perder no labirinto, ele amarrou um fio de lã na entrada e foi desenrolando o novelo a medida em que avançava. Usou a cabeça pela primeira vez. Estavam todos os demais jovens em pânico, aterrorizados. Teseu também teve que controlar o medo, que é o pior dos demônios interiores. Quando o grupo se viu diante do Minotauro, todos correram apavorados.

Mas Teseu investiu-se da coragem. Não sentir medo não significa, em si, um ato de coragem; ao contrário, pode ser sinal de imprudência. Ter coragem é fazer o que tem que ser feito, apesar dos perigos e temores. Phobos, o daimon do medo, aproximou-se do jovem ateniense. Mas ele não se deixou dominar. Só há uma maneira de controlar Phobos: quando a razão sobrepõe-se à emoção.

Sob a proteção da deusa da sabedoria, Palas Atena, com a ajuda material de uma aliada conquistada durante a empreitada, Ariadne, e tendo uma causa social justa e perfeita a embalar seu coração, Teseu investiu-se do elmo da racionalidade, empunhou com firmeza a espada e avançou labirinto adentro. Conseguiu cortar a cabeça da besta-fera no primeiro golpe. Assim nasceu um herói.

TRAMA TRÁGICA

A partir daí, contudo, a trama épica começa a se tornar trágica. Primeiro Teseu trai Ariadne e a abandona à própria sorte na ilha de Naxos. Ao retornar para Atenas, Teseu se esquece que combinara com o pai, o rei Egeu, aportar com velas brancas em sinal de sucesso do empreendimento. Mas aproxima-se do porto do Pireu com velas negras, levando Egeu ao desespero e ao suicídio. Teseu torna-se rei e desposa Antíope, tendo com ela o filho Hipólito. Mais tarde viúvo, desposa então a jovem Fedra, que se apaixona pelo enteado Hipólito, que a rejeita e o amor se transforma em ódio, criando-se assim uma nova tragédia, no qual o rei, cego de ciúmes, invoca o deus Netuno em maldição contra o próprio filho. Ao final, depois de cometer tantos erros, o ex-herói Teseu é rejeitado por seu próprio povo, levando-o ao exílio, onde é assassinado em traição de um rei que pensara aliado. E do herói fizeram-se várias tragédias.

Tenho buscado compreender o mito de Teseu como fonte de inspiração para controlar meus próprios demônios interiores e as muitas idas e vindas do meu Destino, os altos e baixos da minha história pessoal. Meu herói predileto, contudo, continua a ser o Batman, aquele demônio de estimação que um cavalheiro chamado Bruce Wayne mantém sob rédeas curtas, para que seja invocado toda vez que precisa tentar controlar o Destino de Gotham City.

Mas também preguei na parede um quadro com a imagem do capitão Kirk e da tripulação da Enterprise, aquela turma que protagoniza a epopeia de sair em busca de fronteiras desconhecidas para deixar de legado à toda a humanidade – ou, como diria o poeta Camões, a turma que está a singrar mares nunca d’antes navegados. Também coloquei em minha mesa de trabalho uma pequena imagem do mestre Yoda. É para me lembrar que um verdadeiro herói deve ser sereno, suave, simples, singular, sobretudo sábio.

O vampiro Edward, o herói da moda: sonhos flácidos e nenhuma realização concreta

Aproveito para indagar: qual o teu herói de estimação, prezado leitor? Espero que não seja romântico da moda, Edward, o vampiro da saga Crepúsculo. Pois esse aí representa muitos sonhos flácidos e nenhuma realização concreta. Ademais, usa de olhares lânguidos para seduzir a mocinha às trevas do limbo sórdido.

Para os sonhadores, idealistas, aventureiros e empreendedores, o ideal é se inspirar em um dos heróis clássicos. Perfeito se for Teseu, o Príncipe de Atenas, aquele que controlou os demônios interiores, o da ira e do medo, ao vestir o elmo da racionalidade. Precipitou o crepúsculo de uma tragédia coletiva. Logo aconteceria a alvorada da maior das histórias épicas, a saga da Civilização Ocidental.

 

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