ago 1, 2012

Assim liquidaram o Molipo. Mas quem seria o traidor?

Um dos grandes mistérios que restam à historiografia sobre a luta armada brasileira dos anos 60 e 70 é descobrir como os órgão de repressão militares conseguiram liquidar com o Movimento de Libertação Popular, Molipo. Trata-se de um grupo formado em Cuba, sob o patrocínio direto do comandante Fidel, a partir de uma dissidência de exilados da Aliança Libertadora Nacional, ALN, então a maior organização nacional. Entre seus membros, o jovem José Dirceu de Oliveira e Silva. E por que o Caso Molipo seria intrigante? Porque, de seus 28 membros em Cuba, 23 foram executados assim que retornaram ao Brasil, alguns deles na fronteira.

Há uma certeza consolidada: havia um delador em Havana, avisando aos militares sobre as movimentações do grupo. Mas quem seria, afinal, o chamado “Traidor do Molipo”? As esquerdas gostam de apontar o dedo para o cabo Anselmo. Ele assume muitos erros, inclusive o de ter delatado sua própria companheira, Soledad Barrett Viedma, grávida de um filho seu, que morreu executada nas mãos do delegado Fleury. Mas Anselmo garante que não tem nada a ver com o caso Molipo. O Traidor do Molipo seria outro. Quem? Esse é um tema que ainda demanda uma investigação da histórica. Há protagonistas vivos, incluindo os militares que executaram as missões, como o coronel Lício Augusto Maciel, que chefiou a operação que resultou na morte do militante Jeová de Assis Gomes (foto). Há também documentos relevantes nos arquivos secretos militares.

O jornalista e sociólogo Renato Dias acaba de trazer à luz, em reportagem especial para o jornal A Opção, de Goiânia, documento garimpado  no Arquivo Nacional, revelando que foi a prisão do militante Boanerges de Souza Massa que acelerou desmantelamento do grupo. Documento revelador, reportagem relevante, que reproduzo na íntegra. Mais um passo para a construção dessa história

Fac-símile de documento reservado dos órgãos de segurança nacional sobre a prisão de Boanerges de Souza Massa, em Pindorama

 

Renato Dias Especial para o Jornal Opção/ De Brasília

A queda do Molipo (Mo­­vi­mento de Li­bertação Popular), também chamado de Grupo da Ilha ou Grupo dos 28, teria se iniciado com a prisão, em Pindorama (à época Goiás, hoje Tocantins), do médico, treinado em Cuba, Bo­a­­nerges de Souza Massa. É o que aponta documento obtido no Arquivo Nacional pelo Jornal Opção.

O militante da organização [Boanerges de Souza Massa], uma dissidência da Ação Li­bertadora Nacional (ALN), criada por Carlos Marighella, morto em 4 de novembro de 1969, foi preso com duas carteiras de identidade. Uma com o nome de Julio Martins. Outra sob o registro de Moisés de Leôncio Braga.

“Ele foi conduzido à Bra­sília e logo em seus primeiros interrogatórios confirmou a presença de terroristas vindos de Cuba. (…) Eram 6 terroristas”, informa. Logo depois, relata o informante, “Rui Car­los Vieira Berbert acabou preso em Natividade”. Ele morreu dois dias depois.
“Outro terrorista, Jeová de As­sis Gomes, acabou localizado em um campo de futebol, em Guaraí”. Ele também morreu. De uma fazenda localizada na região do Rio Lages, entre Araguaína e Wan­der­lândia, conseguiram escapar Sérgio Capozzi, Jane Vanini e Otávio Ângelo, registra o relatório.

“O sítio fora comprado por um contrato particular por Jeová de Assis Gomes para servir de base ao grupo terrorista que passou a atuar na região”. O documento diz que Boanerges de Souza Massa e Rui Berbert atuariam em Dia­nópolis, Almas, Natividade, Ponte Alta e Pindorama.
Já as intervenções de Jeová de Assis Gomes, Jane Vanini e Sérgio Capozzi, trio do Molipo deslocado para deflagrar a guerrilha rural,projeto original da ALN e de Carlo Marighella, seriam em Guaraí, Nova Olinda, Araguaína, Wan­derlândia, Carolina do Norte e Balsas(MA).

“A morte de Carlos Eduar­do Pires Fleury, cortando o apoio da cidade, a dificuldade de conseguir a legalização dos seus componentes, a desconfiança da população, a malária que afetou dois militantes Rui Berbert e Sérgio Capozzi, marginalizaram o grupo”, registra o documento.

Monitoramento
Os órgãos de segurança nacional e de repressão política monitoravam o Movimento de Libertação Popular (Molipo), uma dissidência da Ação Li­bertadora Nacional (ALN), desde Cuba. É o que aponta documento do Arquivo Nacio­nal obtido com exclusividade pelo Jornal Opção.

O relatório confidencial mostra que ela já sabia da criação do Molipo, em 1970, em Havana, além dos retornos ao Bra­sil de Aylton Adalberto Mortati, Antônio Benetazzo, Arno Preiss, Boanerges de Souza Massa, Flávio Molina, Francisco José de Oliveira, João Carlos Cavalcante.
Mais: teria retornado à pátria ainda José Dirceu de Oliveira e Silva, ex-presidente da União Estadual dos Es­tudantes de São Paulo, José Roberto Arantes de Almeida, Lauriberto Reyes, Márcio Beck Machado, Maria Au­gusta Thomaz, Rui Berbert Vieira, além de Natanael de Moura Girardi.
O informe reservado relata que também estariam prestes a retornar Ana de Cerqueira César Corbisier, Ana Maria Palmeira, Frederico Eduardo Ma­yr, Itobi Alves Correa, João Le­onardo da Silva Rocha, João Zeferino da Silva, assim como Vinícius Medeiros Caldevilla.

Os arapongas registram que foram incorporados ao Molipo no País os militantes André Tsutomu Ota, Artur Machado Scavone, José Carlos Gianini, Pedro Rocha Filho, Silvia Pe­roba Carneiro Pontes. Hiroaki Torigoe, Francisco José de Oliveira e José Ro­berto Arantes aparecem na relação de mortos.
Sem curso
Detalhado, o dossiê sobre a organização de esquerda destaca que os seguintes militantes não teriam feito curso de guerrilha na ilha dos irmãos Castro: Sér­gio Capozzi, Jane Vanini, O­tá­vio Ângelo. Os órgãos de se­gurança registraram as prisões de José Carlos Gianini e de Pedro Rocha Filho.

O informe confidencial R004­6073, cujo título é “Ativi­dades subversivas do Molipo — Lo­ca­lização de subversivos nos municípios goianos de Jataí e Rio Verde” mostra que a execução dos militantes Maria Augusta Thomaz e Márcio Beck Machado era uma missão oficial dos órgãos de repressão.

“Em 16 de maio de 1973, a­gentes de segurança de São Paulo, Brasília — e de Goiás —rav­aram tiroteio com terroristas da (sic) Molipo, na Fazenda Rio Doce, em Rio Verde. Em ação posterior, o DPF (GO) — cujo diretor regional era Marcus Antonio de Brito Fleury — prendeu Gilberto Me­nezes(GM).

“No depoimento, Irineu Luiz de Moraes destaca que o interesse do grupo subversivo era adquirir ou arrendar terras no sudoeste goiano para a implantação de guerrilha”. Tempos depois, Irineu Luiz de Moraes identificaria Marcus Fleury como um dos homens da caçada de Rio Verde, em 17 de ma­io de 1973.

O documento diz que o militante Paulo Miguel Novais afirmou que a ideia básica sua e de Gabriel Prado Mendes e de Irineu Luiz de Moraes era de criar um partido, em “termos de classe operária e de clas­se média,além de grupos de apoio à guerrilha rural”.

“Preconizava táticas para uma região estratégica, onde o Estado de Goiás seria a àrea estratégica: Goiânia, Anápolis, zonas táticas. As quais, além de permitirem o recuo das colunas móveis, forneceriam todos os apoios necessários às forças”. Não custa lembrar: sob inspiração de Régis Debray e de Marighella.

O sonho do Molipo, porém, acabou no cemitério. O documento não cita a morte de Ar­no Preiss, na região Centro-Oeste, em 1972. Aylton Adal­berto Mortati, José Roberto Arantes e Francisco José de Oliveira morreram em 1971. Flávio Molina também acabou preso e morto. Hiroaki Torigoe é assassinado em 1972.

Fim do sonho
Em 23 de fevereiro de 1972 cai Frederico Eduardo Mayr. No dia 27, Alexander José Ib­sen Voeroes e Lauriberto José Reyes. Em 27 de outubro, An­tonio Benetazzo. Em 30 de ou­tubro, morre João Carlos Ca­valcante Reis. João Leonardo é fuzilado no Nordeste: 1974. Mesmo ano em que morre Jane Vanini, no Chile.

http://jornalopcao.com.br/posts/reportagens/assim-liquidaram-o-molipo

Renato Dias, jornalista e sociólogo, é jornalista e autor de “Luta Armada/ALN-Molipo As Quatro Mortes de Maria Augusta Thomaz”.

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