Como Sêneca me transformou num cronista

Você já pensou sobre suas próprias frustrações, prezado leitor? E sobre as realizações? Andei pensando muito nas minhas. Procurei consolação no filósofo Sêneca. Resultado: acabo de me tornar um cronista sobre os caminhos do bem.

 

Foi Sêneca quem certa feita escreveu: “A verdadeira grandeza é ter em si a fragilidade de um homem e a segurança de um Deus”. Ando lendo o filósofo romano, um dos ícones do estoicismo. Ando atrás respostas para minhas frustrações. Como boa parte da humanidade, ando atrás de caminhos para meus desejos. Ando atrás de decisões.

Tomei uma hoje pela manhã: vou virar cronista. Na verdade, enquanto redigo estas linhas, vou consumando a metamorfose. Um desejo antigo, mantido por longos anos dentro da gaveta das frustrações interiores, vai se transformandoem matéria. Real, palpável, palatável, visível.

Doravante vou escrever crônicas. Senão todos os dias, pelo menos toda semana. E ato contínuo publicá-las no meu blog para compartilhar com os amigos. Se me convidarem para publicá-las também num jornal ou revista impressos, melhor. Eis, meus caros amigos, um ato de fé – esta fé que move montanhas e materializa desejos.

A ARTE DAS FRUSTRAÇÕES

Lucius Sêneca foi um dos grandes de seu tempo. Nasceu no ano4 AC, teve a sorte louca de viver no apogeu do império romano e de morrer logo no início da sua decadência, quando Nero, um ex-discípulo, tomado de um daqueles ataques de paranóia, decretou sua morte. Serenamente, aos 69 anos, Sêneca cortou as veias dos tornozelos e de trás dos joelhos. Como demorou a morrer, inspirado na morte honrada de Sócrates, pediu cicuta. O pintor Jacques-Louis David imortalizou a cena em uma tela de primeira grandeza, “A Morte de Sêneca”.

Sêneca legou uma obra vasta que trata de temas como sabedoria, amizades, alegrias, felicidade e sobre a índole dos homens. A parte mais interessante do seu pensamento diz respeito às frustrações. Ele é o grande filósofo dos homens frustrados. Era sobre essa parte que eu andava lendo quando decidi iniciar minha fase de cronista.

Sêneca escreveu que as “boas coisas que acompanham a prosperidade são para ser desejadas; mas as boas coisas que acompanham a adversidade são para ser admiradas”. Em seus “Ensaios Civis e Morais”, o filósofo diz que se os milagres se constituem de fato um mando sobre a natureza, aparecem eles com maior freqüência na adversidade.

Durante toda sua vida Sêneca enfrentou ou testemunhou calamidades. Viu Calígula ascender ao trono e depois um próprio discípulo, Nero, enlouquecer no poder. Viu Roma ser devastada pelas chamas e Pompéia por um terremoto. A vida pessoal do filósofo foi também de muitas perdas. Ganhou muito, é claro. Foi senador, teve fama, dinheiro e poder. Comprou terras e vilas, colecionava mesas de cedro com pés de marfim e manteve um cotidiano de muito conforto material, apesar de pregar o estoicismo (tratarei desse aparente paradoxo em outra crônica).

Mas Sêneca também foi tragado pelas intrigas da corte. Chegou a ser exilado na ilha da Córsega, um dos pontos mais inóspitos do império –onde mais tarde nasceria Napoleão. Nos tempos do imperador Cláudio, ele virou joguete nas mãos da imperatriz Messalina, que havia armado um complô para livrar-se da irmã de Calígula, Júlia Livila, acusando-a de adultério. E Sêneca de ser o amante. Repentinamente, Sêneca se viu privado da família, dos bens, dos amigos, da reputação, da carreira política – e enviado para a Córsega.

Ao escrever sobre a vida do pensador romano, Allan de Botton (“Consolações da Filosofia”, Rocco, 2000) revela que Sêneca alternou períodos de autocensura e outros em que era tomado pela amargura. Qual de nós já não experimentou essas sensações diante de uma derrota? Muitas vezes reprovou a si mesmo por não ter interpretado corretamente o momento político.

Por conta das muitas experiências negativas, Sêneca acabou tecendo um vasto repertório de pensamentos sobre as frustrações – e de respostas sábias, serenas e sensatas a elas.

O ponto central de sua obra é a idéia de que suportamos melhor as frustrações para as quais nos preparamos, e que somos atingidos principalmente por aquelas que menos esperamos e não conseguimos compreender. Ou seja, se conseguirmos prever as adversidades que virão, quando elas chegam, parecem menos dolorosas. Se forem inesperadas, a dor da frustração é maior.

Sêneca conhecia um milionário chamado Védio Póllio, amigo do imperador Otávio Augusto, cujo escravo deixou cair uma bandeja com copos de vidro durante uma festa. Védio ficou tão furioso com o som dos vidros se quebrando que mandou matar o escravo, de forma cruel, atirando-o num fosso cheio de lampreias. Com ironia, Botton comenta que “Védio acreditava em um mundo no qual copos não se quebram em festas”, portanto, ficou extremamente frustrado.

A ARTE DAS REALIZAÇÕES

Com sabedoria, Sêneca nos aconselha a encarar de frente os desejos não realizados. E uma vez que encaramos racionalmente as conseqüências de um desejo não realizado, teremos grandes probabilidades de descobrir que os problemas fundamentais são mais modestos que as ansiedades que geraram.

Como Sêneca, tenho uma vida intensa em realizações e frustrações. Poderia usar pronomes impessoais, termos genéricos e citar terceiras pessoas. Talvez assim esta crônica transparecesse mais intelectual. Contudo, avalio ser mais autêntico escrever sobre minha própria experiência – talvez assim meu texto possa inspirar alguém que também atravessa alguma frustração. Há vitórias e derrotas nas minhas muitas vidas — pessoal, espiritual, intelectual e profissional… Mais vitórias do que derrotas – e o que me consola é uma frase de Rockfeller:

“Quem nunca foi derrotado, não passa de amador”.

Uma das minhas grandes frustrações, imanada de um forte desejo interior, é o de jamais ter sido convidado para escrever crônicas. Em março de 2008 completei 25 anos como jornalista. Tive uma boa carreira. Fui repórter, editor ou colunista nos principais veículos do país, como Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Veja e Istoé. Cheguei a diretor de Sucursal de uma grande empresa, a Editora Três. Escrevi como colaborador para alguns dos veículos mais interessantes do Brasil, como Interview, Playboy, República e Primeira Leitura. Cada revista em seu estilo, cada uma um prazer diferente. Escrevi perfis antológicos (e o afirmo imodestamente). Dei grandes furos. Recebi muitos prêmios.

Se relato todas essas vitórias, é para explicar que a maior parte dos mortais me avaliaria um jornalista realizado. Sêneca também o foi. Mas confesso que ainda não sou. Falta a realização de três grandes desejos. Um é o de ser cronista, como já relatado. Já me chamaram para escrever reportagens denúncia, perfis de personalidades, artigos políticos e econômicos. Me chamaram para editar e chefiar. Mas jamais ninguém me convidou para realizar o maior dos meus desejos – as crônicas. O mais grave de tudo isso é que eu jamais me posicionei como um cronista. Jamais pedi espaço, ou ofereci uma crônica a quem quer que seja.

Outro desejo frustrado, e igualmente antigo, é o de ser editor de Cidades do Correio Braziliense. Já fui editor, de Brasil e de Política, em veículos maiores. Mas o Correio é um velho xodó. Fui estagiário lá, aos 18 anos. E foi nessa ocasião que me despertou o desejo de editar Cidades. Não serve nem Política, nem Economia, assuntos de domino melhor. O desejo é cuidar dos focas na editoria de Cidades. Pode? Há louco para tudo. Vou enviar esta crônica para o Josemar Gimenez, diretor de Redação do Correio. Talvez algum dia, quando os astros fizerem a conjugação certa, ele se lembre de mim.

Quanto ao terceiro e último desejo é vir a trabalhar em revistas que mostrem os caminhos do bem. Refiro-me a veículos como Caminhos da Terra, para o qual já escrevi, ou Planeta. E Vida Simples, Superinteressante, Galileu… Enfim, veículos que tratem das coisas essenciais da vida e da formação ética e moral dos jovens.

Sêneca me perguntaria: o que você está fazendo de concreto para realizar teus desejos? Afinal, não foi ele quem ensinou que uma vez que encaramos racionalmente as conseqüências de um desejo não realizado, teremos grandes probabilidades de descobrir que os problemas fundamentais são mais modestos que as ansiedades que geraram? Ora, não realizei esses desejos porque até este instante não os havia encarado de frente. Portanto, permaneciam no doloroso campo das frustrações. O que fazer? Ora, fazer, simplesmente agir.

No caso das minhas próprias frustrações, o primeiro ato foi reconhecê-las. Depois, agir para criar um blog onde eu possa ter a total liberdade de expressão. Está aí, é um veículo de comunicação real e concreto. Depois batizei o blog com um nome que adianta sobre o que desejo escrever – “Caminhos do Bem”. Por fim, começar a escrever crônicas.

Eis, meus caros amigos, minha primeira crônica. Há outras já publicadas no blog. Meros ensaios. Mas esta será, doravante, meu primeiro ato como cronista. Apresento-me a vocês. Na torcida para que apreciem as considerações e consigam extrair algo de útil para suas próprias vidas.

Aproveito para perguntar: você já pensou sobre suas próprias frustrações? E sobre as realizações?

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