Anotações sobre o homem FHC para entender (ou esquecer) quem foi o presidente FHC

Eis algumas anotações para ajudar a compreender quem de fato foi Fernando Henrique Cardoso. Era julho de 1994 quando Michael Koellreutter, editor da revista Interview, pediu-me para apurar tudo o que se sabia até então sobre o candidato a presidente FHC. O texto publicado acabou bem reduzido, editado lado a lado com um perfil sobre Lula. Encontrei o relatório original em meus arquivos antigos. Há informações muito interessantes sobre como agia e o que pensava esse senhor antes de virar o presidente. Vocês sabiam que, quando crianca, Fernando Henrique dizia que um dia seria senador e cardeal? Decidi publicar o relatório original, sem revisões. Talvez no futuro ajude algum historiador a traçar um retrato mais fiel sobre o homem que, depois de chegar ao poder, criou a máxima: “ESQUEÇAM O QUE ESCREVI”.

DADOS PESSOAIS – Fernando Henrique Cardoso nasceu no Rio de Janeiro, a 18 de junho de 1931. Tem, portanto, 63 anos e e’ do signo de gemeos. Ele tem 1,78 m de altura, 78 quilos, quatro circurgias por razoes diferentes e uma excelente saude. Filho de um oficial do Exercito, foi alfabetizado pela propria mae, Nayde. Quando bebe, certa noite Nayde passeava de carrinho pela Praia de Botafogo quando viu num repente o Cristo Redentor iluminado. Era a primeira vez que eram acesas as luzes da estatua. Mamae viu nisso um pressagio de que o filhinho teria um futuro grandioso, protegido pelos santos.

Certa vez ele confessou que nunca gostou de historias de fadas. Crianca, dizia nas brincadeiras que seria senador ou cardeal. Ha’ dez anos, antes mesmo de ganhar sua primeira eleicao, confessou pela primeira vez que planejava se candidatar `a presidencia da Republica. Nao torce por nenhum time de futebol, em julho soube vagamente quem era Romario e Bebeto, adora ler Alexis de Toqueville e tem em “Jesus Alegria dos Homens”, de Bach, sua musica predileta. Ele so’ nao gosta mesmo e’ de ficar dando tapinha nas costas do proletariado para pedir votos. Mas desde que mergulhou no corpo-a-corpo da campanha presidencial, ja’ abracou tanta gente feia e suada que nao tem mais reservas com essa situacao vexaminosa.

MULHER: RUTH

Voces ainda vao ouvir muito falar dessa senhora. Isso se FHC ganhar a eleicao presidencial. Se perder, ela deve continuar na moita. A antropologa Ruth Correa Leite Cardoso, professora da USP, tem vida propria, opinioes proprias e brilho proprio. Ela nao e’ do tipo de paparicar marido por onde ele va’, pegar na maozinha, servir cafezinho e dizer amem. Se necessario, ela sobe em palanque, mas so’ diz o que quer. A professora e’ uma profissional respeitadissima em sua area, tem personalidade forte, opina sobre politica se lhe dao uma brecha e chega ate’ a provocar brigas com aliados do marido. Lembram-se quando ela deu um esculacho publico em Antonio Carlos Magalhaes, em  julho, obrigando Fernando Henrique a pedir desculpas tambem publicas?

Ruth, 64 anos, e’ a pessoa mais importante na vida do politico Fernando Henrique Cardoso. Suas opinioes sao levandas em consideracao. Eles se conheceram quando estudantes na USP. Ele cursava Ciencias Sociais; ela era de Araraquara, filha de um professor e estudante de Antropologia. Casaram-se quando ele tinha 21 e ela 22 anos. Ambos rouges, estudaram marxismo juntos e nos 30 anos subsequentes participaram juntos das lutas sociais. Quando ele assumiu o mandato de senador, em 1983 (era suplente de Franco Montoro), Ruth preferiu permanecer em Sao Paulo. Fernando Henrique fixou residencia em Brasilia; a mulher poucas vezes o visitou na cidade.

AFFAIRS

Com seu ar de professor, Fernando Henrique e’ um dos politicos mais envolventes que ja’ circularam pela corte. Somente Juscelino Kubistchek, o presidente bossa-nova, conseguiu emanar mais charme pessoal e despertar mais interesse no publico feminino. Trata-se de um sedutor por natureza. E’ gostoso ouvi-lo falar, ele encanta com suas observacoes cultas, frases espirituosas e raciocinio inteligente. Sua especialidade sao pequenas plateias. Quando ministro da Fazenda, passou a labia em empresarios, sindicalistas e politicos. Nao fez nada por quase um ano e mesmo assim segurou-se impavido no cargo, foi o “ministro do gogo'”, como ele mesmo se definiu.

Fernando Henrique esta’ solto em Brasilia ha’ 11 anos. Tem boa saude e e’ tentado diariamente por mulheres interessantissimas. Jamais se ouviu falar que tenha cantado alguem; elas e’ que vivem a canta-lo, com insistencia. A ele e a Eduardo Suplicy. Durante o governo Sarney, Fernando Henrique circulou muito com uma conhecida jornalista de TV. Apresentavam-se, primeiro, como jornalista e fonte. Depois como amigos. A amizade durou cinco anos. Ruth ficou sabendo. O casal conversou muito e superou o problema.

Ha’, contudo, outra questao latente no suposto affair. Quando a relacao ja’ havia esfriado, a moca apareceu gravida. Disse `as amigas que o filho seria de Fernando Henrique, que amava aquele homem e que iria ter a crianca sozinha. Contou a Fernando Henrique em seu proprio gabinete no Senado; foi um escandalo, abafado ha’ quase quatro anos pela famosa conivencia entre jornalistas e autoridades de Brasilia. A crianca, Tomas, tem tres anos. A mae hoje prefere esconder a identidade do pai, diz que e’ problema dela e que nao tem o direito de envolver uma crianca inocente em jogadas politicas. Fernando Henrique recusa-se a tocar no assunto com qualquer pessoa. Seus assessores tambem negam com veemencia a existencia de tal affair.

VICIOS/MANIAS

H’a dois Fernandos Henriques. Um e’ publico e o outro e’ privado. Um deles visita medicos do Senado e diz em campanha ser temente a Deus. O outro se trata com aplicacoes reservadas de acumpultura e shiatsu e se acha esclarecido demais para acreditar nas crendices populares sem maiores questionamentos. Ele detesta misturar as duas vidas, essa e’ sua maior mania, quase um vicio.

Os habitos, os pensamentos, as roupas, os objetivos e os amigos sao diferentes e uns nao se misturam com os outros. O FHC publico tem base em Brasilia e funcionava, ate’ o inicio da campanha presidencial, de tres a quatro vezes por semana, geralmente `as tercas, quartas e quintas-feiras. Trata-se do politico profissional. O Fernando Henrique privado funciona em Sao Paulo ou no sitio em Itaipava, de sexta a segunda-feira. Trata-se do velho professor e intelectual.

Ele nao gosta de tratar de sua vida pessoal com os amigos ou assessores da politica. Nem gosta de falar de politica com seus amigos pessoais. Sequer gosta de apresentar uns aos outros. Tem um guarda-roupas em Brasilia e outro em Sao Paulo. Itamar Franco tem uma mania ranzinza privacidade. Se falam de namoradas, por exemplo, ele sai do serio, roga pragas contra a imprensa e coisas do tipo. Fernando Henrique trata o assunto com naturalidade. Nao reclama quando a imprensa ou os politicos entram em sua vida paulista, apenas evita o assunto. Resolve-o simplemente nao convidando os amigos dos dois mundos para sua mesa, simples.

Outra mania marcante do homem e’ sua fama de pao-duro. E’ uma sovinice controlada. Na verdade, Fernando Henrique apenas nao e’ um perdulario. Egresso de uma familia de militares e professor de carreira, sempre foi durango, portanto, ele tem por habito ainda hoje olhar os precos antes de comprar. No meio onde convive, repleto de milionarios e novo-ricos, controlar a carteira soa uma esquisitice.

Em Brasilia, onde alguns politicos ganham dinheiro a rodo, criou-se o habito do mais graduado da mesa pagar a conta do restaurante. FHC e’ quase sempre o mais graduado e se recusa a pagar, vem dai sua ma’ fama. Se tem muita gente na mesa, ele e’ o primeiro a avisar, “cada um paga a sua”. Se esta’ so’ com um amigo ou mesmo assessor, elegantemente puxa a carteira e inicia o jogo do “deixa-que-eu-pago”. `As vezes perde, `as vezes ganha, quase sempre propoe o racha em partes iguais. O essencial e’ que nao se sente na obrigacao de pagar os almocos alheios so’ porque e’ mais importante que o conviva. Se esta’ na mesa com alguma mulher, bem, ai’ e’ diferente. Nosso candidato, homem fino que e’, sentiria-se ofendido em deixar que uma senhora dividisse a conta.

VAIDADES

Ele gosta de dizer que sua grande vaidade e’ intelectual. Sente-se envaidecido com as estantes de livros que leu, os 21 livros que escreveu, traduzidos quase tanto quanto Jorge Amado, com seu curriculo academico impecavel, com passagens pelo corpo docente das Universidades de Paris, Oxford e Princeton.  Com uma biografia intelectual dessas, ate’ Sao Francisco de Assis sentiria-se envaidecido.  Mas o ego de FHC nao para por ai’.

Gosta de estar sempre bem vestido, esse e’ outro ponto fraco, apesar de nao se preocupar caso a gravata de hoje seja a mesma de ontem. Se passa por um espelho, nao resiste a dar uma olhadinha. Fernando Henrique ja’ fez plastica. Tinha umas bolsas de gordura debaixo dos olhos que, gracas a Deus, vinham atrapalhando a leitura. Aproveitou para dar uma esticadela nas pelancas, tudo isso sob prescricao medica. Ninguem lhe condenou por futilidade, que sorte!

FASHION

Fernando Henrique e’ o mais elegante dos candidatos a presidente, esse e’ um de seus pontos fortes. Mas nao pensem que estamos diante de um mauricinho; trata-se, muito mais, de uma elegancia discreta, cuidadosamente despojada. Desde o inicio do governo Itamar, FHC manda fazer suas roupas em um alfaiate no Centro do Rio de Janeiro, Marques. O candidato ja’ passou por tres estilos em sua vida adulta.

Enquanto era um simples professor, comprava suas roupas nas grandes confeccoes, as Casa Jose’ Silva da vida. Senador, continuou comprando roupa pronta, so’ que nas boas grifes dos shopping paulistas. Nao tinha fidelidade a nenhuma loja; entrava naquela que estava oferecendo um bom preco, que estivesse em liquidacao, de preferencia. Quando foi nomeado chanceler por Itamar, o embaixador Julio Cesar Gomes Santos, seu assessor ate’ hoje, passou-lhe um corretivo: “Como ministro das Relacoes Exteriores, o Sr. nao pode continuar usando ternos de confeccao”. A carriere o obrigou a apelar para a tesoura do carioca Marques. Sua primeira encomenda foi um smoking para a posse de Bill Clinton.

As vesperas de deixar o Ministerio da Fazenda,  candidatissimo, Fernando Henrique entrou em nova fase, the international fashion. Em um passeio pela 5* Avenue, na City, comprou um paleto de 700 dolares e achou natural para alguem de seu nivel. Ele disse isso mesmo, “natural para alguem de meu nivel”, acreditem. Sagrado oficialmente candidato, passou um esculacho nos fotografos que esbarraram em seu terno claro, limpo e impecavelmente passado.

Sabe combinar os trajes com a gravata, sempre soube, e’ incapaz de calcar sapatos marrons com calcas azuis, como costuma fazer Leonel Brizola, mas nao utiliza aqueles lencinhos aparecendo no bolso do paleto, como Flavio Rocha. Aparenta estar eternamente banhado mas nao liga se o cabelo estiver desalinhado. Ao contrario, adora exalar um ar de James Dean, o professor rebelde. Orestes Quercia se mantem na linha com ternos escuros. Fernando Henrique e’ um dos poucos politicos do pais que sabe arriscar roupas mais ousadas. Quando coloca um paleto xadrez, ninguem o chama de jeca, fala-se que vestiu-se como o principe de Gales.

O seu natural sao as roupas de confeccao; os paletos de 700 dolares, garantem os amigos, seria apenas uma fase passageira. Seu terno predileto e’ um de algodao branco com risquinhas azuis-claras. Dois assessores ja’ tinham um exatamente igual quando ele mandou o alfaiate Marques costurar o seu. E’ comum ver os tres de uniforme e Fernando Henrique acha super engracado. Fernando Collor voltaria para casa para trocar de roupa e ainda aposentaria a maldita roupa.

PATRIMÔNIO

O FHC publico so anda de chapa-branca. Como senador, ele tem direito a Opala Diplomata com motorista, pagos pelo contribuinte. Em Brasilia, ele nao dirige seu proprio automovel. O FHC privado possui, em Sao Paulo, um Quantum 2000, ano 90, e uma Parati 92. Ele mora ha’ 11 anos em Brasilia e jamais cogitou comprar casa propria no Lago Sul, como boa parte de seus colegas. Mora em um apartamento funcional de 270 m2 de area interna. Em Sampa, o ap fica em Higienopolis e vale 230 mil dolares, segundo declarou ao fisco. Ele tem ainda oito imoveis, entre casas e terrenos, e metade de uma fazenda em Minas Gerais. Ao todo, o patrimonio declarado do professor beira 1 milhao de dolares.

MENU

O homem come de tudo, parece um bode. Ate’ buchada, se lhe oferecerem em campanha, engole numa boa. Gosta de saladas, carnes, aves e massas. Mas nao e’ nem lutao ou goumet. Na verdade, nessa materia, o seu fraco sao as sobremesas. Doce ou fruta? Doce, evidentemente. Se lhe for oferecida tres sobremesas, devora as tres, sem culpa. Atencao, aulicos: o unico fraco de Fernando Henrique em materia culinaria e’ papo-de-anjo.

AMIGOS

Ha’ dois mundos de amigos na vida de Fernando Henrique Cardoso. No mundo privado, tem os amigos da academia, e sao muitos, os vizinhos de Itaipava, e os amigos de Ruth. Destacam-se os professores Jose’Arthur Giannotti, Antonio Candido, Francisco Weffort e o deputado petista Florestan Fernandes. Na vida publica, e e’ esta a que mais interessa, sao poucos. Os mais proximos sao os assessores, e a pessoa mais proxima dos proximos e’ a jornalista Ana Tavares, filha do falecido colunista social Tavares de Miranda. Outro que e’ unha-e-carne e’ Eduardo Jorge Caldas Pereira, ex-diretor do Centro Grafico do Senado, seu assessor para missoes especiais.

Fernando Henrique levou Ana para o Itamaraty, quando foi chanceler, e quando transferiu-se para a Fazenda carregou os dois. Eles nao participam da vida privada de FHC. Ele tambem tem confianca absoluta em Francisco Graziano, chefe de seu escritorio paulista, em Maria Delith Balaban, chefe do escritorio em Brasilia, e em Eduardo Graeff, seu ghost-writer e mentor de todos os documentos importantes que nascem no ninho tucano. Podem ter certeza que, se FHC ganhar a eleicao, todos eles terao algum poder no Palacio do Planalto.

So’ existem duas pessoas que participam com intimidade dos dois mundos de Fernando Henrique, o deputado Jose Serra e o empreiteiro  Sergio Motta. Ele e Serra foram dois exilados no Chile, mas a relacao so’ se estreitou na luta pela abertura, dez anos depois. Foi Serra quem apresentou Sergio a Fernando Henrique. A amizade com o deputado e’ estranha. Serra esta’ sempre aprontando alguma. A impressao que os amigos tucanos tem e’ que ele morreria de inveja do sucesso de Fernando Henrique. Este, por sua vez, nao da’ importancia `as suas crocodilagens. Quando Serra fala mal dele pelas costas, por exemplo, fica furioso na hora, mas minutos depois esquece do assunto com um “o Serra e’ assim mesmo”. Ele gosta de Serra com sinceridade e o tem como seu maior aliado na politica.

Sergio Gordo, como e’ chamado pelo amigos, e’ o caixa das campanhas do candidato. Mais que isso, e’ tambem seu socio em uma fazenda em Buritis, Minas Gerais. Ex-militante da AP nos anos 60, ex-tecnocrata nos governos militares, Sergio Gordo e’ o prototipo mais perfeito que h’a do “bom burgues”, aquele que tira furtivamente a mufunfa dos capitalistas para repassa-la em segredo aos esquerdistas. Ha’ uma serie de historias escabrosas e boatos maldosos envolvendo o amigo de FHC. Seu nome foi ligado a escandalos na Capemi e na Eletropaulo. E’ uma das tres pessoas mais importantes da campanha presidencial, mas por ser demais polemico, dificilmente ocupara’ algum cargo nem um eventual governo de Fernando Henrique. Na verdade, nao precisa disso, ja’ e’ o melhor amigo do rei.

INIMIGOS

Quem tem Jose Serra como amigo nao precisa de inimigos. Nao ha’ nenhum adversario que plante tantas notas nos jornais contra Fernando Henrique quanto o aliado Serra. O senador, com seu temperamento afavel e capacidade franciscana de perdoar, sabe de quase tudo o que o amigo lhe apronta e chega a se divertir com isso. Fernando Henrique se da’ bem com muita gente, nao se da’ com muitos outros, contudo nao nutre uma inimizade atavida por ninguem, nem perde seu tempo aprontando armadilhas contra os desafetos. Os outros e’ que sao inimigos de Fernando Henrique.

Talvez a unica pessoa na politica de quem ele nao gosta, mas nao gosta mesmo, seja Orestes Quercia. O adversario tambem tem odio de Fernando Henrique. Eles se conheceram no MDB dos anos 70. Os caciques Ulysses Guimaraes e Franco Montoro, hoje tucano, nao queriam dar espaco para a esquerda no partido. Em 1978, Quercia forcou a barra e abriu vaga para todo mundo. Entregou de bandeija para FHC  a legenda de candidato a senador que deveria ser para um aliado seu.

Mesmo assim, nao se sabe ate’ hoje por que, Fernando Henrique sempre esteve contra Quercia e vice-versa. Em 1988, Fernando Henrique falava mal publicamente do governador Quercia e dizia que iria fundar outro partido. Quercia entao fechou-lhe todos os espacos e anunciou: “Se a gente nao enxotar o Fernando Henrique, ele vai continuar falando, falando e nao vai nunca sair”. Foi assim que nasceu o PSDB e os tucanos. Chegou a vez de FHC dar seu troco com a ajuda das urnas.

FAMILIA

Ele tem uma mulher, tres filhos e cinco netos. A mulher, todos ja’ conhecemos, e’ a professora Ruth. Dos filhos, o mais velho e’ Paulo Henrique, de 40 anos . Este se deu bem na vida. Casou-se com Ana Lucia, filha do ex-governador, ex-senador e ex-presidenciavel Magalhaes Pinto, lembram-se dele e de sua calva lustrosa? Magalhaes, hoje doente e aposentado, e’ dono do Banco Nacional. Paulo Henrique nao usufrui diretamente de nenhuma boquinha no banco, mas tem duas filhas que ja’ nasceram ricas, netas de banqueiro, e esta’ com a velhice garantida.

Ele e’ formado em Sociologia mas sempre trabalhou com producao de video e de radio. Ganhou muita conta de politico, em especial do PSDB. Nesta eleicao, foi trabalhar com o pai, destratou assessores e jornalistas e acabou sendo prudentemente colocado no banco de reservas. Desde maio tornou-se diretor do nucleo de producoes indendentes da TV Manchete. Fernando Henrique tem outras duas filhas, Bia e Luciana. Bia e’ professora da USP e, como a mae, casada com um professor. Tem um casal de filhos. Luciana e’ tecnica em programacao de computadores e trabalha no nucleo de informatica do PSDB. Foi requisitada para a campanha do pai. Casada, esta’ gravida do primeiro filho.

CALOS

Aviso importante: jamais pronunciem na frente do candidato o nome da moça que um dia disse ter tido um filho de Fernando Henrique Cardoso que ele vai subir pelas paredes. Ele odeia esse tema, sai do serio. Bobagem pura. Outros tres candidatos nesta eleicao, Lula, Orestes Quercia e Flavio Rocha, tiveram filhos fora do casamento e nem por isso perderam o eleitorado. Ao contrario, pelo menos no Brasil, virilidade costuma dar votos. A imprensa ainda nao publicou sobre o assunto, ao que parece, em respeito `a privacidade da crianca e, principalmente, em consideracao `a outra filha da moca, quase adolescente, que teve em seu primeiro casamento.

Outro detalhe em sua vida que o deixa chateado, e’ lembra-lo que jamais ganhou uma eleicao com as proprias pernas. Concorreu em 1978 e ficou de suplente. Concorreu de novo em 1985 para a Prefeitura e perdeu. Em 1986 tentou a eleicao para o Senado e terminou com 1,5 milhoes de votos a menos que o colega Mario Covas. E ainda foi eleito com a ajuda do Plano Cruzado e pelo fato de nao ter nenhum adversario. Fernando Henrique tem ensaiado um sofisma para quando tocam nesse calo. Ele lembra que jamais teve menos de 1 milhao de votos em todos os pleitos em que concorreu.

MANCADAS

“O Sr. acredita em Deus?”. Resposta: “Essa pergunta o Sr. disse que nao me faria”. O dialogo ocorreu em 1985, em um debate ao vivo na TV durante a campanha pela prefeitura de Sao Paulo. A maldita pergunta, ou melhor, a maldita resposta, foi que lhe deu a pecha de ateu. Hoje ele presta homenagens `a imagem de Padre Cicero e anda com uma fitinha do Senhor do Bonfim no pulso. Colocou-a quando adotou a URV. Outra mancada memoravel foi ter confessado que fumara maconha na juventude. “Uma vez, em pleno restaurante, minhas primas que estavam comigo comecaram a fumar maconha. Eu dei uma tragada, achei horrivel, acho que e’ porque nem fumo cigarro”.

Querem mais um fora dessa epoca? Foi quando ele sentou-se na cadeira de prefeito antes de ser eleito. Janio Quadros ganhou a eleicao e humulhou o adversario ao desinfetar a cadeira onde ele havia sentado. Este ano, deixou-se fotografar no Reveillon em companhia de uma Drag Queen, a Isabelita dos Patins. A foto ate’ hoje rende caricaturas nos jornais. E’ provavel que nao tenha perdido nenhum voto conservador, ao contrario, pode ate’ ter ganho a simpatia dos homossexuais, mas que foi uma manobra arriscada, ah, isso foi! Ao deixar o Ministerio da Fazenda, quis sentar-se na cadeira do ministro para a ultima fotografia. Alertado de que a cadeira ja’ nao era mais sua, levantou-se rapido.

Nosso candidato e’ um especialista em frases infelizes e brincadeiras desastrosas. Sergio Gordo diz certa vez: “Voce perde uma eleicao mas nao perde uma piada”. Fernando Henrique tem sempre uma ironia ou uma frase espirituosa na ponta da lingua. Nesta campanha, foi so’ o acusarem de candidato das elites que ele brincou que seria “mulatinho” e que teria um “pe na cozinha”. Virou o senateur mulatre. O problema e’ que ele sempre pensa que esta’ entre os amigos inteligentes e sutis de sua vida privada, com quem pode falar qualquer bobagem que eles costumam entender da forma correta, como uma mera brincadeira espirituosa.

RECUOS

Certa vez em uma conversa informal Fernando Henrique disse a um reporter que “o Quercia e’ o Maluf do PMDB”. O reporter publicou. Quando se encontraram, Quercia foi duro com o senador. Apontou-lhe o dedo na cara e mandou que parasse de falar essas coisas pelas costas. Fernando Henrique afinou, ficou gago e nao conseguiu reagir. Ele e’ assim, um bom sujeito, um homem afavel e conciliador por natureza. O lado negativo dessas caracteristicas e’ que as vezes peca por falta de firmeza. Recua quando deveria avancar.

Ele gostaria de ser uma unanimidade, nao gosta de ter inimigos, como fazem questao de te-los Leonel Brizola e Antonio Carlos Magalhaes, e nao tem o dom das respostas prontas quando tem que bater de frente com alguem. Da’ um boi para nao entrar numa briga e uma boiada para contornar um conflito. Mario Amato explicou seu apoio `a candidatura de FHC com a seguinte frase: “Ele nao tromba com o empresario”.

Quando exilado no Chile, era um conciliador e nao queria saber de encrencas com o regime militar. Na eleicao de Tancredo Neves, um deputado radical o acusou num debate de traicao por se juntar com o mesmo grupo que avalizou a ditadura e tortura no regime militar, o PFL. Ele esperou os aplausos ao deputado se acalmarem para responder: “Nos temos armas? Temos? Porque se nos nao temos, esse discurso e’ demagogia”. Dessa vez se saiu muito bem com seu gogo conciliador.

Fernando Collor quis levar o PSDB para seu governo e Fernando Henrique foi encontra-lo secretamente em um jantar em Brasilia. A imprensa descobriu. Collor saiu, deu uma declaracao qualquer e foi em frente. Fernando Henrique permaneceu escondido ate’ a madrugada. So’ saiu quando teve certeza de que nao havia nenhum fotografo na espreita. Dessa vez se deu mal com sua mania de querer agradar a todo mundo. Ministro da Fazenda, protagonizou seu recuo mais infeliz quando disse: “Esquecam o que escrevemos no passado”.

BOATOS/MALDADES

A fazenda que Fernando Henrique e Sergio Gordo compraram em Minas Gerais e’ uma usina de historias maldosas e mal explicadas. A propriedade fora comprada por seu dono anterior em 1981, pelo equivalente a 140 mil dolares. Fernando e Sergio a compraram depois por 2 mil dolares. Pagou uma mixaria em impostos. Isso mesmo, pelo preco de um Fusca 1981. Pelo menos e’ isso que os dois registraram em cartorio. A seguir a fazenda foi transferida para uma empresa criada por ambos pelo valor de 20 dolares. O que pagou de impostos nao dava para comprar uma carteira de cigarros.

Fernando Henrique ja’ informou que teria comprado a fazenda, na verdade, por 50 mil dolares (um terco do que pagou o antigo proprietario) e que hoje ela valeria, segundo declarou oficialmente, 400 mil dolares. O mais interessante e’ que, com essa operacao contabil, FHC e Sergio Gordo passam a ter a possibilidade de utilizar legalmente dinheiro de fonte nao declarada. Ou seja, pode jogar para o “caixa um” aquilo que estava no “dois”.

CURRICULO

Fernando Henrique Cardoso e’ um intelectual refinado. Talvez seja o mais criativo e produtivo intelectual de sua geracao. Com certeza e’ o lider da maior parte deles. Virou professor assistente aos 20 anos, antes mesmo de se formar em Ciencias Sociais, especializou-se em Sociologia e doutorou-se pela Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras, sempre pela USP. Fez outra pos-graduacao na Universidade de Paris e foi diretor da Comissao Economica para a America Latina, Cepal, onde formulou a Teoria da Dependencia, uma especie de cartilha da intelectualidade latino-americana por 20 anos.

Escalou todos os degraus da carreira academica e ensinou em sete importantes faculdades em tres continentes, Nanterre, Franca; Orford, Inglaterra; e Princeton, Estados Unidos. Em sala de aula, destacou-se pela inteligencia agil, ideias desconcertantes e pela ironia escrachada. Escreveu 21 livros e foi traduzido ate’ para o japones, persa e braile. Uma de suas obras, “Dependencia e Desenvolvimento na America Latina”, em co-autoria com o chileno Enzo Faletto, chegou a ter 23 edicoes.

Ele entrou na politica como representante de uma ativa dinastia de generais. Tem na familia de dez a quinze generais e tres ministros da Guerra. Seu bisavo, o brigadeiro Felicissimo do Espirito Santo Cardoso, foi governador nomeado de Goias, e seu pai, o general Leonidas Cardoso, foi deputado federal por Sao Paulo. Em 16 anos como politico profissional, foi quase tudo de bom que poderia almejar. Foi senador, lider do governo no Congresso, presidente do PMDB paulista, candidato a prefeito de Sao Paulo, lider do PMDV no Senado, lider do PSDB no Senado, chanceler e ministro da Fazenda, quase um primeiro-ministro. Foi tambem convidado a ser ministro dos presidentes Jose’ Sarney, Fernando Collor e Itamar Franco. So’ aceitou do ultimo.

Quando crianca, Fernando Henrique dizia que um dia seria senador e cardeal. Tecnicamente, nao e’ preciso ser sacerdote para ser nomeado cardeal pelo Papa. Se perder a eleicao presidencial, ainda esta’ em tempo de cravar esse titulo em sua biografia.

Ele admirava profundamente Ulysses Guimaraes e reconhece o papel fundamental de Petronio Portela para a redemocratizacao do pais. Mas Fernando Henrique Cardoso nao idolatra ninguem na politica. Ja foi um bom estudioso do marxismo, por mera curiosidade academica, mas nem mesmo os anos 50 e 60 fizeram de Karl Marx seu idolo. Contrariando toda a sua geracao, chega a rasgar mais elogios para Max Weber, o profeta do conversadorismo.

Fernando Henrique teve o poeta Oswald de Andrade  como seu primeiro fascinio e o professor Florestan Fernandes como seu primeiro mentor intelectual. Ele estudava Ciencias Sociais, lia Oswald com seu amigo Jose Arthur Giannotti ate que Florestan, que na epoca era um professor que usava jaleco branco para parecer cientista, cooptou-o para a Sociologia. Florestan tinha obsessao de fazer da Sociologia uma ciencia, que ele definia como empirica. Foi a pessoa que mais influenciou o pensamento de Fernando Henrique. Hoje ele e’ um apagado deputado federal do PT.

 

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