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ago 20, 2014

Sérgio Vieira de Mello, a metáfora da água e o desespero da ONU

A ONU lança selo em parceria com os Correios para homenagear Sérgio Vieira de Mello, morto há exatos 10 anos em atentado terrorista no Iraque. Ele tombou aos 55 anos. A ONU, então com a mesma idade, saiu gravemente ferida. Pode-se dizer, até, que a trajetória profissional do brasileiro, no limite entre a guerra e a paz, acompanhou os problemas recentes da entidade (Artigo publicado originalmente pela revista IstoÉ-DINHEIRO, em Ago 2004)

sergio

por Hugo Studart

Nos últimos 30 anos, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello esteve nos lugares mais desolados do mundo levando socorro a civis flagelados pelas guerras. Começou a vida cuidando de hordas de famintos e campos de trucidados em terras esquecidas como Bangladesh, Sudão, Moçambique e Camboja. No Líbano, escapou de tiros cruzados na pior de suas muitas batalhas. Idealista, era o brasileiro que construiu a biografia mais próxima à de Giuseppe Garibaldi. “Não esperem que eu fique tratando de direitos humanos apenas em gabinetes confortáveis”, disse recentemente. “Gosto de sujar as botas de lama”. Doutor em Filosofia pela Sorbonne, era um intelectual refinado que galgou os principais postos das Nações Unidas. Chefiou a missão da ONU na Bósnia, presidiu o Timor Leste e acabou eleito Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Na tarde de terça-feira, 19 de agosto, era Sérgio Vieira de Mello quem estava sedento. Representante da ONU no Iraque, ele viu um caminhão bomba explodir na frente de seu gabinete em Bagdá. Despencou dois andares. Uma viga de ferro prendeu suas pernas. Por duas horas, conseguiu falar ao telefone celular enquanto aguardava que lhe resgatassem dos escombros. “Água, água, água”, suplicou. Era o sinal clínico de hemorragia interna terminal. Logo depois o telefone emudeceu. Quando finalmente se chegou a Sérgio, só havia um corpo esmagado pelo terrorismo que tomou conta do Iraque desde que os Estados Unidos anunciaram, a 1º de maio último, que haviam vencido a guerra contra o regime de Saddam Hussein. Morreram na explosão 24 pessoas.

O ato chocou o mundo –uma comoção que não se via desde os atentados de 11 de setembro. “Não posso pensar em ninguém que fosse mais indispensável ao sistema das Nações Unidas que Sérgio”, lamentou Kofi Annan, secretário-geral da ONU. “Vieira de Mello empenhou sua vida para fazer avançar a causa dos direitos humanos”, disse o presidente dos Estados Unidos George W. Bush. Coube a Jacques Chirac, o presidente da França, resumir o sentimento internacional: “Estou consternado e irado”. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decretou luto oficial de três dias.

Vieira de Mello morreu aos 55 anos. A ONU, com a mesma idade, saiu gravemente ferida. Pode-se dizer, até, que a trajetória profissional do brasileiro como funcionário da organização, afeito a missões complicadas, no limite entre a guerra e a paz, acompanhou os problemas recentes da entidade. Chamada meses atrás de “irrelevante” pelo próprio presidente Bush, a ONU apela por reconhecimento e por novas atribuições no cenário internacional. Nesse sentido, o apelo desesperado do brasileiro por água, instantes antes de morrer, pode servir de metáfora à atual situação das Nações Unidas.

O atentado em Bagdá matou Vieira de Mello mas atingiu também uma idéia – a do multilateralismo das relações internacionais, em oposição ao vôo solo e arrogante dos Estados Unidos contra o Iraque. No pós-guerra, a ONU assumiu o papel secundário de assistência humanitária. Vieira de Mello tinha poderes vagos. Coordenava a distribuição de remédios e alimentos, mas só opinava (sem decidir) sobre assuntos menores. Quem manda de fato no Iraque é o governador Paul Bremer, instalado no cargo pelos EUA. Continue reading »

jan 18, 2014

Como foi a decapitação do guerrilheiro Arildo Valadão, um dos desaparecidos do Araguaia

(Trecho de abertura do Capítulo 2 da minha Tese de Doutorado, “Em algum lugar das selvas amazônicas: As Memórias dos Guerrilheiros do Araguaia”)

O guerrilheiro Ari ainda estava vivo quando o facão (cego) serrou o seu pescoço

A BARBÁRIE COMO ESCOLHA

No momento em que teço estas linhas, em novembro de 2013, completam-se exatos 40 anos que seis jovens de origens distintas, cada qual acalentando suas próprias esperanças, encontraram-se em uma encruzilhada remota de algum lugar das selvas amazônicas. Na trama grega, as tragédias costumam ter início em uma encruzilhada. Como aquele entroncamento de três estradas no qual Édipo, por obra do Acaso, se encontra com o rei Laio e o mata depois de uma discussão banal, sem saber que era seu próprio pai[1]. No caso em questão, objeto desta pesquisa, a encruzilhada fica na Grota do Cristal, uma pequena fonte de água onde três trilhas na floresta se encontram, localizada a 200 metros do rio Sororozinho, bem no epicentro da região onde as Forças Guerrilheiras do Araguaia e o Exército brasileiro se enfrentaram por três anos consecutivos.

Foi nessa tríplice encruzilhada que o Acaso[2] colocou três guerrilheiros e três camponeses frente a frente, em fatídico encontro que definiria o desfecho daquela luta. O sol a pino indicava que era meio-dia de 26 de novembro de 1973 quando o primeiro grupo chegou à grota. O líder (dos camponeses) chamava-se Sinésio Bringel, um pequeno posseiro, tropeiro e dono de bodega, casado, três filhos, tinha 38 anos na ocasião[3]. A seu lado, Iomar Galego, 33 anos, casado, cinco filhos, caçador e posseiro de uma roça de subsistência[4]. Por fim, Raimundinho Cacaúba, também casado, três filhos, 35 anos, posseiro e caçador[5].

* * *

Os britânicos criaram dois termos semelhantes, story e history, para distinguir ficção e realidade. Um seria uma estória que se conta. Outro, uma história que se constrói. Para Paul Ricœur, entretanto, mais do que um preciosismo linguístico, tal distinção seria um erro epistemológico. Afinal, os britânicos ousaram esquecer aquilo que os antigos sempre souberam: que História e ficção emergem da mesma matriz, a memória – embora guardem distinções quanto ao método e, principalmente, quanto ao objetivo[6]. Ricœur também lembra que os historiadores, tais quais os narradores orais medievais, tecem uma trama de acordo com a sua visão pessoal do que venha a ser a realidade e os fatos[7]. Ao fazer a defesa da narrativa para a tecitura da história, Ricœur aconselha que o historiador busque rebaixar a pretensão explicativa e eleve a capacidade narrativa[8].

Assim, esclareço preliminarmente que a trama sobre os fatos ocorridos naquela encruzilhada da floresta foi construída de acordo com as visões pessoais dos três camponeses sobreviventes – Sinésio, Iomar e Raimundo – sobre o que teria sido a “realidade” por eles vivenciada e exposta em narrativas orais a esta pesquisa. Entre 2009 e 2012, realizei quatro entrevistas orais com Sinésio Bringel, quatro com Iomar Galego e uma com Raimundo Cacaúba. Cheguei a viajar com os três, separadamente, na busca da reconstituição de episódios da guerrilha, dentre eles, este que aqui narro[9].

Eles estão aqui tratados como protagonistas, de acordo com as interpretações de Benjamin e dos Annales sobre a necessidade de valorizar os anônimos, os pequenos, os perdedores e até mesmo os anti-heróis. Até aquele momento, aqueles três eram apenas isso: pequenos posseiros, tropeiros, caçadores, pais de família, que viviam em uma região com total ausência dos serviços do Estado. Enfim, esquecidos.

* * *

Quatro dias antes de chegarem à encruzilhada na Grota do Cristal, estavam todos presos numa base do Exército, eles e suas famílias. O Exército havia retornado ao Araguaia pela terceira vez, mas até então os resultados eram pífios. Haviam matado uma guerrilheira 40 dias antes[10]. Desde então, o único embate em toda a região fora uma emboscada dos guerrilheiros, na qual um soldado saíra ferido. Por essa razão, os militares decidiram fazer uma experiência. A nova tática: recrutar camponeses para a luta armada.

Sinésio, que estava preso, foi o primeiro a receber a proposta. Seria solto se ajudasse o Exército a caçar os “terroristas”. E, se bem sucedido, ainda ganharia um prêmio em dinheiro. Sinésio aceitou. Raimundo Cacaúba prontificou-se a ir junto. Foram então buscar Iomar Galego, considerado um dos três melhores rastreadores de toda a região, capaz de perceber os indícios de caça (ou de humano) com até seis dias na estação das chuvas e de três dias em tempos de seca.

Os três foram levados diante de um militar, alguém importante, um chefe – recordam-se eles – pois tinha cerca de 40 anos, mandava nos demais soldados e era chamado de “doutor”. Naquele momento da luta, os militares só andavam com roupas civis, ou seja, “descaracterizados”, e portavam identidades falsas, “codinomes”. Os oficiais usavam o qualificativo de “doutor” para demarcar a hierarquia. Sargentos, cabos e soldados usavam codinomes simples. O oficial que os convocou para dar as instruções era chamado de “Doutor César”[11].

“Me tragam um bico de papagaio”, determinou o oficial, enquanto afiava a mão direita aberta no próprio pescoço, de orelha a orelha.

Com aquele sinal, os três camponeses compreenderam que o “doutor” exigia cabeças. Receberam ração para missão de oito dias. No segundo dia, encontraram rastros humanos. No quarto, chegaram à Grota do Cristal. Cogitaram tomar banho na bacia de água que formava a fonte. Desistiram, muito perigoso. Foi então que escutaram um som, leve e sutil.

“Até pensei que fosse o barulho de um beija-flor” – relata Iomar.

Na dúvida, armaram tocaia, cada um deles atrás de uma árvore. Naquele tempo havia milhões de árvores majestosas, salpicadas na mata espessa que se espraiava pelas duas margens do rio Araguaia em direção ao infinito – hoje é uma devastação só em forma de pastos. Em poucos minutos, três guerrilheiros começaram a adentrar na Grota do Cristal por uma das três trilhas que desaguam naquela encruzilhada.

O guerrilheiro Ari (foto) vinha na vanguarda, abrindo caminho. Sua identidade, antes de chegar ao Araguaia, era Arildo Airton Valadão, um capixaba de Cachoeiro do Itapemirim. Era estudante de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro e líder estudantil. No Araguaia, passou a ser vice-comandante do Destacamento C das Forças Guerrilheiras. Tinha então 25 anos.

No meio, vinha Jonas, codinome adotado pelo camponês Josias Gonçalves quando, 11 meses antes, aos 17 anos, encantara-se com as pregações revolucionárias e aderira à guerrilha[12].

Fechando a retaguarda, Raul (foto), membro do Grupamento de Saúde do Destacamento B da guerrilha. Nascido Antônio Theodoro de Castro, cearense de Itapipoca, era estudante de Bioquímica e de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro até chegar ao Araguaia. Em novembro de 1973, tinha 28 anos[13].

Caminhavam pelas matas para uma grande reunião das Forças Guerrilheiras do Araguaia. Seria a primeira desde que o Exército retornara pela terceira vez à região dois meses antes, nos primeiros dias de outubro de 1973. O objetivo era discutir a estratégia de combate. Ou decidir pela fuga enquanto ainda era possível. Um grupo de guerrilheiros já se encontrava acampado ali perto, a cerca de 150 metros da grota, quando o Acaso colocou os três guerrilheiros frente-a-frente com os três camponeses.

O vice-comandante Ari notou a tocaia. Parou e apontou sua arma para Sinésio. Não deu tempo de atirar. Iomar acertou-lhe um tiro no peito com sua espingarda de caça. Rápido, Jonas caiu na mata, encontrou uma moita, e por lá se manteve escondido, a tudo assistindo. Raul correu morro acima em direção ao ponto marcado para a reunião dos companheiros. Sinésio atirou em Raul. A bala acertou o prato de metal escondido no bornal que carregava às costas. Escapou. Escutou-se então o som do grupo de mais de 30 guerrilheiros correndo na direção oposta aos tiros.

Ari estava estirado no chão quando os três camponeses se aproximaram. Foi Sinésio quem mandou que cortassem sua cabeça. Raimundinho não teve coragem. Iomar prontificou-se ao serviço.

Ari ainda estava vivo quando o facão (cego) serrou o seu pescoço. As pernas estrebucharam[14].

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mar 8, 2013

Uma breve história da longa luta pela liberdade das mulheres

Desde  Julia, a heroína do romance de Rousseau, até a SlutWalk, a Marcha das Vadias, há pelo menos 250 anos as mulheres vêm lutando por direitos óbvios como o da livre escolha afetiva, o divórcio, a igualdade laboral e o direito de votar. No islã, mulheres ainda são apedrejadas em nome de Allah; na África, 150 milhões sofreram extirpação clitoriana; na Índia, um cotidiano de estupros e casamentos arranjados; na China, 240 milhões de meninas recém-nascidas foram assassinadas nos últimos 30 anos. Equivale a 40 Holocaustos. Mesmo em nosso Ocidente pós-moderno e globalizado, perduram incrustradas a misogenia e a violência doméstica. No Brasil, a Lei Maria da Penha já enquadrou mais de 300 mil agressores. Há algo errado mesmo nas sociedades onde, acredita-se, há pelo menos duas gerações as mulheres teriam alcançado a emancipação plena

EUA, 1910: quando as mulheres lutavam pelo direito ao voto e à igualdade laboral com os homens

por Hugo Studart

Em meados do Século XVIII as mulheres não valiam quase nada em toda e qualquer parte do mundo. Até que Jean-Jacques Rousseau causou frisson por toda Europa com um romance, Julia — ou A Nova Heloísa (1761), no qual a heroína provocou emoções e conquistou a empatia dos leitores em sua busca pelo direito de livre escolha afetiva, dando início à discussão sobre a emancipação da mulher e ajudando a pavimentar o caminho para aquilo que, anos mais tarde, ficou conhecido pela expressão Direitos Humanos.

O subtítulo do romance, ou A Nova Heloísa, referia-se à uma das mais conhecidas e dramáticas histórias de amor do cantadas pelos narradores medievais, Abelardo e Heloísa, no qual uma jovem de boa estirpe apaixona-se por seu professor, um filósofo e clérigo católico. Aos 17 anos, Heloísa entrega-se de corpo e alma a Abelardo, 37. Pelo ponto-de-vista daquele tempo, Abelardo seduziu a pura e inocente Heloísa. O romance é descoberto, os amantes passam a se encontrar escondidos nos locais mais inusitados –até mesmo nas sacristias – têm um filho, casam-se escondidos e, por fim, Abelardo é punido pelo tio da jovem com a castração. Envergonhado, interna-se num mosteiro e pede que Heloísa faça o mesmo, num convento.

Viam-se diariamente, mas nunca mais se tocaram. Nem mesmo trocaram palavras orais. Contudo, dedicam a vida a trocar lindas cartas de amor, nas quais Heloísa expressava toda a sua dor pela triste sorte do seu amor, como também sua revolta pelo destino – prisioneira em um hábito religioso que lhe escondia todo o corpo, e de um véu a cobrir a cabeça para lhe emprestar o recato que não tivera antes. Abelardo morre no ano 1142, aos 63 anos; Heloísa viveria mais 20 anos. A seu pedido, foi sepultada ao lado de Abelardo. Suas trágicas histórias permaneceram vivas. Suas cartas, continuam inspirando ousadia às jovens que porventura precisem dar vazão aos desejos de liberdade afetiva. Seu véu e hábito religiosos, símbolos maiores do cárcere sexual ao qual foi submetida, mantêm-se desfraldados na maior parte das sociedades humanas. Seus túmulos, no Cemitério de Pére Lachaise, Paris, são locais de romaria de amantes apaixonados. Continue reading »

nov 19, 2012

Tortura como cisão de corpo e mente

Com o funcionamento da Comissão Memória e Verdade vem à tona com toda a sua barbárie a tortura como método sistemático do Estado ditatorial militar de enfrentar seus opositores. Já se estudaram detalhadamente os processos de desumanização do torturado e também do torturador. Este precisa reprimir sua própria humanidade para  praticar seu ato desumano. Não sem razão que muitos torturadores acabaram se suicidando por não aguentarem tanta perversidade.

Por Leonardo Boff

Quero, entretanto, destacar um ponto nem sempre suscitado na discussão que foi muito bem analisado pelos psicanalistas, especialmente na Alemanha pós-nazista e entre nós por Hélio Peregrino, já falecido. O mais terrível da tortura política é o fato de que ela obriga o torturado a lutar contra si   mesmo. A tortura cinde a pessoa ao meio. Coloca a mente contra o corpo.  A mente quer ser fiel à causa dos companheiros, não quer, de forma alguma, entregá-los. O corpo, submetido à extrema intimidação e aviltamento, para ver-se livre da tortura, tende a falar e assim a fazer a vontade do torturador. Essa é a cisão. Continue reading »

jul 28, 2012

A morte em preto e branco

 Ensaio: uma discussão sobre tortura, os desaparecidos políticos da ditadura militar e o imaginário nos tempos em que as coisas eram diabolicamente negras ou celestialmente brancas (Originalmente escrito para a revista Plenarium, da Câmara dos Deputados)

Maria Lúcia Petit, morta na Guerrilha do Araguaia

Por Hugo Studart

             Quando a Lei de Anistia foi aprovada pelo Congresso Nacional, em agosto de 1979, ocorreram reações contra a abertura política, como atentados à bomba de grupos militares extremistas. Entretanto, a partir daquele momento, instaurou-se no país um processo histórico tão inédito quanto irreversível de conquista das liberdades civis e de amadurecimento e lapidação da nossa democracia – processo que perdura até hoje, e parece não ter mais fim. Primeiro libertou-se os presos políticos e nossos irmãos exilados retornaram ao país. Foi uma festa, belíssima. Os partidos políticos puderam se reorganizar. Aboliu-se a censura prévia à imprensa e, diante de uma liberdade de expressão raras vezes usufruída em nossa história, iniciou-se um processo de revisão do passado recente, de crítica aos militares e a seus colaboradores – como também autocrítica ao pensamento dogmático e às práticas fundamentalistas das facções da esquerda.

            Uma imagem marcante, a povoar até hoje o imaginário pátrio, foi a fotografia do ex-guerrilheiro Fernando Gabeira desfilando de tanga na praia de Ipanema – era o início do fim do stalinismo e a ortodoxia gauche. No capítulo das críticas, muito mais longo e profundo, a imprensa começou a publicar denúncias sobre fatos ainda obscuros, como a morte sob tortura do jornalista Wladimir Herzog, em 1975, e do operário Manoel Fiel Filho, em 1976, dois episódios-ícones que marcaram o enfraquecimento definitivo do regime autocrático e precipitaram a abertura. A tortura era um cancro a ser encarado – como de fato o foi, na Constituinte dos anos subsequentes. Os mortos da luta armada urbana também foram contados. Mas havia também a questão muito mais dolorosa, até hoje não resolvida. Onde estariam, afinal, uma legião de desaparecidos políticos? Este é um tema que tortura até hoje os familiares, notadamente aqueles que tiveram seus entes queridos envolvidos na luta armada rural, conhecida como a Guerrilha do Araguaia. Continue reading »

dez 23, 2011

Sonata para Carmen

Por Hugo Studart

Carmen Navarro tem passado seus dias a espera de uma canção. Qual? Ora, qual ela não canta, é um segredo, um dos mais fechados dentre os arquivos secretos da ditadura militar brasileira. Mas a espera é torturante. Aos 83 anos, lúcida, culta e bem informada, Carmen aguarda a chegada da música que seu filho Hélio Luiz Navarro Magalhães compôs antes de partir. A última vez que se viram foi em 1970. Hélio tocou-lhe a canção e partiu. Foi se juntar a um punhado de estudantes que montavam uma guerrilha na região do Araguaia. Era um compositor, pianista, estudante de Química. Adotou o codinome de Edinho. Hoje figura na lista dos 133 desaparecidos da ditadura.

O coração de mãe, as informações que apura, tudo dá conta que Hélio Luiz pode estar vivo, resguardado sob a identidade que lhe arrumaram os militares. Por muitos anos Carmen alimentou a esperança de abraçar o filho ao menos uma vez. Hoje conforma-se em receber um singelo sinal de vida – a música que lhe compôs antes de se transformar num “desaparecido”. Somente os dois conhecem os acordes. Podem chegar por e-mail anônimo, ou via CD postado no Correio. Ela só espera esse acalento.

A história por trás desse drama é delicada, é pura nitroglicerina política – e provoca tantas fúrias quanto são as lágrimas derramadas por Carmen. Continue reading »

out 7, 2011

Prevaricação humanitária

O Nobel da Paz para duas mulheres da Libéria e uma do Iêmen nos leva a indagar por que autoridades e jornalistas brasileiros costumam se omitir sobre a opressão contra outros povos. Sofreriam de humanofobia ou de maquiavelismo pragmático?

Três mulheres de coragem: a iemita Tawakkul Karman e as liberianas Ellen Johnson Sirleaf, Leymah Roberta Gbowee

Por Hugo Studart

O sol nasceu mais brilhante em dois dos mais obscuros e remotos pontos do planeta. Um é a Libéria, o outro, o Iêmen. Se algum dos senhores, prezados leitores, jamais ouviu falar de um ou de outro desses pontos, não se culpe por inteiro, mas divida o fardo com as autoridades e os jornalistas brasileiros. Essas duas categorias sofreria de humanofobia crônica, ora aguda. Só conseguem olhar para o próprio umbigo, só sabem praticar a tal “realpolitik”, a diplomacia e a cobertura jornalística pragmáticas e amorais, baseadas nos valores maquiavélicos, profissionais incapazes de identificar o significado de expressões como Humanidade, Humanismo, Solidariedade ou Paz. Nosso consolo é que existe um punhado de homens, cidadãos de um outro ponto remoto e gélido do planeta chamado Noruega, que pegou para si a missão de descobrir pequenos fachos de luz em meio à escuridão.

Pois esses noruegueses acabam de conceder o Prêmio Nobel da Paz para três mulheres que têm se dedicado a lutar pela Liberdade, aqui grafado com letra maiúscula. Duas delas são da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf e Leymah Roberta Gbowee. A terceira é do Iêmen, Tawakkul Karman. Quem são elas? Algum dos senhores leitores já ouviu falar de alguma delas? Não? Nem eu. E quanto a esses tais países chamados de Libéria e Iêmen, alguém arrisca dizer algo sobre eles? É natural que poucos saibam, que jamais tenham lido a respeito dessas mulheres ou desses países na imprensa brasileira. Ou na imprensa ocidental. Continue reading »

jun 15, 2011

Dilma, o sigilo perpétuo e o lado errado da história

Por Hugo Studart

Recaiu sobre os ombros de Dilma Roussef a missão política de resgatar três grandes ausências da nossa História. Seus dois antecessores, Fernando Henrique e Lula, conseguiram driblar o assunto e empurrá-lo para frente, na esperança que caíssem no esquecimento do tempo. Será muito difícil a Dilma fazer o mesmo. O primeira ausência é o julgamento histórico, político e jurídico da ditadura militar brasileira e de seus principais protagonistas. Está prestes a nascer uma Comissão da Verdade, mas até agora nossa presidente não deu o menor sinal de que queira meter a mão nessa cumbuca. A segunda missão é a busca pelos corpos dos desaparecidos das guerrilhas urbana e rural. Há um grupo de trabalho criado por Lula – por determinação judicial, ressalte-se— que procura os restos mortais dos guerrilheiros do Araguaia. Mas no governo Dilma, o assunto ainda está em obsequiosa hibernação.

Mas a terceira ausência histórica a ser resgatada, o acesso aos arquivos secretos do Estado, acaba de explodir no colo da nossa presidente. A polêmica da hora é a manutenção (ou não) do sigilo eterno dos documentos oficiais. Os documentos da ditadura militar, do regime Vargas, do Itamaraty, enfim, o sigilo refere-se a tudo e a todos! O mais preocupante desse dilema é que, entre o passado e o futuro, entre Maquiavel e os iluministas como Voltaire, nossa brava presidente decidiu perder-se pelo lado errado. O perigo maior é começar a ter banzo de seus tempos de militante clandestina e cogitar instaurar uma criptocracia por essas bandas. Do que se trata? Rege a sabedoria que quando se perde o rumo, a melhor coisa a fazer é voltar ao início a fim de refazer todo o caminho. Continue reading »

jun 7, 2011

Wikileaks para a ditadura!

Neste momento em que se discute a criação de uma Comissão da Verdade para rememorar ou punir os atos de exceção da ditadura, somente uma política de ampla, geral e irrestrita transparência dos documentos será capaz de resgatar nossa História (Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo, Sessão Tendências e Debates, pág. 3)

Pela transparência total

Por Hugo Studart

Insólito constatar que a ex-torturada Dilma Roussef mantenha uma política restritiva de acesso aos documentos secretos da ditadura militar. É verdade que, em abril, o governo publicou portaria facilitando o acesso aos papéis que estão sob a guarda do Arquivo Nacional. Depois, Dilma anunciou a intenção de terminar com o sigilo eterno de documentos do Estado. Dias atrás, foi a Unesco quem anunciou, em Paris, que os documentos da ditadura viraram “memória do mundo”, algo similar a “patrimônio da humanidade”. Na casca, todos esses fatos aparentam dar maior relevância e transparência aos acervos. Na essência, são irrelevantes para a reconstituição da História.

Para começar, o Brasil não tem uma lei que regulamente o acesso aos arquivos públicos. Há anos que se arrasta no Congresso o projeto da Lei de Acesso, mas a própria base aliada do governo (deste e do anterior) tem sabotado a tramitação. Significa, na prática, que as direções dos arquivos públicos têm amplos poderes para tratar do assunto com bem entender. O Arquivo Nacional, por exemplo, tal qual nos tempos da censura prévia dos militares, hoje só permite o acesso aos documentos depois que burocratas anônimos examinarem o teor das informações.

Querem antes saber se há informações incômodas aos personagens da história ou às suas famílias. Continue reading »

jul 1, 2009

A guerra acabou

A abertura dos arquivos secretos da ditadura sobre a Guerrilha do Araguaia será doloroso para os dois lados –militares e PCdoB. Mas pode também ser um alívio. Será como a dor de um parto, no caso, o parto da reconciliação com a história (Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S.Paulo, pág. 2, Opinião)

 

Por Hugo Studart

Que fique bem claro que ainda há batalhas pela frente, algumas delas bem difíceis. Contudo, caso haja alguma sensatez na cabeça das autoridades brasileiras, as civis e as militares, existe possibilidades de, ainda neste de 2009, a frase supracitada, expressão máxima de júbilo dos povos, também possa ser enunciada no Brasil: “A guerra acabou!”. Refiro-me, prezados leitores, àquela guerra ideológica fratricida ocorrida nos anos 70 da região do Araguaia – naqueles tempos em que o filósofo Isaiah Berlin chamou de “os mais terríveis da história” – quando exatos 69 jovens voluntaristas, sem armas, provisões ou apoio popular, tentaram implantar uma tirania comunista no Brasil — mas foram fulminados por um Estado autocrático, que cometeu violações aos Direitos Humanos. A aventura deixou um saldo de pelo menos 95 vítimas. Desses, 17 já descansam em sepulturas, sendo 10 militares, seis camponeses e uma guerrilheira. Ainda haveria 78 desaparecidos – 57 guerrilheiros, 20 camponeses e um soldado.

A sociedade brasileira jamais quis a guerrilha. Contudo, quase quatro décadas depois, a guerra não acabou. Poderia ter findado em 1979, com a Anistia recíproca. E se não terminou, a culpa maior é das Forças Armadas, que se recusam a entregar os corpos dos desaparecidos às suas famílias. Elas têm o direito sagrado de enterrá-los em sepulturas dignas. A novidade é que essa guerra pode estar chegando a seus estertores, graças à série de reportagens que o Estado de S. Paulo publicou dias atrás com os arquivos secretos do tenente-coronel Sebastião “Curió” de Moura. O que o militar revelou, em suma, é que o Exército teria executado 41 prisioneiros no Araguaia. E o mais importante, indicou os locais usados para a ocultação dos cadáveres. Os fantasmas se materializaram. Os mortos se levantaram e estão pedindo sepultura.

Antes de Curió cantar, já se sabia que o Exército executara prisioneiros. Em minhas pesquisas junto a militares, cheguei a identificar e a confirmar 16 execuções. Também registrei mais 28 possíveis execuções, no total de 44. Mas a lista tinha lacunas. A listagem de Curió é mais precisa; ainda assim contém imprecisões. Inclui como executados, por exemplo, três guerrilheiros que se entregaram, foram poupados e receberam novas identidades: Hélio Navarro de Magalhães, Antonio de Pádua Costa e Luiz Rene Silva. Pelo menos Navarro está vivo; até tempos atrás trabalhava numa multinacional francesa, em São Paulo. O fato de terem sido 41, 38 ou 16 execuções, é tema irrelevante para a História. Mas saber o destino de cada um, individualmente, é essencial para o acalento e a pacificação das famílias.

Nos últimos cinco anos, alguns oficiais superiores que combateram no Araguaia vêm abrindo seus próprios arquivos. Mas abriram de forma seletiva, ocultando fatos que detratam o Exército. A relevância do ato de Curió, tomado à revelia dos comandantes, é que provoca um desfecho histórico possível à guerra. Se os comandantes aproveitarem a oportunidade, seguirão atrás de Curió pelo rumo certo da História.

É ingenuidade imaginar que os papéis que restaram nos quartéis contenham revelações bombásticas. Militares podem ter agido como hunos, mas não eram imbecis. Não registraram os atos de exceção em documentos oficiais. Ademais, as pistas relevantes foram cremadas em 1975, por ordem do presidente Ernesto Geisel. Portanto, esqueçam história positivista. Só é possível reconstruir os fatos com metodologias pós-modernas, através de narrativas orais dos remanescentes. São estes os arquivos que os militares precisam abrir: os fragmentos de suas memórias.

Quando isso ocorrer, se ocorrer, restará comprovado que os militares cometeram de atos de exceção no combate aos guerrilheiros. Prenderam moradores da região de forma arbitrária, executaram prisioneiros, profanaram corpos, relegaram seus próprios valores e instauraram a Lei da Selva. Também ficará constatado que o presidente Emilio Médici deu a ordem expressa de executar prisioneiros – ordem ratificada pelo sucessor Geisel. A esta altura, que grande novidade há em confessar esses erros?

Por outro lado, restará igualmente comprovado que os atos de exceção não foram cometidos pela Forças Armadas em seu conjunto, mas tão-somente por uma pequena facção, a Comunidade de Informações, cerca de 40 homens no Araguaia. Nem se violou direitos o tempo inteiro. Nas duas primeiras campanhas, as Forças combateram segundo as Leis da Guerra. Quem morreu, tombou em combate; quem foi preso, está vivo. As violações ocorreram apenas nos derradeiros combates da Terceira Campanha, quando as tropas desceram na selva com a ordem de não fazer prisioneiros. Desapareceram com 47 guerrilheiros e cerca de 20 camponeses.

Se os militares abrirem seus arquivos, igualmente se descobrirá que os atos de barbárie foram recíprocos, e que os guerrilheiros chegaram a esquartejar vivo um garoto de 17 anos, João Pereira – primeiro cortaram-lhe as orelhas, as mãos, os pés, os braços – na frente da família, como punição exemplar pelo fato dele ter levado militares a um acampamento guerrilheiro, quando prenderam José Genoíno. A abertura dos arquivos será doloroso para os dois lados. Mas pode também ser um alívio. Será como a dor de um parto, no caso, o parto da reconciliação com a história

O Exército organiza uma expedição ao Araguaia para procurar corpos.  Curió indicou quatro locais de desova. Um deles, vale lembrar, é a cabeceira sul da pista de pouso de Bacaba. Deve haver ali três corpos. Já os restos de Rosalindo Cruz Souza, justiçado pelos companheiros por conta de um caso banal de adultério, ainda devem estar em frente à casa do sítio de um conhecido camponês, João do Buraco. Podem ir lá pegá-lo; está sem a cabeça. A torcida agora é que o comandante Enzo Peri esteja de fato fazendo a opção histórica que leve as famílias a gritar: “A guerra acabou”.

set 20, 2008

Devolvam os corpos dos desaparecidos

Corpo de Maria Lúcia Petit

Estamos diante de um paradoxo histórico e político. Há brasileiros deixados para trás e só os militares sabem onde estão. Mas resgatá-los é algo complexo. Exige o engajamento dos comandantes das Forças Armadas, para convencerem suas tropas a revelar onde deixaram os corpos. Ocorre que essa operação exige como contrapartida que os grupos de Direitos Humanos também “embainhem” suas “armas”, desmobilizem a campanha em curso de julgar militares por crimes de tortura (Artigo originalmente publicado pelo Jornal O Estado de S.Paulo, pág. 2, Opinião) 

 Por Hugo Studart

Já lá se vão quase 30 anos que familiares dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia entraram com um processo na Justiça exigindo que o Estado informe o destino dos guerrilheiros. O caso deve ser decidido em novembro pelo Superior Tribunal de Justiça. Querem, essencialmente, que as Forças Armadas abram os arquivos secretos da ditadura para que se descubra onde estão os corpos. São  78 desaparecidos conhecidos – 57 guerrilheiros, 20 camponeses e um soldado. Onde estão os cadáveres? As famílias têm direito aos restos mortais. Querem enterrá-los com dignidade, de acordo com seus credos, ritos fúnebres, ajoelhar em contrição, acalentar suas memórias, desejam enfim prestar honras a seus guerreiros

Ora, o direito ao sepultamento digno dos mortos está impregnado no imaginário ocidental, herança de nossa raiz cultural helênica. A mitologia está pontilhada de passagens em que se condena a profanação dos corpos. Historicamente, em pleno século de ouro da Grécia, o general Alcibíades, homem forjado em rígidos valores morais pelo próprio Sócrates, foi julgado e condenado à morte por ter abandonado insepultos os corpos de um punhado de soldados na Sicília. Para eles era uma profanação ultrajante que exigia o castigo máximo.

Há brasileiros deixados para trás e só os militares sabem onde estão. Mas resgatá-los é algo complexo. Exige o engajamento dos comandantes das Forças Armadas, para convencerem suas tropas a revelar onde deixaram os corpos. Ocorre que essa operação exige como contrapartida que os grupos de Direitos Humanos também “embainhem” suas “armas”, desmobilizem a campanha em curso de julgar militares por crimes de tortura. Estamos diante de um paradoxo. Se algum militar que combateu no Araguaia apontar onde enterrou um guerrilheiro, estará automaticamente confessando um ato criminoso. Imprescritível, inafiançável, passível de julgamento pela Corte Internacional de Haia, como quer o atual ministro da Justiça Tarso Genro.

Dias atrás apareceu uma seqüência de fotografias do corpo de dois guerrilheiros. As fotos foram sacadas em setembro de 1972. Um ex-combatente, o sargento Ciro Oliveira, hoje reformado, guardou-as na gaveta por 38 anos. Revelou-as só agora. Um dos guerrilheiros guardava um diário. Foi identificado na hora como sendo o médico e guerrilheiro João Carlos Haas Sobrinho. Do outro, o sargento jamais soube o nome. Numa das imagens, um helicóptero militar leva os dois corpos. O que essas fotos têm de relevantes? Ora, são mais uma prova cabal de que militares, a serviço do Estado, desapareceram com brasileiros. Na Grécia Antiga, o general Alcibíades foi condenado à morte por muito menos.

Até hoje nenhuma autoridade dos governos democráticos pós-1985 quis saber a opinião das famílias dos desaparecidos do Araguaia — sendo 57 guerrilheiros, cerca de 20 camponeses e um soldado, registre-se mais uma vez. Elas querem julgar militares por crimes contra a Humanidade? Ou preferem enterrar seus mortos? Os militares, por sua vez, preferem o fim da guerra e entregar os despojos dos guerreiros inimigos ou permanecer na penumbra da lei da selva?

Os militares cometeram, sim, atos de exceção. Submeteram camponeses a tratos violentos, torturaram guerrilheiros, executaram prisioneiros, vilipendiaram cadáveres, deixaram corpos insepultos, como o de Lúcia Maria de Souza. Cerca de 30 guerrilheiros morreram em combate, como guerreiros. Contudo, outros 25, aproximadamente, foram presos e depois executados. Entre cinco e sete deles foram decapitados, como Jaime Petit e Arildo Valadão. As violações de direitos foram recíprocas.

O primeiro cadáver deixado insepulto foi o de um soldado, o cabo Odilo Rosa. O comandante guerrilheiro Osvaldo Orlando Costa queria expô-lo insepulto como troféu da revolução. O primeiro civil executado pelos guerrilheiros foi um camponês, o adolescente João Pereira, 17 anos. Seu pai foi visitado por uma equipe de agrônomos do INCRA perguntando pelos “paulistas”, como eram chamados os guerrilheiros. O garoto recebeu ordens do pai para servir de guia. O chefe dos “agrônomos” era o major Lício Maciel, cuja equipe prendeu José Genoíno e matou outros 12. Deflagrada a guerrilha, o garoto João Pereira foi julgado como “traidor do povo” pelo Tribunal Revolucionário e mutilado, na frente da família, a golpes de facão – primeiro cortaram-lhe as orelhas, depois as mãos, os pés, as pernas… Outros quatro também foram executados pelo Tribunal Revolucionário, sendo três camponeses e um guerrilheiro, acusados de colaboração e traição.

No início, em 1972, os militares combateram segundo as leis da guerra. Quem morreu tombou lutando, quem foi preso está vivo. As fotografias de Haas Sobrinho são dessa fase. Mas quando entraram na selva para a Terceira Campanha, em fins de 1973, com ordens do presidente Emílio Médici de não fazer prisioneiros, a barbárie se generalizou. Nenhum prisioneiro retornou. Nem como cadáver.  As Forças Armadas deixaram o Araguaia em fins de 1974.

É possível resgatar muitos corpos. Há uma década venho pesquisando a guerrilha junto aos próprios militares. Eles me informaram que cerca de 25 estão enterrados nos cemitérios de Xambioá e Marabá. Os demais foram deixados na mata. Mas o local dessas sepulturas jamais foi registrado nos arquivos. Será preciso recorrer àqueles que participaram das missões. Em 1975 o Exército voltou ao Araguaia para a chamada “Operação Limpeza”. Entre 12 e 15 corpos foram exumados e cremados, entre eles o de Osvaldão.

Ainda haveria uma dúzia de corpos nos cemitérios da região, na ala dos indigentes. O corpo do guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza estaria num barranco de rio no sítio de João do Buraco, camponês conhecido na região. Sem cabeça. Há um corpo na cabeceira da pista de pouso de Marabá. E três corpos numa área de treinamento militarem Brasília. Hátrês desaparecidos que mudaram de lado e estão vivos, sob nova identidade.

É muito difícil que algum militar se ofereça à imolação pública promovida pelas entidades de Direitos Humanos revelando o que sabe sobre os corpos. Cabe ao governo perguntar seriamente às famílias dos guerrilheiros mortos o que preferem: julgar os militares pelos crimes bárbaros que cometeram? Ou patrocinar uma conciliação histórica que comece revelando os erros dos dois bandos naquela guerra suja. Uma anistia recíproca que começaria com a indenização das famílias do cabo Rosa e de cinco outros soldados abatidos em combate; do garoto João Pereira e dos demais camponeses esquecidos; e que termine na localização e devolução de todos os cadáveres.

A professora Sônia Haas, irmã de João Carlos, se confessa num “dilema complexo”. Seu coração prefere encerrar a história do irmão “com a dignidade que ele merece”. E para ela e sua família, forjada no catolicismo, digno é dar a João Carlos um ritual de despedida e uma sepultura. “Mas a razão pede mais, exige que os culpados sejam julgados”, acrescenta Sônia. “Meu dilema é bastante complexo, pois quero alcançar as duas coisas”. Eis uma encruzilhada da História.

Defendo o direito sagrado e inalienável das famílias de se ajoelhar diante do túmulo de seus guerreiros. Não há mortos de esquerda ou de direita para as famílias dos guerrilheiros e dos militares mortos em combate. Há mortos, há cadáveres, tem que haver paz. A sociedade brasileira não pode ficar refém ad eternum de uma guerra que ela não quis, não quer e não vai querer que continue manchando a história nacional.

ago 8, 2008

Hora de usar o Espírito Olímpico para boicotar a tirania da China

Atletas e cidadãos de todo o mundo se mobilizam para denunciar o regime tirânico na China. Alemães, canadenses, brasileiros aproveitam as Olimpíadas para chamar a atenção sobre o certo e o errado. Até George W. Bush, desta vez, está fazendo a coisa certa. Mas nosso presidente Lula silencia. Está na China para bajular os chineses por interesses comerciais. É a diplomacia do capitalismo selvagem. Está fazendo como Lord Chamberlain, que em nome dos interesses britânicos, deixou Hitler avançar. Abaixo, tem um link para aderir à campanha mundial para levar o verdadeiro Espírito Olímpico a Pequim: 

Mobilizações de ativistas brasileiros pela Liberdade

Por HUGO STUDART

Bem longe daqui, lá nas montanhas geladas do Himalaia, há neste momento mais de 10 mil cidadãos encarcerados por razões políticas. Foram presos pelo governo chinês porque não aceitam a invasão militar de seu país. A China, vale lembrar, ocupou há 58 anos o Tibet, terra de um povo singular, que não guarda qualquer relação cultural ou história com a China. Massacravam monges, prenderam dissidentes, criaram uma nova diáspora. Liderados pelo dalai lama Tenzin Gyatson, há hoje 80 mil tibetanos no exílio.

Toda hora chega ao ocidente algum novo refugiado com relatos de torturas com choques elétricos. Mas os tibetanos resistem, fazem barulho. Ano passado promoveram uma campanha internacional para que o dalai lama falasse na ONU. Agora aproveitam as Olimpíadas de Pequim para denunciar a barbárie, numa campanha internacional justa – e que está dando resultados concretos.

Os atletas estão aderindo. No início não passavam de alguns gatos-pingados canadenses. Depois atletas alemães aderiram. Ingleses, franceses, americanos. Pelas informações que chegam, já seriam centenas de atletas que vão aproveitar as provas olímpicas para marcar posição política. Logo serão milhares. Ainda não ouvi falar de nenhum atleta brasileiro aderindo. Uma pena. Mais que isso, uma vergonha.

A China, por seu lado, reage. Com censura, repressão e propaganda política. Censura a internet e os jornais. Reprime a oposição interna e das nações vassalas. Apresenta um discurso de respeito ao tal “Espírito Olímpico”. Ora, o verdadeiro Espírito Olímpico é o da liberdade, da igualdade e da fraternidade entre os povos.

Dias atrás explodiu uma bomba na província de Xinjiang, onde há 8 milhões de uigures, população de maioria islâmica e que tem pretensões separatistas. Quando vi a imagem dos uigures na televisão me assustei. São todos de pele clara e olhos amendoados. Lembram os iranianos, sendo mais claros. Não têm qualquer traço oriental.

Os uigures não são chineses. Como os tibetanos também não são chineses – e travam uma luta justa para se livrar da tirania da China. Liderados pelo dalai lama, os tibetanos usam métodos da paz. Os uigures recorreram ao terrorismo. O terror é injustificável. Execrável. Precisa ser combatido com vigor. Mas os uigures não são chineses. A China está usurpando a liberdade de 8 milhões de uigures e eles e eles explodiram soldados chineses, às vésperas das Olimpíadas, para chamar a atenção do mundo para a sua causa.

E o que nós temos a ver com isso?

Abertura suntuosa dos Jogos Olímpicos de Pequim: uma maneira de tentar ofuscar as trevas da opressão

Neste momento, bem perto daqui, há mais de 10 mil empresários brasileiros tentando fazer algum tipo de negócio com a China. Querem vender. Houve um tempo em que a comunidade internacional boicotava com sanções econômicas o regime de apartheid da África do Sul. Chamava-se isso de princípios universais em defesa dos direitos humanos. Até que um dia o apartheid ruiu.

            No caso da China, todos correm para bajulá-los. Chama-se isso de pragmatismo diplomático. Prefiro definir como diplomacia do capitalismo selvagem.

Meses atrás um grupo de deputados fez uma viagem a Taiwan, a ilha onde se abrigaram os capitalistas quando o comunismo triunfou no continente. Os deputados retornaram entusiasmados com as possibilidades de negócios. Mas o Itamaraty vetou.

Há três décadas o Brasil rompeu relações com Taiwan e optou pela China. O Itamaraty enviou uma carta aos deputados recomendando que “evitem atos e pronunciamentos sobre aquela ilha”. Logo depois chegou ao Brasil uma delegação de empresários de Taiwan para tentar conversar com o governo brasileiro. O Itamaraty fingiu que não era com eles. Só faltou muito pouco para recomendar aos políticos que também não se falassem contra a tortura e as violações dos direitos humanos no Tibet.

Diante de situações extremadas, como a opressão política, tibetanos chegam a cometer atos absolutamente insandecidos, como a autoimolação

Lula chegou à China com essa recomendação absurda, alienando-se, protegendo-se, mantendo-se em obsequioso silêncio. Lula parece Lord Chamberlain pisando-em ovos para não desagradar a Hitler e aos nazistas. Em nome dos interesses comerciais britânicos, Chamberlain criou a chamada “política guarda-chuva” e deixou Hitler avançar por toda a Europa. Até Bush, que tem muitos erros, neste caso está fazendo a coisa certa. Lula prefere se esconder debaixo de um guarda-chuva que só protege a si mesmo – e o resto se dane na chuva da tirania chinesa.

Mapa da invasão

Aqui no Brasil está na pauta de debates políticos a revisão da Lei da Anistia para julgar militares acusados de tortura. O argumento é o de que a tortura é um crime hediondo (e de fato é hediondo!), e que as leis universais dos Direitos Humanos deveriam estar acima das leis nacionais. Também concordo.

O paradoxo é que o mesmo governo que fala em julgar ditadores brasileiros que torturaram há mais de 30 anos atrás, finge não ver os crimes hediondos que neste exato momento estão sendo cometidos pelo regime tirânico da China. Tudo em nome dos nossos interesses pragmáticos.

Ora, isso não é pragmatismo. Mas a selvageria do capitalismo.

 

jul 27, 2008

Quando um cacaçor de torturadores acusa um cidadão sem indicar quando e contra quem ele teria cometido excessos

O historiador Jarbas Silva Marques me procurou para denunciar que um torturador acaba de virar presidente da Academia Brasiliense de Letras. Segundo ele, o poeta, escritor, empresário e líder maçônico José Carlos Gentili, que tomou posse na semana passada na presidência da ABL, seria o ex-delegado federal José Carlos Gentil, incluído no livro “Brasil: Tortura Nunca Mais”, obra da Arquidiocese de São Paulo que enumera 444 supostos torturadores do regime militar brasileiro.

Gentili, ex-policial, hoje lider da Maçonaria

De acordo com Jarbas, Gentil teria trocado de identidade por volta de 1989, aproveitando-se da “Lei dos Oriundi”, aprovada na Itália. Foi então que o ex-policial Gentil, que em 1985 havia sido denunciado pelo próprio Marques, teria emergido como o empresário Gentili, escritor e festejado líder dos pioneiros de Brasília, Grão-Mestre Vitalício da Grande Loja Maçônica do Distrito Federal.

José Carlos Gentili confirma, através de um amigo, que de fato é o delegado José Carlos Gentil. Que serviu na PF na época do regime militar. Era delegado federal concursado. Mas que nunca foi torturador. Neste momento nosso amigo em comum está intermediando uma entrevista exclusiva com Gentili.

Jarbas Marques é um dos mais conhecidos “caçadores de torturadores” do País. Foi membro da Juventude Comunista, do velho partidão; virou militante do PC do B; foi preso em 1967, torturado, ficou na cadeia por dez anos, até 1977. Nos anos 80, ele identificou cerca de 30 militares e policiais que entraram na lista de torturadores do “Brasil: Tortura Nunca Mais”. Continue reading »

abr 11, 2005

“O IMAGINÁRIO DOS MILITARES NA GUERRILHA DO ARAGUAIA”

Dissertação de Mestrado em História, defendida em 11 de abril de 2005, dentro do Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília, e na linha de pesquisa Discurso, Imaginário e Cotidiano, tendo como orientadora a professora Cléria Botelho da Costa, e como membros da banca examinadora as professoras Diva Couto Muniz e Márcia Martins Kuyumjian, do Departamento de História da UnB, e o professor José Geraldo de Sousa Júnior, do Departamento de Direito da UnB. Posteriormente, a dissertação foi revista e ampliada para publicação em livro, com o título de “A Lei da Selva” (Geração Editorial, 2006), tendo sido agraciado no Prêmio Herzog de Direitos Humanos e como finalista do Prêmio Jabuti.

Introdução

 

Este trabalho examina fatos históricos ocultados pelas pretensas razões de Estado, por meio de mentiras deliberadas, de violações de normas jurídicas, morais e políticas. Foi nos tempos do Estado autocrático implantado no Brasil a partir de 1964, que ocorreu uma insurreição armada no coração das selvas amazônicas, episódio da nossa história que ficou conhecido como a Guerrilha do Araguaia. Especificamente, tem o propósito de trazer à luz elementos que possam vislumbrar o imaginário dos militares na Guerrilha do Araguaia. A preocupação é analisar o significado dos conflitos do Araguaia sob a ótica dos militares brasileiros, assim como interpretar seus sistemas de representações à luz de um quadro teórico e dos valores da época. Trata-se de algo em si difícil, visto que a maior parte dos episódios do conflito, notadamente aqueles protagonizados pelas Forças Armadas, permanece sob o império do mistério.

Mas, afinal, o que foi a tão decantada Guerrilha do Araguaia? A Guerrilha do Araguaia foi, em suma, um levante armado de inspiração marxista que pretendia desencadear uma guerra popular revolucionária no Brasil, partindo do campo para a conquista das cidades. O movimento foi promovido pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B) na região do rio Araguaia, na confluência entre quatro Estados – sul do Pará, sul do Maranhão, nordeste do Mato Grosso e norte de Goiás (hoje Tocantins) -, ao longo do rio Araguaia, região conhecida pelo nome de Bico do Papagaio. Os conflitos ocorreram em um polígono de aproximadamente 6.500 quilômetros quadrados entre o Pará e o Tocantins, área um pouco maior do que o Distrito Federal, onde habitavam cerca de 20 mil pessoas.

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abr 11, 2005

INVENTARIANDO O CORPUS E A PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA – “O Imaginário dos Militares sobre a Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, Cap. 1)

 

“A história das coisas feitas

 só sobrevive se for narrada,

se o que é dito, for bem ”

Hannah Arendt

1.1 – O Despertar Pessoal

 

Ao versar sobre o conceito de História, Benjamin explicou ser impossível conhecer todo o passado, em sua plenitude, da maneira exata que os fatos se deram em seu tempo. Para o pensador, articular o passado historicamente não significa conhecê-lo como ele de fato foi, mas “significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo”[1].

Há muito que os fatos que ocorreram na Guerrilha do Araguaia me despertam inquietações. Há 13 anos que acalento o projeto de conhecer esse pedaço da nossa história em sua plenitude, embora agora eu tenha consciência de que não conhecerei a maneira exata como aqueles fatos se deram. Reconheço essa impossibilidade, exposta com extrema clareza por Benjamin, mas ousarei reconstruir lembranças de outrora ainda próximas do presente. Benjamin também alerta que essas lembranças podem ser rememoradas tanto sob a ótica dos vencidos quanto dos vencedores – e o perigo se impõe ao reconstruí-las somente sob a visão da historia oficial. Nesse sentido, esta pesquisa tenta ir além dos parcos documentos oficiais públicos. Ela escava fatos ainda não conhecidos publicamente. Continue reading »

abr 11, 2005

IDENTIFICANDO O IMAGINÁRIO DOS ATORES DO ARAGUAIA – “O Imaginário dos Militares na Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, Cap. 2)

 

 

“Se as coisas são inatingíveis… ora!

Não é motivo para não querê-las…

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!”

(Mário Quintana)

2.1 – A borboleta e a Pistola

 

A guerrilheira Dinalva Conceição Oliveira Teixeira deixou lendas heróicas em sua passagem de quatro anos pela região do rio Araguaia. Corre na tradição oral da região que, de certa feita, quando em combate, mesmo com uma bala alojada no pescoço, teria virado borboleta antes de desaparecer na mata diante dos olhos em estupor dos inimigos[1]. Por conta da sua determinação, os guerrilheiros a obedeciam. Pela coragem testada nas armas, os soldados a temiam. Para os militares que entraram na mata, rondava sempre o temor da sua aparição. Nada pior, acreditavam, do que encará-la de frente. Corriam boatos de que ela seria implacável, invencível. Dina: foi este o codinome que ela escolheu ao deixar para trás,em São Paulo, a identidade original de geóloga, a fim de aderir à Guerrilha do Araguaia. A subcomandante Dina, como gostava ser tratada a partir do momento em que foi promovida a vice-líder do Destacamento C, se tornou um dos ícones maiores da guerrilheira extremista. Protagonista da ação, povoou o imaginário da reação militar.

Certa vez, o guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza, um advogado baiano que usava o codinome de Mundico, esteve diante da determinação implacável da subcomandante. Bastou uma única vez. Era um caso banal de adultério, triângulo entre Rosalindo e o casal de guerrilheiros Arlindo Valadão, o Ari, e Áurea Elisa Pereira Valadão, a Áurea. Levado às barras do Tribunal Revolucionário das Forças Guerrilheiras do Araguaia – era este o nome oficial da instituição – Rosalindo foi acusado de trair a revolução[2]. Cinco companheiros participaram de seu julgamento, entre eles Dina[3]. Sete camponeses testemunharam o episódio[4]. Amarrado numa árvore, com as mãos nas costas, Rosalindo, escutou a acusação. Foi sentenciado ao justiçamento por unanimidade dos votos. Quem executaria a sentença? Dina levantou-se em silêncio e caminhou em direção ao companheiro. Parou a dois metros de distância e apontou seu revólver Taurus calibre 38 para o coração de Rosalindo. Ele nada falou, não chorou, não pediu clemência. Apenas encarou Dina nos olhos na hora em que ela apertou o gatilho. Rosalindo foi enterrado ali mesmo, num banco de areia a 250 metros da casa sede do sítio, enrolado numa rede. Seu corpo jamais foi encontrado. Ele figura na lista dos desaparecidos políticos do Ministério da Justiça. Esses fatos ocorreram a 26 de agosto de 1973[5]. Continue reading »

abr 11, 2005

DESVELANDO A GUERRA ABERTA – “O Imaginário dos Militares na Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, cap. 3)

A forma extrema de poder é Todos contra Um;

a forma extrema da violência é Um contra Todos

Hannah Arendt

3.1 – Um Imaginário Plural

 

Costuma-se distinguir os militares e dirigentes do regime estabelecido em 1964 entre “moderados” e “linha dura”. Na verdade, a divisão no governo e dentro das Forças Armadas era bem mais complexa, revelando a existência de um imaginário plural entre os militares. O primeiro presidente do regime militar, o general Humberto de Alencar Castelo Branco, como demonstra a rica historiografia desse período, era um político moderado e teria projetos de redemocratização do País. Vinha, naturalmente, de uma longa tradição positivista do Exército Brasileiro, forjado no pensamento de Augusto Comte e acreditando, acima de tudo, “na ordem como condição básica para o desenvolvimento da proposta civilizadora e modernizadora do país”[1].

A ascensão da “linha dura”, igualmente positivista, mas também forjada no novo imaginário anticomunista, se deu quando o grupo do então ministro da Guerra, o general Arthur da Costa e Silva, se impôs a Castelo como seu sucessor. Já no poder, Costa e Silva trouxe de volta ao Brasil seu amigo gaúcho, Emílio Garrastazu Médici, então adido militar em Washington, para ocupar o cargo de ministro-chefe do Serviço Nacional de Informações, o SNI[2]. Continue reading »

abr 11, 2005

A GUERRA INVISÍVEL — “Imaginário dos Guerrilheiros na Guerrilha do Araguaia” (Dissertação de Mestrado, cap. 4)

Capítulo 4

A Guerra “Invisível”

  

“Os mais afoitos e desesperados
em vez de regressarem como eu
sobre os covardes passos,
e em vez de abrirem suas tendas para a fome dos
desertos,
seguiram no horizonte uma miragem
e logo da luta
passaram ao luto”

(Affonso Romano de Sant’Anna, Que país é este?)

 

 

4.1 –Os Estabelecidos e os Outsiders

 

Ao estudar os sistemas de normas de dominação e as relações de poder entre grupos sociais endógenos e exógenos de uma determinada comunidade do interior, Norbert Elias[1] apresentou a idéia de que só se constrói o “nós” quando se tem o “outro” como referência. Para o autor, um grupo precisa ter o outro como contraposição para que seja possível a coesão interna, assim como para a localização cultural e da identidade do sujeito coletivo, aquilo que ele define por “imagens de nós”. Em outras palavras – e transportando o conceito para o objeto desta pesquisa – significa que o imaginário dos militares no Araguaia estava intrinsecamente ligado ao imaginário dos guerrilheiros, como irmãos siameses, como a contra-revolução precisa da revolução para existir.

 

Elias denomina os endógenos de “estabelecidos” e os exógenos de “outsiders”. Seu trabalho ajuda a analisar como um grupo de guerrilheiros, a maior parte jovens universitários, embevecidos pelas “fantasias coletivas”, ainda segundo os termos de Elias, emprenhados da sagrada chama da convicção de que conseguiriam desencadear uma guerra popular revolucionária que mudaria a história do Brasil, chegaram à região do Araguaia e passaram a se relacionar com uma população estabelecida, 20 mil camponeses, posseiros e aventureiros solitários, isolados do establishment pelas privações da selva e pela amnésia do tempo. Foi um choque cultural, econômico e, principalmente, de valores. Portadores de um imaginário de luta contagiante – tão forte que a maior parte deles, mesmo quando ficou patente que a guerra estava perdida, preferiu morrer lutando a se entregar aos inimigos – os guerrilheiros eram chamados pelos estabelecidos de “paulistas”, numa referência que indica a condição de outsiders para os moradores da região.

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fev 9, 2003

A retórica revolucionária de algum lugar das selvas amazônicas

Os Comunicados das Forças Guerrilheiras do Araguaia como representações do sistema de valores expressos pela retórica radical dos Anos 60 e 70 no Brasil (Monografia produzida para a disciplina “Identidade, Memória, Texto e Narrativa”; Mestrado em História, Universidade de Brasília)

1. APRESENTAÇÃO

Este trabalho é resultado de reflexões acadêmicas realizadas no Curso de Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília, dentro do seminário ministrado pelos professores Sônia Lacerda e Jaime de Almeida, realizado entre novembro de 2002 e fevereiro de 2003, que abordou o tema “Identidade, Memória, Texto e Narrativa”. A temática aqui escolhida, a Guerrilha do Araguaia, é objeto dos estudos que venho desenvolvendo no curso de pós-graduação supracitado, dentro da linha de pesquisa “História Cultural”. Trata-se de uma pesquisa essencialmente empírica, que tem por propósito trazer à luz uma série de documentos das Forças Armadas sobre a guerrilha, boa parte inéditos, para conseqüente análise historiográfica do discurso militar sobre o episódio.

Nesse sentido, houve um esforço de entrecruzar neste trabalho um recorte do meu objeto de pesquisa, a Guerrilha do Araguaia, com parte das fontes de análise historiográficas analisadas no seminário, notadamente as que abordam a questão do discurso e da retórica das revoluções armadas. As reflexões aqui tratadas serão oportunamente incorporadas à dissertação de mestrado que estou desenvolvendo.

Faz-se mister esclarecer, preliminarmente, a carência de publicações com relatos de fontes primárias sobre a Guerrilha do Araguaia, especialmente sobre a terceira fase, entre outubro de 1973 e julho de 1974, quando teriam morrido 47 guerrilheiros –para somente dois sobreviventes conhecidos[1]. Esclareça-se, ainda, que entre dezembro de 1997 e junho de 2001, este pesquisador realizou entrevistas orais com 27 militares que participaram da Guerrilha do Araguaia, incluindo os oficiais de mais alta patente que estiveram presentes no teatro de operações. Essas entrevistas resultaram na obtenção de uma série de outros documentos sobre o episódio, produzidos tanto pelas Forças Armadas quanto pelas Forças Guerrilheiras. Continue reading »

set 1, 2002

A Morte e a morte da subcomandante Dina

A história de uma guerrilheira como representação do imaginário coletivo radical compartilhado por revolucionários e militares na Guerrilha do Araguaia (Monografia para a disciplina “Identidades e Representações”, do Mestrado em História, Universidade de Brasilia).

 

 

A mentalidade de um indivíduo, mesmo que se trate de um grande homem, é justamente o que ele tem de comum com outros homens de seu tempo” – J. Le Goff

“O homem cria o sublime, mas, também, pode criar o monstruoso”. Hanna Arendt

 

Dinalva Conceição Oliveira Teixeira deixou algumas lendas heróicas em sua passagem de quatro anos pela região do Rio Araguaia. Conta-se que de certa feita, quando em combate, mesmo com uma bala alojada no pescoço, teria virado borboleta antes de desaparecer na mata diante dos olhos em estupor dos inimigos[1]. Por conta da sua determinação, os guerrilheiros a obedeciam. Pela violência de seus atos, os camponeses a respeitavam. Pela coragem testada nas armas, os soldados a temiam. Dina –foi este o codinome que ela escolheu ao deixar para trás, em São Paulo, a identidade original a fim de aderir a um grupo de 69 militantes do Partido Comunista do Brasil, o PC do B, que pretendia implementar uma guerra popular revolucionária na região do Bico do Papagaio, entroncamento de Goiás, Pará e Mato Grosso, que ficou conhecida como Guerrilha do Araguaia. A subcomandante Dina, símbolo maior da guerrilheira radical. Matou quem achou que merecia e morreu da forma que bem pediu.

Uma única vez o guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza, codinome Mundico, esteve diante da determinação da subcomandante. Era um caso banal de adultério, triângulo entre Rosalindo e o casal de guerrilheiros Arlindo Valadão e Áurea Elisa Pereira. Levado às barras do Tribunal Revolucionário, Rosalindo foi acusado de alta traição. Quatro companheiros participaram de seu julgamento, entre eles Dina. Sentenciado ao “justiçamento”[2], teve execução sumária. Foi amarrado numa árvore pelo companheiros, com os olhos vendados. Dina levantou-se e foi direto ao companheiro, sem vacilos. Estourou-lhe a cabeça com um tiro de pistola. Foi enterrado ali mesmo. Seu corpo jamais foi encontrado. Esses fatos ocorreram a 16 de agosto de 1973[3].

A subcomandante Dina foi presa pelas forças do Exército cinco meses depois, em janeiro de 1974, de acordo com os arquivos militares a que este pesquisador teve acesso. Segundo os mesmos arquivos, ela morreu em julho daquele ano. Ainda é uma incógnita o que aconteceu nos seis meses em que esteve nas mãos do Estado. Seu corpo jamais foi encontrado. Relato de um militar a este pesquisador[4] dá conta de que ela foi levada de helicóptero, a partir da cidade de Xambioá (GO) para algum ponto da mata espessa. Chefiava o pelotão um militar do Exército, codinome Ivan. “Vocês vão me matar?”, indagou Dinalva assim que pisou em solo. “Não, só quero que você reconheça um ponto ali adiante”, respondeu o militar. Ela caminhou por cerca de 15 minutos mata adentro, com as mãos amarradas nas costas. Mantiveram uma conversa relativamente cordial, testemunhada por cinco militares. A guerrilheira queixou-se de que estaria se sentindo traída pela cúpula do PC do B. Ela queria combater, partir para o confronto armado com os militares, mas os chefes do partido deram ordem de fuga. O grupo parou em uma clareira. “Vou morrer agora?”, perguntou a guerrilheira. “Vai”, respondeu o militar. “Então eu quero morrer de frente”, pediu. “Então vira pra cá”. O militar se aproximou e lhe estourou a cabeça com um tiro de pistola. Foi enterrada ali mesmo. Seu corpo jamais foi encontrado. Dina encontra-se na relação dos desaparecidos políticos do Ministério da Justiça.

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