As imprudências de Ana Prudente na luta pelos deficientes físicos

Ela mobilizou famílias, procurou autoridades, organizou passeatas de mães carregando filhos nas costas rumo às escolas como se fossem sacos de batatas. Eis a história de Ana e seu filho Denis –ela uma mãe-leoa que luta por uma vida menos dura para os portadores de necessidades especiais

Saindo do hospital em 1984, Ana Prudente entrou em choque. Paralisada, apavorada. “Não me lembro nem como consegui dirigir até a minha casa”, se recorda. Ela havia acabado de receber a notícia: seu filho fora  diagnosticado com paralisia cerebral. Dênis não iria andar, falar ou comer. Seria um vegetal. O casamento estava fadado ao fracasso. Homem nenhum suporta essa barra, ele vai achar outra. “Naquele dia o médico disse que minha vida tinha acabado. Eu tinha perdido tudo”, revela Ana. A paralisia foi consequência de um erro na hora do parto. Antes dos 7 meses de gestação, ela teve sangramentos e perdeu muita água, a consequência foi o nascimento prematuro. A cesariana foi muito difícil e o bebê demou para respirar em seus primeiros momentos de vido. Isso afetou a parte motora de Dênis e mudou pra sempre a vida de Ana.

“A partir dali, foram só vitórias, cada movimento, cada palavra”, diz Ana. Ela passou a se dedicar inteiramente as necessidades do filho e, quatro anos após o diagnóstico, foi até Boston realizar uma bateria de exames para descobrir quais  eram as reais possibilidades de Dênis. Ela voltou para São Paulo decidida a matriculá-lo em uma escola comum. Para sua surpresa, ele não foi aceito em nenhuma das instituições. Alfabetizar uma criança que não pode escrever parecia uma missão impossível. Ana. Ela pesquisou as opções e decidiu abandonar tudo no Brasil e se mudar para Hungria, onde há uma sistema de educação preparado para alunos especiais. Antes da viagem, ela descobriu que no Graac a situação era um pouco melhor e conseguiu uma vaga. Resolveu apostar no Brasil.

Durante o período de alfabetização de Dênis, Ana percebeu a diminuição assustadora do número de professoras especializadas. “Mandei cartas para todos os jornais e revistas, pedindo matérias sobre o assunto. Cada vez menos as profissionais optam por trabalhar com crianças especiais. Elas ganham pouco, precisam estudar mais e demoram muito para se formar. Meu filho é um caso de sucesso, mas em geral os deficientes permanecem analfabetos por falta de oportunidades de estudo”. Apesar dos esforços, nada foi feito e Ana continuou a batalha sozinha.

Outra luta, dessa vez vencida, foi na questão dos transportes. Durante a gestão de Marta Suplicy na prefeitura da cidade, o Serviço de Atendimento Especial (Atende), que disponibilizava gratuitamente vãs para transporte de pessoas com necessidades, foi suspenso. “Foi um absurdo. Até hoje não entendo como aquilo aconteceu”. Decidida a resolver o problema, ela novamente buscou apoio na imprensa e obteve uma resposta da Rede Globo. “Eles foram pras ruas e filmaram dezenas de mães carregando os filhos nas costas como sacos de batata, tentando levá-los para escolas e clínicas”. Rapidamente, o serviço foi reestabelecido.

Em 2001, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, ela batalhou, em parceria com outras mães, e conquistou avanços como caixas eletrônicos e orelhões adaptados. Envolvida com as questões de acessibilidade desde a década de 80, quando a Av. Paulista recebeu a primeira passeada pelos direitos dos deficiente, Ana Prudente conseguiu perceber quais as  conquistas e o que ainda falta ser feito sobre o assunto.

“Eu cheguei a pagar 400 dólares por uma garfo e uma colher adaptados. Hoje, já temos esses tipo de objeto aqui no Brasil por preços menos absurdos”. Outro avanço reconhecido por Ana é a medicina. “Ninguém aqui conseguia me ajudar com Dênis, tive que buscar ajuda nos Estados Unidos.” Quase todos os exames necessários já estão disponíveis no país atualmente. A acessibilidade em locais públicos, como restaurantes e correios, teve um grande avanço, mas falta regulamentação. “Eu orientei as autoridades em como organizar a acessibilidade dos lugares. Não tem cabimento construir um rampa tão íngreme que as cadeiras de rodas não conseguem subir. Porém, minhas regras nunca foram aplicadas”. Os problemas na educação continuam muito graves, com poucas vagas e professoras. “o Brasil tem criado leis para proteger os direitos dos cadeirantes, mas não há fiscalização e tudo acaba ficando só no papel”, reclama Ana.

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Esta reportagem foi apurada e escrita por uma ex-aluna minha na Faculdade Casper Líbero, São Paulo, para ser publicada na revista-laboratório www.paulista900.com.br. Já não me recordo o nome da autora. Nem por qual razão a matéria não foi publicada na época. Mas guardei-a, graças a Deus! Peço a autora que se identifique.

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Uma resposta para As imprudências de Ana Prudente na luta pelos deficientes físicos

  1. Bela lição de vida.

    Aproveitou a força para ajudar, coragem para agir e sabedoria para decidir se seria derrotada ou vitoriosa.

    Um abraço e meus sinceros parabéns.

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