Ah, se eu pudesse escrever novamente…

Análise autocrítica sobre o livro “A Lei da Selva”, de minha autoria, sob a luz de novas teorias e autores da História Cultural (Monografia para a disciplina Teoria e Metodologia, do Doutorado em História Cultural da UnB; ministrado pela profª Cléria Botêlho da Costa)

Eu com a profª Cléria Botêlho da Costa, no lançamento do livro

APRESENTAÇÃO

O livro escolhido para análise é A Lei da Selva – Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares sobre a Guerrilha do Araguaia[1], de minha própria autoria. Razão para a escolha é fazer uma autocrítica da pesquisa, a partir dos novos autores e novas leituras assimiladas nesta disciplina. Esclareço ainda que o objeto escolhido para a pesquisa de doutorado é similar ao da obra — produto de dissertação de mestrado — a Guerrilha do Araguaia. Pertinente, portanto, fazer uma revisão acadêmica da pesquisa anterior, que servirá de ponto de partida da atual pesquisa, em andamento.

Acredito que na obra em questão eu tenha delineado claramente o objeto de pesquisa e análise, ao esclarecer, já na Introdução:

“A presente pesquisa tem o propósito de trazer à luz elementos com os quais se possa vislumbrar o imaginário dos militares sobre a participação de nossas Forças Armadas no combate à insurreição do Araguaia. Fique claro, portanto, que o objetivo não é analisar o episódio sob o ponto de vista dos guerrilheiros, tampouco dos moradores da região. Muito menos ainda existe a pretensão de reconstruir a “história definitiva” da guerrilha. Trata-se, aqui, de relatar o significado do conflito sob a óptica de um dos lados envolvidos, os militares brasileiros que participaram da luta. A finalidade é somente e tão-somente pesquisar e analisar o significado do conflito para os militares, assim como interpretar seus sistemas de representações à luz de um quadro teórico e dos valores da época.”[2]

QUADRO CULTURAL

Em sua obra “O Método – Volume 3”[3], Edgar Morin confessa que vivenciou, ao longo da construção do trabalho, “uma tríplice tragédia”. Primeiro, a tragédia bibliográfica, na qual, em cada domínio que se propunha caminhar, via-se diante do crescimento exponencial dos novos conhecimentos e referências. Segundo, a tragédia da complexidade dos temas. Por fim, a tragédia de visar à totalização, à unificação, à síntese. Mas terminou por chegar à “consciência absoluta e irremediável do caráter inacabável de todo conhecimento, de todo pensamento e de toda a obra”[4]. Concluiu, ainda, que sua tríplice tragédia seria a tragédia de todo saber moderno.

Aproveito a oportunidade para confessar que tenho vivido uma experiência similar à de Morin durante este trabalho de revisão teórica de A Lei da Selva. Ao longo dos últimos meses, venho conhecendo novos autores. Entre os que me identifiquei, cito alguns formuladores teóricos, Edgar Morin, Clifford Geertz e Carlo Grinzburg. E alguns bons intérpretes, como Sandra Pesavento. Venho também relendo alguns dos autores com quem dialoguei no mestrado, como Cornelius Castoriadis, Hommi Bhabha, Roger Chartier e Walter Benjamin, em especial Benjamin, em cuja obra tenho descoberto novas facetas que me despertam inquietações. Tem ainda Paul Riccoeur, que doravante me será obrigatório, mas assustador, por excessivamente metafísico para meu curto poder de compreensão.

O resultado dessas novas leituras é que tenho feito tamanha autocrítica nesta monografia que vivencio uma tragédia similar à de Morin em sua tríplice crise. A bibliográfica, por achar que as referências da obra publicada teriam sido por demais singelas. A da complexidade, por achar que o tema mereceria um tratamento teórico mais refinado. E o desejo de encontrar uma síntese sobre aquele episódio tão obscuro da nossa história.

O grande paradoxo é que quanto mais tento compreender esses novos autores – novos para mim – Morin, Geertz, Grinzburg, Riccouer, mais descubro que A Lei da Selva, talvez por mera intuição deste autor, acabou por criar canais de diálogo com eles, conforme veremos adiante. Cito de novo Edgar Morin para tentar compreender esse fenômeno:

“Pode-se comer sem conhecer as leis da digestão, respirar sem conhecer as leis da respiração, pensar sem conhecer nem as leis da natureza, nem as do pensamento. (…) Como disseram Marx e Engel, no começo da Ideologia Alemã, os homens sempre elaboram falsas concepções de si mesmos, do que fazem, do que devem fazer e do mundo em que vivem”.

Isto posto, importante salientar que o episódio analisado na obra, a Guerrilha do Araguaia, emerge da chamada História Política. Entretanto, a proposta foi buscar seus sentidos sob a perspectiva da História Cultural, ainda que eu não tenha apresentado explicitamente um conceito de cultura. Mais recentemente, ao buscar interpretações sobre conceitos teóricos da Nova História, em Sandra Pesavento, pude constatar que a obra em questão pode ser classificada dentro da chamada Nova História Política, que endossa os pressupostos epistemológicos que presidem a História Cultural, como imaginário e representações[5]. Pesavento explica:

“Uma terceira corrente, muito atual, que se apresenta nos domínios da História Cultural, seria aquela relativa a uma releitura do político pelo cultural. Às vezes chamada de Nova História Cultural, essa postura resulta do endosso, pelos historiadores do político, dos pressupostos epistemológicos que presidem a análise da História Cultural. Imaginário, representação, a produção e a recepção do discurso historiográfico reformulam a compreensão do político. (…) Fala-se mesmo em uma História Culturaldo Político, mobilizada pelos estudos que se centram em torno do imaginário do poder, sobre as performances dos atores, sobre a eficácia simbólica de ritos e imagens produzidas segundo fins e usos do político, sobre fenômenos que presidem a repartição da autoridade e do poder entre grupos e indivíduos, sobre mitos e crenças que levam os homens a acreditar em alguém ou algo, pautando a ação e a percepção da realidade sobre os mecanismos pelos quais se constroem identidades dotadas do poder simbólico de coesão social”.[6]

Esclareço que, ao construir a obra, também não havia conhecido Pesavento. Nem havia me debruçado sobre os conceitos teóricos da História Cultural. Contudo, o trecho acima parece uma descrição pormenorizada do objeto analisado em A Lei da Selva. Há uma busca permanente pela análise a partir do imaginário, das representações e do discurso para compreender o político. Centro a análise, em especial, em torno do imaginário do poder. A narrativa é tecida, do início ao fim, a partir do imaginário dos militares, dialogando com o contra-imaginário dos guerrilheiros e, ocasionalmente, com o imaginário dos camponeses.

Ainda me apropriando das palavras de Pesavento, trato das performances em campo e do imaginário dos atores mais conhecidos do episódio, como o general Bandeira[7] e o agente Ivan[8], ícones da ação militar, como também dos principais ícones guerrilheiros, como Dina[9] e Osvaldão[10]. Descrevo os ritos e das imagens simbólicas produzidos para fins políticos, como a instauração do Tribunal Revolucionário pelas Forças Guerrilheiras, rito este usado pelos militares para justificar seus atos de exceção. Trato ainda dos fenômenos que presidem a repartição da autoridade e do poder entre grupos e indivíduos, entre eles os conflitos de poder entre os militares que defendiam o combate segundo as chamadas Leis da Guerra e as Convenções de Genebra, e a Comunidade de Informações, que pregava ações de contra-guerrilha com táticas de partisans e segundo as “leis da selva”.

Por fim, trato dos mitos e crenças construídos durante o episódio, que segundo a explicação de Pesavento, “levam os homens a acreditar em alguém ou algo, pautando a ação e a percepção da realidade”. Só para efeito de ilustração, e entre os mitos descritos, apresentei a lenda de que Osvaldão tinha o “corpo fechado” e virava lobisomem; e o de que Dina virava borboleta – o que de fato levou os militares a temê-los e a caçá-los com empenho redobrado[11].

Apesar de a obra ter sido construída dentro da História Cultural, não há em qualquer momento, como já admitido, uma teorização sobre qual o conceito de cultura foi escolhido. Apenas deixo claro que não seguiria o caminho da história social, deixo explícito a não adesão às análises marxistas tradicionais, como a luta de classes, tampouco a aceitação do estruturalismo de Claude Lévi-Strauss e de Louis Althusser – apresentando (e justificando) a opção pelo aparato teórico e metodológico do imaginário:

“Estudos anteriores, por mim confrontados, tomam por ponto de partida (e de chegada) as metodologias marxistas ou estruturalistas. Os guerrilheiros do Araguaia liam Marx; marxismo era a matriz teórica de suas ações. Mais: a instrução militar nas décadas de 1960 e 1970 tinha por base a Segurança Nacional, que ensinava a combater o pensamento e a prática comunistas.”.

“Entretanto, há muitas questões em que o aparato teórico marxista não basta para analisar o objeto de estudo. Há de se perguntar, por exemplo, por que muitos militares, forjados no ideário positivista de guardiões da ordem nacional, cometeram atos de exceção. Como explicar o imaginário anticomunista dos militares que combateram os guerrilheiros? Quanto a seus adversários, há de se indagar, igualmente, como os jovens que se engajaram na luta armada o fizeram movidos somente pelas contradições do capitalismo. Seriam apenas elementos de uma estrutura social, peões do processo histórico e da luta de classes? Não estariam eles, também, movidos por sonhos individuais, idiossincrasias intransferíveis e toda sorte de razões de ordem pessoal, como a idéia de fazer um Brasil justo e igualitário?”

“Na busca por melhor entender tais questões, o aparato teórico e metodológico oferecido pela História do Imaginário permite ousar novas leituras. Apresenta-se adequado, inclusive, para outra compreensão de conflitos insurrecionais. Acredito que o estudo do imaginário dos atores da Guerrilha do Araguaia ofereça a argamassa que possibilite a ligação entre diferentes fatos do episódio”. [12]

Em a A Lei da Selva, procuro tecer um longo diálogo com um dos teóricos da Cultura, Roger Chartier[13], apresentando sua interpretação sobre o que seria o objeto histórico fundamental. Chartier explica que, ao historiador das economias e das sociedades, que supostamente reconstitui o que existiu, opor-se-ia o das mentalidades ou das idéias, cujo objeto não é real, mas as maneiras como os homens o pensam e o transpõem. Ainda segundo Chartier, as lutas culturais têm tanta importância quanto as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo se impõe[14].

Entretanto, Chartier é citado dentro do conceito de Representações, e principalmente numa preparação para explicar ao leitor o conceito do Imaginário. Também utilizo Chartier para apresentar os sujeitos individuais, os seres humanos com nome e sobrenome, os principais atores da Guerrilha do Araguaia, que entram na obra como protagonistas da História, e não somente sujeitos anônimos de uma superestrutura econômica ou social. Mas não há um diálogo com Chartier especificamente sobre o conceito de Cultura, ainda que o tema seja apresentado de forma indireta.

O conceito de Cultura elaborado por Clifford Geertz, por sua vez, é o hoje que me parece o mais ajustado à obra em questão. Para ele, “a análise cultural é intrinsecamente incompleta e, o que é pior, quanto mais profunda, menos completa”[15]. Geertz acredita que a Cultura é formada por construções simbólicas, os significados contidos num conjunto de símbolos. Seu conceito é essencialmente semiótico. Fundamenta-se no compartilhamento das idéias, a “teia de significados”, amarradas coletivamente.  Com a palavra, Geertz:

“Acreditando, como Marx Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado. É justamente uma explicação que eu procuro, ao construir expressões sociais, enigmáticas na sua superfície”[16]

Ora, como já dito, não conhecia Geertz à época da pesquisa, mas apenas estou avaliando, neste momento de autocrítica, que o conteúdo da obra publicada identifica-se mais com o conceito explicitado por ele. A Lei da Selva foi construída dentro do conceito da “teia de significados”. Assim como no princípio de que a cultura consiste em estruturas de significados socialmente estabelecidas. Ao reler a obra, avalio que eu tenha conseguido historicizar os conceitos, adaptando-os àquele tempo ao tempo histórico objeto da pesquisa – os Anos 60 e 70 no Brasil.

 

TEÓRICOS

Optei pelos conceitos do imaginário encontrados, principalmente, na obra de Cornelius Castoriadis, com o apoio de Bronislaw Baczko, autores que refletem sobre a dimensão imaginária das instituições. Também foram travados importantes os diálogos com Roger Chartier, Gaston Bachelard, Hommi Bhabha, Norberto Elias e Michael Maffesoli, todos da escola da História Cultural. Foi igualmente essencial, na interpretação de alguns episódios, manter abertos canais de diálogo com teóricos de outras correntes, Hannah Arendt, Norberto Bobbio, Michel Foucault e Eric Hobsbawm[17], que tecem reflexões sobre a violência, o poder e a dominação.

Inicio com Chartier, como já dito, e apresento a seguir a questão do sistema de representações e de valores da sociedade brasileira daqueles tempos de polarização extremada, maniqueísta, quando predominava tanto no nível teórico quanto na prática social o marxismo e o anti-marxismo. Para, finalmente, explicar o que seria, afinal, o imaginário? Tomo emprestada uma síntese lapidar de Barbier:

“O imaginário é o perfume do real. Por causa do odor da rosa eu digo que a rosa existe.”[18]

Chego finalmente a Castoriadis que, segundo Barbier, nos apresenta “as melhores vias de acesso” à compreensão do imaginário. Com Castoriadis, dialogo em questões como a discussão do projeto de autonomia, eixo central do que ele denominará “projeto revolucionário”. Apresento o conceito de que, para ele, o mundo histórico é o mundo do fazer humano, no qual o político está inserido, por ele designado como práxis. Explico, referindo-me a Castoriadis:

“A imaginação social, segundo o autor, é o motor da criação humana inserida no social e no histórico, é criação e fazer ser no tempo. O imaginário não emerge do irracional, nem do pensamento, mas sim da realidade social.””[19]

Na seqüência, apresento Bronislaw Baczko[20] e suas idéias sobre os sistemas simbólicos e as disputas que os diferentes atores sociais travam pelas representações do imaginário. Lembro que o autor parte da análise política das relações de poder, e que, para ele, a imaginação individual só pode existir na ação do grupo, dentro do imaginário coletivo.

Chamo outro autor ao diálogo, Gaston Bachelard[21], que teoriza sobre a importância do imaginário social na psique individual, no sonho, para argumentar que buscaríamos no cotidiano da vida o direito de sonhar e de imaginar.  Portanto, que pouco importa se os mitos sobre os guerrilheiros do Araguaia que povoaram o imaginário dos militares, apresentados ao longo da pesquisa, sejam reais ou meras lendas. Mas o que importa, argumento na pesquisa, é aquilo que Barbier chama de “perfume da rosa”, os significados inscritos nas experiências e ações dos militares e dos guerrilheiros, que forjaram a criação das lendas.

Ainda dentre os autores da História Cultural e do imaginário, dialogo na pesquisa com o conceito de local da cultura de Hommi Bhabha. Hoje, relendo o trabalho com olhos crítico, avalio que o diálogo com Bhabha foi superficial. Deveria ter utilizado mais o autor. Afinal, com a idéia do “entrelugar”, Bhabha abre excelente via de acesso para analisar a resultante do que teria sido o encontro de três culturas e três visões de mundo completamente distintas, num mesmo tempo e espaço — a dos camponeses, a dos guerrilheiros, e por fim a dos militares.

De Norberto Elias[22], busquei a idéia de que só se constrói o “nós” quando se tem o “outro” como referência. Para o autor, um grupo precisa de outro, como contraposição, para que lhe seja possível a coesão interna, assim como para a localização da cultura e da identidade do sujeito coletivo – aquilo que ele define por “imagens de nós”. Em outras palavras – e transportando o conceito para o objeto da pesquisa – significa que o imaginário dos militares no Araguaia estava intrinsecamente ligado ao imaginário dos guerrilheiros.

Ao longo de toda pesquisa, busquei reflexões para tentar entender por quais razões, afinal, os militares abandonaram o velho ideário que tanto cultuam, as chamadas “Leis da Guerra” e as Convenções de Genebra, para instaurar o que denominei de a “Lei da Selva”. Em outras palavras, como, onde e por que os valores tradicionais dos militares foram totalmente perdidos? Para tentar responder a essas indagações, citei Walter Benjamin e a idéia de que a história não é linear nem o tempo é contínuo. (Abro aqui um parêntese para explicar que, hoje, Benjamin é um dos meus prediletos. Se pudesse voltar atrás, teria mantido um diálogo profundo com Benjamin, nessa e em outras questões, como o da narrativa).

Partindo de Benjamin, passo de novo por Bhabha e a questão do deslocamento de identidades, defendendo a idéia de que elas seriam mutáveis ao longo do tempo. Até chegar a Michael Maffesoli[23] que, por sua vez, apresenta o conceito da suspensão de valores – idéia esta bastante polêmica entre os próprios autores do imaginário. Lembro que para alguns autores, valores jamais seriam suspensos; poderia haver, no máximo, o deslocamento de identidades.

Apesar de transitar por essas idéias para tentar entender a questão dos valores militares, optei claramente por buscar respostas a essas reflexões no conceito da heteronomia, inicialmente apresentado por Hannah Arendt e, mais tarde, aprofundada por Castoriadis. Segundo o Aurélio, a heteronomia deve ser entendida como “a condição de pessoa ou de grupo que receba de um elemento que lhe é exterior, ou de um princípio estranho à razão, a lei a que se deve submeter.”[24]. Arendt teceu a idéia quando ousou descrever o “vazio do pensamento” do carrasco nazista Adolf Eichmann[25], “alguém que não passava de um pacato servidor público disposto a não pensar, a não elaborar, disposto somente a cumprir ordens, a qualquer preço, custe o que custar. Enfim, um produto típico do Estado totalitário”[26].

Castoriadis introduziu a questão da heteronomia especificamente dentro dos estudos do imaginário. Para o filósofo, o fenômeno ocorre quando “o sujeito é dominado por um imaginário vivido como mais real que o real, ainda que não sabido como tal”. Ainda segundo Castoriadis, “o essencial da heteronomia – ou da alienação, no sentido amplo do termo – é o domínio por um imaginário autonomizado que se arrojou a função de definir para o sujeito tanto a realidade quanto seu desejo.”[27]. Enfim, pode-se afirmar que o conceito da heteronomia foi uma hipótese relevante na obra — ainda que eu não tenha tido o objetivo de apresentar, explicitamente, quaisquer hipóteses, teses, antíteses ou sínteses.

 

METODOLOGIA

Ao versar sobre o conceito de História, Walter Benjamin[28] explicou ser impossível conhecer todo o passado, em sua plenitude, da maneira exata como os fatos se deramem seu tempo. Para ele, articular o passado historicamente não significa conhecê-lo como ele de fato foi, mas “significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo”. Edgar Morin, por sua vez, questiona o conhecimento racional e fechado na construção do conhecimento científico. Ele, em verdade, desconstrói epistemologicamente o pensamento racional para apresentar, ao mesmo tempo, uma nova ciência dentro dos chamados “parâmetros da incerteza”. Para Morin, o conhecimento é multifacetado, fragmentado, multidimensional.

Relato que ao longo de toda a pesquisa analisada evitei deliberadamente tecer relações diretas de causa e efeito sobre determinado episódio. Também usei várias teorias, várias metodologias e (quase) nenhuma verdade. Ao longo de todo um capítulo, de 19 páginas, procuro dar uma explicação pormenorizada sobre a construção da pesquisa. Acredito que tenha deixado bastante claro como fiz, o que fiz, quais as fontes, o passo a passo metodológico, incluindo até mesmo os critérios de sigilo ou abertura de fonte – questão esta, vale ressaltar, que já se vislumbrava potencialmente polêmica, visto que trabalhei com entrevistas orais com militares que cometeram atos de exceção, confessados em seus depoimentos (sigilosos) para a pesquisa.

Houve enfim, fazendo agora a autocrítica – agora complacente — a devida vigilância epistemológica. Contudo, a obra não apresenta, explicitamente, qualquer uma das diferentes metodologias de pesquisa dentro da História Cultural e muito menos seus respectivos teóricos. Mas acabei utilizando, intuitivamente, métodos apresentados por autores como Castoriadis, Morin e, principalmente, Geertz e Grinzburg.

Em O Mundo Fragmentado, Castoriadis busca resgatar o papel da subjetividade na Ciência. Ele parte do princípio de que o sujeito humano é fragmentado, tem várias dimensões, mas ele está num constante fazer-se. O argumento é que o sujeito humano é reflexivo, como o sujeito de Freud. Mas vai além do individual. Para Castoriadis, o sujeito é também coletivo, como o de Jung. O sujeito fragmentado de Castoriadis está inserido naquilo que ele define por “imaginário social”. O sujeito humano, por sua vez, é uma criação histórica. Portanto, para Castoriadis, há uma relação constante entre o sujeito humano e o objeto histórico, um diálogo no qual um constrói o outro. Enfim, o autor valoriza a vontade do sujeito de fazer história. Ao longo de toda obra, utilizo esses conceitos de Castoriadis. Cito-os expressamente, como conceitos. E utilizo-os, intuitivamente, como metodologia para construir a narrativa.

Ao tecer a trama, por exemplo, valorizei os muitos sujeitos humanos, tanto militares quanto guerrilheiros, e suas respectivas vontades de fazer história. Ora citei-os como sujeitos individuais; ora como sujeitos coletivos. E apresentei tanto os sujeitos individuais quanto os coletivos como entes fragmentados, esquartejados em suas muitas dimensões. Saindo do mundo das teorias para a prática das pesquisas, Morin sugere a metodologia de trabalhar a partir do fragmentado e buscar as relações mais amplas. Acredito que tenha feito exatamente assim na maior parte dos episódios narrados.

Sobre o formato da narrativa, busquei intercalar a narrativa factual de um episódio relevante descoberto pela pesquisa; seguida da apresentação de uma teoria ou idéia de algum autor da História Cultural; para por fim tentar interpretar essa idéia a partir de exemplos de outros personagens e fatos encontrados pela pesquisa. Inicio narrando o desfecho, descrevendo em detalhes as muitas mortes ocorridas na terceira e derradeira campanha da Guerrilha do Araguaia, para só então apresentar o início dos combates, agora em ordem temporal e dentro da historia factual, procurando apresentar “provas” com o auxílio de documentos. A trama, enfim, não foi linear. Foi sim errática, de muitas idas e vindas, sem respeitar a linha do tempo de forma ortodoxa. Mas avalio ter conseguido dar um sentido à História. A trama foi tecida, enfim, dentro dos parâmetros da incerteza de Morin, utilizando os sujeitos fragmentados de Castoriadis.

De Geertz, me apropriei – também intuitivamente — da chamada “descrição densa”. Segundo ele, no estudo da cultura a análise penetra no próprio corpo do objeto, e assim começamos com nossas próprias interpretações do que pretendem nossos informantes. Só depois passamos a sistematizar essas informações. E como sistemas entrelaçados de signos interpretativos, a cultura deve ser vista dentro de um contexto, algo dentro do qual as informações podem ser descritas com densidade.

Metodologicamente, para construir A Lei da Selva, parti de um documento elaborado por um grupo de militares, ex-combatentes, batizado de “Dossiê Araguaia”, que relata quais os principais acontecimentos da Guerrilha do Araguaia. Esse “Dossiê” foi a base da pesquisa. Meu primeiro trabalho foi descrever e analisar esse documento com densidade, buscando uma “descrição densa”, como define Geertz. Então incorporei outras fontes. Documentos militares obtidos junto a fontes que têm acesso aos arquivos secretos das Forças Armadas. Documentos dos guerrilheiros, também obtidos junto a militares. Documentos públicos, como jornais, pronunciamentos e livros.

Geertz explica que os documentos históricos, as fontes escritas, fixam uma interpretação. Os textos antropológicos, escreve o autor, são eles mesmos interpretações – e no caso, de segunda e terceira mão. Só o nativo faz uma interpretação de primeira mão, pois o texto (ou documento) foi construído de acordo com a sua própria cultura.

Boa parte dos documentos utilizados na pesquisa não passava de fragmentos históricos. Faltavam páginas, ou era meras páginas velhas e soltas, ou não tinham assinatura. Se analisada dentro dos velhos paradigmas do positivismo científico, poderiam muitos desses documentos serem desclassificados como fontes confiáveis. Para mim, contudo, pareciam relevantes e confiáveis, mas eram quase indecifráveis — como fragmentos de ossos ou cerâmica encontrados numa caverna e precisando de um arqueólogo para interpretar seus sentidos.

O que fazer com eles? Parafraseando Geertz, diante daqueles textos, um historiador só conseguiria fazer uma interpretação de segunda ou terceira mão. Era preciso buscar os “nativos” capazes de interpretá-los segundo sua própria cultura. No caso, os “nativos” eram os militares que combateram no Araguaia. Então e por fim, busquei as fontes orais militares com o objetivo de prestar novas informações e, principalmente, de ajudar a interpretar os documentos obtidos.

De Carlo Grinzburg[29], por sua vez, também me apropriei intuitivamente da metodologia do paradigma indiciário. Grinzburg advoga o uso de documentos na historiografia; para ele, toda pesquisa histórica deveria começar a partir de pelo menos um documento. Assim também comecei a pesquisa de “A Lei da Selva”. Mas Grinzburg está muito longe de ser um positivista, que acredita no documento como uma “verdade”, ou um dogmático em sua própria metodologia. Também não relativiza o uso de documentos como muitos autores pós-modernos. Ele levanta a questão das provas, critica a retórica e ao fim e ao cabo propõe um meio-caminho, no qual o documento é importante, mas não é dogma; deve ser interpretado com ressalvas, mas também não pode ser desprezado, sob risco do historiador de deixar seduzir pela mera retórica.

Um dos pais da micro-história, Grinzburg também advoga a utilização de narrativas ao longo da pesquisa, entremeadas com a análise documental. Diz que para fazer uma boa pesquisa, o historiador precisa partir de um método – no caso, o indiciário – e ao mesmo tempo construir uma narrativa com perspectivas teóricas. Enfim, sua metodologia prega uma trama com documentos, narrativas e análise teórica. Foi exatamente o que busquei em “A Lei da Selva”. Sem ter consciência, comendo sem conhecer as leis da digestão, como escreveu Morin, respirando sem conhecer as leis da respiração, acabei utilizando também a metodologia de Grinzburg.

Ao longo de toda a pesquisa, houve uma farta utilização de documentos, com transcrições e interpretações em cada um dos capítulos. Avalio hoje, depois de reler Benjamin com novos olhares, e de ser apresentado a Paul Riccoeur[30] (e também a George Duby[31]), que poderia ter ousado trabalhar mais dentro da perspectiva narrativa e ter explorado a questão da ficção na construção da História. Teci longos trechos narrativos, inclusive fazendo uso da primeira pessoa. Mas foram narrativas cuidadosas, tímidas. Afinal, foi minha primeira incursão na História e, o mais dramático, dentro desse fascinante, complexo – e por que não dizer – pantanoso mundo do imaginário. Eu estava mais preocupado com a apresentação e análise de fontes documentais. Acabei construindo uma metodologia que terminou num entrelugar, diria Bhabha, um misto da descrição densa de Geertz, com o método indiciário de Grinzburg.

Há pesquisas no qual o historiador apresenta um longo e quase infindável quadro teórico e interpretativo para, só ao final, apresentar sua pesquisa, como se apêndice fosse. No caso de A Lei da Selva, a pesquisa é o centro do trabalho. Encontra-se espraiada ao longo do texto, em cada um dos nove capítulos, um por um – exceto na Conclusão. Nessa autocrítica, um dos pontos a ser analisados é o tratamento que dispensei às imagens. São relegadas a meras ilustrações no início de cada capítulo. Se tivesse lido melhor Benjamin, teria dado melhor tratamento às imagens. Decerto as teria utilizado, inclusive, como fontes.

 

CONCLUSÃO

A pesquisa toma por base a hipótese de que os militares – ou parte deles – teriam abandonado seus valores durante os conflitos armados do Araguaia. Ainda que em momento algum tenha utilizado a expressão “hipótese”, ela perpassa todo o corpo da obra, começando pelo título, A Lei da Selva, cuidadosamente escolhido para expressar o contraditório às chamadas Leis da Guerra. Já na introdução, apresento a questão:

“Na rebelião do Araguaia o Exército começou a lutar com tropas regulares, armamento convencional e seguindo as Leis da Guerra. Em determinado momento, os serviços secretos militares conseguiram afastar as tropas regulares, tomaram conta do teatro de operações e promoveram uma reviravolta estratégica. (…) Entraram na floresta com trajes civis, nomes falsos e armas leves. Combateram com estratégias revolucionárias, táticas de partisans e imaginário de guerrilheiros. Suplantaram as Leis da Guerra, implantaram as Leis da Selva. Terminaram com o coração nas trevas, cometendo violações aos princípios – hoje hegemônicos e quase universais – dos Direitos Humanos e das Convenções de Genebra.”[32]

Ao longo dos capítulos subseqüentes, vou problematizando essa hipótese, construindo uma narrativa, em diálogo permanente com os autores do imaginário, que tenta explicar como, quando, onde e por que, afinal, os militares teriam abandonado as Leis da Guerra para instaurar a Lei da Selva. Para finalmente, na Conclusão, retornar à hipótese apresentada na Introdução:

“Os documentos e depoimentos dos militares revelaram uma violência extremada e recíproca. (…) Os militares, por seu turno, admitem ter reagido com atos de exceção ainda maior no combate aos guerrilheiros. Prenderam moradores da região de forma arbitrária, torturaram, atiraram em guerrilheiros feridos no chão, executaram prisioneiros, violaram Direitos Humanos, profanaram corpos, abandonaram seus próprios valores e relegaram as Leis da Guerra. Agiram, enfim, segundo a Lei da Selva, de acordo com os princípios da barbárie que deveriam combater.”[33]

“Quando olharam para trás, haviam sido personagens do fenômeno típico dos servidores do totalitarismo conceituado por Arendt e Castoriadis, a heteronomia. Perderam-se em caminhos estranhos a seus próprios valores.”[34]

Enfim, se iniciei essa monografia autocrítica de forma quase implacável, lamentando sobremaneira os autores da História Cultural que não utilizei – ainda que tenha dialogado com excelentes autores, como Chartier, Castoriadis e Arendt — termino com complacência, exaltando o fato de acreditar ter cumprido a promessa apresentada na Introdução. Ou seja, “o propósito de trazer à luz elementos com os quais se possa vislumbrar o imaginário dos militares sobre a participação de nossas Forças Armadas no combate à insurreição do Araguaia”, e de “relatar o significado do conflito sob a óptica de um dos lados envolvidos, os militares brasileiros que participaram da luta” [35].

Também acredito ter chegado à conclusões coerentes com o trabalho. Enfim, A Lei da Selva, mesmo diante da tríplice tragédia de Morin, que é a tragédia de todo saber moderno, é uma pesquisa histórica coerente com as teorias da História Cultural. Para a próxima pesquisa, que esta autocrítica vai me ajudar a planejar, apresento uma advertência instigante de Grinzburg:

“Sempre tento explicar aos meus alunos que o que existe de realmente excitante na pesquisa é o momento da ignorância absoluta. Penso que não se deve ter medo de ser ignorante, e sim procurar multiplicar esses momentos de ignorância absoluta para a descoberta de algo novo. Considero que o verdadeiro perigo está em nos tornarmos competentes”[36].

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STUDART, Hugo. A Lei da Selva – Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares sobre a Guerrilha do Araguaia. São Paulo: Geração, 2006.

 

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