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dez 19, 2014

ESPERANÇA: Entre tragédia de Lúcifer e as catástrofes do Anjo da História de Walter Benjamin

E o homem é feito de carne, que vive, morre, apodrece e volta a ser pó. Mas carrega ao mesmo tempo uma alma que acredita ser infinita e imortal. É nossa alma que nos faz recordar o passado e sonhar com o futuro. O homem é, definitivamente, o maior paradoxo da Criação, um ser que existe simultaneamente em espírito e em carne, que constrói e destrói, que vive ao mesmo tempo no passado, no presente e no futuro.

Sonhadores, idealistas e aventureiros. Ativistas, missionários e voluntários. Conquistadores, inventores e empreendedores. Existem seres que atravessam a existência na Terra tomados de Esperança. Poetas do futuro. Pois desde que os primeiros deles saíram às portas das cavernas e começaram a olhar em direção ao horizonte, imaginando o que poderia haver do outro lado da montanha, esse punhado de homens só desejava uma coisa – controlar o Destino.

Em outras palavras, esse grupo de homo sapiens atravessou a vida tentando controlar o Acaso a fim de tecer a trama da própria história nessa breve passagem pela Terra. E são eles que, de alguma forma, com idas e vindas, luzes e trevas, vêm construindo dois projetos tão belos quanto catastróficos. O primeiro é um projeto chamado Humanidade. O outro é a Civilização.

É bem provável que o Sr., prezado leitor, seja um deles. Caso contrário não estaria lendo estas linhas. Sonhador ou ativista, aventureiro ou empreendedor, pouco importa. O relevante é lembrar que aqueles que porventura vieram ao mundo tomados de alguma dessas características, qualquer delas, por alguma razão do Destino, faz parte de um grupo raro que de pessoas que são movidas pela Esperança. A fé em si mesmo, no próximo, no homem, na vida. A Esperança no futuro. Um desejo inexplicável de ajudar a construir um mundo melhor para si ou a família, para seu povo ou país. Até mesmo um legado à Humanidade. Como posso influir na construção do futuro?

Quem somos, onde estamos? Devemos questionar, em especial, para onde vamos? Eis as indagações fundamentais do pensamento. Ora, é preciso primeiro compreender que a estrada que nos leva ao futuro é a mesma que nos trouxe do passado. Por essa razão, para alcançarmos os objetivos a que nos propomos, para tentar construir nossa própria História neste mundo, precisamos ter uma clareza sobre nossa trajetória que só pode ser obtida se recuperarmos o que deixamos atrás de nós exatamente nos lugares de onde viemos.

Assim, história de vida de cada ser é um eterno ponto de encontro da recordação com a Esperança. Continue reading »

set 27, 2013

O Espírito da Liberdade

Os amigos de rua, todos eles, queiram ser o Pelé. Mas eu só jovaga com a camisa 5. Era o Clodoaldo quem me inspirava. Ninguém conseguia entender por que eu gostava de um jogador tão tímido e discreto. Mas jogava limpo. Parava a bola no chão, levantava a cabeça e olhava sereno em direção ao horizonte. Por vezes apontava o dedo em alguma direção. Só rececentemente, quando tive o privilégio de observar os transatlânticos a partir da Ponta da Praia, na cidade de Santos,  consegui finalmente compreender que Clodoaldo jogava tomado por aquilo que Hegel chamaria de Espírito da Liberdade (Esta crônica foi originalmente publicada pelo jornal A Tribuna, de Santos, no Caderno Especial pelo aniversário da cidade, a 26 de janeiro de 2012)

1970, com minha mãe Margarida e meus irmãos: quando eu só pensava em jogar bola exatamente igual ao Clodoaldo

Toda criança tem um super-herói do imaginário a despertar nossos mais profundos valores, Batman, Aranha, Superman… e um ídolo dos esportes a inspirar nos duros caminhos da vida. Quase todos meus amigos queriam ser o Pelé e vestir a camisa 10. Depois vieram as inspirações Zico, Airton, Ronaldinho. Hoje é o Neymar. Mas eu era o Clodoaldo; só queria usar a camisa 5. Ninguém entendia por que eu gostava daquele tímido e discreto jogador. Nem eu.

Passei a infância e juventude oscilando entre as praias do Rio de Janeiro e o cerrado de Brasília. Acabei virando Flamengo. Mas a camisa 5 permaneceu a predileta; e a imagem do Clodoaldo jogando continuou no meu imaginário. Lembro-me que ele jogava limpo. Parava a bola no chão, levantava a cabeça e olhava sereno em direção ao horizonte. Depois passava a bola, sempre suave. Por vezes apontava o dedo em alguma direção.

Passaram-se muitos anos até que me reencontrasse com Santos. Jovem profissional, migrei sozinho para São Paulo em meados dos anos 80. A cidade era dura, árida, implacável! Muito mais do que hoje. Naqueles tempos não havia internet ou celular, nem mesmo linha disponível de telefone fixo. Passei mais de seis meses em completa solidão de final de semana. Até que num certo domingo de sol dois colegas cariocas buzinaram debaixo da minha janela.

“Vamos almoçar em Santos?” – gritou um deles. Continue reading »

abr 22, 2013

Éramos tão jovens, como poderíamos saber que o Renatinho, mais um dentre tantos, viria a se transformar no Renato Russo?

Como poderíamos saber que plantávamos as sementes de belas árvores que germinariam no futuro? Como poderiamos imaginar que todas aqueles agitos culturais que produzíamos terminariam por criar uma nova forma de resistência política? Como poderíamos supor que nossas noites em acampamentos, sempre com fogueira, poesia e violão, estaria ajudando a criar os fundamentos do movimento ecológico que só eclodiria 20 anos depois? Se já é difícil analisar o passado e compreender o presente, é quase impossível prever o futuro. O futuro nos pertenceria, mas não tínhamos a menor consciência disso. Éramos tão jovens…

Por Hugo Studart

Esta é a imagem de um acampamento. Identifiquei-me dentro dela: o cara à direita, sentado num banco, de camisa listrada. É provável que a fotografia tenha sido tirada em 1980, talvez 1981. Foi publicada no jornal Correio Braziliense deste domingo, 21 de abril, na capa do caderno Diversão&Arte. Trata-se de uma das ilustrações da reportagem sob o título de “Éramos tão jovens”, sobre fotografias perdidas do cantor Renato Russo e da turma de estudantes que gravitava entre as agitações culturais da Universidade de Brasília e os acampamentos nas muitas cachoeiras perto de Brasília.

Esta foto mexeu com minhas memórias sobre um tempo cujo “futuro já não era como antigamente”. Um tempo passado cujas sombras projetam-se sobre nosso próprio tempo presente. Explico e justifico:

Éramos muitos os jovens, centenas somente entre os estudantes da UnB, milhares se considerarmos os jovens de outras universidades que vez por outra se encontravam nas festinhas ou eventos culturais daquele tempo. Eu era um deles. Um figurante anônimo dentro de um contexto maior. Tão figurante quanto a figura do jovem sem rosto e de camisa listrada que aparece do lado direito dessa foto. Mas eu cumpria meu papel naquele contexto.  Tentava militar no movimento estudantil na esperança de deixar algum legado àqueles que vinham atrás. Continue reading »

jan 12, 2013

Eu queria ser o Batman

Um ensaio (iluminista) sobre a construção dos heróis: desde os nossos ídolos das histórias em quadrinhos, Hulk ou Volverine, aos épicos da mitologia, aqueles homens como Ulisses ou Teseu que possuiam a fórmula mágica para mudar o Destino de todo um povo

Por Hugo Studart

 Toda criança tem um herói de inspiração. Capitão América, o Incrível Hulk, Volverine, o Surfista Prateado, Asterix, Tintim, Hércules ou Thor, o Príncipe do Trovão. A onda dos super-heróis em quadrinhos ou em desenhos animados foi extraordinária naqueles tempos maniqueístas que o historiador egípcio Eric Hobsbaun definiu, com definitiva pertinência, como a “Era dos Extremos”; e o filósofo alemão Isaiah Berlim classificou, consternado, como o “século mais terrível da História”. Os Estados Unidos, líder da guerra fria e da indústria cultural desse período, foram pródigos em criar e divulgar ícones que ocuparam o imaginário de sucessivas gerações nascidas ao longo do Século 20. Do Canadá à Polinésia, da Finlândia aos confins da Patagônia, criança alguma deve ter escapado dos sonhos de virar justiceiro com super-poderes a fim de salvar o mundo em nome da Liberdade.

Ao arrumar seu baú de velharias, meu pai encontrou recentemente um desenho de minha autoria. Pela primariedade dos rabiscos, eu não devia ter sequer cinco anos. Era um esboço de um homem-morcego. Abaixo, uma frase escrita com letra segura e feminina, decerto da professora: “Papai é o Batman”. Eis aí a síntese de dois heróis da primeira infância. Já mantive com zelo extremado toda a coleção de gibis do Cavaleiro das Trevas. Ainda hoje não perco um filme sequer do Morcegão quando lançado por Hollywood.

Também já brinquei de ser Namor, o Príncipe Submarino; de Ivanhoé, o cavaleiro andante; de Will Robinson, o garoto da série de TV “Perdidos no Espaço”; ou ainda de Speed Racer, aquele garoto tão corajoso quanto voluntarista que, ao fim e ao cabo, sempre vencia os malfeitores. Na pré-adolescência, encantei-me por Tistu, “O Menino do Dedo Verde”, personagem do francês Maurice Druon; e logo depois por Lancelot do Lago, pelo capitão Kirk, de Star Trek; até chegar à dupla de cavaleiros Jedi da saga Stars War, Obi-Wan Kenobi e mestre Yoda.

IDEAIS DA ALMA

Em Menon, Platão (427-347 a.C.) apresenta a Teoria das Ideias Inatas, segundo a qual já nascemos com determinados valores, tão profundamente enraizados em nossa alma que, segundo o filósofo, só poderiam vir carregados de vidas passadas. Ou seja, traríamos de outras vidas certos conhecimentos, valores morais e características da personalidade. É o que o pensador chama de conhecimento verdadeiro. A educação, portanto, não seria um processo de aprendizagem, mas de recordação.

Desde então, do medieval São Tomás de Aquino ao pós-moderno Noam Chomsky, muitos pensadores de relevo debruçaram-se sobre a questão, parte concordando com a tese; outros tentando desconstruí-a com o argumento de que, em verdade, nascemos como tábulas rasas, em branco, e todo e qualquer conhecimento sobre o mundo só poderia ser adquirido através das experiências com os cinco sentidos.

Dessa discussão filosófica derivam outras questões da Ciência Política ou das Relações Internacionais, como a existência (ou não) de valores morais Universais, ou mesmo da Direitos Humanos Fundamentais. Mas fato que nos interessa agora é lembrar que pelos super-heróis da nossa infância é possível descobrir muito do nosso sistema de representações e quais são nossos valores realmente profundos.

Crianças, em geral, ainda não foram contaminadas pelas máscaras e pela hipocrisia social. Jean Jacques Rousseau apresentou a ideia de que todos os homens seriam bons ao nascimento, o chamado “bom selvagem”, e que é a sociedade que nos corrompe. Caso aceitemos, por princípio, a combinação das teorias das “ideias inatas” de Platão com a do “bom selvagem” de Rousseau, chegamos ao pressuposto de que nossos heróis da infância são autênticas representações dos sonhos e dos ideais traçados pelo Destino de cada um.

Namor, o príncipe submarino

O Príncipe Submarino era um sonhador que vivia imerso na timidez e na introspecção. Mas quando chamado aos grandes problemas, aparecia para aspergir o bem. Assim, como identificava-me com Namor, então eu deveria ter o sonho de aspergir o bem como valor inato, mas a introspecção sorumbática como característica limitante da personalidade. Continue reading »

set 26, 2012

O Aniversário da Sra. Cohen

Como um fato tão banal quanto o aviso de aniversário pelo Facebook de uma senhora de meia-idade nos remete a um tal de Walter Benjamin, um judeu fumador de haxixe que  nos ensinou a usar as reminiscências da memória para fazer do presente um maravilhoso ponto de encontro da recordação com a esperança

Benjamin nos ensina a usar uma simples imagem, extraída de um album de família, como relevante fonte para a construção da História. À esq. estou eu, abraçado por Dayse Cohen

Por Hugo Studart

Dayse Cohen completa anos hoje, me avisa o Facebook. Nada mais banal do que uma senhora com aparência de meia-idade, mãe de família e trabalhadora completar aniversário. Só dentre minhas relações das redes sociais, todos os dias três ou quatro festejam suas datas. Um fato extraordinário, contudo, emerge desse evento banal em sua aparência. Dayse desperta-me reminiscências, relampejos de um tempo que se foi e não volta mais, memórias que, se trabalhadas e resiginificados da forma adequada, podem lançar luzes rumo à construção do futuro. Para mim –ou para os senhores, prezados leitores. Como assim?

Dayse, dit Corrêa de Mattos, é minha prima de primeiro grau. Grande amiga e confidente naqueles tempos de inseguranças e dúvidas das nossas adolescências no Rio de Janeiro. Éramos três de idades parecidas, Dayse, eu e nossa prima Márcia Corrêa Rodrigues. Dayse é filha da tia Haydée Alves Corrêa, irmã mais velha de meu pai Jonas, e de Moacir de Mattos. Adotou o sobrenome Cohen por casamento. Adotou também, por livre arbítrio, boa parte dos sistema de representações e de valores do marido, a ponto de submeter o bilau de seus filhos amados à faca amolada de um rabino inclemente. Pobrezinhos –ficamos todos nós, os familiares, muito condoídos.

O relevante nessa história é que o aniversário de Dayse pode nos remeter a um tal de Walter Benjamin, esse aí morto desde 1940, mas cujo pensamento pode nos ajudar a fazer bom uso das nossas memórias do passado. Quero versar um pouco sobre o pensamento de Benjamin para, ao fim e ao cabo, retornar à Sra. Cohen.

Benjamin era filósofo, sociólogo, romanista, grafólogo, teórico da história, das artes e da tradução. Alemão e judeu, era um marxista que se recusava a se organizar em partidos. Ao materialismo histórico, preferia a espiritualidade mística. Era também usuário de haxixe. Por conta dessa heterodoxia, até hoje a maior parte das academias européias de Filosofia não considera sua obra digna de estar entre os cânones do pensamento moderno. Continue reading »

ago 26, 2012

Zé Rodrix me deu um livro e depois morreu

Esclareça-se de antemão que o personagem não morreu porque me deu um livro. Há um intervalo de um ano entre o acontecimento extraordinário (o envio do livro) e o fato lamentável (a morte do autor). Escrevo essas singelas linhas, sem reboliços ou rebuscados, só para registrar que a vida, grata e generosa, sempre nos apresenta oportunidades de crescimento. E que por razões diversas, ou sabe-se lá por quais vacilos, deixamos a chance passar. Rodrix foi uma dessas oportunidades perdidas.

Rodrix, em sua fase de iniciado nos mistérios da Maçonaria

Ele deu vários indícios carinhosos de que gostaria de se aproximar de mim. Agora não dá mais, azar o meu. Puxou assunto em cinco ou seis encontros que mantivemos. Convidou-me para almoçar com nossas mulheres e alguns amigos. Insistiu para que eu fosse no lançamento do seu livro, em 2008. Foi em São Paulo; eu estava em Brasilia, não pude ir. Ou não cavei uma maneira de ir. Tempo, diz o velho ditado, é questão de prioridade.Ato contínuo, Rodrix me enviou o livro pelo Correio. Em verdade três livros, batizados de “Trilogia do Tempo” (Record), e assinados no estilo dos mestres clássicos das artes da cabala e das bruxarias — *Z. Rodrix*, dessa forma aí, ladeado de asteriscos, com o nome José escrito no duplo diminutivo, e o sobrenome Rodrigues no diminutivo simples.

O primeiro volume chama-se “Johaben: Diário de um Construtor do Templo”. Tem 446 páginas. O segundo ele batizou de “Zorobabel: Reconstruindo o Templo”. Tem 640 páginas, é ainda maior. O terceiro volume da trilogia chama-se “Esquin de Floyrac – O Fim do Templo”. Mais 655 páginas. Total: 1.740 páginas – um susto! Guardei na estante, num lugar de honra e destaque, é verdade, mas sem abri-lo sequer.

Em cada detalhe, a trilogia exala esoterismo e dá indícios de que o autor pertenceria a alguma escola iniciática. Vi na televisão que seu corpo foi velado na Grande Loja Maçônica de São Paulo. E que quanto mais velho ficava, quanto mais o tempo passava, mais entusiasmado estava com os mistérios da maçonaria. Continue reading »

ago 25, 2012

Em defesa da vida nos Infernos

Depois de muito conversar com os mortos, o filósofo e teólogo Emanuel de Swedenborg descobriu que o Inferno, na verdade, seria uma das mais inteligentes obras de Deus, e que estilo de vida ideal para a eternidade é o dos prazeres

Por Hugo Studart

O mito da felicidade rege que todo homem ambiciona a liberdade durante a vida e o Céu após a morte. A realidade prova, contudo, que a maior parte dos seres humanos procura viver no Inferno, tanto aqui quanto acolá. Talvez seja o Inferno um local aprazível, bem menos aterrorizante do que nossa imaginação ocidental seja capaz de cogitar. Mas afinal, qual o estilo de vida ideal para se ter na Eternidade?

De acordo com o imaginário cristão, a vida no Paraíso seria de muita paz e serenidade, e só poderia ser conquistada caso o candidato levasse um cotidiano na Terra tomado de amor fraternal, orações, modéstia, caridade e recato. Enfim, uma vida tendendo ao jejum, ao silêncio e ao celibato monástico. Por outro lado, caso o homem venha a ter uma vida na Terra tomada de prazeres materiais e carnais, ambicionando fama, dinheiro, poder, estaria fadado a purgar a eternidade no quinto dos infernos.

Existe a possibilidade, contudo, da vida após a morte não ser regida por esse maniqueísmo medieval, no qual as coisas, como observou Bertrand Russel, são “celestialmente brancas ou diabolicamente negras”. E se pudessemos usufruir na outra vida de música alegre, conversas inteligentes, prazeres espirituais e até mesmo de amor e sexo? Estaríamos no Céu ou no Inferno?

O teólogo Emanuel Swedenborg foi quem melhor analisou tal assunto ao escrever que o inferno é uma das mais inteligentes obras de Deus. Não se trata, a acertiva acima, de uma heresia. É a síntese da obra de um homem santo. Não estranhes, prezado leitor, caso jamais tenhas ouvido falar desse tal de Swedenborg.

Filho de um bispo luterano, foi também sacerdote e teólogo inspirado. A base do luteranismo é a salvação pela graça. A base da doutrina de Swedenborg é a salvação pelo trabalho, pelas boas obras na terra. Devemos conhecê-lo para procurar entender por que quase todos nós, os humanos, buscamos a felicidade se entregando aos prazeres infernais. Continue reading »

ago 3, 2012

Por que deixar de lado a tal “neutralidade” e escrever na primeira pessoa do singular?

Ensinaram-me que um jornalista deve buscar a tal “neutralidade” e a só usar verbos na terceira pessoa, do singular ou plural. Já me ensinaram muita coisa errada fundamentada no racionalismo aristotélico. Quando entrei para o Mestrado em História, minha orientadora instigava-me a redigir na primeira pessoa do singular. Achei estranho.

“E a neutralidade científica?” –questionei.

“Não existe” –asserverou. 

Aos poucos, fui me acostumando a escrever sobre as ideias ou experiências pessoais e a acreditar ser impossível dissociar um conteúdo de seu autor. Afinal, como já ensinava o estóico Zenão com sua teoria do Macrocosmos e do Microcosmo, tão em voga no panteísmo pós-moderno, a energia divina trespassa todos os seres. Nós próprios somos a entidades a ser analisadas, ensinava o hermeneuta Heiddeger. Por isso, antes de escrever ou pensar, é essencial confessar.

Partindo-se da escola filosófica Zenão e passando-se por Heiddeger, chega-se à conclusão de que, antes de pensar, é preciso confessar. Pois há muitas nebulozidades ideológicas por trás de cada autor

Por Hugo Studart

Hoje, costumo usar o “eu” até mesmo em artigos políticos. Dias atrás enviei um artigo acadêmico para uma revista de História, no qual teci relatos das minhas pesquisas de campo sobre a Guerrilha do Araguaia. O pareceirista devolveu, pedindo que eu extraísse o que fosse referência pessoal, posto que não interessaria a ninguém. Mantive, mas com uma longa justificativa em nota de rodapé. Minha própria mulher, Adriana, já me aconselhou a extrair referências pessoais de um livro que estou escrevendo. Afinal, argumentou, simbolizando o que pensa a maior parte dos homens e mulheres de nosso tempo, a história do autor só interessa ao próprio, talvez à família, ou ainda ao psicólogo. Discordo

Ora, impossível dissociar a obra de seu autor. Zenão de Cítio (332-265 a.C.), filósofo grego fundador da escola dos estoicos, partiu da ideia do cosmos e do microcosmos para formular a ideia de que todos os seres e fatos estariam interligados numa espécie de teia, a grande teia da Criação. Discípulo de Diógenes, fundador da escola dos cínicos, Zenão nutria muito pouca paciência com as especulações metafísicas da Academia platônica. Mas acreditava que o Cosmos (mesmo que Universo, em latim) e era governado por um legislador supremo. Diante do macrocosmos, desse “deus desconhecido”, o homem seria totalmente impotente, e que restaria a nós tão-somente aprender a aceitar as trapaças da sorte e as tragédias do Destino. Continue reading »

nov 25, 2011

Enterrem meu coração num jatobá na floresta

 

Este é o Velho Bugre, cada vez mais parecido com Touro Sentado

Por Hugo Studart

Estive ontem à noite na festa de entrega do Troféu Raça Negra, promovida pela Afrobrás e pela UniPalmares, Faculdade da Cidadania Zumbi dos Palmares, de São Paulo. Na noite anterior, assisti ao DVD “Enterrem meu coração na curva do rio”, sobre um índio sioux, em verdade um mestiço, egresso da tribo do mitológico cacique Touro Sentado, que viveu no mundo dos brancos, se tornou o primeiro “índio” médico nos Estados Unidos e terminou a vida lutando pela defesa e justiça para com seu povo.O filme me comoveu profundamente. A festa de Zumbi também. Foi um dos eventos mais bonitos, edificantes e emocionantes que meus cabelos brancos já presenciaram. Por vezes, ou melhor, muitas vezes, me questionam por que eu, um branco, ao invés de defender a meritocracia, instrumento mais democrático já inventado pelas sociedades, defendo ações afirmativas, como cotas para negros nas universidades e empresas? Jamais revelei as verdadeiras razões. Defendo por meu pai, por mim, por todos. Defendo as ações afirmativas para as minorias étnicas, negros e índios, porque quero que enterrem meu coração ao pé de um grande jatobá de uma vasta floresta.

SER BUGRE, SER CRIOULO
Certa feita, ainda adolescente, li a história de um militante dos Direitos Civis nos Estados Unidos. Seu nome foi-se no tempo, mas a história ficou na memória. Ele começava o enredo contando que só na idade adulta descobriu que era negro. Seu pai havia conseguido ascender na escala social, o que permitira morar em bairros melhores e estudar em boas escolas. Viviam entre brancos, como brancos. Em casa, os pais jamais haviam falado de suas origens étnicas. Na escola, pensavam que fosse descendente de indianos ou asiáticos. Demorou muito tempo para que tomasse consciência de sua verdadeira identidade étnica e cultural. Daí para a militância pelos Direitos Civis e a luta anti-segregacionista dos anos 60 nos EUA, foi um pulo.

Sou bisneto de índios – mas como o personagem da história acima, só depois dos 40 anos comecei a encontrar minhas verdadeiras raízes culturais. Meu pai, Jonas Alves Corrêa, é um caboclo do Pantanal do Mato Grosso.  Continue reading »

ago 20, 2011

Breve história do buraco e dos sapos

O Parque Olhos D’Água foi concebido por causa de uma cratera. Conhecer essa história pode inspirar aqueles que lutam pela preservação de uma área com nascente, árvores (e cratera) na capital federal

Lagoa dos Sapos: pelo Plano Piloto de Lúcio Costa, era para virar concreto. Hoje abriga o Parque Olhos D´´Agua, em Brasília

 

Por Hugo Studart

Vou narrar aos senhores, prezados leitores, uma singela história por muito poucos conhecida. Tinha um buraco de rua no meio do caminho entre os homens, sempre ávidos pelo progresso sem fim, e os sapos que habitavam uma pequena lagoa no final da Asa Norte, em Brasília. Era um dia qualquer de julho de 1979, quente e seco, quando o síndico de um bloco da superquadra 415 norte telefonou para o Correio Braziliense. O bloco, não sei mais a letra, se J ou K; sei apenas que se espraia de frente para a L-2, bem ao lado esquerdo do Parque Olhos D´Água. O síndico queria se queixar de uma cratera aberta no meio do estacionamento do bloco. Já pedira várias vezes providências ao Governo do Distrito Federal. Em vão. Agora recorria aos jornais.

Apresento-me, preliminarmente. Hoje sou morador de São Paulo. Mas naquela época, 1979, era estudante de Jornalismo da Universidade de Brasília. Acabara de completar 18 anos e conseguira um estágio de repórter no Correio. Certo dia o editor mandou-me fazer uma matéria sobre aquele buraco de rua na 415 norte. Para um jornalista, não há nada mais humilhante do que esse tipo de cobertura. Da mesma forma que no Direito se humilha profissionais tratando-o por “advogado de porta de cadeia”, temos o “jornalista de buraco de rua”. Mas aquela era uma das primeiras matérias que eu iria fazer sozinho, sem a supervisão de um repórter mais experiente. Continue reading »

set 28, 2008

A morte com dignidade

Foram duas notícias no intervalo de minutos. O ator Paul Newman faleceu aos 83 anos. Gostava muito dele como ator, mas principalmente por conta de seu engajamento social e político. Um tio meu, Moacir Matos, também, aos 91. Era-me muito querido, um homem do bem, de quem vou sempre guardar boas lembranças. Estamos sempre sofrendo perdas. Por vezes de ícones, como Paul Newman; às vezes de entes próximos, como meu tio. Dias atrás tive que sacrificar meu cachorro Batu. Senti muito.

Que ninguém me agracie com lágrimas; que o pranto

  Não entristeça meus ritos funerais” — escreveu o poeta Cícero em De Senectute (Da Velhice)

 

A morte de Sócrates: “Devemos um galo a Esculápio”

Recentemente escrevi como gostaria que venha a ser minha morte. Curioso, usei de início a conjugação verbal no condicional, “gostaria que fosse”. Mas a morte é inevitável, a única certeza desta vida, ao lado dos impostos – rege o ditado. Então troquei pela conjugação correta, “venha a ser minha morte”. Continue reading »

set 27, 2008

Como Sêneca me transformou num cronista

Você já pensou sobre suas próprias frustrações, prezado leitor? E sobre as realizações? Andei pensando muito nas minhas. Procurei consolação no filósofo Sêneca. Resultado: acabo de me tornar um cronista sobre os caminhos do bem.

 

Foi Sêneca quem certa feita escreveu: “A verdadeira grandeza é ter em si a fragilidade de um homem e a segurança de um Deus”. Ando lendo o filósofo romano, um dos ícones do estoicismo. Ando atrás respostas para minhas frustrações. Como boa parte da humanidade, ando atrás de caminhos para meus desejos. Ando atrás de decisões.

Tomei uma hoje pela manhã: vou virar cronista. Na verdade, enquanto redigo estas linhas, vou consumando a metamorfose. Um desejo antigo, mantido por longos anos dentro da gaveta das frustrações interiores, vai se transformandoem matéria. Real, palpável, palatável, visível.

Doravante vou escrever crônicas. Senão todos os dias, pelo menos toda semana. E ato contínuo publicá-las no meu blog para compartilhar com os amigos. Se me convidarem para publicá-las também num jornal ou revista impressos, melhor. Eis, meus caros amigos, um ato de fé – esta fé que move montanhas e materializa desejos.

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jul 13, 2008

Mimi e o jornalismo do baixo clero

A morte do colunista social Emivaldo Silva, o folclórico Mimi, de Brasília, trás lições aos jornalistas sobre a relevância de valorizar as fontes do baixo clero. E aos historiadores, sobre a pertinência da história contada de baixo, sem heróis, estadistas ou superestruturas marxistas

 

O saudoso Mimi, com alguma socialite

Por Hugo Studart

Mimi se foi para sempre. Li no Correio Brasiliense de domingo 13 de julho, que o colunista social Emivaldo Silva, o Mimi, que publicava suas gossips no Jornal de Brasília, entre outros órgãos, faleceu aos 51 anos, vítima de um AVC. Estava com uma barriga enorme, pornográfica.

– É tudo champanhe francês e caviar Beluga – respondeu-me recentemente, às gargalhadas.

A maior parte dos jornalistas da capital o desdenhava. Em especial os jornalistas políticos e econômicos. Com seu jeito debochado, trejeitos de homossexual afetado, muito afetado, mulato e sem refinamento cultural, os coleguinhas não o queriam por perto. Mimi era o ícone do baixo clero do jornalismo federal.

Eu gostava dele. Quando fez 50 anos, deu um festão para comemorar. Não pude comparecer, mas dei uma nota na coluna que eu assinava na IstoÉ, “Brasil Confidencial”.  Muitos entranharam. Mas homenageando-o em vida, estava retribuindo muitos favores. Mimi era uma das minhas boas fontes de informações. Fonte de notas, de pautas, de bastidores. Quando eu esgotava a garimpagem entre as “altas fontes”, muitas vezes vinha o insight: “Mimi vai me salvar!”.

– Mimi, me conta quem agora está comendo quem?

– Ah, meu bem, você sabe que aqui todo mundo come todo mundo… ah, lembrei, o Fulano virou amante da mulher do Sicrano.

– É verdade que o deputado Tal virou marreca?

– Ihhh, amiga, agora ele é aaaaamiga. Imagine que… Continue reading »

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