Na encruzilhada entre o passado e o futuro

Confesso a tragédia existencial que vivencio, entre manter a herança do imaginário Iluminista, com a tendência atávica pela visão idealista do presente e pela busca incessante por lançar luzes e respostas para futuro. Ou aderir de vez aos cânones da Nova História e ao multiculturalismo panteísta, que busca compreender esse mundo fragmentado e transgêneros da nossa pós-modernidade? O fato é que jamais perdi a Esperança no Homem, na Sociedade, na Civilização. E enquanto não decido entre o passado e o futuro, reafirmo minha identificação especial pela Filosofia da História de Hegel, segundo a qual, em síntese, a História da Civilização é a da busca incessante do homem pela Liberdade

Na encruzilhada a Meta-Históiria com a Nova História

Por Hugo Studart

Em sua obra “O Método – Volume 3”[1], Edgar Morin confessa que vivenciou, ao longo da construção do trabalho, “uma tríplice tragédia”. Primeiro, a tragédia bibliográfica, na qual, em cada domínio que se propunha caminhar, via-se diante do crescimento exponencial dos novos conhecimentos e referências. Segundo, a tragédia da complexidade dos temas. Por fim, a tragédia de visar à totalização, à unificação, à síntese. Mas terminou por chegar à “consciência absoluta e irremediável do caráter inacabável de todo conhecimento, de todo pensamento e de toda a obra”[2]. Concluiu, ainda, que sua tríplice tragédia seria a tragédia de todo saber moderno.

Aproveito a oportunidade para confessar, também, que atravesso neste momento uma experiência similar à de Morin. Uma tríplice tragédia neste momento em que busco concluir meu doutorado. Encontro-me diante de quase quatro metros de documentos alinhados, livros e textos teóricos, muitos lidos, compreendidos e marcados; outros que pela complexidade anunciada se postam diante dos meus olhos como espectros em uma noite escura. Sinto-me, por vezes, como o mítico Teseu diante de seu Labirinto, precisando segurar os amores e temores, vestir o elmo da racionalidade e enfrentar o Minotauro. Ou ser devorado.

A segunda tragédia, como delineia Morin, é a da complexidade dos temas e dos autores. Heródoto ou Tucídides? Documento ou narrativa? Hegel ou Nietzsche? Meta-história ou Nova História? Benjamin ou Adorno? Foucault ou Althusser? Thompson ou Ricoeur? Chartier ou Barbier? Geertz ou Ginzburg? Cornelius ou Castoriadis? Memória ou esquecimento?[3]

Por fim, a tragédia de visar à totalização, à unificação, à síntese – ou, no caso de quem busca construir uma pesquisa de doutorado, encontrar uma Hipótese, com Tese, Antítese e Síntese que satisfaça às instituições científicas e à Academia. Nesse caso, a tragédia não é estar diante de um labirinto, como Teseu, mas de um grande paradoxo identitário, nesse caso como Hamlet, entre o ser e o não-ser.

Na juventude entusiasmei-me pelos iluministas, Rosseau e Voltaire – jamais Robespierre. Logo depois vieram os libertários, Proudhon, Tolstoi, Gandhi. Até chegar a Hegel e Marx. No exercício profissional, me deixei ser levado pelo estruturalismo de Althusser e pela micro-física de Foucault, à época tão em moda. Há muito os abandonei no caminhar pela realidade da vida[4].

O resultado desse sistema de representações, crenças e valores pessoais é uma tendência atávica pela visão idealista do presente e pela busca incessante por lançar luzes e respostas para futuro. Trata-se de esperança no Homem, na Sociedade, na Civilização, herança do imaginário Iluminista. Outro resultado, no caso o relevante nesse escrevinhar, é a forte tendência por buscar a totalização na interpretação dos acontecimentos presentes nas filosofias da História, a síntese, a busca por uma explicação universal para a História. Nietzsche detratou-a por “antiquária”; Hidden Write apresentou-nos o termo “meta-história”.

Devemos compreender as filosofias da História como métodos de análise similares aos de planejamento estratégico para empresas. Deve-se primeiro responder a questões fundamentais da Filosofia – quem sou, de onde vim, onde estou. Ou seja, compreende-se assim o passado e o presente. Observando-se a linha do passado até o presente, pode-se em teoria projetar o futuro. Se quisermos mudar o futuro, precisamos então compreender as variáveis determinante. Aí entram as diferentes escolas e abordagens. Desde Prometeu, para quem a maior determinante seria o conhecimento, passando por Aristóteles, que pregava a Virtu, ou virtude, até chegar a Kant, Hegel, Marx e Proudhon.

De todas as teorias que tentam explicar o mundo pelas totalizações, tenho uma identificação especial pela Filosofia da História de Hegel, segundo a qual, em síntese, a História da Civilização é a da busca incessante do homem pela liberdade – com suas idas e vindas, às vezes com fluxos, por vezes com afluxos, um passo atrás, dois à frente, a tese e a antítese, mas sempre caminhando rumo à liberdade.

De tempos para cá, desde que iniciei um desfraldar da História sob a perspectiva da Cultura, venho conhecendo novos autores e outras interpretações, como as de Roger Chartier e Cornelius Castoriadis, filósofos que buscam compreender o mundo através das representações e do imaginário de cada tempo.

Ando me surpreendendo com constelações de primeira-grandeza como Walter Benjamin e Paul Ricoeur. Descobrindo a existência de metodologias não-totalizantes e de formuladores teóricos como Clifford Geertz, Edgar Morin e Carlo Grinzburg. Mas também usufruindo da alegria de descortinar até mesmo novos olhares críticos, mas construtivos, sobre velhos “amigos” como Platão, Hegel, Proudhon e, principalmente, Hannah Arendt – sem dúvida minha pensadora predileta.

É assim, com novas companhias de cabeceira, que tento me tornar –com o perdão da expressão— um pesquisador que busca compreender, ou pelo menos estar atento, a esse mundo fragmentado[5], policêntrico, multi-étnico, transgêneros, dodecafônico, um caldeirão em forte ebulição pela diversidade de culturas convivendo em um mesmo tempo e espaço, e com tantas contradições inexplicáveis, que se tornou quase impossível tentar explicar os acontecimentos históricos com as tradicionais teorias totalizantes. Ou seja, as teorias “antiquárias”, nas palavras de Nietzsche, mas que doravante tratarei, de forma polida, pela terminologia de Write, meta-história.

Confesso que ainda carrego Hegel no coração, mesmo que já tenha desistido de tentar compreendê-lo em sua plenitude. Toda vez que me vejo diante de grandes acontecimentos, como os levantes populares de 2011 no Oriente Médio, Tunísia, Egito, Líbia e agora a Síria, ainda busco tentar compreendê-los imaginando que seria a luta constante do homem em busca da liberdade, como sinalizava Hegel. Toda vez que volto os olhos para o passado e tento compreender a determinação de um punhado de jovens idealistas da Guerrilha do Araguaia (cujas memórias são o objeto da minha tese de doutorado) quase todos de armas em punho e na esperança de construção de um país mais justo e igualitário, dispostos à imolação quase certa em nome da revolução socialista, em nome da “liberdade”, como eles mesmos declamavam, flagro-me de novo procurando respostas na meta-história. Mais em Hegel do que em Marx.

Entretanto, depois de períodos de novas leituras[6],  passei a ter uma visão crítica sobre a pertinência dos “antiquários” para analisar certos objetos da pesquisa histórica. Reconheço que a Filosofia da História de Hegel é essencialmente escatológica[7], herdeira direta do pensamento triádico de Agostinho. A seu favor, como indulgência, tem o fato de que Marx bebeu na fonte Hegel para tecer sua própria dialética. E que o marxismo, que movimentou o imaginário revolucionário do Século XX, incluindo os personagens do episódio objeto central dessa pesquisa, era igualmente escatológico e triádico.

Hoje estou convencido de que a velha escatologia perdeu em grande parte o sentido para se tentar compreender nosso mundo pós-moderno, e que é por demais difícil encontrar uma síntese, uma explicação universal para a História a fim de se lançar luzes para o futuro. A História não tem fim, enfim. Portanto, não há escaton, não há vida melhor além do fim dos tempos. Não há uma Cidade de Deus a ser buscada, como apontava Agostinho, nem a Liberdade de Hegel, nem os Sábios de Comte, nem a utópica sociedade sem classes de Marx, ou mesmo o Fim da História – a mais supremo nonsense que a escatologia ousou produzir, nesse caso, a neo-liberal[8]. É por demais difícil encontrar uma síntese, uma explicação universal para a História a fim de se lançar luzes para o futuro. Seria, ainda citando Nietzsche, por demais “antiquário” optar por meta-história nesses tempos “pós-modernos”.

Entretanto, permanece essencial estudá-las para tentar compreender, ainda que de forma fragmentada, o imaginário messiânico de alguns dos principais atores políticos de nosso tempo, tanto os fundamentalistas islâmicos do Irã e Afeganistão, seguidores de profetas como Khomeíni e bin-Laden, quanto nossos próprios xiitas, como é o caso dos adeptos do Tea Party nos Estados Unidos, do terrorista norueguês e de dezenas de milhões de europeus que aprovam a crescente xenofobia.

Acredito hoje, como ensina Ricoeur, que fazer História é narrar o passado –mas a partir do olhar do presente. E que a Filosofia da Historia hegeliana, que tem a pretensão de apreender a totalidade da história, em verdade busca compor uma visão de conjunto do passado, do presente e do futuro. Por isso é escatológica, pois tem por fim historiar o futuro. Ora, argumenta Ricoeur, não pode existir história do futuro, nem do presente, em virtude da natureza das frase narrativas, que redescrevem os acontecimentos[9].

Reparem, senhores leitores, que passei parágrafos inteiros confessando meu passado escatológico e ralhando contra a meta-história, a mesma que professam os radicais aiatolás do Irã. É essa a maior tragédia que vivencio. Pois se minha metade pós-moderna busca e a tolerância às diversidades de culturas, ou seja, o relativismo, por outro lado, o idealismo de Platão, a filosofia de Hegel e as propostas de Proudhon ocupam uma parte significativa de meu imaginário, como espectros que talvez devam ser racionalizados.

Encanto-me, igualmente, com visão de Walter Benjamin sobre o tempo tridimensional, no qual passado, presente e futuro se misturam. Portanto é compreensível que na maior parte desta narrativa eu esteja a cair na tentação das explicações idealistas ou totalizantes –tal qual explicariam os próprios aiatolás que assolam o Irã.

Mas de um idealismo libertário e tolerante, fundamentado em Platão, Hegel e Heidegger. Jamais o idealismo radical e escatológico daquele excêntrico “pensador” de vestes negras e barba branca, Ruhollah Khomeini, para quem a “espada é a chave do Paraíso”.


[1] Edgar Morin. O Método – Volume 3. Porto Alegre: Sulina, 2008.

[2] Idem, ibidem, pág 38.

[3] Perdoem-me as eventuais inconsistências epistemológicas, mas optei nesse parágrafo pela narrativa poética, bem ao gosto de Heródoto – ou de Benjamin. Optei por rimar Althusser com Ricouer, mais pela poética e independente do fato de terem sido notórios rivais; por rimar Chartier com Barbier, ainda que façam parte da mesma escola historiográfica; Geertz com Ginzburg, ainda que não sejam excludentes; ou ainda optei pela métrica entre Cornelius e Castoriadis, ainda que sejam a mesma pessoa.

[4] Esclareço que, ao fazer esta breve explanação sobre meu próprio sistema de representações e de valores, inspiro-me no professor Boaventura de Sousa Santos, de quem fui aluno quando investigador em mobilidade do Centro de Estudos Sociais (CES), da Universidade de Coimbra, entre 2009 e 2010, como já dito acima. Em sua tese de doutorado em Sociologia do Direito, “Notas sobre a história jurídico-social de Pasárgada” (1973), pela universidade de Yale, Boaventura buscou inovar ao incluir sua experiência pessoal entre os moradores de uma favela do Rio de Janeiro. Relatou sentimentos, emoções e até a relação com as namoradas que arranjou em suas pesquisas sociológicas. Publicou uma tese díptica. Nas páginas à esquerda, narrou a experiência pessoal. Nas páginas à direita, publicou a análise teórica. Procurou sintonizar a narrativa pessoal com a análise acadêmica. Desde então, Boaventura sempre exige de seus orientandos de doutorado pelo menos um capítulo narrativo sobre as próprias experiências pessoais na pesquisa. Exige, principalmente, esclarecimentos sobre a formação intelectual do candidato, pois é indefectível, pensa o sociólogo, que a ideologia do pesquisador influencie e permeie toda a análise.

[5] Tomo aqui emprestado o título de uma obra de Cornelius Castoriadis. O mundo fragmentado (As encruzilhadas do labirinto; Vol. 3). Trad. de Rosa Maria Boaventura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

[6] Refiro-me ao tempo de convivência com os autores da Nova História, desde que ingressei, em 2003,  no Mestrado em História Cultural na Univesidade de Brasília.

[7] Do grego escaton, o que vem depois do fim.

[8] Refiro-me às teorias escatológicas da História, todas a apontar para um mundo melhor no futuro, começando por Santo Agostinho em sua A Cidade de Deus, seguido de Hegel, Augusto Comte, cujo positivismo apontava para uma sociedade governada pelos “sábios”, e Marx, cuja dialética era triádica e a teoria apontava para um futuro utópico, a sociedade sem classes. A última referência é ao historiador norte-americano Francis Fukuyama, que em 1992, após a queda do Muro de Berlim, publicou a polêmica obra O Fim da História e o último homem, no qual buscou inspiração em Hegel para pregar o triunfo final do neo-liberalismo globalizado. Quando o livro ainda estava nas prateleiras dos mais vendidos, explodiram os conflitos étnicos nos Balcãs, seguido do recrudescimento do fundamentalismo islâmico, colocando em cheque a obra e seu autor.

[9] Adiante, em item separado, apresento em detalhes o pensamento de Ricouer sobre o assunto.

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