Devolvam os corpos dos desaparecidos

Corpo de Maria Lúcia Petit

Estamos diante de um paradoxo histórico e político. Há brasileiros deixados para trás e só os militares sabem onde estão. Mas resgatá-los é algo complexo. Exige o engajamento dos comandantes das Forças Armadas, para convencerem suas tropas a revelar onde deixaram os corpos. Ocorre que essa operação exige como contrapartida que os grupos de Direitos Humanos também “embainhem” suas “armas”, desmobilizem a campanha em curso de julgar militares por crimes de tortura (Artigo originalmente publicado pelo Jornal O Estado de S.Paulo, pág. 2, Opinião) 

 Por Hugo Studart

Já lá se vão quase 30 anos que familiares dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia entraram com um processo na Justiça exigindo que o Estado informe o destino dos guerrilheiros. O caso deve ser decidido em novembro pelo Superior Tribunal de Justiça. Querem, essencialmente, que as Forças Armadas abram os arquivos secretos da ditadura para que se descubra onde estão os corpos. São  78 desaparecidos conhecidos – 57 guerrilheiros, 20 camponeses e um soldado. Onde estão os cadáveres? As famílias têm direito aos restos mortais. Querem enterrá-los com dignidade, de acordo com seus credos, ritos fúnebres, ajoelhar em contrição, acalentar suas memórias, desejam enfim prestar honras a seus guerreiros

Ora, o direito ao sepultamento digno dos mortos está impregnado no imaginário ocidental, herança de nossa raiz cultural helênica. A mitologia está pontilhada de passagens em que se condena a profanação dos corpos. Historicamente, em pleno século de ouro da Grécia, o general Alcibíades, homem forjado em rígidos valores morais pelo próprio Sócrates, foi julgado e condenado à morte por ter abandonado insepultos os corpos de um punhado de soldados na Sicília. Para eles era uma profanação ultrajante que exigia o castigo máximo.

Há brasileiros deixados para trás e só os militares sabem onde estão. Mas resgatá-los é algo complexo. Exige o engajamento dos comandantes das Forças Armadas, para convencerem suas tropas a revelar onde deixaram os corpos. Ocorre que essa operação exige como contrapartida que os grupos de Direitos Humanos também “embainhem” suas “armas”, desmobilizem a campanha em curso de julgar militares por crimes de tortura. Estamos diante de um paradoxo. Se algum militar que combateu no Araguaia apontar onde enterrou um guerrilheiro, estará automaticamente confessando um ato criminoso. Imprescritível, inafiançável, passível de julgamento pela Corte Internacional de Haia, como quer o atual ministro da Justiça Tarso Genro.

Dias atrás apareceu uma seqüência de fotografias do corpo de dois guerrilheiros. As fotos foram sacadas em setembro de 1972. Um ex-combatente, o sargento Ciro Oliveira, hoje reformado, guardou-as na gaveta por 38 anos. Revelou-as só agora. Um dos guerrilheiros guardava um diário. Foi identificado na hora como sendo o médico e guerrilheiro João Carlos Haas Sobrinho. Do outro, o sargento jamais soube o nome. Numa das imagens, um helicóptero militar leva os dois corpos. O que essas fotos têm de relevantes? Ora, são mais uma prova cabal de que militares, a serviço do Estado, desapareceram com brasileiros. Na Grécia Antiga, o general Alcibíades foi condenado à morte por muito menos.

Até hoje nenhuma autoridade dos governos democráticos pós-1985 quis saber a opinião das famílias dos desaparecidos do Araguaia — sendo 57 guerrilheiros, cerca de 20 camponeses e um soldado, registre-se mais uma vez. Elas querem julgar militares por crimes contra a Humanidade? Ou preferem enterrar seus mortos? Os militares, por sua vez, preferem o fim da guerra e entregar os despojos dos guerreiros inimigos ou permanecer na penumbra da lei da selva?

Os militares cometeram, sim, atos de exceção. Submeteram camponeses a tratos violentos, torturaram guerrilheiros, executaram prisioneiros, vilipendiaram cadáveres, deixaram corpos insepultos, como o de Lúcia Maria de Souza. Cerca de 30 guerrilheiros morreram em combate, como guerreiros. Contudo, outros 25, aproximadamente, foram presos e depois executados. Entre cinco e sete deles foram decapitados, como Jaime Petit e Arildo Valadão. As violações de direitos foram recíprocas.

O primeiro cadáver deixado insepulto foi o de um soldado, o cabo Odilo Rosa. O comandante guerrilheiro Osvaldo Orlando Costa queria expô-lo insepulto como troféu da revolução. O primeiro civil executado pelos guerrilheiros foi um camponês, o adolescente João Pereira, 17 anos. Seu pai foi visitado por uma equipe de agrônomos do INCRA perguntando pelos “paulistas”, como eram chamados os guerrilheiros. O garoto recebeu ordens do pai para servir de guia. O chefe dos “agrônomos” era o major Lício Maciel, cuja equipe prendeu José Genoíno e matou outros 12. Deflagrada a guerrilha, o garoto João Pereira foi julgado como “traidor do povo” pelo Tribunal Revolucionário e mutilado, na frente da família, a golpes de facão – primeiro cortaram-lhe as orelhas, depois as mãos, os pés, as pernas… Outros quatro também foram executados pelo Tribunal Revolucionário, sendo três camponeses e um guerrilheiro, acusados de colaboração e traição.

No início, em 1972, os militares combateram segundo as leis da guerra. Quem morreu tombou lutando, quem foi preso está vivo. As fotografias de Haas Sobrinho são dessa fase. Mas quando entraram na selva para a Terceira Campanha, em fins de 1973, com ordens do presidente Emílio Médici de não fazer prisioneiros, a barbárie se generalizou. Nenhum prisioneiro retornou. Nem como cadáver.  As Forças Armadas deixaram o Araguaia em fins de 1974.

É possível resgatar muitos corpos. Há uma década venho pesquisando a guerrilha junto aos próprios militares. Eles me informaram que cerca de 25 estão enterrados nos cemitérios de Xambioá e Marabá. Os demais foram deixados na mata. Mas o local dessas sepulturas jamais foi registrado nos arquivos. Será preciso recorrer àqueles que participaram das missões. Em 1975 o Exército voltou ao Araguaia para a chamada “Operação Limpeza”. Entre 12 e 15 corpos foram exumados e cremados, entre eles o de Osvaldão.

Ainda haveria uma dúzia de corpos nos cemitérios da região, na ala dos indigentes. O corpo do guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza estaria num barranco de rio no sítio de João do Buraco, camponês conhecido na região. Sem cabeça. Há um corpo na cabeceira da pista de pouso de Marabá. E três corpos numa área de treinamento militarem Brasília. Hátrês desaparecidos que mudaram de lado e estão vivos, sob nova identidade.

É muito difícil que algum militar se ofereça à imolação pública promovida pelas entidades de Direitos Humanos revelando o que sabe sobre os corpos. Cabe ao governo perguntar seriamente às famílias dos guerrilheiros mortos o que preferem: julgar os militares pelos crimes bárbaros que cometeram? Ou patrocinar uma conciliação histórica que comece revelando os erros dos dois bandos naquela guerra suja. Uma anistia recíproca que começaria com a indenização das famílias do cabo Rosa e de cinco outros soldados abatidos em combate; do garoto João Pereira e dos demais camponeses esquecidos; e que termine na localização e devolução de todos os cadáveres.

A professora Sônia Haas, irmã de João Carlos, se confessa num “dilema complexo”. Seu coração prefere encerrar a história do irmão “com a dignidade que ele merece”. E para ela e sua família, forjada no catolicismo, digno é dar a João Carlos um ritual de despedida e uma sepultura. “Mas a razão pede mais, exige que os culpados sejam julgados”, acrescenta Sônia. “Meu dilema é bastante complexo, pois quero alcançar as duas coisas”. Eis uma encruzilhada da História.

Defendo o direito sagrado e inalienável das famílias de se ajoelhar diante do túmulo de seus guerreiros. Não há mortos de esquerda ou de direita para as famílias dos guerrilheiros e dos militares mortos em combate. Há mortos, há cadáveres, tem que haver paz. A sociedade brasileira não pode ficar refém ad eternum de uma guerra que ela não quis, não quer e não vai querer que continue manchando a história nacional.

Esta entrada foi publicada em Artigos, Direitos Humanos, História e marcada com a tag , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *