É Paulo Maluf quem afirma: “Lula é mais malufista do que eu”

O que está acontecendo com o velho Paulo Maluf quando sai por ai elogiando o presidente Lula. Será que Maluf lulou? “Não, Lula é que malufou, ele está aderindo às minhas idéias”, responde o candidato do PP a prefeito de São Paulo. “Lula caiu na real e hoje defende as idéias do Paulo Maluf quando foi candidato à Presidência há 20 anos atrás.” E prossegue certeiro, implacável: “Lula está à minha direita, ele até delfinhou, escuta mais o Delfim Netto, meu companheiro de 50 anos, do que o PT”. Maluf arremata: “O Banco Central do Henrique Meirelles faria até o saudoso Roberto Campos se envergonhar; ele defende banqueiro com tanto fervor que faz eu me sentir comunista”. Ah, sobre as contas bancárias do exterior, é tudo fantasia, naturalmente.

A voz anasalada é a mesma. As frases de efeito, sempre viscerais, também. Mas Paulo Maluf velho de guerra é uma nova pessoa. Depois de 40 anos de vida pública, na qual foi prefeito de São Paulo duas vezes, governador uma e candidato derrotado outras sete, depois de amargar 40 dias numa prisão da Policia Federal, apanhado pelo mesmo delegado Protógenes Queiroz que pescou Daniel Dantas, Naji Nahas & Cia na Operação Satiagraha, ele está de volta à política. Primeiro foi eleito deputado federal pelo PP paulista, com 739 mil votos, a maior do País. Maluf chegou ao Congresso Nacional mais sereno, sábio, seguro, e esbanjando bom humor. Agora ele está de volta à sua cidade, candidato a Prefeito. Tudo indica que vá guardar a oitava derrota em sua coleção. Mas tudo bem, como rege o irônico jargão de seus muitos inimigos, afinal Maluf é um candidato competente – compete, compete, compete…

Tudo bem, pois mesmo que perca, Maluf está extremante feliz com as obras – as obras de Lula, ressalte-se. Afinal, segundo Maluf, tudo o que sonhou fazer caso um dia fosse eleito presidente (um acalento que jamais será realizado, conforma-se), seu velho adversário Lula agora está realizando. Lula faz — e faz melhor do que Maluf admite. “O Lula está mais malufista do que eu”, ironiza. Por essas razões, Maluf não guardará magos dos eleitores se for de novo derrotado em outubro. Aocompetir, vai dividir o eleitorado conservador e ajudando o malufista Lula a eleger a candidata Marta Suplicy. A entrevista abaixo foi originalmente concedida para os jornalistas Hugo Studart e Hugo Marques, da IstoÉ. Com vocês, prezados leitores, Paulo Maluf velho de guerra:

— O Sr. voltou à política falando bem do presidente Lula e até o visitou no Palácio do Planalto no ano passado. O que está acontecendo, Maluf lulou?

– Não, eu não lulei, o Lula é que malufou, ele está aderindo às minhas idéias. Meses atrás Lula disse que quem na juventude é socialista está certo e quem depois dos 60 anos continua com as mesmas idéias tem que procurar um psiquiatra. Ele caiu na real e hoje defende as idéias do Paulo Maluf quando foi candidato à Presidência há 15 anos atrás. E defende as idéias liberais com mais ardor do que eu. Ele até “delfinhou”, escuta mais o Delfim Netto, meu companheiro de 47 anos, do que o PT. Enfim, tudo aquilo que eu pregava, o Lula engatou a quarta, botou 8 mil rotações e está andando a300 quilômetrospor hora. Hoje ele está à minha direita, o Lula é mais malufista que eu.

– Mas seus eleitores, adversários históricos de Lula e do PT, estão aceitando sua aliança com o governo?

– Eles precisam entender que não tem terceiro turno. O Lula ganhou no segundo turno e acabou. Tenho 13 netos. Aqui dentro do meu coração, se eu puder ajudar o governo a acertar, não estarei ajudando o Lula, mas meus netos e os milhões de netos que estão aí. Mas naquilo que ele estiver errado, ele pode ter a convicção de que não me dobra.

– Como o Sr. avalia o Brasil na Era Lula?

– O Brasil de hoje está melhor do que o de seis anos atrás, por isso eu o tenho elogiado. Mas não está melhor que a China ou a Índia de seis anos atrás. O Brasil progrediu, mas minha angústia é que a velocidade do crescimento brasileiro não vai fazer o Brasil chegar aonde nós gostaríamos. Há 20 anos éramos a oitava potência industrial do mundo. Hoje somos 14ª. Então nós crescemos como rabo de cavalo, para baixo. Fomos passados por vários paises e estamos em vias de ser passados pelo México.

– Mas agora há a promessa de um segundo mandato melhor com o Plano de Aceleração do Crescimento.

– O PAC vai dar certo, mas é muito tímido. Ele se propôs a crescer 4,5% ao ano. Vai conseguir, mas isso me entristece. A minha proposta, quando eu fui candidato a presidente da República, era crescer 9% ao ano. Se o Lula prosseguisse com as reformas, como a da Previdência, se reduzisse os gastos públicos, chegaria a 7%. Mas ninguém quer fazer os sacrifícios, nem Executivo, nem o Legislativo, nem o Judiciário. Todos acham que o Brasil é um grande presunto: cada um quer tirar uma fatia. Talvez agora, com essa crise internacional que se avizinha, o governo mude de idéia.

– No seu discurso de estréia na Câmara, o Sr. pregou a estatização do Banco Central. O que isso significa?

– Você tem que fazer um governo para o povo ou para algumas instituições do povo. Mas aí vieram dois governos de esquerda, o FHC e o Lula, que defenderam os banqueiros com tanto fervor com, que agora me sinto comunista. O Banco Central do Henrique Meirelles faria até o saudoso Roberto Campos se envergonhar. Ninguém é contra um banqueiro. Certa vez eu era o tradutor de uma conversa entre o David Rockfeler, presidente do Chase-Manhattan Bank, e o Amador Aguiar, do Bradesco. E o Rockefeler, que tinha o segundo maior banco do mundo, disse: “Amador, estou com ciúmes de você quando vejo seus balanços”. Porque nos Estados Unidos você aplica um dinheiro a 5% ao ano e o banco te empresta a 8% para você comprar uma casa. Então o spread é 3 pontos. Aqui você põe no banco a 12% e no cartão de crédito ele te cobra 200%. Um banco lá fora, para ter um lucro de US$ 3 bilhões, como têm o Itaú e o Bradesco, precisa ser 20 vezes maior. Lembro que o saudoso Roberto Campos nunca defendeu banqueiros.

 — O que Lula tem de tão especial?

– Ele é persistente. Um dia eu me encontrei com o Lula no Aeroporto de Congonhas. Todo mundo que passava olhava nós dois às gargalhadas. O Lula disse o seguinte: “Eu já falei para o PT: tenho 30% e eles têm que me arrumar os outros 20%”. E foi aí que ele acertou e organizou a campanha vitoriosa de 2002.

– O Lula, quando falava de malufar, sempre dava uma conotação de corrupção e de clientelismo. Depois de tantos escândalos no governo e no PT, como o do mensalão, o Sr. se sente vingado?

– O Delfim fala com muito gosto que eles fizeram tudo aquilo que pensavam que nós fazíamos. Eles nos acusavam de tudo. Repare nessa história do mensalão. Quando fui prefeito de São Paulo, dos 55 vereadores eu tinha 28. Com a maior dificuldade eu tinha a metade mais meio. Já a dona Marta Suplicy chegou a ser 40 vereadores, 70% da Câmara. Quais encantos ela usou para isso? Não tenho nenhuma dúvida que ela tinha encantos, entre aspas, pois preciso tomar cuidado porque alguém pode pensar que seja encantos femininos. Não, ela tinha encantos administrativos, financeiros e econômicos, entre aspas.

O Sr. está acusando Marta Suplicy de ter corrompido vereadores?

– Não tenho provas, mas alguns vereadores do meu partido saíram para formar a base de apoio do PT. Sempre me pergunto quais são os encantos outros que a Marta tem, a não ser a oferta de cargos e de empregos para parentes. Quando fui governador, tinha a metade da Assembléia. Eram 79 deputados e eu tinha exatamente 40. Era uma briga cada vez que precisava aprovar um projeto de lei. O Mário Covas apareceu, apareceu o Geraldo Alckmin, agora o José Serra. São 94 deputados, eles têm 70 na base de apoio. Eu não sei qual é o encanto deles. Só pode ser a explicação antológica do Delfim, que eles fazem tudo aquilo que eles pensavam que nós fazíamos.

– O Sr. enriqueceu com a política?

– Me apontem um segundo político do Brasil, além de Paulo Maluf, que mora na mesma casa há 42 anos. Estou mo mesmo partido há 40 anos. Estou casado há 52 anos com a mesma mulher. E também sempre tive estabilidade financeira. Se vocês pegarem a minha história vão concluir isso, ou a história do meu avô, Miguel Stéfano, que fez a primeira usina hidrelétrica no interior, em 1902. Ele tinha 300 alqueires na Praia da Enseada, a avenida Miguel Stefano, onde nós temos um pedaço, que herdamos. Quando entrei na vida pública, a empresa da minha família, a Eucatex, já existia. Mas se vocês pegarem minha declaração de bens hoje e a de 40 anos atrás, vão descobrir que tenho a metade do que tinha.

– Quer dizer que o Sr. ficou mais pobre?

— Não, fiquei menos rico. Continuo, graças a Deus, com independência financeira. Se amanhã, vamos supor, eu quisesse comprar um apartamentoem Nova York, eu faço um cheque em dois minutos e compro um bom apartamento lá. Agora, quando perguntam se tenho apartamentoem Nova York, eu digo que tenho 10 mil. São 10 mil quartos que estão à disposição, é só você telefonar e reservar. Você tem que facilitar a vida. Para mim é simples: se eu quiser passar uns dias em Paris, pego um apartamento por uma semana no Plaza Atenée.

– O Sr. foi acusado de movimentar US$ 446 milhões no exterior.

– Se inventasse um antibiótico para curar a burrice de algumas pessoas, esse antibiótico ia ter muito mercado. Se o Banco Central amanhã comprar no mercado US$ 446 milhões, o Banco Central arrebenta com o mercado. Agora, o Paulo Maluf, para certas autoridades, é mais forte que o Banco Central, consegue transferir US$ 446 milhões em um dia. Isso é uma coisa inimaginável. Se disserem que você levanta um peso de 10 quilos, está certo. Se você põe nas suas costas um saco de 60 quilos, bom. Agora, dizer que o Maluf colocou 8 toneladas nas costas, você tem que duvidar da credibilidade e da má fé de quem disse. Isso é uma coisa absurda. Aquele processo foi arquivado e nenhum jornal deu. Agora, durante cinco anos deram notícias sobre a suposta conta na Suíça do Maluf. Quando a Justiça Federal arquiva o processo, primeiro porque a conta não existia, é lógico que não é mais notícia.

– O Sr. está dizendo que a conta na Suíça não existe?

– Não existe. O processo está arquivado na Segunda Vara, no dia 18 de dezembro de 2006. E mesmo que existisse, na cooperação entre países, você só pode ser processado por cooperação judicial num país se aquilo que você cometeu for crime no outro. E no outro país, na Suíça, tráfico de drogas é crime, venda de armas é crime, assassinato é crime. Mas se você é acusado de não ter pago o imposto de renda no país de origem, isso é um problema das autoridades brasileiras. Portanto, se a conta existisse, o processo não poderia ter curso. O processo foi feito fraudulento, de má fé, pelo Ministério Público Federal. Má fé. Estou preparando um projeto de lei de responsabilidade civil. Se membro do Ministério Público fizer uma acusação sem base jurídica, quando ele perder a ação, ele tem que pagar o advogado da outra parte. Vocês acham justo que eu durante 36 anos fui acusado de improbidade administrativa porque no tricampeonato do México dei um fusquinha para o Pelé, para o Tostão, para o Rivelino. Prometi os carros mediante lei, aprovada pela Câmara dos Vereadores de São Paulo. Se eles ganhassem o tricampeonato, ganhavam um fusquinha. A Itália prometeu uma Ferrari, eu só dei um fusquinha 1.300. Aí fiquei 33 anos me defendendo, até ganhar no Supremo. O sujeito que moveu a ação teve sua notoriedade, virou herói, e eu tive que pagar os advogados.

 — E a conta nas Ilhas Jersey?

– Não tem conta, e se tiver não é minha. Tem gente lá que depositou, mas não fui eu. É pura fantasia.

– E a sua prisão?

– Por que eu fui preso? Disseram que eu estava coagindo uma testemunha. Agora, eu pergunto: um doleiro que tem contaem Nova York, com o número, nome e saldo da conta, foi pego com a boca na botija, é testemunha ou é criminoso? Segundo, está lá no processo, o doleiro procurou nossos advogados, um mês antes da prisão, pedindo US$ 5 milhões para não fazer a delação premiada. Como nós não pagamos, então ele foi do lado de lá. Para ele se safar do dinheiro que ele tinha lá, apreendido, ele fez a delação premiada. E a prova está aí, até hoje não pediram o bloqueio do dinheiro dele e nem o repatriamento do dinheiro dele. Ele só serviu de Manoel Silvério dos Reis, de traidor, de vigarista, para delatar, ao sabor dos promotores públicos, o Paulo Maluf que eles queriam pegar. Tanto é, que eu fico no episódio no capítulo final da novela. O Supremo Tribunal Federal disse, por maioria absoluta, disse que o processo não tinha base jurídica e minha prisão foi ilegal.

– Como o Sr. reagiu à prisão?

– Ora, eu não tava ameaçando ninguém, moro na mesma casa há 43 anos. E tem mais, quando vieram os rumores de que eu poderia ser preso, os meus advogados me aconselharam: “Vai lá e entrega oficialmente o passaporte para provar que você não vai fugir do país”. E assim foi feito. Então um dia o Fausto Macedo, do Estadão, me telefonou, disse que eu seria preso e queria saber como eu reagiria. Eu estava em Campos do Jordão, peguei meu carro e fui para a Polícia Federalem São Paulo. Edisse: “Tô aqui”. O delegado, Protógenes Queiroz, disse: “O que o senhor veio fazer?”. Eu disse: “Não sei, tão dizendo aí que eu vou ser preso”. Ele disse: “Mas eu não recebi o mandato de prisão. O senhor pode ir embora para casa”. Aí eu percebi a grande sacanagem, desculpe o termo. Ele já conhecia a peça do processo e queria que eu fosse para casa para que no dia seguinte ele me trazer algemado. Então eu pedi que me trouxessem um colchonete e dormi no chão da polícia, no corredor. Eles queriam me algemar, não queriam me prender, queriam me humilhar diante das câmeras de tevê. Eu, Paulo Maluf, que quase fui presidente da República, não sendo preso, mas sendo humilhado politicamente. Como não conseguiram fazer comigo, fizeram com meu filho Flávio.

 – Como foi o encontraram?

– Quando eu estava com o delegado Protógenes, isso era uma meia noite, ainda acrescentei: “Meu filho está na fazenda e já se considera preso. Ele vem de helicóptero amanhã para cá, para o heliporto da PF, pois não vai voar noturno”. No dia seguinte, ele estava saindo às 6 horas da manhã da fazenda quando chegaram aí três agentes armados. Eles aproveitaram a informação que eu dera e armaram para cima dele, já que não poderiam mais me humilhar. Foi uma covardia. Ele foi para São Paulo e ainda deu carona a três agentes armados. Quis descer no heliporto da PF mas mandaram ir para o heliporto do Morumbi. Era lá que lá estava armado o circo. Tinha 40 viaturas e policiais com metralhadora para prender um jovem que estava se entregando. Então chamaram uma emissora de tevê para filmar botando algema nele. Foi nesse momento que ele chorou. Sempre perseguiram políticos, mas eu nunca vi perseguirem o filho de um político.

– Que lições o Sr. tirou dessa experiência, um pai preso com o filho?

– Sou pragmático, sou forte internamente, não me entrego não. Na história do Brasil, lembra quantos presidentes foram presos? Washington Luiz, o Adhemar de Barros, Jânio Quadros, Juscelino, o Getúlio se suicidou para não ser preso, e quem mais? Ora, o Lula. Ele passou 30 dias na prisão. Se lembra quem era o carcereiro? O Romeu Tuma. E até o Lula conta para todo mundo que foi muito bem tratado. À noite, acho que eles até se regozijavam, tomavam umas e outras, não é? Mas enfim, vendo tudo isso, eu sabia que um dia isso ia acontecer comigo. “Nós queremos botar algema no Maluf”.

– Nesses 40 dias, o passava pela sua cabeça?

– Eu recebia muitos livros, lia quatro horas por dia, e uma vez por semana podia receber os amigos. Mas eu sabia que logo iria sair de lá. Dentro da carceragem, fui tratado com todo o respeito pelos outros que estavam lá. Quando eu fui para lá, era permitido toda noite, no telefone fixo, você dar um telefonema de três minutos. E todo mundo falava com a família. Depois que eu fui para lá, até isso foi proibido, fiquei incomunicável. Uma juíza cortou meus telefonemas porque um dia eu reclamei numa entrevista a uma rádio que me serviam era cru, tão ruim que não teria coragem nem de dar a meus cachorros.

 – A sua eleição com 739 mil votos, o Sr. a encara como uma anistia ou uma absolvição?

– Como uma resposta do povo.

– Como o Sr. avalia as novas lideranças políticas? Quem tem hoje mais chance de suceder Lula?

– Quem está se sobressaindo hoje com seriedade, como uma boa administradora, é a Dilma Rousseff, que é a candidata de Lula. Não a conheço, nunca trocamos uma palavra, mas um respeito muito grande por sua biografia.

– Qual foi o maior erro da sua vida?

– Na a visão de muitos, o Celso Pitta. Para mim, quem errou foi ele. Eu acertei ao escolhê-lo, era um bom economista e tinha a oportunidade de histórica. Mas ele comprometeu de uma certa maneira, a imagem da raça, e quem diz isso não sou eu, é o Agnaldo Timóteo, que é negro.

– O Sr. tinha um grande sonho, ser presidente da República. Como é que se sente não tendo mais chances de realizá-lo?

– Não é que eu desisti, eu sou realista. O tamanho da vida é que desistiu dele. Estou com 76 anos. Um presidente tem que ter entre 50 e 60 anos.

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