Concluam os próprios senhores se Palocci é um homem probo

 

Antonio Palocci ensaia tomar o lugar de Dilma Roussef como candidata do PT à sucessão de Lula. Ou, o que é mais provável, ser o candidato do partido ao governo de São Paulo. O jornal Valor Econômico desta segunda-feira 12 de janeiro publica na primeira página matéria sobre os planos políticos de Palocci. Trata-se de um balão de ensaio, naturalmente. Ocorre que tem telefone no meio do caminho – com provas de que ele teria usado o Ministério da Fazenda para montar (ou facilitar) um esquema de tráfico de influência no governo, a chamada “República de Ribeirão Preto”, ou mesmo mantido contato insistente com a cafetina Jeane Mary Corner, lembram-se dela? Trata-se do número 8111-7197, de Brasília, usado por Palocci quando era ministro da Fazenda.

O sigilo desse número foi quebrado há dois anos. Todos os detalhes estão no processo em poder do presidente do Supremo, Gilmar Ferreira Mendes, no qual Palocci é acusado de mandar quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa. O caseiro, vale à pena recordar, trabalhava na mansão no Lago Sul, em Brasília, onde os amigos de Palocci usavam como escritório de lobby e garçonière para orgias. Francenildo viu Palocci várias vezes na mansão. Para tentar desmoralizá-lo, um assessor de Palocci conseguiu quebrar o sigilo bancário do caseiro. Palocci acredita que, depois de absolvido pelo Supremo, ficará livre para tentar ser candidato a presidente. Ou a governador.

Seu maior desafio é conseguir dar um jeito do ministro Gilmar não considerar as provas contidas na quebra do sigilo telefônico. São exatamente 53.385 ligações feitas ou recebidas. Dentre as já identificadas, há 16 chamadas para um número em nome de José Dirceu, 13 para Paulo Bernardo e 7 Armínio Fraga. Há ligações pessoais, como 155 para um número em nome da Sra. Margareth Palocci, sua esposa, e outras 16 para a Sra. Jeane Mary Corner.

O problema principal de Palocci é explicar as chamadas para os principais personagens envolvidos em uma série de casos de possível corrupção relacionados ao ex-ministro.

–    Há 1.748 ligações entre Vladimir Poleto, suspeito de montar, junto com os irmãos Ralf e Ruy Barquete, um esquema de lobby em Brasilia para renovar o contrato da Loteria da Caixa Econômica Federal com a multinacional GTech. Poleto também teria transportado 3 milhões de dólares cubanos para o PT. Palocci negouem depoimento à CPI dos Bingos que conheça Poleto.

–    Há 1.196 ligações entre Ralf Barquete. Quando prefeito de Ribeirão Preto, Palocci receberia uma propina mensal de R$ 50 mil mensais da empreiteira Leão Leão. O intermediário do esquema seria o ex-assessor Ralf Barquete.

–    Há 935 ligações entre Ruy Barquete. Ele, seu irmão de Ralf e Poleto são suspeitos de ter montado um esquema de lobby para renovar o contrato de loteria da CEF com a GTech.

–    Há 220 ligações para Marcelo Franzini, ex-sócio da Leão Leão e suposto doador do mensalinho de R$ 50 mil. Além de outras 34 ligações para a Leão Leão.

–    Há 118 ligações entre Roberto Carlos Kurzweil, que teria apresentado Palocci a dois bingueiros angolanos, que doaram R$ 1 milhão à campanha presidencial de Lula em 2002, sob a promessa de liberar os jogos no Brasil.

–    Há 101 ligações entre o lobista Carlos Eduardo Valente, lobista carioca, que juntocom José Roberto Colnaghi (abaixo) tentou comprar o banco de investimentos Prosper, especializado em negócios com a Petrobrás.

–    Há 61 ligações com José Roberto Colnaghi e outras 94 ligações para duas de suas principais empresas: Asperbras e Sistema de Irrigação e Soft Micro Educacional. Colnaghi, além de ter tentado comprar um banco na Era Palocci, teria emprestado a Palocci o jatinho que foi buscar dinheiro em Cuba.

–    Há 34 ligações da Leão Leão para o número.

–    Há 13 ligações entre o número e o ministro Paulo Bernardo.

–    Há 16 ligações entre José Dirceu.

–    Há 7 ligações entre Armínio Fraga.

– Há 8 ligações de Renato Cabral Catita, dono da empresa que venceu a licitação para fornecer molho de tomate peneirado com ervilha para a merenda escolar da Prefeitura de Ribeirão Preto. O então prefeito Palocci é suspeito de ter promovido uma licitação fraudulenta.

–    O Serpro ligou 5.893 vezes para o número de Palocci. Serpro é a Estatal presta serviços para a Receita Federal. No período das ligações, o presidente da Estatal era Wagner Quirici, um dos melhores amigos de Palocci e apontado como um de seus operadores em assuntos pessoais.

Em sua defesa, Palocci já explicou que o telefone 8111-7197 ficava com seu chefe de gabinete, Ademirson Ariovaldo da Silva. É verdade, ficava mesmo. Mas quem usava o telefone era Antonio Palocci. O assessor apenas atendia as ligações. Não há, por exemplo, nenhuma ligação identificada para a Sra. Ademirson; mas há 155 ligações para a Sra. Margareth Palocci. Se o número era de Ademirson, sobre o que ele tanto falava com a esposa do chefe? E o que personagens como José Dirceu, Paulo Bernardo e Armínio Fraga tinham a tratar com Ademirson?

Resta a dúvida sobre como o sigilo de Palocci foi quebrado. Foi entre fevereiro e março de 2007, quando a CPI dos Bingos investigava as histórias suspeitas do então ministro. Conseguiram quebrar o sigilo, mas o caseiro Francenildo apareceu antes que as 53 mil ligações fossem analisadas pela equipe de assessores do então relator da CPI, senador Garibaldi Alves, hoje presidente do Congresso. A quebra do sigilo do caseiro foi a gota d’água, mas vale lembrar que Palocci era investigado por supostos casos de corrupção em Ribeirão Preto, na campanha eleitoral e também no Ministério da Fazenda. A CPI dos Bingos fechou seus trabalhos naqueles dias e o relator Garibaldi preferiu deixar o sigilo telefônico de Palocci de fora. Não precisava mais derrubar Palocci.

De qualquer forma, todo o material original da CPI foi enviado ao Procurador Geral da República, AntônioFernando de Souza, que o anexou ao processo sigiloso contra Palocci que corre no Supremo.

Nesses quase três anos, Palocci tem se virado para ser inocentado. Primeiro, conseguiu que seu principal acusador, o ex-assessor Rogério Buratti, milagrosamente procurasse o Ministério Público para desmentir todas as acusações. Vale lembrar que Buratti se voltou contra Palocci quando se apaixonou perdidamente por uma das garotas de programa que freqüentavam as orgias promovidas por Jeane Mary Corner na mansão da República de Ribeirão Preto em Brasília. Antes de pertencer a Buratti, a garota teria sido de Palocci.

Neste momento, os advogados de Palocci se esforçam para convencer os ministros do Supremo a acharem que não haveria qualquer prova material contra o ex-ministro no caso da quebra do sigilo do caseiro. Ou seja, o culpado seria o jornalistaMarcelo Neto, então assessor de imprensa da Fazenda. Ele teria tomado a decisão, sem consultar o chefe, de mandar a Receita Federal e a Caixa Econômica Federal quebrar ilegalmente o sigilo de um cidadão. Palocci pode até ter sido o beneficiário do ato. Mas não saberia de nada. Ou melhor, segundo argumentam seus advogados, não haveria nenhuma prova material contundente de que Palocci teria mandadoMarcelo Netocometer um ato ilegal.

Resta então a questão essencial, que por sinal não está sendo julgada nesse processo específico: afinal, Antonio Palocci, deputado federal que agora se apresenta como candidato alternativo à Presidência da República (ou a governador de São Paulo) seria de fato um homem probo?

 A radiografia do telefone número 8111-7197 responde à questão.

Abaixo, uma reportagem exclusiva que escrevi em fins de 2006 sobre o caso, publicada na revista Dinheiro. A reportagem explica em detalhes boa parte dos supostos esquemas montados pela República de Ribeirão Preto. É para ler e guardar:

 

O CERCO A PALOCCI

Rogério Buratti, ex-assessor de Antônio Palocci em Ribeirão Preto, presta depoimento secreto e acusa o ministro de ligações com bingos e de participar do esquema ilegal de arrecadação de recursos para o PT já no governo Lula

Um depoimento prestado no Ministério Público de Ribeirão Preto na segunda-feira 7 torna mais delicada a posição de Antônio Palocci à frente do Ministério da Fazenda. As revelações foram feitas pelo advogado Rogério Buratti, ex-assessor do ministro, na presença de duas testemunhas: Aroldo Costa Filho, o promotor de Ribeirão Preto que investiga as denúncias da época em que Palocci foi prefeito, e um assessor do senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), que é relator da CPI dos Bingos – nessa mesma CPI, Buratti prestou um depoimento apenas morno na quinta-feira 10 e se despediu dos parlamentares com um revelador “até breve”. Buratti sabe que voltará ao palco das CPIs. A razão principal é o fato de ter apontado conexões de Palocci com empresários angolanos de casas de bingos. Além disso, Buratti fez acusações muito mais graves que, se confirmadas, implicarão o ministro Palocci diretamente em esquemas de arrecadação de recursos ilegais para a campanha presidencial do PT em 2002. Além disso, revelarão que Buratti fez intenso tráfico de influência já no período em que Palocci era ministro do governo Lula. E mais: poderão indicar uma ligação da chamada “República de Ribeirão Preto” com o escândalo recente da Visanet, a empresa usada pelo PT para desviar R$ 10 milhões do Banco do Brasil para o caixa dois do PT. Eis o que disse Buratti no depoimento:

  •  Em meados de 2002, o empresário Roberto Carlos Kurzweill, que cede o carro blindado usado por Palocci e Delúbio Soares em São Paulo, teria intermediado a doação de R$ 1 milhão feita por dois donos de bingo angolanos ao PT. O dinheiro teria sido entregue a Delúbio e usado na campanha presidencial de Lula.
  • Entre outubro e novembro de 2002, Palocci teria participado de um encontro no hotel Sofitel em São Paulo com os donos dos bingos, na presença de Valdomiro Diniz, o ex-assessor de José Dirceu que foi flagrado pedindo propina. No encontro, Palocci teria prometido legalizar a atividade.
  • Quando Palocci assumiu o Ministério da Fazenda, Buratti se associou com Rodrigo Cavalieri, dono da MC Consulting, com o objetivo de liberar empréstimos internacionais do Banco Mundial e BID para prefeituras. Esses empréstimos dependiam de autorização da Comissão de Financiamento Externo (Cofiex), um órgão vinculado aos ministérios da Fazenda e do Planejamento. Buratti indicou dois empréstimos a serem devassados. Um deles, o de Goiânia, saiu sem passar pelo Cofiex. Palocci teria entradoem ação. “Essefoi dele”, disse Buratti.
  • Buratti também revelou que Jorge Iazigi, um ex-diretor da Leão Leão, a empreiteira sempre citada nos escândalos de Ribeirão Preto, foi indicado por Palocci para o cargo de vice-presidente da Visanet. Isso mesmo, a mesma Visanet que teria sido usada pelo Banco do Brasil para desviar R$ 10 milhões para o PT.
  • Ele também revelou que tentou entrar em um esquema em Angola de concessões de obras e serviços públicos, como coleta de lixo. Buratti foi a Luanda em 13 agosto de 2003, para tentar um contrato para a Leão Leao, mas não conseguiu. Quem conseguiu, segundo Buratti, foi outro empreiteiro de Ribeirão Preto, José Roberto Colnaghi, o mesmo que teria emprestado o jatinho para transportar os dólares cubanos. De acordo com Buratti, Colnaghi teria conseguido o contrato lá com a ajuda de Palocci.

O depoimento de Buratti ainda não terminou. Começou na segunda-feira 7 e terá novas rodadas nesta semana. Tudo faz parte da delação premiada negociada com os promotores de Ribeirão Preto. Indiciado pelos crimes de fraude em licitações, formação de quadrilha e evasão de divisas, Buratti pretende reduzir sua pena revelando fatos novos. O ponto em que ele mais se deteve diz respeito aos angolanos ArturJosé de OliveiraCaio e José Paulo Teixeira Cruz Figueiredo, o Vadim. São donos de uma mina de diamantes em Angola, têm negócios no México e nos Estados Unidos e mantêm residênciaem Miami. No Brasil, onde estão há oito anos, têm um Gulfstream, um iate de 80 pés ancorado no Iate Clube de Angra, são donos do restaurante Bela Sintra e gostam de ser vistos na companhia de belas modelos. Caio, o mais expansivo, mora numa casa na Praça Morungaba, nos Jardins, que copia a mansão de Scarlet O´Hara, em “E o vento Levou”. Entraram no ramo dos jogos montando a primeira indústria de máquinas caça níqueis do País, Fabama. Depois inauguraram em São Paulo o Bingo Itaim e o Cruzeiro do Sul, perto do Shopping Norte. Venderam o Itaim há um ano para abrir a casa mais luxuosa do Brasil, o Bingo Imperatriz, perto do Aeroporto de Congonhas, só com motivos africanos e empregados negros. Todos os negócios estão em nome de laranjas. A pedido da CPI dos Bingos, desde a terça-feira 8 a Polícia Federal procura os dois angolanos.

Igualmente reveladora é a história que Buratti contou sobre um esquema para a liberação de empréstimos internacionais junto à Cofiex para as prefeituras. Em suas conversas ao telefone, grampeadas com autorização judicial, Buratti falava muito de negócios no governo com um certo Rodrigo. O promotor Aroldo quis saber de quem se tratava. Burati então revelou que era Rodrigo Cavallieri Resende, 31 anos, dono da MC Consulting, com sedeem Belo Horizonte. Elesse conheceram quando Rodrigo prestou consultoria para a Leão Leão, em julho de 2003, quando Buratti era diretor – e acabaram amigos. Ano passado começaram a trabalhar juntos para “acelerar” a liberação dos empréstimos, segundo o verbo usado por Burati. “Mas o Rogério nunca foi meu sócio”, garantiu Rodrigo a DINHEIRO. A MC fechou contratos com os Estados de Sergipe (R$ 700 mil pelo serviço), Ceará (R$ 140 mil) e Distrito Federal (R$ 130 mil). Também fechou com as prefeituras de Belo Horizonte, Recife, Joinville e Betim. Burati tentou convencer o promotor de que ele e Rodrigo não teriam praticado qualquer irregularidade, mas apenas feito lobby legal. Então Burati apontou dois casos que deveriam ser investigados. Um diz respeito um empréstimo de US$ 140 milhões para a prefeitura de Manaus. “Esse é do José Dirceu”, disse Burati. Outro é um empréstimo de R$ … para Goiânia. “Esse é do Palocci”, disse. No governo Lula, a Cofiex já aprovou o aval federal para 169 empréstimos externos. Por coincidência, somente dois foram aprovados sem passar pelo exame (e voto) dos 10 conselheiros da Cofiex: Manaus e Goiânia.

Burati também revelou ao promotor que seria um outro amigo, o Bill, que aparece muito nos grampos telefônicos. Trata-se do executivo Jorge Iazigi, que foi diretor da Leão Leão, e que na reta final da campanha presidencial de 2002 passou a ocupar o cargo de vice-presidente de Relações com o Mercado da Visanet. Nesse posto, Bill era também responsável pelo marketing e pela publicidade da empresa. Foi para ele que o Banco do Brasil, em fevereiro de 2003, passou a ordem de adiantar R$ 35 milhões para que a agência de Marcos Valério – a CPI dos Correios já provou que R$ 10 milhões desse total foram repassados para o PT. Burati contou que em meados de 2004 Bill saiu da Visanet e começou a trabalhar com Rodrigo Cavalieri. Numa das gravaçõesem poder do Ministério Público, Burati propõe a Rodrigo que os dois dividissem um escritório com Bill – uma sala para cada um. “Era só brincadeira”, defende-se Rodrigo. “O Bill estava desempregado e lhe arrumei uma consultoria”. Burati revelou também que Bill fazia parte do grupo de Palocciem Ribeirão Preto. A CPIdos Bingos tem em seus arquivos a agenda eletrônica da secretária pessoal que Palocci dividia com seu antigo chefe de gabinete na Fazenda, Juscelino Dourado. DINHEIRO teve acesso a essa agenda. Jorge Iazigi foi indexado três vezes. Como “Bill”. Como “Jorge Iazigi (Bill), da Leão Leão”. E como “Jorge Iazigi, da Visa”. “Teremos que quebrar os sigilos telefônico, fiscal e bancário de Cavalieri e de Iazigi”, diz o senador Efraim Morais, presidente da CPI.

Existe uma força tarefa sigilosa do Ministério Público de São Paulo, da CPI dos Bingos e da Polícia Federal investigando os possíveis esquemas de corrupção montados durante a passagem de Antônio Palocci pela prefeitura. Há quatro promotores em Ribeirão, trabalhando em duas diferentes equipes. A primeira, chefiada por Aroldo Costa Filho, está investigando o mapa dos esquemas montados na prefeitura. Burati o está ajudando a entender quem é quem –e Aroldo repassa as informações sobre o governo federal para um assessor da confiança do relator da CPI. A outra equipe, chefiada pelo promotor SebastiãoSérgio da Silveira, está preparando os processos formais contra os envolvidos. Na próxima semana, a equipe de Silveira deve pedir a prisão de pelo menos três pessoas próximas ao ministro da Fazenda, acusados de corrupção e formação de quadrilha. Os promotores avaliam que, contra essas pessoas, haveria provas fartas e contundentes. Eles também estão muito próximos de concluir a denúncia contra o ex-prefeito Palocci por improbidade administrativa. (aqui entram os casos). Se isso de fato ocorrer, poderá vir a ser o cerco final à era de Antônio Palocci como czar da economia.

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