Em defesa da vida nos Infernos

Depois de muito conversar com os mortos, o filósofo e teólogo Emanuel de Swedenborg descobriu que o Inferno, na verdade, seria uma das mais inteligentes obras de Deus, e que estilo de vida ideal para a eternidade é o dos prazeres

Por Hugo Studart

O mito da felicidade rege que todo homem ambiciona a liberdade durante a vida e o Céu após a morte. A realidade prova, contudo, que a maior parte dos seres humanos procura viver no Inferno, tanto aqui quanto acolá. Talvez seja o Inferno um local aprazível, bem menos aterrorizante do que nossa imaginação ocidental seja capaz de cogitar. Mas afinal, qual o estilo de vida ideal para se ter na Eternidade?

De acordo com o imaginário cristão, a vida no Paraíso seria de muita paz e serenidade, e só poderia ser conquistada caso o candidato levasse um cotidiano na Terra tomado de amor fraternal, orações, modéstia, caridade e recato. Enfim, uma vida tendendo ao jejum, ao silêncio e ao celibato monástico. Por outro lado, caso o homem venha a ter uma vida na Terra tomada de prazeres materiais e carnais, ambicionando fama, dinheiro, poder, estaria fadado a purgar a eternidade no quinto dos infernos.

Existe a possibilidade, contudo, da vida após a morte não ser regida por esse maniqueísmo medieval, no qual as coisas, como observou Bertrand Russel, são “celestialmente brancas ou diabolicamente negras”. E se pudessemos usufruir na outra vida de música alegre, conversas inteligentes, prazeres espirituais e até mesmo de amor e sexo? Estaríamos no Céu ou no Inferno?

O teólogo Emanuel Swedenborg foi quem melhor analisou tal assunto ao escrever que o inferno é uma das mais inteligentes obras de Deus. Não se trata, a acertiva acima, de uma heresia. É a síntese da obra de um homem santo. Não estranhes, prezado leitor, caso jamais tenhas ouvido falar desse tal de Swedenborg.

Filho de um bispo luterano, foi também sacerdote e teólogo inspirado. A base do luteranismo é a salvação pela graça. A base da doutrina de Swedenborg é a salvação pelo trabalho, pelas boas obras na terra. Devemos conhecê-lo para procurar entender por que quase todos nós, os humanos, buscamos a felicidade se entregando aos prazeres infernais.

 

Swedenborg: e o químico virou alquimista, o filósofo virou teólogo…

Misterioso Alquimista – Swedenborg nasceu em Estocolmo, Suécia, em 1688, e morreu em Londres, aos 84 anos. Deixou um legado de 50 obras, a maior parte escrita em latim com estilo seco e correto. Seus livros versam sobre física, química, matemática, engenharia militar, mineralogia, anatomia, astronomia, filosofia e teologia. Desenhou máquinas de voar e submarinos. Sua máquina de transportar navios por terra venceu célebres guerras para o rei Carlos VII –também conhecido por Carlos, O Grande, ou Carlos, O Conquistador.         O filósofo francês Voltaire dizia que Carlos VII foi o homem mais extraordinário registrado pela História. Carlos organizou há mais de dois séculos as bases da sociedade sueca para que um dia viesse a se tornar o espelho mundial da liberdade e da democracia. Já o escritor argentino Jorge Luís Borges dizia que, talvez, o mais extraordinário dos homens depois de Jesus Cristo tenha sido Swedenborg, um misterioso e fiel conselheiro de Carlos VII.

Swedenborg era um cientista. Quanto mais pesquisava o homem e a natureza, mais se aproximava de Deus e das coisas do espírito. Assim, o matemático virou físico, o químico se transmutou em alquimista, o engenheiro virou astrônomo e o filósofo acabou teólogo. Passou os últimos 25 anos de vida recluso em um casarão londrino, conversando com os anjos, os demônios e os desencarnados. Escreveu que os lhe relatavam, de forma pormenorizada, como seria a vida no Céu e a vida no Inferno.

 

Médium ou Pentecostal – Dizem hoje os estudiosos espíritas que Swedenborg foi um grande médium. Como era protestante, talvez se sentisse melhor classificado como precursor do movimento pentecostal. Swedenborg esteve esquecido por dois séculos. Hoje há na Suécia, Alemanha e Estados Unidos alguns gatos-pingados adeptos da Igreja Swedenborgiana. Tomei conhecimento desse homem através da obra de Jorge Luís Borges. A princípio, pensei ser esse tal gênio sueco obra da imaginação do genial argentino Borges.

Tão cego quanto Bethoven era surdo, Jorge Luís Borges não tinha o menor compromisso com a verdade histórica dos fatos. Contava estórias tiradas da sua imaginação usando personagens reais; às vezes criava personagens para relatar fatos da História. Seu compromisso era com as ideias, com a essência das coisas. Recentemente, descobri que Swedenborg existiu mesmo e que tudo o que Borges escreveu sobre ele –por mais incrível que pareça!– foi exato e real. Voltaire também se deixou seduzir por Swedenborg. Acreditou piamente no inferno do teólogo sueco.

 

A Revelação Divina – Aos 55 anos, Swedenborg era um homem realizado para os padrões do mundo. Era senador, conselheiro-mor do mais poderoso rei da Europa e cientista reconhecido internacionalmente, com 25 obras publicadas sobre temas variados como anatomia e geometria. No entanto, um comichão azucrinava sua alma. Um dia, deixou Estocolmo e desembarcou em Londres a fim de conhecer o físico Isaac Newton e estudar melhor a obra de Shakespeare. Aconteceu então o fato primordial de sua vida.

O cientista teve uma revelação divina. Pelo que consta em seu diário, a mensagem foi precedida de sonhos. Ele não registrou o conteúdo. Voltaire escreveu que teriam sido sonhos eróticos. Isso não importa. O essencial é que a partir daquele dia Swedenborg passou a receber revelações metafísicas. Disse ele que seriam revelações do próprio Espírito Santo. Depois, veio a visitação, outro fato extraordinário. Um desconhecido o seguiu pelas ruas de Londres, entrou em sua casa e se apresentou como Jesus Cristo.

Disse o visitante que a Igreja Cristã estava decaindo e que ele, o sueco, tinha por missão tentar renovar os ensinamentos da Bíblia. Tudo isso parece absurdo. Na época, a revelação foi tomada como acesso de loucura. Jorge Luís Borges lembra que a obra de Swedenborg, em seu conjunto ou em cada detalhe, é a prova definitiva de que o sueco jamais esteve louco; era o mais são dos homens. Não há nenhuma vírgula insensata. Sua lógica é desconcertante, seu estilo tranqüilo, sua erudição profunda.

Antes de escrever qualquer linha sobre as revelações, Swedenborg recolheu-se dois anos estudando hebraico para poder interpretar as Escrituras do Antigo Testamento no original. Depois abandonou todas as preocupações com a Ciência e ocupou-se apenas do sobrenatural. Como nos lembra Borges, ele acreditou que os estudos científicos haviam sido apenas uma preparação divina para que ele pudesse engrenar nas outras obras.

 

Mundo das Cores – Swedenborg relata que as pessoas demorariam a notar que morreram. Após a morte, continuaria tudo igual, só que mais nítido. Aos poucos, o espírito repararia que as coisas alegres o deleitam e que as coisas desagradáveis o assustam. Sempre pensamos no outro mundo de modo nebuloso, mas Swedenborg afirma que ocorreria exatamente o contrário, que as sensações seriam mais vivas e as cores mais nítidas. Haveria mais formas, tudo seria mais concreto.

“Tanto é assim”, escreveu, “que este mundo, comparado com o que vi em minhas inumeráveis andanças pelos céus e pelos infernos, é como uma sombra. É como se vivêssemos na sombra”.

Santo Agostinho, em Civitas Dei, afirma que o gozo sensual é mais forte no paraíso do que aqui, porque não se pode imaginar que a culpa tenha contribuído para melhorar alguma coisa. Swedenborg segue na mesma trilha. Ele afirma que, pelo que lhe relatou o Espírito Santo, haveria, inclusive, gozo carnal no outro mundo, só que muito mais intenso que o daqui. O assunto é polêmico, mas foi isso que ele escreveu, o que se há de fazer? Foi a parte da obra que mais entusiasmou Voltaire.

 

Livre Arbítrio – O teólogo sueco inova quando afirma que o livre arbítrio prosseguiria durante a morte. Ele garante que Deus não condenaria ninguém ao Inferno. As próprias pessoas escolheriam ir para o reino de Jesus ou de Satã. Ele diz que Deus é tão grande que continuaria dando oportunidade aos homens depois da vida. Assim, quando as pessoas morrem, vão para um local intermediário. Seria a fase do auto-conhecimento e do auto-julgamento, hora de avaliar para onde merece ir. O cristianismo denominou esse local de purgatório.

Nessa fase, diversos seres se aproximariam para, digamos… bater-papo, puxar conversa, trocar umas idéias. Alguns seriam anjos, outros demônios. Como sabemos, aqui na terra é costume conversar com qualquer um. Encontra-se afinidade com alguns e antipatia com outros. Mas é normal permanecer convivendo com todos.

O teólogo sueco afirma que os anjos são homens que ascenderam à condição angelical; que os demônios são homens que desceram à condição demoníaca. Lembrem-se de que, lá do outro lado, caso Swedenborg esteja correto, tudo seria mais nítido. Desta forma, os espíritos recém-chegados rapidamente encontrariam afinidades com seus semelhantes. Por exemplo, o Fernando Henrique logo chamaria John Kennedy para bebericar um legítimo escocês; o Roberto Marinho não desgrudaria de Henry Ford e o Paulo Maluf seria unha-e-carne com Luis Inácio Lula da Silva.

Os Muitos Infernos – Pela teologia swedenborgiana, haveria nos muitos céus um lugar para intelectuais e artistas, outro para espíritos caridosos e de fé, um terceiro para as crianças e assim por diante. Da mesma forma, existiriam muitos infernos. Assim, o Caetano Velloso encontraria sua fecilicidade perto da Maria Callas (ou talvez da Carmem Miranda), os iogues seriam enviados para junto dos monges beneditinos e Zeca Pagodinho se realizaria ajudando a embalar o tchan da Shakira.

O próprio Swedenborg imagina o paraíso cheio de alegria, inteligência e trabalho. Ele era pesquisador, cientista e inventor; enfim, um homem de ação. Os habitantes do céu do sueco trabalhariam a maior parte do tempo auxiliando os espíritos menos evoluídos a encontrar caminhos mais edificantes. Nas horas vagas, discutiriam Platão e as Escrituras, tocariam músicas dançantes e usufruiriam do amor. Ele admite também horários para o sexo (ainda bem…).

 

Satanás e Tancredo Neves – Ele afirma que Satanás, por exemplo, não seria um ser, mas um país demoníaco para onde se dirigiriam os espíritos beligerantes, os que adoram brigar. É provável que além dos assassinos e dos traficantes de drogas, para lá devem se dirigir –espontaneamente– todas aquelas senhoras que passaram suas vidas brigando com os maridos, os filhos e os vizinhos.

Onde estará descansando Getúlio Vargas? Para onde teriam ido Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, por exemplo? Tudo indica que ambos foram, Tancredo e Ulysses, bons cidadãos brasileiros. Passaram suas vidas no Congresso Nacional, dedicados à causa pública. Tancredo chegou a ser o arquétipo da esperança nacional de dias melhores. Ulysses arriscou a pele pelas liberdades democráticas.

Quando morreram, ambos foram desenhados nos jornais com asas de anjos. Onde estariam agora? Se as revelações de Swedenborg estiverem certas, Tancredo e Ulysses estão muito felizes em um céu (ou inferno) semelhante ao Congresso Nacional, em Brasília. Um local onde todos passam todos para trás, a dissimulação é regra e a busca pelo poder confunde-se com o sentido da vida. É para um local como esse que decerto foi Antônio Carlos Magalhães, e que devem ir José Dirceu e José Sarney.

O Deserto –  Emanuel Swedenborg reproduz algumas histórias a ele relatadas pelos anjos e demônios. Numa delas, um espírito diabólico, desses que passara a vida nas orgias e nas intrigas, resolve dirigir-se para um dos céus. Deu azar. Os habitantes do local eram todos chegados a obras sociais e a vida sem vícios. O espertalhão não conseguiu fazer nenhuma amizade e saiu correndo para um inferno, muito mais divertido para seu jeito de ser.

Outra história diz respeito a um asceta que passou a vida na terra em busca do céu. Seu cotidiano resumia-se a jejuar e orar, absolutamente isolado das pessoas. Jamais estudou, trabalhou ou fez caridade. Quando o asceta morreu, foi conduzido a um céu muito parecido com o ideal católico. Foi terrível suportar tanto trabalho e alegria. Os arcanjos se reuniram e produziram artificialmente um deserto para que o asceta pudesse se sentir feliz.

É nesse contexto que Swedenborg afirma que Deus é tão grande, mas tão grandioso em sua bondade, que chegou até mesmo a inventar o Inferno para que os espíritos demoníacos também possam se sentir felizes.

Swedenborg revolucionou todos os conceitos teológicos de então. O que escreveu era tal forma inusitado que as igrejas da época sequer chegaram a combatê-lo. Ele simplesmente afirmou –enfrentando a Santa Inquisição católica e os protestantes puritanos– que o homem deveria procurar a felicidade aqui, agora e sem intermediários. Foi um precursor dos hippies e dos movimentos alternativos. Swedenborg nos convida à salvação mediante uma vida mais rica. Por meio da bondade, do trabalho, da justiça e da inteligência. Borges acrescenta a possibilidade de salvação pelo exercício da arte.

O essencial é pensar um pouco sobre os muitos céus e infernos que inventamos para preencher nosso cotidiano. Se Swedenborg estiver certo, é melhor começar hoje mesmo, aqui e agora, a criar um paraíso na terra. Ou ir se acostumando com a idéia de ser feliz no inferno.

 

 

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