Dicionário do Lulismo –ou a retórica de um messias em mutação

O presidente construiu uma obra monumental de 1.151 discursos que falam muito dos pobres e abusam das promessas sobre um futuro melhor. Depois de passar o primeiro mandato usando verbetes como “paciência” e provérbios como “o apressado come cru”, Lula mudou de retórica. Já repetiu 137 vezes que o País tem pressa e que chegou a hora de acelerar o crescimento

por Hugo Studart

Cada presidente marcou sua passagem pelo poder com um estilo próprio de mobilizar a sociedade para os projetos nacionais. Getúlio Vargas, por exemplo, foi o primeiro a tentar a comunicação direta com o povo. Sempre que falava, tinha algo de importante a dizer. O País costumava parar a fim de ouvi-lo. Juscelino Kubistchek falava muito pouco, mas vivia colando sua imagem a obras e fábricas. Quando abria a boca em público, marcava o compasso com textos líricos, bem preparados, instigando o País a criar um futuro melhor. Fernando Henrique foi mais eloqüente. Falava em média duas vezes por semana, em tom professoral, quase solene. Estendia-se em longos improvisos quando tinha resultados concretos a festejar e, dizia-se até, tentava levar o País no gogó. Nenhum deles, contudo, supera Luiz Inácio Lula da Silva. Em anos de mandato, Lula construiu uma obra monumental de nada menos que 1.151 discursos –contra 750 de FHC, em oito anos. Lula falou em média de 5,5 vezes por semana. Impressos, seus discursos e entrevistas ultrapassam 7.500 páginas de papel ofício. Original na forma, o presidente tem um estilo emotivo de dizer o que pensa, repleto de metáforas e parábolas, sem paralelos entre os 48 mandatários brasileiros. Mas ele inovou também no conteúdo. Sua obra discursiva revela uma retórica que promete muito sobre economia e abusa dos acenos sobre um futuro melhor. Neste momento, seu tema predileto é acenar com o crescimento econômico. O que mais chama a atenção é que Lula tem declinado promessas genéricas com quatro vezes mais intensidade do que tem conjugado verbos como “decidir”, “resolver” e “fazer”.

Desde que virou presidente, há quatro anos, Lula vem tocando essencialmente em três assuntos. Seu predileto, que acabou criando uma imagem positiva de seu governo no exterior, é o combate à fome. Até a semana passada, Lula já havia prometido 2.036 vezes reduzir a miséria e colocar comida no prato do povo –quase dez vezes por semana. Outro tema sempre presente em seu dicionário é a geração de empregos. Lula já prometeu mais trabalho em 444 ocasiões. Está igualmente com a língua sempre pronta para prometer crescimento econômico, investimentos e obras. Só a palavra desenvolvimento, sua predileta, já foi repetida em publico 798 vezes. No total, o presidente já prometeu um País melhor, com mais crescimento, investimento e emprego, 2.105 vezes –significa duas promessas para cada dia de trabalho. “Eu tenho certeza de que nós teremos quatro anos de muito otimismo neste País, de muito crescimento”, repetiu Lula em seu discurso de posse. Analisando-se os discursos, por períodos, é possível descobrir qual o rumo que o presidente quer dar ao País em cada fase de seu governo. Ele prometia crescimento com mais intensidade nos nove primeiros meses do primeiro mandato. Depois passou três anos abusando de provérbios como “apressado come cru” e que “não se deve dar cavalo-de-pau em transatlântico”. Lula pediu aos eleitores que tenham paciência e aos ministros que tenham cautela em 161 discursos. E repetiu 202 vezes que o governo não se deve ter pressa em apresentar resultados. Conseqüência: seu primeiro governo foi quase parado, com nenhuma obra à altura da retórica presidencial.

Mas há boas novas nos discursos mais recentes. Desde que substituiu Antônio Palocci por Guido Mantega no comando da economia, em março, e ato contínuo entrou em campanha eleitoral, em junho, Lula deu cavalo-de-pau em sua retórica. Os chavões da paciência foram pronunciados somente 19 vezes. Em compensação, nesse curto período, já martelou 137 vezes que chegou a hora de acelerar o crescimento e de destravar a economia. O “povo” continua sendo seu verbete predileto. Nesse período, se referiu ao povo 104 vezes, outras 81 aos pobres, prometeu reduzir a miséria 17 vezes e outras 17 assegurou que vai melhorar o Bolsa Família. Há outras indicações. Há quatro anos ele vem se comparando a uma mãe. No dia da posse, em seu discurso de improviso no Parlatório, anunciou que continuará fazendo o que faz uma mãe: “Eu cuidarei primeiro daqueles mais necessitados, daqueles mais fragilizados, daqueles que mais precisam do Estado brasileiro”. “Os pronunciamentos presidenciais sempre foram momentos solenes de comunicação com o povo, mas Lula está conseguindo banalizar esse instrumento”, critica o cientista político Antônio Lavareda, que por oito anos foi o analista das pesquisas de popularidade de FHC. “Os discursos de Lula têm sido extremamente eficazes para se estabelecer uma comunicação direta com o povo”, diz o professor Flávio Aguiar, da USP, especialista em análise do discurso. “Cada vez que ele fala, consegue criar uma enorme aura de sinceridade”, acrescenta.

Lula tem a seu dispor cinco pessoas só para escrever seus discursos, mas preferiu falar de improviso em 85% das vezes. Geralmente só lê discursos formais em grandes solenidades, como sua posse, ou nas viagens internacionais, quando o texto precisa ser traduzido com antecedência e exatidão. Nessas horas, o texto final é do ministro Luiz Dulci, secretário-geral da Presidência, ou do jornalista Carlos Tibúrcio, seu ghost writer há uma década. Foi Dulci quem construiu o discurso da posse no primeiro e no segundo mandato –desta vez, com a ajuda do assessor internacional Marco Aurélio Garcia e do marqueteiro João Santana. Mas nenhum desses discursos consegue ser tão criativo quanto os improvisos do presidente. No início do governo, quando o presidente já demonstrava o ímpeto pelo improviso, sua assessoria mandou fazer uma pesquisa sobre o assunto. Festejou quando descobriu que Lula vinha se comunicando direto com as classes C, D e E, sem a intermediação da imprensa. E que o povão entende seus discursos e memoriza suas idéias muito mais do que na época do professor FHC. Há muito que Lula já ultrapassou seus antecessores em eloquência. O problema é que, até agora, sua monumental obra discursiva é que é feita muito mais de promessas do que de realizações. A boa nova é que, agora, Lula vem prometendo fazer mais.

Esta entrada foi publicada em Personagens e marcada com a tag , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *