jan 27, 2013

Como fundamentar uma tese sobre a memória dos guerrilheiros do Araguaia

Por Hugo Studart

 Nas escolas de Jornalismo, minha primeira carreira, ensinam com fervor quase religioso que o certo é cultuar a neutralidade e a só usar verbos na terceira pessoa, do singular ou plural. Já me ensinaram muito pastiche fundamentado no pretenso racionalismo aristotélico, que encara o mundo tão-somente dentro dos sentidos materiais. Quando entrei para o mestrado em História, minha orientadora[1] instigava-me a redigir na primeira pessoa do singular. Achei estranho.

“E a neutralidade científica?” –questionei.

Walter Benjamin

Foi a deixa para que me apresentasse aos autores da Nova História. Segundo Walter Benjamin, por exemplo, não existe a tal “neutralidade científica”. Todo conhecimento, explica, é um embate de interesses. Aos poucos, fui me acostumando a escrever sobre as ideias ou experiências pessoais e a acreditar ser impossível dissociar um conteúdo de seu autor.

Arthur Schopenhauer, o filósofo das angústias, dizia que o homem parte de seus próprios horizontes, dos limites do seu campo de visão, como os limites do mundo. Assim, nossas versões sobre o mundo são limitadas tantos pelas observações limitadas que posso fazer do Universo, quanto pelas experiências pessoais inseridas em uma vasta “vontade” universal, da qual nossas ações são apenas uma mera parte. Por isso todos nós costumamos tomar nossos respectivos horizontes pessoais como o sendo limites universais.

“Nós próprios somos as entidades a ser analisadas”, ensina Martin Heidegger.

Em sua obra mais reconhecida, Ser e Tempo[2], Heidegger parte da velha máxima socrática de buscar compreender o homem como ser, exposta na frase “conhece-te a ti mesmo”, como também o princípio platônico de estudar o mundo como ideia. Heidegger, assim, defende a tese de que todo pensamento precisa ser encarado a partir da perspectiva de nossa relação pessoal com nosso próprio ser interior. Para ele, só conseguiremos analisar o ser humano, objeto fundamental da Filosofia, assim como suas ações na História, a partir da perspectiva interna. Não mais a perspectiva abstrata da tradicional escola platônica, “superficial”, segundo ele. Em sua hermenêutica, ele propõe aprofundar o pensamento de Platão através da análise concreta do “ser”, a partir de nossas próprias experiências vividas, a partir do ser humano imerso no mundo cotidiano.

Boaventura de Sousa Santos, em sua tese de doutorado em Sociologia do Direito, “Notas sobre a história jurídico-social de Pasárgada” (1973), pela universidade de Yale, buscou inovar ao incluir sua experiência pessoal entre os moradores de uma favela do Rio de Janeiro. Relatou sentimentos, emoções e até a relação com as namoradas que arranjou em suas pesquisas. Publicou uma tese díptica. Nas páginas à esquerda, narrou a experiência pessoal. Nas páginas à direita, publicou a análise teórica. Procurou sintonizar a narrativa pessoal com a análise acadêmica.

Desde então, Boaventura sempre exige de seus orientandos de doutorado pelo menos um capítulo narrativo sobre as próprias experiências pessoais na pesquisa. Exige, principalmente, esclarecimentos sobre a formação intelectual do candidato, pois é indefectível, pensa o sociólogo, que a ideologia do pesquisador influencie e permeie toda a análise.

Assim sendo, e inspirado nos pensamentos de Heidegger e Benjamin, como também na prática do professor Boaventura de Sousa Santos, de quem fui aluno[3], acredito que antes de iniciar a tecitura da narrativa, ou mesmo a explanação sobre os fundamentos teóricos desta tese, torna-se mister fazer breve explanação sobre meu próprio sistema de representações e de valores.

 

Na Encruzilhada da Meta-História

Em sua obra “O Método – Volume 3”[4], Edgar Morin confessa que vivenciou, ao longo da construção do trabalho, “uma tríplice tragédia”. Primeiro, a tragédia bibliográfica, na qual, em cada domínio que se propunha caminhar, via-se diante do crescimento exponencial dos novos conhecimentos e referências. Segundo, a tragédia da complexidade dos temas. Por fim, a tragédia de visar à totalização, à unificação, à síntese. Mas terminou por chegar à “consciência absoluta e irremediável do caráter inacabável de todo conhecimento, de todo pensamento e de toda a obra”[5]. Concluiu, ainda, que sua tríplice tragédia seria a tragédia de todo saber moderno.

Aproveito a oportunidade para confessar, também, que atravessei ao longo da construção desta pesquisa uma experiência similar à de Morin. Uma tríplice tragédia. Encontro-me diante de quase quatro metros de documentos alinhados, livros e textos teóricos, muitos lidos, compreendidos e marcados; outros que pela complexidade anunciada se postam diante dos meus olhos como espectros em uma noite escura. Sinto-me, por vezes, como o mítico Teseu diante de seu Labirinto, precisando segurar os amores e temores, vestir o elmo da racionalidade e enfrentar o Minotauro. Ou ser devorado.

A segunda tragédia, como delineia Morin, é a da complexidade dos temas e dos autores. Heródoto ou Tucídides? Documento ou narrativa? Hegel ou Nietzsche? Meta-história ou Nova História? Benjamin ou Adorno? Althusser ou Ricoeur? Chartier ou Barbier? Geertz ou Ginzburg? Cornelius ou Castoriadis? Memória ou esquecimento?[6]

            Por fim, a tragédia de visar à totalização, à unificação, à síntese – ou, no caso de quem busca construir uma pesquisa de doutorado, encontrar uma Hipótese, com Tese, Antítese e Síntese que satisfaça às instituições científicas e à Academia. Nesse caso, a tragédia não é estar diante de um labirinto, como Teseu, mas de um grande paradoxo identitário, nesse caso como Hamlet, entre o ser e o não-ser.

Na juventude entusiasmei-me pelos iluministas, Rousseau e Voltaire – jamais Robespierre. Logo depois vieram os libertários, Proudhon, Tolstoi, Gandhi. Até chegar a Hegel e Marx. No exercício profissional, me deixei ser levado pelo estruturalismo de Althusser e pela micro-física de Foucault, à época tão em moda. Há muito os abandonei no caminhar pela realidade da vida.

            O resultado desse sistema de representações, crenças e valores pessoais é uma tendência atávica pela visão idealista do presente e pela busca incessante por lançar luzes e respostas para futuro. Trata-se de esperança no Homem, na Sociedade, na Civilização, herança do imaginário Iluminista. Outro resultado, no caso o relevante nesse escrevinhar, é a forte tendência por buscar a totalização na interpretação dos acontecimentos, a síntese, a busca por uma explicação universal para a História. Nietzsche detratou-a por “antiquária”; Hidden Write apresentou-nos o termo “meta-história”.

De todas as teorias que tentam explicar o mundo pelas totalizações, tenho uma identificação especial pela Filosofia da História de Hegel, segundo a qual, em síntese, a História da Civilização é a da busca incessante do homem pela liberdade – com suas idas e vindas, às vezes com fluxos, por vezes com afluxos, um passo atrás, dois à frente, a tese e a antítese, mas sempre caminhando rumo à liberdade.

            De tempos para cá, desde que iniciei um desfraldar da História sob a perspectiva da Cultura, venho conhecendo novos autores e outras interpretações, como as de Roger Chartier e Cornelius Castoriadis. Ando me surpreendendo com constelações de primeira-grandeza como Walter Benjamin e Paul Ricoeur. Descobrindo a existência de metodologias não-totalizantes e de formuladores teóricos como Clifford Geertz, Edgar Morin, Boaventura de Sousa Santos e Carlo Grinzburg. Mas também usufruindo da alegria de descortinar até mesmo novos olhares críticos, mas construtivos, sobre velhos “amigos” como Platão, Hegel, Proudhon e, principalmente, Hannah Arendt – sem dúvida minha pensadora predileta, a quem escolhi para me acompanhar nas partes nevrálgicas dessa pesquisa.

É assim, com novas companhias de cabeceira, que tento me tornar – com o perdão da expressão — um pesquisador que busca compreender, ou pelo menos estar atento, a esse mundo fragmentado[7], policêntrico, multi-étnico, transgêneros, dodecafônico, um caldeirão em forte ebulição pela diversidade de culturas convivendo em um mesmo tempo e espaço, e com tantas contradições inexplicáveis, que se tornou quase impossível tentar explicar os acontecimentos históricos com as tradicionais teorias totalizantes. Ou seja, as teorias “antiquárias”, nas palavras de Nietzsche, mas que doravante tratarei, de forma polida, respeitosamente pela terminologia de Write: meta-história.

Confesso que ainda carrego Hegel no coração, mesmo que já tenha desistido de tentar compreendê-lo em sua plenitude. Toda vez que me vejo diante de grandes acontecimentos, como os levantes populares de 2011 no Oriente Médio, Tunísia, Egito, Líbia, Síria, ainda busco tentar compreendê-los imaginando que seria a luta constante do homem em busca da liberdade, como sinalizava Hegel. Toda vez que volto os olhos para o passado e tento compreender a determinação de um punhado de jovens idealistas do Araguaia, quase todos de armas em punho e na esperança de construção de um país mais justo e igualitário –conforme a hipótese que torneia este trabalho– dispostos à imolação quase certa em nome da revolução socialista, em nome da “liberdade”, como eles mesmos declamavam, flagro-me de novo procurando respostas na meta-história. Mais em Hegel do que em Marx –ainda que os protagonistas do episódio central desta narrativa fossem eles, todos eles, marxistas.

Entretanto, depois de períodos de novas leituras[8],  passei a ter uma visão crítica sobre a pertinência dos “antiquários” para analisar certos objetos da pesquisa histórica. Reconheço que a Filosofia da História de Hegel é essencialmente escatológica[9], herdeira direta do pensamento triádico de Agostinho. A seu favor, como indulgência, tem o fato de que Marx bebeu na fonte Hegel para tecer sua própria dialética. E que o marxismo, que movimentou o imaginário revolucionário do Século XX, era igualmente escatológico e triádico.

 Depois de iniciar a convivência com esses novos autores, estou convencido de que a velha escatologia perdeu em grande parte o sentido. A História não tem fim, enfim. Portanto, não há escaton, não há vida melhor além do fim dos tempos. Não há uma Cidade de Deus a ser buscada, como apontava Agostinho, nem a Liberdade de Hegel, nem os Sábios de Comte, nem a utópica sociedade sem classes de Marx, ou mesmo o Fim da História – a mais supremo nonsense que a escatologia ousou produzir, nesse caso, a neo-liberal[10]. É por demais difícil encontrar uma síntese, uma explicação universal para a História a fim de se lançar luzes para o futuro. Seria, ainda citando Nietzsche, por demais “antiquário” optar por meta-história nesses tempos “pós-modernos”.

Acredito hoje, como ensina Ricoeur, que fazer História é narrar o passado –mas a partir do olhar do presente. E que a Filosofia da Historia hegeliana, como também a dialética marxista, que têm a pretensão de apreender a totalidade da história, em verdade buscam compor uma visão de conjunto do passado, do presente e do futuro. Por isso são escatológicas, pois tem por fim historiar o futuro. Ora, argumenta Ricoeur, não pode existir história do futuro, nem do presente, em virtude da natureza das frase narrativas, que descrevem os acontecimentos passados[11].

         Formuladores e preceptores

Reparem, senhoras professoras, que passei parágrafos inteiros confessando meu passado idealista e ralhando contra a meta-história. Interpretem como uma oração de súplica, de alguém que acredita precisar exorcizar visões “antiquárias” a fim de aceitar de vez o batismo da Nova História. É essa a maior tragédia que vivencio. Platão, Hegel e Proudhon ocupam uma parte significativa de meu imaginário. É por essa razão que em vários momentos da narrativa adiante acabei optando pela análise fundamentada em explicações idealistas ou totalizantes –tal qual explicariam os próprios guerrilheiros do Araguaia.

Entretanto, ainda que o coração esteja dividido, a razão me leva a fazer a opção teórica preferencial pelos novos amigos da Nova História e da História Cultura. Os autores das representações e do imaginário, como Roger Chartier[12], Cornelius Castoriadis[13], Bronislaw Bazko[14] e Hommi Bhabha[15], convivo com eles, na sala de estar, desde o mestrado. Pretendo mantê-los nos diálogos do doutorado.

Dos novos amigos, conhecidos nas leituras do doutorado, encantei-me especialmente com Walter Benjamin[16], tão sedutor com sua proposta mágica de narrar as histórias a partir de novos olhares. Há outros dois “faróis”, emissores de reluzentes, com que também pretendo buscar o diálogo nos pontos nevrálgicos desta pesquisa, Paul Ricoeur e Hannah Arendt[17].

Nesses primeiros passos de uma longa caminhada, encontrei alguns bons intérpretes dos grandes formuladores, aos quais prefiro tratar, com deferência, por preceptores. Para me ajudar a compreender a História Cultural e os estudos do Imaginário, destaco Peter Burke[18] e Pierre Bordieu[19], ambos neo-marxistas, como também os culturalistas René Barbier[20], Robert Darnton[21], Rogério Córdova[22], Sandra Pesavento[23] e Cléria Botêlho Costa[24]. Para conduzir-me pelos complexos temas da memória e da narrativa, em especial pelas entranhas mentais de Benjamin e Ricoeur, encontrei como preceptores Jeanne-Marie Gagnebin[25] e Fernando Catroga[26], mantendo, obviamente, canais abertos de diálogo com Jacques Le Goff e Jacques Derrida[27]. Para a questão de fundo dos Direitos Humanos, os preceptores até este momento escolhidos são Lynn Hunt[28] e Cançado Trindade[29].

 

Pressupostos Epistemolóticos

Os britânicos criaram dois termos semelhantes, stories e history, para distinguir ficção e realidade. Um seria uma estória que se conta. Outro, uma história que se segue. Para pensadores como Benjamin e Ricoeur, entretanto, mais do que um preciosismo linquístico, tal distinção seria um erro epistemológico. Afinal, eles ousaram lembrar aquilo que os antigos sempre souberam: História e ficção emergem da mesma matriz, a memória – embora guardem distinções quanto ao método e, principalmente, quanto ao objetivo. Benjamin e Ricoeur também lembraram que os historiadores, tal qual os narradores orais medievais, tal qual os romancistas, tecem uma trama de acordo com a sua visão pessoal do que venha a ser a realidade e os fatos[30].

Já lá se vão 25 séculos — desde que Heródoto foi renegado por seu discípulo Tucídides — que perdura a velha discussão teórica sobre quais seriam, afinal, os “verdadeiros” e os “falsos” objetos do estudo histórico? Heródoto, considerado o “Pai da História”, interpretava, opinava, posicionava-se no contexto, deixava fluir suas próprias impressões. Escrevia com paixão, apresentando sem qualquer pudor sua visão pessoal sobre gregos e persas. Esmerava-se em tecer uma narrativa inspirada, considerava as crônicas e os mitos épicos fontes históricas dignas de consideração, ecos de um passado a ser estudado. “Para Heródoto”, explica Catroga, “as investigações (historie, apódexis) mais credíveis eram as que decorriam da observação direta (ópsis) e não tanto das fontes, ou mesmo das informações alheias, aceites como meras notícias que o historiador-investigador devia registrar, mas em que não era obrigado a crer”[31].

Heródoto foi o primeiro a ver o passado dentro da perspectiva filosófica, não apenas factual[32]. Tucídides, por sua vez, autor do clássico História da Guerra do Poloponeso, denunciava a fragilidade da memória, tanto a sua quanto a de terceiros. Para ele, lembranças e testemunhos devem ser condenados à relatividade da memória e à subjetividade das opiniões pessoais. Mutatis mutandis, para Tucídides, como rege hoje a máxima do jogo-do-bicho, só vale o que está escrito. Ele defendia a ideia de que os fatos falam por si e o resto seria logro. Por isso o discípulo acusou a obra do próprio mestre de imprecisa. Ficou com a última palavra por mais de dois milênios.

Essa velha discussão retornou no Século XIX, o Século das Ciências, quando Augusto Comte e seus positivistas rejeitaram as filosofias da História e pensaram que poderiam transformar a História numa ciência tão precisa e previsível quanto a Física e a Matemática. Era uma reação aos exageros do Iluminismo. O iluminismo então apresentava uma forte tendência de ajudar os vencedores de tentarem aniquilar o passado, a reescrever história segundo as conveniências das novas instituições inauguradas com a Revolução Americana e, ato contínuo, a Revolução Francesa. Ou seja, possuir o controle da imaginação social como poderosa arma para se projetar um futuro desejável[33].

Com a ascensão de Comte, a ordem-do-dia passou a ser construir uma História meramente factual, com nomes, datas e acontecimentos precisos. Obviamente calcada em documentos oficiais. O marxismo apareceu quase simultaneamente, buscando igualmente suplantar a Filosofia da História de Kant e Hegel. Como Comte, Marx também pregava uma História “científica”, só que baseada na indefectível luta de classes. “Em conclusão: nos finais do século XIX, tentou-se consolidar a autonomia da historiografia em face à filosofia (e à teologia) e afirmar o seu cariz científico, através de um método crítico –inspirada, em boa parte no método histórico-filológico— apto para estabelecer a objetividade dos fatos e para tornar o autor ‘ausente’ da sua narração”, explica ainda Catroga.[34]

Quando a partir da década de 1920 surgiu em França a École des Annales, com formuladores como Lucien Febvre e Marc Bloch, a historiografia começou a ser reinventada com vertentes mais flexíveis de análise, como a Nova História, a História das Idéias e a das Mentalidades. É óbvio que a discussão não é tão simplória. Buscaremos aprofundá-la, quando o assunto emergir, em pontos pertinentes a esta pesquista.

Se faço essa ligeira panorâmica preliminar é para ressaltar o fato de que recentemente, nos últimos 30 anos, a História vem dando uma grande guinada. Influenciados pela Antropologia Cultural, notadamente pelo antropólogo norte-americano Clifford Geertz, historiadores ingleses e franceses –quase todos marxistas em suas origens — reinventaram aquela Nova História imaginada nos primórdios do Século XX, tão ofuscada pelo estruturalismo, e lançaram os pressupostos epistemológicos para a criação de uma História Cultural.

Buscaram inspiração em Febvre e Bloch, entre outros precursores. Resgataram o alemão Walter Benjamin, que já nas décadas de 1920 e 1930, andando na contramão do cientificismo, escrevia que ficção, poesia, pintura, fotografias ou quaisquer formas de arte, incluindo o cinema que ainda engatinhava, são relevantes fontes da realidade. Benjamin, como Heródoto, defendia a narrativa oral e a crônica pessoal.

“O cronista é o narrador da História”[35], ensinou Benjamin.

A Nova História também passou a defender a relevância dos perdedores, dos anti-heróis, dos pobres e dos personagens anônimos. Da mesma forma, vem considerando outros objetos e vertentes de análise, como o cotidiano, a vida privada e a micro-história – temas esses que, relevante lembrar, estão entre os objetivos específicos desta pesquisa.

Os historiadores da Cultura, plugados com a complexidade desse mundo policêntrico, multicultural e globalizado, buscam o diálogo permanente com as narrativas, as tradições, os mitos e os símbolos, em especial com os estudos das Representações e do Imaginário. Autores como Castoriadis, por exemplo, defendem a idéia de que todas as ações do homem que movem o mundo e constroem a História nascem do imaginário social. Outros, como Ricoeur e LeGoff, vão buscar as fontes de informação na memória e nos símbolos, e apontam uma aproximação entre História e literatura. Há ainda autores, como Hidden White, que defendem a ideia de que sequer haveria distinção clara da narrativa histórica com a literária –assertiva da qual não me alinho.[36]

Isto posto, venho esclarecer que o objeto a ser pesquisado, narrado e analisado, “A Memória dos Guerrilheiros do Araguaia”, já foi trabalhada pela chamada História Política. Entretanto, a proposta é buscar seus sentidos sob a perspectiva da chamada História Cultural. Prefiro classificar o objeto dentro da chamada Nova História Política, que endossa os pressupostos epistemológicos que presidem a História Cultural. Pesavento explica:

“(…) Uma terceira corrente, muito atual, que se apresenta nos domínios da História Cultural, seria aquela relativa a uma releitura do político pelo cultural. Às vezes chamada de Nova História Cultural, essa postura resulta do endosso, pelos historiadores do político, dos pressupostos epistemológicos que presidem a análise da História Cultural. Imaginário, representação, a produção e a recepção do discurso historiográfico reformulam a compreensão do político.

(…) Fala-se mesmo em uma História Cultural do Político, mobilizada pelos estudos que se centram em torno do imaginário do poder, sobre as performances dos atores, sobre a eficácia simbólica de ritos e imagens produzidas segundo fins e usos do político, sobre fenômenos que presidem a repartição da autoridade e do poder entre grupos e indivíduos, sobre mitos e crenças que levam os homens a acreditar em alguém ou algo, pautando a ação e a percepção da realidade sobre os mecanismos pelos quais se constroem identidades dotadas do poder simbólico de coesão social”. [37]

 

Conceito de Cultura

Pelo menos no Ocidente, o conceito de cultura guardou por séculos uma intrínseca relação com os hábitos da aristocracia, relegando todas as demais manifestações no interior das sociedades civilizadas à disciplinas outras, denominadas folclore, ou antropologia social, ou história das tradições populares. Se as manifestações emergissem ou de extratos sociais “inferiores”, de acordo com a visão aristocrática, ou de “incivilizados”, segundo a visão eurocêntrica, essas manifestações poderiam ser qualquer coisa, menos cultura.

É relativamente recente o emprego do termo “Cultura” para definir o conjunto de atitudes, crenças e códigos de valores num determinado período histórico. Foi através do conceito de “cultura primitiva” e, principalmente, dos estudos antropológicos de Clifford Geetz, que se chegou de fato a reconhecer que aqueles sujeitos sociais, outrora chamados de “camadas inferiores dos povos civilizados”, possuíam cultura.

Foi a partir desse tronco antropológico que se abriram outros ramos de estudos, como a História Cultural. Nos últimos 20 anos, dentro da História Cultural, se abrigam as mais diversas concepções e, sobretudo, propostas analíticas de Cultura, geralmente conceituadas como o conjunto de reflexões, representações ou interpretações sobre a História como processo. Mas dada a vastidão de conceitos e a constelação pensadores sobre o tema, optei pelo conceito antropológico original, eleborado por Geetz. O conceito de Cultura de Geertz é o que me parece o mais ajustado para o objeto proposto.

Geetz acredita que a Cultura é formada por construções simbólicas, os significados contidos num conjunto de símbolos. Para ele, “a análise cultural é intrinsecamente incompleta e, o que é pior, quanto mais profunda, menos completa”[38]. Seu conceito é essencialmente semiótico. Fundamenta-se no compartilhamento das idéias, a “teia de significados”, amarradas coletivamente:

“Acreditando, como Marx Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado. É justamente uma explicação que eu procuro, ao construir expressões sociais, enigmáticas na sua superfície”[39]

Minha proposta foi a de construir a narrativa da pesquisa dentro do conceito da “teia de significados” de Geetz. Assim como no princípio de que a cultura consiste em estruturas de significados socialmente estabelecidas, historicizando os conceitos, adaptando-os àquele tempo ao tempo histórico objeto da pesquisa – os Anos 60 e 70 no Brasil.

 

Conceito de Memória

Walter Benjamin era filósofo, sociólogo, romanista, grafólogo, teórico da história, das artes e da tradução. Alemão e judeu, era um marxista que se recusava a se organizar em partidos. Era também usuário de haxixe. Por conta dessa heterodoxia, até hoje a maior parte das academias européias de Filosofia não considera sua obra digna de estar entre os cânones do pensamento moderno. Na América Latina, contudo, Benjamin tem sido considerado cada vez mais o “Filósofo das Vanguardas” por conta de sua tendência à ruptura e ao novo, sua rejeição ao dogmatismo e ao cientificismo das academias de seu tempo, por sua ousadia de “tentar inventar novas imagens para pensarmos nossos limites e fronteiras”[40], como também pelo seu método transdisiciplinar de pensar as Ciência Humanas, tendência da pós-modernidade, mas que Benjamin já a pregava e praticava nos anos 1930.

Sua Teoria da História e, sobretudo, sua visão teórica original sobre a memória, ou a mimesis, são pontos nevrálgicos da obra de Walter Benjamin. Ele foi crítico ácido e bem fundamentado do historicismo positivista do século XIX, o modelo modelo de escrita da História que privilegiava os documentos criados pelo aparato do Estado – e portanto, conservador também sob o ponto-de-vista político. Essencialmente, ele negou a possibilidade de uma História “tal como de fato aconteceu”, segundo o credo positivista, e propôs resgatar a memória como meio de nos relacionarmos com o passado. Para Benjamin, o registro da memória é mais aberto, aceita os testemunhos e as imagens (e não só a escrita burocrática), aceita inclusive a visão dos vencidos, nem se apega ao dogma científico das supostas neutralidades.

Benjamin encontrou na obra de Marcel Proust, de quem foi tradutor e leitor obsecado, os fundamentos da compreensão do conceito de mimesis e, por conseguinte, da História. Benjamin observou que Proust, em sua busca pelo tempo perdido[41], não se propôs a simplemente revelar suas memórias, nem o acontecido tal qual teria ocorrido. Mas sua proposta foi a de buscar analogias e semelhanças entre o passado e o presente, relembrar os acontecimentos e subtraí-los às contingências do tempo em uma metáfora. Concluiu Benjamin, no ensaio “A Imagem de Proust”:

“Pois o acontecido vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois (…). A eternidade que Proust nos faz vislumbrar não é a do tempo infinito, e sim do tempo entrecruzado. Seu verdadeiro interesse é consagrado ao fluxo de tempo sob sua forma mais real, e por isso mesmo mais entrecruzada, que se manifesta com clareza na reminiscência (internamente) e no envelhecimento externamente)[42].

Proust também mostrou a Benjamin que a memória é sempre seletiva na construção do passado, e que é também a partir do esquecimento –tema este que já havia sido abordado por Nietzsche– que os fatos abrigados pela memória são reconstruídos. Benjamin então buscou ampliar a visão sobre a mímesis. Ele distingue dois momentos principais da atividade mimética: não apenas reconhecer, mas produzir semelhanças. Ou seja, a memória conserva os traços gerais do acontecido, mas a imaginação modifica e amplia. Assim, lembrar não seria apenas reviver o passado, resgatá-lo tal qual ele foi – ou acredita-se que tenha sido. Mas seria a reconstrução das experiências passadas no tempo presente. Com a palavra, Gagnebin:

“A originalidade da teoria benjaminiana está em supor uma história da capacidade mimética. Em outras palavras, as semelhanças não existem em si, imutáveis e eternas, mas são descobertas e inventariadas pelo conhecimento humano de maneira diferente, de acordo com as épocas. (…) A sua tese principal é que a capacidade mimética humana não desapareceu em proveito de uma maneira de pensar abstrada e racional, mas se refugiou e se concentrou na linguagem e na escrita”[43].

Meio século depois da morte de Benjamin[44], Paul Ricoeur procurou decifar o enigma da representação do passado na memória. Ele parte da idéia de que a memória é sempre seletiva; e o homem vive, em sua historicidade, uma incessante dialética entre a recordação e o esquecimento. Cada indivíduo participa, simultaneamente, de vários campos da memória, conforme a perspectiva que se coloca e a sua retrospecção.

Em sua última obra, A memória, a história e o esquecimento[45], Ricoeur trata do mito e da mimesis. Para Ricoeur, mimesis não significa cópia, mas construção linquística que vai compor um mundo. É metaforização, agenciamento dos fatos em construção metafórica. O importante para o historiador é não buscar compreender frases isoladas, mas o sentido geral, a totalidade da obra, participar desse universo ficcional através da mediação dessa totalidade.

Nesse sentido, a partir dos pensamentos de Benjamin e de Ricoeur, entendo que a memória é, em síntese, a reconstrução de experiências do passado no tempo presente. Assim, o objetivo desta pesquisa é buscar (como Proust) reconstruir as experiências vividas pelos guerrilheiros do Araguaia, suas memórias, dentro da mediação do tempo presente. O historiador pode buscar reconstruir essas memórias diretamente nos escritos que os guerrilheiros deixaram, ou trabalhando com a reconstrução das lembranças que os sobreviventes trazem do passado para o presente.

Mas sempre atento ao sentido geral dos acontecimentos protagonizados pelos guerrilheiros, sem ter a pretensão de reconstruir os fatos do modo exato como se deram, ou de reproduzir exatamente o que pensavam ou criavam os protagonistas. Parafraseando Benjamin, pesquisar “A Memória dos Guerriheiros do Araguaia” será um exercício de re-memorar os acontecimentos e subtraí-los às contingências do tempo em uma metáfora.

 

Em Defesa da Narrativa[46]

Certa feita Walter Benjamin enviou um ensaio sobre Baudelaire a Theodor Adorno, para que o publicasse na Revista de Pesquisa Social, do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt[47]. Era o ano de 1938. Adorno recusou o texto e mandou Benjamin reformulá-lo por inteiro. Ocorreu então uma antológica troca de correspondências entre eles, até então grandes amigos, camaradas e patrícios[48].

A crítica de Adorno foi dura, ácida, corrosiva. Acusou o texto de “teológico” e de conter uma “representação deslumbrada da facticidade”. Apontou principalmente  “a falta de um diálogo maior da narrativa livre de Benjamin sobre os choques dos transeuntes nas ruas obstruídas de Paris e o ritmo marcado dos versos baudelairianos” sem que houvesse “uma mediação mais global por trás dessas associações esclarecedoras mas não sempre desprovidas de uma certa arbitrariedade”[49]. Estava cobrando, em síntese, menos poesia e mais teoria. E teoria, para Adorno, é um diálogo com a dialética, a mediação através de um processo global, uma explicação totalizante dos fatos, uma Filosofia da História.

“A renúncia à teoria afeta a empiria. De um lado, essa renúncia confere à empiria um traço falsamente épico, de outro, tira dos fenômenos seu verdadeiro peso histórico-filosófico, transformando-os em fenômenos experienciados de maneira unicamente subjetiva. (…) Para falar de uma maneira drástica, poder-se-ia dizer que o trabalho se alojou no cruzamento da magia com o positivismo. É um lugar enfeitiçado: só a teoria conseguiria romper o feitiço[50]. (Grifo meu).

 

            Benjamin rebateu a carta de forma igualmente dura. Defendeu a “representação deslumbrada da facticidade” como “a atitude autenticamente filológica”[51]. Benjamin não respondeu à principal objeção de Adorno, a falta de boa teoria, a ausência de dialética e de uma mediação totalizante. Adorno venceu aquela discussão. Quanto a Benjamin, não teve a sorte louca de usufruir, ainda em vida, do reconhecimento acadêmico da maior parte de seus pares. Faleceu logo depois, em 1940.

Ainda que muitas daquelas ideias sobre reconhecer narrativas orais, artes e literatura como fontes da História, assim como tecer uma trama em formato literário estivessem sendo efetivadas pelos Annales, Benjamin estava além de seu tempo. Para contemporâneos como Adorno, aquelas ideias soavam como magia, feitiço a ser exorcizado, factualidade deslumbrada. Os conceitos de Benjamin sobre a História só seriam redescobertos, analisados e compreendidos, a partir dos anos 70, com a ascensão de novas escolas e abordagens históricas[52].

            Se algum discípulo de Adorno viesse a me indagar com qual trama eu gostaria de tecer minha pesquisa, responderia, simplesmente: “Benjamin”. Se perguntarem o que fala a meu coração, o que mobiliza minha entranhas, responderia: “magia”. Em outras palavras, meu desejo, confesso, é narrar boas histórias sobre os guerrilheiros do Araguaia, resgatar suas memórias conjurando fontes orais e escritas, documentos e fotografias, invocando mitos e canções, cartas, diários e poesias, navegando por mares nunca d’antes navegados –buscando inspiração naquele Benjamin inspirado em Proust e Baudelaire.

Meu desejo era o de, simplesmente, encontrar algum veterano de guerra, um guerrilheiro sobrevivente, ou talvez algum um camponês, enfim, um espectador privilegiado e repleto de reminiscências épicas que me ajudasse a fazer a intermediação da narrativa, tal qual os tradicionais contadores de histórias. Então iniciaria a trama como uma crônica, exatamente como o narrador de Benjamin em seu ensaio sobre Nicolai Leskov[53]:

Certo dia conheci lá pelas bandas do Araguaia um velho caçador, que me contou uma história de esperança e assombração. Trata da borboleta Dina e do lobisomem Osvaldão. Vou narrá-las aos senhores, prezados doutores, com máxima exatidão, tal qual as escutei do velho caçador e registrei em anotação”.

Mutatis mutandis, até ousei abrir a narrativa desta pesquisa de forma similar, com as alegorias da borboleta e do lobisomem. Mas tenho buscado tomar máximo cuidado para não cair na suposta representação da facticidade, como apontou Adorno, de acabar me alojando num lugar enfeitiçado. Portanto, será preciso, em síntese, seguir o conselho de Adorno: mais teoria diante das poesias.

*  *  *

Mnemosyne, a deusa da reminiscência, era para os gregos a musa da poesia épica. De acordo com Benjamin, a memória é a mais épica de todas as faculdades. Somente uma memória abrangente permite à poesia épica apropriar-se do curso das coisas, por um lado, e resignar-se, por outro, com o desaparecimento dessas coisas, com o poder da morte[54].

Ele também apresenta o conceito das imagens de desejo que reapresentam o mundo. Imagens dotadas de poder mágico de fazer crer, de parecerem verdade, de serem capazes de inverter as relações sociais, fazendo com que os homens vivam por e no mundo das representações. Desta forma, nos mostra que, para proceder à leitura de uma época, é preciso decifrar suas representações. Para Benjamin, as imagens não vêm só do visual, do visível. Vêm também das emoções.

Segundo Benjamin, também existe a imagem invisível, que vem do processo de imaginação. É uma imagem que vem de fora para dentro, tal qual acontece com os artistas, que primeiro criam as imagens internas e depois as expõem na realidade. Benjamin manda ouvir o que não pode ser dito, ver o invisível. Para isso, você só pode conseguir usando o corpo inteiro, todos os sentidos. Inclusive as emoções. Inclusive a razão.

Nesse mesmo ensaio, “Sobre o conceito de História”, Benjamin toma como referência metafórica uma aquarela de Paul Klee que ele comprou em 1921, batizada de Angelus Novus. Por ter se transformado em emblemática na obra de Benjamin, aquela imagem que acabou tomando dimensão bem maior do que sua silhueta, citada em boa parte dos trabalhos acadêmicos que busca diálogo com o pensador alemão. Com a palavra, Benjamin:

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas umatempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.[55]

O Angelus Novus, em outras palavras, ilustra o caminho teórico e metodológico que busca uma narrativa entrelaçando passado, presente e futuro. Benjamin trata a história como “objeto de construção, cujo lugar não é formado pelo tempo homogêneo e vazio, mas (…) pelo tempo-de-agora”[56]. Homem à frente de seu tempo, Benjamin deixou alguns legados relevantes. Um deles foi resgatar a tecitura poética na narrativa histórica,  como se fosse uma crônica.

“O cronista narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história”[57].

O outro resgate relevante é o do tradicional narrador oral como fonte de pesquisa histórica. As reflexões são propostas por Benjamin:

“Podemos ir mais longe e perguntar se a relação entre o narrador e sua matéria – a vida humana – não seria ela própria uma relação artesanal. Não seria sua tarefa trabalhar a matéria-prima da expericência – sua e dos outros – transformando-a num produto sólido, útil e único? (…) O narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérvio, mas para muitos casos, como o sábio. Pois pode recorrer ao acerto de toda uma vida (uma vida que não inclui apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia”. (Grifo meu)

 “A experiência que passa de pessoa em pessoa é a fonte a que recorrem todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anôminos”[58].

Abro mais uma vez a palavra para Benjamin:

“Cada vez que se pretende estudar uma certa forma épica é necessário investigar a relação entre essa forma e a historiografia. Podemos ir mais longe e perguntar se a historiografia não representa uma zona de indiferenciação criadora com relação a todas as formas épicas”.[59]

*  *  *

Paul Ricoeur, por sua vez, nos apresenta uma obra igualmente aguda de resignificados, valores e conceitos. Mais que um fenomenólogo, ele é um hermeneuta, cujo objetivo é reinterpretar o homem. Para Ricoeur, a hermenêutica é a teoria das operações da compreensão em sua relação com a interpretação de textos. A partir dela compreende o tempo, a ação e as identidade humanas, incluindo a ética e a justiça. Ele adota o ato de leitura como um momento interpretativo caracterizador tanto das narrativas históricas quanto da ficção.

Sobre o tempo, Ricoeur argumenta que não tem função própria, a não ser o de indicar a organização da narrativa por meio de seus indícios, tais como os modos de tempos verbais. A ficção se assemelha à história por lidar com acontecimentos irreais como se fossem fatos passados, isso por meio da voz narrativa. Tanto quanto a história se assemelha à ficção por relatar acontecimentos reais, criados pela narrativa.

Assim como o pioneiro Benjamin, um dos aspectos marcantes de Ricoeur vem do fato de ter buscado, sem preconceitos aparentes, auxílio onde outros filófosos se recusaram a ir. Vai atrás de fontes pré-filosóficas, como o símbolo e o mito. Vai atrás de rastros do humano, dos vestígios, daquilo que ele mesmo define como “fala balbuciante”. Para ele, os símbolos humanos poéticos e sacros são fontes de inspiração. Ricoeur apresenta o conceito do “traço”, segundo o qual, não há representação memorial sem traços.

A palavra, do latim tractus, refere-se a pegadas, a uma sequência de impressões deixadas pela passagem de um animal, o que permitia funcionar como testemunho e indício. Quando o autor utiliza o termo “traço”, usa-no como uma conotação alargada, como qualquer vestígio humano, voluntário ou involuntário, material ou imaterial. O “traço” tanto pode estar inscrito na mente, como deixado em seu exterior, como meta-memória, como representação de seu tempo, inscrita em um rito coletivo, ou em um monumento. Todo monumento é traço do passado cujo objetivo é ressuscitar a memória, o rito de re-cordare (de cor, coração) e co-memorar. Comemorar, enfim, é um ato de recordar.[60]

Ricoeur segue as pegadas de Benjamin quando abandona a história dita “científica” para defender a narrativa poética e ficcionista. Ele lembra que o holocausto judaico, por exemplo, estaria muito além da capacidade de ser representado por um historiador. Portanto, para esse caso e outros, é preciso buscar apoio na arte. Segundo Ricoeur, o mural Guernica, de Picasso, representaria a tragédia da Guerra Civil Espanhola de forma mais precisa do que qualquer narrativa histórica seria capaz de fazê-lo.

A grande obra-referência de Ricoeur é Tempo e Narrativa[61], monumental compêndio, de três grossos volumes, publicados originalmente entre 1983 e 1985, na França. Nessa obra, simbolicamente, ele não começa com Aristóteles, de quem só vai tratar no segundo capítulo. Mas inicia com Santo Agostinho e suas Confissões, onde o teólogo só trata Deus por “tu”, com intimidade. Ricoeur aproveita a deixa para tratar da questão da sinceridade nas obras históricas, até chegar à principal hipótese da obra: história seria fictícia ou ficção seria histórica?

 Assim, lembra que a palavra “História” sempre comportou dois significados. O primeiro é o de “acontecer”. O outro é o de “narrar”. Outro ponto peculiar é a redefinição do lugar das narrativas de ficção. Para o autor, a identidade narrativa aparece num contexto bem mais amplo. Assim, ele resgata a narrativa de ficção que a Filosofia relegou para valorizar, tão-somente, conceitos. Ricoeur propõe a leitura filosófica das narrativas de ficção e dá, às mesmas, valor eurístico.

Propõe rever a concepção do que sejam “verdade” e “realidade” para poder ver o que está por trás das narrativas ficcionais. Assim, as narrativas, passariam a oferecer possibilidades de experiências do tempo, que não resistem à linearidade. Ricoeur defende a ideia de que o entrecruzamento da narrativa histórica com a ficção configura nossa própria experiência, ou seja, constitui nossa própria “identidade narrativa”, que tem uma dimensão que não é estritamente veraz, mas a dimenção de elementos fictícios e de construção poética. História e literatura se aproximam, pois ambas emergem da memória e trabalham com a narrativa. Mas o pensador faz uma distinção entre os dois campos[62].

“A ficção é quase histórica, tanto quanto a história é quase fictícia. (…) O grande historiador é aquele que consegue tornar aceitável uma nova maneira de seguir a história”[63].

O imaginário representa para Ricoeur o ponto fundamental para a construção da História. História e ficção, ambas matrizes de pensamento, recorrem às mediações imaginárias na refiguração do tempo, o que justifica, por exemplo, os empréstimos tomados da literatura pela história. Para ele, é a mimesis que efetua a ligação entre a Ética (real) e a Poética (imaginário). O tecer da intriga projeta um mundo. E pergunta:

“Se perdermos a inteligência narrativa, essa capacidade de articular presente, passado e futuro, não perderíamos nossa capacidade de projetar?”[64]

Em um dos capítulos de Tempo e Narrativa, “Em Defesa da Narrativa”[65], Ricoeur trata, essencialmente, da aproximação entre a história e a narrativa. Segundo ele, isso nasceu da conjunção de dois movimentos do pensamento. Primeiro, o enfraquecimento do modelo nomológico[66]. Em paralelo, houve uma reavaliação da narrativa e de suas fontes de inteligibilidade. Para os defensores do modelo científico nomológico, a narrativa era um modo de articulação elementar e pobre demais para pretender explicar. Para eles, a narrativa só tem um caráter episódico e não tem caráter configurante. É por isso que, entre história e narrativa, viam uma ruptura epistemológica. Ricoeur, por sua vez, destacou-se como um crítico das tendências positivistas, tendo enfatizado que os modelos explicativos das ciências naturais são insuficientes nas ciências humanas.

Em sua argumentação em defesa na narrativa, Ricoeur busca explicar, afinal, “como se escreve a historia”[67]? Ele vai então buscar em Paul Veyne uma proposta de método de escrita da história, espécie de meio-termo, o entrecruzamento da narrativa histórica e da ficção literária que, na visão de Ricoeur, contitui nossa “identidade narrativa”.  Segundo Veyne, lembra Ricoeur, a história não tem método, mas haveria, sim, uma história crítica, outra tópica. Ele busca então aproximar as duas histórias, admitindo, de um lado, que a noção de intriga não está ligada à história factual, mas que há intriga igualmente na historia estrutural. Então propõe ao historiador que rebaixe a pretensão explicativa, e eleve a capacidade narrativa. A força do pensamento de Veyne, segundo Ricoeur, é ter conduzido até esse ponto crítico a idéia de que a história é só construção e compreensão de intrigas.

Ainda de acordo com Ricoeur, explicar, para um historiador, é defender suas conclusões contra um adversário que invocaria um outro conjunto de fatores para sustentar sua tese. O historiador, aqui, segue mais a lógica da escolha prática do que a da dedução científica. Uma descrição completa de um acontecimento deveria, então, registrar tudo o que aconteceu na ordem em que aconteceu. Mas quem poderia fazê-lo? Só um “Cronista Ideal” poderia ser a testemunha absolutamente fiel e absolutamente certa desse passado inteiramente determinado. Nesse ponto, ele se aproxima de Benjamin, para quem “o cronista é o narrador da História”. Em relação a esse ideal de descrição completa e definida, ainda segundo Ricoeur, a tarefa do historiador seria somente eliminar frases falsas, reestabelecer a ordem perturbada das frases verdadeiras e acrescentar o que faltasse ao testemunho.

“Explicar e descrever – no sentido da frase narrativa – são tidos muito tempo como indiscerníveis. (…) Uma lista de fatos sem ligações entre si não é uma narrativa (crítica à história positivista). É por isso, também, que descrever e explicar não se distinguem. Ou, segundo a forte expressão de Danto, ‘a história é de uma só peça’. O que se pode distinguir é a narrativa e as provas materiais que a justifica: uma narrativa não se reduz a um sumário de seu próprio aparato crítico. Mas a distinção entre narrativa e seu suporte conceitual ou documental não consiste em distinguir dois níveis de composição. Explicar porque alguma coisa aconteceu e descrever o que aconteceu coincidem”[68].

 

*  *  *

 Não restam dúvidas de que todo trabalho historiográfico finda num texto, a escrita da História. Contudo, como Ricoeur, acredito que a escrita não seja um instrumento neutro. A escrita também é um produto do conjunto de representações e de valores de seu próprio tempo. Para Ricoeur, assim como para Benjamin, cabe ao historiador descrever e interpretar os fatos. Assim, descrevendo e interpretando, ele constrói a narrativa, a intriga histórica. A reflexão é de Catroga:

“Daqui deriva o grande e incontornável paradoxo da escrita da história: se ela pretende narrar ‘tal como aconteceu’, só poderá fazer na linguagem do tempo de quem interroga os restos sígnico do que passou”[69].

Estas considerações, enfim, levaram à arena movimentos de revisão ou de ruptura com os modelos e os paradigmas “científicos”, que têm-se posicionado sob o lema do regresso da narrativa, ou do sujeito, ou do regresso da própria historiografia ao seu antigo estatuto de um saber que, afinal, estará mais próximo da liberatura do que dos paradigmas de qualquer ciência. Nesse ponto, destaco a encessidade de abrir diálogo com as contribuições de Walter Benjamin, Paul Veyne, Hayden Write e Paul Ricoeur. Mais uma vez, Catroga com a palavra:

“Hoje, os historiadores já não podem pensar que a sua escrita é um mero veículo extrinseco à verdade descritiva: como em todos os domínios, o pensamento sobre o passado é uma linguagem e hitoriar é ‘contar uma história’, é construir uma ordem narrativa em que a forma também é conteúdo”[70].

 

 

Discurso do Método

           Em Um Discurso sobre as Ciências[71], Boaventura de Sousa Santos procura demonstrar que a ciência moderna se encontra numa profunda crise epistemológica, e que estamos em um tempo atônito, com os pés num cruzamento de sombras – “sombras que vêm do passado que ora pensamos já não sermos, ora pensamos não termos ainda deixado de ser, sombras que vêm do futuro que ora pensamos já sermos, ora pensamos nunca virmos a ser”[72].

           A época atual, segundo ele, deve ser considerada época de transição para um novo paradigma científico, rumo a uma ciência cujas bases ainda não conhecemos, muito menos sua nomenclatura. À ciência desses tempos de transição, a zona cinzenta entre algo que já se foi e o que ainda não chegou, ele propõe que seja chamada de “ciência pós-moderna”. É nessa obra que ele apresenta o conceito, dentre outros, de que todo conhecimento seria, em verdade, autoconhecimento. E defende, ao mesmo tempo, o caráter autobiográfico de investigação científica:

“Parafraseando Clausewitz, podemos afirmar que hoje todo objeto é a continuação do sujeito por outros meios. Por isso, todo conhecimento científico é autoconhecimento. A ciência não descobre, cria (…). Os pressupostos metafísicos, os sistemas de crenças, os juízos de valor não estão antes nem depois da explicação científica da natureza ou da sociedade. São parte integrante da mesma explicação”.

 

“Descartes mostra melhor que ninguém o caráter autobiográfico da ciência. Diz, no Discurso do Método: ‘Gostaria de mostrar, neste Discurso, que caminhos seguir; e dele representar a minha vida como num quadro, para que cada qual a possa julgar, e para que, sabedor das opiniões que sobre ele foram expendidas, um novo meio de me instruir se venha juntar àqueles de que costumo servir-me’. Hoje sabemos ou suspeitamos de as nossas trajetórias de vida pessoais e coletivas (enquanto comunidades científicas) e os valores, as crenças e os prejuízos que transportam são a prova íntima do nosso conhecimento”[73].

 

           Na obra seguinte, Introdução a uma Ciência Pós-Moderna[74], Boaventura aprofunda os conceitos e debate a ideia de uma “ciência edificante”, ou seja, engajada, dentro do que ele já havia chamado antes de “ciência pós-moderna”. Para ele, “a luta por uma ciência pós-moderna e pela aplicação edificante do conhecimento científico é, simultaneamente, a luta por uma sociedade que torne possíveis a maximize a sua vigência”[75].

 

           Dando prosseguimento à ideia da ciência como autoconhecimento e autobiografia, Boaventura defende ainda o conceito de que ciência e emoção não são excludentes, como pregavam os positivistas. Ao contrário, são complementares, são elementos não-cognitivos (emoção, paixão, desejo, ambição, etc.). Ele acredita que uma interação mais profunda e tolerante entre processos cognitivos e não-cognitivos, entre ciência e emoção, é uma das áreas de convergência entre a concepção de ciência pós-moderna e que tenho vindo a propor e a teoria feminista, por exemplo[76]. Sua ideia central nessa obra é a de que, qualquer que seja a opção epistemológica, a reflexão sobre a ciência não se pode escapar do circulo hermenêutico. Ou seja, não se pode…

(…) “compreender quaisquer das suas partes sem termos alguma compreensão de como trabalham as suas partes. Aliás, o todo e a parte são aqui, de algum modo, uma ilusão mecânica, pois o princípio hermenêutico é o de que a parte é tão determinada pelo todo como o todo pelas suas partes.

 

“A reflexão hermenêutica visa transformar o distante em próximo, o estranho em familiar, através do discurso racional (…) orientado pelo desejo de diálogo com o objeto de reflexão para que ele ‘nos fale’ numa língua não necessariamente a nossa, mas que nos seja compreensível, e nessa media se nos torne relevante, nos enriqueça e contribua para aprofundar a auto-compreensão do nosso papel na construção da sociedade, ou, na expressão cara à hermenêutica, do mundo da vida”[77].

           Edgar Morin apresenta um posicionamento na mesma linha quando questiona o conhecimento racional e fechado na construção do conhecimento científico. Ele, em verdade, desconstrói epistemologicamente o pensamento racional para apresentar, ao mesmo tempo, uma nova ciência dentro dos chamados “parâmetros da incerteza”. Para Morin, o conhecimento é multifacetado, fragmentado, multidimensional.

 

Em O Mundo Fragmentado, Castoriadis busca resgatar o papel da subjetividade na Ciência. Ele parte do princípio de que o sujeito humano é fragmentado, tem várias dimensões, mas ele está num constante fazer-se. O argumento é que o sujeito humano é reflexivo, como o sujeito de Freud. Mas vai além do individual. Para Castoriadis, o sujeito é também coletivo, como o de Jung. O sujeito fragmentado de Castoriadis está inserido naquilo que ele define por “imaginário social”. O sujeito humano, por sua vez, é uma criação histórica. Portanto, para Castoriadis, há uma relação constante entre o sujeito humano e o objeto histórico, um diálogo no qual um constrói o outro. Enfim, o autor valoriza a vontade do sujeito de fazer história.

Isto posto, esclareço que minha proposta de metodotologia de análise na pesquisa é evitar, deliberadamente, tecer relações diretas de causa e efeito sobre determinados episódios; evitar aquilo que, em O Método, Morin chamou de a tragédia de visar à totalização, à unificação, à síntese. Em outras palavras, buscarei passar ao largo da ciência tradicional, racional, objetiva e distanciada, que exige hipótese central, hipóteses secundárias e o método dialético de construir uma tese fechada, com sua antísese e a indefectível síntese.

Trabalharei com uma hipótese singela, muito mais um norte, uma bússula a apontar um caminho – a hipótese de que os guerrilheiros do Araguaia, naquela luta, foram essencialmente movidos pela esperança de criar um país mais justo e igualitário, seguindo o imaginário revolucionário daquele tempo, as décadas de 1960 e 1970. Obviamente, ao longo da construção da narrativa, surgiram muitos insights e talvez algumas hipóteses novas, frutos das amarrações analíticas.

Entretanto, insisto no esclarecimento, almejo tão-somente tecer uma narrativa analítica que busque reconstruir “A Memória dos Guerrilheiros do Araguaia”. Será uma narrativa entremeada de subjetividades, de elementos não-cognitivos, como emoções e desejos, em muitos momentos e autobiográfica e narrada na primeira pessoa.

Da mesma forma, tenho por objetivo deliberado não optar pela exclusividade de nenhum autor ou escola teórica. Pretendo da mesma forma usar várias teorias, diversas metodologias e quase nenhuma verdade absoluta. É preciso, contudo, fazer a devida vigilância epistemológica. Em outras palavras, acredito que seja preciso coerência, jamais dogmas.

A coerência que almejo pode ser alcançada, acredito, no diálogo permanente com os autores da História Cultural, como Benjamin e Ricoeur, Chartier e Castoriadis. Mas também com Boaventura e, principalmente, Arendt –autores que não guardam muitas identidades com a escola Cultural, nem mesmo entre si.  Mas guardam identidades com o pesquisador, o narrador dessa trama fragmentada, subjetiva e cheia de incertezas.

Ao tecer a trama, busquei valorizar os muitos sujeitos humanos, tanto guerrilheiros, quanto camponeses e militares, e suas respectivas vontades de fazer história – como disse Castoriadis. Ora citá-los como sujeitos individuais; ora como sujeitos coletivos. Igualmente, procurei apresentar tanto os sujeitos individuais quanto os coletivos como entes fragmentados, esquartejados em suas muitas dimensões. Buscando valorizar os aspectos não-cognitivos.

Saindo do mundo das teorias para a prática das pesquisas, Morin sugere a metodologia de trabalhar a partir do fragmentado e buscar as relações mais amplas. Partir dos sujeitos, Dina, por exemplo, e buscar reconstruir seu processo individual de transformação em “borboleta”, desde sua chegada no Araguaia, passando por suas relações políticas e cotidianas com os moradores da região, até sua execução. São 69 os guerrilheiros que estiveram no Araguaia. Não tenho a pretensão de resgatar lembranças individuais de cada um, mas tão-somente a memória coletiva, fazendo uso metodológico de valorizar entre 15 e 20 sujeitos humanos.

Para conduzir minhas mãos no tecer da trama, complexa e delicada, com uma diversidade assustadora de novelos com diferentes cores (vermelho, verde, terra…), diversas flores (guerrilheiros, militares, camponeses…) e muitos odores (documentos, cartas, narrativas…), optei pelo paradigma indiciário de Carlo Ginzburg[78] e pela descrição densa de Clifford Geertz[79] — ambos os conceitos serão detalhados logo adiante. Mas planejo também dialogar com autores como Edgar Morin[80] e Boaventura de Sousa Santos[81].

Para Grinzburg, toda pesquisa histórica deveria começar a partir de pelo menos um documento. Mas Grinzburg está muito longe de ser um positivista, que acredita no documento como uma “verdade”, ou um dogmático em sua própria metodologia. Também não relativiza o uso de documentos, como alguns autores da História Cultural. Ele levanta a questão das provas, critica a retórica e ao fim e ao cabo propõe um meio-caminho, no qual o documento é importante, mas não é dogma; deve ser interpretado com ressalvas, mas também não pode ser desprezado, sob risco do historiador de deixar seduzir pela mera retórica.

Um dos pais da micro-história, Grinzburg também advoga a utilização de narrativas ao longo da pesquisa, entremeadas com a análise documental. Diz que para fazer uma boa pesquisa, o historiador precisa partir de um método – no caso, o que ele batizou de “paradigma indiciário” – e ao mesmo tempo construir uma narrativa com perspectivas teóricas. Enfim, sua metodologia prega uma trama com documentos, narrativas e análise teórica. É exatamente o que busquei tecer.

De Geertz, me apropriei da chamada “descrição densa”. Segundo ele, no estudo da cultura a análise penetra no próprio corpo do objeto, e assim começamos com nossas próprias interpretações do que pretendem nossos informantes. Só depois passamos a sistematizar informações. E como sistemas entrelaçados de signos interpretativos, a cultura deve ser vista dentro de um contexto, algo dentro do qual as informações podem ser descritas com densidade.

Geertz explica que os documentos históricos, as fontes escritas, fixam uma interpretação. Os textos antropológicos, escreve o autor, são eles mesmos interpretações – e no caso, de segunda e terceira mão. Só o nativo faz uma interpretação de primeira mão, pois o texto (ou documento) foi construído de acordo com a sua própria cultura.

Esclareço que boa parte dos documentos que foram utilizados na pesquisa não passa de fragmentos históricos. Faltam páginas, ou são meras páginas velhas e soltas, ou não têm assinatura. Se analisada dentro dos velhos paradigmas do positivismo científico, poderiam muitos desses documentos serem descartados. Contudo, podem ser analisados sob outros olhares, como fragmentos de ossos ou de cerâmica encontrados numa caverna –e precisando de um arqueólogo para interpretar seus sentidos.

O que fazer com eles? Parafraseando Geertz, diante desses papéis, um historiador só conseguiria fazer uma interpretação de segunda ou terceira mão. Será preciso buscar os “nativos” capazes de interpretá-los segundo sua própria cultura. No caso, os “nativos” são os 12 guerrilheiros sobreviventes do Araguaia. Desta forma, tornou-se necessário incorporar à narrativa histórica tambem as fontes orais, no caso, os ex-guerrilheiros sobreviventes.

Por fim, e ainda para a tecitura da trama, foi necessário incorporar as narrativas orais dos camponeses, como também de alguns militares. Afinal, os moradores da região resguardam em suas lembranças detalhes impressionantes sobre os mais diversos episódios envolvendo a Guerrilha do Araguais – sem dúvida o fato histórico e político mais relevante de suas vidas. Mais que isso, são eles os únicos que estiveram na região antes, durante e depois da guerrilha. Conviveram com os guerrilheiros na intimidade, como amigos ou inimigos. Conversaram com eles à exaustão, até mesmo nos instantes anteriores às mortes. São testemunhas privilegiadas, enfim; alguns deles, aliás, muito mais privilegiadas do que os próprios guerrilheiros sobreviventes. Em muitos casos, será através dos camponeses que os mortos poderão “narrar” suas memórias.

Acredito que, desta forma, sob a argamassa da teoria com o método, consegui tecer uma narrativa que reconstrua, no tempo presente, as experiências de um punhado de 69 homens e mulheres que, tomados da esperança de construir um país mais justo e igualitário, buscaram a luta armada em algum lugar das selvas amazônicas. Ao reconstruir  “A Memória dos Guerrilheiros do Araguaia”, espero prestar minha contribuição à historiografia brasileira.



[1] Cléria Botelho da Costa, como já dito.

[2] Martin Heidegger, Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 2012.

[3] Quando investigador em mobilidade do Centro de Estudos Sociais (CES), da Universidade de Coimbra, entre 2009 e 2010, como já dito.

[4] Edgar Morin. O Método – Volume 3. Porto Alegre: Sulina, 2008.

[5] Idem, ibidem, pág 38.

[6] Perdoem-me as eventuais inconsistências epistemológicas, mas optei nesse parágrafo pela narrativa poética, bem ao gosto de Heródoto – ou de Benjamin. Optei por rimar Althusser com Ricoeur, mais pela rima e independente do fato de terem sido notórios rivais; por rimar Chartier com Barbier, ainda que façam parte da mesma escola historiográfica; Geertz com Ginzburg, ainda que não sejam excludentes; ou ainda optei pela métrica entre Cornelius e Castoriadis, ainda que sejam a mesma pessoa.

[7] Tomo aqui emprestado o título de uma obra de Cornelius Castoriadis. O mundo fragmentado (As encruzilhadas do labirinto; Vol. 3). Trad. de Rosa Maria Boaventura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

[8] Refiro-me ao tempo de convivência com os autores da Nova História, desde que ingressei, em 2003,  no Mestrado em História Cultural na Univesidade de Brasília.

[9] Do grego escaton, o que vem depois do fim.

[10] Refiro-me às teorias escatológicas da História, todas a apontar para um mundo melhor no futuro, começando por Santo Agostinho em sua A Cidade de Deus, seguido de Hegel, Augusto Comte, cujo positivismo apontava para uma sociedade governada pelos “sábios”, e Marx, cuja dialética era triádica e a teoria apontava para um futuro utópico, a sociedade sem classes. A última referência é ao historiador norte-americano Francis Fukuyama, que em 1992, após a queda do Muro de Berlim, publicou a polêmica obra O Fim da História e o último homem, no qual buscou inspiração em Hegel para pregar o triunfo final do neo-liberalismo globalizado. Quando o livro ainda estava nas prateleiras dos mais vendidos, explodiram os conflitos étnicos nos Balcãs, seguido do recrudescimento do fundamentalismo islâmico, colocando em cheque a obra e seu autor.

[11] Adiante, em item separado, apresento em detalhes o pensamento de Ricoeur sobre o assunto.

[12] Destaco: Roger Chartier. A História Cultural – Entre práticas e representações. Trad. Maria Manuela Galhardo. Rio de Janeiro : Bertrand Brasil; e Lisboa : Difel, 1990

[13] Destaco: Cornelius Castoriadis. A Instituição Imaginária na Sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

[14] Destaco: Bronislaw Baczko. Imaginação Social. Imaginação Social. In Enciclopédia Eunadi, Vol. V. Lisboa : Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1987

[15] Destaco: Hommi Bhabha. O Local da Cultura. Belo Horizonte: UFMG, 2001.

[16] Destaco: Walter Benjamin. Obras Escolhidas Vol. I – Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7a ed., São Paulo: Brasiliense, 1994.

[17] Adiante, esses dois autores e suas contribuições serão detalhadas em itens independentes.

[18] Destaco: Peter Burke. Variedades de História Cultural. Trad. Alda Porto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

[19] Destaco: Pierre Bordieu. O poder simbólico. 2a ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

[20] Destaco: René Barbier. Sobre o Imaginário.Trad. Márcia Lippincott F. da Costa e Vera de Paula. In Revista “Em Aberto”, Brasília, Ano 14, nº 61, ed.Jan/Mar 1994

[21] Destaco: Robert Darnton. O Grande Massacre de Gatos. São Paulo: Graal, 1996.

[22] Destaco: Rogério de Andrade Córdova. Imaginário Social e Educação. In Revista “Em Aberto”, Brasília, Ano 14, nº 61, ed. Jan/Mar 1994

[23] Destaco: Sandra Jathay Pesavento. História & História Cultural. São Paulo: Autêntica, 2003.

[24] Relutei em citar minha própria orientadora, para não soar pretensioso. Mas decedi por fim citá-la quando me lembrei que é de sua autoria o texto que, depois de algumas leituras, me levou às primeiras compreensões do que, afinal, é o Imaginário? Ou seja, o “estalo” mental sobre tema, de início tão complexo, só ocorreu depois de ler: Cléria Botelho da Costa. “Imaginário: Objeto da História”. In Revista Estudos, Vol.27, nº 4, 2000. Mais tarde, foi através de outro artigo didático dela, que tive o “estalo” sobre a relação entre história oral, literatura e e imaginário: _ Costa: “Uma história sonhada”. Revista Brasileira de História, Vol. 17, nº 34, p. 133-145. São Paulo, 1997. Por fim, destaco: _ Costa e Nancy Alessio Magalhães (orgs.). Contar História, fazer História – História, cultura e memória. Brasília: Paralelo 15, 2001.

[25] Destaco: Jeanne-Marie Gagnebin. Lembrar escrever esquecer. São Paulo : Editora 34, 2006.

[26] De quem fui aluno, como já dito, no curso de “Teoria da História”, na Universidade de Coimbra. Destaco: Fernando Catroga. Os passos do homem como restolho do tempo: memória e fim do fim da história. Coimbra, Almedina, 2009.

[27] Ambos, Le Goff e Derrida, têm obras sobre História e Memória tão citadas quanto as de Benjamin e de Ricoeur. Optei por me aprofundar no pensamento dos dois últimos. Mantendo, obviamente, canais abertos com os dois primeiros. Nesse caso, Le Goff e Derrida serão por mim tratados, respeitosamente, como preceptores que me ajudarão a compreender Benjamin e de Ricoeur.

[28] Destaco: Lynn Hunt. A invenção dos Direitos Humanos – uma história. Trad. Rosaura Eichenberg. São Paulo : Companhia das Letras,  2009.

[29] Jurista brasileiro, magistrado da Corte Internacional de Direitos Humanos, em Haia, com 21 obras publicadas sobre a questão. Destaco: Antônio Augusto Cançado Trindade.  A proteção dos Direitos Humanos nos plano nacional e internacional: perspectivas brasileiras. Brasília: F. Naumann, 1992: e _ Trindade. Bases para un Proyecto de Protocolo a la Convención Americana sobre Derechos Humanos: para fortalecer su mecanismo de protección. San José de Costa Rica: Corte Interamericana de Derechos Humanos, 2003.

[30] Paul Ricoeur, em Tempo e Narrativa, argumenta: “O que é uma história que se conta (story)? E o que é ‘seguir’ uma história? (…) Vê-se que esse esboço da noção de história (story) não está longe daquilo que chamamos acima de tessitura da intriga”. Op. cit. Pág. 214.

[31] Fernando Catroga, op. Cit., pág. 60.

[32] Registro que há uma tradução portuguesa da obra do historiador, feita diretamente do grego antigo: Heródoto. Tradução Mário da Gama Cury, Brasilia: Editora Universidade de Brasilia, 2ª ed., 1988. 

[33] Sobre esse ponto, Cléria Botêlho Costa esclarece: “A atitude do iluminismo em relação ao passado era de submetê-lo ao crivo do julgamento, a dissolvê-lo e, quando necessário, condená-lo no interesse das necessidades presentes e da esperança de uma vida melhor –o que fora apreendido com uma tendência para o aniquilamento do passado. E, uma vez encetado o trabalho de aniquilação desse passado, é difícil impor-lhe um limite e recobrar a reverência pelas raízes, além do respeito pelo outrora sem o qual nenhum ser humano poderá sobreviver. (…)O aniquilamento do passado coloca a História na direção dos vencedores e o pensamento hegeliano, por exemplo, pode favorecer a ideologia dos vencedores”.Cléria Botêlho Costa. “Imaginário: Objeto da História”.Op. Cit., pág. 387.

[34] Fernando Catroga, Op. Cit., pág. 78.

[35] Walter Benjamin. Op. Cit., pág. 209

[36] Ao contrário, identifico-me com as propostas de Ricoeur e de Paul Vayne, a do meio-termo, adiante detalhada, que admitem que história e ficção se aproximam, pois ambas emergem da memória e trabalham com a narrativa, mas que é preciso traçar uma linha divisória entre esses campos, distintos quanto aos objetivos.

[37] Sandra Jathay Pesavento. História & História Cultural Op. Cit. pág 75.

[38] Clifford Geertz. A Interpretação das Culturas. Op. Cit. pág. 39.

[39] Id., ib., pág. 15.

[40] Márcio Seligmann-Silva. A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, pág 22.

[41] Refiro-me à obra-prima de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, de sete volumes (1913-1927, que Benjamin traduziu para o alemão.

[42] Walter Benjamin. Obras Escolhidas Vol. I. Op. cit., pág

[43] Jeanne-Marie Gagnebin. “Do Conceito de Mímesis no pensamento de Adorno e Benjamin”. In: PerspectivasRevista de Ciências Sociais, Vol. 13. São Paulo : Universidade Estadual Paulista, UNESP, 1993. Pág. 98.

[44] Faleceu em 1940. Sua morte ainda é envolta de mistério. A versão mais difundida é que teria cometido suicídio durante a tentativa de fuga da França ocupada pela Alemanha para a Espanha, através dos Pireneus, temendo ser entregue à Gestapo.

[45] Paul Ricoeur. A memória, a história e o esquecimento. Campinas: Unicamp, 2010, 2ª reimpressão..

[46] Tomo emprestado o título do Capítulo 2, de “Em Defesa da Narrativa”, da obra: Paul Ricoeur. Tempo e Narrativa – Tomo 1. Campinas: Papirus, 1994. Pág. 175-249.

[47] Jeanne-Marie Gagnebin. “Do Conceito de Mímesis no pensamento de Adordo e Benjamin. In: PerspectivasRevista de Ciências Sociais, Vol. 13. São Paulo : Universidade Estadual Paulista, UNESP, 1993, pág. 8-10.

[48] Eram ambos marxistas, alemães e judeus.

[49] Gagnebin, idem.

[50] Carta de 10 de Novembro de 1938, tradução de Jeanne-Marie Gagnebim, idem.

[51] Id., ib.

[52] Ironicamente, uma coletânea de ensaios de Benjamin publicados na Alemanha com o título original Auswahl in drei banden (“Seleção em três bandas”, ou “Seleção em três volumes”, em tradução livre), recebeu na edição brasileira o título de Walter Benjamin – Obras Escolhida Vol. I: Magia e técnica, arte e política. Op. cit. (Grifo meu).

[53] Walter Benjamin. “O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In Walter Benjamin. Obras Escolhidas. Vol. I. Op. Cit., pág. 197.

[54] “Sobre o Conceito de História”. In Walter Benjamin. Obras Escolhidas. Vol. I. Op. Cit., pág xxxx

[55] Walter Benjamin. “Sobre o conceito da História”. In: Walter Benjamin. Obras escolhidas, Vol. I, Op. cit. Pag. 226.

[56] Jeanne Marie Gagnebin. História e narração em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectiva, 2004. Pg. 15e 103.

[57] Benjamin, op.cit., pág 223.

[58] Id., ib., pág. 198.

[59] Id., ib., pág. 209.

[60] Paul Ricoeur. A memória, a história e o esquecimento. Op. Cit. pág. 205-207.

[61] Paul Ricoeur. Tempo e Narrativa – Tomo 1. Op. cit.

[62] Essa é posição é similar à do precursor Walter Benjamin e à dos contemporâneos Jacques LeGoff e Paul Veyne. Registro ainda que Hidden White, por seu turno, defende a posição de que história e literatura, em verdade, teriam muito poucas diferenças. Adiante, essa discussão será novamente abordada.

[63] Ricoeur, idem, pág. 222.

[64] Id., ib., pág. 232

[65] Id., ib., pág  175 a 249

[66] Nomológico vem da palavra grega nomos, Lei. O método (modelo) dedutivo-nomológico é uma visão formalizada da explicação científicaem linguagem natural. Caracteriza as explicações científicas primariamente como argumentos dedutivos com ao menos uma lei natural entre as premissas. O método é conhecido por muitos nomes, incluindo “método da lei de cobertura”, “modelo Hempel-Oppenheim” e “modelo Popper-Hempel”. Esse método foi inicialmente formalizado por Carl Hempel e Paul Oppenheim em artigo de 1948. Depois Karl Popper teceu um esboço disso em 1959. Essa é uma parte importante sobre a discussão sobre a natureza da explicação científica.

[67] Ricoeur refere-se, nesse sub-título, à uma obra de Paul Veyne, Como se escreve a história, que, segundo ele, ao ser ampliada com Michel Foucault, “revoluciona a História”. Id., ib., pág. 242.

[68] Op. Cit., pág. 248.

[69] Fernando Catroga. Op. Cit., pág 128.

[70] Id., ib., pág. 128.

[71] Boaventura de Sousa Santos. Um discurso sobre as Ciências. Porto: Edições Afrontamento, 2007, 15ª ed.

[72] Id., ib., pág 05.

[73] Id., ib., págs 44 e 45.

[74] Boaventura de Sousa Santos. Introdução a uma ciência pós-moderna. São Paulo: Graal, 1989.

[75] Id., ib., pág. 161.

[76] Ib., pág 119.

[77] Ib., pág. 12.

[78]Destaco: Carlo Ginzburg. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. 2ª ed. Tradução de Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 2003; e Relações de Força – História, Retórica, Prova. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

[79] Destaco: Clifford Geertz. A Interpretação das Culturas. São Paulo: LTC, 2003,.

[80] Destaco: Edgar Morin. O Método – Volume 3. Porto Alegre: Sulina, 2008.

[81] Destaco: Boaventura de Sousa Santos. Um discurso sobre as ciências. Porto, Portugal: Afrontamento, 15ª ed., 2007; e Introdução a uma ciência pós-moderna. São Paulo: Graal, 1989.

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