Breve história do buraco e dos sapos

O Parque Olhos D’Água foi concebido por causa de uma cratera. Conhecer essa história pode inspirar aqueles que lutam pela preservação de uma área com nascente, árvores (e cratera) na capital federal

Lagoa dos Sapos: pelo Plano Piloto de Lúcio Costa, era para virar concreto. Hoje abriga o Parque Olhos D´´Agua, em Brasília

 

Por Hugo Studart

Vou narrar aos senhores, prezados leitores, uma singela história por muito poucos conhecida. Tinha um buraco de rua no meio do caminho entre os homens, sempre ávidos pelo progresso sem fim, e os sapos que habitavam uma pequena lagoa no final da Asa Norte, em Brasília. Era um dia qualquer de julho de 1979, quente e seco, quando o síndico de um bloco da superquadra 415 norte telefonou para o Correio Braziliense. O bloco, não sei mais a letra, se J ou K; sei apenas que se espraia de frente para a L-2, bem ao lado esquerdo do Parque Olhos D´Água. O síndico queria se queixar de uma cratera aberta no meio do estacionamento do bloco. Já pedira várias vezes providências ao Governo do Distrito Federal. Em vão. Agora recorria aos jornais.

Apresento-me, preliminarmente. Hoje sou morador de São Paulo. Mas naquela época, 1979, era estudante de Jornalismo da Universidade de Brasília. Acabara de completar 18 anos e conseguira um estágio de repórter no Correio. Certo dia o editor mandou-me fazer uma matéria sobre aquele buraco de rua na 415 norte. Para um jornalista, não há nada mais humilhante do que esse tipo de cobertura. Da mesma forma que no Direito se humilha profissionais tratando-o por “advogado de porta de cadeia”, temos o “jornalista de buraco de rua”. Mas aquela era uma das primeiras matérias que eu iria fazer sozinho, sem a supervisão de um repórter mais experiente.

Fui. Acompanhado de um dos mais melhores fotógrafos da cidade, Adauto Cruz. Era meu preceptor. O porteiro chamou o síndico. Demorou 5 minutos, 10 minutos… Impaciente, andei até a ponta do bloco, buscando algo para fazer. De frente para uma mata alta, avistei uma pequena trilha. Curioso, desci. Cheguei a uma lagoa. Achei-a muito bonita, olhei a mata em volta, lindíssima. Comecei a pensar sobre o destino daquela área. Subi ao estacionamento, observei a região e conclui que a lagoa e a mata ficavam exatamente na área destinada a ser a entre-quadra comercial 414-415 Norte.

O síndico da cratera ainda não havia descido. Chamei o fotógrafo Adauto Cruz e lhe contei sobre o que vira. Descemos juntos. Adauto estava especialmente inspirado naquele dia. Os raios de sol incidindo sobre a lagoa ajudaram bastante a compor as fotografias. Subimos, entrevistei o síndico, Adauto clicou o buraco e retornamos à redação. Não tenho cópia da reportagem. Precisaria ir a Brasília buscá-la nos arquivos do Correio. Mas restou gravado em minha memória um texto que começava mais ou menos assim:

“Existe um recanto bucólico no final da Asa Norte, com bela lagoa, árvores nativas, moradia de macacos, pássaros e muitos sapos, cuja sentença de morte já foi decretada pelo Plano Piloto projetado por Lúcio Costa”.

No dia seguinte, a foto de Adauto seria publicada no alto da capa do Correio Braziliense. Imagem em preto e branco. Na época, jornais não tinham cores. Mas a fotografia era deslumbrante. Embaixo, um pequeno texto, duas ou três linhas, chamando para a reportagem interna, na editoria de Cidades. Foi minha primeira matéria com chamada de capa – ainda que o mérito principal tenha sido do fotógrafo.

À tarde, quando cheguei à Redação, feliz da vida com a capa, o editor, Cláudio Lysias, já me aguardava sorrindo. Anunciou que eu estava sendo aguardado pelo secretário de Viação e Obras do GDF, José Carlos Mello. “Ele disse que só dá entrevista para você”, explicou o editor. Mas não disse a pauta. Fiquei surpreso. Era também a primeira vez que eu seria recebido por alguma autoridade. Ainda mais aquela autoridade. Mello não era apenas mais um secretário, desses que vem e vão desapercebidos, cujo nome ninguém sabe ao certo, nem sequer os subalternos. Mello era muito poderoso, super-secretário de dois governadores consecutivos, em pleno governo militar. Tudo passava por ele.

Cheguei ao gabinete de José Carlos Mello no Buriti. A secretária mandou-me entrar imediatamente. Lembro-me que Mello estava numa mesa grande, com alguns assessores. Nunca antes havia visto gabinete ou mesa de autoridade. Ele me chamara para anunciar que decidira alterar o plano diretor de Brasília a fim de preservar aquela lagoa e a mata ciliar em volta. Não haveria mais entrequadra comercial entre a 414 e 415 norte. Também seriam eliminadas algumas projeções de blocos da 414.

A esta altura, já não sei qual o instrumento jurídico o Plano Piloto de Lúcio Costa foi alterado. Se por portaria do secretário Mello, se por decreto do governador Aimée Lamaison, um coronel do Exército nomeado para o cargo por um amigo de caserna, o general presidente João Figueiredo. O fato é que, naquela época, não havia Assembléia Distrital e o governador do Distrito Federal tudo podia; o secretário Mello podia mais ainda. Também não sei mais qual o tamanho da área que ele bloqueou para a preservação ambiental.

Tempos depois sai de Brasilia rumo a São Paulo. Em 1994 Joaquim Roriz inaugura o Parque Olhos D’Água, com 21 hectares, área muito maior do que aquela bloqueada em 1979 – a Lagoa dos Sapos e a mata a seu redor. Roriz entrou para a história como se fosse obra exclusivamente sua. Talvez tenha sido sua melhor herança. Mas o fato é que o cidadão brasiliense deve o parque a uma confluência de fatores: uma cratera que os burocratas do governo teimavam em não fechar; um síndico combativo; um jovem repórter tão curioso quanto impaciente, um fotógrafo inspirado; um editor competente e um secretário de governo visionário, que naquela época, ainda em plena ditadura militar, tudo podia.

Naquela época, ninguém pensava no colapso iminente dos recursos naturais do Planeta, em aquecimento global, não havia 900 milhões de seres humanos sem água potável, e muito menos havia consciência ecológica. Fomos todos movidos mais pela intuição e romantismo do que pela razão ou consciência. Estávamos em plena Guerra Fria, com marxismo e capitalismo completamente tomados pelo espírito de Prometeu, aquele personagem da mitologia, um daimon, que criou a Civilização do progresso sem fim.

Só conheceria o parque em 2002 ou 2003. Caminhei por todas as trilhas, molhei as mãos na Lagoa dos Sapos. Desde então, passei a me orgulhar profundamente daquela reportagem de 1979. Não foi minha melhor. Escrevi centenas de outras matérias, algumas premiadas. Mas é, com certeza, a reportagem da qual mais me orgulho. Sem dúvida! Sempre que tenho oportunidade procuro passar em frente ao Olhos D’Água a fim de me lembrar daquela tarde de julho, quente e seca, quando fui repórter de buraco de rua.

Os moradores da Asa Norte agora debatem se uma área ali perto, entre a 213 e 214 norte, deve (ou não) ser preservada. Na prancheta dos burocratas, foi traçado que na área deve ser erguido um ou mais blocos. Leio no Brasília247 que havia uma nascente, que agora seria esgoto. Há belas árvores. E há também uma cratera que precisa ser fechada pelas autoridades. Nada que se compare ao acervo natural do Parque Olhos D’Água. Mas talvez essa singela história do buraco e dos sapos da 415 inspire os moradores da região sobre o melhor uso para a área vizinha. Em 1979, a decisão dependeu somente de dois homens, o governador nomeado e seu secretário. Numa democracia, depende essencialmente da mobilização de seus cidadãos.

Lagoa dos Sapos, de outro ângulo

Esta entrada foi publicada em Cronicas, Ecologia e marcada com a tag , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *