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abr 20, 2014

A lista dos camponeses que foram mortos na Guerrilha do Araguaia

O jornalista e historiador Hugo Studart revela que mais camponeses participaram da guerrilha, nos Estados do Pará e de Goiás (Tocantins), do que registram PC do B e pesquisadores. A batalha talvez tenha de ser (re)vista como um movimento com maior envolvimento de populares (Publicado pelo semanário A Opção, de Goiânia, em 20 Abril 2014)

Hugo Studart: a Guerrilha do Araguaia não foi um movimento armado com participação apenas de comunistas; camponeses tiveram forte envolvimento

Por Euler França Belém

 

A tese de doutorado “Em Algum Lugar das Selvas Amazônicas: As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia (1966-1974)”, do jornalista e historiador Hugo Studart, apresenta o levantamento mais completo sobre os camponeses que participaram da Guerrilha do Araguaia, direta ou indiretamente. Lista-se também os que morreram, estão desaparecidos e os que sobreviveram. O documento “Dossiê Araguaia: Ultrapassando a Guerrilha”, elaborado por militares entre 1998 e 2001, “apresenta uma relação de exatos 29 camponeses que teriam entrado para a guerrilha. Até então, para o Partido Comunista do Brasil, a guerrilha teria tido a adesão de 18 camponeses”. O documento revela que nove camponeses foram mortos, três foram presos, um teria desertado e não se sabe do paradeiro de 17. A guerrilha, portanto, não foi apenas dos militantes do PC do B. A participação popular foi maior do que tradicionalmente informam o partido e pesquisadores. A tese de Studart pode ensejar uma reformulação da maneira como a Guerrilha do Araguaia tem sido interpretada.

 Outro documento, aparentemente confeccionado pelo Centro de Informações do Exército (CIE), divulga “a relação de 178 camponeses que teriam prestado apoio aos guerrilheiros”. O documento informa que 36 camponeses deram “apoio forte” aos integrantes do PC do B. Studart anota que a relevância do documento tem a ver com o “detalhamento até então desconhecido sobre a participação de cada um dos camponeses na guerrilha” e arrola os nomes de 10 camponeses mortos. O documento relaciona também “142 moradores da região que teriam sido ‘apoios fracos’ da guerrilha. No total, 178 camponeses, de acordo com a avaliação dos militares, teriam de alguma forma participado da guerrilha”.
O Relatório Especial de In­formações nº 6, do SNI, apresenta dados parecidos: “161 ‘apoios’ haviam sido presos até 15 de novembro de 1973 e (…) outros 42 estavam sendo procurados, totalizando 203 camponeses”.
A partir do cruzamento dos dados apresentados pelos documentos, Studart conclui que morreram “27 camponeses durante a repressão à Guerrilha do Araguaia”. As informações são “preliminares”, adverte o pesquisador. É possível que os mortos sejam 31 (ou 33), ou até mais, mas o pesquisador prefere ter cautela, ancorado em dados (sempre comparados e confrontados), sem forçá-los (ao menos não de maneira desmedida) por meio da teoria. As pesquisas, inclusive as suas, estão em andamento. A Guerrilha do Araguaia, embora cada vez mais conhecida, permanece como uma “obra aberta” — à espera de pesquisas tão rigorosas quanto a de Studart.
Mortos durante a guerrilha (casos consolidados)
Baseado nas informações de moradores da região, de militantes dos Direitos Humanos e em documentos militares, Studart lista os “mortos durante a guerrilha” — são os casos que chama de “consolidados”. Os textos a seguir são uma síntese pálida, com fartas transcrições, de um material apurado com rara excelência pelo doutor em História.
1 — Antônio Alfredo Lima — Entrou para o Destacamento A. Encontra-se na listagem dos desaparecidos do compêndio Retrato da Repressão Política no Campo. Foi morto pelas Forças Armadas, em 13 de outubro de 1973, junto com André Grabois e mais dois guerrilheiros, em combate com o grupo militar comandando pelo major Lício Augusto Maciel.
2 — Clóvis Ribeiro dos Santos — Foi preso e torturado em fevereiro de 1974. Desaparecido em 1974, no Araguaia.
3 — Jair Maciel, Zequinho — Morto em janeiro de 74.
4 — Joaquim de Souza — Desaparecido em junho de 1973, possivelmente morto pelo Exército. Seu nome constava no cartaz das vítimas da guerrilha.
5 — João Pereira da Silva — Seu pai, José Pereira da Silva, apoiou o Destacamento C da guerrilha. Pressionado pelos militares, mandou o filho, Joãozinho, levá-los aos integrantes do PC do B. O garoto de 17 anos foi morto pelos guerrilheiros (Rosalindo Cruz, Mundico, e Jaime Petit) com um tiro no peito. Continue reading »
abr 12, 2014

Número de camponeses mortos no Araguaia pode chegar a 31

Pesquisador aponta que 76 pegaram em armas ou apoiaram guerrilheiros (Reportagem publicada por “O Globo”, edição de domingo, 12 Abril 2014, pág 11)

por Cleide Carvalho

SÃO PAULO — O número de camponeses que tiveram participação ativa e morreram durante a Guerrilha do Araguaia, entre 1967 e 1974, pode ser maior do que consta em registros históricos. A tese de doutorado apresentada à Universidade de Brasília (UnB) em fevereiro pelo jornalista e historiador Hugo Studart reúne 31 nomes de camponeses mortos e de dois desaparecidos na guerrilha. Apenas as 12 mortes apresentadas como casos consolidados — com histórias conhecidas por militantes de direitos humanos e moradores da região — representam o dobro do número de camponeses do Araguaia listados pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, da Secretaria de Direitos Humanos. Segundo o coordenador da Comissão, Gilles Gomes, dos 148 desaparecidos políticos brasileiros, 70 participaram da guerrilha, dos quais 64 eram militantes políticos e seis eram camponeses.

Segundo Studart, os nomes que emergem da pesquisa mostram que 76 camponeses pegaram em armas ou serviram de “apoio forte” aos guerrilheiros — ou seja, ajudaram as forças guerrilheiras conscientes do que estavam fazendo, arriscando suas vidas. É quase o mesmo número de militantes comunistas, que somavam 79 quando os conflitos começaram, em 1971.

— Meu objetivo foi montar o quebra-cabeças de informações e dar voz aos anônimos e esquecidos. Os camponeses foram relegados a mera estatística pelos grupos de direitos humanos, que se preocuparam apenas com os guerrilheiros, a maioria estudantes de classe média e profissionais liberais — diz Studart.

Criméia Alice Schmidt Almeida, ex-guerrilheira e militante do PCdoB, explica que apenas seis nomes de camponeses foram incluídos no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos por falta de informações. Segundo ela, havia certeza do engajamento de apenas dois camponeses — Luis Vieira de Almeida e Antônio Alfredo Lima, ambos mortos em 1973 e considerados desaparecidos.

Como observador da Universidade de Brasília (UnB) no Grupo de Trabalho do Araguaia (GTA) desde 2009, Studart afirma ter reunido cerca de 15 mil documentos sobre a guerrilha — alguns oficiais e outros sem timbre ou carimbo dos respectivos órgãos. Segundo ele, um relatório da agência do SNI em Marabá informa que até 15 de novembro de 1973 haviam sido presos 161 camponeses considerados “apoio” dos guerrilheiros e outros 42 estavam sendo procurados. Ou seja, o SNI havia identificado 203 camponeses ligados à guerrilha.

 

Exército: 36 nomes de ‘apoios fortes’ à guerrilha

Durante sua tese, o jornalista e historiador Hugo Studart usa ainda como fonte de comparação de dados a reprodução de um documento atribuído ao Centro de Informações do Exército. Nele, militares identificam 36 nomes de “apoios fortes” à guerrilha, em maioria coincidentes com os do SNI. Além de apresentar novos nomes, o documento relaciona 10 camponeses mortos. Outros 142 camponeses são apresentados como “apoios fracos” aos guerrilheiros, sem participação política direta.

— O PCdoB só conhecia o nome de três mortos e contabilizava 18 moradores da região que aderiram à guerrilha — diz Studart, lembrando que a lista de mortos pode ser dez vezes maior do que a elaborada pelo partido.

Segundo Studart, é certo que a adesão dos camponeses à guerrilha foi maior do que a descrita. Ele cita Adalgisa Lopes, dona de casa. Moradora de São Domingos do Araguaia, Adalgisa teria participado da logística de assalto a um posto da polícia na Transamazônica. O marido, Frederico Lopes, também aderiu.

Para o Exército, os camponeses eram caboclos que só conheciam a “lei do mais forte” e precisavam ser tratados com “rigor”. Já Maurício Grabois, comandante da guerrilha, registrou em seu diário: “Sobre a atitude da massa, podemos afirmar que é de profunda simpatia em relação à nossa luta e de condenação às forças da repressão”.

Maria Rita Kehl, da Comissão da Verdade, entrevistou 14 camponeses no Araguaia, a maioria sobrevivente da guerrilha. Ela ressalta que, dos mortos listados por Studart, sete foram assassinados ao lado de guerrilheiros.

Rita lembra ainda a tortura sofrida pela família de José Ribeiro Dourado. A mulher dele, Madalena, contou que ele foi morto por dar comida ao guerrilheiro Osvaldão. Disse ainda que seu filho mais velho, Deusdete, foi preso. Libertado, entrou em depressão, ficou alcoólatra e enlouqueceu. A mãe só soube depois o que houve: o rapaz fora obrigado pelos militares a cortar a cabeça do pai morto. Antes de morrer, ele teria mostrado o local onde cabeças foram enterradas na base militar de Xambioá.

 

Leia mais sobre esse assunto em

http://oglobo.globo.com/pais/numero-de-camponeses-mortos-no-araguaia-pode-chegar-31-12181391

jan 18, 2014

Como foi a decapitação do guerrilheiro Arildo Valadão, um dos desaparecidos do Araguaia

(Trecho de abertura do Capítulo 2 da minha Tese de Doutorado, “Em algum lugar das selvas amazônicas: As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia”)

O guerrilheiro Ari ainda estava vivo quando o facão (cego) serrou o seu pescoço

A BARBÁRIE COMO ESCOLHA

No momento em que teço estas linhas, em novembro de 2013, completam-se exatos 40 anos que seis jovens de origens distintas, cada qual acalentando suas próprias esperanças, encontraram-se em uma encruzilhada remota de algum lugar das selvas amazônicas. Na trama grega, as tragédias costumam ter início em uma encruzilhada. Como aquele entroncamento de três estradas no qual Édipo, por obra do Acaso, se encontra com o rei Laio e o mata depois de uma discussão banal, sem saber que era seu próprio pai[1]. No caso em questão, objeto desta pesquisa, a encruzilhada fica na Grota do Cristal, uma pequena fonte de água onde três trilhas na floresta se encontram, localizada a 200 metros do rio Sororozinho, bem no epicentro da região onde as Forças Guerrilheiras do Araguaia e o Exército brasileiro se enfrentaram por três anos consecutivos.

Foi nessa tríplice encruzilhada que o Acaso[2] colocou três guerrilheiros e três camponeses frente a frente, em fatídico encontro que definiria o desfecho daquela luta. O sol a pino indicava que era meio-dia de 26 de novembro de 1973 quando o primeiro grupo chegou à grota. O líder (dos camponeses) chamava-se Sinésio Bringel, um pequeno posseiro, tropeiro e dono de bodega, casado, três filhos, tinha 38 anos na ocasião[3]. A seu lado, Iomar Galego, 33 anos, casado, cinco filhos, caçador e posseiro de uma roça de subsistência[4]. Por fim, Raimundinho Cacaúba, também casado, três filhos, 35 anos, posseiro e caçador[5].

* * *

Os britânicos criaram dois termos semelhantes, story e history, para distinguir ficção e realidade. Um seria uma estória que se conta. Outro, uma história que se constrói. Para Paul Ricœur, entretanto, mais do que um preciosismo linguístico, tal distinção seria um erro epistemológico. Afinal, os britânicos ousaram esquecer aquilo que os antigos sempre souberam: que História e ficção emergem da mesma matriz, a memória – embora guardem distinções quanto ao método e, principalmente, quanto ao objetivo[6]. Ricœur também lembra que os historiadores, tais quais os narradores orais medievais, tecem uma trama de acordo com a sua visão pessoal do que venha a ser a realidade e os fatos[7]. Ao fazer a defesa da narrativa para a tecitura da história, Ricœur aconselha que o historiador busque rebaixar a pretensão explicativa e eleve a capacidade narrativa[8].

Assim, esclareço preliminarmente que a trama sobre os fatos ocorridos naquela encruzilhada da floresta foi construída de acordo com as visões pessoais dos três camponeses sobreviventes – Sinésio, Iomar e Raimundo – sobre o que teria sido a “realidade” por eles vivenciada e exposta em narrativas orais a esta pesquisa. Entre 2009 e 2012, realizei quatro entrevistas orais com Sinésio Bringel, quatro com Iomar Galego e uma com Raimundo Cacaúba. Cheguei a viajar com os três, separadamente, na busca da reconstituição de episódios da guerrilha, dentre eles, este que aqui narro[9].

Eles estão aqui tratados como protagonistas, de acordo com as interpretações de Benjamin e dos Annales sobre a necessidade de valorizar os anônimos, os pequenos, os perdedores e até mesmo os anti-heróis. Até aquele momento, aqueles três eram apenas isso: pequenos posseiros, tropeiros, caçadores, pais de família, que viviam em uma região com total ausência dos serviços do Estado. Enfim, esquecidos.

* * *

Quatro dias antes de chegarem à encruzilhada na Grota do Cristal, estavam todos presos numa base do Exército, eles e suas famílias. O Exército havia retornado ao Araguaia pela terceira vez, mas até então os resultados eram pífios. Haviam matado uma guerrilheira 40 dias antes[10]. Desde então, o único embate em toda a região fora uma emboscada dos guerrilheiros, na qual um soldado saíra ferido. Por essa razão, os militares decidiram fazer uma experiência. A nova tática: recrutar camponeses para a luta armada.

Sinésio, que estava preso, foi o primeiro a receber a proposta. Seria solto se ajudasse o Exército a caçar os “terroristas”. E, se bem sucedido, ainda ganharia um prêmio em dinheiro. Sinésio aceitou. Raimundo Cacaúba prontificou-se a ir junto. Foram então buscar Iomar Galego, considerado um dos três melhores rastreadores de toda a região, capaz de perceber os indícios de caça (ou de humano) com até seis dias na estação das chuvas e de três dias em tempos de seca.

Os três foram levados diante de um militar, alguém importante, um chefe – recordam-se eles – pois tinha cerca de 40 anos, mandava nos demais soldados e era chamado de “doutor”. Naquele momento da luta, os militares só andavam com roupas civis, ou seja, “descaracterizados”, e portavam identidades falsas, “codinomes”. Os oficiais usavam o qualificativo de “doutor” para demarcar a hierarquia. Sargentos, cabos e soldados usavam codinomes simples. O oficial que os convocou para dar as instruções era chamado de “Doutor César”[11].

“Me tragam um bico de papagaio”, determinou o oficial, enquanto afiava a mão direita aberta no próprio pescoço, de orelha a orelha.

Com aquele sinal, os três camponeses compreenderam que o “doutor” exigia cabeças. Receberam ração para missão de oito dias. No segundo dia, encontraram rastros humanos. No quarto, chegaram à Grota do Cristal. Cogitaram tomar banho na bacia de água que formava a fonte. Desistiram, muito perigoso. Foi então que escutaram um som, leve e sutil.

“Até pensei que fosse o barulho de um beija-flor” – relata Iomar.

Na dúvida, armaram tocaia, cada um deles atrás de uma árvore. Naquele tempo havia milhões de árvores majestosas, salpicadas na mata espessa que se espraiava pelas duas margens do rio Araguaia em direção ao infinito – hoje é uma devastação só em forma de pastos. Em poucos minutos, três guerrilheiros começaram a adentrar na Grota do Cristal por uma das três trilhas que desaguam naquela encruzilhada.

O guerrilheiro Ari (foto) vinha na vanguarda, abrindo caminho. Sua identidade, antes de chegar ao Araguaia, era Arildo Airton Valadão, um capixaba de Cachoeiro do Itapemirim. Era estudante de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro e líder estudantil. No Araguaia, passou a ser vice-comandante do Destacamento C das Forças Guerrilheiras. Tinha então 25 anos.

No meio, vinha Jonas, codinome adotado pelo camponês Josias Gonçalves quando, 11 meses antes, aos 17 anos, encantara-se com as pregações revolucionárias e aderira à guerrilha[12].

Fechando a retaguarda, Raul (foto), membro do Grupamento de Saúde do Destacamento B da guerrilha. Nascido Antônio Theodoro de Castro, cearense de Itapipoca, era estudante de Bioquímica e de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro até chegar ao Araguaia. Em novembro de 1973, tinha 28 anos[13].

Caminhavam pelas matas para uma grande reunião das Forças Guerrilheiras do Araguaia. Seria a primeira desde que o Exército retornara pela terceira vez à região dois meses antes, nos primeiros dias de outubro de 1973. O objetivo era discutir a estratégia de combate. Ou decidir pela fuga enquanto ainda era possível. Um grupo de guerrilheiros já se encontrava acampado ali perto, a cerca de 150 metros da grota, quando o Acaso colocou os três guerrilheiros frente-a-frente com os três camponeses.

O vice-comandante Ari notou a tocaia. Parou e apontou sua arma para Sinésio. Não deu tempo de atirar. Iomar acertou-lhe um tiro no peito com sua espingarda de caça. Rápido, Jonas caiu na mata, encontrou uma moita, e por lá se manteve escondido, a tudo assistindo. Raul correu morro acima em direção ao ponto marcado para a reunião dos companheiros. Sinésio atirou em Raul. A bala acertou o prato de metal escondido no bornal que carregava às costas. Escapou. Escutou-se então o som do grupo de mais de 30 guerrilheiros correndo na direção oposta aos tiros.

Ari estava estirado no chão quando os três camponeses se aproximaram. Foi Sinésio quem mandou que cortassem sua cabeça. Raimundinho não teve coragem. Iomar prontificou-se ao serviço.

Ari ainda estava vivo quando o facão (cego) serrou o seu pescoço. As pernas estrebucharam[14].

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jan 18, 2014

É sempre bom lembrar que somos feitos da mesma matéria dos sonhos

Foi Próspero, protagonista de “A Tempestade”, obra de Shakespeare, que disse isso. Contudo, por pertinência ao tema, tomei a frase emprestada para a abertura da Tese de Doutorado que acabo de entregar à banca. Chama-se: “EM ALGUM LUGAR DAS SELVAS AMAZÔNICAS: As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia (1966-1974)”. Foram cinco anos de pesquisa, leituras e escrita. Uffa. Compartilho com os amigos o texto de Apresentação da Tese, no qual trato muito de esperança e de sonhos. Afinal, como bem o disse Próspero, “somos feitos da mesma matéria dos sonhos”.

Foram cinco anos pesquisando e escrevendo; estudando e escrevendo; escrevendo e reescrevendo

E o homem é feito de carne, que vive, morre e volta a ser pó. Mas carrega ao mesmo tempo uma essência que muitos acreditam ser infinita e imortal. Platão chamou essa essência de anima, alma. Seria ela a responsável por nos fazer recordar o passado e imaginar o futuro. O homem é, definitivamente, o maior paradoxo da Criação, um ser que existe simultaneamente em anima e em carne, que constrói e destrói, que vive ao mesmo tempo no passado, no presente e no futuro.

Sonhadores, idealistas e aventureiros. Conquistadores, missionários e voluntários. Ativistas e revolucionários. Existem seres que atravessam a existência tomados de sonhos, de esperança no futuro. Pois desde que os primeiros deles saíram às portas das cavernas e começaram a olhar em direção ao horizonte, imaginando o que poderia haver do outro lado da montanha, esse punhado de homens só desejava uma coisa – construir um mundo melhor. E são eles que, de alguma forma, com idas e vindas, luzes e trevas, vêm construindo dois projetos tão belos quanto catastróficos. O primeiro é um projeto chamado Humanidade. O outro é a Civilização.

Sonhador ou idealista, missionário ou revolucionário, pouco importa. O relevante é ressaltar que aqueles que porventura vieram ao mundo tomados de alguma dessas características, qualquer delas, faz parte de um grupo de pessoas movidas pelos sonhos do passado e pela esperança no futuro. O acreditar no próximo, no homem, na vida. Um desejo inexplicável de ajudar a construir um mundo melhor.

Sou um deles. Sonhador na infância, imaginava-me entre os personagens da Liga da Justiça. Queria ter sido um dos 300 espartanos de Leônidas. Na juventude, transformei-me em idealista. Passei a ler sobre as revoluções. A francesa, a soviética, as grandes guerras do Século XX. Depois, sobre nossa própria revolução, em suas dimensões distintas – o regime militar, a luta armada urbana e a guerrilha rural. O tempo passa… e eis que que me encontro na maturidade, sob o diapasão da racionalidade, buscando compreender o fenômeno revolucionário. Em outras palavras, pesquisando sobre o que leva alguns homens a sacrificar a própria vida por um ideal político.

“Com o que devemos sonhar?” – certa feita indagou-se Lenin. “Escrevo estas palavras e de repente fico assustado”[1]. Materialista até a essência, estava assustado com o aparente desacordo entre sonho e realidade. Lenin então buscou respostas nas palavras de um líder político russo, Dimitri Pissarev, contemporâneo de Marx. Pissarev era, paradoxalmente, revolucionário e niilista. Lenin gostou desse desacordo aparente:

“Se o ser humano fosse completamente desprovido da faculdade de sonhar, se não pudesse de vez em quando adiantar o presente e contemplar em imaginação o quadro lógico e inteiramente acabado da obra que apenas se esboça em suas mãos, eu decididamente não poderia compreender o que leva o ser humano a empreender e a realizar vastos e fatigantes trabalhos na arte, na ciência e na vida prática (…) O desacordo entre o sonho e a realidade nada tem de nocivo se, cada vez que sonha, o ser humano acredita seriamente em seu sonho, se observa atentamente a vida, compara suas observações com seus castelos no ar e, de uma forma geral, trabalha conscientemente para a realização de seu sonho. Quando existe contato entre o sonho e a vida, então tudo vai bem!”[2]

Representação do personagem Próspero, de “A Tempestade”: alegoria do homem dividido entre o Mundo das Ideias e a Realidade do Mundo

Na obra Espírito da Utopia, Ernest Bloch nos lembra que é penetrando no fenômeno da esperança do futuro que o mundo, no focus imaginarius, na parte mais escondida e inteligível de nossa subjetividade, faz sua aparição[3]. Assim, é o apelo à vontade do homem pela esperança, explica ele, que possibilita o surgimento das mais diferentes manifestações idealistas, incluindo os movimentos revolucionários. Walter Benjamin, por sua vez – colega de escola e leitor de Bloch – preferiu versar sobre sonhos, notadamente os sonhos coletivos. Benjamin propõe desconstruir a dialética hegeliana racionalista por uma dialética que olha para a História em movimento, que leve em conta a dimensão simbólica, as imagens dos sonhos, em um tempo descontínuo e saturado de agoras, com épocas que se distinguem e se entrelaçam na incalculável vontade do homem de fazer História[4].

* * *

Nesta pesquisa, apresento a reconstrução das memórias de um grupo formado por um punhado de homens e de mulheres que, essencialmente movidos pela esperança, por um sonho coletivo, acreditavam poder influir na construção de um país justo e igualitário. Eram estudantes universitários ou jovens profissionais liberais, em sua esmagadora maioria, que nas décadas de 1960-70 instalaram-se no coração das selvas amazônicas, em um ponto remoto ao sul do Estado do Pará, às margens do rio Araguaia, sem armas ou provisões, a fim de deflagrar uma insurreição armada que tinha por objetivo final promover uma revolução socialista no Brasil. Este episódio, ocorrido durante os anos mais repressivos do regime militar brasileiro, entrou para a nossa História sob o nome de Guerrilha do Araguaia.

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jan 27, 2013

Como fundamentar uma tese sobre a memória dos guerrilheiros do Araguaia

Por Hugo Studart

 Nas escolas de Jornalismo, minha primeira carreira, ensinam com fervor quase religioso que o certo é cultuar a neutralidade e a só usar verbos na terceira pessoa, do singular ou plural. Já me ensinaram muito pastiche fundamentado no pretenso racionalismo aristotélico, que encara o mundo tão-somente dentro dos sentidos materiais. Quando entrei para o mestrado em História, minha orientadora[1] instigava-me a redigir na primeira pessoa do singular. Achei estranho.

“E a neutralidade científica?” –questionei.

Walter Benjamin

Foi a deixa para que me apresentasse aos autores da Nova História. Segundo Walter Benjamin, por exemplo, não existe a tal “neutralidade científica”. Todo conhecimento, explica, é um embate de interesses. Aos poucos, fui me acostumando a escrever sobre as ideias ou experiências pessoais e a acreditar ser impossível dissociar um conteúdo de seu autor.

Arthur Schopenhauer, o filósofo das angústias, dizia que o homem parte de seus próprios horizontes, dos limites do seu campo de visão, como os limites do mundo. Assim, nossas versões sobre o mundo são limitadas tantos pelas observações limitadas que posso fazer do Universo, quanto pelas experiências pessoais inseridas em uma vasta “vontade” universal, da qual nossas ações são apenas uma mera parte. Por isso todos nós costumamos tomar nossos respectivos horizontes pessoais como o sendo limites universais.

“Nós próprios somos as entidades a ser analisadas”, ensina Martin Heidegger.

Em sua obra mais reconhecida, Ser e Tempo[2], Heidegger parte da velha máxima socrática de buscar compreender o homem como ser, exposta na frase “conhece-te a ti mesmo”, Continue reading »

nov 19, 2012

Tortura como cisão de corpo e mente

Com o funcionamento da Comissão Memória e Verdade vem à tona com toda a sua barbárie a tortura como método sistemático do Estado ditatorial militar de enfrentar seus opositores. Já se estudaram detalhadamente os processos de desumanização do torturado e também do torturador. Este precisa reprimir sua própria humanidade para  praticar seu ato desumano. Não sem razão que muitos torturadores acabaram se suicidando por não aguentarem tanta perversidade.

Por Leonardo Boff

Quero, entretanto, destacar um ponto nem sempre suscitado na discussão que foi muito bem analisado pelos psicanalistas, especialmente na Alemanha pós-nazista e entre nós por Hélio Peregrino, já falecido. O mais terrível da tortura política é o fato de que ela obriga o torturado a lutar contra si   mesmo. A tortura cinde a pessoa ao meio. Coloca a mente contra o corpo.  A mente quer ser fiel à causa dos companheiros, não quer, de forma alguma, entregá-los. O corpo, submetido à extrema intimidação e aviltamento, para ver-se livre da tortura, tende a falar e assim a fazer a vontade do torturador. Essa é a cisão. Continue reading »

ago 29, 2012

A memória, o perdão e o esquecimento –ou a dor de sentir a presença da ausência

 Uma discussão sobre o paradoxo entre a Lei da Anistia e a Comissão da Verdade, em diálogo com os pensamentos de Paul Ricoeur e Hannah Arendt

O passado nos assombra, diz Arendt

Por Hugo Studart

O episódio a ser analisado neste ensaio, a Guerrilha do Araguaia, trás a oportunidade de se analisar e questionar as dimensões do perdão às violações de Direitos Humanos cometidos pelos militares no Araguaia, assim como sobre o alcance a a interpretação da Lei de Anistia, promulgada em 1979. A questão comporta multiplos aspectos de ordem jurídica, ética, política, institucional, teológica, psicológica, filosófica. Entretanto, a proposta é analisá-la sob a dimensão de duas questões essenciais no Brasil do tempo presente: a memória e o esquecimento.

Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Nietzsche – são muitas as contribuições dos pensadores clássicos sobre memória e História, esquecimento e perdão. Faz-se necessário, obviamente, revisitá-los, cada um em seu próprio momento da discussão. Mas o objetivo da pesquisa é abordar o tema com ênfase especial nos pensamentos de Paul Ricoeur e de Hannah Arendt – buscando apoio em Jacques LeGoff e Jacques Derrida, entre outros.

Ricoeur enfrentou ao longo de toda a juventude a dor da ausência do pai. Ele nasceu em 1913. Um ano depois seu pai seguiria para uma daquelas trincheiras da Primeira Guerra. Aguardou-o com ansiedade até o final os conflitos. Muitos pais retornariam com vida. Ou em caixões. Mas Ricoeur-pai permaneceria ausente. Desaparecera exatamente no Dia da Vitória. Assim, o sentimento de ausência tornou-se a maior presença em sua vida. Os restos mortais só seriam encontrados em 1932. Ricoeur forjou todo o seu pensamento uma constante contra a violência. “Meu pai morreu por nada”, escreveria mais tarde.

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ago 23, 2012

Em busca das memórias perdidas

O acessar aos arquivos secretos da ditadura e o desvendar das lembranças dos sobreviventes da Guerrilha do Araguaia (Publicado originalmente na revista acadêmica “Em Tempo de História”, da Universidade de Brasilia)

As ex-guerrilheiras Lúcia Regina e Regilena Carvalho, em visita ao Araguaia, quatro décadas após a guerrilha

 

Resumo:

 Comunicação de pesquisa que busca detalhar as descobertas e a abordagem metodológica da investigação historiográfica em curso sobre a guerrilha rural brasileira (1966-1974), através do uso combinado de fontes escritas remanescentes (diários e cartas dos guerrilheiros, documentos políticos do partido e documentos militares) e das fontes orais sobreviventes (guerrilheiros, camponeses e militares), procurando diálogo teórico com Walter Benjamin, Paul Ricoeur e Hannah Arendt a partir de suas reflexões sobre o conceito de memória, assim como em questões como memória e esquecimento, anistia e perdão.

Abstract:

Communication of research that aims to detail the discoveries and the methodology of historiographical research in progress on the Brazilian rural guerrilla (1966-1974), through the combined use of remaining written sources (diaries and letters of the insurgents, political documents of the party and military documents) and survivors of oral sources (guerrillas, peasants and soldiers), seeking for theoretical dialogue with Walter Benjamin, Paul Ricoeur and Hannah Arendt from her reflections on the concept of memory, as well as on questions such as memory and forgetfulness, amnesty and pardon.

Introdução

A guerrilha rural brasileira guarda um grande paradoxo. Foi uma das insurreições armadas mais representativas da luta revolucionária no Brasil; o conflito interno com a maior mobilização de contingentes das Forças Armadas desde a Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, permanece como um dos episódios mais obscuros da nossa história. Teve início em 1966, quando um pequeno grupo de militantes do recém-fundado Partido Comunista do Brasil, PC do B, jovens universitários voluntaristas em quase totalidade, sem armas ou provisões, chegou à região do rio Araguaia, sul do Estado do Pará, na selva Amazônica, a fim de preparar um movimento armado revolucionário, de cunho marxista-leninista, que pretendia partir do campo para a conquista das cidades. Continue reading »

ago 5, 2012

A memória como metáfora

A partir dos pensamentos de Walter Benjamin e de Paul Ricoeur, compreendemos que mimesis é, em síntese, a reconstrução de experiências do passado no tempo presente –um exercício de re-memorar os acontecimentos e subtraí-los às contingências do tempo em uma metáfora. Exatamente como fez Proust quando em busca do tempo perdido…

por Hugo Studart

Walter Benjamin era filósofo, sociólogo, romanista, grafólogo, teórico da história, das artes e da tradução. Alemão e judeu, era um marxista que se recusava a se organizar em partidos. Era também usuário de haxixe. Por conta dessa heterodoxia, até hoje a maior parte das academias européias de Filosofia não considera sua obra digna de estar entre os cânones do pensamento moderno. Na América Latina, contudo, Benjamin tem sido considerado cada vez mais o “Filósofo das Vanguardas” por conta de sua tendência à ruptura e ao novo, sua rejeição ao dogmatismo e ao cientificismo das academias de seu tempo, por sua ousadia de “tentar inventar novas imagens para pensarmos nossos limites e fronteiras”[1], como também pelo seu método transdisiciplinar de pensar as Ciência Humanas, tendência da pós-modernidade, mas que Benjamin já a pregava e praticava nos anos 1930.

Sua Teoria da História e, sobretudo, sua visão teórica original sobre a memória, ou a mimesis, são pontos nevrálgicos da obra de Walter Benjamin. Ele foi crítico ácido e bem fundamentado do historicismo positivista do século XIX, o modelo modelo de escrita da História que privilegiava os documentos criados pelo aparato do Estado – e portanto, conservador também sob o ponto-de-vista político. Essencialmente, ele negou a possibilidade de uma História “tal como de fato aconteceu”, segundo o credo positivista, e propôs resgatar a memória como meio de nos relacionarmos com o passado. Para Benjamin, não existe a tal neutralidade científica; e todo conhecimento é um embate de interesses. O registro da memória, segundo o pensador, é mais aberto, aceita os testemunhos e as imagens (e não só a escrita burocrática), aceita inclusive a visão dos vencidos, nem se apega ao dogma científico das supostas neutralidades. Continue reading »

ago 5, 2012

O conceito de Cultura: entre a teia de significados de Geertz e o entrelugar de Bhabha

Aos historiadores da cultura, é uma boa opção construir a narrativa dentro do conceito da “teia de significados” de Clifford Geetz. Ou a partir do conceito do entrelugar do indiano Hommi Bhabha

por Hugo Studart

Desde que nos primórdios do Iluminismo John Locke apresentou seu projeto humanista e civilizatório fundamentado na ideia de superioridade filosófica e cultural de uns povos sobre os outros, pelo menos no Ocidente, o conceito de cultura vem guardando uma intrínseca relação com os hábitos da aristocracia, relegando todas as demais manifestações no interior das sociedades civilizadas a disciplinas outras, denominadas folclore, ou antropologia social, ou história das tradições populares. Locke chegou a propor a imposição de uma língua homogeneizada, que permitisse a difusão das “verdades universais” a todos os seres humanos[1].

“Verdades” eurocêntricas, um projeto universalista que foi apropriado por sucessivas cartas semânticas — Iluminismo, colonialismo, liberalismo e marxismo – ao longo dos últimos 300 anos. Resultado disso é que, se manifestações culturais emergissem ou de extratos sociais “inferiores” ou “incivilizados”, segundo as sucessivas cartas eurocêntricas, essas manifestações poderiam ser qualquer coisa, menos cultura.

É relativamente recente o emprego do termo “cultura” para definir o conjunto de atitudes, crenças e códigos de valores compartimentados num determinado período histórico. Foi através do conceito de “cultura primitiva” e, principalmente, dos estudos antropológicos de Clifford Geetz, que se chegou de fato a reconhecer que aqueles sujeitos sociais, outrora chamados de “camadas inferiores dos povos civilizados”, possuíam cultura.

Geetz acredita que a Cultura é formada por construções simbólicas, os significados contidos num conjunto de símbolos compartilhados. Para ele, “a análise cultural é intrinsecamente incompleta e, o que é pior, quanto mais profunda, menos completa”[2]. Seu conceito é essencialmente semiótico. Fundamenta-se no compartilhamento das idéias, a “teia de significados”, amarradas coletivamente:

“Acreditando, como Marx Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado. É justamente uma explicação que eu procuro, ao construir expressões sociais, enigmáticas na sua superfície”[3]

 

Para Geertz, o conceito de cultura enquanto estrutura, sobre a qual as ações humanas se baseiam, é fundamental para compreender os conflitos entre grupos heterogênos convivendo em determinado espaço – como é o caso da região do Araguaia durante a guerrilha, onde se estabeleceram pelo menos três diferentes culturas, guerrilheiros, camponeses e militares. Ele procura mostrar que uma grande parte dos conflitos em determinada comunidade estudada (no seu caso, no Marrocos) ocorre por causa da heterogeneidade cultural, que geram interpretações e percepções conflitantes sobre o mundo em questão.

Assim, embora Geertz procure mostrar como culturas diferentes originam ações e interpretações diferentes, deflagrando conflitos entre os grupos, ele não propõe buscar eliminar a heterogeneidade, como defendiam as cartas eurocêntricas, a começar pelo Iluminismo. Ao contrário, Geertz enfativa a importância da o conceito de “estruturura cultural guiadora de ação” para compreender os conflitos entre grupos heterogênos[4].

Foi a partir desse tronco antropológico aberto por Geertz que se abriram outros ramos de estudos, como a História Cultural. Nos últimos 20 anos, dentre os historiadores da cultura, abrigam-se as mais diversas concepções e, sobretudo, propostas analíticas, geralmente conceituadas como o conjunto de reflexões, representações ou interpretações sobre a História como processo. Há uma vastidão de conceitos e uma constelação pensadores sobre o tema.

Para Ricoeur, o conceito de Cultura Histórica é circular e redundante em sua substantivação e em sua adjetivação. Ou seja, toda cultura é histórica e tudo que é histórico é cultural. Para Hommi Bhabha, por sua vez, cultura é diversidade, mas também existe um “local da cultura” determinado às sociedades, local de encontro e de convivência de uma multidão de fragmentos étnicos, lingüísticos e culturais[5].

De acordo com o pensamento de Bhabha, as diferentes culturas ficam se digladiando, alguns se impondo e deixando seus valores disseminados, outros resistindo. Bhabha chama de “entre-lugar” esse local onde ocorre um choque cultural permanente, onde as diferentes culturas disputam seus espaços, sem contudo nunca haver hegemonia[6].

Com o conceito do “entre-lugar”, Bhabha quebra a idéia antropológica da aculturação, coisa passiva, como também quebra historicamente o conceito de dominantes e dominados para chegar ao que Mikhail Bakhtin define por “circularidade cultural”. Esses entre-lugares fornecem terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular ou coletiva – que dão início a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria ideia de sociedade, de acordo com Bhabha.

Bhabha utiliza a expressão “Babel no penhasco” para tentar explicar a “anarquia pluralista” que há muito vem sendo construída pelo capitalismo transnacional e o conseqüente empobrecimento de nações periféricas – ou Estados periféricos, no caso desta pesquisa — que enviam levas e mais levas de trabalhadores migrantes para regiões com melhores oportunidades. Uma das resultantes desse grande processo estrutural é o deslocamento cultural e a discriminação social – “onde sobreviventes políticos tornam-se as melhores testemunhas históricas”, diz Bhabha[9].

Ou seja, um local onde onde diferentes culturas ficam dialogando ou se digladiando, com algumas se impondo e deixando seus valores disseminados, outras resistindo, mas sem nunca haver uma completa hegemonia de um grupo sobre o outro. Em outras palavras, um entre-lugar onde cada grupo ou indivíduo construía estratégias distintas de resignificação da própria identidade.


[1] Apud: Lynn Mário T. Menezes de Souza. “Cultura, língua e emergência dialógica”. Revista Letras & Letras, Uberlândia, MG, Vol. 26, nº 2, págs. 289-306, Jul-Dez 2010.

[2] Clifford Geertz. A Interpretação das Culturas. Op. Cit. pág. 39.

[3] Id., ib., pág. 15.

[4] Lynn Mário de Souza, op. cit.

 [6] Hommi Bhabha. O Local da Cultura. Op. cit.

[[9] Bhabha. Op. cit., pág.xx

 

Para saber mais:
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. São Paulo: LTC, 2003.

(http://pt.wikipedia.org/wiki/Clifford_Geertz)

http://en.wikipedia.org/wiki/Homi_K._Bhabha

 


 

ago 2, 2012

Na encruzilhada entre o passado e o futuro

Confesso a tragédia existencial que vivencio, entre manter a herança do imaginário Iluminista, com a tendência atávica pela visão idealista do presente e pela busca incessante por lançar luzes e respostas para futuro. Ou aderir de vez aos cânones da Nova História e ao multiculturalismo panteísta, que busca compreender esse mundo fragmentado e transgêneros da nossa pós-modernidade? O fato é que jamais perdi a Esperança no Homem, na Sociedade, na Civilização. E enquanto não decido entre o passado e o futuro, reafirmo minha identificação especial pela Filosofia da História de Hegel, segundo a qual, em síntese, a História da Civilização é a da busca incessante do homem pela Liberdade

Na encruzilhada a Meta-Históiria com a Nova História

Por Hugo Studart

Em sua obra “O Método – Volume 3”[1], Edgar Morin confessa que vivenciou, ao longo da construção do trabalho, “uma tríplice tragédia”. Primeiro, a tragédia bibliográfica, na qual, em cada domínio que se propunha caminhar, via-se diante do crescimento exponencial dos novos conhecimentos e referências. Segundo, a tragédia da complexidade dos temas. Por fim, a tragédia de visar à totalização, à unificação, à síntese. Mas terminou por chegar à “consciência absoluta e irremediável do caráter inacabável de todo conhecimento, de todo pensamento e de toda a obra”[2]. Concluiu, ainda, que sua tríplice tragédia seria a tragédia de todo saber moderno.

Aproveito a oportunidade para confessar, também, que atravesso neste momento uma experiência similar à de Morin. Uma tríplice tragédia neste momento em que busco concluir meu doutorado. Encontro-me diante de quase quatro metros de documentos alinhados, livros e textos teóricos, muitos lidos, compreendidos e marcados; outros que pela complexidade anunciada se postam diante dos meus olhos como espectros em uma noite escura. Sinto-me, por vezes, como o mítico Teseu diante de seu Labirinto, precisando segurar os amores e temores, vestir o elmo da racionalidade e enfrentar o Minotauro. Ou ser devorado. Continue reading »

ago 1, 2012

Assim liquidaram o Molipo. Mas quem seria o traidor?

Um dos grandes mistérios que restam à historiografia sobre a luta armada brasileira dos anos 60 e 70 é descobrir como os órgão de repressão militares conseguiram liquidar com o Movimento de Libertação Popular, Molipo. Trata-se de um grupo formado em Cuba, sob o patrocínio direto do comandante Fidel, a partir de uma dissidência de exilados da Aliança Libertadora Nacional, ALN, então a maior organização nacional. Entre seus membros, o jovem José Dirceu de Oliveira e Silva. E por que o Caso Molipo seria intrigante? Porque, de seus 28 membros em Cuba, 23 foram executados assim que retornaram ao Brasil, alguns deles na fronteira.

Há uma certeza consolidada: havia um delador em Havana, avisando aos militares sobre as movimentações do grupo. Mas quem seria, afinal, o chamado “Traidor do Molipo”? As esquerdas gostam de apontar o dedo para o cabo Anselmo. Ele assume muitos erros, inclusive o de ter delatado sua própria companheira, Soledad Barrett Viedma, grávida de um filho seu, que morreu executada nas mãos do delegado Fleury. Mas Anselmo garante que não tem nada a ver com o caso Molipo. O Traidor do Molipo seria outro. Quem? Esse é um tema que ainda demanda uma investigação da histórica. Há protagonistas vivos, incluindo os militares que executaram as missões, como o coronel Lício Augusto Maciel, que chefiou a operação que resultou na morte do militante Jeová de Assis Gomes (foto). Há também documentos relevantes nos arquivos secretos militares.

O jornalista e sociólogo Renato Dias acaba de trazer à luz, em reportagem especial para o jornal A Opção, de Goiânia, documento garimpado  no Arquivo Nacional, revelando que foi a prisão do militante Boanerges de Souza Massa que acelerou desmantelamento do grupo. Documento revelador, reportagem relevante, que reproduzo na íntegra. Mais um passo para a construção dessa história Continue reading »

jul 31, 2012

Castoriadis, o Imaginário e as teorias marxistas

Um dos pontos interessantes do pensamento de Cornelius Castoriadis, um dos mais reconhecidos filósofos dos estudos do Imaginário e das Representações na Teoria da História, é quando ele contrapõe a análise do imaginário à teoria marxista. Ele lembra que, a despeito do que escreveram os teóricos marxistas sobre a história e a evolução inexorável da humanidade para a igualdade e o socialismo universal, o imaginário das nações se revela “mais sólido do que todas as realidades, como mostras duas guerras mundiais e a sobrevivência dos nacionalistas”. Ele argumenta:

“Os marxistas atuais, que acreditam eliminar tudo isso dizendo simplesmente, ‘o nacionalismo é uma mistificação’, evidentemente se auto-mistificam. Que o nacionalismo seja uma mistificação, não resta dúvida. Que uma mistificação tenha efeitos tão maciçamente e terrivelmente reais, que ela se mostre muito mais forte do que todas as forças ‘reais’ (inclusive o simples instinto de sobrevivência) que ‘deveriam’ ter impelido há muito tempo os proletariados a uma confraternização, eis o problema. Dizer – ‘prova de que o nacionalismo era uma simples mistificação, por conseguinte alguma coisa de irreal, é que ele se dissolverá no dia da revolução mundial’, não é somente cantar vitória antes da hora, é dizer: ‘Vocês, homens que viveram de 1900 a 1965 e quem sabe até quando ainda, e vocês os milhões de mortos de duas guerras, e todos os outros que sofreram com isso e são solidários – todos vocês, vocês inexistem, vocês sempre inexistiram aos olhos da verdadeira história; tudo o que vocês viveram foram alucinações, pobres sonhos de sombras, não era a história. A verdadeira história era esse virtual invisível que será e que, traiçoeiramente, preparava o fim de vossas ilusões’. Esse discurso é incoerente, porque nega a realidade da história da qual participa e porque ele convoca por meio irreais esses homens irreais a fazerem uma revolução real”.



 

jul 31, 2012

Hegel, segundo Gombrich, e o Espírito do Tempo da luta armada brasileira

Eis o Espírito da Liberdade

A História Cultural foi toda erigida sobre os alicerces hegelianos, lembra o historiador E.H. Gombrich[1]. E para Hegel, a história do universo era a história de Deus a criar-se a si próprio e a história da humanidade era, no mesmo sentido, a contínua encarnação do espírito. Hegel imagina o desenvolvimento do espírito como um processo inevitável e imagina-o encarnado em sucessivos espíritos nacionais. Haveria, portanto, o espírito do brasileiro; haveria, igualmente, o espírito revolucionário dos anos 60 e 70 (objeto dos meus estudos historiográficos), o espírito dos guerrilheiros do Araguaia, por exemplo, e por fim, o espírito da repressão militar daquele tempo. Prosseguindo, ainda segundo Hegel, o objetivo mais elevado da história da humanidade seria o seu desenvolvimento em direção ao espírito da liberdade. Explica Gombrich:

 “Toda gente sabe que Hegel pretendia erguer esses alicerces sobre um sistema metafísico que dizia ter construído a partir das críticas feitas por Kant à metafísica. No entanto, o que é mais relevante no contexto presente é o regresso de Hegel às tradições da teologia. A tua teologia teria de ser, obviamente, classificada como herética, pois não atende ao dogma cristão da criação como evento único e ao da encarnação como uma ocorrência igualmente única no tempo”[2].

É nesse sentido, interpreta Gombrich, que o absoluto não se discute. Isso se aplica tanto ao passado como ao presente. Um historiador pode observar os sinais do tempo, Continue reading »

jul 28, 2012

A morte em preto e branco

 Ensaio: uma discussão sobre tortura, os desaparecidos políticos da ditadura militar e o imaginário nos tempos em que as coisas eram diabolicamente negras ou celestialmente brancas (Originalmente escrito para a revista Plenarium, da Câmara dos Deputados)

Maria Lúcia Petit, morta na Guerrilha do Araguaia

Por Hugo Studart

             Quando a Lei de Anistia foi aprovada pelo Congresso Nacional, em agosto de 1979, ocorreram reações contra a abertura política, como atentados à bomba de grupos militares extremistas. Entretanto, a partir daquele momento, instaurou-se no país um processo histórico tão inédito quanto irreversível de conquista das liberdades civis e de amadurecimento e lapidação da nossa democracia – processo que perdura até hoje, e parece não ter mais fim. Primeiro libertou-se os presos políticos e nossos irmãos exilados retornaram ao país. Foi uma festa, belíssima. Os partidos políticos puderam se reorganizar. Aboliu-se a censura prévia à imprensa e, diante de uma liberdade de expressão raras vezes usufruída em nossa história, iniciou-se um processo de revisão do passado recente, de crítica aos militares e a seus colaboradores – como também autocrítica ao pensamento dogmático e às práticas fundamentalistas das facções da esquerda.

            Uma imagem marcante, a povoar até hoje o imaginário pátrio, foi a fotografia do ex-guerrilheiro Fernando Gabeira desfilando de tanga na praia de Ipanema – era o início do fim do stalinismo e a ortodoxia gauche. No capítulo das críticas, muito mais longo e profundo, a imprensa começou a publicar denúncias sobre fatos ainda obscuros, como a morte sob tortura do jornalista Wladimir Herzog, em 1975, e do operário Manoel Fiel Filho, em 1976, dois episódios-ícones que marcaram o enfraquecimento definitivo do regime autocrático e precipitaram a abertura. A tortura era um cancro a ser encarado – como de fato o foi, na Constituinte dos anos subsequentes. Os mortos da luta armada urbana também foram contados. Mas havia também a questão muito mais dolorosa, até hoje não resolvida. Onde estariam, afinal, uma legião de desaparecidos políticos? Este é um tema que tortura até hoje os familiares, notadamente aqueles que tiveram seus entes queridos envolvidos na luta armada rural, conhecida como a Guerrilha do Araguaia. Continue reading »

dez 23, 2011

Sonata para Carmen

Por Hugo Studart

Carmen Navarro tem passado seus dias a espera de uma canção. Qual? Ora, qual ela não canta, é um segredo, um dos mais fechados dentre os arquivos secretos da ditadura militar brasileira. Mas a espera é torturante. Aos 83 anos, lúcida, culta e bem informada, Carmen aguarda a chegada da música que seu filho Hélio Luiz Navarro Magalhães compôs antes de partir. A última vez que se viram foi em 1970. Hélio tocou-lhe a canção e partiu. Foi se juntar a um punhado de estudantes que montavam uma guerrilha na região do Araguaia. Era um compositor, pianista, estudante de Química. Adotou o codinome de Edinho. Hoje figura na lista dos 133 desaparecidos da ditadura.

O coração de mãe, as informações que apura, tudo dá conta que Hélio Luiz pode estar vivo, resguardado sob a identidade que lhe arrumaram os militares. Por muitos anos Carmen alimentou a esperança de abraçar o filho ao menos uma vez. Hoje conforma-se em receber um singelo sinal de vida – a música que lhe compôs antes de se transformar num “desaparecido”. Somente os dois conhecem os acordes. Podem chegar por e-mail anônimo, ou via CD postado no Correio. Ela só espera esse acalento.

A história por trás desse drama é delicada, é pura nitroglicerina política – e provoca tantas fúrias quanto são as lágrimas derramadas por Carmen. Continue reading »

dez 9, 2011

Sobre bandeiras e cartas

Um diálogo entre a teoria da História Cultural e os filmes “A Bandeira dos Nossos Pais” e “Cartas de Iwo Jima”, ambos dirigidos por Clint Eastwood (seminário para disciplina “História, memória e imagens fílmicas”, dentro do Doutorado em História Cultural, Universidade de Brasília)

Imagem épica que ajudou a definir o curso da História

por Hugo Studart

Apresentação

Optei pela análise do díptico histórico sobre a Batalha de Iwo Jima, um dos mais simbólicos e sangrentos embates da Segunda Guerra Mundial, por conta do objeto da minha pesquisa em andamento. No mestrado, o tema foi “O Imaginário dos Militares da Guerrilha do Araguaia”. No doutorado, o objeto proposto é “Imaginário e Cotidiano dos Guerrilheiros do Araguaia”. Em “A Bandeira dos Nossos Pais[1]”, lançado em 2006, o diretor Clint Eastwood narra a batalha sob o ponto de vista norte-americano. Em “Cartas de Iwo Jima”, também de 2006, o mesmo diretor tece uma trama sobre o mesmo episódio sob a ótica japonesa. Utilizou em boa parte dos dois filmes os mesmos personagens, episódios e cenas. Teve o mérito de conseguir construir obras complementares, mas paradoxalmente singulares. Que me sirva de inspiração.

Os episódios e os personagens de ambos os filmes emergem da história factual. Em “A Bandeira…”, o diretor constrói a trama em torno de um “instantâneo da história” — parafraseando Braudel[2] — a fotografia no qual soldados anônimos fincam a bandeira dos Estados Unidos no cume do Monte Suribashi, imagem que ajudaria a mobilizar a população norte-americana a se engajar no esforço final de guerra comprando bônus do governo. Em “Cartas…”, o diretor constrói a trama em torno das narrativas pessoais que soldados japoneses teceram para suas famílias sobre as emoções e as intempéries do cotidiano no front[3].

Clint Eastwood é um bom e veterano ator. Como diretor, nos anos recentes tem construído uma obra cada vez mais reconhecida. Obviamente não se espera que seja um intelectual refinado, um erudito, ou mesmo um historiador. Continue reading »

set 1, 2011

Ah, se eu pudesse escrever novamente…

Análise autocrítica sobre o livro “A Lei da Selva”, de minha autoria, sob a luz de novas teorias e autores da História Cultural (Monografia para a disciplina Teoria e Metodologia, do Doutorado em História Cultural da UnB; ministrado pela profª Cléria Botêlho da Costa)

Eu com a profª Cléria Botêlho da Costa, no lançamento do livro

APRESENTAÇÃO

O livro escolhido para análise é A Lei da Selva – Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares sobre a Guerrilha do Araguaia[1], de minha própria autoria. Razão para a escolha é fazer uma autocrítica da pesquisa, a partir dos novos autores e novas leituras assimiladas nesta disciplina. Esclareço ainda que o objeto escolhido para a pesquisa de doutorado é similar ao da obra — produto de dissertação de mestrado — a Guerrilha do Araguaia. Pertinente, portanto, fazer uma revisão acadêmica da pesquisa anterior, que servirá de ponto de partida da atual pesquisa, em andamento.

Acredito que na obra em questão eu tenha delineado claramente o objeto de pesquisa e análise, ao esclarecer, já na Introdução:

“A presente pesquisa tem o propósito de trazer à luz elementos com os quais se possa vislumbrar o imaginário dos militares sobre a participação de nossas Forças Armadas no combate à insurreição do Araguaia. Fique claro, portanto, que o objetivo não é analisar o episódio sob o ponto de vista dos guerrilheiros, tampouco dos moradores da região. Muito menos ainda existe a pretensão de reconstruir a “história definitiva” da guerrilha. Trata-se, aqui, de relatar o significado do conflito sob a óptica de um dos lados envolvidos, os militares brasileiros que participaram da luta. A finalidade é somente e tão-somente pesquisar e analisar o significado do conflito para os militares, assim como interpretar seus sistemas de representações à luz de um quadro teórico e dos valores da época.”[2] Continue reading »

jun 7, 2011

Wikileaks para a ditadura!

Neste momento em que se discute a criação de uma Comissão da Verdade para rememorar ou punir os atos de exceção da ditadura, somente uma política de ampla, geral e irrestrita transparência dos documentos será capaz de resgatar nossa História (Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo, Sessão Tendências e Debates, pág. 3)

Pela transparência total

Por Hugo Studart

Insólito constatar que a ex-torturada Dilma Roussef mantenha uma política restritiva de acesso aos documentos secretos da ditadura militar. É verdade que, em abril, o governo publicou portaria facilitando o acesso aos papéis que estão sob a guarda do Arquivo Nacional. Depois, Dilma anunciou a intenção de terminar com o sigilo eterno de documentos do Estado. Dias atrás, foi a Unesco quem anunciou, em Paris, que os documentos da ditadura viraram “memória do mundo”, algo similar a “patrimônio da humanidade”. Na casca, todos esses fatos aparentam dar maior relevância e transparência aos acervos. Na essência, são irrelevantes para a reconstituição da História.

Para começar, o Brasil não tem uma lei que regulamente o acesso aos arquivos públicos. Há anos que se arrasta no Congresso o projeto da Lei de Acesso, mas a própria base aliada do governo (deste e do anterior) tem sabotado a tramitação. Significa, na prática, que as direções dos arquivos públicos têm amplos poderes para tratar do assunto com bem entender. O Arquivo Nacional, por exemplo, tal qual nos tempos da censura prévia dos militares, hoje só permite o acesso aos documentos depois que burocratas anônimos examinarem o teor das informações.

Querem antes saber se há informações incômodas aos personagens da história ou às suas famílias. Continue reading »

fev 28, 2011

O segredo dos índios mercenários

Por Lucas Figueiredo
(Publicado originalmente na GQ)

Sob um céu grande angular de nuvens pesadas, o território brasileiro dá um nó – o Norte se encontra com o Nordeste; a Amazônia lambe o Cerrado e três Estados dividem fronteiras (Pará, Maranhão e Tocantins). Talvez nenhum outro lugar do país seja tão indicado para guardar um segredo, sobretudo segredo grave como este. Naquele rincão perdido, quatro décadas atrás, teve lugar um dos episódios mais obscuros da história do Brasil: a transformação de índios em mercenários de guerra do Exército.

Agora, o segredo acabou.

Suruís: guias dos militares durante a Guerrilha do Araguaia

Em quatro meses de investigação, GQ reuniu provas que mostram que, no início dos anos 1970, no governo do general-ditador Emílio Garrastazu Médici, a Força Terrestre fez de pacíficos índios Aikewara – da aldeia Suruí Sororó, no Pará – máquinas de caçar e matar homens. Na aldeia, a reportagem localizou e entrevistou índios que confirmaram terem sido cooptados pelo Exército, por meio de tortura,alegam eles, para dar apoio às campanhas contra a Guerrilha do Araguaia. GQ também obteve cópia de um relato pessoal de um militar da reserva que participou das operações em que ele afirma que, na caçada humana, os índios mercenários não se limitaram a matar. Cortavam cabeças. Era a prova que o Exército exigia do dever cumprido. Exigia dos índios e dos camponeses que também se engajaram nesse serviço.A história já começa acelerada. Desde tempos imemoriais, a vida dos Aikewara é um constante fugir. Primeiro, fugiam da perseguição de índios inimigos. Depois, fugiam de massacres praticados pelos brancos e do risco de extinção. Agora, tentam fugir do passado.Foi correndo de seus primeiros algozes, os Kayapó Xicrin, no início do século XX, que algumas centenas de Aikewara chegaram ao sudoeste do Pará, a cerca de 100 quilômetros de Marabá. Era uma área de mata tropical fechada, com poucos rios, mas caça abundante. Por ali ficaram. Com a palha das palmeiras, construíram ocas redondas, e com o arco e flecha caçaram macacos, veados, caititus (animal parecido com o javali), tatus e cotias. A ração diária era complementada com o que conseguiam coletar (jabutis, peixes, castanha) e plantar (mandioca, batata doce, milho e banana). Quando não estavam cuidando do sustento, costumavam de ficar, todos juntos, numa tenda armada no centro da aldeia, a taquapucu, onde passavam horas pintando o corpo com tintas obtida do jenipapo e do urucum. Entre agosto e setembro, dançavam o Saporahái, evocando seu herói mítico, Mahyra, pai do sol e da lua. Não existia disputa de poder na aldeia, já que os caciques se sucediam em linha hereditária. Nas relações afetivas, viam com simpatia o casamento entre primos e de tios com sobrinhos, e não era condenável um homem se servir de mais de uma mulher e vice-versa. Não contavam a idade, porque isso não era importante.

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dez 10, 2010

O entre-lugar de Bhabha na Los Angeles de Crash

Anotações sobre o filme “Crash, no Limite” (diretor: Paul Haggis, EUA, 2004) sob a luz das teorias de Hommi Bhabha sobre o multiculturalismo, o “local da cultura” e  o “entre-lugar” (seminário para disciplina “História, memória e imagens fílmicas”, dentro do Doutorado em História Cultural, Universidade de Brasília)

O filme parece ter saído das teorias de Hommi Bhabha, um dos mais respeitados pensadores da cultura na pós-modernidade

por Hugo StudartO filme, em suas parte e no teu todo, parece ter saído de um ensaio de Homi Bhabha sobre o chamado “local da cultura”. Para Bhabha, cultura é diversidade, mas também existe um “local da cultura” determinado às sociedades – no caso em questão, a multifacetada Los Angeles do tempo presente, local de encontro e de convivência de uma multidão de fragmentos étnicos, lingüísticos e culturais. Em Crash, como no pensamento de Bhabha, as diferentes culturas (anglo-saxãos, afrodescendentes, hispânicos e asiáticos) ficam se digladiando, alguns se impondo e deixando seus valores disseminados, outros resistindo. Bhabha chama de “entre-lugar” esse “local”, onde ocorre um choque (um crash) cultural permanente, onde as diferentes culturas disputam seus espaços, sem contudo nunca haver hegemonia.

Com o conceito do “entre-lugar”, Bhabha quebra a idéia antropológica da aculturação, coisa passiva, como também quebra historicamente o conceito de dominantes e dominados para chegar ao que Mikhail Bakhtin define por “circularidade cultural”. Em Crash, não há claramente dominantes nem dominados. Um branco anglo-saxão, o promotor, pode até estar no topo da cadeia alimentar, mas precisa fazer concessões aos negros, precisa do apoio dos negros para se manter onde está. Em outro segmento social, mais abaixo, um policial branco (nesse caso irlandês) perdeu por completo a hegemonia para os negros por conta da política oficial de cotas raciais. Revolta-se, tenta se rebelar, muda de estratégia e tenta se aliar – em vão, é massacrado e discriminado pela assistente social negra, que faz contra ele exatamente o que os brancos faziam com as gerações anteriores. Continue reading »

abr 18, 2010

A Filosofia da História de Marx

Anotações sobre a vida, a obra e a Filosofia da História de KARL MARX, com seus conceitos de materialismo histórico, alienação e mais-valia (Para a disciplina Teoria da História, ministrada pelo professor Fernando Catroga, do Instituto de História das Ideias da Universidade de Coimbra. Por José  de Sousa Pais, aluno do doutorado em História, da Universidade de Coimbra

Segundo Marx, a humanidade estaria em constante “evolução” em direção à sociedade sem classes

QUEM FOI MARX?

Karl Marx nasceu em Trier (Alemanha). Viveu entre1818-1883, num meio familiar burguês: o seu pai era advogado e conselheiro da justiça e proprietário agrícola, judeu convertido ao cristianismo luterano. Um dos seus tios foi o fundador do colosso industrial holandês Phillips. Continue reading »

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