dez 19, 2014

ESPERANÇA: Entre tragédia de Lúcifer e as catástrofes do Anjo da História de Walter Benjamin

E o homem é feito de carne, que vive, morre, apodrece e volta a ser pó. Mas carrega ao mesmo tempo uma alma que acredita ser infinita e imortal. É nossa alma que nos faz recordar o passado e sonhar com o futuro. O homem é, definitivamente, o maior paradoxo da Criação, um ser que existe simultaneamente em espírito e em carne, que constrói e destrói, que vive ao mesmo tempo no passado, no presente e no futuro.

Sonhadores, idealistas e aventureiros. Ativistas, missionários e voluntários. Conquistadores, inventores e empreendedores. Existem seres que atravessam a existência na Terra tomados de Esperança. Poetas do futuro. Pois desde que os primeiros deles saíram às portas das cavernas e começaram a olhar em direção ao horizonte, imaginando o que poderia haver do outro lado da montanha, esse punhado de homens só desejava uma coisa – controlar o Destino.

Em outras palavras, esse grupo de homo sapiens atravessou a vida tentando controlar o Acaso a fim de tecer a trama da própria história nessa breve passagem pela Terra. E são eles que, de alguma forma, com idas e vindas, luzes e trevas, vêm construindo dois projetos tão belos quanto catastróficos. O primeiro é um projeto chamado Humanidade. O outro é a Civilização.

É bem provável que o Sr., prezado leitor, seja um deles. Caso contrário não estaria lendo estas linhas. Sonhador ou ativista, aventureiro ou empreendedor, pouco importa. O relevante é lembrar que aqueles que porventura vieram ao mundo tomados de alguma dessas características, qualquer delas, por alguma razão do Destino, faz parte de um grupo raro que de pessoas que são movidas pela Esperança. A fé em si mesmo, no próximo, no homem, na vida. A Esperança no futuro. Um desejo inexplicável de ajudar a construir um mundo melhor para si ou a família, para seu povo ou país. Até mesmo um legado à Humanidade. Como posso influir na construção do futuro?

Quem somos, onde estamos? Devemos questionar, em especial, para onde vamos? Eis as indagações fundamentais do pensamento. Ora, é preciso primeiro compreender que a estrada que nos leva ao futuro é a mesma que nos trouxe do passado. Por essa razão, para alcançarmos os objetivos a que nos propomos, para tentar construir nossa própria História neste mundo, precisamos ter uma clareza sobre nossa trajetória que só pode ser obtida se recuperarmos o que deixamos atrás de nós exatamente nos lugares de onde viemos.

Assim, história de vida de cada ser é um eterno ponto de encontro da recordação com a Esperança.

Pense primeiro no tempo, meu caro leitor. Tudo tem seu próprio tempo. E na Bíblia está escrito que há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de chorar e de sorrir; de falar e de silenciar. Há sobretudo o tempo de construir e tempo de desfazer. Eu sempre gostei de observar o tempo passando. As estações do ano, muito marcantes. Tempo de seca e tempo de chuva, de plantar e de colher. É emocionante o tempo de florescer. As flores desabrocham com todas as cores, odores e sabores.

De todas a idiossincrasias do tempo, a alvorada é a mais significativa. Trata-se de um espetáculo tão lindo, mas que acontece justamente quando a maior parte das pessoas está dormindo. São naqueles instantes mágicos, quando a luz do Sol rompe as trevas da madrugada, quando emergimos das profundezas dos sonhos para as luzes da razão, que o ciclo da vida pode ser melhor compreendido.

O nascimento do dia sempre é intenso. Mas todo dia não é o mesmo tempo. Nem as mesmas emoções ou as mesmas lembranças. Como na conhecida metáfora do rio, a paisagem é sempre igual, mas as águas de hoje jamais serão as mesmas de ontem. Assim também é o nascer do Sol. Vem aspergindo esperanças. De trabalho, de amores, de acabar com todas as dores e colher apenas flores. Mas os frutos que desabrocharão amanhã vão depender das sementes que plantamos ontem.

Podemos plantar nosso Destino? Será que podemos controlar os acontecimentos do dia que chega? Até que ponto é possivel participar da construção da trama da História?

Já nem me refiro aos sonhos dos idealistas de ajudar a salvar o Planeta Terra de uma catástrofe iminente, ou de contribuir para a construção desse projeto –tão lindo quanto louco– chamado Humanidade. Mas refiro-me, somente e tão-somente, ao ideal de efetivar nossa missão individual na Terra.

Dormimos sem respostas. E na manhã seguinte queremos recomeçar outra vez. E nos cobramos pelo que não terminamos. Se levantamos todo dia, é porque refletimos sobre o passado. Buscamos em nossos erros e acertos a compreensão do presente com o objetivo de construir o futuro. Se caminhamos todo o dia, é porque nutrimos a Esperança de conhecer, ainda nesta vida, aquele maravilhoso lugar ao qual chamamos Paraíso.

Assim, quando o Sol desponta no horizonte e encontra algum idealista ou empreendedor de pé, ocorre um fenômeno que parece físico, mas em verdade é metafísico –no qual as sombras do ontem projetam-se sobre o dia de hoje, apontando a direção das luzes do amanhã. Então passado, presente e futuro se entrelaçam, fazendo de toda alvorada a encruzilhada mágica da recordação com a Esperança.

Em um de seus memoráveis ensaios, “Sobre o conceito de História”, o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) toma como referência metafórica uma aquarela de Paul Klee que ele comprou em 1921, batizada de Angelus Novus. Por se ter transformado em emblemática na obra de Benjamin, aquela imagem acabou tomando dimensão bem maior do que sua silhueta, citada em boa parte dos trabalhos dos historiadores da pós-modernidade. Com a palavra, Benjamin:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O Anjo da História deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do Paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.

O Angelus Novus, em outras palavras, ilustra o caminho teórico e metodológico de todos aqueles que têm a Esperança de controlar o próprio Destino, ou influir nos acontecimentos do mundo –ou seja, aqueles que vêm construindo a História, a Civilização e a Humanidade. Benjamin, em perigosa ousadia para teu tempo, propôs uma narrativa entrelaçando passado, presente e futuro. Afinal, como ele próprio escreveu, a estrada que nos leva ao futuro é a mesma que nos trouxe do passado.

Nesse ensaio, Walter Benjamin só omitiu um detalhe, sobre o qual, como o judeu e místico que era, ele tinha plena e total consciência. A interpretação sobre o Angelus Novus pintado por Klee foi inspirada na representação de um mito muito conhecido por nós. Benjamin desdobrou-se em metáforas e eufemismos para se referir ao Anjo Caído dos judeus, aquele ser metafísico que roubou o fogo-sagrado da consciência divina e o entregou para os homens.

O Anjo da História é outro nome de Lúcifer!

Reza o mito judaico que Lúcifer era o arcanjo predileto de Deus. Até roubar o fogo da consciência a fim de criar a Humanidade. Em latim, Lúcifer significa “Condutor da Luz”. Como castigo, Deus condenou-o a viver na Terra entre os mortais. Desde então, desde Adão e Eva, Lúcifer vem ajudando o homem a construir a Civilização. Os escritos sagrados judaicos pouco tratam de sua história.

Os gregos, contudo, deixaram de legado o mito de Prometeu. Ele era uma espécie de semi-deus, o titã predileto de Zeus, até que roubou o fogo-sagrado do conhecimento e o entregou para os homens. Em grego, Prometeu significa “Condutor da Luz”. Como castigo, Zeus condenou Prometeu a viver a eternidade na Terra, acorrentado no cume Monte Tártaro, reclamando de seu triste Destino. O dramaturgo grego Ésquilo detalhou a vida e os pensamentos desse titã na peça de teatro Prometeu Acorrentado.

Todos dias os abutres aparecem para devorar o fígado do titã. À noite, o fígado se regenera, para no dia seguinte ser novamente comido pelos abutres. É no fígado que guardamos nossos instintos primitivos e as emoções negativas, como a raiva, o rancor e a inveja. Essa é a melhor alegoria já escrita do homem tentando encontrar seu próprio Destino, mas que acaba tragado pela tragédia.

A peça começa com Prometeu contando o quanto era amado por Zeus, até que ele, com a ajuda de Atena, a deusa da Sabedoria, roubou o Fogo-Sagrado e foi expulso do Olimpo. Ele explica que, na Terra, encontrou os homens em estado primitivo, como animais, apiedou-se de nós e nos ensinou todas as artes, todas as técnicas e todas as ciências. Todo o conhecimento do mundo é um presente que ele deu aos homens.

Mostrou primeiro como controlar o fogo, depois a metalurgia e as artes da guerra. Também a Medicina, a Arquitetura e a Engenharia, aqui gravadas, propositalmente, com letras maiúsculas. Ensinou igualmente a poesia e as sete Artes Liberais clássicas –Gramática, Dialética, Lógica, Retórica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia– as matérias que o romano Cícero mais tarde consideraria “dignas dos homens livres”.

Prometeu ensinou ao homem o sentido da Liberdade, tornando-se assim, desde a Era do Gênesis, o Pai do Iluminismo, aquele movimento filosófico, econômico e político iniciado no Século 17, cuja proposta era levar as luzes da liberdade e a da democracia a todos os seres humanos – ideais e valores que ainda hoje ocupam quase que por completo corações e mentes da Civilização Ocidental.

Ainda naqueles tempos imemoriais, Prometeu ensinou ao homem sobretudo a não aceitar o Acaso, que a maior parte acredita ser obra de Deus. Ensinou a renegar as trapaças da sorte e a buscar conhecer as forças da Natureza, até, por fim, conseguir controlar o Destino através da busca pelas luzes da razão.

O mito de Prometeu, enfim, explica a vontade do homem de dominar as forças da Natureza a fim de construir a Civilização. Ensina que os acontecimentos do mundo nem sempre se dão por vontade exclusiva dos deuses, do Destino, daquele Acaso que gera a tragédia. Prometeu ensina ao homem que qualquer um pode ir controlando o Destino através do conhecimento, das ciências e das técnicas de domínio da Natureza.

A fórmula mágica de Prometeu, enfim, é o conhecimento, os estudos. Foi através desse pacto com Prometeu que o homem pode então conhecer o passado. Tanto o seu próprio passado, quando a história do seu povo. Ou seja, saber de onde veio. Pode também entender o presente, onde está. Se passar uma linha do passado para o presente, pode também projetar o futuro e, assim, decidir o que gostaria de planejar para seu próprio Destino. Pelo conhecimento, o homem pode até mudar o Destino de um povo. Ou de toda a Humanidade.

Em palavras nuas e cruas, Prometeu ensinou a renegar a chamada vontade de Deus e a buscar impor os desejos do homem. Prometeu é a alegoria da História da libertação do homem das amarras de Deus.

Mutatis mutandis, pode-se concluir que todo homem que não se conforma com o Acaso e busca construir sua própria história de vida, que pensa no futuro, por silogismo, torna-se um seguidor de Lúcifer. Ou de Prometeu, se preferirem a grafia de seu nome em grego, menos agressivo ao nosso imaginário Ocidental.

Ao ler a peça de Ésquilo, é inevitável simpatizar com Prometeu nos capítulos iniciais. No poema épico “Ode a Napoleão Bonaparte”, Lord Byron lhe faz simpática alusão como símbolo da abnegada resistência a um sofrimento imerecido e da força de vontade de resistir à opressão:

“Como o ladrão do fogo celestial

Resistirás sem medo

E compartilharás com o imortal

O abutre e o rochedo?”

 

Shelley, igualmente, apieda-se do Destino de Prometeu, dedicando-lhe belos versos à sua valentia e à sua aliança com a humanidade:

“Titã, a cujos olhos imortais

As dores dos mortais

Mostram-se em sua crua realidade,

Como algo que os próprios deuses vêem,

Que prêmio mereceu tua piedade?

Um profundo e silente sofrimento,

O abutre, a corrente, a rocha.

E o orgulho de sofrer sem um lamento”

Ocorre que Prometeu não representa somente a punição imerecida, a coragem e a resistência à opressão. Na própria peça de Ésquilo, à medida que a trama se desenlaça, são descortinadas características ocultas da sua personalidade, imensa ambição, arrogância e vaidade, armadilhas àqueles que porventura queiram fazer um pacto com esse daimon (espírito, em grego). Zeus envia um emissário com a proposta de libertar seu Anjo Caído, desde que ele peça perdão por seu pecado de entregar o Fogo-Sagrado aos homens. Mas a soberba o acorrenta, Prometeu diz que ama por demais a humanidade e se recusa a ajoelhar-se em contrição. Compreende-se, assim, as justas razões pelas quais foi acorrentado ao Monte Tártaro por toda a eternidade. Zeus não gostaria que os homens se deixassem contaminar pelo lado demoníaco de Prometeu.

Segundo a alegoria de Walter Benjamin, o Condutor da Luz, a quem ele prefere tratar pelo eufemismo de “Anjo da História”, olha triste para a cadeia de catástrofes e de ruínas acumuladas em seu passado. É seu momento de recordação. O anjo gostaria de juntar os fragmentos e retornar ao Paraíso. É seu momento de Esperança. Mas a tempestade do progresso o impele irresistivelmente para o futuro. No ápice do Iluminismo, o alemão Goethe, em seu romance Fausto, uma das obras-primas da literatura universal, retratou o mesmo Prometeu pelo nome de Mefistófeles, o Demônio do Progresso.

Será que Zeus algum dia vai perdoar Prometeu (ou Deus perdoar Lúcifer) e permitir que retorne ao Paraíso? Nesse caso, quem cuidará da construção da História da Humanidade? Mas será que o Anjo Caído gostaria mesmo de abdicar das civilizações que ele ensinou a construir a fim de retornar ao Estado da Natureza, ao Acaso, ou, em outras palavras, à vontade de Deus? Não acredito. Afinal, segundo a narrativa de Ésquilo, ele declarou amar por demais a Humanidade para deixá-la à própria sorte. Ademais, a tempestade do progresso o impele irresistivelmente para o futuro.

Eis o Destino de Lúcifer: inspirar a Humanidade a construir o futuro.

Eis a tragédia da Humanidade: inspirar-se nos pensamentos e nos atos do Anjo da História de Benjamin –ou do Progresso de Goethe– se desejar tecer a trama do próprio Destino.

“Ah, os homens, pobres homens” – comoveu-se o Anjo Caído, ainda de acordo com Ésquilo.

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