Browsing articles in "Personagens"
ago 20, 2014

Sérgio Vieira de Mello, a metáfora da água e o desespero da ONU

A ONU lança selo em parceria com os Correios para homenagear Sérgio Vieira de Mello, morto há exatos 10 anos em atentado terrorista no Iraque. Ele tombou aos 55 anos. A ONU, então com a mesma idade, saiu gravemente ferida. Pode-se dizer, até, que a trajetória profissional do brasileiro, no limite entre a guerra e a paz, acompanhou os problemas recentes da entidade (Artigo publicado originalmente pela revista IstoÉ-DINHEIRO, em Ago 2004)

sergio

por Hugo Studart

Nos últimos 30 anos, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello esteve nos lugares mais desolados do mundo levando socorro a civis flagelados pelas guerras. Começou a vida cuidando de hordas de famintos e campos de trucidados em terras esquecidas como Bangladesh, Sudão, Moçambique e Camboja. No Líbano, escapou de tiros cruzados na pior de suas muitas batalhas. Idealista, era o brasileiro que construiu a biografia mais próxima à de Giuseppe Garibaldi. “Não esperem que eu fique tratando de direitos humanos apenas em gabinetes confortáveis”, disse recentemente. “Gosto de sujar as botas de lama”. Doutor em Filosofia pela Sorbonne, era um intelectual refinado que galgou os principais postos das Nações Unidas. Chefiou a missão da ONU na Bósnia, presidiu o Timor Leste e acabou eleito Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Na tarde de terça-feira, 19 de agosto, era Sérgio Vieira de Mello quem estava sedento. Representante da ONU no Iraque, ele viu um caminhão bomba explodir na frente de seu gabinete em Bagdá. Despencou dois andares. Uma viga de ferro prendeu suas pernas. Por duas horas, conseguiu falar ao telefone celular enquanto aguardava que lhe resgatassem dos escombros. “Água, água, água”, suplicou. Era o sinal clínico de hemorragia interna terminal. Logo depois o telefone emudeceu. Quando finalmente se chegou a Sérgio, só havia um corpo esmagado pelo terrorismo que tomou conta do Iraque desde que os Estados Unidos anunciaram, a 1º de maio último, que haviam vencido a guerra contra o regime de Saddam Hussein. Morreram na explosão 24 pessoas.

O ato chocou o mundo –uma comoção que não se via desde os atentados de 11 de setembro. “Não posso pensar em ninguém que fosse mais indispensável ao sistema das Nações Unidas que Sérgio”, lamentou Kofi Annan, secretário-geral da ONU. “Vieira de Mello empenhou sua vida para fazer avançar a causa dos direitos humanos”, disse o presidente dos Estados Unidos George W. Bush. Coube a Jacques Chirac, o presidente da França, resumir o sentimento internacional: “Estou consternado e irado”. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decretou luto oficial de três dias.

Vieira de Mello morreu aos 55 anos. A ONU, com a mesma idade, saiu gravemente ferida. Pode-se dizer, até, que a trajetória profissional do brasileiro como funcionário da organização, afeito a missões complicadas, no limite entre a guerra e a paz, acompanhou os problemas recentes da entidade. Chamada meses atrás de “irrelevante” pelo próprio presidente Bush, a ONU apela por reconhecimento e por novas atribuições no cenário internacional. Nesse sentido, o apelo desesperado do brasileiro por água, instantes antes de morrer, pode servir de metáfora à atual situação das Nações Unidas.

O atentado em Bagdá matou Vieira de Mello mas atingiu também uma idéia – a do multilateralismo das relações internacionais, em oposição ao vôo solo e arrogante dos Estados Unidos contra o Iraque. No pós-guerra, a ONU assumiu o papel secundário de assistência humanitária. Vieira de Mello tinha poderes vagos. Coordenava a distribuição de remédios e alimentos, mas só opinava (sem decidir) sobre assuntos menores. Quem manda de fato no Iraque é o governador Paul Bremer, instalado no cargo pelos EUA. Continue reading »

jul 10, 2014

A história secreta do acerto de contas (que nunca houve) entre Plínio e Dirceu

O deputado Plínio de Arruda Sampaio morreu, aos 83 anos, magoado com José Dirceu por conta do estranho “desaparecimento” de 4 milhões de dólares de sua campanha para governador de São Paulo. Coincidência ou não, o fato é que depois desse incidente tem início a déblâcle de Plínio dentro do PT e a espantosa ascensão de Dirceu na política nacional

Uma das máximas da política é que poder e liderança se constroem, principalmente, com dinheiro. Isto posto, narro abaixo uma história a qual só alguns membros da cúpula do PT e os mais íntimos de Plínio de Arruda Sampaio têm conhecimento:

Era fins de setembro de 1990, reta final da eleição para o governo do Estado de São Paulo, quando Plínio de Arruda Sampaio e José Dirceu protagonizaram um incidente que os afastaria um do outro para sempre e todo o sempre. Até então usufruíam da condição de grandes aliados políticos, mas também amigos. Plínio era o candidato a governador pelo Partido dos Trabalhadores; e José Dirceu, então deputado estadual, era candidato a deputado federal pela primeira vez. O primeiro, liderança nacional expressiva e consolidada; o outro, liderança estadual ainda em ascensão.

O PT, com apenas 10 anos de fundação, ainda um partido essencialmente ideológico, aliás, ícone da esquerda radical, que sobrevivia basicamente com as doações de seus próprios militantes, estava embalado com seus primeiros resultados políticos. Nas eleições de 1986, havia conseguido eleger sua liderança-símbolo, o metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva, como o deputado federal Constituinte mais votado do Brasil. Nas eleições de 1988, uma aguerrida militante social paraibana, Luíza Erundina, havia surpreendido a todos conquistando a Prefeitura de São Paulo — venceu Paulo Maluf e José Serra. No ano seguinte, 1989, nas eleições diretas para a Presidência da República, Lula também havia surpreendido ao conseguir disputar o segundo turno com Fernando Collor de Mello — ultrapassando na reta final lideranças muito mais relevantes na ocasião, como o governador Leonel Brizola, o favorito do início até a reta final, o senador Mário Covas e o deputado Ulysses Guimarães, o Dr. Constituinte.

Foi assim que, no pleito seguinte, 1990, o PT convocou  Plínio para ser candidato do partido ao governo do Estado de São Paulo. Era “O Cara”, com uma história política tão longa quanto relevante.

Continue reading »

ago 17, 2012

E se o Negão quiser ser candidato a presidente?

O Presidente Negro é um livro de ficção de Monteiro Lobato, de 1926, cuja trama se passa nos Estados Unidos, no ano 2028. Lobato cogitou tal possibilidade para os Estados Unidos em um futuro remoto, jamais para o Brasil. Já temos um possível nome, ainda que remoto. Com o julgamento do mensalão, o ministro Joaquim Barbosa chama mais uma vez a atenção para sua figura impar. É “O Negão”, personalidade que, segundo o imaginário popular, veio debaixo, do povão, chegou lá pela competência e hoje enfrenta com imensa coragem as elites políticas corruptas. Detalhe pouco lembrado: ele será presidente do Supremo (por antiguidade) em novembro de 2012, assim que terminar o julgamento do mensalão. Tem planos para enfrentar seus próprios pares a fim de mexer com as estruturas viciadas do Judiciário. Se der certo, pode vir a consolidar sua imagem popular. E depois disso? Qual o futuro que o Destino lhe reserva?

Eis o Negão: consolidando uma imagem de imensa coragem no imaginário social

Por Hugo Studart

Toda história deve ter início, meio e fim. E, nesse caso, o preâmbulo nos remete ao remoto ano de 2006, quando Joaquim Barbosa pegou a missão de relatar o processo do mensalão.  Naquela ocasião, Lula estava em frangalhos políticos, cogitava até mesmo não ser candidato à reeleição. Seu principal adversário era o Geraldo Alckmin, que jamais encantou. Vários partidos buscavam candidatos, como o PSol, que acabou disputando com Heloísa Helena, e o PSB, que lançou Ciro Gomes. Poucos acreditavam que Lula ressuscitaria das cinzas e ainda teria músculos para eleger uma técnica desconhecida e sem carisma como sucessora.

Sem ter nada a ver com a política, Joaquim acenou que seria duro com os réus do mensalão em seu futuro relatório. Fez simplesmente isso. Mas bastou um mero aceno para começar a construir uma imagem pública no imaginário popular, auxiliado por dezenas de reportagens que relatavam sua infância pobre em Paracatu, o filho de um mecânico de automóveis que passou no difícil vestibular em Direito da Universidade de Brasília Continue reading »

mai 13, 2011

Por que esse João ainda encanta?

Às vésperas do Vaticano anunciar a beatificação de João Paulo 2º, num dos mais rápidos processos da história para fazer de um simples Homem um grande santo, há de se perguntar por que ele ainda encanta? Qual o conteúdo mágico de suas mensagens? Talvez ele exprimisse a esperança de um tempo, aquela tumultuada transição rumo ao Terceiro Milênio

 

O Apóstolo da Nova Era

Por Hugo Studart

“Santo subito” – exigia a multidão durante os funerais de Karol Wojtyla, em abril de 2005. Vox populi, vox Dei – responderam os prelados católicos. Preparem-se, prezados leitores, pois vem aí o Papa-Santo! João Paulo 2º foi beatificado por seu sucessor, o teólogo Joseph Ratzinger, ora Bento 16, diante de 1 milhão de peregrinos. Foi o último estágio para sua canonização oficial. É intrigante entender o que fez desse homem alguém tão encantador? Seis anos após sua morte, como consegue continuar mobilizando multidões? Qual o conteúdo mágico de suas mensagens? Talvez esse papa exprimisse a esperança de um tempo. Já escreveram que ele seria o 13º Apóstolo. O Apóstolo do Novo Mundo.

Mas de onde viria seu poder? Na hierarquia das nações, um papa não passa de um sacerdote, o chefe dos católicos, cuja religião é praticada por somente 17% da população mundial. Manda de fato em alguns quarteirões da cidade de Roma (o Vaticano) e em alguns milhares de sacerdotes espalhados pelo mundo. Contudo, talvez pelo que disse, ou quem sabe por conduta pessoal, a verdade é que não houve na transição dos séculos XX para o XXI nenhum outro líder político ou religioso de quem emanasse tanta autoridade moral. Ele foi decerto um dos gigantes do cenário político mundial, como Churchill e Adenauer, talvez o último apóstolo com visões amplas e princípios universais a apontar para um novo mundo – daquela estirpe que gerou Gandhi e Martin Luther King. É intrigante entender o que fez desse homem alguém tão especial.

Por onde passava, governantes paravam para recebê-lo, e multidões corriam para aclamá-lo. Beijava o solo de todos os países onde passava. Reunia legiões que ultrapassam, com freqüência, 1 milhão de pessoas. Quase 200 milhões foram às ruas aplaudi-lo e seu rosto foi conhecido por mais da metade da humanidade. A história ocidental registra que, antes dele, somente três homens haviam mobilizado multidões fora da terra natal – Alexandre da Macedônia, Júlio César e John Kennedy. Em seu pontificado, pronunciou 2.357 discursos no exterior, fez 102 viagens, levou sua pregação a 129 povos e nações, visitou 620 cidades. O recordista anterior era o papa Paulo VI, com 12 viagens. “Ide e proclamai a minha palavra”, ordenou Jesus aos discípulos – lembraria João Paulo 2º no início do pontificado. Então, percorreu quase 1,2 milhão de quilômetros em linha reta, o que equivale a dar 30 voltas em torno da Terra (ou três vezes a distância até a Lua), façanha capaz de acanhar aventureiros do quilate de Marco Polo. Somente o apóstolo Paulo de Tarso, no início do cristianismo, havia ousado algo semelhante, ao peregrinar por todo o Império Romano para levar sua mensagem.

Somente dois grandes países não receberam a visita de João Paulo 2º: China e Rússia. Tinha claro desprezo pela morte. Arriscou a vida em uma nação muçulmana, a Bósnia, a fim de rezar uma missa para 35 mil pessoas debaixo de forte nevasca. Quando não conseguiu autorização para ir à China, foi pregar para alguns poucos milhares nas ilhas Fiji e Seychelles. Continue reading »

jan 14, 2010

Quando Deus chama um poeta

BRUNO TOLENTINO Era um intelectual de estirpe clássica, escreveu sua apologia em Oxford e desceu ao inferno para resgatar os demônios. Queria morrer como um filósofo. De volta ao Brasil, virou uma peste. Encontrou um país devastado pelas panelinhas ideológicas, deu início a uma faxina cultural e decidiu escolher um outro fim, o de um kamikaze. Entrei em seu apartamento no exato momento em que o poeta soube que em breve iria morrer de Aids. Quis a providência que a primeira pessoa a escutar o poeta em suas reflexões sobre a vida após o aviso da morte fosse um repórter (Publicado originalmente pela revista República)

Tolentino: oito horas consecutivas de entrevista com o poeta sensibilizado pela informação de que iria morrer de Aids

Por Hugo Studart

Em 1964 Cecilia Meireles foi visitada em seu leito de morte por um jovem poeta de boa estipe, um certo Bruno Tolentino. O rapaz sentou-se à cabeceira da musa e, comovido, compôs um longo poema –depois desapareceu do Brasil e nunca mais se ouviu falar de sua pena. Ficaram os versos, no qual ele explica como gostaria que fosse sua própria morte:

– Esta vida se compõe de curas/ provisórias e sucessivas,/ mas tu, por muito mais que vivas,/ te curaste só das amarguras:/ nem peço cura mais tranquila/ para mim. Tentarei repetí-la.

Passaram-se mais de três décadas. Diria hoje um poeta da velha estirpe, como já é o caso de um Tolentino, que nada, nada mais é como dantes, posto que o bafo da morte acabara de se fazer anunciar. “Soube ontem do resultado da biópsia”, revelou, já nas primeiras das muitas revelações desse encontro. “Estou com câncer”. Em verdade era Aids, confessaria ele mais tarde. Quis a providência que a primeira pessoa a escutar o poeta em suas reflexões sobre a vida após o aviso da morte fosse um repórter.

– Chegou a minha vez e eu vou ter que encarar mesmo esse negócio… Estou com muita saudade de Deus, há muito que ele não me aparece. Talvez agora possa me dar mais atenção.

Bruno Tolentino, 56 anos, professor muito amado, ensaísta renomado, pensador erudito, polemista sádico, católico fervoroso e poeta –um dos maiores da atualidade, garantem seus pares europeus– está ansioso.

– Há situações extremas, como a do encarceramento ou a iminência da morte, em que a criatura se confronta com questões fundamentais. Então caem as máscaras e a introspecção torna-se inevitável. Essa solidão é produtora de poesia, ou de desespero. Continue reading »

jan 12, 2009

Concluam os próprios senhores se Palocci é um homem probo

 

Antonio Palocci ensaia tomar o lugar de Dilma Roussef como candidata do PT à sucessão de Lula. Ou, o que é mais provável, ser o candidato do partido ao governo de São Paulo. O jornal Valor Econômico desta segunda-feira 12 de janeiro publica na primeira página matéria sobre os planos políticos de Palocci. Trata-se de um balão de ensaio, naturalmente. Ocorre que tem telefone no meio do caminho – com provas de que ele teria usado o Ministério da Fazenda para montar (ou facilitar) um esquema de tráfico de influência no governo, a chamada “República de Ribeirão Preto”, ou mesmo mantido contato insistente com a cafetina Jeane Mary Corner, lembram-se dela? Trata-se do número 8111-7197, de Brasília, usado por Palocci quando era ministro da Fazenda.

O sigilo desse número foi quebrado há dois anos. Todos os detalhes estão no processo em poder do presidente do Supremo, Gilmar Ferreira Mendes, no qual Palocci é acusado de mandar quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa. O caseiro, vale à pena recordar, trabalhava na mansão no Lago Sul, em Brasília, onde os amigos de Palocci usavam como escritório de lobby e garçonière para orgias. Francenildo viu Palocci várias vezes na mansão. Para tentar desmoralizá-lo, um assessor de Palocci conseguiu quebrar o sigilo bancário do caseiro. Palocci acredita que, depois de absolvido pelo Supremo, ficará livre para tentar ser candidato a presidente. Ou a governador.

Seu maior desafio é conseguir dar um jeito do ministro Gilmar não considerar as provas contidas na quebra do sigilo telefônico. São exatamente 53.385 ligações feitas ou recebidas. Dentre as já identificadas, há 16 chamadas para um número em nome de José Dirceu, 13 para Paulo Bernardo e 7 Armínio Fraga. Há ligações pessoais, como 155 para um número em nome da Sra. Margareth Palocci, sua esposa, e outras 16 para a Sra. Jeane Mary Corner.

O problema principal de Palocci é explicar as chamadas para os principais personagens envolvidos em uma série de casos de possível corrupção relacionados ao ex-ministro.

-    Há 1.748 ligações entre Vladimir Poleto, suspeito de montar, junto com os irmãos Ralf e Ruy Barquete, um esquema de lobby em Brasilia para renovar o contrato da Loteria da Caixa Econômica Federal com a multinacional GTech. Poleto também teria transportado 3 milhões de dólares cubanos para o PT. Palocci negouem depoimento à CPI dos Bingos que conheça Poleto. Continue reading »

out 12, 2008

Memórias de um pássaro híbrido sobre ditadura –e também a democracia

Sua casa, erguida num canto discreto e bucólico do bairro do Lago Norte, em Brasília, vem sendo há décadas cenário de conspirações, articulações políticas e debate de idéias. Afinal, JARBAS PASSARINHO é personagem proeminente do período republicano que começou com o regime militar de 64, passou pela redemocratização e prossegue pela atual fase de globalização. Coronel de Artilharia, administrador cartesiano, acabou quatro vezes ministro — do Trabalho (Costa e Silva), da Educação (Emílio Médici), da Previdência (João Figueiredo) e Justiça (Fernando Collor). Leitor compulsivo, orador refinado, articulador paciente, destacou-se também como um dos grandes políticos da restauração democrática. Foi eleito senador três vezes, foi governador do Pará e chegou a presidente do Congresso.

Aos 87 anos, seis livros publicados (escreve o sétimo, sobre a Amazônia), dedica seu tempo entre dar consultoria para indústrias e escrever artigos para nove jornais analisando nossa história, esses tempos de política interna conturbada e de inserção do País na economia global. Dias atrás, escarafunchando a memória, Passarinho se lembrou que em fins de 1973, quando terminava a Guerrilha do Araguaia, o general Antônio Bandeira o procurou em segredo para pedir que abrigasse cinco presos políticos. Ele ajudou. As organizações de direitos humanos suspeitam que exatamente cinco dos guerrilheiros do Araguaia teriam recebido nova identidade e depois entrado para a lista de desaparecidos. Passarinho pode ser a chave para desnudar esse episódio ainda não resolvido da história. Na noite de terça-feira 12, ele recebeu os jornalistas Hugo Studart e Rudolfo Lago em sua casa bucólica (Publicada originalmente pela revista IstoÉ):

PERGUNTA – Dentro de alguns dias a Secretaria de Direitos Humanos inicia uma nova tentativa de encontrar os corpos dos desaparecidos no Araguaia. Qual as chances de sucesso?

PASSARINHO – Sou muito pessimista. Acho que numa luta de floresta é muito difícil que se consiga tantos anos depois encontrar corpos de pessoas ali enterradas. Essa é uma luta permanente. Já fizeram várias tentativas. Nada conseguiram. Quando eu era ministro da Justiça, fui procurado por um grupo de parentes de desaparecidos. Me comoveu uma senhora, mãe dos irmãos Petit. Ele perdeu três filhos (Maria Lúcia, Jaime e Lúcio Petit). O que ela desejava era poder dar a cada um deles uma sepultura cristã. Eu concordo com isso e tentei ajuda-la. Mas não consegui informações. Depois eu pensei que seria possível quando um ex-tenente, piloto de helicóptero, aceitou voltar ao local para tentar localizar. Mas ele mesmo não conseguiu. A floresta muda. Os pontos de referência se alteram. Continue reading »

out 6, 2008

Eis o novo Gabeira, um transgressor quase conservador

Fernando Gabeira vem construindo há 40 anos uma biografia de transgressor. Primeiro, lá pelos tempos do regime militar, abandonou a vida burguesa e caiu na clandestinidade da guerrilha urbana –sua maior façanha, vale sempre lembrar, foi participar do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969. De volta do exílio com a Anistia de 1979, chocou o país (e principalmente a esquerda ortodoxa) ao fazer a crítica e a autocrítica da luta armada, vestir uma tanguinha e começar a pregar a política do corpo.

Ontem, 5 de outubro 2008, Gabeira voltou a transgredir. Lula tinha nada menos que três candidatos com chances de virar prefeito do Rio de Janeiro – Eduardo Paes, Marcelo Crivella e Jandira Feghali. Gabeira, apesar do seu partido, o PV, estar na base aliada, não era um deles. Pois Gabeira surpreendeu na reta final.

Na política pós redemocratização, esse político já foi petista, transformou-se em fundador do Partido Verde, voltou ao PT e está de novo no PV – parece que, agora, para sempre. Com quatro mandatos de deputado federal, sempre pelo PV do Rio de Janeiro, é um notório militante das causas ambientalistas, defensor do casamento gay e da legalização do consumo da maconha –só que, agora, recuou para a legalização com nuances.

Enfim, aos 68 anos, duas filha adultas, Gabeira continua buscando os limites da transgressão. Em maio de 2007, eu e o jornalista Rudolfo Lago fizemos uma longa entrevista com Fernando Gabeira, publicada parcialmente na Istoé. Naquela ocasião, ele observava com atenção as transgressões da pauta, como a greve dos servidores do Ibama, a invasão da usina de Tucuruí e a ocupação da reitoria da USP pelos estudantes. O ex-guerrilheiro Fernando Gabeira, quem diria, virou um crítico das transgressões exageradas. Mais, prega mais firmeza das autoridades. A entrevista continua atual, para entender o novo Gabeira – e como ele administrará, se eleito, a cidade mais conflituosa do Brasil.

 PERGUNTA – Chegou a hora da união entre homossexuais?

GABEIRA – Se você entender o casamento como deve ser, sem nenhuma conotação religiosa, mas como uma união entre duas pessoas, mais do que chegou a hora. É como a abolição da escravatura. Será que, de novo, nós só vamos fazer quando já tiver acontecido em todas as outras partes do mundo? O mundo todo está indo nessa direção. Como a estrutura política é muito conservadora, vai ser preciso o povo pressionar, como na abolição da escravatura. E eu acho que a sociedade já está madura para absorver isso. Continue reading »

jul 30, 2008

O homem-farol e a vocação agrícola do Brasil

“Quem foi a figura histórica que mais contribuiu para a agricultura brasileira?”, indagou Kátia Abreu, senadora e presidente da Confederação Nacional da Agricultura.

“Foi o barão de Mauá, pois com a estrada de ferro ele criou a logística”, respondeu um amigo de Kátia.

“Foi o Alison Paulinelli, que iniciou a conquista do cerrado”, respondeu outro.

“Foi o Roberto Rodrigues, que abriu os mercados globais”, disse mais um.

“Nenhum deles”, arrisquei intervir na conversa. “Foi o professor Eugênio Gudin, sem dúvida”.

Kátia virou os olhos para cima, como quem puxa informações da memória e me perguntou por quê? Raposa velha que é, o ex-senador Jorge Bornhausen acha Kátia perspicaz. Gudin era informação diferente para ela. “Por quê?”, insistiu.

“Porque foi ele o primeiro a defender com fervor nossa vocação agrícola, ele dizia há mais de 50 anos que o papel natural do Brasil era o de ser o celeiro da humanidade”, respondi. “Ele é o pai do liberalismo econômico brasileiro”, insisit. “Então escreve um artigo defendendo Eugênio Gudin”, sugeriu Kátia. Eis: Continue reading »

jul 17, 2008

Como Luis Favre, o marido de Marta Suplicy, apareceu com duas contas em Cayman

Eis os números, para inicio de conversa – contas 60.356356086 e 60.356356199, do Trade Link Bank nas Ilhas Cayman. Agora, vamos á história

 

Felipe Belisario Wermus, argentino por nascimento e cidadão francês por adoção, é personagem central das eleições para a Prefeitura de São Paulo. Você o conhece, prezado leitor, mas por outro nome Luís Favre – codinome pelo qual Felipe é chamado nos bastidores da esquerda brasileira. Companheiro da candidata do PT à prefeitura, Marta Suplicy, Favre é seu braço direito, melhor amigo, amado, confidente, conselheiro-chefe, estrategista-mor, tesoureiro-oculto. Favre é o principal baluarte de Marta. É também seu ponto mais fraco.

A Polícia Federal e o Ministério Público de São Paulo têm informações explosivas sobre o companheiro de Marta Suplicy. A suspeita é a de que um senhor chamado Felipe Belisário Wermus seria o principal elo entre o PT e um esquema internacional de arrecadação de dinheiro a partir dos serviços de coleta de lixo nas capitais brasileiras. Esse esquema teria funcionado em prefeituras controladas pelo PT, como São Bernardo, Belo Horizonte, Brasília, Goiânia, Campinas e São Paulo. A Vega, multinacional francesa de serviços, seria o elo empresarial do esquema.

A PF suspeita que a Vega controle um grupo de empreiteiras que ganham licitações superfaturadas para a coleta de lixo. Em média, 10% de superfaturamento, sendo 5% para as empreiteiras, e 5% para o caixa do PT. Esse dinheiro era todo repassado ao doleiro Toninho da Barcelona, que o depositava em contas em paraísos fiscais controladas por um tal Felipe Belisario Wermus. Esse dinheiro voltava ao Brasil também por intermédio de Barcelona.

As autoridades têm os bancos e os números das contas no exterior, publicadas abaixo. O esquema teria sido montado antes da eleição presidencial de 2002. Se Delúbio Soares e Marcos Valério montaram o Caixa Dois do PT no governo Lula, estamos diante da suspeita de que Luís Favre, hoje favorito para se tornar o primeiro-companheiro de São Paulo, caso Marta seja eleita, tenha montado o Caixa Zero.

Vamos aos fatos: Continue reading »

jul 16, 2008

Gilmar Mendes, o Soltador da República por ter razão

O ministro do Supremo, que ganhou dos adversários o título de soltador-geral da República, é o ícone de um processo histórico no qual o STF começa a valorizar mais os direitos fundamentais e a nocautear os poderes do Estado

Por Hugo Studart

Virou rotina: a polícia prende empresários, políticos e toda sorte de figurões – e o ministro Gilmar Ferreira Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal assina o habeas corpus. Foi assim quando, dias atrás, libertou (duas vezes) o banqueiro Daniel Dantas e todos os executivos do Opportunity, presos na Operação Satiagraha, da Polícia Federal, sob acusação de formação de quadrilha e de lavagem de dinheiro. Com seu ato, Gilmar criou uma das maiores polêmicas na história do Judiciário, ganhou o título de Soltador-Geral da República e inimigos poderosos que fazem campanha por seu impeachment.

Todo mundo quer os bandidos na cadeia – e a onda do momento é apanhar os peixes graúdos, o que é muito bom para as instituições democráticas. Mas ao examinar o ato de Gilmar pela perspectiva maior, a do longo prazo, descobre-se que ele pode ter razão. A libertação de Dantas não é um ato isolado. Ano passado, quando era o vice do Supremo, Gilmar também mandava soltar todo mundo.

Na Operação Navalha soltou 13 acusados num único final de semana. Foi ele também quem desconstruiu a festejada Operação Anaconda. Em outra série de atos controvertidos, liberou todos os presos da Hurricane. Também liderou uma votação que livrou de punição o embaixador do Brasil na ONU, Ronaldo Sardemberg, condenado antes por improbidade administrativa, para que pudesse assumir a Presidência da Agência Nacional de Telecomunicações, Anatel. Numa de suas canetadas mais polêmicas, mandou soltar até um criminoso confesso, o cirurgião paulista Farah Jorge Farah, aquele que assassinou e esquartejou uma ex-namorada.

“Há um clamor público para manter os figurões na cadeia”, admite o ministro Gilmar. “Mas o habeas corpus é um instrumento democrático”.

“Toda vez que a polícia e o Ministério Público forem incompetentes na investigação, arrumarem provas frágeis e produzirem acusações inconsistentes ou infantis, serei obrigado a soltar”, prossegue. “Isso não rima com impunidade, mas a condenação tem que ser dentro do devido processo legal”.

Vêm novas canetadas polêmicas de Gilmar por ai. Continue reading »

jul 16, 2008

Como surgiu Luis Favre, o namoradino da dona Marta?

por Carlos Ilich Santos Azambuja

          Felipe Belisario Wermus, argentino de nascimento, é dirigente (ou foi, como ele diz) do grupo trotskista Quarta Internacional/Centro Internacional de Reconstrução (QI/CIR), organização constituída em 1981, na França, com a finalidade de coordenar internacionalmente uma corrente do trotskismo.

         O grupo trotskista francês Corrente Socialista Internacionalista é a seção majoritária e, portanto, detém a hegemonia dentro da QI/CIR. Felipe Belisario Wermus é (ou foi, como ele diz), da direção dessa Corrente.

         A QI/CIR possui seções trotskistas vinculadas em mais de 50 países, entre os quais o Brasil (corrente O Trabalho na Luta pelo Socialismo, que atua dentro do PT).

         Felipe Belisario Wermus esteve no Brasil, pela primeira vez, em 1973. Depois, viveu aqui algum tempo, nos anos 80, e posteriormente em Paris, onde era radicado, tendo como companheira a brasileira Marilia Furtado de Andrade (filha de Gabriel Andrade, um dos sócios da empresa Andrade Gutierrez) também trotskista e, na época, dirigente de O Trabalho na Luta pelo Socialismo. Diz-se amante da música clássica, das artes culinárias, cinéfolo e político. Continue reading »

fev 20, 2007

É Paulo Maluf quem afirma: “Lula é mais malufista do que eu”

O que está acontecendo com o velho Paulo Maluf quando sai por ai elogiando o presidente Lula. Será que Maluf lulou? “Não, Lula é que malufou, ele está aderindo às minhas idéias”, responde o candidato do PP a prefeito de São Paulo. “Lula caiu na real e hoje defende as idéias do Paulo Maluf quando foi candidato à Presidência há 20 anos atrás.” E prossegue certeiro, implacável: “Lula está à minha direita, ele até delfinhou, escuta mais o Delfim Netto, meu companheiro de 50 anos, do que o PT”. Maluf arremata: “O Banco Central do Henrique Meirelles faria até o saudoso Roberto Campos se envergonhar; ele defende banqueiro com tanto fervor que faz eu me sentir comunista”. Ah, sobre as contas bancárias do exterior, é tudo fantasia, naturalmente.

A voz anasalada é a mesma. As frases de efeito, sempre viscerais, também. Mas Paulo Maluf velho de guerra é uma nova pessoa. Depois de 40 anos de vida pública, na qual foi prefeito de São Paulo duas vezes, governador uma e candidato derrotado outras sete, depois de amargar 40 dias numa prisão da Policia Federal, apanhado pelo mesmo delegado Protógenes Queiroz que pescou Daniel Dantas, Naji Nahas & Cia na Operação Satiagraha, ele está de volta à política. Primeiro foi eleito deputado federal pelo PP paulista, com 739 mil votos, a maior do País. Maluf chegou ao Congresso Nacional mais sereno, sábio, seguro, e esbanjando bom humor. Agora ele está de volta à sua cidade, candidato a Prefeito. Tudo indica que vá guardar a oitava derrota em sua coleção. Mas tudo bem, como rege o irônico jargão de seus muitos inimigos, afinal Maluf é um candidato competente – compete, compete, compete…

Tudo bem, pois mesmo que perca, Maluf está extremante feliz com as obras – as obras de Lula, ressalte-se. Afinal, segundo Maluf, tudo o que sonhou fazer caso um dia fosse eleito presidente (um acalento que jamais será realizado, conforma-se), seu velho adversário Lula agora está realizando. Lula faz — e faz melhor do que Maluf admite. “O Lula está mais malufista do que eu”, ironiza. Por essas razões, Maluf não guardará magos dos eleitores se for de novo derrotado em outubro. Aocompetir, vai dividir o eleitorado conservador e ajudando o malufista Lula a eleger a candidata Marta Suplicy. A entrevista abaixo foi originalmente concedida para os jornalistas Hugo Studart e Hugo Marques, da IstoÉ. Com vocês, prezados leitores, Paulo Maluf velho de guerra:

– O Sr. voltou à política falando bem do presidente Lula e até o visitou no Palácio do Planalto no ano passado. O que está acontecendo, Maluf lulou?

– Não, eu não lulei, o Lula é que malufou, ele está aderindo às minhas idéias. Meses atrás Lula disse que quem na juventude é socialista está certo e quem depois dos 60 anos continua com as mesmas idéias tem que procurar um psiquiatra. Ele caiu na real e hoje defende as idéias do Paulo Maluf quando foi candidato à Presidência há 15 anos atrás. E defende as idéias liberais com mais ardor do que eu. Ele até “delfinhou”, escuta mais o Delfim Netto, meu companheiro de 47 anos, do que o PT. Enfim, tudo aquilo que eu pregava, o Lula engatou a quarta, botou 8 mil rotações e está andando a300 quilômetrospor hora. Hoje ele está à minha direita, o Lula é mais malufista que eu. Continue reading »

jan 10, 2007

Dicionário do Lulismo –ou a retórica de um messias em mutação

O presidente construiu uma obra monumental de 1.151 discursos que falam muito dos pobres e abusam das promessas sobre um futuro melhor. Depois de passar o primeiro mandato usando verbetes como “paciência” e provérbios como “o apressado come cru”, Lula mudou de retórica. Já repetiu 137 vezes que o País tem pressa e que chegou a hora de acelerar o crescimento

por Hugo Studart

Cada presidente marcou sua passagem pelo poder com um estilo próprio de mobilizar a sociedade para os projetos nacionais. Getúlio Vargas, por exemplo, foi o primeiro a tentar a comunicação direta com o povo. Sempre que falava, tinha algo de importante a dizer. O País costumava parar a fim de ouvi-lo. Juscelino Kubistchek falava muito pouco, mas vivia colando sua imagem a obras e fábricas. Quando abria a boca em público, marcava o compasso com textos líricos, bem preparados, instigando o País a criar um futuro melhor. Fernando Henrique foi mais eloqüente. Falava em média duas vezes por semana, em tom professoral, quase solene. Estendia-se em longos improvisos quando tinha resultados concretos a festejar e, dizia-se até, tentava levar o País no gogó. Nenhum deles, contudo, supera Luiz Inácio Lula da Silva. Em anos de mandato, Lula construiu uma obra monumental de nada menos que 1.151 discursos –contra 750 de FHC, em oito anos. Lula falou em média de 5,5 vezes por semana. Impressos, seus discursos e entrevistas ultrapassam 7.500 páginas de papel ofício. Original na forma, o presidente tem um estilo emotivo de dizer o que pensa, repleto de metáforas e parábolas, sem paralelos entre os 48 mandatários brasileiros. Mas ele inovou também no conteúdo. Sua obra discursiva revela uma retórica que promete muito sobre economia e abusa dos acenos sobre um futuro melhor. Neste momento, seu tema predileto é acenar com o crescimento econômico. O que mais chama a atenção é que Lula tem declinado promessas genéricas com quatro vezes mais intensidade do que tem conjugado verbos como “decidir”, “resolver” e “fazer”.

Desde que virou presidente, há quatro anos, Lula vem tocando essencialmente em três assuntos. Seu predileto, que acabou criando uma imagem positiva de seu governo no exterior, é o combate à fome. Até a semana passada, Lula já havia prometido 2.036 vezes reduzir a miséria e colocar comida no prato do povo –quase dez vezes por semana. Outro tema sempre presente em seu dicionário é a geração de empregos. Lula já prometeu mais trabalho em 444 ocasiões. Está igualmente com a língua sempre pronta para prometer crescimento econômico, investimentos e obras. Só a palavra desenvolvimento, sua predileta, já foi repetida em publico 798 vezes. No total, o presidente já prometeu um País melhor, com mais crescimento, investimento e emprego, 2.105 vezes –significa duas promessas para cada dia de trabalho. “Eu tenho certeza de que nós teremos quatro anos de muito otimismo neste País, de muito crescimento”, repetiu Lula em seu discurso de posse. Analisando-se os discursos, por períodos, é possível descobrir qual o rumo que o presidente quer dar ao País em cada fase de seu governo. Ele prometia crescimento com mais intensidade nos nove primeiros meses do primeiro mandato. Depois passou três anos abusando de provérbios como “apressado come cru” e que “não se deve dar cavalo-de-pau em transatlântico”. Lula pediu aos eleitores que tenham paciência e aos ministros que tenham cautela em 161 discursos. E repetiu 202 vezes que o governo não se deve ter pressa em apresentar resultados. Conseqüência: seu primeiro governo foi quase parado, com nenhuma obra à altura da retórica presidencial.

Mas há boas novas nos discursos mais recentes. Desde que substituiu Antônio Palocci por Guido Mantega no comando da economia, em março, e ato contínuo entrou em campanha eleitoral, em junho, Lula deu cavalo-de-pau em sua retórica. Os chavões da paciência foram pronunciados somente 19 vezes. Em compensação, nesse curto período, já martelou 137 vezes que chegou a hora de acelerar o crescimento e de destravar a economia. O “povo” continua sendo seu verbete predileto. Nesse período, se referiu ao povo 104 vezes, outras 81 aos pobres, prometeu reduzir a miséria 17 vezes e outras 17 assegurou que vai melhorar o Bolsa Família. Há outras indicações. Há quatro anos ele vem se comparando a uma mãe. No dia da posse, em seu discurso de improviso no Parlatório, anunciou que continuará fazendo o que faz uma mãe: “Eu cuidarei primeiro daqueles mais necessitados, daqueles mais fragilizados, daqueles que mais precisam do Estado brasileiro”. “Os pronunciamentos presidenciais sempre foram momentos solenes de comunicação com o povo, mas Lula está conseguindo banalizar esse instrumento”, critica o cientista político Antônio Lavareda, que por oito anos foi o analista das pesquisas de popularidade de FHC. “Os discursos de Lula têm sido extremamente eficazes para se estabelecer uma comunicação direta com o povo”, diz o professor Flávio Aguiar, da USP, especialista em análise do discurso. “Cada vez que ele fala, consegue criar uma enorme aura de sinceridade”, acrescenta.

Lula tem a seu dispor cinco pessoas só para escrever seus discursos, mas preferiu falar de improviso em 85% das vezes. Geralmente só lê discursos formais em grandes solenidades, como sua posse, ou nas viagens internacionais, quando o texto precisa ser traduzido com antecedência e exatidão. Nessas horas, o texto final é do ministro Luiz Dulci, secretário-geral da Presidência, ou do jornalista Carlos Tibúrcio, seu ghost writer há uma década. Foi Dulci quem construiu o discurso da posse no primeiro e no segundo mandato –desta vez, com a ajuda do assessor internacional Marco Aurélio Garcia e do marqueteiro João Santana. Mas nenhum desses discursos consegue ser tão criativo quanto os improvisos do presidente. No início do governo, quando o presidente já demonstrava o ímpeto pelo improviso, sua assessoria mandou fazer uma pesquisa sobre o assunto. Festejou quando descobriu que Lula vinha se comunicando direto com as classes C, D e E, sem a intermediação da imprensa. E que o povão entende seus discursos e memoriza suas idéias muito mais do que na época do professor FHC. Há muito que Lula já ultrapassou seus antecessores em eloquência. O problema é que, até agora, sua monumental obra discursiva é que é feita muito mais de promessas do que de realizações. A boa nova é que, agora, Lula vem prometendo fazer mais.

dez 12, 2006

Para entender Henrique Meirelles, o homem que reinou por quase uma década na economia e sonhou com o lugar de Lula

 São três diferentes momentos na vida desse financista. Primeiro, seu perfil quando foi confirmado presidente do Banco Central no segundo mandato de Lula, em texto parcialmente publicado na revista Istoé, em dezembro de 2006. No segundo perfil, de dezembro de 2002, quando ele tomou posse no BC e anunciava que gostaria de ser candidato a Presidência da República. Por fim, 15 histórias sobre seu passado, jamais publicadas, que ajudam a entender esse homem público que mandou por quase uma década na economia brasileira

Para lembrar que Meirelles era chamado de “fiador da estabilidade” e, dizia-se, o Brasil não poderia sobreviver sem ele

 

– Inflação na meta, inflação baixa e estável. E equilíbrio no balanço de pagamentos… e também o equilíbrio fiscal. Ninguém fez isso tudo antes. Não, tudo isso junto.

Ele desabotoa o paletó, se ajeita na cadeira de espaldar alto. Saca a caneta e começa a falar pausado, didático, rabiscando uma folha de papel:

– Ora, é evidente que este governo não inventou a Lei da Gravidade nem estabilizou a economia sozinho. É um processo, que começou nos anos 80 com a extinção da conta movimento. Fernando Henrique nos deixou como legado uma inflação baixa. Neste governo, a grande mudança é que ancoramos a expectativa de inflação. Hoje o mercado tem a certeza de que o Banco Central vai cumprir a meta de inflação.

Meirelles chegou ao Banco Central com nossa economia em crise, com inflação de 12,5% ao ano (e crescendo), reservas internacionais de US$ 38 bilhões (muito baixas) e taxa de juro real de 18,5%. E o que Meirelles fez? Aplicou, com ortodoxia, os cânones monetaristas. Sua primeira medida foi levar o Copom a subir os juros. Manteve o juros na estratosfera, os mais altos do planeta por mais de dois anos. Continue reading »

ago 25, 1995

A queda do Barão da Bahia

ÂNGELO CALMON DE SÁ era o último remanescente da velha aristocracia educada na Suíça. A débâcle de seu banco, sob churrio público, representou a tomada por completo do poder econômico e político dos emergentes, outrora denominados noveaux-riches

 

Calmon de Sá: orgulho da Bahia

Por Hugo Studart
(Publicada originalmente pela revista Interview)

Duas mil orquídeas, mil antúrios híbridos e quinze galerias de tapetes persas espalhados pela nave do Mosteiro de São Bento ainda emprestaram uma certa suntuosidade merecida ao acontecimento. Foram despachados 2.600 convites e, pelo calor humano denunciado nas maquiagens de algumas baroas, é provável que ninguém tenha faltado. O trânsito do Centro Histórico de Salvador foi desviado para dar vazão aos tilburis turbinados. Fora do templo, um enxame de mulambos desandava a aplaudir a noiva, linda como princesa, e se acotovelava para tirar uma lasquinha daquele que prometia ser um bolodório retado.

Mas a recepção, na casa da donzela, foi o primeiro sinal exterior de que algo de bodoso estava ocorrendo no bolso do paizão. Para começar, havia apenas 750 convivas e uma renca de quase 2 mil barrados. O salmão chileno foi servido com regulagem espaçosa e o caviar era norueguês, dos baratos, desses de 250 dólares o quilo. Uísque, somente oito anos, John Walker Red Label, o mais óbvio, e o vinho era adocicado, Liebfralmilch, ideal para bárbaros alamanos. Ainda houve uma certa concessão na primeira rodada de champanhe, Veuve Cliquot, mas os garçons logo mandaram braza num M.Chandon, nacional. Teria sido tudo muito correto no casamento de Ana e Pedro, até perfeito, fossem eles dois jovens ricos, apenas ricos, ou mesmo fizessem parte dessa tal Sociedade Emergente. Ficou fora do tom por conta da linhagem nobre do casal.

Aninha é filha do magnata Ângelo Calmon de Sá, duas vezes ministro da República, industrial da petroquímica, dono de três fábricas de Coca-Cola, maior exportador de cacau do Brasil, capo de uma das grandes criações de nelore do mundo e, naqueles dias, chairman do mais antigo banco da América Latina, o Econômico, potência de 161 anos na ocasião. Pedro, de sobrenome Didier, também é egresso de uma das mais nobres cepas locais. Continue reading »

jul 27, 1994

Anotações sobre o homem FHC para entender (ou esquecer) quem foi o presidente FHC

Eis algumas anotações para ajudar a compreender quem de fato foi Fernando Henrique Cardoso. Era julho de 1994 quando Michael Koellreutter, editor da revista Interview, pediu-me para apurar tudo o que se sabia até então sobre o candidato a presidente FHC. O texto publicado acabou bem reduzido, editado lado a lado com um perfil sobre Lula. Encontrei o relatório original em meus arquivos antigos. Há informações muito interessantes sobre como agia e o que pensava esse senhor antes de virar o presidente. Vocês sabiam que, quando crianca, Fernando Henrique dizia que um dia seria senador e cardeal? Decidi publicar o relatório original, sem revisões. Talvez no futuro ajude algum historiador a traçar um retrato mais fiel sobre o homem que, depois de chegar ao poder, criou a máxima: “ESQUEÇAM O QUE ESCREVI”.

DADOS PESSOAIS – Fernando Henrique Cardoso nasceu no Rio de Janeiro, a 18 de junho de 1931. Tem, portanto, 63 anos e e’ do signo de gemeos. Ele tem 1,78 m de altura, 78 quilos, quatro circurgias por razoes diferentes e uma excelente saude. Filho de um oficial do Exercito, foi alfabetizado pela propria mae, Nayde. Quando bebe, certa noite Nayde passeava de carrinho pela Praia de Botafogo quando viu num repente o Cristo Redentor iluminado. Era a primeira vez que eram acesas as luzes da estatua. Mamae viu nisso um pressagio de que o filhinho teria um futuro grandioso, protegido pelos santos.

Certa vez ele confessou que nunca gostou de historias de fadas. Crianca, dizia nas brincadeiras que seria senador ou cardeal. Ha’ dez anos, antes mesmo de ganhar sua primeira eleicao, confessou pela primeira vez que planejava se candidatar `a presidencia da Republica. Nao torce por nenhum time de futebol, em julho soube vagamente quem era Romario e Bebeto, adora ler Alexis de Toqueville e tem em “Jesus Alegria dos Homens”, de Bach, sua musica predileta. Ele so’ nao gosta mesmo e’ de ficar dando tapinha nas costas do proletariado para pedir votos. Mas desde que mergulhou no corpo-a-corpo da campanha presidencial, ja’ abracou tanta gente feia e suada que nao tem mais reservas com essa situacao vexaminosa.

MULHER: RUTH

Voces ainda vao ouvir muito falar dessa senhora. Isso se FHC ganhar a eleicao presidencial. Se perder, ela deve continuar na moita. A antropologa Ruth Correa Leite Cardoso, professora da USP, tem vida propria, opinioes proprias e brilho proprio. Ela nao e’ do tipo de paparicar marido por onde ele va’, pegar na maozinha, servir cafezinho e dizer amem. Se necessario, ela sobe em palanque, mas so’ diz o que quer. Continue reading »

Fotos

  • Martin Luther King Martin Luther King
  • Mandela Mandela
  • Paulo de Tarso Paulo de Tarso
  • Kenobi Kenobi
  • Proudhon Proudhon
  • Tereza Tereza
  • Yoda Yoda

Canais

Amigos do Blog no Face

Conteúdos mais lidos

Arquivo

agosto 2016
D S T Q Q S S
« dez    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Tags

Area Administrativa

Escolha o Indioma

'