Enterrem meu coração num jatobá na floresta

 

Este é o Velho Bugre, cada vez mais parecido com Touro Sentado

Por Hugo Studart

Estive ontem à noite na festa de entrega do Troféu Raça Negra, promovida pela Afrobrás e pela UniPalmares, Faculdade da Cidadania Zumbi dos Palmares, de São Paulo. Na noite anterior, assisti ao DVD “Enterrem meu coração na curva do rio”, sobre um índio sioux, em verdade um mestiço, egresso da tribo do mitológico cacique Touro Sentado, que viveu no mundo dos brancos, se tornou o primeiro “índio” médico nos Estados Unidos e terminou a vida lutando pela defesa e justiça para com seu povo.O filme me comoveu profundamente. A festa de Zumbi também. Foi um dos eventos mais bonitos, edificantes e emocionantes que meus cabelos brancos já presenciaram. Por vezes, ou melhor, muitas vezes, me questionam por que eu, um branco, ao invés de defender a meritocracia, instrumento mais democrático já inventado pelas sociedades, defendo ações afirmativas, como cotas para negros nas universidades e empresas? Jamais revelei as verdadeiras razões. Defendo por meu pai, por mim, por todos. Defendo as ações afirmativas para as minorias étnicas, negros e índios, porque quero que enterrem meu coração ao pé de um grande jatobá de uma vasta floresta.

SER BUGRE, SER CRIOULO
Certa feita, ainda adolescente, li a história de um militante dos Direitos Civis nos Estados Unidos. Seu nome foi-se no tempo, mas a história ficou na memória. Ele começava o enredo contando que só na idade adulta descobriu que era negro. Seu pai havia conseguido ascender na escala social, o que permitira morar em bairros melhores e estudar em boas escolas. Viviam entre brancos, como brancos. Em casa, os pais jamais haviam falado de suas origens étnicas. Na escola, pensavam que fosse descendente de indianos ou asiáticos. Demorou muito tempo para que tomasse consciência de sua verdadeira identidade étnica e cultural. Daí para a militância pelos Direitos Civis e a luta anti-segregacionista dos anos 60 nos EUA, foi um pulo.

Sou bisneto de índios — mas como o personagem da história acima, só depois dos 40 anos comecei a encontrar minhas verdadeiras raízes culturais. Meu pai, Jonas Alves Corrêa, é um caboclo do Pantanal do Mato Grosso. 

Por toda a juventude estive bem mais próximo da família da minha mãe, egressa do velho coronelismo nordestino. São eurocêntricos até a raiz do cabelo. Lá atrás, ao entrar no mercado de trabalho, adotei o sobrenome materno, Studart. De início, meu pai não gostou muito. Depois se acostumou.

Mas meu pai é um caboclo de pele escura. Seus velhos amigos o chamam de Bugre. E a mim de Bugrinho. No Mato Grosso, “Bugre” significa índio chucro, ignorante, inadaptável à civilização. Chamar alguém de Bugre por lá é tão pejorativo quanto chamar por aqui um negro de “crioulo”. Ele nunca gostou desse apelido. Mas o fato é que tem feições e comportamento de índio. Hoje, velho de guerra, está cada vez mais parecido com os retratos que restaram de Touro Sentado.

Ele descende da tribo dos bororós do Pantanal. É neto de uma índia com um branco. Ser dessa etnia não dá status no Mato Grosso. Os bororós eram agricultores e pescadores. Eram presas dos índios mais agressivos. Hoje estão na miséria, sobrevivendo do que lhes leva a Funasa, com boa parte dos remanescente arrastando-se no alcoolismo.

Ser caiapó sim, dá prestígio social e liderança política. Raoni e Megaron são caiapós. São índios caçadores e guerreiros, os predadores. Raoni, reza a lenda, tem mais de 80 marcas na borduna. Por isso é tão respeitado entre os próprios índios. Hoje os caiapós frequentam os melhores círculos internacionais ao lado de Xavantes, Terenas e Ianomamis. Ser bororó, contudo, é como ser um negro qualquer, morador de alguma favela encravada na grande selva de pedra paulistana. Significa ser um excluído.

Foi minha mãe quem certa vez contou que minha bisavó foi apanhada a laço à beira de uma aldeia boboró. Era assim que os homens arrumavam mulher no século XIX lá naquele fim de mundo chamado Mato Grosso: quando não conseguiam acertar casamento com uma branca, mandavam caçar no laço alguma índia jovem. Depois, com o tempo, elas se acostumavam com a nova vida. Hoje compreendo porque ele jamais conversou com os filhos sobre nossa descendência indígena. Acredito que ele não gostava de ser “bugre”.

 

O VÔO DA ÁGUIA E O TERENA
Já Bugre Velho, certa vez meu pai revelou que sua lembrança mais remota é de um avião rasgando os céus do Pantanal. A recordação dos aviões é anterior ao do rosto da própria mãe. “Eu sempre soube que queria ser aviador”. Saiu de casa aos 13 anos, sob as bençãos de mãe e a proteção de Nossa Senhora Aparecida, de quem era devota.

Foi para o Rio de Janeiro. Nunca mais voltou. Estudou muito (e sozinho) para entrar na Escola Preparatória da Aeronáutica, em Barbacena. Era o único caminho, sua única chance de entrar num avião. Conseguiu. Tornou-se oficial da Força Aérea, um excelente piloto, aliás. Aposentou-se como coronel. Quando um aviador se aposenta, gosta de ser chamado de “Velha Águia”.

Ele foi então brincar de ser instrutor do Aeroclube de Brasília. Era a única maneira de continuar fazendo o que mais gostava, voar. Um dia um índio entrou em seu avião para fazer os testes de piloto. Não era um caboclo “civilizado” como meu pai. Era um índio nascido e criado em tribo, um terena de nome Marcos. Hoje Marcos Terena é famoso, liderança indígena nacional com influência internacional. Na época era só um jovem fazendo os testes para tentar se tornar o primeiro índio piloto do Brasil.

A Velha Águia começou a bateria de testes. Lá nos céus, provocou uma pane no avião. Esse é o jogo. O terena livrou-se rápido e fácil da armadilha. Provocou outra pane. Saiu fácil, fácil demais para aquele Bugre Velho. Duas panes. Três panes simultâneas.

Intrigado, talvez um pouco irritado, o bugre bororó fez o que não devia, fez o que não se recomenda nos manuais da prudência: provocou cinco panes simultâneas no avião. Ela sabia o desatino que cometera, mas garantia-se na experiência e na antiga competência para salvar a vida da dupla. Não foi preciso. Marcos Terena suou um pouco, mas conseguiu estabilizar o avião sozinho. “Ele é o melhor piloto que conheci na vida”, atesta o Bororó sobre Terena. Marcos adora quando este Bugrinho conta essa história nos bons círculos sociais civilizados.
ENTERREM MEU CORAÇÃO NAS AÇÕES AFIRMATIVAS
Velho Bugre passou a acompanhar com atenção a vida de Marcos Terena. Sentia orgulho da rápida ascensão daquele índio, conterrâneo seu do Mato Grosso. Reportagens na grande imprensa sobre o primeiro índio-aviador, entrevistas, cargos importantes no governo, frequência nos circulos políticos internacionais. Nunca mais o viu desde o fatídico teste das cinco panes. Mas sempre será seu discipulo de asas

A história de Marcos Terena fez o velho descendente de bororós começar a sentir orgulho da sua própria origem. Para um bugre, como para um japonês, extravasar emoções é algo raro. É tudo muito contido, há muita sutileza nas suas confissões e revelações. É preciso perceber os sinais exteriores. Um dia levou-me a um almoço de seus amigos, as velhas águias. “Este aqui é o Bugrinho”, apresentou-me. Ele não se apresentou como Bugre, apelido pejorativo e que jamais gostara. Apenas me apresentou como o “Bugrinho”.

Depois veio a nomeação do negro Joaquim Benedito Barbosa para o Supremo Tribunal Federal. Ele gostou, apoiou. Discordou de todos os amigos defensores da meritocracia ortodoxa. Passou a acompanhar as aventuras e desventuras do “Negão do Supremo” — é assim que se refere ao ministro. Vibrou quando o “Negão teve colhões de denunciar o mensalão”. Passou a ficar atento, principalmente, às andanças de  Raoni e de Megaron na busca pelos direitos dos índios. Sabe tudo de Raoni. Respeita-o profundamente, inclina a cabeça, automaticamente, quando se refere ao grande guerreiro caiapó.

Vibrou também quando o mulato Barack Obama foi eleito imperador. Agora acompanha o noticiário sobre Raoni, Obama e o “Negão do Supremo”, a quem gostaria que um dia fosse eleito presidente da República. Há um pouco mais de um ano, sucumbiu à internet. Adivinhem qul o nome que escolheu para seu email? “Velho bugre”. Vou recomendar-lhe o filme “Enterrem meu coração na curva do rio”.

Quando jovem bugre, meu pai deixou o Pantanal do Mato Grosso e foi atrás do sonho de se tornar aviador. Contou apenas com a bênção da mãe cabocla e as rezas de invocação à Nossa Senhora Aparecida, uma negra. Ele venceu pelo próprio mérito e orgulha-se de ter dado aos cinco filhos bons livros e boas escolas para que também vençam pela meritocracia.

Raros foram os aviadores caboclos, negros ou mulatos que encontrou ao longo de quase 40 anos na Força Aérea. Decerto nenhum índio. Naquela época não existiam ações afirmativas nem cotas — uma conquista relevante, há de se reconhecer, do Movimento Negro Brasileiro.

Cartaz do filme “Enterrem meu coração…”

Ontem, na belíssima festa do Troféu Raça Negra, promovida pela UniPalmares, emocionei-me quando vi muitos brancos e mulatos claros, bem claros, bisnetos e trinetos de negros libertos, festejando a fantástica diversidade cultural e étnica brasileira. Alegria e espontaneidade expressas em centenas de rostos de todas as colorações celebrando a Democratização através da inclusão social pela educação.

Desde cedo tive convicções de que um homem só pode atingir à Liberdade plena quando conviver somente com outros homens livres – e que não há liberdade enquanto existir um único prisioneiro da ignorância, da intolerância e da exclusão. A UniPalmares vem demonstrando na prática que o respeito à diversidade cultural e étnica representa o maior culto possível aos princípios da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.

Bisneto de bororó, senti-me estimulado a assumir, já na meia-idade, a luta por políticas afirmativas e de inclusão dos índios brasileiros. Desta forma, talvez o Velho Bugre consiga usufruir ainda em vida da alegria de assistir algum índio se tornar oficial-aviador da Força Aérea. E nem precisa ser bororó. Pode ser caiapó, xavante, suruí… Basta ser um índio.

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