jan 18, 2014

É sempre bom lembrar que somos feitos da mesma matéria dos sonhos

Foi Próspero, protagonista de “A Tempestade”, obra de Shakespeare, que disse isso. Contudo, por pertinência ao tema, tomei a frase emprestada para a abertura da Tese de Doutorado que acabo de entregar à banca. Chama-se: “EM ALGUM LUGAR DAS SELVAS AMAZÔNICAS: As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia (1966-1974)”. Foram cinco anos de pesquisa, leituras e escrita. Uffa. Compartilho com os amigos o texto de Apresentação da Tese, no qual trato muito de esperança e de sonhos. Afinal, como bem o disse Próspero, “somos feitos da mesma matéria dos sonhos”.

Foram cinco anos pesquisando e escrevendo; estudando e escrevendo; escrevendo e reescrevendo

E o homem é feito de carne, que vive, morre e volta a ser pó. Mas carrega ao mesmo tempo uma essência que muitos acreditam ser infinita e imortal. Platão chamou essa essência de anima, alma. Seria ela a responsável por nos fazer recordar o passado e imaginar o futuro. O homem é, definitivamente, o maior paradoxo da Criação, um ser que existe simultaneamente em anima e em carne, que constrói e destrói, que vive ao mesmo tempo no passado, no presente e no futuro.

Sonhadores, idealistas e aventureiros. Conquistadores, missionários e voluntários. Ativistas e revolucionários. Existem seres que atravessam a existência tomados de sonhos, de esperança no futuro. Pois desde que os primeiros deles saíram às portas das cavernas e começaram a olhar em direção ao horizonte, imaginando o que poderia haver do outro lado da montanha, esse punhado de homens só desejava uma coisa – construir um mundo melhor. E são eles que, de alguma forma, com idas e vindas, luzes e trevas, vêm construindo dois projetos tão belos quanto catastróficos. O primeiro é um projeto chamado Humanidade. O outro é a Civilização.

Sonhador ou idealista, missionário ou revolucionário, pouco importa. O relevante é ressaltar que aqueles que porventura vieram ao mundo tomados de alguma dessas características, qualquer delas, faz parte de um grupo de pessoas movidas pelos sonhos do passado e pela esperança no futuro. O acreditar no próximo, no homem, na vida. Um desejo inexplicável de ajudar a construir um mundo melhor.

Sou um deles. Sonhador na infância, imaginava-me entre os personagens da Liga da Justiça. Queria ter sido um dos 300 espartanos de Leônidas. Na juventude, transformei-me em idealista. Passei a ler sobre as revoluções. A francesa, a soviética, as grandes guerras do Século XX. Depois, sobre nossa própria revolução, em suas dimensões distintas – o regime militar, a luta armada urbana e a guerrilha rural. O tempo passa… e eis que que me encontro na maturidade, sob o diapasão da racionalidade, buscando compreender o fenômeno revolucionário. Em outras palavras, pesquisando sobre o que leva alguns homens a sacrificar a própria vida por um ideal político.

“Com o que devemos sonhar?” – certa feita indagou-se Lenin. “Escrevo estas palavras e de repente fico assustado”[1]. Materialista até a essência, estava assustado com o aparente desacordo entre sonho e realidade. Lenin então buscou respostas nas palavras de um líder político russo, Dimitri Pissarev, contemporâneo de Marx. Pissarev era, paradoxalmente, revolucionário e niilista. Lenin gostou desse desacordo aparente:

“Se o ser humano fosse completamente desprovido da faculdade de sonhar, se não pudesse de vez em quando adiantar o presente e contemplar em imaginação o quadro lógico e inteiramente acabado da obra que apenas se esboça em suas mãos, eu decididamente não poderia compreender o que leva o ser humano a empreender e a realizar vastos e fatigantes trabalhos na arte, na ciência e na vida prática (…) O desacordo entre o sonho e a realidade nada tem de nocivo se, cada vez que sonha, o ser humano acredita seriamente em seu sonho, se observa atentamente a vida, compara suas observações com seus castelos no ar e, de uma forma geral, trabalha conscientemente para a realização de seu sonho. Quando existe contato entre o sonho e a vida, então tudo vai bem!”[2]

Representação do personagem Próspero, de “A Tempestade”: alegoria do homem dividido entre o Mundo das Ideias e a Realidade do Mundo

Na obra Espírito da Utopia, Ernest Bloch nos lembra que é penetrando no fenômeno da esperança do futuro que o mundo, no focus imaginarius, na parte mais escondida e inteligível de nossa subjetividade, faz sua aparição[3]. Assim, é o apelo à vontade do homem pela esperança, explica ele, que possibilita o surgimento das mais diferentes manifestações idealistas, incluindo os movimentos revolucionários. Walter Benjamin, por sua vez – colega de escola e leitor de Bloch – preferiu versar sobre sonhos, notadamente os sonhos coletivos. Benjamin propõe desconstruir a dialética hegeliana racionalista por uma dialética que olha para a História em movimento, que leve em conta a dimensão simbólica, as imagens dos sonhos, em um tempo descontínuo e saturado de agoras, com épocas que se distinguem e se entrelaçam na incalculável vontade do homem de fazer História[4].

* * *

Nesta pesquisa, apresento a reconstrução das memórias de um grupo formado por um punhado de homens e de mulheres que, essencialmente movidos pela esperança, por um sonho coletivo, acreditavam poder influir na construção de um país justo e igualitário. Eram estudantes universitários ou jovens profissionais liberais, em sua esmagadora maioria, que nas décadas de 1960-70 instalaram-se no coração das selvas amazônicas, em um ponto remoto ao sul do Estado do Pará, às margens do rio Araguaia, sem armas ou provisões, a fim de deflagrar uma insurreição armada que tinha por objetivo final promover uma revolução socialista no Brasil. Este episódio, ocorrido durante os anos mais repressivos do regime militar brasileiro, entrou para a nossa História sob o nome de Guerrilha do Araguaia.

Optei por delinear a pesquisa nos acontecimentos ocorridos entre 1966, quando o primeiro grupo de militantes do Partido Comunista do Brasil, PC do B – responsável pela organização da guerrilha – começou a chegar à região do rio Araguaia, e fins de 1974, quando os últimos guerrilheiros foram mortos pelos militares, extirpando por completo aquele movimento. Obviamente, para que seja possível a contextualização e análise, será necessário ultrapassar esses marcos, buscando os acontecimentos ocorridos antes de 1966 ou depois de 1974.

Defendo a pertinência do tema geral escolhido, assim como o objeto específico, uma vez que atendem a todos os critérios fundamentais para uma pesquisa acadêmica, quais sejam: relevância histórica, originalidade, interesse pessoal e viabilidade.

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A Guerrilha do Araguaia guarda um grande paradoxo. É um dos episódios mais comentados da nossa História. Ao mesmo tempo, um dos mais obscuros – daí sua relevância. Meio século depois do início do movimento[5], a história dos guerrilheiros permanece no império do oculto, naquele território que Tácito conceituou como arcana imperii[6] ao se referir aos segredos de Estado – ou, em nosso caso, dos mistérios da História. Uma confluência de fatores contribuiu para esse paradoxo.

Terminados os conflitos, em fins 1974, tanto os comandantes militares quanto os dirigentes comunistas decidiram manter segredo sobre o episódio. Assim, nem o Exército revelou como venceu os guerrilheiros, nem o partido contou como foram derrotados. As primeiras informações consistentes vieram à tona a partir de 1980, depois da Anistia e no início da abertura política. Primeiro, através de revelações de um dissidente do partido[7]; na sequência, através de três livros-reportagens de jornalistas independentes[8].

A abertura dos arquivos do Araguaia, de um lado ou de outro, só teria início em 1996. Abriram primeiro os militares. Não as Forças Armadas, ressalve-se, que até a presente data permanecem em obsequioso silêncio. Contudo, familiares de militares falecidos, ou mesmo ex-combatentes na reserva, começaram a entregar seus acervos pessoais para jornalistas ou historiadores[9].

Em paralelo, a direção do PC do B também começou a abrir sua própria história. De forma lenta, segura e gradual. O primeiro ato ocorreria em 16 de maio de 1996, quando João Amazonas, então dirigente máximo do partido, compareceu à Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados para prestar depoimento sobre o Araguaia. Ou seja, exatos 22 anos após o fim do episódio, o PC do B daria início à sua própria “abertura”. Desde então, o partido passou a incentivar publicações sobre o episódio, seja em reportagens na imprensa, em livros de seus militantes[10] ou em pesquisas acadêmicas[11]. Contudo, até a presente data, o PC do B não abriu seus próprios arquivos para pesquisadores não filiados.

Ao longo da década de 2000, o tema Guerrilha do Araguaia acabou por ganhar destaque editorial. Primeiro foram os militares, ex-combatentes na reserva, que em iniciativas pessoais e passando ao largo de seus comandantes, começaram a divulgar suas próprias versões da História[12]. O PC do B reagiu com as publicações de biografias de seus dirigentes através da editora oficial do partido, em onda que permanece até a presente data[13].

No mesmo período, começaram a ser publicados livros-reportagens e acadêmicos sobre o Araguaia; alguns deles chegaram a ser premiados ou estar na lista dos mais vendidos[14]. Nas academias, por sua vez, o tema passou a ganhar destaque, quase sempre dentro da perspectiva teórica do estruturalismo, no qual não há muito espaço para as singularidades dos atores como indivíduos, ou ainda em leituras biográficas e regionais sobre o episódio[15].

* * *

Paradoxalmente – e apesar de tanto barulho – os guerrilheiros ainda não foram desvelados. O PC do B, sim, vem contando sua história, com destaque especial às epopeias de seus comandantes. Os militares também – ainda que façam opção muito mais por silêncios, por hiatos e pelo oculto, do que por revelações de fato relevantes. Os trabalhos jornalísticos, por sua vez – reportagens ou livros – têm dado destaque quase absoluto às violações dos Direitos Humanos perpetradas pelos militares; ou ainda às narrativas que tendem ao épico.

E quanto às histórias protagonizadas por aquele punhado de homens e mulheres que empenharam seus sonhos, esperanças e vidas em algum lugar das selvas amazônicas? O que pensavam? O que sonhavam? Por qual razão deixaram suas vidas na cidade foram para lá? Como viviam? Onde estavam suas dores? E quanto a seus amores?

Uma das questões que mais intrigam, até hoje sem respostas satisfatórias, é por qual razão os guerrilheiros permaneceram na área mesmo depois de constatada a derrota no campo militar? Por que não tentaram se reorganizar em outro local quando as Forças Armadas os cercaram? E mesmo quando descobriram que o Exército estava executando os prisioneiros, por que, afinal, muitos deles ofereceram-se à imolação certa?

Eram exatos 79 guerrilheiros quando tiveram início os conflitos armados, em abril de 1972. Desses, 59 restam mortos e/ou desaparecidos; 20 sobreviveram. Doze permanecem vivos na presente data[16]. E mesmo esses sobreviventes jamais tiveram a oportunidade de abrir suas lembranças e revelar suas histórias de forma organizada ou estruturada. Nem ao PC do B, que nunca os convidou a falar, nem mesmo em depoimentos orais a instituições de pesquisa[17]. Não narraram a visão que têm sobre o grupo que ajudaram a formar, ou suas trajetórias como indivíduos. Quando no Araguaia, todos eles estavam à sombra dos heróis. Na penumbra permanecem.

Por todas essas razões, optei por buscar desvelar “As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia” – sujeitos que sonhavam um sonho quando as esperanças eram grandes; pois eram jovens e não tinham medo[18]. Entendo por “memória” a reconstrução de experiências do outrora no tempo do agora, seja por corpus escritos, seja através da reconstrução das lembranças dos vivos. Em outras palavras, reconstruir memórias está longe de ser o ato de apenas lembrar do passado. Isso é mera nostalgia. Construir memórias é ressignificar as experiências de outros sujeitos do passado e, com eles, estabelecer um diálogo no tempo presente[19].

* * *

Esclareço que procuro analisar esses eventos com distanciamento crítico. Jamais ousaria defender a tal neutralidade científica preconizada por Bacon e reafirmada por Comte e seus seguidores para as Ciências Sociais. Mas busco tão-somente tomar certa distância emocional para tentar tecer uma análise desapaixonada dos acontecimentos. Contudo, confesso, emocionei-me enquanto pesquisava. Escrevo com o coração. A todo momento, enquanto releio alguns trechos da narrativa, flagro-me lacrimejando. Qual a razão, afinal, desse enturvecer da racionalidade dita científica?

Na apresentação da obra A Memória, a história, o esquecimento, Paul Ricœur explicou que sua pesquisa acadêmica teve origem em diversas preocupações: “umas pessoais”, admitiu o pensador, “outras profissionais, e outras, finalmente, eu chamaria de públicas”[20]. No seu caso, as motivações pessoais de tecer reflexões sobre os conceitos de memória e de esquecimento vinham do fato de ter atravessado a infância e a juventude sentindo a dor da ausência do pai, desaparecido na I Guerra Mundial. Ora, no meu caso, não tenho relação direta e vivida com o objeto central da pesquisa. Não fui guerrilheiro nas selvas, não tenho entes desaparecidos. Sequer sou militante do PC do B ou de organização congênere.

Talvez no meu caso, a melhor explicação plausível emerja das reflexões de Benjamin sobre desejos e sonhos. Segundo Benjamin, o historiador só consegue ser bem sucedido em sua tarefa de tecer a trama na medida em que compreende os sonhos como imagens do desejo, inspiração e aspiração. Nesse sentido, ao buscar estudar e compreender os guerrilheiros do Araguaia, talvez eu esteja apenas olhando para dentro da própria anima, para aquilo que não foi, mas que poderia ter sido como foi sonhado – adentrando numa dimensão mágica na qual passado e presente se misturam, num tempo saturado de agoras.

Isto posto, esclareço que há muito o episódio histórico, a Guerrilha do Araguaia, desperta-me inquietações pessoais. Venho trabalhando com o tema há duas décadas, de início como jornalista, minha primeira carreira profissional; agora como pesquisador em História. Em janeiro de 1992, por exemplo, escrevi minha primeira reportagem sobre os desaparecidos políticos do Araguaia[21]. Desde então, publiquei duas dezenas de outras reportagens ou artigos sobre os temas guerrilha rural, guerrilha urbana, regime militar, atos de exceção e desaparecidos políticos[22].

A partir 1998, comecei a formar um acervo pessoal com documentos e fotografias sobre o período. Tinha então interesse jornalístico. Procurei-os e cataloguei-os ou em arquivos públicos, ou com familiares de desaparecidos, ou ainda nos acervos pessoais de militares que atuaram naquele período. Não era regra geral, mas era bastante comum entre os militares formar acervos pessoais com documentos relativos às suas atuações na repressão política. Ou resguardarem em suas residências cópias de documentos dos arquivos secretos da ditadura. Desde 1996, como já dito, os militares vêm entregando parte desses documentos para jornalistas ou historiadores.

Em 2003, ingressei no mestrado em História, neste Departamento de História da Universidade de Brasília, dentro da linha de pesquisa que na época se chamava Discurso, Imaginário e Cotidiano. Em 2005, defendi a dissertação, sob o título “O Imaginário dos Militares na Guerrilha do Araguaia (1972-1974)”[23]. O objeto daquela primeira pesquisa foi, tão somente, buscar analisar a guerrilha sob o ponto de vista dos militares. Ou seja, o imaginário, as estratégias e o discurso dos que combateram a guerrilha. Revista e ampliada, em 2006 a dissertação foi publicada em livro, sob o título A Lei da Selva[24].

Foi assim que acabei por optar por aprofundar o projeto, dentro do escopo de um programa de doutoramento. A proposta é a de construir um díptico, ou seja, uma espécie de quadro esculpido em duas tábuas que se dobram, duas tramas independentes e complementares. Se no mestrado abordei os militares, no doutorado a pesquisa seria sob a perspectiva da guerrilha. No caso, a reconstrução d’As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia – buscando pesquisar, analisar e narrar sobre a questão: o que, afinal, teria movido aquele punhado de jovens urbanos a lutar na selva, sem armas, suprimentos ou rotas de fuga, contra um Estado bem armado e constituído, com pouca ou nenhuma chance de vitória, ou mesmo de retornar para casa com vida? Esta é um das indagações básicas que esta pesquisa procura responder.

Esclareço, ainda, que, em fins de 2009, em plena fase da pesquisa de campo do doutorado, fui aceito como Investigador em Mobilidade do Centro de Estudos Sociais (CES), da Universidade de Coimbra[25]. Além de usufruir da oportunidade de tomar conhecimento de outras visões e novas leituras[26], aproveitei para organizar, de forma mais criteriosa, meu acervo pessoal de documentos sobre o período militar que, até então, já contava com quase 13 anos de pesquisas acumuladas.

Foi assim que cheguei ao Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra[27]. Em trabalho de parceria, separamos documentos, imagens e mapas, digitalizamos milhares de páginas, organizamos e classificamos pastas[28]. Imprimi ou fotocopiei o que, em uma primeira classificação, avaliei interessar para o objeto proposto na pesquisa. Ao fim e ao cabo, descobri ter um acervo pessoal com cerca de 3 mil documentos, que podem somar quase 15 mil páginas[29].

A parte desse acervo selecionado para esta pesquisa é um conjunto de corpus produzido pelos guerrilheiros ao longo dos três anos de combates. Há documentos “oficiais”, como relatórios da guerrilha enviados para a direção do partido, em São Paulo. Há panfletos e “Comunicados ao Povo”, distribuídos entre os moradores da região e, ato contínuo, apreendidos pelos militares. Em quase todos esses documentos, os guerrilheiros terminavam com a seguinte assinatura:

De algum lugar das Selvas Amazônicas,

FOGUERA – Forças Guerrilheiras do Araguaia

 

Os guerrilheiros também produziram diários pessoais. Em seus momentos de introspecção, na interminável espera pelo próximo confronto, escreviam sobre os combates, analisavam os movimentos dos militares e a conjuntura política. Escreviam sobre si mesmos. Produziram longos relatos sobre o cotidiano na guerrilha, as intempéries da selva, as doenças enfrentadas, receitas de medicamentos caseiros e de comida. Reclamavam da fome. Compunham canções. Cometiam poesias. Registraram seus sonhos, esperanças, projetos futuros, seus temores, suas dores – mas ainda não encontrei qualquer registro escrito sobre seus amores.

 

Entre esses documentos, o que aparenta conter mais informações relevantes para esta pesquisa é o diário do comandante-em-chefe das Forças Guerrilheiras, Maurício Grabois, codinome Mário, corpus que ficou conhecido como o “Diário do Velho Mário”[30]. Esses documentos, inéditos em quase toda sua totalidade, são fragmentos e representações coletivas, meros relampejos, mas que se analisados em seu conjunto e dentro de um contexto teórico – tal qual cacos de cerâmica ou de ossos na Arqueologia – podem ser capazes de jogar “clarões de luzes” sobre aquilo que Fernand Braudel define como “instantâneos da História”[31].

 

Esclareço, por fim, que, em julho de 2009, comecei a fazer parte, na condição de Observador Independente e Ouvidor, por indicação da Universidade de Brasília, do grupo de trabalho que busca os restos mortais dos desaparecidos do Araguaia, em cumprimento a uma sentença judicial, da 1ª Vara da Justiça Federal[32]. Desde então, estive periodicamente na região em pesquisa. Participei de cinco expedições em 2009, oito em 2010, duas em 2011 e uma em 2012, totalizando 16 viagens ao Araguaia. Em cada incursão, permaneci entre seis e dez dias na região. Na condição de Ouvidor, minha missão foi auxiliar os familiares localizando e entrevistando moradores da região, ex-guias dos militares, ex-jagunços, ou mesmo militares dispostos a colaborar, atrás de informações que levem a restos mortais dos guerrilheiros[33].

 

Outra parte da missão foi buscar com essas mesmas fontes informações que ajudem a reconstituir as circunstâncias detalhadas da morte de cada um dos guerrilheiros. Obviamente, a participação efetiva nessas expedições oficiais me ajudaram de forma incomensurável a compreender o objeto desta pesquisa, ou seja, reconstruir e analisar “As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia”. A surpresa, que não estava nos planos iniciais, foi descobrir que os moradores da região são preciosas fontes de informações também para o objeto desta pesquisa acadêmica. Muitos deles resguardam em suas lembranças informações mais precisas e detalhadas sobre a guerrilha do que os próprios guerrilheiros sobreviventes.

* * *

Como norteadora desta pesquisa, trabalho com a hipótese de que os guerrilheiros do Araguaia estavam essencialmente tomados por sonhos – segundo a concepção de Benjamin[34] – movidos pela esperança de construção de um país justo e igualitário, seguindo o imaginário revolucionário daquele tempo, as décadas de 1960 e 1970. Esclareço, contudo, que essa hipótese, tão singela quanto direta, veio a servir-me, tão somente, como um guia de pesquisa e análise, um norte para a realização deste trabalho e para a tecitura da narrativa, uma bússola a apontar um caminho.

A proposta desta pesquisa é buscar os sentidos do objeto pesquisado através dos pressupostos epistemológicos que presidem a análise da História Cultural, centrado nos estudos das representações sociais e do imaginário do poder, dos símbolos e ritos, mitos e crenças, da construção das identidades dos atores e dos grupos[35]. Assim, busquei tecer uma narrativa priorizando o diálogo com os teóricos da Nova História e da História Cultural.

Para a fundamentação de duas questões que transpassam toda a pesquisa, narrativa e memória, escolhi dialogar com Walter Benjamin e Paul Ricœur[36], em muitos momentos compreendidos através de seus intérpretes. De Hannah Arendt – pensadora que transcende as correntes teóricas – apropriei-me do conceito da política como experiência coletiva vivida, como também dos estudos sobre a formação de movimentos revolucionários. São esses, Benjamin, Ricœur e Arendt, os três pilares teóricos desta pesquisa.

Para conduzir minhas mãos no tecer da trama, complexa e delicada, com uma diversidade assustadora de novelos que envolvem guerrilheiros, militares e camponeses, entrelaçados por fontes tão diversas como documentos, cartas, diários, poesias, canções e lembranças, a opção foi por uma pesquisa essencialmente qualitativa, fazendo uso de fontes escritas e orais. Como já dito, possuo uma farta documentação sobre o objeto analisado. Portanto, pareceu-me mais sensato priorizar as fontes documentais, com transcrições e interpretações em cada um dos capítulos a serem desenvolvidos.

Dividi o trabalho a ser apresentado em quatro capítulos, mais a conclusão:

No Capítulo 1, apresento os “Percursos Metodológicos da Pesquisa”, com a fundamentação teórica que perpassa a tecitura da trama, detalhando os principais conceitos dos autores escolhidos para o diálogo, como também a metodologia efetivada na pesquisa.

No Capítulo 2, “Os Silenciados do Araguaia”, narro e analiso as pesquisas realizadas sobre o período da guerrilha no qual não restaram sobreviventes, recorrendo a narrativas orais de camponeses que participaram dos episódios para buscar a reconstrução das memórias desses guerrilheiros desaparecidos e, portanto, silenciados.

No Capítulo 3, “Contexto Histórico e Político”, apresento a conceituação sobre as organizações de vanguarda do Século XX; o processo histórico da crise internacional do comunismo que, no Brasil, resultou na fundação do Partido Comunista do Brasil (e desaguou na Guerrilha do Araguaia); e, por fim, apresento e analiso documentos sobre a conturbada relação do partido com a China.

No Capítulo 4, “Construção do Grupo”, inicio com a identificação dos guerrilheiros, selecionando uma amostra de indivíduos para buscar responder, através de retratos pessoais e de histórias que se entrecruzam, afinal, quais os sonhos da juventude? Como se deu o recrutamento para a luta armada? E quanto à dor que a ausência dos guerrilheiros desaparecidos provoca nas famílias? Apresento ainda como ocorreu a chegada à área; e, por fim, a organização das Forças Guerrilheiras, com seus respectivos componentes.

No Capítulo 5, “Cotidiano de Esperanças”, descrevo o treinamento e os preparativos para a luta armada; a interação com a comunidade local; a produção de sonhos e de esperanças; a vida cotidiana na mata, com as lidas domésticas; o enfrentamento dos problemas; o amor e a formação dos casais; e os conflitos internos.

No capítulo 6, “Aliança com os camponeses”, busco analisar as relações e os discursos apresentados aos moradores da região, como também compreender, afinal, como os camponeses percebiam os guerrilheiros antes e depois da chegada dos militares.

No capítulo 7, “Memórias da Luta Armada”, relato os primeiros embates resultantes da chegada dos militares, as prisões de guerrilheiros e seus depoimentos, assim como a mudança das estratégias de luta e do cotidiano da guerrilha. Neste capítulo, relato episódios que resultaram nas prisões, mortes e desaparecimentos dos guerrilheiros nas primeiras fases da guerrilha, da qual restam documentos ou sobreviventes para narrar a história.

Na
“Conclusão”, busco o diálogo com o tempo presente a partir das comissões da verdade, ora instauradas, tecendo uma discussão sobre questões como anistia e perdão, memória e esquecimento.

Por fim, as Referências e os Anexos.

No Anexo I, “Guerrilheiros Desaparecidos”, apresento a relação completa dos guerrilheiros mortos e desaparecidos no Araguaia, no qual busco reconstruir as informações que emergiram até o tempo presente sobre as circunstâncias da morte de cada um.

No Anexo II, “Camponeses na Guerrilha”, apresento uma listagem dos camponeses que morreram durante o conflito e daqueles que apoiaram os guerrilheiros, construída a partir dos documentos militares remanescentes.

No Anexo III, “Militares no Araguaia”, apresento a relação dos comandantes militares, oficiais superiores e dos agentes com papel relevante na repressão aos guerrilheiros, buscando a reconstrução das cadeias de comandos de cada uma das diferentes operações militares.

No Anexo IV, “Documentos Remanescentes”, apresento uma amostra do corpus documental utilizado na pesquisa, tanto os documentos produzidos pelos próprios guerrilheiros (como manifestos, avaliações e cartas), quanto os documentos militares sobre os guerrilheiros efetivamente utilizados.

* * *

Walter Benjamin nos lembra que Mnemosyne, a deusa da reminiscência, era para os gregos a musa da poesia épica.[37] Para Benjamin, era também a musa da narrativa. Segundo a tradição iniciada por Homero de invocar as musas no início de cada narrativa, rogo para que Mnemosyne me inspire na tecitura das próximas páginas.


[1] Apud: Ernest Bloch. O Princípio Esperança – Vol. 1. Trad. Nélio Schneider. Rio de Janeiro: Ed. UERJ; Contraponto, 2005, pág. 20.

[2] As palavras de Pissarev foram reproduzidas pelo líder revolucionário russo em texto com publicação no Brasil. Vladimir Lenin. Que fazer? – As questões palpitantes do nosso movimento. São Paulo: Hucitec, 1988. Apud: Bloch, op. cit., pp. 20 e 21.

[3] Filósofo alemão e marxista, Ernest Bloch é autor de consistente obra sobre questões como utopia, esperança e marxismo. Espírito da Utopia foi publicado originalmente em 1918 e revisto em 1923. Ernst Bloch. The Spirit of Utopia. Stanford, Califórnia, USA: Stanford University Press, 2000.

[4] O pensamento de Walter Benjamin é um dos nortes desta pesquisa. O conceito benjaminiano de sonhos encontra-se detalhado adiante, no Capítulo 1, “Percursos Metodológicos da Pesquisa”.

[5] Esclareço que os conflitos armados no Araguaia tiveram início em 1972, há quatro décadas. Contudo, o Partido Comunista do Brasil foi fundado em 1963, há 50 anos, portanto, por um grupo de dissidentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que discordava da nova linha pacífica adotada pela organização. Tanto em seu estatuto, quanto em seu manifesto de fundação, o PC do B já previa a revolução armada como objetivo central – temas que serão detalhados adiante. Ademais, futuros guerrilheiros do Araguaia começaram a fazer o treinamento militar na China em 1964; e os primeiros guerrilheiros começaram a chegar à região do Araguaia em 1966. Assim, esse conjunto de fatos justifica a expressão “meio século depois”.

[6] Nos Anais 2.36, o historiador romano Tácito escreve sobre os segredos do governo como arcana imperii, ou império do oculto, expressão esta incorporada à Ciência Política nos estudos sobre os Estados autoritários. Nesse caso, tomo emprestada a expressão de Tácito para definir os mistérios da História. Apud: Sergio Pistone. “Razão de Estado”. In: Norberto Bobbio; Nicola Matteucci; Gianfranco Pasquino. Dicionário de Política. João Ferreira (coord.). Brasília: Editora UnB, 2ª ed., 1986, pág. 1.066.

[7] Wladimir Pomar, filho do ex-dirigente do PC do B Pedro Pomar, revelou em livro documentos inéditos que o partido produziu ao longo de 1976, enquanto fazia reuniões de avaliação crítica da experiência no Araguaia. Entre os documentos, encontra-se o chamado “Relatório Pomar”, no qual seu falecido pai tecia fortes críticas à direção do PC do B na condução da guerrilha. In: Wladimir Pomar. Araguaia: O Partido e a Guerrilha – Documentos Inéditos. São Paulo: Ed. Brasil Debates, Col. Brasil Estudos, nº 2, 1980.

[8] Palmério Dória. A Guerrilha do Araguaia. São Paulo: Alfa-Ômega, 1981; Clóvis Moura. Diário da Guerrilha do Araguaia. São Paulo: Alfa-Ômega, 1985; e Fernando Portela. Guerra de Guerrilhas no Brasil. 2a ed., São Paulo: Global, 1987.

[9] Registro que foi em 1996 que apareceu o antológico “Baú do Bandeira”, acervo de documentos secretos da ditadura que o general Antônio Bandeira, um dos comandantes da repressão militar, guardava em sua casa. O acervo, escondido em um baú, foi encontrado pela filha do general, Márcia Bandeira, quando cuidava do pai, então com Alzheimer. Era riquíssimo em documentos e informações secretas sobre as organizações clandestinas, urbana e rural, como sobre a repressão militar. Márcia entregou o acervo ao jornal O Globo, que publicou duas séries de reportagens premiadas, a primeira sobre a Guerrilha do Araguaia, a outra sobre repressão urbana. Desde então, militares da reserva, de todas as patentes, vêm tornando públicos seus próprios documentos e fotografias. Destaco os acervos já publicados pelos coronéis Lício Augusto Maciel e Aluízio Madruga (não se sabe se na íntegra ou parcialmente) e os acervos do tenente José Vargas Jiménez e do sargento João Santa Cruz. Destaco, ainda e por fim, o acervo entregue em 2009 ao jornal O Estado de São Paulo pelo tenente-coronel Sebastião de Moura, o “Major Curió”. Há certamente outros acervos pessoais a serem desvendados.

[10] Destaco: Carlos Pompe (Preparação e Revisão). Guerrilha do Araguaia – Documentos do PC do B. São Paulo: Ed. Anita Garibaldi, 1996.

[11] Destaco, pelo fato de ter sido publicada em livro, a dissertação de mestrado do professor Romualdo Pessoa, da Univesidade Federal de Goiás: Romualdo Pessoa Campos Filho. Guerrilha do Araguaia – Esquerda em Armas. Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 1997.

[12] Destaco: 1) Agnaldo Del Nero Augusto. A Grande Mentira. 1a ed., Rio de Janeiro: Ed. Biblioteca do Exército, 2001; 2) Aluísio Madruga de Moura e Sousa. Movimento Comunista Brasileiro; Guerrilha do Araguaia – Revanchismo: A Grande Verdade. Brasília: Edição Pessoal, 2002; 3) Luís Maklouf Carvalho. O Coronel Rompe o Silêncio, Lício Augusto Ribeiro, que matou e levou tiros na caçada aos guerrilheiros do Araguaia, conta sua história. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004; 4) José Vargas Jiménez. Bacaba – Memórias de um guerreiro de selva da Guerrilha do Araguaia. Campo Grande: Edição Pessoal, 2007; 5) Lício Augusto Maciel. Guerrilha do Araguaia: Relato de um combatente. Rio de Janeiro: Edição Pessoal, 2008; 5) Leonêncio Nossa. Mata! O major Curió e as Guerrilhas no Araguaia. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. 6) Agnaldo Del Nero Augusto, Lício Maciel e José Conegundes do Nascimento (Orgs.). ORVIL: tentativas de tomada do poder. São Paulo: Schoba, 2012.

[13] Destaco: 1) João Amazonas; Luiz Carlos Antero; Eumano Silva. Uma epopeia pela liberdade: Guerrilha do Araguaia 30 anos. São Paulo: Ed. Anita Garibaldi, 2002; 2) Verônica Bercht. Coração Vermelho – A vida de Elza Monnerat. São Paulo: Ed. Anita Garibaldi, 2002; 3) Osvaldo Bertolino. Testamento de Luta – A vida de Carlos Danielli. São Paulo: Instituto Maurício Grabois, 2002; 4) Osvaldo Bertolino. Maurício Grabois: uma vida de combates. São Paulo: Ed. Anita Garibaldi e Instituto Maurício Grabois, 2004. Bernardo Joffily. Osvaldão e a Saga do Araguaia. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

[14] Destaco: 1) Elio Gaspari. A Ditadura Escancarada – As Ilusões Armadas. 1a ed., São Paulo: Companhia das Letras, 2002; 2) Tais Morais e Eumano Silva. Operação Araguaia – Arquivos Secretos da Guerrilha. São Paulo: Geração Editorial, 2005; 3) Hugo Studart. A Lei da Selva: Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares sobre a Guerrilha do Araguaia. São Paulo: Geração, 2006. Este último, de minha autoria, será detalhado adiante.

[15] Destaco: Deusa Maria Sousa. “Caminhos cruzados: trajetória e desaparecimento de quatro guerrilheiros gaúchos no Araguaia”.  Dissertação de Mestrado em História apresentada na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Unisinos. Orientador: Werner Altmann. São Leopoldo, RS: 2006.

[16] São eles: Criméia Alice Schmidt Almeida, Dagoberto Alves Costa, Danilo Carneiro, Eduardo Monteiro Teixeira, João Carlos Wisnesky, José Genoíno Neto, Lúcia Regina de Sousa Martins, Luzia Reis Ribeiro, Micheas Gomes de Almeida, Pedro Albuquerque Neto, Regilena da Silva Carvalho, Rioco Kayano e Tereza Cristina Albuquerque. Seis outros também sobreviveriam à guerrilha, mas vieram a falecer posteriormente. São eles, pela ordem de óbitos: Ângelo Arroyo, Pedro Pomar, Dower Moraes Cavalcanti, Glênio de Sá, Francisco Amaro Lins, Elza Monnerat e João Amazonas. Deve-se considerar ainda um estudante ainda não identificado, codinome Jurandir, que chegou em 1970 e desertou em outubro de 1971.

[17] Importante ressalvar que o partido financia a publicação dos relatos daqueles que permanecem em seus quadros, como os dirigentes João Amazonas e Elza Monnerat, que tiveram biografias publicadas pela editora Anita Garibaldi; ou ainda o caso de Glênio de Sá (candidato ao Senado pelo PC do B do Rio Grande do Norte em 1994), cujo relato de sua experiência pessoal no Araguaia foi publicado pela Anita Garibaldi em 1990, na forma de brochura. Lúcia Regina de Souza Martins, por sua vez, prestou depoimento em 2002 para um Trabalho de Conclusão de Curso, TCC, de um grupo de estudantes de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, São Paulo. No caso de Danilo Carneiro, que se filiou ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, PCBR, prestou depoimento em vídeo em 2010 para o “Projeto Intolerância e Resistência – Memórias dos presos políticos no Brasil”, da Fundação Ford. João Carlos Wisnesky, por seu turno, foi escutado em 2011, quando esteve em Xambioá para auxiliar o Grupo de Trabalho Tocantins, GTT, que busca os corpos dos desaparecidos. Enfim, são todas iniciativas dispersas, sem qualquer projeto estruturado.

[18] Tomo aqui emprestado os versos de Alain Boublil (em francês) e Herbert Kretzmer (em inglês), em música de Claude-Michel Schönberg, para a canção I Dreamed a Dream: “Eu sonhei um sonho quando as esperanças eram grandes; eu era jovem e não tinha medo” (Em tradução livre).

[19] Aproprio-me dos conceitos de memória apresentados pelos filósofos Walter Benjamin e Paul Ricœur, tema que será abordado em detalhes no Capítulo 1, “Percursos Metodológicos da Pesquisa”.

[20] Paul Ricœur. A memória, a história e o esquecimento. Campinas: Unicamp, 2010, pág. 17.

[21] Hugo Studart. “Garoto procura foto do pai no arquivo do DOPS: Joca quer conhecer rosto adulto de André Grabois”. Folha de S. Paulo, 21 jan. 1992, pag.1 et pag. 1-4.

[22] Destaco: 1) “A Morte em Preto e Branco – Uma discussão sobre a tortura, os desaparecidos políticos da ditadura militar e o imaginário nos tempos em que as coisas eram diabolicamente negras ou celestialmente brancas”. Revista Plenarium, da Câmara dos Deputados. Brasília, ed. nov. 2009, págs. 20 – 26. Ensaio; 2) “A Guerra Acabou”. Jornal O Estado de São Paulo, 07 jul. 09, Editoria de Opinião, pág. 2, 2009. Artigo; 3) “Devolvam os corpos dos desaparecidos”. Jornal O Estado de São Paulo, 20 set. 08, Editoria de Opinião, pág. 2. Artigo.

[23] A dissertação foi defendida em 11 de abril de 2005, dentro do Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília, no Programa de Pós-Graduação em História e na linha de pesquisa Discurso, Imaginário e Cotidiano, tendo como orientadora a professora-doutora Cléria Botêlho da Costa, e como membros da banca examinadora as professoras-doutoras Diva Couto Muniz e Márcia Martins Kuyumjian, do Departamento de História da UnB, e o professor-doutor José Geraldo de Sousa Júnior, do Departamento de Direito da UnB.

[24] Hugo Studart. A Lei da Selva – Estratégia, imaginário e discurso dos militares sobre a Guerrilha do Araguaia. Op. cit. Destaco que o livro recebeu 23 resenhas críticas em jornais e revistas de todo o País, incluindo Valor EconômicoO Globo, Dinheiro e IstoÉ. Recebeu Votos de Aplauso do Senado e da Câmara Federal. Foi também agraciado com o Prêmio Herzog de Direitos Humanos 2006, Menção Honrosa, e foi finalista do Prêmio Jabuti 2007, categoria melhor livro-reportagem do ano.

[25] Instituição fundada e dirigida pelo professor-doutor Boaventura de Sousa Santos.

[26] Nesse período, estive sob a supervisão científica do professor-doutor Rui Bebiano, jornalista e historiador, pesquisador do imaginário revolucionário dos anos 60 em Portugal e antigas colônias. Autor, entre outras obras, de: Rui Bebiano. O poder da imaginação – juventude, rebeldia e resistência nos anos 60. Coimbra: Angelus Novus, 203. Aproveitei a oportunidade para frequentar seminários, debates e, como aluno-ouvinte, quatro disciplinas de doutorado. Destaco duas que, em especial, abriram novos paradigmas e cujos conteúdos foram destacados nesta pesquisa: “Pós-Colonialismos e Cidadania Global”, ministrada pelo professor Boaventura de Sousa Santos, dentro do CES-Faculdade de Economia; e “Teoria da História”, ministrada pelo professor Fernando Catroga, dentro do Instituto de História e Teoria das Ideias.

[27] Outra instituição fundada e dirigida pelo professor Boaventura de Sousa Santos, a quem devo agradecer pela decisão de apoiar esta pesquisa.

[28] Registro agradecimentos especiais à diretora-executiva do Centro de Documentação 25 de Abril, Dra. Natércia Coimbra, de quem obtive apoio integral do primeiro ao último momento. Assim como à pesquisadora Filomena Calhindro, que esteve comigo, em trabalho, por três meses ininterruptos, e a quem coube o trabalho mais difícil de digitalização dos documentos e assistência na classificação do acervo.

[29] Esclareço ainda que busco alguma instituição para doar esse acervo. Meu objetivo é que todos os documentos sejam tornados públicos através da internet. Considero a política de acesso do Arquivo Nacional por demais restritiva. Publiquei artigo sobre o tema no jornal Folha de S. Paulo. Hugo Studart. “Wikileaks para a ditadura – Neste momento em que se discute a criação de uma Comissão da Verdade para rememorar ou punir os atos de exceção da ditadura, somente uma política de ampla, geral e irrestrita transparência dos documentos será capaz de resgatar nossa História”. São Paulo, 07 Jun 2011, Pág. 03.

[30] Cópia datilografada do Diário, com 185 páginas, se encontra nos arquivos secretos do Centro de Inteligência do Exército, CIE, em Brasília. Obtive uma cópia durante a pesquisa para a dissertação de Mestrado e utilizei alguns trechos no trabalho. A editora Geração já fez proposta de publicá-lo na íntegra, como livro. Optei por preservá-lo como fonte primária para uma pesquisa no doutorado.

[31] Fernand Braudel usa a expressão “clarões de luzes sobre instantâneos da História”. Apud: Sônia Lacerda. História, narrativa e imaginação histórica. In: Tânia Navarro Swain (Org.). História no Plural. Brasília: Ed. UnB, 1994, pag. 13

[32] A sentença judicial que obriga o Estado a envidar esforços para localizar e entregar os corpos dos desaparecidos da Guerrilha do Araguaia é de 20 Jun 2003. “Sentença da Ação Ordinária dos familiares de desaparecidos da Guerrilha do Araguaia”, Processo nº I-44/82-B. No início de 2009, contudo, a Juíza Federal Solange Salgado, desde então titular da 1ª Vara da Justiça Federal, em Brasília, passou a pressionar o governo a cumprir a ordem. O presidente Luís Inácio Lula da Silva determinou ao então ministro da Defesa, Nélson Jobim, que tomasse providências. Foi criado o Grupo de Trabalho Tocantins (GTT), nome escolhido pelo ministro, sem referências ao Araguaia, para não constranger os militares. No governo Lula, o GTT era diretamente subordinado a um Comitê Interinstitucional, formado por representantes da Presidência da República, de familiares de desaparecidos, partidos políticos, Secretaria Especial de Direitos Humanos, Ministério da Defesa e Ordem dos Advogados do Brasil, OAB. O grupo de trabalho no campo era formado por familiares, pesquisadores, observadores independentes, geólogos, legistas, antropólogos, representantes do governo do Pará e representantes do Partido Comunista do Brasil. Os militares, por sua vez, participam fornecendo a logística durante as buscas. A UnB participou com a indicação de uma equipe de geólogos e outra de legistas, além deste observador-independente. No governo de Dilma Roussef, algumas alterações foram implementadas. Primeiro, a coordenação do grupo passou a ser tripartite, dos Ministérios da Justiça, da Defesa e da Secretaria Especial de Direitos Humanos. O nome mudou de GTT para GTA, Grupo de Trabalho Araguaia. Em junho de 2011, foi decidido pela Coordenação Tripartite que a ampliação do grupo, incorporando mais familiares e representantes de instituições. A UnB continuou participando com equipes de geólogos e de legistas, estagiários em História e um observador independente.

[33] Há cerca de uma centena de vídeos sobre essas buscas, gravados institucionalmente pelos grupos de trabalho GTT e GTA para fazer parte do acervo documental do processo judicial, ou ainda gravados informalmente pelos membros dos grupos. Parte desses vídeos acabou sendo disponibilizado ao público por meio do site Youtube. Destaco: http://www.youtube.com/watch?v=QF0qmFRWrzI; http://www.youtube.com/watch?v=U61_e7LXYNA; e http://www.youtube.com/watch?v=saHvN7jt3IQ. Acesso em 29 Mar 2013.

[34] Adiante, no Capítulo 2, apresento a dialética benjaminiana e seu conceito de sonho.

[35] Ver: Sandra Jathay Pesavento. História & História Cultural Op. Cit. pág. 75.

[36] Esclareço que os principais pontos do pensamento desses autores pertinentes a esta pesquisa, assim como as respectivas bibliografias, serão abordados no próximo capítulo, “Percursos Metodológicos da Pesquisa”. Da mesma forma, optei por não indicar, neste momento, as obras referência dos demais autores adiante citados.

[37] Walter Benjamin. Obras Escolhidas Vol. I – Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7a ed., São Paulo: Brasiliense, 1994, pág. 211.

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